Muitas são as coisas estranhas.
Nada, porém, há de mais estranho que o homem.
Sófocles
É do conhecimento social, e do senso comum, que muitas pessoas sofrem experiências psicológicas de tal modo extraordinárias, ou mesmo estados alterados de consciência, que com receio de não serem levadas a sério pelos médicos e psiquiatras do Sistema Nacional de Saúde, recorrem aos mais diversos meios heterodoxos para serenar as suas angústias existenciais e espirituais.
Ultimamente começa-se a verificar a lenta mas gradual abertura por parte de alguns psiquiatras e médicos canónicos para levarem estes casos mais a sério, e dispostos a interpretá-los com outros olhos hermenêuticos, deixando de os classificar como casos de psicopatolgia.
Mas convém enfatizar que é possível estudar os estados alterados de consciência destas pessoas sem ter de compartilhar com elas as suas crenças. Mas o que também deve ser levado a sério é que o paradigma até agora institucionalizado pela ciência canónica tem-se revelado manifestamente insuficiente para estudar tais fenómenos. Ora isso tem resultado significativamente numa má terapêutica no sentido do equilíbrio mental dessas pessoas. Na verdade os profissionais de saúde mental não recebem treino adequado para saberem lidar com esses fenómenos tidos como paranormais.
Há pois que evitar preconceitos dogmáticos e usar de uma certa abertura para rever posições e hipóteses. Sabemos que é difícil equilibrar um estado ponderado entre o cepticismo pirrónico e a credulidade ingénua, mas é um caminho que é preciso ser trilhado.
Como em princípio temos o nosso conhecimento científico alicerçado em teorias, normalmente tende-se a encaixar o fenómeno numa teoria pré-existente e assim só se vêm as evidências que confirmam a teoria e ignoram-se ou distorcem-se as evidências em contrário. Acresce a isto o facto de habitualmente estes fenómenos estarem enxameados por fraudes.
Mas como nem tudo é fraude, aconselha o pensamento prudente uma postura de humildade intelectual. A intolerância intelectual é muitas vezes fomentada pela própria auto-intolerância ao desconhecido ou à própria ignorância. Sabemos que é doloroso intelectualmente reconhecermos perante os outros que a dada altura, numa matéria em que devíamos ser sábios, afinal somos completamente ignorantes. Isto é o preço que temos de pagar à arrogãncia científica reducionista mecanicista.
Já há algum tempo que o DSM-IV, tabela classificativa de referência pelos Psiquiatras nos Estados Unidos da América e outros países, reconhece como não patológicas a maioria das experiências dissociativas e mesmo alucinatórias que ocorrem dentro de contextos aceites culturalmente.
A ideia preconceituosa de que o nosso estado ordinário de consciência é o único modo de lidar correctamente com a realidade tem constituído o maior obstáculo à compreensão da natureza da mente, dos estados de consciência, e dos processos de percepção.
Cada estado de consciência pode trazer informações adicionais, ajudando-nos a ter uma compreensão mais global de nós mesmos e do mundo em que vivemos. A comunidade cientifica não pode manter-se alheia aos fenómenos de paranormalidade psíquica e continuar a deixar um número significativo de seres humanos nas mãos de seitas e curandeiros rudimentares.
As alucinações são consideradas um dos sintomas clássicos mais trabalhados no seio da psicopatologia. Estudos epidemiológicos têm mostrado que mais de 10% da população geral já relatou a ocorrência de pelo menos um fenómeno paranormal ao longo da sua vida. Por outro lado, são frequentes na população geral experiências dissociativas tidas como paranormais, e todavia não têm estado associados à presença de quaisquer transtornos psicológicos com carácter patológico.
Portanto, o critério para considerar patológica uma experiência dissociativa particular é grandemente influenciado pelo paradigma científico que influencia a prática clínica num determinado contexto cultural.
O cientista tem de desenvolver e exercitar permanentemente a sua vocação crítica. Considero vocação crítica como capacidade particular de formular e gerar crises no sujeito ao exercer a sua actividade científica. Por outro lado, há planos da realidade que não se podem misturar. Não se pode misturar o plano da literalidade concreta com o plano do símbólico. É óbvio que nada do que é simbólico poderá ser encontrado, ou provada a sua existência ao nível do plano concreto e literal.
Os fenómenos mentais representam uma realidade própria, isto é, não podem ser reduzidos aos elementos materiais que constituem o cérebro. Isto não significa que tenha de haver uma relação entre a mente e o cérebro e uma relação causal do cérebro para a mente – tal como tem sido descrita até aqui pelos neurocientistas, ou que haja qualquer efeito causal da mente para o cérebro – tal com tem sido descrito pelos mentalistas. O problema está na nossa base conceptual para perceber tudo isto.
Parece não fazer sentido reduzir a realidade do mundo a uma concepção extrema do “puramente físico” como única realidade, nem faz sentido a asserção fisicalista clássica sobre uma determinação puramente física do sistema nervoso central. Também não faz sentido uma asserção mentalista da realidade do espírito.
Portanto a interacção espírito-cérebro ou mente-cérebro, bem como os conceitos filosóficos da teoria da identidade, tornam-se conceitos indefensáveis porque não é possível reduzir aos conceitos da epistemologia cartesiana, ou conceitos do senso comum a riqueza qualitativa das propriedades mentais.
Há que contar com os testemunhos vivenciais que encontram mais do que um nível de realidade, bem como os conceitos da fenomenologia pós-Kantiana, da viragem da linguagem e da viragem pragmaticista.
O argumento ontológico
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Acabei de publicar o artigo "O argumento ontológico e o problema da
possibilidade da existência de Deus", de Pedro Merlussi, que expõe e avalia
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Há 14 horas

1 comentários:
Belo texto que dá que pensar, sem cair na tentação do relativismo, aliás evitado pela etnopsiquiatria!
Abraço.
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