Durante muitos anos grande parte da família social-democrata europeia adotou uma abordagem muito moral e pouco pragmática em relação à imigração. Evitou discutir integração, choque cultural, segurança. Por receio de parecer “reacionária”, solidariedade confundiu-se com ausência de exigência. Isso criou um vazio político. Quando partidos tradicionais evitam certos temas, alguém vai ocupá-los. E foi isso que aconteceu com a ascensão da direita radical. Com um populismo sem pudor, a extrema-direita, com a clássica estratégia das simplificações, ocupou perigosamente um grande espaço da direita tradicional social-democrata e democrata cristã.
Com o 11 de setembro em Nova Iorque e, mais tarde, com os atentados em Madrid, Londres, Paris, Bruxelas, Berlim -- houve uma tendência para despolitizar ou descontextualizar excessivamente os ataques. Houve medo em ligar o terrorismo jihadista às falhas de política pública. A falha na integração por parte do multiculturalismo excessivamente ideológico levou à proliferação de guetos identitários. E o discurso do establishment foi-se distanciando cada vez mais da real existência das pessoas no seu meio autárquico. E assim o eleitorado se foi cansando com o sistema dos partidos estabelecidos há décadas no poder, que cada vez mais negando a realidade que as pessoas sentiam diretamente no seu dia-a-dia. O argumento de que tal descontentamento resultava de más percepções foi politicamente devastador. O crescimento da direita radical não se explica apenas pela imigração, ou pelo Islão. Têm muito peso - a globalização e a precarização económica, perda de confiança nas elites políticas, crise de identidade cultural, redes sociais a amplificar medo e raiva - no falhanço geral dos partidos do centro (direita e esquerda). A imigração tornou-se mais o elemento simbólico de tudo isso, mesmo que em ciência não seja a causa principal.
A social-democracia deixou-se ultrapassar pelo crescimento da direita radical ao não enfrentar de forma honesta, firme e pragmática os desafios da imigração e da segurança. Na prática, o que conta para as pessoas é a sua percepção da realidade. O pragmatismo vence o idealismo, quando se trata do sentimento da segurança das pessoas. Há uma ironia cruel: ao querer evitar, por desconforto, a entrada da realidade pela porta da frente -- para proteger valores humanistas (os Direitos Humanos, o Direito Internacional, a ONU) -- ela acaba por entrar pela porta das traseiras, ou seja, por forças que se aproveitam dos espaços vazios, sejam os populistas de direita, sejam os de esquerda.
Em Portugal, na atualidade, as forças de esquerda criticam o governo da AD (PSD+CDS) numa síntese do slogan “comprou as bandeiras do Chega”. Ora, isso pode ser eficaz como slogan, mas como análise é muito fraca. Mistura deliberadamente três coisas diferentes que convém separar: reconhecer que houve excessos de facilitismo e benevolência no passado; O excesso de ideologia paralisou a ação política pública que se impunha para a correção de desvios e descontrolo das fronteiras que se resumiu na crítica por parte da direita com o slogan "das portas abertas". Grande parte da esquerda mediática portuguesa operou nessa lógica binária: ou queremos salvaguardar os valores humanistas (concedendo as “portas abertas”)?; ou aceitamos um controlo xenófobo disfarçado? Esta pobreza de raciocínio tornou-se politicamente suicidária.
Quando se diz que qualquer tentativa de regulação da imigração é “ceder ao Chega”, está-se implicitamente a afirmar que: o Estado não pode definir critérios, a capacidade de integração não importa, os impactos no SNS, habitação, escolas ou salários são irrelevantes. Ora, isso não tem nada a ver com os valores da esquerda, mas com negação da realidade, não querendo ver as condições de indignidade em que uma grande parte de imigrantes se viram colocados, na insalubridade das suas residências, e na sua exploração laboral, numa espécie de escravatura praticada por empregadores encapotados pela clandestinidade. Os ativistas só verão nisto "racismo". Mas apenas porque a sua crença os cega para o mal que a sua perspectiva causa a essas pessoas que vivem no mundo real. É claro que más condições de vida condicionam os instintos de sobrevivência. As condições precárias de vida proporcionam mais propensão para comportamentos desviantes que desafiam as leis que regulam a convivialidade. Não há razão para considerarmos que essas pessoas são intrinsecamente más ou patológicas. Mas tal cegueira acaba por indiretamente prejudicar os próprios imigrantes.
A esquerda que acusa o governo de “comprar bandeiras” está, sem querer a entregar o tema da imigração à extrema-direita, ao dizer ao eleitorado moderado: “se te preocupas com a imigração és xenófobo, fazes parte do "racismo sistémico do homem branco". E foi assim que uma grande fatia do eleitorado que durante décadas ou votava no partido comunista, ou no partido socialista, passou a votar no Chega. Muito simplesmente: mudou o voto. Aliás, Portugal não é exceção, em muitos países europeus esse fenómeno já tinha começado alguns anos antes. Isto já aconteceu: na Dinamarca (onde a social-democracia recuperou votos ao ser firme); na Alemanha (onde a ambiguidade alimentou a AfD); em França (onde o tabu prolongado normalizou Le Pen). Portugal está apenas uns anos mais atrasado no ciclo. Em suma: dizer que regular imigração = “comprar bandeiras do Chega” é uma leitura preguiçosa, um erro estratégico, e uma forma indireta de radicalizar o debate. Controlar não é demonizar. Exigir não é excluir. E governar não é comentar nas televisões ou nas redes sociais.
Segundo dados oficiais de Statistics Sweden e reportagens de 2025 = cerca de 40 % da população sueca tem “origem estrangeira”. Isto inclui pessoas nascidas no estrangeiro ou nascidas na Suécia com um ou dois pais estrangeiros. Desses: 27,5 % são estrangeiros nascidos fora da Suécia ou nascidos na Suécia com dois pais estrangeiros; 7,9 % têm um pai nascido no estrangeiro. Só estrangeiros nascidos no estrangeiro, segundo os dados oficiais de Statistics Sweden de 2024 -- aproximadamente 20,8 % -- da população de 10,6 milhões de habitantes -- era nascida fora da Suécia. O que isto significa? Se a população da Suécia está a tornar-se cada vez mais diversificada: ~20 % nasceu fora do país; ~40 % tem antecedentes familiares imigrantes (pelo menos um progenitor nascido no estrangeiro). Estes números refletem a situação atual (final de 2024 / início de 2025) com base nas estatísticas oficiais mais recentes disponíveis.
Nos últimos anos, o debate político sueco passou a girar fortemente em torno de imigração, integração e criminalidade, especialmente violência associada a redes criminosas. Esse enquadramento beneficiou partidos como os Democratas Suecos, que cresceram ao defender posições mais duras nessas áreas. A Suécia recebeu fluxos migratórios elevados em certos períodos (notavelmente em 2015). Mudanças rápidas na composição populacional tendem a gerar ansiedade social em parte do eleitorado. Algo observado em vários países europeus, não apenas na Suécia. Muitos analistas apontam a imigração como um dos fatores centrais, mas não é a única explicação nem há consenso de que seja “a razão” isolada. O aumento de episódios de violência armada e explosões ganhou enorme visibilidade mediática. Mesmo quando as causas são complexas (segregação, desigualdades, dinâmica de gangues), o tema reforçou narrativas políticas ligadas à imigração. Custos de habitação, pressão sobre serviços públicos, desigualdades regionais e sensação de perda de coesão social também influenciam o voto, muitas vezes tanto quanto a imigração em si. Mudanças no discurso dos partidos tradicionais, polarização, redes sociais e estratégias eleitorais amplificaram o tema. A normalização de certas condutas estravagantes contribuiu para legitimar partidos antes marginais. A Suécia não é um caso isolado. Vê-se crescimento de partidos nacionalistas/populistas em vários países, mesmo com níveis de imigração diferentes. Isso sugere que há forças estruturais maiores em jogo (desconfiança institucional, identidade, economia, globalização).
O partido Sweden Democrats (SD) começou como força marginal na década de 1990 e só entrou no parlamento com mais de 4 % dos votos em 2010. Desde então, teve crescimento constante em cada eleição nacional até 2022, onde alcançou cerca de 20,5 % dos votos, tornando-se o segundo maior partido no parlamento. Esse crescimento foi acompanhado por outras mudanças, como a aceitação de cooperação política com partidos tradicionais no espectro de direita, o que antes era tabu devido às origens extremistas do SD. Em termos simples: cresceu de cerca de 6 % (2010) para mais de 20 % (2022) ao longo de cerca de uma década.
Porquê esse crescimento? Os investigadores que estudam a política sueca destacam alguns padrões. Muitos eleitores do SD citam a imigração e a necessidade de políticas mais rígidas como motivo principal de voto. Em alguns estudos, mais de 90 % dos apoiantes do SD querem reduzir a imigração. Mudanças geográficas no voto -- nas áreas mais rurais e em regiões do sul da Suécia (como Skåne) -- o SD tem níveis de apoio muito mais fortes do que em grandes cidades. Mudanças geracionais e de prioridades é o que mostram algumas pesquisas (como eleições simuladas em escolas), que uma proporção elevada de jovens também votaria no SD, especialmente entre rapazes, refletindo prioridades como lei e ordem na imigração. Embora o SD tenha crescido na Suécia, a situação é diferente nos contextos eleitorais mais amplos dos países nórdicos. Nos países nórdicos, incluindo na Suécia, partidos de esquerda e verdes obtiveram forte apoio nas eleições ao Parlamento Europeu em 2024. E o SD teve percentagens mais baixas nesses votos comparado às eleições nacionais. Em alguns casos, o SD ficou abaixo de outros partidos menores, o que mostra que a ascensão pode ser mais forte em eleições nacionais do que nas europeias. Isto sugere que o apoio ao SD não é uniforme em todos os tipos de eleições, e também que outras forças políticas ainda conseguem mobilizar votos em grande escala.
O que isso nos diz sobre a Suécia hoje? O crescimento dos Sweden Democrats tem sido real e consistente num espaço de uma década. Esse crescimento está ligado a mudanças na percepção pública sobre imigração, segurança, integração e confiança nas instituições. No entanto, o quadro não é idêntico em outros países nórdicos, onde a direita radical tem níveis variáveis de apoio. Também existem sinais de que o apoio ao SD pode flutuar de eleição para eleição, dependendo do momento político e da evolução das profundas transformações do ordenamento da geopolítica internacional.
Quando se diz que qualquer tentativa de regulação da imigração é “ceder ao Chega”, está-se implicitamente a afirmar que: o Estado não pode definir critérios, a capacidade de integração não importa, os impactos no SNS, habitação, escolas ou salários são irrelevantes. Ora, isso não tem nada a ver com os valores da esquerda, mas com negação da realidade, não querendo ver as condições de indignidade em que uma grande parte de imigrantes se viram colocados, na insalubridade das suas residências, e na sua exploração laboral, numa espécie de escravatura praticada por empregadores encapotados pela clandestinidade. Os ativistas só verão nisto "racismo". Mas apenas porque a sua crença os cega para o mal que a sua perspectiva causa a essas pessoas que vivem no mundo real. É claro que más condições de vida condicionam os instintos de sobrevivência. As condições precárias de vida proporcionam mais propensão para comportamentos desviantes que desafiam as leis que regulam a convivialidade. Não há razão para considerarmos que essas pessoas são intrinsecamente más ou patológicas. Mas tal cegueira acaba por indiretamente prejudicar os próprios imigrantes.
A esquerda que acusa o governo de “comprar bandeiras” está, sem querer a entregar o tema da imigração à extrema-direita, ao dizer ao eleitorado moderado: “se te preocupas com a imigração és xenófobo, fazes parte do "racismo sistémico do homem branco". E foi assim que uma grande fatia do eleitorado que durante décadas ou votava no partido comunista, ou no partido socialista, passou a votar no Chega. Muito simplesmente: mudou o voto. Aliás, Portugal não é exceção, em muitos países europeus esse fenómeno já tinha começado alguns anos antes. Isto já aconteceu: na Dinamarca (onde a social-democracia recuperou votos ao ser firme); na Alemanha (onde a ambiguidade alimentou a AfD); em França (onde o tabu prolongado normalizou Le Pen). Portugal está apenas uns anos mais atrasado no ciclo. Em suma: dizer que regular imigração = “comprar bandeiras do Chega” é uma leitura preguiçosa, um erro estratégico, e uma forma indireta de radicalizar o debate. Controlar não é demonizar. Exigir não é excluir. E governar não é comentar nas televisões ou nas redes sociais.
Segundo dados oficiais de Statistics Sweden e reportagens de 2025 = cerca de 40 % da população sueca tem “origem estrangeira”. Isto inclui pessoas nascidas no estrangeiro ou nascidas na Suécia com um ou dois pais estrangeiros. Desses: 27,5 % são estrangeiros nascidos fora da Suécia ou nascidos na Suécia com dois pais estrangeiros; 7,9 % têm um pai nascido no estrangeiro. Só estrangeiros nascidos no estrangeiro, segundo os dados oficiais de Statistics Sweden de 2024 -- aproximadamente 20,8 % -- da população de 10,6 milhões de habitantes -- era nascida fora da Suécia. O que isto significa? Se a população da Suécia está a tornar-se cada vez mais diversificada: ~20 % nasceu fora do país; ~40 % tem antecedentes familiares imigrantes (pelo menos um progenitor nascido no estrangeiro). Estes números refletem a situação atual (final de 2024 / início de 2025) com base nas estatísticas oficiais mais recentes disponíveis.
Nos últimos anos, o debate político sueco passou a girar fortemente em torno de imigração, integração e criminalidade, especialmente violência associada a redes criminosas. Esse enquadramento beneficiou partidos como os Democratas Suecos, que cresceram ao defender posições mais duras nessas áreas. A Suécia recebeu fluxos migratórios elevados em certos períodos (notavelmente em 2015). Mudanças rápidas na composição populacional tendem a gerar ansiedade social em parte do eleitorado. Algo observado em vários países europeus, não apenas na Suécia. Muitos analistas apontam a imigração como um dos fatores centrais, mas não é a única explicação nem há consenso de que seja “a razão” isolada. O aumento de episódios de violência armada e explosões ganhou enorme visibilidade mediática. Mesmo quando as causas são complexas (segregação, desigualdades, dinâmica de gangues), o tema reforçou narrativas políticas ligadas à imigração. Custos de habitação, pressão sobre serviços públicos, desigualdades regionais e sensação de perda de coesão social também influenciam o voto, muitas vezes tanto quanto a imigração em si. Mudanças no discurso dos partidos tradicionais, polarização, redes sociais e estratégias eleitorais amplificaram o tema. A normalização de certas condutas estravagantes contribuiu para legitimar partidos antes marginais. A Suécia não é um caso isolado. Vê-se crescimento de partidos nacionalistas/populistas em vários países, mesmo com níveis de imigração diferentes. Isso sugere que há forças estruturais maiores em jogo (desconfiança institucional, identidade, economia, globalização).
O partido Sweden Democrats (SD) começou como força marginal na década de 1990 e só entrou no parlamento com mais de 4 % dos votos em 2010. Desde então, teve crescimento constante em cada eleição nacional até 2022, onde alcançou cerca de 20,5 % dos votos, tornando-se o segundo maior partido no parlamento. Esse crescimento foi acompanhado por outras mudanças, como a aceitação de cooperação política com partidos tradicionais no espectro de direita, o que antes era tabu devido às origens extremistas do SD. Em termos simples: cresceu de cerca de 6 % (2010) para mais de 20 % (2022) ao longo de cerca de uma década.
Porquê esse crescimento? Os investigadores que estudam a política sueca destacam alguns padrões. Muitos eleitores do SD citam a imigração e a necessidade de políticas mais rígidas como motivo principal de voto. Em alguns estudos, mais de 90 % dos apoiantes do SD querem reduzir a imigração. Mudanças geográficas no voto -- nas áreas mais rurais e em regiões do sul da Suécia (como Skåne) -- o SD tem níveis de apoio muito mais fortes do que em grandes cidades. Mudanças geracionais e de prioridades é o que mostram algumas pesquisas (como eleições simuladas em escolas), que uma proporção elevada de jovens também votaria no SD, especialmente entre rapazes, refletindo prioridades como lei e ordem na imigração. Embora o SD tenha crescido na Suécia, a situação é diferente nos contextos eleitorais mais amplos dos países nórdicos. Nos países nórdicos, incluindo na Suécia, partidos de esquerda e verdes obtiveram forte apoio nas eleições ao Parlamento Europeu em 2024. E o SD teve percentagens mais baixas nesses votos comparado às eleições nacionais. Em alguns casos, o SD ficou abaixo de outros partidos menores, o que mostra que a ascensão pode ser mais forte em eleições nacionais do que nas europeias. Isto sugere que o apoio ao SD não é uniforme em todos os tipos de eleições, e também que outras forças políticas ainda conseguem mobilizar votos em grande escala.
O que isso nos diz sobre a Suécia hoje? O crescimento dos Sweden Democrats tem sido real e consistente num espaço de uma década. Esse crescimento está ligado a mudanças na percepção pública sobre imigração, segurança, integração e confiança nas instituições. No entanto, o quadro não é idêntico em outros países nórdicos, onde a direita radical tem níveis variáveis de apoio. Também existem sinais de que o apoio ao SD pode flutuar de eleição para eleição, dependendo do momento político e da evolução das profundas transformações do ordenamento da geopolítica internacional.