Em filosofia, segundo os cânones da Europa /América do século XX, os filósofos dividiam-se em duas correntes de pensamento apelidadas de tradições: a tradição continental, também designada por fenomenológica; e a tradição anglo-saxónica também designada por analítica. Eram, por conseguinte, apresentadas como rivais. Na verdade partilhavam a desconfiança em relação à confusão conceptual.
A filosofia analítica, que trabalha a linguagem, combate a ambiguidade linguística, erros lógicos, falsos problemas conceptuais. A filosofia husserliana combate a naturalização ingénua, pressupostos invisíveis que confundem o mundo com a experiência do mundo. Os problemas que nascem de conceitos vagos e que parecem sólidos. A analítica não resolve problemas, como disse Wittgenstein: dissolve parte da sua força emocional. Husserl tomou outro caminho com a pergunta: como essa inquietação é vivida? Não como tese abstrata, mas como tonalidade afetiva (somos afetados), que é o modo como o nosso mundo aparece. A fenomenologia revela algo subtil: O problema não está apenas no conteúdo do pensamento, mas na forma como o mundo se nos dá, ou nos afeta. À medida que vamos caminhando na idade, a estrutura do nosso pensamento vai sendo alterada de forma muito diversa. O mundo, sempre caótico, é o grande desafio ao nosso pensamento que abomina o caos. É nesse contexto que a nossa “textura vivida” se segura naquilo a que se costuma designar por Tradição. Exploremos então mais um pouco este conceito.
Hoje, em todo o Ocidente, a política está polarizada, em que predominam os dois extremos do espetro partidário, embora no momento que atravessamos, quem leva a dianteira é a extrema-direita. E, por outro lado, vai emergindo uma Nova Direita que acerta quando identifica corretamente que as sociedades não sobrevivem sem fundamentos morais partilhados = a tradição. Percebe que o universalismo abstrato não gera lealdade nem sacrifício. Reconhece que a neutralidade cultural do Estado é, muitas vezes, uma ficção.
Ao contrário de França ou Itália, a direita radical portuguesa, representada no Parlamento pelo partido CHEGA, ficou associada ao Estado Novo salazarista. A seguir ao 25 de Abril não houve “direita pós-fascista” normalizada como o MSI italiano. O resultado foi o vazio político à direita do CDS //PSD durante décadas. A imigração também foi tardia, logo, a pressão social foi menor até aos anos 2000. Portugal manteve durante muito tempo redes familiares fortes, economia informal, emigração como válvula de escape. Em França ou Itália verificou-se guetização, desemprego urbano e tensões identitárias mais antigas.
Partidos como o Rassemblement National [RN] de Marine Le Pen / Jordan Barderlla (fase pós-Jean-Marie) beberam daqui a linguagem cultural. Até setores da esquerda são “anti-woke”. Os Identitários simplificaram a radicalização. Mensagem clara: “A Europa morreu porque deixou de acreditar em si própria.” A política institucional falhou. Le Pen e Meloni precisam de eleitores, não de mártires. Precisam de estabilidade, não de gestos trágicos. Precisam de leis, não de símbolos suicidários. Os identitários querem provocar o colapso. Os partidos querem governar. Misturar tudo isto é erro analítico grave.
Faz sentido analisar o tema religioso, mas é preciso fazê-lo com muito cuidado, porque aqui há três planos diferentes que muitas vezes são misturados à força: o religioso, o cultural e o político. Quando não se separam, dá mau diagnóstico. De onde vem essa ideia do “declínio por abandono do cristianismo”? Ela não nasce agora, nem é só da direita radical. Está presente em Spengler (Declínio do Ocidente), Toynbee, Nietzsche (“Deus morreu” como diagnóstico, não celebração). Enquanto narrativa civilizacional, não é absurda. Enquanto explicação total, é fraca. O identitarismo atual degrada-se quando utiliza o cristianismo como marcador, não como fé. Muitos grupos identitários não são praticantes nem seguem doutrina cristã. Ignoram princípios centrais (caridade, universalismo, dignidade humana). Mas dizem: “Somos cristãos contra o Islão.” Isto é cristianismo cultural, não religioso. Funciona como marcador identitário, fronteira simbólica e instrumento de exclusão. É por isso que há padres, bispos e teólogos que rejeitam explicitamente esse uso político da fé.
O problema real não é o secularismo, é vazio normativo. A Europa secular destruiu referências antigas. Mas não construiu novas suficientemente fortes. Resultado: Direitos sem deveres; Liberdade sem responsabilidade; Identidade reduzida a consumo; Política moralizada, mas sem transcendência. Esse vazio é o que os identitários exploram, não a perda da missa ao domingo.



