quinta-feira, 16 de abril de 2026

A mudança da consciência social através da linguagem



Com os ditames da linguagem inclusiva, hoje é preciso ter mais cuidado com as metáforas populares de outros tempos em que ninguém fazia caso. Porque antes “ninguém ligava”? Não é que não houvesse problema, havia menos consciência sobre discriminação linguística. Certos estereótipos eram socialmente aceites, grupos minoritários tinham menos voz pública. Portanto, a mudança não é só “moda”. É também mudança de consciência social.

Mas agora, como em tudo o que acontece em sociedade em relação a questões fraturantes, há sempre quem esteja do outro lado da “moda”, e resiste, e reage: “já não se pode dizer nada”? Mas é claro, a língua não muda só por moda, muda porque a sociedade passa a reavaliar significados antigos. O que acontece é que nem toda a gente aceita essa reavaliação ao mesmo ritmo. Daí a tensão.

Vou transcrever aqui expressões que mudaram de “inofensivas” para “problemáticas”. “Trabalho de preto” – era uma expressão para referir trabalho muito duro. Hoje pode ser visto como racista. “Lista negra” / “mercado negro” – era completamente normal. “Fazer uma judiaria” – hoje pode ser visto como ofensivo para os israelitas, em que historicamente os judeus foram reiteradamente vítimas de perseguições e com grande carga de estereótipos. “Pareces um atrasado mental” – hoje o uso de linguagem ligada a deficiência intelectual é tida como insulto. “Isso é coisa de maricas” – hoje quem disser isso, além de ser rotulado como homofóbico, está sujeito a ser levado a tribunal com o argumento de “crime de ódio”. Hoje é quase proibido de estereotipar seja quem for sobre orientação sexual. Um detalhe curioso, muitas pessoas hoje já evitam estas expressões automaticamente, sem sequer saber exatamente porquê. Isto mostra que a mudança cultural já entrou no “piloto automático”.

Nos anos 2010 houve uma forte valorização de linguagem inclusiva, identidades e normas sociais mais vigilantes. Isso gerou adesão, mas também saturação em parte da população. Figuras como Donald Trump capitalizaram essa reação, posicionando-se contra o que chamam de “excessos” culturais.

Pensar pela cabeça do momento não é novo, mas foi amplificado por redes sociais e algoritmos. Plataformas digitais tendem a premiar posições fortes e simplificadas. Criam bolhas culturais e aceleram modas. Não é só que as pessoas seguem modas, é o ambiente atual intensificar e encurtar esses ciclos. Há quem veja o atual momento como correção de excessos; outros veem como retrocesso (por exemplo, em direitos ou discurso público). A sociedade está fragmentada em visões de mundo diferentes. Há um movimento pendular (quase “hegeliano”) numa tensão contínua. E o papel das redes sociais tornou tudo mais rápido, mais visível e mais polarizado.

Nos EUA, a dinâmica é sempre mais intensa e polarizada. Após movimentos como Black Lives Matter e debates sobre identidade de género, diversidade, etc., houve uma forte institucionalização dessas causas. Políticos como Donald Trump e figuras mediáticas conservadoras começaram a atacar o “woke”. Estados aprovaram leis contra certos conteúdos em escolas (género, raça). Empresas começaram a recuar ou a suavizar os discursos. A Portugal o “politicamente correto” chegou mais tarde e com menos intensidade. A reação também é menos organizada e menos ideológica. O debate tende a ser mais difuso (media, redes sociais, academia). Figuras como André Ventura tentam capitalizar esse descontentamento cultural, mas o contexto português é menos polarizado do que o americano.

Dos anos 2015 até 2021 foram os anos da implantação dos “Programas DEI” (Diversidade, Equidade, Inclusão). Linguagem inclusiva institucional e pressão pública sobre marcas. De 2021 para cá algumas empresas reduziram ou tornam mais discretas essas iniciativas. O ativismo esmoreceu e o foco voltou a ser maior em resultados económicos. Mas muitas mudanças ficaram, mesmo que o discurso público tenha arrefecido, mantêm-se políticas contra a discriminação, e com menor ênfase na discriminação pela positiva das minorias. O campo universitário é o mais “hegeliano”. De um lado – maior sensibilidade à linguagem, identidade e microagressões. E mais cancelamentos e polémicas mediáticas. Do outro lado – críticas à “cultura de cancelamento”; defesa da liberdade de expressão.

Antes, por exemplo, numa entrevista de emprego, a pessoa candidata podia ter frases como: “Sou uma pessoa normal, dou-me bem com toda a gente”. Agora: “Adapto-me bem a diferentes perfis e valorizo ambientes inclusivos”. Pequena diferença, mas mostra alinhamento com o “espírito do tempo”. Houve exageros na prática da linguagem inclusiva. Agora há reação populista ou conservadora a expressões como “todes” e “elu” em vez de “minhas senhoras e meus senhores” e “ele e ela”. Aqui está um cavalheiro. Para muitos, deixou de ser só cortesia e passou a parecer obrigação moral. A ideologia intrometeu-se na maneira de falar. E do “já chega” ao partido “CHEGA” foi um instante ao boomerang populista.

Se a moda não parar, entretanto por força da “reação”, é possível que outras expressões venham a cair num futuro não muito longínquo, tal como: “Denigrir”; “Mercado negro”; “Cego” em sentido figurado; “Velhos”; “mulher da limpeza”. E piadas relacionadas com a psiquiatria.

Tudo isto é muito “hegeliano”. Expressões que parecem candidatas a desaparecer, podem muito provavelmente continuar por muito tempo. Por exemplo, expressões como “mercado negro” / “lista negra” – são frequentemente criticadas em teoria, mas na prática, são claras, curtas e universalmente entendidas. Não apontam diretamente para um grupo específico no uso atual. Em Portugal, dificilmente vão desaparecer no uso comum. “Humor negro” – paradoxalmente, esta até ganhou força. Descreve um tipo específico de humor que não é percepcionado como ataque a pessoas negras. “Trabalhar como um mouro” – pode parecer problemático (referência histórica aos mouros, mas, muita gente nem associa a origem, significa simplesmente “trabalhar muito”. Ainda é usado, especialmente por gerações mais velhas. Até a expressão “fazer em cima do joelho” estaria na lista do politicamente incorreto se a maioria soubesse a verdadeira origem histórica associada a escravatura. Mas hoje significa apenas “mal feito”. A maioria das pessoas não liga à origem. E há debate sobre se essa origem é sequer correta.

O que faz uma expressão “sobreviver”? Se a expressão já é automática, é muito difícil substituí-la. Se as pessoas já não associam ao significado original, a pressão para mudar é menor. Se não há alternativa tão simples e eficaz, a expressão resiste.

Entrando agora no humor, atualmente numa tensão conflituante depois dos atentados na França, a verdade é que o humor tradicional sempre usou exagero, estereótipos e provocação. O seu efeito, para além de essencialmente fazer rir, tem como ingrediente o facto de a sensibilidade humana ser das coisas mais idiossincráticas da condição social humana. Humoristas como Herman José em Portugal, ou Eddie Murphy nos EUA, faziam material que hoje seria polémico.

Ora, o humor dito inteligente ganha público porque não abdica de ser provocador. Os que evitam o risco têm sempre uma vida muito efémera. A piada está em parte precisamente no facto de roçar o proibido, o cancelado, o preconceituoso. Os limites são testados de propósito. Daí, os humoristas mais inteligentes, fazerem humor sobre o próprio tema do cancelamento. Só que não batem de frente de forma básica. Humoristas como Ricardo Araújo Pereira conseguem navegar isto bem, fazem humor crítico sem parecer ataque gratuito. Pelo menos para já, em Portugal, ainda não se chegou ao ponto de outros países como a França ou os EUA. Há muito mais polarização, com os públicos mais sensíveis e divididos, cujas consequências são muito mais perigosas para os humoristas. Aqui, o pêndulo oscilou com mais intensidade, migrando muito mais para o outro extremo.

Atualmente está-se a viver mais um daqueles períodos, sobretudo no Ocidente, de grandes abalos sociais de mudança. E isso, em parte, deve-se à chamada “explosão das redes sociais da Internet. A grande questão hoje é: o humor deve ter limites? Há quem defenda que o humor deve ser livre, a ofensa faz parte do humor, tudo pode ser alvo de piada. Mas os mais cautelosos argumentam que o humor, pelo forte impacto social que provoca, reforçando estereótipos, deve ser chamado à responsabilidade. Uma piada que se confinava a grupos restritos, hoje propagam-se como as epidemias virais. Agora, as reações podem ser aos milhares, por vezes até aos milhões. E isto já configura o clássico efeito das “massas”. As pessoas que se sentem atingidas no seu “ego”, automaticamente entram pelo campo da ofensa, e de forma brutalmente imediata. Não há tempo para pensar, para refletir, para arrefecer os ânimos do primeiro impulso instantâneo.

Assim, hoje os humoristas mais inteligentes fazem primeiro o diagnóstico da audiência. E em vez de fazerem uma piada diretamente ofensiva, fazem piadas sobre o facto de “já não se poder dizer nada”. Isso cria um meta-humor que reconhece o problema, e ao mesmo tempo faz a crítica ao exagero, à húbris.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Líbano


O Líbano é um “microcosmo”: Xiitas → Hezbollah e Amal; Sunitas → vários partidos políticos; Cristãos → também muito influentes. Aqui, a divisão não é só religiosa — é também política e institucional. O Irão → lidera o bloco xiita. A Arábia Saudita → lidera o bloco sunita. E os conflitos atuais são muitas vezes guerras indiretas entre estas potências. 



Mas como é que os aiatolás do Irão se impuseram com tanta força? O caso do Irão é mesmo único no mundo islâmico. A ascensão dos aiatolás não aconteceu de um dia para o outro; foi o resultado de uma combinação de religião, política e revolta popular. Até 1979, o Irão era governado pelo Mohammad Reza Pahlavi. Ele era pró-ocidental (aliado dos EUA) e foi um modernizador. Mas também era autoritário, repressivo (polícia secreta, censura) e era visto como “demasiado ocidentalizado” por muitos religiosos. No xiismo, ao contrário do sunismo, existe uma hierarquia religiosa forte. Os clérigos (como os aiatolás) têm grande autoridade. O mais importante foi Ruhollah Khomeini. Tinha ido para o exílio em Paris, mas continuou a influenciar o país (através de discursos gravados). As mesquitas tornaram-se centros de mobilização política. Quando o Xá caiu, Khomeini regressou ao Irão como figura central. Tinha enorme apoio popular. E a partir daqui criaram uma teocracia, com uma constituição baseada no Islão, em que os aiatolás, como do alto clero xiita, são os especialistas em lei islâmica. No Irão, o líder supremo (como tinha sido até aqui Ali Khamenei) tinha mais poder que o presidente eleito democraticamente embora com certas restrições.

O que aconteceu em 23 de outubro de 1983, em Beirute? Dois ataques suicidas com camiões carregados de explosivos atingiram o quartel dos Marines dos EUA e o quartel das forças paraquedistas francesas: 241 militares americanos mortos; 58 militares franceses mortos. Foi um dos ataques mais mortíferos contra forças ocidentais no pós-Guerra do Vietname. Quem foi responsável? Os atentados foram atribuídos a militantes ligados ao grupo que viria a ser conhecido como Hezbollah, com apoio do Irão. Durante a Guerra Civil Libanesa, o país estava dividido entre várias fações religiosas e políticas (cristãos maronitas, muçulmanos sunitas e xiitas, grupos palestinianos, entre outros). Em 1982, ocorreu a Invasão israelita do Líbano com o objetivo de expulsar a Organização para a Libertação da Palestina [OLP] do sul do país. Após essa invasão uma força multinacional foi enviada para Beirute, que incluía tropas dos EUA, França, Itália e Reino Unido. A missão era manter a paz e estabilizar o governo libanês.

Apesar de serem oficialmente “forças de paz”, muitos grupos locais viam-nas como aliadas do governo cristão libanês, próximas de Israel. Especialmente entre os xiitas libaneses, cresceu grande oposição apoiada pelo Irão, após a Revolução Islâmica Iraniana em 1079 liderada pelo aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini. Foi nesse contexto que surgiu o Hezbollah, com forte componente anti-ocidental. Os ataques de 23 de outubro demonstraram o poder e a eficácia dos atentados suicidas coordenados. Este acontecimento, ao abalar profundamente a opinião pública nos países ocidentais levou à retirada das tropas americanas e francesas em 1984. A missão multinacional havia colapsado.

Esses atentados são considerados um marco porque mudaram a estratégia militar ocidental: maior cautela em intervenções no Médio Oriente; Influenciaram decisões futuras, como na Guerra do Golfo; popularizaram o terrorismo suicida moderno, tendo-se tornado modelo para outros grupos nas décadas seguintes; influenciaram táticas usadas mais tarde por organizações extremistas; fortaleceram o Hezbollah ganhando prestígio regional ao ponto de se ter tornado um dos atores mais importantes no Líbano até hoje. Os atentados não foram um evento isolado. Foram o resultado de uma guerra civil complexa com intervenção estrangeira e com tensões religiosas e geopolíticas intensas. E marcaram uma viragem na forma como conflitos assimétricos são travados.

Um outro movimento que na altura foi importante – o Amal – um importante movimento político e militar xiita no Líbano, com um papel central durante a Guerra Civil Libanesa. O Movimento Amal (em árabe “Esperança”) surgiu na década de 1970 para defender a comunidade xiita, historicamente marginalizada no Líbano. Foi fundado por Musa al-Sadr, um influente clérigo. Durante a guerra o Amal tornou-se uma das principais milícias xiitas, combatendo vários adversários incluindo a Organização para a Libertação da Palestina. Tinha forte apoio da Síria. Um episódio importante foi a chamada “Guerra dos Campos” (anos 1980), contra milícias palestinianas. 
O Amal representava um xiismo mais tradicional e nacionalista libanês. Já o Hezbollah era mais radical e islamista, fortemente alinhado com o Irão. Os dois grupos chegaram a lutar entre si na disputa pelo controlo da comunidade xiita. Hoje, o Amal é um partido político legal no Líbano e participa no governo. É liderado por Nabih Berri, que também é presidente do parlamento há décadas. Mantém uma aliança política com o Hezbollah, apesar das rivalidades do passado.

A influência do Irão no Líbano – e o surgimento de “proxies” como o Hezbollah – não se explica por um único motivo. Israel é uma peça importante, mas não é a única razão. Vamos por partes. Durante a Guerra Civil Libanesa o Estado libanês praticamente colapsou. Várias milícias controlavam territórios. Isso abriu espaço para potências externas influenciarem grupos locais. A Invasão israelita do Líbano de 1982 foi crucial: Israel ocupou o sul do Líbano; a população xiita local sentiu-se abandonada e atacada. O Irão aproveitou essa situação. O Irão enviou instrutores (Guarda Revolucionária), dinheiro e ideologia através da Síria (que controlava partes do Líbano na altura). Resultado: criação e fortalecimento do Hezbollah nos anos 1980. Antes disso, os xiitas eram uma das comunidades mais pobres e marginalizadas. Grupos como o Movimento Amal já existiam, mas eram mais “tradicionais”. O Hezbollah oferecia resistência armada contra Israel, apoio social (escolas, hospitais), identidade e proteção. O Irão usa “proxies” por várias razões. Influência regional: quer ser uma potência dominante no Médio Oriente. Profundidade estratégica: combater inimigos fora do seu território evitando guerra direta. Exportar a revolução.

Desde a criação de Israel em 1948 que muitos palestinianos foram deslocados. O conflito com os árabes tornou-se central e o Irão posicionou-se como defensor da causa palestiniana considerando Israel como ilegítimo e uma presença “ocidental” na região. Para Israel o Irão passou a ser “a ameaça existencial”. O Hezbollah é um proxy do Irão, mas também um ator libanês real, combatendo Israel (especialmente no sul do Líbano) influencia a política libanesa e projeta o poder iraniano.

A queda do Líbano – e de Beirute como a “Paris do Médio Oriente” – não foi súbita. Foi uma erosão lenta, com vários choques acumulados ao longo de décadas. E sim: hoje muitos analistas falam de um quase Estado falhado, embora ainda funcione parcialmente. Até aos anos 1970, Beirute era centro financeiro e bancário, polo cultural e turístico, espaço relativamente liberal no mundo árabe. Daí o apelido “Paris do Médio Oriente”. Mas havia um problema estrutural, cujo sistema político era frágil desde o início. O país baseava-se num acordo chamado “confessionalismo”. O poder era dividido por religiões: Presidente → cristão maronita; Primeiro-ministro → sunita; Presidente do parlamento → xiita.

A Guerra Civil Libanesa foi o grande ponto de rutura. Tensões religiosas internas, presença armada palestiniana (Organização para a Libertação da Palestina) e interferência externa. Com as milícias a tomarem o controlo de facto, Beirute ficou devastada e o Estado colapsou. O Líbano tornou-se um “campo de jogo” para potências: Síria → ocupação durante décadas; Israel → invasões e ocupação do Sul; Irão → apoio ao Hezbollah. O Estado libanês nunca recuperou soberania total. Após 1990 a guerra cessou, mas os senhores da guerra viraram políticos. Cada grupo protegendo os seus, o Líbano transformou-se num Estado clientelar. E assim, com uma grande corrupção sistémica o Líbano passou a ser um Estado fraco.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O conceito de ironia no pensamento pós-moderno


O conceito de ironia no pensamento pós-moderno — especialmente em Richard Rorty — não tem o mesmo sentido comum de “dizer o contrário do que se quer dizer”. Trata-se de um conceito filosófico ligado à consciência da contingência, da linguagem, e da impossibilidade de fundamentos absolutos.




A ironia no pós-modernismo – autores associados ao pós-modernismo, como Jacques Derrida, Michel Foucault e Jean‑François Lyotard – é uma crítica à deia moderna de que existe uma verdade universal, objetiva e final. Para eles não existe um ponto de vista neutro. Toda a verdade depende de linguagem, cultura e história. As grandes narrativas (religião, ciência, progresso, razão absoluta) são construções humanas. A ironia pós-moderna surge quando alguém usa conceitos sabendo que eles não são definitivos. Falam como se fossem verdadeiros, mas sem acreditar que sejam absolutos. Mantêm uma distância crítica em relação ao próprio discurso. Ou seja, é uma atitude de usar conceitos sem acreditar que eles têm fundamento último.

A ironia em Richard Rorty – filósofo que mais desenvolve este conceito, especialmente no livro Contingency, Irony, and Solidarity – as nossas crenças são contingentes (poderiam ser diferentes). A linguagem que usamos não revela a realidade — apenas descreve o mundo de certas formas. Não existe vocabulário final que diga a verdade definitiva. O “ironista” – Rorty define o ironista como alguém que tem dúvidas sobre o próprio vocabulário final (os conceitos com que explica o mundo) – sabe que esses conceitos são históricos e contingentes. Não acredita que exista um fundamento último para justificar tudo. É o caso do liberal que acredita na liberdade, mas sabe que essa ideia vem da sua cultura, e que outras culturas poderiam pensar diferente. Ele continua defendendo a liberdade, mas sem acreditar que ela seja uma verdade eterna. Isso é ironia.

A ironia em Rorty não é relativismo total. Rorty não diz que tudo vale o mesmo. Ele distingue: Esfera privada → ironia, dúvida, autocriação // de Esfera pública → solidariedade, democracia, não crueldade. O ideal dele é o liberal ironista: sabe que suas crenças são contingentes, mas continua defendendo valores humanos, sem apelar para verdades absolutas. Para os pós-modernos, e especialmente para Richard Rorty, ironia é a atitude de usar crenças e conceitos sabendo que eles são históricos, contingentes e sem fundamento último, e ainda assim continuar a viver e agir com eles.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Inferência Ativa


Vamos entrar na teoria de Karl Friston: o conceito de Active Inference é a extensão prática do Free Energy Principle. Esta ideia é fascinante porque aproxima muito a neurociência moderna das teorias de Humberto Maturana, Francisco Varela e Ludwig von Bertalanffy. Mas usando matemática, probabilidade e teoria da informação.


Karl John Friston, nascido em 12 de julho de 1959, é um neurocientista e teórico britânico do University College London. Ele é uma autoridade em neuroimagem e neurociência teórica, especialmente no uso de métodos estatísticos inspirados na física para modelar dados de neuroimagem e outros sistemas dinâmicos aleatórios. Friston é um dos principais arquitetos do princípio da energia livre e inferência ativa. Na neurociência da imagem, ele é mais conhecido pelo mapeamento paramétrico estatístico e pela modelagem causal dinâmica. Friston também atua como consultor científico para diversos grupos da indústria. Em 2020, Friston aplicou a modelagem causal dinâmica como uma abordagem de biologia de sistemas para modelagem epidemiológica. Posteriormente, tornou-se membro da Independent SAGE, uma alternativa independente e voltada para o público ao órgão consultivo governamental da pandemia de COVID-19, o Grupo Consultivo Científico para Emergências. Friston é um dos cientistas vivos mais citados e, em 2016, foi classificado como o número 1 pela Semantic Scholar na lista dos 10 neurocientistas mais influentes.


O princípio básico era um sistema vivo manter-se vivo minimizando surpresa. O primeiro tratamento abrangente da inferência ativa, uma perspectiva integrativa sobre cérebro, cognição e comportamento usada em múltiplas disciplinas. Mas surge uma pergunta: Como é que um organismo minimiza surpresa? Resposta de Friston: Ele prevê o mundo e age para que o mundo corresponda à previsão. Isso é Active Inference. Um ser vivo faz sempre três coisas ao mesmo tempo: prevê o que vai acontecer; percebe o que está a acontecer; age para reduzir a diferença. Ou seja: percepção = inferência; ação = controlo; cognição = previsão. Isto liga-se a: Bayesian Inference; Predictive Processing; Control Theory; Self-Organization.

Imagine que estende a mão para pegar num copo. O modelo antigo dizia: vê o copo; decide pegar; mexe a mão. Friston diz: o cérebro prevê que a mão vai tocar no copo; o corpo move-se para confirmar a previsão; o erro é corrigido continuamente. Ou seja: não agimos porque vemos; vemos porque estamos a prever agir. Isto é radical.

Inferência ativa é uma forma de entender o comportamento senciente. Uma teoria que caracteriza percepção, planeamento e ação em termos de inferência probabilística. A inferência ativa oferece uma perspectiva integrada sobre cérebro, cognição e comportamento, que é cada vez mais utilizada em múltiplas disciplinas, incluindo neurociência, psicologia e filosofia. A inferência ativa coloca a ação em percepção. A inferência ativa é uma abordagem baseada em "princípios básicos" para entender o comportamento e o cérebro, enquadrada em termos de um único imperativo para minimizar a energia livre. São as implicações do princípio da energia livre para entender como o cérebro funciona. Primeiro introduz inferência ativa tanto conceptual quanto formalmente, contextualizando-a dentro das teorias atuais da cognição. Em seguida, fornece exemplos específicos de modelos computacionais que utilizam inferência ativa para explicar fenómenos cognitivos como percepção, atenção, memória e planeamento.

terça-feira, 31 de março de 2026

O pensamento contemporâneo sistémico sobre mente e conhecimento


A Teoria Geral de Sistemas surgiu com os trabalhos do biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy, publicados entre 1950 e 1968. Esta teoria proporcionou a produção de mais teorias e formulações conceptuais que permitiram criar condições de aplicação na realidade empírica. Existe uma nítida tendência para a integração entre as ciências naturais e sociais que levaram ao rumo de uma teoria dos sistemas. Ora, essa teoria de sistemas facilitou uma maneira mais abrangente de estudar os campos não físicos do conhecimento científico, especialmente as ciências sociais. Essa teoria de sistemas, ao desenvolver princípios unificadores que atravessam verticalmente os universos particulares das diversas ciências envolvidas, aproxima-nos do objetivo da unidade da ciência.

A importância da Teoria Geral de Sistemas é significativa tendo em vista a necessidade de se avaliar a organização como um todo e não somente em departamentos ou setores. O mais importante ou tanto quanto é a identificação do maior número de variáveis possíveis, externas e internas que, de alguma forma, influenciam em todo o processo existente na organização. A Teoria dos Sistemas começou a ser aplicada na Administração, principalmente em função da necessidade de uma síntese e uma maior integração das teorias anteriores. Os sistemas vivos, sejam indivíduos ou organizações, são analisados como "sistema abertos", mantendo um continuo intercâmbio de matéria/energia/informação com o ambiente. Humberto Maturana foi outro cientista que deu continuidade e completude à teoria de Bertalanffy.


As teorias de Ludwig von Bertalanffy e Humberto Maturana continuam válidas. Mas foram reinterpretadas e ampliadas com a atual revolução cognitiva (IA, neurociência, ciência da complexidade, ciências computacionais). A Teoria Geral de Sistemas, é, portanto, uma criação de Ludwig von Bertalanffy. Sistemas vivos, sociais e cognitivos devem ser entendidos como totalidades organizadas. O todo não se reduz à soma das partes. Existem padrões comuns em biologia, psicologia, sociologia e tecnologia. Hoje, modelos de IA, cérebro e sociedade são vistos como sistemas dinâmicos interconectados, exatamente como Bertalanffy propôs.

Humberto Maturana (com Francisco Varela) criou o conceito de Autopoiesis – Sistemas vivos são auto-produtores de conhecimento que não é cópia do mundo, mas construção do observador que faz parte do sistema observado. Muito influente em: Second-order Cybernetics; Constructivism; Enactive Cognition; Embodied Cognition. Hoje, muitas teorias cognitivas afirmam que: mente não está só no cérebro; mente emerge da interação corpo-ambiente; conhecimento é ativo, não passivo; Isso está muito próximo de Maturana.

Apesar de alguns considerarem excessivamente construtivista, mesmo assim, as teorias desses cientistas continuam influentes. As teorias de Bertalanffy e Maturana não ficaram ultrapassadas. Foram absorvidas pela ciência da complexidade e pela ciência cognitiva moderna. A revolução atual aproxima-se mais deles do que do mecanicismo clássico. Em certo sentido, a revolução cognitiva atual confirma que a mente, a vida e a sociedade são sistemas auto-organizadores — exatamente como Bertalanffy e Maturana sugeriram. A ciência atual está a regressar a ideias sistémicas, mas com matemática, computação e biologia mais avançadas.

A IA clássica, entre os anos 1950-1990, era simbólica, assente na lógica formal em que Alan Turing se tornou o seu mentor icónico. Hoje a IA (deep learning, redes neurais) é baseada em Artificial Neural Network, Deep Learning e Reinforcement Learning. Aprendizagem por interação, adaptação, emergência e não linearidade. Isto parece muito mais com autopoiese, sistemas dinâmicos e acoplamento estrutural. Mas há uma diferença importante: IA atual não é autopoiética no sentido de Maturana. Não se autoproduz biologicamente e não tem corpo próprio (na maioria dos casos).

Hoje, Karl Friston, é notável em Predictive Processing e Free Energy Principle. O cérebro é um sistema que minimiza surpresa e mantém a sua organização. Isto é extremamente próximo de autopoiese, sistemas abertos e auto-organização. O Free Energy Principle diz algo parecido com Maturana: um sistema vivo mantém a sua identidade através da regulação das suas interações. A diferença está em que Maturana fala em linguagem biológica e Friston fala em linguagem matemática: menos mecanicismo; mais sistemas dinâmicos; mais auto-organização; mais corpo-ambiente; mais emergência. Ou seja, a revolução cognitiva atual está mais próxima de Bertalanffy e Maturana do que a revolução cognitiva dos anos 60.


Karl Friston é um dos neurocientistas mais influentes das últimas décadas. Ele propôs uma das teorias mais ambiciosas atuais sobre mente, cérebro e vida: o Free Energy Principle. Muitos consideram que esta teoria é uma espécie de ponte moderna entre Bertalanffy & Maturana, a teoria da informação e a neurociência computacional. Este neurocientista britânico, trabalha com neuroimagem, teoria da informação e modelos matemáticos do cérebro. É muito citado em neurociência. Principais áreas: Theoretical Neuroscience; Computational Neuroscience; Cognitive Science (explicar o cérebro, a mente e os seres vivos com um único princípio matemático).

O Free Energy Principle (ideia central) – O princípio diz, de forma simplificada: todo o sistema vivo mantém a sua organização minimizando a surpresa. Ou, mais tecnicamente: um sistema que sobrevive precisa de reduzir a incerteza sobre o seu ambiente. O nome vem da teoria da informação, não da termodinâmica. A ideia liga-se a: Information Theory; Bayesian Inference; Entropy; Self-Organization. O cérebro não reage ao mundo, prevê o mundo. O que fazemos o tempo todo: prever o que vai acontecer; comparar previsão com realidade; corrigir o erro. Se o erro é pequeno → estabilidade. Se o erro é grande → aprendizagem. Isso é muito parecido com: autopoiese (manter organização); sistemas abertos (Bertalanffy); acoplamento estrutural (Maturana).

Na ligação com IA moderna, Free Energy Principle liga-se a aprendizagem bayesiana; redes neurais; reinforcement learning; modelos generativos. Exemplos: ChatGPT → modelo generativo; redes neurais → previsão de padrões; robótica → controlo preditivo. Mas Friston vai mais além: um ser vivo não apenas aprende, mas age para tornar o mundo previsível. Isto chama-se: Active Inference. Ou seja: perceçpão = prever; ação = reduzir o erro; vida = manter coerência.

Ainda assim, a teoria é muito controversa. Muito abstrata, difícil de testar. Ao pretender explicar tudo corre o risco de explicar nada; Matemática extremamente complexa. Alguns dizem: é a teoria de tudo da neurociência. Outros dizem: é filosofia com equações. O ponto mais profundo, que liga com a revolução cognitiva, é que a mente não é separada do corpo. O corpo não é separado do ambiente. Conhecer é regular interação. A Vida luta contra o Caos. A neurociência mais matemática atual está a convergir com as teorias sistémicas de Bertalanffy e Maturana.

domingo, 29 de março de 2026

A posição de Pedro Sánchez em relação à Guerra no Irão


O primeiro-ministro espanhol reiterou há poucos dias que a guerra iniciada com ataques dos EUA e Israel ao Irão é ilegal. E falou em "desastre absoluto" num cenário "muito pior" do que o de 2003, com o Iraque. Disse-o no Parlamento Nacional de Espanha, para explicar a posição do Governo em relação à situação no Médio Oriente. Repetiu o "não à guerra", que assumiu desde os primeiros ataques ao Irão, em 28 de março. Voltou a condenar os Estados Unidos e Israel por terem iniciado o conflito. Sánchez sublinhou que o Irão, ao contrário do Iraque, é uma "potência militar" e tem um poder económico várias vezes superior, com impacto a nível mundial, e considerou que a guerra atual é já "um desastre absoluto", por ter sido iniciada sem qualquer consulta ou aviso por parte dos EUA aos aliados, sem "amparo legal" e sem um "objetivo definido". Isto a poucos dias depois de notícias que davam conta de avanços em negociações com o regime de Teerão. Até representantes norte-americanos confirmavam que não existia uma ameaça nuclear iminente. Sánchez reiterou que Espanha não autorizou os EUA a usarem bases militares em território espanhol para qualquer operação relacionada com os ataques ao Irão, incluindo planos de voo para reabastecimento de aeronaves.


Estamos numa fase diferente da política externa e mesmo das relações entre Estados ao abrigo das Nações Unidas. Defender o Direito Internacional não chega. Isto pode parecer paradoxal, mas evocar o Direito Internacional pode não defender o Direito Internacional. O Conselho de Segurança é um embuste por causa do poder de veto do núcleo duro. Neste caso, nenhuma resolução passaria com o veto, pelo menos, da Rússia. A posição mais cautelosa dos outros líderes europeus é construtiva na medida do “bom-senso", ou da clássica expressão “realpolitik”.

Nós temos aqui um homem que sempre fez pela vida. E sempre fez pela vida tentando as melhores opções. Pedro Sánchez lidera efetivamente um governo de coligação de esquerda: Em 2020, governou com o Unidas Podemos (primeiro governo de coligação da democracia espanhola). Desde 2023, governa com a plataforma Sumar (que sucedeu ao Unidas Podemos como parceiro principal). Como nenhum destes governos teve maioria absoluta, Sánchez precisou de apoios parlamentares adicionais para ser investido e governar. Entre esses partidos estão: ERC (independentistas catalães); Junts per Catalunya; EH Bildu; PNV; BNG; Coalición Canaria. Esses apoios foram decisivos na investidura e na aprovação de leis. Mas o núcleo duro é constituído com Yolanda Díaz Pérez, a líder da plataforma Sumar.


Da maioria dos outros grupos deve-se salientar que quase todos querem a saída imediata da Espanha da NATO. Por outro lado veem os Estados Unidos como o grande provocador Internacional. Nenhum deles acha que a Rússia é um problema sério para a Europa e acham que a Espanha hoje não mais uma potência, digamos assim, em crescimento, mas que é uma potência média quase a chegar ao nível de uma França ou de uma Alemanha. Porque em termos económicos têm crescido bastante, para além dos quase 50 milhões da sua população.

Sánchez, que já por várias vezes perdeu e ganhou eleições, foi buscar a ala mais extrema, ou seja, aqueles partidos que estão dispostos a tudo para terem um pouco de poder. Por outro lado o PSOE tem tanto ligações com o Irão, como também tem com a Venezuela. Razão pela qual aquando da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, Donald Trump avisou logo que politicamente não queria mais a Espanha a influenciar a política venezuelana. O que nós temos aqui é um pragmático que sabe que quer vencer as eleições de julho de 2027. Estava atrás das sondagens antes da guerra dos EUA e de Israel com o Irão. Entretanto já está à frente, embora não se saiba por quanto tempo. As questões da guerra são muito complicadas em Espanha porque criaram uma fissura muito grande. Sabendo que esses partidos são todos contra a NATO, ele faz a coisa mais óbvia que é um discurso contra Donald Trump, grande alvo a abater. Ele precisa desses partidos radicais, porque já precisou na últimas eleições.

Uma das coisas que mais unia toda esta dinâmica política era a questão da NATO da participação da Espanha em conflitos internacionais. E assim se procura equilibrar neste jogo de cintura com a política central Europeia, o eixo Paris = Berlim. Mais, Sánchez quer que este eixo seja Madrid = Paris = Berlim. Ou seja, a Espanha que se considera então uma potência já não pequena mas uma potência média a chegar quase uma potência que tem capacidade de dizer não aos Estados Unidos. Já o disse quando foi a questão do orçamento da NATO. E diz agora, porque Sanches acredita no pluralismo democrático. Acredita que de alguma forma os Estados Unidos, ou então o Presidente dos Estados Unidos, estão ligados a movimentos de extrema-direita. Algo pragmático quando se apercebeu que ao ter este tipo de capacidade política, e ao fazer este discurso, pode ser a corrente dentro da Europa que lidera uma certa esquerda. Faz ver que é o último dos socialistas que ainda está no poder, numa Europa que está a virar muito à direita, mais radical.

EH Bildu inclui setores da esquerda independentista basca. Alguns críticos consideram o EH Bildu como “herdeiro político” do universo da ETA. Mas é um partido legal e institucional. participa no parlamento democrático. Não é uma aliança ideológica total, mas sim negociação política concreta. Um orçamento pode exigir concessões diferentes de uma lei laboral. Porque é que isto gera polémica? Há três razões principais: Negociar com partidos que querem independência (Catalunha, País Basco) gera tensão; Medidas como a amnistia são vistas por críticos como excessivas; EH Bildu – a ligação histórica ao ambiente político da ETA torna qualquer acordo politicamente sensível. Isso – não um “acordo formal” sobre política externa – cria pressão política interna. Forte crítica às ações militares de Israel em Gaza. Defesa de cessar-fogo. Reconhecimento do Estado palestiniano (posição política assumida). Sánchez tende a adotar: um tom mais crítico de Israel, linguagem mais diplomática sobre conflitos. Parcialmente alinhado com a esquerda que o apoia.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Reconhecer os próprios erros é uma virtude


Hoje admite-se com menos controvérsia que o modelo de “manifestações de interesse” para os imigrantes em Portugal foi um erro. Tornou-se um íman para imigração desregulada, e um incentivo à economia informal. Acabou por acentuar a  praga da exploração laboral. Tudo isto é simplesmente factual. Exigir contrato de trabalho, meios de subsistência e enquadramento legal prévio, não é ideologia, é Estado de direito básico. Quase todos os países funcionam assim.

O governo socialista pecou pelo princípio das boas intenções com a sua péssima capacidade administrativa. A AIMA herdou um caos gigantesco, com processos acumulados por falta de meios humanos. Depois de expectativas criadas, a má gestão não foi capaz de o gerir o caos. Ora, sem resultados visíveis, o discurso perdeu credibilidade. 

Acresce agora o problema da integração. Controlar entradas sem investir seriamente em aprendizagem da língua, dispersão territorial, fiscalização laboral, combate a guetos habitacionais – é adiar o problema da integração, não resolvê-lo. O governo atual, ao contrário do que a esquerda diz, não está a comprar bandeiras do Chega, mas a executar o seu próprio programa. O facto de em matéria de bom senso, o governo coincidir com o bom senso neste caso do Chega, não significa que esteja a fazer a política do Chega. O argumento da esquerda é falacioso. Houve excessos de facilitismo e agora, como é costume dizer-se, está-se a correr atrás do prejuízo, ou seja, a corrigir os erros cometidos anteriormente. Estão-se a corrigir excessos reais. Mas o governo ainda não conseguiu liderar o debate, está apenas a tentar sobreviver a ele com vários erros de comunicação. A Comissão Europeia, embora também tarde, acabou por perceber o problema das "portas escancaradas". Na política europeia recente, quem não acordou a tempo acabou por ser liderado por outros.

Este tema vai inevitavelmente reconfigurar o sistema partidário em Portugal. A única dúvida é quem vai ganhar com isso, e quanto. Há três razões estruturais (não conjunturais). Durante anos era um tema distante, moral, quase académico. Hoje é: habitação, escolas sobrelotadas, SNS sob pressão, salários baixos em sectores específicos, mudanças visíveis no espaço urbano. O Chega pode ter usado linguagem tóxica, mas conseguiu uma coisa politicamente decisiva: quebrou o tabu. Portugal chegou atrasado ao ciclo europeu. O que França, Alemanha ou Suécia viveram há 10–15 anos, Portugal está a viver agora. Mas de forma comprimida e acelerada.

O PS está no dilema clássico: se regressa ao discurso permissivo, perde eleitorado popular; se endurece, fratura a ala ideológica e mediática. O PS só sobrevive unido se fizer algo tipo Dinamarca. Caso contrário, perde eleitores para os dois lados. O PSD pode tornar-se o partido do “controlo normal”, absorvendo eleitorado moderado que hoje vota por medo, não por convicção. Mas é um equilíbrio difícil, um deslize retórico e perde o centro. O Chega não precisa de crescer muito mais para vencer: precisa apenas que os outros falhem. Se o controlo parecer cosmético ou ineficaz, o discurso “eles falam, nós fazemos” volta em força. Mas atenção: se o tema for tratado com seriedade pelos partidos mainstream, o Chega não desaparece, mas pode estagnar. E a Esquerda à esquerda do PS? Aqui está o maior risco existencial. BE e PCP perderam ligação à realidade, ao eleitorado popular. Falam sobretudo para nichos urbanos e mediáticos. Tratam preocupações reais como “falsas consciências”. Se não reformularem o discurso sobre imigração, tornam-se irrelevantes para uma parte crescente do país real.

Hoje, quem ficar preso à velha grelha ideológica [Direta vs./ Esquerda], vai perder. Em suma: a imigração não é “mais um tema”. É o tema que vai reorganizar alianças, discursos e eleitorados na próxima década. Há sinais claros de que Portugal está a entrar na versão portuguesa do “modelo francês”, mesmo que ainda numa fase embrionária. A polarização francesa não surgiu de um dia para o outro. Foi construída por vários erros repetidos. Durante décadas, em França, qualquer discussão sobre imigração era tratada como falha moral.

segunda-feira, 23 de março de 2026

A percepção enviesada sobre a atuação da polícia


Porque será que há tanta divergência conceptual entre direita e esquerda em relação à atuação da polícia? Grande parte da divergência vem não apenas da ideologia, mas também das metodologias de análise. Tentando obter um ponto de partida comum, quase todos os investigadores concordam em algo básico: negros estão mais representados entre mortos pela polícia quando comparados com a população total. A divergência começa quando perguntamos: Qual é o denominador correto?

Os Estudos baseados na população total são os mais simples e mais citados no debate público. Lógica: Mortes provocadas pela polícia / Percentagem da população. Conclusão típica: Forte desproporção racial. Mas há aqui um viés: nem todos os grupos têm o mesmo grau de intervenção da polícia no contacto com a população. A questão demográfica não se compadece com a realidade concreta da vida das populações que condiciona o seu comportamento. Quando os Estudos são ajustados para esse viés o panorama de análise muda: Mortes provocadas pela polícia / Número de interações da polícia com as populações. Em alguns estudos que atendem a estes enviesamentos os resultados divergem. Portanto, o problema metodológico é importante. O contacto policial com as populações não é uma variável neutra. Grupos mais policiados não tem a ver diretamente com a questão racial, mas com determinados tipos de comportamentos. Portanto, a questão racial é um efeito indireto ou secundário. É o clássico paradoxo: das medições enviesadas.

O que é mais consensual depois de todas as ponderações, quando a causalidade é multicausal: não há evidência sólida de que o fenómeno seja explicado pelo racismo. Há evidência sólida de que o viés racial faz sempre parte da equação. Os fatores contextuais têm enorme peso. Vieses implícitos aparecem consistentemente em estudos experimentais. A estrutura social molda os padrões de atuação por parte das forças policiais. Sem necessidade de introdução de ponderações raciais maliciosas, os estudos mais sérios concluem que o que está em causa são os comportamentos. O contexto social influencia a exposição ao policiamento. O policiamento influencia a probabilidade de contactos críticos. O contacto crítico envolve decisões humanas imperfeitas, quando a necessidade do uso da força tem de ser rápida. Decisões humanas em situações semelhantes envolvem sempre enviesamentos.


Um viés implícito é um atalho mental automático. O cérebro precisa deles porque decisões rápidas, informação incompleta, ambientes incertos – sem atalhos – ficaríamos paralisados. O problema é que os atalhos nem sempre são neutros. Policiamento envolve frequentemente decisões em segundos; o stress é elevado; potencial ameaça física; ambiguidade. É precisamente o tipo de ambiente onde o cérebro recorre mais fortemente a heurísticas.

Em experiências laboratoriais (simulações, testes de reação rápida): associação mais rápida entre “negro” ↔ “ameaça” em média populacional; maior probabilidade de “erro de disparo” em certos contextos; diferença surge mesmo em participantes negros. Isto é importante: não depende de animosidade consciente. Estamos a falar de padrões culturais internalizados.

É perfeitamente possível sustentar simultaneamente que: a maioria dos polícias não é conscientemente racista; vieses implícitos existem; vieses podem afetar decisões rápidas; contextos sociais moldam exposição ao risco. A interpretação mais robusta hoje tende a ser: contexto social molda exposição ao policiamento; policiamento molda contacto crítico; situação molda risco imediato; vieses podem influenciar decisões marginais. Viés atua como modulador, não causa primária única.

quarta-feira, 18 de março de 2026

O wishful thinking do ativismo - ou uma filosofia para a vida


A filosofia, para muitas pessoas, não é um exercício intelectual, mas uma forma de respirar melhor dentro da condição humana. É nesse sentido que se pode fazer uma reflexão não propriamente política, mas existencial. O filosofar foi sempre um ponto de inquietação no pensamento clássico. Uma forma de conciliar com lucidez serena a agressividade do mundo com a escuridão do interior da alma. Quase toda a tradição filosófica gira em torno disto. Epicteto, Marco Aurélio e tantos outros estoicos fazem parte dessa família filosófica do estoicismo. Sofremos menos quando distinguimos o que depende de nós do que não depende. É, por assim dizer, uma forma de resignação passiva. É economia emocional. Posso agir → ajo. Não posso controlar → não me deixo consumir. É Marco Aurélio: "O mundo é instável por natureza, não por erro."

Outra via fascinante é o budismo, a libertação pela impermanência. O sofrimento nasce não apenas da dor, mas do apego à expectativa de que o mundo seja diferente do que é. Tudo muda. Tudo passa. Tudo é contingente. Não como tragédia, mas como estrutura da realidade. No budismo paira uma serenidade que nem é fixa nem niilista. Pensadores como Nietzsche ou Camus não ofereceram consolo, mas algo diferente: uma forma de dignidade diante do absurdo. O mundo é contraditório. A justiça é incompleta. O sofrimento persiste. Ainda assim há valor em viver, compreender, experimentar. É um ponto subtil que a idade frequentemente revela

Ora, o wishful thinking da eterna juventude nunca foi mais além do que apenas a busca de respostas. Só com o Tempo - esse grande escultor de Marguerite Yourcenar - se adquire a sabedoria. Com o Tempo, muitos descobrem algo diferente. A filosofia não elimina perguntas, transforma a relação com elas. Menos necessidade de fechamento. Mais tolerância à ambiguidade. A inquietação deixa de ser inimiga. Torna-se parte do modo de estar. “Filosofar é aprender a morrer" - disse Montaigne: relativizar urgências artificiais; diminuir medos imaginários; habitar melhor o presente. A consciência da finitude pode suavizar o peso das coisas.

Daí que o ativismo político banalize a natureza humana através da violência. Na juventude, essas tensões pesam muito. Na idade, a consciência do Tempo permite a retenção da lembrança que valoriza o que ainda é vivível com significado. Isso explica a serenidade paradoxal da vida já vivida. Inquietações permanecem, mas perdem a força que escraviza. Para Husserl, o Tempo não é apenas um relógio ou uma sequência de eventos externos. O Tempo é uma estrutura da consciência, algo que molda como tudo nos aparece. À medida que envelhecemos, as retenções acumulam-se em camadas profundas de memória vivida. As tensões diminuem em intensidade, porque a percepção do futuro mostra que ele está já aí. E o Presente torna-se mais o centro da experiência, menos acelerado por ambições longínquas. O resultado fenomenológico é o mundo aparecer com menos urgência e mais densidade qualitativa. As inquietações do velho perdem parte da tirania do jovem, não porque desapareçam, mas porque a estrutura temporal da consciência mudou.

Alguns historiadores e cientistas políticos dizem - em relação ao que está a acontecer agora - que faz lembrar outros ciclos ideológicos do passado ocidental, em que depois de uma grande vaga progressista se sucede uma reação conservadora. Que depois se segue um período mais estável, mais equilibrado, até que uma nova vaga aconteça. Isso já aconteceu várias vezes desde a 
Primavera dos Povos [Revolução de 1848] -- como ficou conhecido o período marcado por grandes levantamentos em vários países da Europa. Aconteceu após as Guerras Napoleónicas e não tinha uma única ideologia. O objetivo principal era acabar de vez com o Antigo Regime. Após essa onda de rebeliões, foram estabelecidas novas instituições jurídicas.

Entre cerca de 1870 e a Primeira Guerra Mundial, o mundo passou por mudanças económicas gigantes: segunda revolução industrial; urbanização rápida; crescimento de grandes corporações; enorme desigualdade social. Essas transformações criaram movimentos políticos populistas, especialmente entre agricultores e trabalhadores que se sentiam excluídos do novo sistema económico. Nos EUA surgiu o People's Party, que criticava: bancos; elites financeiras; concentração de poder económico. Era um discurso muito semelhante ao que hoje chamamos anti-elite.

E assim aconteceu depois no século XX, quando em 1968 surge uma enorme onda de protestos estudantis e culturais em todo o ocidente, embora com dois epicentros: Paris e São Francisco. Grandes manifestações de protesto contra a guerra no Vietname. Seguido de movimentos feministas e de contracultura. Esse período ficou associado à chamada Revolução Cultural dos anos 1960. Mas nos anos seguintes surgiu uma reação política forte que levou ao poder líderes conservadores como Ronald Reagan nos EUA e Margaret Thatcher no Reino Unido em resposta ao radicalismo cultural do chamado Maio de 68.


Depois do fim da Guerra Fria - assinalado pela Queda do Muro de Berlim em Novembro de 1989 - surgiu um período relativamente brilhante no Ocidente marcado por: globalização económica; multiculturalismo; integração europeia; expansão de direitos civis. Instituições, como a União Europeia, expandiram-se. Durante muitos anos acreditou-se que o liberalismo político e cultural iria expandir-se continuamente. A partir de meados da década de 2010 surgiu um novo ciclo político com forte reação populista marcada pela eleição de Donald Trump em 2016. E nesse mesmo ano o Brexit, cujo referendo sentenciou a saída do Reino Unido da União Europeia. E nesse sentido se verificou o crescimento de partidos nacionalistas na Europa. Essa reação foi alimentada por vários fatores: desigualdade económica; imigração; desconfiança nas elites; reação cultural a mudanças sociais rápidas.

Em 2026 já se está a debater o período depois do período "woke”. É, por conseguinte mais uma fase desse tipo de ciclo histórico. Curiosamente, alguns investigadores dizem que estes ciclos costumam durar cerca de 15–25 anos, porque correspondem à entrada de novas gerações na vida política. Há cientistas políticos que acreditam que o verdadeiro conflito atual já não é esquerda // direita, mas sim elites urbanas // classes médias e periféricas. E isso muda completamente a forma de entender a política atual.


Muitos cientistas políticos e sociólogos defendem hoje que o eixo principal da política ocidental mudou nas últimas décadas. Em vez da divisão clássica esquerda / direita económica, o conflito dominante estaria cada vez mais ligado a elites urbanas altamente educadas / classes médias e periféricas. Esta ideia aparece em vários estudos sobre populismo, desigualdade territorial e comportamento eleitoral.

Nas últimas décadas, a globalização beneficiou sobretudo: grandes cidades; setores ligados a tecnologia e finanças; pessoas com ensino superior. Enquanto muitas regiões rurais tiveram crescimento mais lento ou declínio económico. Esse fenómeno foi estudado por autores como Christophe Guilluy, que popularizou a expressão “França periférica” para descrever áreas fora das grandes metrópoles. Movimentos populistas de direita passaram a mobilizar principalmente: trabalhadores industriais; classes médias baixas; residentes de cidades pequenas ou zonas rurais. Isso foi visível em vários eventos: eleição de Donald Trump nos EUA; referendo do Brexit no Reino Unido; crescimento do Rassemblement National em França. Em muitos desses casos, mapas eleitorais mostram uma divisão geográfica clara: nas grandes cidades o voto vai para partidos mais progressista; nas periferias votam mais populista. O economista Thomas Piketty explica isso dizendo que a esquerda foi capturada pelas elites educadas.

Como resultado dessa mudança social, muitos debates políticos passaram a focar-se em: imigração; identidade cultural; globalização; mudanças sociais rápidas. Essas questões culturais tornaram-se mais importantes do que as económicas & mundo do trabalho. Por isso muitos analistas dizem que o conflito atual é mais sociocultural e territorial do que puramente económico.


Hoje vivemos outra transformação económica enorme: globalização das cadeias de produção; automação industrial; economia digital; concentração de riqueza em setores tecnológicos. Tal como no século XIX, muitas pessoas sentem que: perderam segurança económica; perderam influência política; elites globais tomam decisões importantes. Essa perceção alimenta movimentos populistas contemporâneos.


A verdadeira batalha ideológica do século XXI pode ser entre globalismo e nacionalismo, mais do que entre esquerda e direita. É uma mudança de eixo político bastante profunda. No debate político, “globalismo” costuma referir-se a uma visão que valoriza: integração económica global; comércio internacional; instituições multilaterais; mobilidade de pessoas e capital; cooperação internacional

A divisão não coincide perfeitamente com esquerda/direita. Um dos aspetos mais interessantes é que este novo eixo cruza as antigas divisões ideológicas. Globalistas podem ser: liberais económicos; social-democratas pró-EU; partidos centristas. Nacionalistas podem ser: conservadores culturais; populistas de direita; até alguns movimentos de esquerda antiglobalização. Por isso, as alianças políticas tornaram-se mais confusas.


Porque este conflito pode dominar o século XXI? Há várias razões estruturais: globalização económica criou vencedores e perdedores; imigração aumentou em muitas regiões; tecnologia conecta o mundo mas também gera competição; identidades nacionais continuam muito fortes. Isso faz com que debates sobre fronteiras, comércio e identidade cultural se tornem centrais.

Estamos possivelmente no início de uma grande mudança de ciclo político semelhante à de 1945 ou 1989. Momentos em que toda a ordem política internacional mudou. O Ocidente está possivelmente entrando numa grande mudança de ciclo político, comparável a momentos como 1945 (fim da Segunda Guerra Mundial) ou 1989 (queda do Muro de Berlim). Esses períodos marcaram reorganizações profundas da ordem política, económica e cultural.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando apenas um lado da boca sobe


Quando apenas um lado da boca sobe, formando um sorriso inclinado, muitas vezes indica: desprezo; superioridade; ironia. É uma das expressões mais associadas à emoção de desprezo nos estudos de expressão facial. Num debate pode transmitir: “esse argumento é fraco”; “isso não me impressiona”; “eu sei mais sobre este tema”. Muitos comentadores fazem isso quase inconscientemente quando sentem vantagem argumentativa.


A elevação de apenas uma comissura labial (um lado do lábio sobe e o outro fica neutro ou desce), criando um sorriso inclinado, é um gesto facial bastante estudado na área de Psicologia, Comunicação Não Verbal e na pesquisa sobre Linguagem Corporal.

No contexto de um comentador político em debate televisivo, essa micro expressão costuma ter alguns significados possíveis. Mas é importante lembrar que nenhum gesto isolado prova um estado mental com 100% de certeza. Um dos significados mais estudados é o desprezo. Pode indicar que a pessoa considera o argumento do outro fraco, ridículo ou inferior. Em debates políticos aparece quando alguém desvaloriza o adversário sem dizer diretamente. Esse gesto foi estudado, por exemplo, nas pesquisas do psicólogo Paul Ekman, que identificou expressões faciais universais.

Outra interpretação comum é ironia, quando o sorriso é assimétrico e acompanhado de sobrancelha ligeiramente levantada, e tom de voz controlado. Nesse caso a pessoa pode estar a ridicularizar subtilmente uma posição política e a a mostrar ceticismo em relação ao argumento do outro. O contexto importa muito. É preciso observar sequência de gestos, não apenas um. Também contam a voz, o olhar, a postura e o timing. Ou seja, uma expressão isolado não prova o estado psicológico, apenas sugere uma emoção provável.

Por exemplo, depois de um sorriso especialmente assimétrico, o levantamento simultâneo das duas sobrancelhas pode ter vários significados na análise de Comunicação Não Verbal. Pode ser sinal de ênfase ou pontuação do discurso. Em debates televisivos, levantar as duas sobrancelhas muitas vezes funciona como uma “pontuação visual”. A pessoa destaca um ponto que considera forte. O levantamento rápido das sobrancelhas está ligado à emoção de surpresa. Num debate político, porém, muitas vezes não é surpresa real, mas surpresa retórica, como se dissesse: “como é que alguém pode defender isso?” Serve para questionar implicitamente o argumento do adversário.

Existem várias micro expressões muito comuns em debates políticos televisivos que passam quase despercebidas ao público, mas que são bastante analisadas na Comunicação Não Verbal e na Psicologia. Muitas dessas expressões duram menos de 1 segundo.