Hoje, mais de três quartos da população mundial afirma ter uma afiliação religiosa. Em Portugal, de acordo com o último censo, cerca de 86% das pessoas recenseadas dizem-se religiosas. E a direita populista tornou-se o bastião da coesão perdida e o seu discurso político – entrecortado a cada frase pela interjeição “se Deus quiser” – ganhou uma forma messiânica na qual o líder, independentemente da sua imoralidade ou incoerência, se tornou um repositório de verdade e saber inquestionáveis. Ao usar os mecanismos psicológicos da religião, a direita alcançou a primazia na resposta ao mal-estar das sociedades modernas, oferecendo ao crente a possibilidade de renunciar à dúvida em troca da tal pertença.
A esquerda pode insistir que são precisas ideias concretas que resolvam os problemas reais das pessoas, que o Estado tem de funcionar na educação, saúde e trabalho. E que as minorias devem ser protegidas. Mas, se continuar a não compreender o outro lado – mais emocional, afetivo e religioso – irá por muitos anos ter de atravessar o deserto da irrelevância social e política.
Segundo uma análise de mais de 2.700 censos pelo Pew Research Center os cristãos em todo o mundo - 2,3 mil milhões - continuam o maior grupo religioso do mundo. Mas os cristãos não acompanharam o crescimento populacional global de 2010 a 2020. Durante esse período número de cristãos aumentou 122 milhões. No entanto, como fatia da população mundial - 28,8% - os cristãos caíram 1,8%. Os muçulmanos foram o grupo religioso que mais cresceu nesta década. O número de muçulmanos aumentou 347 milhões – mais do que todas as outras religiões somadas. A parcela da população muçulmana mundial atual é de 25,6%. Os budistas foram o único grande grupo religioso que tinha menos pessoas em 2020 do que em 2010. O número de budistas no mundo caiu 19 milhões, descendo para 324 milhões. O número de hindus aumentou em 126 milhões, atingindo 1,2 mil milhões. Como proporção da população global, os hindus constituem 14,9% do total. Os judeus também mantiveram uma parcela estável da população mundial. O número de judeus no mundo cresceu em quase 1 milhão, alcançando 14,8 milhões. Em termos percentuais, os judeus foram o menor grupo do estudo, representando cerca de 0,2% da população mundial. As pessoas sem filiação religiosa, tal como os mulçumanos, cresceu na percentagem da população mundial. O número de pessoas sem filiação religiosa - 1,9 mil milhões (24,2% do total) - aumentou 270 milhões.
Em 2020 - 75,8% das pessoas de todo o mundo identificavam-se como crentes religiosas. Os 24,2% restantes não se identificaram com nenhuma religião. As pessoas sem filiação religiosa constituem o terceiro maior grupo deste estudo, atrás apenas de cristãos e muçulmanos. Entre 2010 e 2020, a parcela da população global que vive na África Subsaariana aumentou 14,3%. E a região do Próximo e Médio Oriente subiu 5,6%. A África Subsaariana agora abriga o maior número de cristãos, superando a Europa. Em 2020, 30,7% dos cristãos do mundo vivem na África Subsaariana, em comparação com 22,3% na Europa. Essa mudança deve-se à diferença nas taxas de fertilidade. Os não religiosos estão em "desvantagem demográfica", com baixíssimas taxas de natalidade.
A concentração regional de judeus também mudou. Em 2020, 45,9% dos judeus vivem na região do Médio Oriente, enquanto 41,2% residem na América do Norte. Em 2010, a América do Norte era a região onde vivia o maior número de judeus. Essa mudança foi principalmente resultado do crescimento da população judaica de Israel de 5,8 milhões para 6,8 milhões entre 2010 e 2020, por meio de uma combinação de crescimento natural e migração.
Os Estados Unidos, em 2020, são o país com o segundo maior número de pessoas sem filiação religiosa no mundo (depois da China), superando o Japão. Tanto em 2010 como em 2020, a China é o país com o maior número de pessoas sem filiação religiosa, cerca de 90%. Agora há menos países de maioria cristã, e mais países em que a maioria não é religiosa. Os cristãos caíram abaixo de 50% da população no Reino Unido (49%), Austrália (47%), França (46%) e Uruguai (44%). No mesmo período, pessoas sem filiação religiosa tornaram-se maioria na Holanda (54%), Uruguai (52%) e Nova Zelândia (51%), elevando o número de países com maioria não religiosa. Esses países juntaram-se à China, Coreia do Norte, República Checa, Hong Kong, Vietname, Macau e Japão - que já tinham maiorias sem filiação religiosa em 2010.
Esta mudança global é influenciada por vários fatores demográficos. Países mais jovens são mais religiosos. Países mais envelhecidos são menos religiosos. É a demografia com a fertilidade e a mortalidade invertidas. A desfiliação religiosa é o principal motor do declínio, A desfiliação religiosa – principalmente afetando os países cristãos - acompanha o inverno demográfico. Em contrapartida, o aumento da população muçulmana global deve ao facto de os muçulmanos terem uma estrutura etária inversa da dos cristãos. Além disso, a migração muçulmana para países cristãos é mais um dado a acrescentar ao fenómeno da natalidade. A maioria dos muçulmanos que emigraram para os países cristãos mantiveram a identificação da religião do país onde nasceram. Ao passo que esses países ditos cristãos são aqueles em que se verifica a maior taxa de pessoas em que deixaram de acreditar, isto é, passaram a ser incréus, ainda que à nascença tenham sido batizados cristãos. Portanto, a categoria não afiliada na religião teve o maior ganho líquido devido ao abandono.
Os cristãos são o grupo mais disperso geograficamente. A maior parcela de cristãos vive na África Subsaariana (31%), seguida pela região da América Central e do Sul (24%). Na Europa a percentagem é de 22%. Essa é a grande mudança geográfica desde o início do século XX. Nessa altura os cristãos na África subsaariana não ultrapassavam 1% da população cristã global. Dois terços dos cristãos viviam na Europa. Em 2020, os muçulmanos têm a maior percentagem de crianças. 33% de todos os muçulmanos no mundo têm menos de 15 anos. Os judeus e os budistas são aqueles que têm uma maior percentagem de velhos, com 36% da população acima dos 50 anos de idade.
Os cristãos sofreram as maiores perdas líquidas com o abandono. A maioria não se identifica mais com nenhuma religião. Budistas também tiveram mais pessoas a sair do que a entrar. Os hindus tiveram também mais pessoas a sair do que a entrar. Ao passo que em relação à religião islâmica verifica-se o inverso. As pessoas nas regiões mais ricas do mundo são, em média, menos religiosas do que aquelas em sociedades com economias menos avançadas. Por exemplo, pessoas em países mais ricos e com maior esperança de vida ao nascer praticam menos o culto religioso. Para obter uma noção mais geral desse padrão, é útil analisar as pontuações dos países no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas, que combina dados sobre expectativa de vida, educação e rendimento. Os países com altos índices de IDH (ou seja, aqueles mais desenvolvidos) tendem a ter taxas menores de filiação religiosa. Em muitos desses países, o cristianismo é a religião mais comum. Em alguns países asiáticos com altos índices de IDH e baixas taxas de afiliação, o budismo é a maior religião. Em alguns países, a categoria não afiliada religiosamente está a aproximar-se ou já supera o maior grupo religioso em tamanho. Países com baixas pontuações de IDH, por outro lado, tendem a ter altas taxas de filiação religiosa.