domingo, 25 de fevereiro de 2024

A grande diversidade de casos: transexualidade - transgénero - homossexualidade



Um caso : J.B., de 37 anos, casada há 15 anos, com um homem de nome João, parece não ter ficado muito surpreendida quando ele revelou que era um “transgénero” e se identificava como uma mulher. O caso é insólito porque nessa altura, ao saber disso, decide também revelar o seu segredo: que é lésbica. Ora eles têm dois filhos, um de 11 e outro de 13, e decidem continuar o casamento como até ali, exceto João ter mudado o nome para Sara, e ter encetado o processo hormonal para completar a transição. Entretanto, o filho mais velho, aos 15 anos, revelou que se considerava homossexual, e o mais novo começou a ficar confuso.

A maioria das pessoas trans receberam, como toda a gente, o mesmo conjunto de normas, doutrinas, regras, que supostamente fazem deles e delas homens e mulheres heterossexuais. Mas, a certa altura, tomam consciência de que algo não funciona e afirmam‑se gays, lésbicas, trans. Muitas vezes as coisas acontecem, por acaso, se entram em meios apropriados onde existem outras pessoas queer e trans e, conversando, automaticamente passam a identificar-se com elas, tendo vontade de fazer a mesma coisa. É difícil fazer generalizações sobre a transição porque os percursos de cada uma são muito diferentes.

Outro caso : Erina, depois de alguns anos passados em São Petersburgo, onde dava apoio à comunidade homossexual chechena, acabou por ir para Paris com o estatuto de refugiada política. Aí se apaixonou por uma mulher: «Não posso mudar os meus desejos, mas posso mudar quem sou, de certo modo. Quando saía com homens, tinha o cabelo rapado, com roupas muito masculinas. Ainda tenho o hábito de usar o género masculino em russo. Mas percebi a certa altura que não se pode ser nem homem nem mulher se quiser ser atraente para homens ou mulheres. Tinha a escolha de fazer uma transição ou de, então, abraçar o meu lado feminino, ir mais além na minha feminilidade. A minha disforia (o meu problema com relações heterossexuais) era provocada somente por razões sociais e não por um conflito com o meu corpo.»

Erina apaixonou-se por uma mulher trans, que era homem e não se sentia bem como homem heterossexual, e hoje assumem que formam um casal heterossexual. Uma simetria em espelho perfeita, pois Erina também não se sentia bem como uma mulher heterossexual. Ou seja, um casal formado por uma mulher que passou a homem, e um homem que passou a mulher. Diz Erina: «As pessoas procuram ora mulheres, ora homens, e não uma coisa qualquer. Queria ser atraente. Se eu quisesse sair com um homem — porque às vezes me sinto atraída por homens — os heterossexuais tinham medo de mim, porque eu exigia que me tratassem pelo género masculino (coisa impossível, sobretudo para os Russos). Como eu dizia que era do género masculino, até havia homens homossexuais que se sentiam atraídos por mim. Mas depois desistiam, porque o meu corpo não era suficientemente masculino.»

Podem acontecer, nestes meios muito especiais, relacionamentos duplamente cruzados que para uma comum pessoa “cis” se afiguram bizarros, ou até aberrantes. É, por exemplo, o caso de um homem trans (corpo de mulher) poder ter sexo com um homem, mas não ser capaz de uma relação amorosa em que o que conta é a identidade de género para o amor. A pessoa trans é atraente enquanto fetiche, mas não enquanto alguém com quem possa passear orgulhosamente na rua; como algo que pode usar para satisfazer uma qualquer fantasia e não como alguém a quem dá a mão em público e tem vontade de apresentar como namorada ou namorado.

E Erina aprofunda a questão: «Autocensurava a minha sexualidade por não ser uma lésbica normal, com os seus pequenos desejos sexuais, passiva e submissa. O que me conduziu a situações, em termos de consentimento, bastante perigosas e sobretudo a uma sexualidade de modo nenhum satisfatória. Há, claro, homens trans cujo objetivo é tornarem‑se homens e ponto final. Falo dos que estão no meio queer, que fazem a transição para uma aparência e atitude masculinas, mas que não querem ser homens. Que querem aliar esses elementos com a preservação da identidade lésbica de antes da transição, não de modo a mudar de categoria, mas como maneira de se reapropriar do seu corpo, da sua autoconfiança, de se livrarem das contingências do feminino.»

Gosta de homens porque gosta de pénis, ou gosta de pénis porque gosta de homens? A comunidade lésbica tem esta discussão recorrente: é ou não transfóbica uma lésbica não querer ir para a cama com uma mulher transexual? O facto de uma mulher lésbica associar a sua atração por outras mulheres, que obviamente têm vagina, é frequente mulheres transexuais (cujo órgão sexual é obviamente um pénis) apontarem essas lésbicas como transfóbicas. As mulheres transexuais criticam as mulheres lésbicas por pressuporem que todas as mulheres lésbicas devem gostar de vaginas, uma vez que as mulheres heterossexuais obviamente que só gostam de pénis. Asseveram que a coisa é mais complexa.




Um ano depois de passar pela cirurgia de mudança de sexo, vê-se nesta foto Talleen Abu Hanna no palco em HaBima, teatro nacional de Israel em Tel Aviv, 27 de maio de 2016, depois de ter sido anunciado o primeiro lugar no concurso de beleza “Miss Trans Israel”. Nasceu rapaz. E ainda menino, em Nazaré, deixou o caraté para ir fazer balé. Quando adolescente roubava a maquilhagem à mãe e os vestidos à irmã. E um dia teve uma epifania quando conheceu uma senhora "trans" que ao contar a sua história lhe fez abrir os olhos para uma realidade que desconhecia.

A diversidade conceptual à volta do tema é imensa. Todavia, ninguém está livre nos dias de hoje de cometer uma gafe sem perdão, pois cada vez o mundo da identidade de género é mais complexo, e é muito fácil no dia-a-dia não sabermos muito bem qual é a expressão de género, ou a orientação sexual que temos pela frente. Em termos simples: numa pessoa “trans”, a sua identidade de género é diferente da que lhe foi atribuída aquando do nascimento. Estamos de facto a lidar com o sentimento mais profundo do ser de uma pessoa: ser homem, ser mulher, ou "agénero". Uma pessoa "agénero" não se sente nem totalmente masculina, nem totalmente feminina. Assim, estas pessoas ora se identificam com um género, ora com o outro. As pessoas que não se identificam com nenhum género também se definem pelo termo “não-binário”.

Em que é que a mulher é diferente do homem?

O neodarwinismo tem de avançar, embora com cautela, é claro. A diferença entre um homem e uma mulher assente exclusivamente na construção cultural sempre pareceu implausível, por muito amplamente aceite que se tenha tornado durante algum tempo. Dispomos atualmente de provas diretas da existência de diferenças não apenas no aspeto físico, mas também ao nível mental e emocional. E afirmar que os homens e as mulheres são diferentes não significa que tudo esteja preso a sete chaves nos genes. Se a ciência está a mostrar-nos que os homens e as mulheres são diferentes, não é para fazer regredir a constituição dos direitos, nem para justificar a supremacia de um em relação ao outro. Temos apenas o direito de saber que assim é, e não atravancar as nossas mentes com fósseis culturais.

Tudo começa no útero materno, com um banho hormonal por volta da 12ª semana de gestação. Até aí todos os fetos são femininos. E é então que, com hormonas masculinas a banharem o cérebro do feto, a partir de um determinado teor começa a masculinidade. E o cérebro reorganiza-se de forma a definir o género: feminino ou masculino.

É possível que as crianças (rapazes ou raparigas) já nasçam com as suas orientações e preferências, determinadas pelo género que está definido no cérebro. E assim são levadas a procurar diferentes experiências conforme o género. As raparigas, mais expeditas desde o primeiro dia na captação das expressões emocionais, se o desenvolvimento gradual se processar coerentemente, tornar-se-ão provavelmente mais competentes que os rapazes na inteligência socio-emocional. No entanto, se as raparigas estiveram a expostas durante a gestação a níveis desajustados de hormonas masculinas, mais elevados, poderão ser capazes de na fase adulta competir atleticamente com mais vantagem sobre as outras, que pode ser indiciada pela preferência na infância por brinquedos destinados aos rapazes.

Entre os 8 e os 12 anos, temos mais indícios das diferenças, com a emergência das competências espaciais mais robustas nos rapazes. Se, entretanto, não houver condicionamentos na aprendizagem, predomina a preferência orientada pelo instinto. Na realidade, acreditando na seriedade dos trabalhos de investigação científica, é crescente o número de publicações científicas, agora com a utilização de exames facilitados pelas sondas de ressonância magnética de última geração, a atestar consistentemente diferenças na atividade cerebral. Por exemplo, no que concerne a competências linguísticas, a mulher leva a melhor, sobretudo no âmbito do namoro, quando se trata da escolha do parceiro.

Um outro capítulo que se presta a muita confusão é o da identidade de género e orientação sexual. São dimensões diferentes dos nossos biótipos, que não se confundem, pelo que também temos de os abordar com conceitos distintos. Género é uma categoria social e cultural, remete à forma como as pessoas se autodefinem (como mulheres ou como homens). Sexo é uma categoria biológica, remete para a questão da sexualidade, do desejo, da atração afetivo-sexual por alguém de algum género. A categoria do sexo é definida por aspetos biológicos: sexo feminino e sexo masculino. O conceito de género remete para significados sociais, culturais e históricos, associados aos sexos. O que acontece, na realidade, são pessoas que o seu corpo não é sentido da forma como pensam o género que são. Isso tem a ver com o uso de roupas, objetos, maquilhagem, etc.




Assim, a intersexualidade deve ser assumida como uma variação e não como uma patologia. As pessoas intersexuais apresentam um corpo com variações mistas do biótipo do sexo masculino e feminino. Isto refere-se não só aos órgãos genitais ou gónadas, em que não apresentam um padrão totalmente feminino ou masculino, e que entram na classificação de hermafroditas verdadeiros ou pseudo-hermafroditas. Tal dificuldade só é dirimida pela análise ou cromossómico.

A Assembleia da República já legislou sobre a matéria da Identidade de Género. Hoje, uma pessoa de 16 anos de idade já pode alterar no registo civil o seu nome para se coadunar mais com o tipo de género que se sente, e sem precisar de um atestado médico ou consentimento dos pais. O objetivo é tornar Portugal num país mais respeitador dos direitos humanos das pessoas transexuais e transgénero, bem como a previsão do reconhecimento civil das pessoas intersexo. O direito à autodeterminação de género e à expressão de género, tendo ficado de fora o género neutro. Não está, portanto, relacionado com a orientação sexual.




Crossdressers e/ou travestis não tem nada a ver com transexualidade ou transgénero, ou homossexualidade. É um protótipo para referir pessoas que vestem roupa ou usam objetos associados ao sexo oposto, por qualquer uma de muitas razões, desde vivenciar uma faceta feminina (para os homens), masculina (para as mulheres), motivos profissionais, para obter gratificação sexual, etc. Um travesti pode ser heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual. E, por exemplo, o homossexual, ao contrário do ‘trans’ não apresenta disparidade psicológica com o sexo físico/biológico que possui. Portanto, os transformistas fazem parte da população crossdresser, cuja motivação é apenas de índole profissional, atores de espetáculos de transformismo. A expressão "drag-queen" significa DRessed As Girl.

Quando a criança passa do estado de natureza ao estado de sujeito, se, entretanto, interiorizou uma situação de injustiça, admite-se que possa gerar-se um conflito identitário movido pelo sentimento de relação de desigualdade. Até à aquisição do sujeito há uma indiferenciação proto social que não se reconhece como ente sexuado. A identidade é descoberta na sociedade. Não deve ser por acaso que em certas culturas do passado era o pai a levar o filho à iniciação da sua sexualidade.

Instaura-se assim um equívoco em todo o sistema da linguagem por via de uma imagem que não passa de um espectro. O funcionamento da espectralidade funda-se então, na crença da transcendência do corpo físico. Os espectros formam-se quando a imaginação corpórea funciona e age sobre um fundo de nada, uma imagem sem corpo. Para que os corpos continuem são sempre necessários homens e mulheres. Mas os espectros da transcendência são como os deuses, não há géneros puros, como nos mostra a etnologia.

Salvo raras exceções, a identidade de género é atribuída à nascença pelos órgãos genitais. Há casos em que por uma qualquer disjunção assimétrica entre o corpo e o sentimento o indivíduo sente-se num género diferente ao que é ditado pelo corpo. Assim, tal fenómeno é desencadeado como um espectro. O espetro é como um signo de uma coisa não existente. O espectro aparece para significar o que não nasceu por um movimento de disjunção. O espectro será simultaneamente signo e significado, que se atribui parcialmente como um ente que não é. A clivagem na identidade de género vem de um movimento de disjunção assimétrica. O outro género não é o contrário, nem o avesso, nem o inverso. Autoidentifica-se parcialmente como um ente que não é.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

União Soviética de Stalin, a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler



As três ditaduras dinâmicas — a União Soviética de Stalin, a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler — eram na prática formas de governo bastante distintas, embora tivessem alguns aspetos estruturais em comum. O regime de Stalin distingue-se claramente dos outros dois, que partilham um maior número de características (além do facto de a Alemanha nazi ter tomado “emprestados” alguns elementos da Itália fascista), ainda que também apresentem diferenças cruciais. O único dos três regimes a declarar explicitamente que estava construindo um “estado totalitário” foi o de Mussolini. No entanto, a “reivindicação total” teve, de forma incontestável, consequências tremendas para o comportamento dos cidadãos em sociedades orquestradas e controladas de forma tão rígida.

Em cada um dos três regimes tentou-se, incessantemente, moldar atitudes e comportamentos de acordo com princípios ideológicos excludentes. A identidade com o regime era sustentada e fortalecida pela ênfase no “inimigo interno” — os “excluídos”, cuja própria existência levou à criação de uma comunidade de “incluídos”, aqueles que estavam “integrados”. A sociedade italiana foi a que menos se impregnou dos valores do regime; e o grau de impregnação, com toda probabilidade, foi maior na Alemanha.

Com base nos indicadores disponíveis, a Alemanha nazi teve o mais alto nível de apoio popular, e a Itália ficou a certa distância, enquanto a União Soviética tinha a maior população coagida, o que parece indicar um menor índice de apoio autêntico. Para as pessoas aterrorizadas pelo Estado policial, as diferenças ideológicas ou estruturais entre os regimes eram uma questão da mais absoluta indiferença. A União Soviética exercia um extraordinário nível de terror dirigido a seus próprios cidadãos, muito mais que os outros dois regimes, uma dissuasão arbitrária e imprevisível não repetida em nenhum outro lugar. O terror nazi concentrava-se em sufocar a oposição política organizada e, cada vez mais, em minorias fracas e pequenas — em especial os judeus e outros grupos raciais ou sociais “excluídos”.

Depois de mais de uma década de governo fascista, a lacuna entre a retórica e a realidade era considerável, e o objetivo de uma totalidade de Estado e sociedade permaneceu ilusório. Havia pouca determinação impulsora por trás das ações do regime. Mesmo a guerra colonial e a vitória na Abissínia, embora o triunfo fosse bem-visto, tiveram somente um efeito superficial sobre a postura dos italianos e mobilizaram a população por pouco tempo. Apesar da beligerância de Mussolini e da cúpula fascista, havia pouco interesse pela perspetiva de guerra e glória militar, e com certeza pouca disposição de suportar as agruras e o sofrimento de um conflito.

Ao contrário do que ocorria na Itália, o impulso ideológico na União Soviética era fortíssimo. Avanços colossais, a um enorme custo humano, tinham sido feitos para mobilizar a economia estatal, reestruturar a produção agrícola e industrializar o país em ritmo mais que acelerado. Por trás da notável rapidez dessas medidas estava a presunção de uma guerra que não demoraria a acontecer. Todavia, à diferença da Alemanha e até da Itália, o foco estava na preparação da economia e da sociedade para a defesa militar da União Soviética, e não para a agressão externa (embora a ocupação dos países bálticos e, talvez, do oeste da Polónia fosse levada em conta, confessadamente, como parte da construção de um cordão defensivo). A União Soviética não se achava, de maneira alguma, pronta para um conflito de vulto, embora o próprio Stalin infligisse sérios desfalques ao Exército Vermelho com os grandes expurgos.

O dinamismo ideológico de Hitler avulta sobre o dos outros dois regimes, tanto na nitidez do foco de sua perseguição cada vez maior dos “inimigos” externos, sobretudo os judeus, como em sua intensa preparação para o conflito militar num futuro próximo — preparações que eram de natureza claramente agressivas, e não defensivas. A Alemanha tinha a economia mais avançada da Europa, uma economia que vinha sendo orientada rapidamente e cada vez mais para a guerra. E contava também com a mais eficiente liderança militar.

Juntas, as três ditaduras viriam a desempenhar um papel fundamental no desenho do continente europeu nos anos vindouros, mas os governantes das democracias ocidentais consideravam, corretamente, que a maior ameaça era a Alemanha. Na época, Stalin era visto como um perigo sobretudo para seu próprio povo, enquanto Mussolini era uma ameaça em especial para os povos subjugados das colónias italianas na África e fonte de imprevisibilidade no Mediterrâneo. Hitler ameaçava os judeus alemães, mas, da perspetiva internacional, era acima de tudo um perigo gigantesco e crescente para a paz na Europa.

O governo britânico, em especial, desconfiava da União Soviética e lhe era antagónico, abominando seu sistema social e vendo com perplexidade os expurgos de Stalin. A Itália era considerada um problema controlável no Mediterrâneo, cada vez mais hostil aos interesses ocidentais, mas não uma ameaça grave por si só. A principal e crescente fonte de preocupação era a Alemanha, com um povo unido e liderado por um ditador de implacável determinação, um país que se rearmava depressa e cujas forças já estavam perto de superar o poderio militar da Primeira Guerra Mundial. Em 1914, a Inglaterra tinha ido à guerra principalmente para evitar que a Alemanha dominasse a Europa e para proteger o seu império de suas pretensões à condição de potência mundial. Tudo indicava que em pouco tempo a história se repetiria.

Mas em julho d 1936 o general Franco lançou sua rebelião contra a república espanhola, e em pouco tempo ganhou o apoio de Hitler e de Mussolini, enquanto Stalin dava apoio às forças republicanas. Os ditadores, em lados opostos da Guerra Civil Espanhola, estavam testando as suas forças. Mais uma vez, as democracias ocidentais revelariam sua fraqueza. O envolvimento das grandes potências na Guerra Civil foi o mais claro sinal, além da tragédia nacional para o povo espanhol, de que a ordem internacional da Europa estava entrando em colapso.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

O enganador culto do medo. Alexei Navalny morreu





Pode impressionar qualquer pessoa a ocidente dos Montes Urais a forma como os cidadãos da Coreia do Norte adoram o seu líder. Mas esse fenómeno humano não é assim tão raro como se possa imaginar. Um caso que já foi exaustivamente estudado foi o culto a Stalin, ainda por cima com a propaganda que na União Soviética se abominava o culto de personalidade, lenda que o Partido Comunista Português importou para Portugal. Ainda hoje os líderes do PCP difundem o argumento de que a personalidade não interessa, o que interessa são as propostas concretas para resolver os problemas aos cidadãos.

A imagem de uma liderança forte e resoluta correspondia às qualidades pelas quais milhões de cidadãos soviéticos ansiavam depois de anos de conflitos. E, embora a União Soviética fosse oficialmente uma sociedade ateísta, tradições enraizadas profundamente na fé popular — num censo realizado em 1937, 57% dos cidadãos soviéticos ainda declararam ser religiosos, informação mais tarde suprimida — levavam a elementos quase sacros no culto a Stalin, e uma fé em sua pessoa como profeta, salvador ou redentor.

O culto criou, sem dúvida, a base de uma popularidade genuína, ainda que isso não possa ser quantificado. Essa base foi de incontestável importância na consolidação de seu domínio. Contudo, houve um fator muito mais importante: o medo. O poder pessoal de Stalin se baseava, acima de tudo, na precariedade de toda a autoridade subordinada, cada vez mais sujeita a suas decisões arbitrárias quanto à vida ou à morte. O regime dependia, na prática, da insegurança difusa que permeava toda a sociedade soviética. Essa insegurança alcançou novos patamares durante o “grande terror” que acompanhou os expurgos de 1937/1938.

Já durante o Primeiro Plano Quinquenal houvera inúmeros casos de violência e prisões. Mesmo em 1933, mais de 1 milhão de “elementos antissoviéticos” foram mandados para campos de concentração e cárceres. A extrema insatisfação de Stalin com o que considerava ser a oposição, no âmbito municipal, ao ritmo acelerado das mudanças económicas causou a expulsão de mais de 850 mil membros do partido em 1933. Havia tensões também nos altos escalões do partido. Alguns de seus dirigentes queriam reduzir as pressões sobre a economia, e havia indícios de que Stalin não podia mais contar com o apoio incondicional da cúpula do partido. Alguns líderes depositavam suas esperanças em Serguei Kirov, o popular chefe do partido em Leningrado e membro do Politburo. Em 1934, porém, ele foi morto a tiro em seu gabinete.

O assassino, foi o Leonid Nikolaiev, alegadamente por razões pessoais. Contudo, Stalin estava em busca de complôs políticos. Nikolaiev foi interrogado rapidamente e fuzilado. Quaisquer que fossem as suspeitas existentes, o envolvimento de Stalin no assassinato de Kirov nunca foi comprovado. Mas ele não perdeu tempo em tirar proveito da morte de Kirov. Deu à polícia do Estado, a NKVD, autoridade para prender, julgar e executar à vontade. Mais de 30 mil opositores, reais ou supostos, foram banidos de Leningrado para a Sibéria ou outras áreas remotas. Quase 300 mil membros do partido foram expulsos nos cinco meses seguintes. E a paranoia crescente não seria amenizada pelos relatórios da polícia logo após o assassinato de Kirov. Também Zinoviev e Kamenev foram condenados à morte e fuzilados em agosto de 1936.

Os dois foram os primeiros entre os antigos líderes bolcheviques, membros do Comité Central, a ser expurgados. Mas houve outros. Seguiram-se, em 1938, o julgamento-espetáculo de Bukharin e sua inevitável execução. Os membros do Comité Central viviam com medo, e com bons motivos. Nada menos que 110 de 139 membros, considerados “não confiáveis”, foram presos — o que geralmente acabava em execução ou numa vida nada invejável no gulag, a rede de prisões e campos de trabalhos forçados que recebia políticos dissidentes.

Também foram presos dirigentes do partido e do Estado em praticamente todas as repúblicas nacionais da União Soviética. Dos 1966 delegados que participaram do Congresso do Partido em 1934, 1108 foram presos. Stalin estava destruindo o próprio Partido Comunista como base de poder independente. Os expurgos vitimaram também grande número de administradores, cientistas e engenheiros — um dos motivos pelos quais o crescimento económico chegou ao fim depois de 1937.

Uma vez desencadeados, os expurgos ganharam vida própria. Em 1937, a NKVD deu ao Politburo uma meta de 250 mil pessoas a serem presas. Mais de 70 mil seriam fuziladas, e as demais sentenciadas a longas penas em prisões ou campos de trabalhos forçados. No fim de 1938, quando os expurgos declinaram (talvez porque o enorme número de vítimas estivesse reduzindo a produção industrial), a meta tinha sido ultrapassada em muito. O número de presos chegara a quase 1,5 milhão, e cerca de 600 mil pessoas haviam sido fuziladas. Até o expurgador-mor, o chefe da polícia de Stalin desde 1936, Nikolai Yejov, apelidado Ouriço de Ferro, foi preso em 1939 e executado no ano seguinte. Em 1939, o número total de presos em cadeias e campos e colónias de trabalhos forçados, onde as condições estavam mais perto da morte que da vida, era de quase 3 milhões. A taxa de mortalidade por fome, excesso de trabalho e execuções arbitrárias era colossal.

Stalin era uma pessoa extremamente vingativa, fria e cruel. Era dado a fantasias paranoicas — que geravam por si só factos que davam a Stalin motivos racionais para duvidar de sua própria segurança. Milhões de apparatchiks ambiciosos e cidadãos servis tornavam o terror efetivo em todos os níveis da sociedade. Para cada vítima do terror havia pessoas que lucravam por servir ao regime. Inquestionavelmente, havia também a convicção generalizada, estimulada pelo regime, de que a União Soviética estava infestada de “agitadores”, “sabotadores”, “nacionalistas”, “kúlaques”, espiões e agentes inimigos. Por isso, eram muitos os que aplaudiam o terror destinado a extirpar os “oposicionistas”, o que fortalecia nessas pessoas a identificação com a tarefa épica de construir uma sociedade socialista e confirmava a fé que tinham em Stalin. Até muitas pessoas que sofriam perseguição e discriminação procuravam desesperadamente uma sensação de pertencimento, associando-se aos valores soviéticos.

As denúncias eram incentivadas em todos os campos. A menor observação “desviacionista” podia provocar a temida batida na porta no meio da noite. “Acordo de manhã e penso automaticamente: graças a Deus não fui presa na noite passada”, escreveu uma mulher de Leningrado em seu diário, em novembro de 1937. “Eles não prendem pessoas de dia, mas o que vai acontecer à noite, ninguém sabe.” Outro cidadão de Leningrado, um operário de fábrica, ficava acordado, com medo de ouvir o barulho do motor de um carro. “Eles vieram me buscar!”, seu filho se lembrava de ouvi-lo dizer sempre que escutava um veículo passando na rua à noite. “Ele estava convencido de que seria preso por alguma coisa que tinha dito. Às vezes, em casa, ele xingava os bolcheviques.” A chegada da polícia era aterrorizante. “De repente, vários carros entraram no quintal”, lembrou o filho de Osip Piatnitski, bolchevique veterano e no passado companheiro leal de Lenine, narrando a prisão do pai. “Homens de farda e à paisana saltaram e caminharam em direção às escadas […]. Naquele tempo, muitas pessoas esperavam ser presas, mas não sabiam quando chegaria a sua vez.” O medo da denúncia criava uma sociedade silenciosa. “As pessoas só conversam em segredo, nos bastidores e em particular. As únicas pessoas que expressam suas opiniões em público são os bêbados”, registou um homem em seu diário em 1937.

As denúncias não eram necessariamente políticas. Podiam render promoções na carreira e vantagens materiais diretas. Eram também uma dádiva dos céus para ajustes de contas: um conflito com vizinhos, uma discussão no trabalho ou o rompimento de um relacionamento íntimo. Um exército de informantes, alguns pagos ou subornados, alguns forçados a cooperar por meio de chantagem, muitos apenas colaboradores voluntários, deduravam pessoas à polícia. Seguiam-se, invariavelmente, a prisão, o exílio, o campo de trabalhos forçados ou a execução. Na população carcerária, grande parte da qual ignorava seus próprios “crimes”, estavam representados todos os setores da sociedade. Em 1937-8, ninguém estava em segurança na sociedade soviética, desde o mais humilde camponês até os membros do Comitê Central. De facto, a elite do partido estava entre os de maior risco. Nem mesmo os entusiastas de Stalin podiam ter certeza de que em algum momento não ouviriam socos noturnos na porta, dados por policiais que vinham buscá-los.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

David Ben-Gurion e Wasif Jawhariyyeh




Ben-Gurion no kibbutz Sde Boker, 1953


Ben-Gurion nasceu com o nome de David Grün na Polónia, que era então parte do Império Russo. Seu pai, Avigdor Grün, foi um advogado e um líder no movimento Hovevei Zion. Quando estudava na Universidade de Varsóvia, ingressou no movimento marxista Poale Zion, em 1904. Foi preso duas vezes durante a Revolução Russa de 1905. Atormentado pelo antissemitismo do Leste Europeu, tornou-se socialista e emigrou para Palestina em 1906. Ali tornou-se um importante líder da Poale Zion (Trabalhadores de Sião).
Os pogroms estimularam David Grün a embarcar num dos navios de peregrinos que partia de Odessa e viajar para a Terra Santa. Em 1909, esses colonos fundaram Tel Aviv nas dunas de areia próximas ao antigo porto de Jaffa; em 1911, criaram no norte uma nova fazenda coletiva — o primeiro kibutz.

Após sua chegada, Grün levou muitos meses para visitar Jerusalém; em vez disso, trabalhou nos campos da Galileia, até que, em meados de 1910, o rapaz de 24 anos mudou-se para Jerusalém para escrever num jornal sionista. Magro e pequeno, cabelo crespo e sempre vestindo uma bata rubashka russa para enfatizar suas credenciais socialistas, adotou o pseudónimo “Ben-Gurion”, emprestado de um dos lugares-tenentes de Simão bar Kochba. A velha camisa e o novo nome revelavam os dois lados do emergente líder sionista.

Na Palestina, trabalhou pela primeira vez na agricultura, na colheita de laranja. Em 1909, passou a participar da Hashomer, uma força de voluntários que ajudavam a proteger as comunidades judaicas agrícolas isoladas. Em 7 de novembro de 1911, Ben Gurion chegou a Salonica, a fim de aprender turco para os seus estudos de Direito. A cidade, com uma grande comunidade judaica, impressionou Ben Gurion com o comentário de ser uma cidade judaica sem igual no mundo. Também percebeu ali que os judeus eram capazes de todos os tipos de trabalho, desde ricos empresários a comerciantes, artesãos e porteiros. Também trabalhou como jornalista, adotando o nome hebraico Ben-Gurion, quando iniciou a sua carreira política. Em 1915 ele e Ben-Zvi foram expulsos da Palestina, então ainda sob o domínio do Império Otomano. Passando a viver em Nova Iorque em 1915, conheceu Paula Munweis, nascida na Rússia, com quem viria a casar em 1917. Depois do fim da Primeira Guerra Mundial regressou então à Palestina, nesta altura já sob controlo da Grã-Bretanha.

O pai de David Grün já era um líder local dos Amigos de Sião, precursor do movimento sionista, e um aguçado hebraísta, de modo que David aprendeu hebraico desde tenra idade. Mas David, como muitos outros sionistas, ficou chocado quando leu que Herzl havia aceitado a oferta do Uganda, no Sexto Congresso Sionista. O plutocrata austríaco barão Maurice de Hirsch financiava colónias judaicas na Argentina, e o nova-iorquino Jacob Schiff promoveu o Plano Galveston, uma Estrela Solitária de Sião para judeus russos no Texas. No entanto, nenhum desses esquemas floresceu. Herzl, exausto de suas peripatéticas viagens, morreu logo depois, com apenas 44 anos. Ele obtivera êxito em estabelecer o sionismo como uma das soluções para a atribulação judaica, particularmente na Rússia. O jovem David Grün chorou a morte do herói Herzl. Mas cedo percebeu que o meio mais eficaz era o povo judeu estabelecer-se na terra de Israel. 

Ben-Gurion acreditava, como a maioria de seus colegas sionistas da época, que um Estado judeu socialista seria criado sem violência e sem dominar ou deslocar os árabes palestinos; ao contrário, tal Estado existiria lado a lado com eles. Estava seguro de que as classes operárias judaica e árabe cooperariam entre si. Afinal, as aldeias otomanas de Sídon e Damasco e a sanjaque de Jerusalém — como a Palestina era então conhecida — constituíam represas de miséria com 600 mil árabes. Havia muito espaço a ser desenvolvido. Os sionistas tinham esperança de que os árabes compartilhariam os benefícios económicos da imigração judaica. 

Mas havia pouca mistura entre os dois povos, e não ocorreu aos sionistas que a maioria desses árabes não desejava os benefícios do seu assentamento. Em Jerusalém, Ben-Gurion alugou uma cave sem janelas, mas passava o tempo nos cafés árabes na Cidade Velha, escutando as mais recentes canções árabes. Foi aí que conheceu o jovem árabe cristão - Wasif Jawhariyyeh - hierosolimita nativo, já conhecedor da beleza e do prazer, ouvia as mesmas canções nos mesmos cafés e aprendia a tocá-las no seu alaúde



Tradução dos Diários

Wasif Jawhariyyeh [1897 – 1972] foi um compositor, poeta e cronista palestino. Ele é conhecido por suas memórias "Os Diários de Diaries of Wasif Jawhariyyeh", que abrange mais de seis décadas, de 1904 a 1968, cobrindo a turbulenta história moderna de Jerusalém, incluindo quatro regimes e cinco guerras. Nascido em Jerusalém, era 
filho de Jiryis e Hilana Barakat. Os Jawhariyyeh praticavam o cristianismo ortodoxo oriental. Seu pai era um membro ativo de sua comunidade, como membro do conselho municipal de Jerusalém e serviu por um tempo como assessor fiscal. Mais tarde, ele seguiria uma carreira como produtor de seda, proprietário de café, habilidoso criador de ícones. Ele também era um músico amador.

Os Diários de Wasif Jawhariyyeh (1904-1968), são as memórias de Wasif Jawhariyyeh (1897-1972), um cidadão de Jerusalém e um conhecido compositor, tocador de Oud, poeta e cronista. As memórias de Jahwariyyeh narram um período marcado por uma extensa transformação política e socioeconómica dentro da cidade de Jerusalém. A passagem para o século XX inaugurou uma era de modernidade em Jerusalém, manifestada pelos avanços da tecnologia, da indústria, do governo, da infraestrutura, das artes e da educação. Os escritos de Jawhariyyeh servem como uma fonte primária inestimável que ajudou o estudo do período; principalmente sobre os efeitos da modernização e o papel das etnias e identidades sectárias durante o período.

Quando Wasif Jawhariyyeh iniciou o diário, seu pai ainda ia para o trabalho cavalgando um jumento branco, mas Wasif viu o primeiro transporte sem cavalos, um automóvel Ford dirigido por um dos colonistas americanos na estrada de Jaffa. Tendo se acostumado a uma vida sem eletricidade, logo ele passaria a gostar de assistir ao novo cinematógrafo no Complexo Russo (“a taxa de ingresso era um bishlik otomano pago na porta”). Wasif se regalava na mistura cultural. Cristão educado na escola pública inglesa de St. George, estudou o Alcorão e se divertia em piqueniques no monte do Templo. Encarando os judeus sefarditas como “Yahud, awlad Arab” (judeus, filhos de árabes), fantasiava-se para o Purim judaico e participava do Piquenique Judaico anual na tumba de Simão, o Justo, onde entoava cantigas andaluzes acompanhado de oud e pandeiro. Numa apresentação típica, tocou uma versão judaica de uma conhecida canção árabe para acompanhar o coro asquenaze na casa de um alfaiate judeu no Bairro Montefiore.

Os árabes acreditavam que finalmente seriam libertados do despotismo otomano. Os primeiros nacionalistas árabes estavam indecisos: não sabiam se queriam um reino centrado na Arábia ou na Síria Maior, mas o escritor libanês Najib Azouri já havia noticiado como as aspirações de judeus e árabes vinham se desenvolvendo simultaneamente — e tendiam a colidir. Jerusalém elegeu como membros do Parlamento Uthman al-Husseini e o sobrinho de Yusuf Khalidi, Ruhi, que era escritor, político e homem do mundo. Em Istambul, Ruhi Khalidi tornou-se vice-presidente do Parlamento, usando sua posição para fazer campanha contra o sionismo e a aquisição de terras por judeus.

As famílias, cada vez mais ricas, seguiam prosperando. Agora as mulheres trajavam tanto a moda árabe quanto a ocidental. A escola britânica levou o futebol a Jerusalém: todo sábado à tarde havia jogo numa várzea perto de Bab al-Sahra — os rapazes Husseini eram jogadores especialmente talentosos, e alguns jogavam com o fez na cabeça. Antes da Grande Guerra, Wasif ainda era um estudante, mas já levava uma vida boémia. Tocava seu oud e servia como intermediário de confiança e organizador de festas, talvez até mesmo um subtil cafetão para as famílias, que agora viviam fora das muralhas em novas mansões em Sheikh Jarrah. 

O filho do prefeito Hussein Effendi al-Husseini, mantinha a mais viva das concubinas, Persephone, uma costureira greco-albanesa, em seu odah na estrada de Jaffa, onde essa sedutora de espírito empreendedor negociava gado e vendia sua própria marca de óleo de timo medicinal. Persephone adorava cantar e era acompanhada pelo jovem Wasif no oud. Quando o próprio Husseini tornou-se prefeito em 1909, casou-se com Persephone.

As amantes eram tradicionalmente judias, arménias ou gregas, mas agora os milhares de peregrinos russos passavam a ser a fonte mais rica para os hedonistas de Jerusalém. Wasif registrou que, em companhia do futuro prefeito Ragheb al-Nashashibi e Ismail al-Husseini, arranjava festas secretas “para as senhoras russas”. E simplesmente aconteceu de, nessa época, um inusitado peregrino russo queixar-se da estarrecedora decadência e prostituição na cidade de seus compatriotas. Chegando em março de 1911, esse monge sibarita era o conselheiro espiritual e confortador do imperador e da imperatriz da Rússia, cujo filho hemofílico, Alexei, só ele era capaz de curar.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Albert Camus





Albert Camus (7 de novembro de 1913 - 4 de janeiro de 1960) - escritor que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1957 - nasceu na costa leste da Argélia, perto de Bône (atual Annaba), filho de pais Pieds-Noirs, Camus passou a infância em bairros pobres e operários. Frequentou o Grande Liceu de Argel e posteriormente entrou na Universidade de Argel, onde teve como professor de filosofia Jean Grenier. Depois de ter adoecido com tuberculose, fez a sua estreia jornalística e literária com duas das suas maiores obras: O Estrangeiro e O Mito de Sísifo.

De seu pai, Camus conhecia apenas algumas fotografias, os estilhaços que o exército enviou à viúva, os relatórios de administração das vinícolas e os dois cartões postais que enviou da metrópole, o primeiro em agosto de 1914 em Noisy-le-Sec, o segundo em setembro para o hospital de Saint-Brieuc. Ele se lembrará particularmente de duas mensagens pedindo moderação e denunciando a barbárie. A primeira marca a indignação do pai com a crueldade revanchista da guerra marroquina. A segunda é uma denúncia da pena de morte:
«Lembrei-me naqueles momentos de uma história que a minha mãe me contava sobre o meu pai. Eu não o conhecia. Tudo o que eu sabia sobre esse homem talvez fosse o que minha mãe me disse na época: ele tinha ido ver um assassino executado. Ele estava doente para ir. Ele tinha feito isso e, na volta, vomitou parte da manhã»
Em 1935, ele entraria para o Partido Comunista, movido por um sentimento de justiça e por desejo de igualdade. Embora fosse um pied noir pobre que – como ele próprio definira – criado entre o sol e a miséria –, a pobreza, assim como a dos demais brancos pobres da Argélia, jamais fora tão aguda quanto a que ele observava existir entre os árabes. Foi essa constatação que o levou a escrever “Miséria na Cabília”, um dos seus primeiros artigos publicados em jornais de Argel. Mas a passagem pelo PC foi rápida, deixando o partido dois anos depois e tornando-se um jornalista engajado na resistência durante toda a Segunda Guerra Mundial. Foi durante esse período que Camus iria escrever “O mito de Sísifo” e o belíssimo romance “O Estrangeiro”, ambos em 1942, além da peça Calígula, dois anos após.

Camus marcou posição sobre a questão da independência argelina. Depois de dois anos no Partido Comunista, bateu com a porta. 
Protestou sucessivamente contra as desigualdades e a miséria que afligiam os povos indígenas do Norte de África. Mas também defendeu os espanhóis exilados antifascistas que também haviam rompido com fortes críticas ao estalinismo. À margem de certas correntes filosóficas, Camus foi, antes de tudo, "testemunha do seu tempo e nunca deixou de lutar contra ideologias e abstrações que nos desviavam do humano". Assim, ele é levado a se opor ao liberalismo, bem como ao existencialismo e ao marxismo. Com o lançamento do L´'Homme Révolté, em 1951, a sua crítica à legitimação da violência do regime soviético na Rússia, valeram-lhe os anátemas que os intelectuais comunistas lhe lançaram, a começar por Jean-Paul Sartre com quem rompeu a sua amizade.

Desconfiado de abstrações ideológicas, já em 1945, Camus descartava qualquer ideia de revolução definitiva e enfatizava os riscos do desvio revolucionário. Segundo ele, os fins nunca justificam os meios. Um homem de esquerda moderada, posiciona-se à distância da esquerda comunista e da direita liberal de Raymond Aron. Camus durante os seus 46 anos de vida não deixou de tomar posição e de defender aquilo que julgava ser a verdade, ainda que essa opção o tenha obrigado, por diversas vezes, ao isolamento e à solidão. No universo intelectual francês do século XX, Camus era um fora de jogo. Nascido na Argélia, em 1913, em uma família muito pobre, ele não iria frequentar as grandes escolas onde eram, e ainda são, formadas as elites francesas, independentemente da sua orientação ideológica. Talvez por isso, Camus jamais teve comprometimento com qualquer ideologia, o que era surpreendente em um período da história marcado por elas.

Logo após o fim da Segunda Guerra, Camus iria gozar de alguma reputação entre a intelectualidade francesa na condição de editor do jornal Le Combat e de autor do romance A peste (1947). Entre Camus e Sartre, haveria alguma aproximação, que logo iria se romper com a publicação da peça Os justos (1950) e do livro O homem revoltado (1951), em que Camus distinguiria claramente a revolta legítima contra a injustiça da revolução, que levaria sempre ao niilismo, ao terror e à repressão. Em uma entrevista falando sobre o livro que acabava de lançar, Camus faria a seguinte declaração:
«Eu não critico o sistema revolucionário em si mesmo, mas o sistema revolucionário triunfante do nosso tempo. A revolução do século XX e a sociedade burguesa atual são para mim apenas as duas faces do mesmo niilismo que temos de superar. Parece-me que meu livro, longe de definir uma posição romântica e idealista, é, ao contrário, um apelo contra o romantismo filosófico e a mistificação, que fazem do materialismo histórico um idealismo vergonhoso. Não creio, entretanto, que a minha causa já esteja perdida. Ela está viva, como vivo é o sofrimento de milhões de homens ligados pela sua infelicidade a essa causa.»
Além de desqualificar a revolução como alternativa libertária para a humanidade, Camus seria ainda um dos primeiros a reconhecer publicamente a existência de campos de concentração na União Soviética, algo que a esquerda, em geral, só admitia ter existido na Alemanha nazi, mas jamais na pátria mãe do socialismo. Toda denúncia contra a União Soviética era então interpretada como maquinação da direita, e uma intensa disputa passou a se travar na imprensa, tendo, de um lado, Camus, na redação de Le Combat, e, de outro, Sartre, no Les Temps Modernes. O desprezo de Sartre por Camus seria compartilhado por muitos outros intelectuais franceses, que se negavam a reconhecê-lo como um dos seus pares.

Não só as origens de Camus o diferenciavam da maioria dos intelectuais da França, como também os seus hábitos e gostos. Camus gostava de lutas de boxe, de jogar futebol e tomar banho de mar no Mediterrâneo, algo absolutamente estranho aos intelectuais da época, que sobrevalorizavam o intelecto e desprezavam o corpo e as atividades físicas. Costumava ainda olhar as mulheres passarem na rua e usava roupas um tanto extravagantes para os padrões da época, contrariamente ao singelo desalinho e circunspeção dos intelectuais franceses. Por tudo isso, Camus era visto como um ser vulgar, um pied noir intruso no seleto grupo literário e intelectual de Paris. Além disso diferenciou-se da maioria dos intelectuais do seu tempo por sua posição em relação à Guerra da Argélia. Por maior que fosse a sua solidariedade com o povo magrebino, Camus sabia que, com a independência da Argélia, para todos aqueles franceses que como ele haviam nascido e vivido na Argélia há gerações, não haveria outra alternativa senão a emigração ou a morte (la valise ou le cercueil). Portanto, Camus não poderia alinhar-se com a maioria dos intelectuais franceses que defendia a independência da Argélia, tampouco poderia negar a justiça do anseio da maior parte dos argelinos por sua independência, já que a dominação francesa na região havia condenado a população berbere a uma miséria vergonhosa. Por isso, ele declararia um dia sem hesitar: “entre a justiça [a independência da Argélia] e minha mãe [uma pied noir], eu fico com minha mãe”.

A Academia de Ciências da Suécia concedeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto de sua obra literária, o que certamente deve ter causado inveja a muitos escritores franceses que se julgavam mais importantes do que ele. 
L’Étranger (1942) / O Estrangeiro, de Albert Camus, contém uma crítica às sociedades fechadas e à repressão da individualidade dissidente das convenções sociais dominantes. Meursault, personagem central do livro, personifica, de alguma forma, o tipo de comportamentos que as sociedades abertas devem tolerar, não reprimir. Devido ao seu estilo de vida, sentia-se (e era visto) como um estrangeiro na sociedade onde vivia, a Argélia colonial francesa da época entre as duas guerras. Meursault habitava nas margens da sociedade e não partilhava de muitas das suas convenções. A dissidência e o sentimento de estrangeiro são simbolizados pelo homem que não chora no funeral da mãe.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

O assassinato de Abedalá ibne Hussein





Abedalá I ou Abdalá nascido Abedalá ibne Hussein [Meca 1882 - 1951] foi o Emir da Transjordânia de 1921 até sua elevação a reino em 1946, com ele continuando a reinar como Rei da Jordânia até seu assassinato. Era o segundo filho de Hussein ibne Ali, xarife de Meca, e sua primeira esposa Abedia binte Abedalá. Entre cerca de 1891 e 1908 viveu em Constantinopla. Em 1912 regressou a esta cidade quando foi eleito representante de Meca no parlamento, função que desempenhou até 1914. Junto com o seu pai e o seu irmão Faiçal participou na Revolta Árabe contra o domínio otomano. Com o fim do Império Otomano, os ingleses confiam a Abedalá a região da Transjordânia em 1921, tornando-o Emir da região. Por Transjordânia entendia-se toda a área a este do rio Jordão até ao Iraque, sendo este último território governado pelo seu irmão Faiçal. 
Em novembro, Abdullah foi bizarramente coroado rei de Jerusalém pelo bispo copta — o primeiro rei a controlar a cidade desde Frederico II. Ele próprio se declarara rei da Palestina em Jericó, rebatizando seu território de Reino Unido da Jordânia. Os Hussein e os nacionalistas árabes denunciaram Abdullah por seus compromissos e não conseguiriam perdoá-lo por ter sido o único árabe bem-sucedido na Catástrofe da Palestina.

Em 20 de julho de 1951, enquanto visitava a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, Abdullah foi baleado por um palestino do clã Hussein, apesar da proteção de alta segurança. O assassinato foi perpetrado por uma ordem secreta baseada em Jerusalém conhecida apenas como "a Jihad", discutida no contexto da Irmandade Muçulmana. O atirador palestino disparou três balas fatais na cabeça e no peito do rei. O príncipe Hussein também foi atingido, mas uma medalha que havia sido fixada no peito de Hussein por insistência de seu avô desviou a bala e salvou sua vida. O assassinato de Abdullah teria influenciado Hussein, em 1967, a não entrar em negociações de paz com Israel após a Guerra dos Seis Dias, a fim de evitar um destino semelhante. O rei voltou-se para as famílias de Jerusalém, que agora gozavam uma estranha renascença. Ofereceu a Ragheb Nashashibi o posto de primeiro-ministro da Jordânia. Ele recusou, mas concordou em tornar-se ministro. O rei também o nomeou governador da Cisjordânia e Guardião dos Dois Harams (Jerusalém e Hebron), além de presenteá-lo com um carro Studebaker e com o título de “Ragheb Paxá”. Os jordanianos ainda concediam títulos otomanos na década de 1950. Nassereddin Nashashibi, tornou-se camareiro real. 

Abdullah foi advertido de planos de assassinato. Quaisquer que fossem os perigos, Abdullah, com 69 anos, estava orgulhoso de sua posse de Jerusalém. “Quando eu era menino”, recordava seu neto Hussein, “meu avô costumava me contar que Jerusalém era uma das mais belas cidades do mundo.” À medida que o tempo passava, ele notou que o rei “passou a amar Jerusalém mais e mais”. Abdullah vivia decepcionado com seu filho mais velho Talal, mas adorava seu neto, a quem educou para ser rei. Durante as férias escolares, tomavam café da manhã juntos. “Eu me tornei o filho que ele sempre quis”, escreveu Hussein. Na sexta-feira, 20 de julho de 1951, Abdullah foi de carro para Jerusalém com Hussein, aluno de Harrow de dezesseis anos, a quem ordenou vestir seu uniforme militar com medalhas. Antes de partirem, o rei disse: “Meu filho, um dia você terá de assumir a responsabilidade”, acrescentando: “Quando eu tiver que morrer, gostaria que fosse com um tiro na cabeça dado por um anónimo. É o modo mais simples”. 

Abdullah visitou o túmulo de seu pai, e então caminharam até al-Aqsa. Ali ele disse aos guardas que se afastassem, mas Musa Hussein permaneceu muito perto. Quando Abdullah passou pelo pórtico, o xeque da mesquita beijou a mão real, e simultaneamente surgiu um homem jovem detrás da porta. Erguendo uma pistola, o jovem pressionou o cano contra a orelha do rei e disparou, matando-o na hora. A bala saiu pelo olho, e Abdullah caiu, seu turbante branco desenrolando-se. Observou Hussein, “eu devo ter perdido a cabeça naquele momento e me precipitei em direção ao assassino. Eu vi seus dentes, seus olhos aturdidos. Ele estava com a arma e eu o vi apontando-a para mim, aí vi a fumaça, ouvi a explosão e senti o tiro no peito. É assim que é a morte? A bala atingiu o metal”. Abdullah salvara a vida do neto ordenando-lhe que usasse as medalhas. Os guarda-costas, atirando ao acaso, mataram o assassino. Segurando o rei morto nos braços enquanto o sangue jorrava do nariz, Nashashibi beijou repetidamente sua mão. Os legionários começaram a esbravejar pelas ruas, e Glubb teve de empenhar-se para contê-los. Ajoelhando-se junto ao rei, Hussein desfez seu manto e caminhou com o corpo enquanto era conduzido ao Sanatório Austríaco. Ali o próprio Hussein foi sedado antes de ser levado à pressa de volta para Amã. Dizia-se que o mufti e o rei Faruk do Egito estavam por trás do assassinato. Musa Hussein foi detido e torturado antes de ser executado com outros três. Essa morte foi apenas um dos assassinatos e golpes precipitados pela derrota árabe. Em 1952, o rei Faruk, último dos albaneses de Mehmet Ali, foi derrubado por uma junta de oficiais livres, liderada pelo general Muhammad Neguib e pelo coronel Gamal Abdul Nasser.

Abdullah da Jordânia foi sucedido por seu filho Talal, que sofria de esquizofrenia, o que o levaram a quase matar a esposa. Em 12 de agosto de 1952, o jovem Hussein estava passando férias num hotel em Genebra quando um garçom entrou com um envelope numa bandeja de prata: era endereçado a “Sua Majestade o rei Hussein”. Seu pai abdicara. Com apenas 17 anos, Hussein gostava de carros velozes e motociclos, aviões e helicópteros — que ele próprio pilotava — e belas mulheres. Casou-se com cinco. Enquanto seu avô jamais perdera o sonho de um grande reino hachemita, arriscando tudo para conquistar Jerusalém, Hussein percebeu que seria uma façanha até mesmo sobreviver como rei da Jordânia. Oficial treinado em Sandhurst, esse jovial monarca pró-ocidental teve seu regime financiado primeiro pela Grã-Bretanha e depois pelos Estados Unidos; no entanto, ele sobreviveu à custa de limar as arestas entre as forças em jogo no mundo árabe. Às vezes precisou suportar o sufocante abraço de tiranos radicais hostis, tais como Nasser do Egito e Saddam Hussein do Iraque. Como seu avô, foi capaz de trabalhar com os israelitas; muito mais tarde, passou a gostar especialmente de Isaac Rabin.

A cidade passou a ser atravessada por uma faixa fortificada de arame farpado, campos minados, posições de tiro e guaritas de sentinelas. Uma cortina de betão armado nos separava agora de Sheikh Jarrah e dos demais bairros árabes de Jerusalém.  Em 1950 a ONU mediou a alimentação de um tigre, um leão e dois ursos do Zoológico Bíblico no monte Scopus, controlado por Israel. Com frequência havia fogo de franco-atiradores. Em 1954, nove pessoas foram mortas dessa maneira, e outras 54 feridas. [Amós Oz]
Amós Oz, adolescente judeu, e a criança palestina Sari Nusseibeh, filho de Anwar, moravam perto um do outro. Mais tarde, Amós Oz e Nusseibeh, ambos grandes escritores e oponentes do fanatismo, ficaram amigos. “Para famílias como a nossa, o Islão não era diferente do que eu viria a saber que o judaísmo era para Amós Oz, a algumas dezenas de metros de distância, logo depois da Terra de Ninguém”, escreveu Nusseibeh. Os meninos assistiam a mais uma transformação de Jerusalém, resultado de um novo influxo de imigrantes. Os árabes, particularmente o Iraque, tinham-se vingado em suas próprias comunidades judaicas: 600 mil judeus agora migravam para Israel. Mas foram os sobreviventes das seitas ultraortodoxas conhecidas como haredim (devotos) que mudaram o aspecto da cidade, trazendo consigo a cultura e as roupas da Europa Central do século XVII e uma fé em preces místicas e jubilosas. “Dificilmente se passava um dia”, recorda Sari Nusseibeh, “em que eu não espiasse nas ruas para além da Terra de Ninguém”, e ali, em Mea Shearim, “eu via homens de preto. Às vezes as barbudas criaturas olhavam de volta para mim”. Quem eram eles, o menino se perguntava.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Voltaire e o julgamento mais iníquo baseado em falsos indícios



Entre os dias 13 e 14 de outubro de 1761, Marc-Antoine Calas foi encontrado estrangulado no piso térreo da sua casa paterna. Um julgamento sumário e suplício levou à morte do pai, Jean Calas, pequeno comerciante protestante conhecido na cidade. As circunstâncias e as verdadeiras causas da morte de Marc-Antoine nunca foram elucidadas, mas o pai foi logo acusado de tê-lo matado.

Entre a comunidade católica de Toulouse, havia a crença de que os protestantes haviam guardado dos ensinamentos de Calvino a ideia de que os pais teriam o direito de sacrificar os filhos por motivo de rebeldia, e a intenção atribuída a Marc-Antoine de se converter ao catolicismo foi de pronto considerada rebeldia suficiente para provocar a ira paterna. Para alimentar essa suspeita, contribuiu ainda uma contradição da família ao anunciar a morte do filho. Primeiro, foi dito que ele havia sido estrangulado por desconhecidos; depois, que se havia enforcado.

Ambas as explicações eram bastante plausíveis, pois Marc-Antoine era um jogador contumaz e poderia muito bem ter sido assassinado por razão de dívida de jogo, e como ele também era um indivíduo que sofria de depressão e não havia tido sucesso na sua vida profissional o suicídio tampouco poderia ser descartado. Restava, portanto, saber por que a família havia entrado em contradição. Uma hipótese é a de que Marc-Antoine tenha sido, de facto, encontrado enforcado, e que, para evitar que o seu corpo fosse arrastado pelas ruas e exposto à humilhação e execração públicas, tratamento reservado aos suicidas durante o Antigo Regime, a sua família tivesse inventado a história do assassinato.

Mas antes que qualquer investigação fosse feita para dirimir a dúvida, o boato de que o filho havia sido morto pelo pai espalhou-se pela vizinhança católica, que logo começou a reclamar o castigo dos hereges para o pai assassino. De imediato, a Confraria dos Penitentes Brancos, à qual pertencia Louis, um outro filho de Calas que se havia convertido à fé católica anos antes e abandonado a casa paterna, resolveu apropriar-se do corpo de Marc-Antoine, transformando-o em mártir. Um funeral católico cercado de toda a pompa e circunstância lhe foi preparado e seu corpo, enterrado em campo santo. Assim, a possibilidade de suicídio fora imediatamente descartada e assumida como certeza a versão de que o pobre filho havia sido assassinado pelo pai por tê-lo contrariado ao escolher o bom caminho da Igreja de Roma.

O mesmo procedimento foi adotado pelo Parlamento de Toulouse, a quem cabia o julgamento e a sentença. Sem sequer ouvir o acusado e com base apenas em depoimentos de pessoas que haviam ouvido falar do intuito de Marc-Antoine de se converter ao catolicismo e que nada haviam visto nem ouvido da boca do réu ou de seus familiares, julgou e condenou Jean Calas ao suplício até à morte. Mas antes disso a vítima foi ainda barbaramente torturada, não para dela arrancar a confissão – como era então o hábito, pois a sentença já havia sido pronunciada –, mas possivelmente para que Calas delatasse os outros presumidos cúmplices do seu crime: a sua mulher, seu outro filho que se encontrava em casa, suas duas filhas e a empregada. Mas Jean Calas sustentou até ao fim a sua inocência. No dia 10 de março de 1762, Calas é amarrado à roda do suplício, recebendo violentos golpes de machado que quebrariam suas articulações, coluna e pernas. Sua agonia duraria ainda algumas horas até que a morte viesse pôr fim ao seu sofrimento. Acabado o martírio, o corpo seria finalmente queimado em praça pública. Sobre a família e o amigo que com Jean Calas se encontravam em casa quando o corpo de Marc-Antoine fora encontrado também pairava a suspeita do tribunal, mas a ira popular já havia sido aplacada com o brutal castigo infligido ao pai. Assim, a mãe e a empregada seriam absolvidas; as filhas, enviadas para um convento; o filho Pierre, banido e os bens da família, confiscados.

Mas após ter passado por um mosteiro, onde lhe seria ensinada a verdadeira fé católica, Pierre conseguiria fugir da França e chegar até Genebra, único bastião do protestantismo em território de língua francesa, onde vivia Voltaire. Após Pierre Calas ter convencido Voltaire da importância do caso, Voltaire ficou convencido que Marc-Antoine se havia suicidado. E assim começou a sua tenaz campanha pela reabertura judicial do caso Calas e pela reabilitação da família. Em 1763, Voltaire iria publicar o seu célebre Tratado sobre a tolerância, que teria por subtítulo, “por ocasião da morte de Jean Calas”. Muitas cartas e textos seriam escritos por Voltaire e publicados anonimamente na imprensa para suscitar o debate do caso. Outras tantas cartas seriam endereçadas ao ministro da Justiça, à amante do rei, madame Pompadour, e às várias personalidades influentes do reino.

Voltaire acabou por mobilizar uma força até então desconhecida na história: a opinião pública. Outros intelectuais e artistas também abraçaram a sua causa e mobilizaram-se em apoio à família Calas. A mobilização promovida por Voltaire teve um grande sucesso.

Em 1764, o inquérito sobre o caso seria oficialmente reaberto e, no ano seguinte, Jean Calas e sua família iriam ser definitivamente reabilitados por uma corte composta por oitenta juízes e pelo Conselho do rei. Como indemnização, o rei concedeu uma pensão à família. Encerrava-se assim o primeiro caso judicial a mobilizar os franceses, que dos tribunais fora levado às ruas e transformado em questão pública por iniciativa de Voltaire, um intelectual que viria a dar muito que falar por mais dois séculos.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Perspectivismo. O relativismo dos factos



Se bem que possamos aceitar que a realidade, tal como é em si mesma, possa não ser conhecida em absoluto devido a limitações intrínsecas da constituição biológica humana, o conhecimento científico num dado momento histórico é conhecimento fiável da realidade ainda que nunca definitivo. É justificado que a cada momento tenhamos como verdadeiro um facto científico, por ser a ciência a nossa melhor maneira de conhecer a dita realidade. E por razões de ordem prática, a ciência é um empreendimento humano ao qual devemos dar a máxima credibilidade no campo do conhecimento, dado que tem revelado ser muito útil e eficaz na resolução dos nossos problemas mais complicados. Apesar de se poder duvidar, se a realidade em si é mesmo constituída por átomos, que é uma das maneiras como a ciência a descreve, ainda assim tem sido a maneira de descrever a realidade que melhor nos tem servido até ao momento. Assim, é correto afirmar que os átomos não são uma invenção humana. Os átomos já existiam antes de os cientistas os terem descoberto. E os cientistas autorizam-nos a dizer que a existência dos átomos é uma afirmação verdadeira.

Ainda que possa fazer sentido o relativismo, por exemplo, em relação ao bem e ao belo, deve haver alguns factos absolutos independentes da mente. Assim como não há razão para duvidar que haja factos independentes da mente, também não haverá razão para supor que alguns factos, que sempre pensamos serem absolutamente verdadeiros, o não sejam. E isto não tem nada a ver com as convulsões cognitivas do momento que estamos a viver, em relação aos denominados “factos alternativos”. A expressão “factos alternativos” é um oxímoro: recurso estilístico que reúne no mesmo conceito palavras de sentido contrário ou que não fazem sentido.

Até um passado recente, era a esquerda radical pós-moderna que na esteira de Nietzsche defendia com grande assertividade que não havia factos, mas apenas interpretações. Não havia uma realidade objetiva, mas apenas interpretações subjetivas do mundo. Nietzsche era muito útil para atacar o poder, as instituições e os valores estabelecidos na época – desconstruir era o moto. Libertar-se do positivismo e do teste dos factos um imperativo. Abria-se uma nova era de transformação social. Pouco importava que realizações como os direitos humanos universais e a democracia liberal fossem destruídas pelo caminho. Até agora eram assumidos como uma natural linha vermelha na escolha política democrática. Estavam fora das opções apresentadas como possíveis aos eleitores. Hoje, esse consenso já não existe.

Agora é a bem menos sofisticada, mas mais perigosa ao nível político, direita populista a desprezar os factos. Os resultados eleitorais podem ser algo de surpreendente e preocupante. Esse é um dos “tendões de Aquiles” da Democracia. Pelo menos da maneira como a concebemos. É esse o sentimento de muitos com o resultado eleitoral em muitos países, em que até os nórdicos da Europa não ficaram imunes. O que estamos a assistir, não sendo uma perversão propriamente dita da essência da democracia, enquanto expressão da vontade popular, entendida como a vontade da maioria, é uma crescente tensão entre a democracia e outros princípios fundamentais – direitos das minorias, direitos dos migrantes e estrangeiros, por exemplo.

“Facto”, como proposição verdadeira está de acordo com a verdade dos acontecimentos. E sendo assim, não há maneira de não estarmos envolvidos na natureza dos factos. Há quem pense que apenas estamos envolvidos nos juízos sobre os factos. Mas essa posição está errada. Um dos erros é a ideia de que a forma como as coisas nos aparecem é diferente da forma como as coisas são. Isso tem dado azo a muita confusão acerca do que é a realidade, e do que são as perceções dessa mesma realidade. Uma afirmação verdadeira é necessária quando não poderia ter sido falsa. Por exemplo, 2+2=4 é uma verdade necessária. A distinção entre necessidade e contingência aplica-se não apenas aos números, mas também a acontecimentos, realidades ou existentes. Um caso de existência necessária é o da própria realidade: não faz sentido perguntar porque há algo em vez de nada. A realidade é uma existência necessária. Ao passo que a humanidade é uma existência contingente. A deriva do homo sapiens na evolução das espécies na Terra, poderia não se ter dado. Mas, seja o número quatro o que for, não é o género de coisa contingente que possa existir ou não existir. Repare-se que não estamos a fazer uma confusão entre palavras ou conceitos. O quatro é o conjunto de todos os conjuntos com quatro coisas. Logo, terá de haver mais coisas necessárias para além de números. Portanto, nem tudo o que há podia ser contingente. A realidade é um absoluto que não comporta a ideia de uma outra realidade causar a realidade existente. Este é o erro da conceptualização da causalidade das coisas. Com o conceito de “causa” a realidade deixa de ser um existente necessário, passando a ser contingente, porque o necessário.

A democracia está ameaçada por iliberalismos, populismos e autoritarismos. Há, na teorização da ciência política e na prática político-constitucional dos Estados, múltiplos tipos e conceitos de democracia, frequentemente apresentados de forma antagónica. Assim, temos democracia representativa versus democracia direta; democracia social versus democracia formal; democracia popular versus democracia burguesa; democracia multicultural versus democracia monocultural; democracia liberal versus democracia iliberal; e democracia consensual versus democracia maioritária. Assim, a democracia pode significar coisas muito variáveis em diferentes sociedades e contextos históricos.

Hoje, o problema da democracia centra-se na (re)emergência da tensão entre a representação política e a vontade democrática do cidadão. É verdade que essa tensão é tão antiga quanto a própria democracia, mas adquiriu uma intensidade e contornos novos. No passado, teve períodos de crise aguda – por exemplo, na Europa dos anos 1920 e 1930 – e também períodos de uma longa acalmia, como na Europa e no Ocidente nas décadas finais do século XX. Aí, deu a ideia de o problema estar encerrado. Foi uma ilusão. No início do século XXI, entramos, tudo indica, numa nova fase de crise aguda de representação política. Afeta instituições fundamentais da democracia liberal parlamentar, tal como a conhecíamos até agora: os partidos políticos e os media. Ambos são peças clássicas da democracia representativa, ambos são, cada um à sua maneira, também intermediários entre o cidadão eleitor e quem exerce o poder. Peças cruciais da democracia liberal – os partidos e os media do establishment –, habituais intermediários entre o cidadão e o exercício do poder, estão hoje a ser abaladas. A emergência da sociedade em rede está a destruir esse modelo de democracia do passado. Abriu um espaço público paralelo que permite ultrapassar os media e os seus critérios editoriais. A democracia contém imperfeições e tensões desde os seus primórdios na Grécia clássica ao (re)aparecimento na Europa moderna. Para funcionar bem, necessita de uma constante reinvenção e readaptação às condições sociais e políticas. É isso que não tem existido.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Frederico II e o Reino de Jerusalém



Frederico II [1194-1250] foi imperador do Sacro Império Romano; Rei de Jerusalém [1225-1228] depois de ter tomado parte na VI Cruzada; Rei da Sicília a partir de1198 e rei de Itália [1220-1250]. Frederico II esteve em luta quase constante com os Estados Papais.

O Reino de Jerusalém foi um Estado Cruzado a partir da Primeira Cruzada, em 1099, extinto em 1291, com a capital inicialmente em Jerusalém e mais tarde em Acre. O Rei de Jerusalém era o governador supremo, cuja história pode ser dividia em vários períodos: aqueles em que o título de Rei de Jerusalém estava associado à cidade em si [1099-1187 e 1229-1244] e aqueles em que o título representa o nível mais alto de soberania na Terra Santa, sem a cidade como parte do território cristão. Após a extinção dos Estados cruzados, o título foi disputado por vários monarcas e príncipes europeus.


Em 9 de novembro de 1225, na catedral de Brundísio, Frederico II, imperador do Sacro Império Romano e rei da Sicília, casou-se com Iolanda, a rainha de Jerusalém então com quinze anos. Terminada a cerimónia de casamento, Frederico assumiu o título de rei de Jerusalém, já pronto para partir em sua Cruzada. Os inimigos diziam que ele seduzia as damas de companhia da mulher, enquanto folgava com seu harém de odaliscas sarracenas. Isso horrorizou o sogro João de Brienne e ofendeu o Papa. Mas Frederico já era o monarca mais poderoso da Europa — ficaria conhecido como Stupor Mundi, a Maravilha do Mundo.

Frederico de Hohenstaufen, de olhos verdes e cabelo ruivo alaranjado, meio alemão, meio normando, fora criado na Sicília e nada havia na Europa de parecido com sua corte em Palermo, que combinava as culturas normanda, árabe e grega numa ímpar mistura cristã e muçulmana. Foi essa criação que tornou Frederico tão incomum, e ele gostava de ostentar as suas excentricidades. Incluía um harém sultanesco, um zoológico, cinquenta falcoeiros (escreveu um livro intitulado Da arte de caçar com aves), guarda-costas árabes, eruditos judeus e muçulmanos e quase sempre um mágico e hierofante escocês. Era certamente mais levantino em sua cultura do que qualquer outro rei da cristandade, mas isso não o impediu de eliminar implacavelmente rebeldes árabes na Sicília — usou a própria espora para abrir a barriga do líder capturado. Deportou os árabes da Sicília, embora tenha construído para eles uma nova cidade árabe em Lucera, com mesquitas e um palácio que se tornou sua residência favorita. De maneira similar, aplicou leis contra os praticantes do judaísmo, ao mesmo tempo que dava apoio a sábios judeus, acolhia colonos judeus e fazia questão de que fossem bem tratados.

Mas o que consumia Frederico era o poder, e não os objetos exóticos, e ele dedicou a vida para proteger sua vasta herança, que se estendia do Báltico ao Mediterrâneo, contra papas invejosos que o excomungaram duas vezes, denunciando-o como Anticristo e denegrindo-o com as mais absurdas calúnias. Diziam que ele era ateu ou muçulmano em segredo, e que considerava Moisés, Jesus e Maomé como fraudes. Selara um moribundo num barril para ver se a alma podia escapar; que desventrara um homem para estudar a digestão; e que confinava crianças em celas solitárias para ver como desenvolviam a linguagem. Frederico levava muito a sério os direitos de sua família e a si mesmo. Na verdade, era um cristão convencional certo de que, como imperador, deveria ser um monarca santo e universal, de modelo bizantino, e que, como descendente de gerações de cruzados e herdeiro de Carlos Magno, tinha obrigação de libertar Jerusalém. 

Iolanda, com dezesseis anos, morreu depois de dar à luz um filho. Como Frederico era rei de Jerusalém em virtude do casamento, o filho assumiu o título. Mas ele não ia permitir que esse detalhe interferisse em sua nova atitude para com as Cruzadas. O imperador esperava conquistar Jerusalém explorando as rivalidades da Casa de Saladino. De facto, o sultão Kamil ofereceu-lhe o lugar em troca de ajuda contra Muazzam, que mantinha a cidade. Frederico finalmente partiu em 1227, mas logo caiu doente e voltou — e por isso foi excomungado pelo papa Gregório IX, enorme inconveniência para um cruzado. Despachou na frente seus cavaleiros teutónicos e sua infantaria, e, quando os alcançou em Acre, em setembro de 1228, Muazzam estava morto e Kamil tinha ocupado a Palestina — e retirado a oferta.

Agora Kamil tinha que lutar contra os filhos de Muazzam e também contra Frederico e seu exército. Não era capaz de enfrentar as duas ameaças. O imperador e o sultão estavam fracos demais para disputar Jerusalém, e, sendo assim, iniciaram negociações secretas. Kamil era tão pouco convencional quanto Frederico. Quando menino, o filho de Saladino fora sagrado cavaleiro pelo próprio Coração de Leão. Enquanto negociavam a partilha de Jerusalém, imperador e sultão debatiam também filosofia aristotélica e geometria árabe. “Não tenho nenhuma ambição real de ficar com Jerusalém”, disse Frederico a um emissário de Kamil. “Tudo que quero é salvaguardar minha reputação perante os cristãos.” Os muçulmanos questionavam se o cristianismo não seria “um jogo para ele”. O sultão mandou “dançarinas” para o imperador, enquanto este entretinha seus hóspedes com dançarinas cristãs. O patriarca Gerold denunciou as cantoras e malabaristas de Frederico como “pessoas não apenas de má reputação, mas indignas de serem mencionadas por cristãos”. Entre sessões de negociação, Frederico caçava com seus falcões e seduzia novas amantes, bancando o trovador para escrever a uma delas: “Ai de mim, não achava que separar-me de minha dama fosse tão difícil, quando me recordo de sua doce companhia. Feliz canção, vá voando para a flor da Síria, para aquela que mantém preso meu coração. Peça à mais amável das damas que se lembre deste servo, que padecerá de amor por ela, até fazer tudo o que ela quiser que faça”.



Frederico II encontrando-se com Kamil. De Nuova Cronica c. 1348

Quando as negociações titubearam, Frederico marchou com suas tropas pela costa para Jaffa, seguindo os passos de Ricardo e ameaçando Jerusalém. O truque funcionou, e em 11 de fevereiro de 1229 ele conseguiu o insonhável: em troca de dez anos de paz, Kamil cedeu Jerusalém e Belém com um corredor para o mar. Em Jerusalém, os muçulmanos ficaram com o monte do Templo e a liberdade de entrar e adorar a Deus sob seu cádi. O acordo ignorou os judeus (cuja maior parte tinha fugido da cidade), mas esse tratado de soberania compartilhada continua a ser o acordo de paz mais ousado da história de Jerusalém. Em Damasco, o filho de Muazzam, Nasir Daud, decretou luto oficial. Kamil insistia em dizer que “concedemos apenas algumas igrejas e casas em ruínas. As zonas sagradas e a venerada Rocha continuam nossas”. Mas o acordo funcionou para ele — que conseguiu reunir o império de Saladino sob sua coroa. Quanto a Frederico, o patriarca Gerold proibiu o excomungado de visitar Jerusalém, e os templários o denunciaram por não ter conquistado o monte do Templo. No sábado, 17 de março, Frederico, escoltado por seus guarda-costas e pajens árabes, suas tropas alemãs e italianas, os cavaleiros teutônicos e dois bispos ingleses, foi recebido no portão de Jaffa pelo representante do sultão, Shams al-Din, o cádi de Nablus, que lhe entregou as chaves de Jerusalém. As ruas estavam desertas; muitos muçulmanos tinham ido embora; os ortodoxos sírios viam com tristeza o ressurgimento latino — e o tempo de que dispunha Frederico era escasso: o bispo de Cesareia estava a caminho para fazer cumprir a proibição do patriarca e colocar a cidade sob interdição.

Depois de passar a noite no palácio do senhor dos hospitalários, Frederico mandou celebrar uma missa especial no Santo Sepulcro, vazio de sacerdotes mas inteiramente tomado por seus soldados alemães. Repousou a coroa imperial no altar do Calvário e, em seguida, colocou-a em sua própria cabeça, numa cerimónia de coroação destinada a projetar-se a si mesmo como o monarca universal e supremo da cristandade. Conforme explicou a Henrique III da Inglaterra: “Sendo imperador católico, usamos a coroa que Deus Todo-Poderoso nos ofereceu do trono de Sua Majestade quando, por Sua graça especial, nos elevou às alturas entre os príncipes do mundo na casa de Seu servo David”. Depois disso, o imperador fez um passeio pelo monte do Templo, admirando o Domo e a al-Aqsa, louvando seu belo mihrab, subindo no minbar de Nur al-Din. 

Frederico não tinha ficado muito tempo e jamais voltou para Jerusalém, mas continuou sendo oficialmente o senhor da cidade durante dez anos. Ele deu a torre de David e o palácio real aos cavaleiros teutónicos. Ordenou a seu senhor, Hermann de Salza e bispo Pedro de Winchester, que reparassem a torre (parte dessa obra ainda sobrevive) e fortificassem o portão de Santo Estêvão (hoje portão de Damasco). Os francos reclamaram “suas igrejas, e suas antigas possessões lhes foram devolvidas”. Os judeus novamente foram banidos. Sem muralhas, Jerusalém era insegura: semanas depois, os imãs de Hebron e Nablus levaram 15 mil camponeses para dentro da cidade, enquanto os cristãos se acovardavam na torre. Acre enviou um exército para expulsar os invasores muçulmanos, e Jerusalém permaneceu cristã.

Em 1238, o sultão Kamil morreu, mergulhando a dinastia Saladino em mais guerras intestinas, exacerbadas por uma nova Cruzada sob o comando do conde Teobaldo de Champagne. Quando os cruzados foram derrotados, o filho de Muazzam, Nasir Daud, partiu a galope para Jerusalém e sitiou a torre de David por 21 dias, até sua rendição em 7 de dezembro de 1239. Em seguida, destruiu as novas fortificações, e os príncipes beligerantes da família Saladino fizeram um juramento de paz no monte do Templo. Mas a disputa de família e a chegada de uma Cruzada inglesa sob o comando do irmão de Henrique III, Ricardo, conde da Cornualha, forçou novamente a rendição de Jerusalém aos francos. Dessa vez os templários expulsaram os muçulmanos e retomaram o monte do Templo: o Domo e al-Aqsa voltaram a ser igrejas. “Vi monges encarregados da Rocha Sagrada”, disse Ibn Wasil. “Vi nela garrafas de vinho para a missa.” Os templários começaram a fortificar a Cidade Santa — mas não com a rapidez necessária: para combater seus rivais de família, o novo sultão Salih Ayyub contratara uma horda de aventureiros tártaros, cavaleiros nómadas da Ásia Central desalojados pelo novo império mongol. Mas ele pôde controlá-los. Para horror dos cristãos de Acre, 10 mil tártaros corasmianos rumaram para Jerusalém.



Torre de David, Jerusalém

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

A questão da Palestina no equilíbrio instável do Médio Oriente



O equilíbrio instável de forças políticas no Médio Oriente, depois da queda do Império Otomano, foi perturbado pelo impacto vulcânico da questão da Palestina. Os britânicos tinham planeado manter o seu domínio na região através de uma transição pacífica. Todos os Estados árabes seriam independentes; alguns ficariam ligados por tratado à Grã-Bretanha; os restantes reconheceriam a primazia efetiva da Grã-Bretanha, a única grande potência com força no terreno. 

A gestão da Palestina, administrada diretamente pela Grã-Bretanha sob mandato da Sociedade das Nações desde a Primeira Guerra Mundial, seria sempre difícil, quaisquer que fossem as circunstâncias. Conciliar a promessa de uma «pátria» judaica, na qual os judeus pudessem estabelecer-se, com os direitos dos árabes que já lá estavam, revelara-se uma tarefa bastante difícil. O aumento da afluência de judeus à Palestina, que fugiam da Europa Central devido à ascensão dos nazis na Alemanha na década de 1930, viria a revelar-se o maior problema para o plano inicial desenhado em 1920. Era impossível aplacar a indignação dos árabes da Palestina com a crescente migração judaica.

A dificuldade prática e embaraço político de fazer uma barragem aos refugiados judeus; a pressão diplomática dos Estados Unidos contra essa tentativa; e a dimensão e ferocidade da campanha terrorista travada por colonos judeus - destruíram qualquer hipótese de autoridade britânica. O resultado foi o pior de todos os cenários: um território ingovernável cujo controlo era disputado entre dois inimigos aparentemente inconciliáveis.

A divisão proposta pelas Nações Unidas não pôde ser implementada. A guerra que se seguiu entre judeus e árabes (palestinianos locais e os contingentes enviados pelos Estados árabes) resultou numa vitória judaica. O novo Estado de Israel tinha força suficiente para impor uma partilha territorial que lhes era mais favorável. Mas não tinha força suficiente para obrigar os Estados árabes a aceitar este resultado como condição permanente. As divisões étnicas, religiosas e sociais – um legado, em parte, do domínio otomano e europeu – estavam profundamente enraizadas. 

Os nacionalistas do Egito tinham pouco em comum com as outras nações árabes. Os egípcios menosprezavam os governantes hachemitas do Iraque e da Jordânia, considerando-os fantoches e arrivistas, e as suas pretensões à liderança do mundo árabe como absurdas e insolentes. Os reis hachemitas estavam igualmente convictos do seu direito histórico de encabeçar a causa árabe. A sua antiga ambição era um grande Estado hachemita que unisse a Síria (perdida para os franceses em 1920) e a Palestina ao Iraque e à Jordânia. A sua inimizade mais feroz, paga na mesma moeda, era para com a casa de Saud. Afinal, foi o monarca saudita que tomou os lugares santos de Meca e Medina aos seus xarifes e transformou o Reino do Hejaz numa província da futura Arábia «Saudita». Grande parte da rivalidade entre o Egito, os hachemitas e os sauditas concentrava-se na Síria, cujos conflitos religiosos e regionais a tornavam um terreno fértil para a influência externa.

O rei do Egito insistira em enviar um exército, para aumentar o seu prestígio interno e afirmar o lugar cimeiro do Egito entre os Estados árabes. Mas ele não conseguia mostrar quaisquer progressos nas negociações para a saída dos britânicos da sua enorme Zona do Canal, o símbolo visível do estatuto subalterno do Egito. Nem nas relações com os seus antigos rivais políticos. Como a diplomacia se revelava ineficaz, avançou-se para a ação direta. A luta contra os britânicos tornou-se cada vez mais violenta. As greves, os assassinatos e outros atos de terror tiravam partido da dependência britânica de mão de obra egípcia e do estado vulnerável das instalações do pessoal britânico. A retaliação e a vingança alastraram às principais cidades do Egito. Enquanto a sensação de ordem se desfazia, o rei planeava um golpe de estado para purgar o descontentamento no Exército. Mas antes que pudesse agir, o movimento dos «Oficiais Livres» assumiu o controlo do governo em julho de 1952 e obrigou-o a fugir para o exílio.

O novo regime empenhou-se em restaurar a ordem. Esmagou a Irmandade Muçulmana, um movimento islamita que gozava de amplo apoio popular. Aceitou a perda de influência egípcia no alto Nilo quando os britânicos prometeram a independência, como Estado separado, ao Sudão, rejeitando a exigência do Cairo para que se respeitasse a «unidade do vale do Nilo». Acima de tudo, conseguiu a anuência britânica para uma retirada da base da Zona do Canal através da concessão de um direito de retorno se a sua utilização fosse necessária para repelir um ataque externo (isto é, uma invasão soviética) à região do Médio Oriente. Os britânicos tinham chegado à conclusão de que, com a dissuasão nuclear que podiam exercer por ar, a base era redundante na sua forma existente, além de politicamente onerosa. O que provavelmente esperavam era que o novo regime de Nasser se concentrasse nas reformas internas. O Egito, pensavam, exerceria pouca influência no mundo árabe. Entretanto, eles reorganizariam o seu domínio em torno de uma aliança mais próxima com os Estados hachemitas e um novo pacto militar. A influência americana, que tinha sido útil para o acordo do Suez, estaria do seu lado. O Egito ficaria isolado e submisso. Mas a resposta de Nasser não veio a permitir que isso acontecesse. Na verdade, a sua espantosa revolta contra o «sistema» britânico foi o evento crucial da descolonização do Médio Oriente.

Nasser tinha todas as razões para desconfiar dos britânicos e conspirar para os afastar do Médio Oriente. O Sudão já não pertencia ao Egito. Havia grande animosidade contra Israel. O Ocidente árabe (o Mashreq) estava a ser vedado à influência egípcia e talvez até ao seu comércio. Sem mercados nem petróleo, Nasser enfrentava a estagnação interna e a crescente agitação social. Tornar-se-ia perigosamente dependente da ajuda económica do Ocidente. O seu regime era inexperiente. Nasser lançou um contra-ataque. Converteu-se ao pan-arabismo. Com aprovação saudita, apoiou a fação anti iraquiana na política síria. Incentivou a Jordânia a opor-se ao pacto. Depois, em setembro de 1955, deu-se um golpe espetacular. Nasser rompeu o embargo ao armamento imposto pelo Ocidente e negociou um fornecimento do bloco soviético. O Egito seria então uma verdadeira potência militar. No início de 1956 já tinha declarado uma guerra política aberta à influência da Grã-Bretanha no Médio Oriente. O nível crescente de violência ao longo das fronteiras com Israel serviu-lhe de vantagem. Com o que pareceu uma facilidade espantosa, ele tomou a iniciativa na política regional. Transformou o Egito no paladino da causa árabe e o sentimento panárabe numa força dinâmica. A reação em Londres foi de pânico e ira.

A Crise do Suez em 1956 resultou diretamente deste confronto. O fator decisivo foi o bloqueio em Washington de um empréstimo para pagar a Grande Barragem de Assuão, no Egito. Nasser expropriou o canal de Suez, que pertencia na altura à Grã-Bretanha e à França. Parecia um gesto de bravata, mas talvez Nasser adivinhasse que os britânicos teriam dificuldade em derrotá-lo. Já não tinham tropas na antiga base do Suez. Um ataque declarado enfureceria toda a opinião árabe. A pressão internacional (através das Nações Unidas) provavelmente não lhes traria o que realmente desejavam: a derrota política de Nasser. Este pode também ter percebido que a hostilidade implacável de Londres não era plenamente partilhada em Washington. Com efeito, a resposta, quando surgiu, revelou a fraqueza política da Grã-Bretanha. Mal dissimulada como uma intervenção entre as forças do Egito e de Israel (que invadiu a península do Sinai), a ocupação anglo-francesa do canal de Suez pretendia humilhar Nasser e garantir a sua queda. A explicação para a sobrevivência de Nasser era o enorme apoio da opinião patriótica árabe ao seu ato de desafio, que convenceu o presidente Eisenhower de que permitir uma vitória dos britânicos reforçaria o sentimento árabe contra o Ocidente, abriria a porta à influência soviética e prejudicaria os interesses americanos. Ironicamente, a fragilidade económica que ajudara a incitar os britânicos à sua luta com Nasser – o receio de que a influência deste prejudicasse as suas fontes vitais de petróleo – revelou-se então decisiva. Sem a anuência de Washington, eles enfrentariam o colapso financeiro. Os britânicos retiraram-se, humilhados. Nasser ficou com o canal. Não foi ele que caiu na armadilha política mas o primeiro-ministro britânico, Anthony Eden.

 Menos de dois anos depois da sua vitória no Suez, Nasser atraiu a Síria para uma união política, formando a República Árabe Unida. O mesmo ano (1958) assistiu ao fim do domínio hachemita no Iraque. Nasser tinha ainda de lidar com o poder americano (os Estados Unidos e a Grã-Bretanha intervieram em conjunto para impedir o derrube dos governos da Jordânia e do Líbano por fações pró-Nasser). Prometia-se um fim para a injustiça palestiniana, através do esforço coletivo de uma nação revitalizada. A solidariedade panárabe sob liderança egípcia (o novo regime iraquiano de tendências comunistas fora cuidadosamente isolado) abriu novas perspetivas de esperança. Podia negociar melhores condições com as potências estrangeiras. Podia usar a arma do petróleo (a produção de petróleo aumentou rapidamente nos anos 50). Podia até ser capaz de resolver a questão da Palestina.

Os britânicos permaneceram no Golfo e apoiaram os governantes locais contra o desafio político de Nasser. A elite árabe instruída e as suas ideias deslocavam-se facilmente entre eles. As estruturas do Estado eram fracas e podiam ser facilmente penetradas pela influência externa. Em 1960 isso já tinha começado a mudar. Novas elites locais começaram a gerir o aparelho do Estado. A união com a Síria desfez-se passados três anos. O Estado de Israel revelou-se muito mais resistente do que se esperaria, e o apoio que recebia dos americanos não mostrava qualquer sinal de diminuir: no início dos anos 60 dir-se-ia até que estava a aumentar. 

Uma ironia: a riqueza petrolífera da região estava por baixo do solo dos Estados menos inclinados a seguir o exemplo ideológico de Cairo. O desastre da Guerra dos Seis Dias em 1967, travada entre Israel e o Egito, Jordânia e Síria, foi uma lembrança dolorosa de que a riqueza mineral não era equivalente a poder, e que os petrodólares não significavam poderio industrial. Em 1970, o ano da morte prematura de Nasser, a promessa da liberdade já se havia transformado no problema árabe. Os três maiores Estados no Médio Oriente eram o Egito, a Turquia e o Irão. No Egito, Anwar Sadat, fez regressar o país a um entendimento com o Ocidente. No final dos anos 70 o Egito era já o segundo maior beneficiário (depois de Israel) da ajuda americana.

O enorme avanço do poder soviético no final da guerra e a confissão pública de Estaline dos seus planos para os Estreitos – «É impossível aceitar uma situação em que Turquia tem uma mão na traqueia da Rússia», declarou ele em Ialta – empurraram Ancara decididamente para o campo ocidental. Ao abrigo da Doutrina Truman (1947), a Turquia foi incluída na esfera da ajuda e proteção americanas, ainda que indefinidas na altura. Em 1955 já se havia tornado membro pleno da NATO. De uma forma que Kemal Atatürk dificilmente podia ter imaginado, o padrão do conflito da Guerra Fria abrira a porta para a aceitação da Turquia como parte do Ocidente. No final do século a sua pretensão a fazer parte a União Europeia era já amplamente reconhecida. Os conflitos com a Grécia e em torno do futuro do Chipre (que a Turquia invadiu e dividiu nos anos 70) dificultaram as relações. Dentro da própria Turquia, a questão fundamental durante grande parte do meio século depois de 1945 foi saber até que ponto o grandioso projeto de Atatürk de um forte Estado burocrático, com uma base industrial moderna e uma cultura secular, era compatível com a democracia representativa (a Turquia de Atatürk fora um Estado de partido único) e uma economia aberta (não dominada pelo Estado).

Entretanto em África começou a luta pela independência dos povos africanos sob o poder colonial europeu. Como no Médio Oriente ou no resto da Ásia, a descolonização em África não trouxe nada de bom. Os novos líderes africanos herdaram as fraquezas dos seus antecessores coloniais – cujo lugar ocuparam depois de uma brevíssima transição. A etnia regional ou local era muito mais forte do que o nacionalismo. Construir identidades nacionais sem vernáculos comuns representava um enorme desafio. O legado tribal do domínio colonial estava profundamente arraigado: com efeito, em muitas zonas de África, criar novas formas de etnicidade tribal foi o meio normal de adaptação à dimensão mais ampla da vida económica e social. Entretanto, a pressão para aumentar o papel do Estado era enorme, quer nos serviços sociais quer no desenvolvimento económico. A necessidade imperativa de qualquer novo regime era encontrar fontes externas de ajuda financeira e militar, antes que perdesse a sua pretensão à lealdade dos seus seguidores. Era um contexto perfeito para as maiores potências mundiais aumentarem a sua influência num novo modelo pós-colonial. Se tivessem motivos para o fazer, os meios para construir novos impérios estavam à sua disposição.

O caso do Irão foi o mais intrigante. O Irão fora ocupado por forças soviéticas e britânicas em 1941, em parte para travar as aproximações de Reza Xá à Alemanha e sobretudo para garantir o livre-trânsito dos abastecimentos da Grã-Bretanha para uma Rússia cercada de inimigos. Reza Xá abdicou e foi para o exílio. O resultado foi o desmoronamento do seu Estado autoritário. Notáveis ressentidos (a poderosa classe latifundiária), movimentos radicais nas cidades (como o Partido Tudeh), líderes tribais (dos Qashgai e Bakhtiari) e minorias étnicas (curdos, árabes e azerbaijanos) contestaram a autoridade do novo xá e competiram pelo favor das potências ocupantes. No final da guerra, esta instabilidade aumentou. O Exército Vermelho permaneceu no Azerbaijão iraniano até 1946. Os efeitos da inflação do tempo da guerra arruinaram a economia. Os apoiantes do xá competiam com os radicais e os notáveis pelo controlo do Majlis, ou parlamento. O governo enfrentava a resistência crescente de grupos tribais, provinciais e étnicos. Em 1949, contudo, o xá já estava perto de reafirmar o seu controlo, talvez porque a alternativa fosse uma maior fragmentação do Estado iraniano e um ciclo interminável de agitação social.

Mas antes que isso pudesse acontecer, eclodiu uma grande crise. Para restabelecer a sua posição, o xá quisera aumentar as receitas da principal fonte de riqueza iraniana: os vastos campos petrolíferos no Sudoeste do país, controlados pela britânica Anglo-Iranian Oil Company (a BP). Em julho de 1949, o chamado «acordo suplementar» propôs aumentar os direitos que a companhia pagava de 15% para 20%, com outros aumentos programados. Mas este acordo deparou com dois grandes obstáculos. O primeiro foi o receio entre os adversários do regime de que esta nova riqueza consolidaria o restabelecimento do poder do xá segundo os padrões anteriores à guerra. O segundo foi a oposição muito mais ampla da opinião iraniana à continuação do controlo estrangeiro de um recurso fundamental do Irão e à influência que a companhia supostamente exercia. Entretanto, enquanto a questão era debatida no Majlis, ficou-se a saber que a Aramco, a Arab-American Oil Company, oferecera uma participação de 50% nos lucros ao seu governo anfitrião na Arábia Saudita. Enquanto prosseguiam as negociações com a Anglo-Iranian, a temperatura política subiu e em março de 1951 o Majlis aprovou uma lei para nacionalizar a companhia. Poucos dias depois Mohamed Mossadeq, um antigo adversário do xá e do seu pai, tomava posse como primeiro-ministro.

O resultado foi um impasse. A proposta britânica de uma intervenção armada foi vetada em Washington, onde a abordagem de Londres era considerada imprudente e retrógrada. O grande contingente britânico foi retirado dos campos e da refinaria de Abadan. As grandes companhias petrolíferas, temendo que outros pudessem seguir o exemplo iraniano, impuseram um boicote internacional ao petróleo iraniano, que se revelou bastante eficaz. Mossadeq parecia à beira de conseguir uma revolução constitucional, mas a sua base de apoio – nunca muito coesa – começou então a desagregar-se. No Ocidente ele era visto como um perigoso demagogo, abrindo caminho para o domínio comunista. Em agosto de 1953 Mossadeq foi derrubado por um golpe militar, ajudado e financiado em parte por agentes americanos com algum apoio britânico, e substituído por um primeiro-ministro fiel ao xá. Segundo um novo acordo petrolífero, o petróleo do Irão seria vendido através de um cartel de companhias britânicas e americanas. As receitas do petróleo do xá aumentaram dez vezes entre 1954-1955 e 1960-1961. E quinze vezes em 1973-1974. O mesmo aconteceu ao seu poder militar e político. No início dos anos 60, já estava firmemente estabelecido como aliado importante do Ocidente, cujo valor como baluarte contra o avanço dos soviéticos no Sul era afetado periodicamente pelo receio de que a sua ambição de se tornar senhor do Golfo provocasse um conflito com os Estados árabes da região.