Durante a Guerra Fria, a maior parte da Europa foi dividida entre duas alianças. Os membros da NATO, mostrados a azul, contrapunham-se aos membros do Pacto de Varsóvia. A Jugoslávia, embora comunista, deixou a esfera soviética em 1948, e a Albânia foi membro do Pacto de Varsóvia até 1968. O que terá levado a Turquia a entrar na Nato? A Turquia entrou na NATO em 18 de fevereiro de 1952, juntamente com a Grécia. A decisão foi essencialmente um produto da Guerra Fria. Havia, sobretudo, medo da União Soviética. Em 1943, a Turquia não estava oficialmente nem do lado da Alemanha nem do lado dos Aliados. Manteve uma política de neutralidade durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial. A situação era, contudo, bastante delicada. Em 1941, a Turquia assinou um tratado de amizade e de não agressão com a Alemanha nazi. Isto permitiu-lhe evitar um conflito direto com Hitler. Ao mesmo tempo, mantinha boas relações diplomáticas com o Reino Unido e recebia pressão dos Aliados para entrar na guerra do seu lado. A Turquia forneceu à Alemanha um importante recurso estratégico, o minério de crómio, essencial para a indústria militar alemã. Mais tarde, sob pressão dos Aliados, interrompeu esse comércio. Em 1943, os Aliados tentaram convencer o presidente turco, İsmet İnönü, a participar na guerra. Houve mesmo uma reunião entre Churchill e İnönü, mas a Turquia recusou entrar no conflito por considerar que não estava suficientemente preparada militarmente e recear uma invasão alemã ou soviética. Só em fevereiro de 1945, quando a derrota da Alemanha era praticamente inevitável, a Turquia declarou guerra à Alemanha e ao Japão. Esta declaração teve sobretudo um caráter político e diplomático, permitindo-lhe participar na criação das Nações Unidas, já que apenas os países que estivessem em guerra com as potências do Eixo podiam ser membros fundadores.
Depois da Segunda Guerra Mundial, Moscovo pressionou a Turquia relativamente aos estreitos do Bósforo e dos Dardanelos e fez reivindicações territoriais no leste da Turquia. Para Ancara, a possibilidade de ficar sob pressão soviética era bastante concreta. A aproximação aos EUA e ao Ocidente foi, portanto, uma estratégia de sobrevivência. E houve um gesto particularmente importante: em 1950, a Turquia enviou tropas para combater na Guerra da Coreia, sob a bandeira das Nações Unidas. Isso demonstrou aos americanos e aos restantes ocidentais que Ancara não pretendia apenas pedir a proteção ocidental: estava disposta a combater ao lado dela.A NATO também queria muito a Turquia, não por ser particularmente “atlântica”, obviamente, mas devido à particular geografia turca: controla o Bósforo e os Dardanelos; liga o Mar Negro ao Mediterrâneo; está encostada ao Médio Oriente; possui uma enorme península europeia, a Trácia;e tinha um dos maiores exércitos da Aliança. A própria NATO reconhece que a localização da Turquia no flanco sudeste, as suas forças militares e a possibilidade de utilização de bases terrestres e marítimas foram razões fundamentais para a sua admissão. A Turquia precisava da NATO para se proteger da URSS; a NATO precisava da Turquia para conter a URSS.
A Turquia não entrou na NATO para introduzir o Médio Oriente dentro da Europa. Entrou porque, naquela época, a própria Turquia queria ser inequivocamente parte do Ocidente. A NATO, por seu lado, aceitou deliberadamente uma potência que estava geograficamente entre mundos diferentes. A própria NATO descreve hoje a Turquia como estando na encruzilhada entre Europa, Médio Oriente, Cáucaso e Ásia Central. A imagem da Turquia, como tendo o pé direito na Europa e o esquerdo no Médio Oriente/Ásia, é quase uma representação cartográfica da política externa turca. Atatürk tinha orientado a República para a modernização e aproximação ao Ocidente. Depois da guerra, a Turquia aderiu ao campo ocidental, recebendo apoio da Doutrina Truman e do Plano Marshall.
A geografia nunca deixou de existir. É precisamente essa ambiguidade que lhe dá um poder geopolítico invulgar. Por isso, a Turquia, em vez de ser o Cavalo de Tróia dentro da NATO, foi o cavalo que a NATO colocou deliberadamente à porta de Tróia. Há um documento do Conselho de Segurança Nacional americano de 1951 que é particularmente revelador. Considerava a Turquia “o mais forte país anticomunista na periferia da URSS” e sublinhava que a sua posição geográfica controlava as rotas aéreas, terrestres e marítimas - sobretudo os estreitos que ligam a Rússia ao Mediterrâneo oriental. E daí o acesso ao canal de Suez e os campos petrolíferos do Médio Oriente. Os americanos não estavam simplesmente a defender a Turquia. Estavam a utilizar a geografia turca como instrumento de contenção soviética.
A rivalidade entre a Rússia e a Turquia já tinha tempo antes da Guerra Fria. Ela vinha de séculos de competição imperial, sobretudo entre o Império Russo dos czares e o Império Otomano dos sultões. Houve uma sucessão impressionante de guerras entre russos e otomanas, mais de uma dúzia, entre 1676 e 1878. A questão central era quase sempre a mesma: quem controlaria o espaço em torno do Mar Negro, dos Balcãs, do Cáucaso e dos estreitos? E a Rússia tinha razões geopolíticas muito profundas para querer avançar para sul: era o problema russo de precisar de “mares quentes”. A Rússia era uma potência continental gigantesca, mas tinha uma vulnerabilidade: o acesso marítimo.
O Báltico podia ser bloqueado pelo gelo no inverno; o Ártico era pouco acessível durante boa parte do ano; e o Mar Negro estava condicionado pelo sistema dos estreitos otomanos através do Bósforo, Dardanelos, a caminho do Mediterrâneo. Quem controlasse Constantinopla/Istambul e os estreitos possuía, em grande medida, a chave da saída russa para o Mediterrâneo. A Anatólia é justamente o território que impede a expansão russa para o Mediterrâneo oriental.
E havia ainda a questão dos Balcãs. A Rússia apresentava-se também como protetora dos povos eslavos e ortodoxos dos Balcãs, particularmente sérvios, búlgaros, romenos e gregos, embora a dimensão religiosa estivesse obviamente misturada com interesses imperiais. A derrota otomana na guerra (1877–1878) foi particularmente importante. A Rússia avançou profundamente nos Balcãs e chegou às portas de Istambul. O Império Russo desejava recuperar territórios perdidos na Guerra da Crimeia (1853–1856). O Tratado de San Stefano criou uma enorme Bulgária sob influência russa. As outras potências europeias ficaram alarmadas. E é precisamente daí que surge o Congresso de Berlim de 1878, onde Bismarck e as grandes potências redesenharam a solução para impedir que a Rússia obtivesse uma posição dominante nos Balcãs.
Muito antes de 1952 (ano da entrada da Turquia na NATO), havia já uma espécie de “questão turca” dentro do equilíbrio europeu: Se a Rússia dominasse os estreitos e Istambul, a correlação de forças na Europa poderia alterar-se radicalmente. E é então quando chega a Primeira Guerra Mundial. A Rússia imperial entrou na guerra contra os Impérios Centrais, mas precisava desesperadamente de uma ligação marítima com os seus aliados ocidentais. Os Dardanelos eram a chave. Daí a campanha de Gallipoli (1915–1916): britânicos e franceses tentaram abrir os estreitos, derrotar o Império Otomano e alcançar Istambul. Não conseguiram. E, ironicamente, quando na Rússia finalmente vingou a Revolução Bolchevique de 1917, entrou em colapso. Lenine acabou por destruir precisamente o Império czarista que durante séculos tinha pressionado os otomanos.
Em 1952, havia uma memória histórica muito mais antiga. A Turquia republicana não olhava para a União Soviética apenas na face de Stalin. Via também, por detrás dele, uma longa história de uma Rússia imperial, a expandir-se para Sul, a capturar o Mar Negro, o Cáucaso, os Balcãs e os estreitos. É por isso que a pressão soviética sobre os estreitos em 1945–46 foi recebida em Ancara com uma sensibilidade extraordinária. Para um observador turco, aquilo podia parecer assustadoramente familiar, uma nova Rússia a fazer uma exigência muito antiga.
A Turquia não entrou na NATO porque subitamente se tornou europeia; entrou porque, durante séculos, a sua posição geográfica tinha feito dela uma das peças centrais do equilíbrio de poder europeu. Os otomanos passaram séculos a ser considerados o “parente doente da Europa”; a República Turca acabou por entrar na principal aliança militar europeia precisamente porque continuava a ocupar o território que a Rússia mais queria atravessar para chegar ao Mediterrâneo. Por outro lado, Atatürk era profundamente pró-europeu no sentido de modernização, secularização e ocidentalização, mas não era propriamente um admirador acrítico de tudo o que vinha da Europa. A questão é que, para Mustafa Kemal Atatürk, a Europa funcionava como uma espécie de modelo civilizacional e institucional. Depois da catástrofe do Império Otomano, ele parece ter chegado a uma conclusão bastante radical: se a Turquia quisesse sobreviver como Estado moderno e independente, teria de adoptar as formas políticas, jurídicas, científicas e educacionais da Europa.