Há uma diferença histórica importante nos sistemas de parentesco e casamento. Na Europa ocidental a descendência é predominantemente bilateral/cognática. Ao passo que em muitas sociedades muçulmanas tradicionais, sobretudo as que mantém a tradição tribal, é mais frequente a descendência ser patrilinear/agnática. Neste caso, em várias regiões, são frequentes os casamentos entre primos paralelos patrilineares. Na Europa é muito menos frequente o casamento entre primos. Historicamente, por razões que têm ver com o Cristianismo, mas não só, houve fortes restrições ao casamento entre parentes próximos.
Na Europa medieval houve uma combinação de fatores: direito canónico; regras de impedimento matrimonial; herança; instituições da Igreja; e padrões de residência. Um exemplo particularmente importante é a proibição, pela Igreja Católica, de casamentos dentro de graus relativamente amplos de parentesco. Essas regras foram sendo modificadas ao longo da Idade Média, mas contribuíram para reduzir a reprodução de grupos de parentesco fechados. Ao mesmo tempo, a Europa Ocidental desenvolveu uma forte tradição de família: a conjugal/nuclear com residência local. No “mundo muçulmano”, o padrão de casamento entre primos é mais forte em algumas regiões do que noutras, mais em partes da Península Arábica, Iraque, Síria, Jordânia, Paquistão e Afeganistão. Mas existem sociedades muçulmanas historicamente não patrilineares. O parentesco agnático árabe não foi uma criação propriamente original do islão, mas, em grande medida, uma incorporação das estruturas tribais e familiares preexistentes. Já no "mundo cristão latino", o caso foi diferente na medida em que foram estabelecidas novas regras canónicas.
No modelo tribal árabe clássico, a unidade fundamental é a linhagem masculina (nasab). A pessoa é concebida como pertencendo a uma cadeia de descendência predominantemente masculina. Os homens ligados por essa cadeia constituem uma unidade de parentesco que pode ser politicamente relevante. O princípio é, portanto, agnático: os parentes paternos têm particular primazia. Isso não significa que os parentes maternos sejam considerados irrelevantes. Significa que, para determinadas questões – identidade de grupo, solidariedade, herança, proteção, alianças – a linha masculina tem precedência. O casamento entre primos, no sentido clássico, é pela via paterna, isto é, o rapaz casa com a filha de um irmão do pai. O casamento permite que uma família masculina conserve relações, propriedade e alianças dentro da própria rede agnática. A rapariga sai da sua família nuclear para entrar numa rede de parentesco agnática mais ampla. Isso reforça a confiança e a solidariedade entre parentes para concentrar propriedades e aumentar o poder político. O levirato – casamento de uma viúva com um irmão do marido falecido – tem uma lógica perfeitamente compreensível, manter a mulher, os descendentes e eventualmente a propriedade dentro do grupo de parentesco do marido. A oposição cristã ao levirato impediu diretamente a reprodução da estrutura tribal. A Igreja latina interpretava a tradição de elaboração das regras matrimoniais incluídas nas normas bíblicas não apenas sobre o levirato, mas também sobre o concubinato e a união sexual ilegítima. Isso não significa que o concubinato desaparecesse imediatamente. Pelo contrário, continuou a existir durante séculos. A diferença é que deixou progressivamente de possuir a mesma legitimidade social e jurídica. E o casamento passou progressivamente a ser concebido não apenas como uma aliança entre duas famílias, mas como um vínculo jurídico e religioso próprio do casal. O papa Gregório I está no início de um processo, não no seu ponto de chegada. A Igreja latina não se limitou a cristianizar uma sociedade tribal; ela alterou os mecanismos através dos quais essa sociedade reproduzia o parentesco. É precisamente por isso que alguns historiadores consideram as regras matrimoniais da Igreja uma possível causa institucional da peculiaridade da família ocidental. A Igreja estava a combater não apenas "imoralidades sexuais", mas mecanismos sociais de reprodução do parentesco.
A Europa Ocidental desenvolveu uma lógica inversa. Na Europa Ocidental medieval, particularmente sob a influência da Igreja Católica, houve uma série de regras que dificultaram o casamento entre parentes próximos e, durante períodos da Idade Média, chegaram a abranger graus relativamente distantes de parentesco. O objetivo não foi simplesmente proibir o casamento de primos. O objetivo estrutural mais importante era a amplificação da procura de cônjuges com grande amplitude. era para evitar clusters familiares relativamente fechados. Era o tabu da endogamia a funcionar. Mas o efeito indireto era para evitar a concentração de propriedade. Num sistema com casamentos predominantemente não endogâmicos, os indivíduos estabelecem relações com outras famílias. As redes sociais tornam-se mais amplas. E a família nuclear pode adquirir maior autonomia. A propriedade e as alianças tendem a circular entre diferentes grupos familiares.
O cristianismo latino foi um dos grandes agentes da transformação do sistema de parentesco. Mas não é seguro dizer que essa transformação tenha sido um exclusivo do cristianismo. A gens romana já se estava a modificar antes da cristianização. A gens republicana era uma estrutura de descendência fortemente associada à linha masculina. Mas durante s fase imperial a gens republicana perdeu grande parte da sua função política e jurídica. O catolicismo desenvolveu uma política matrimonial extraordinariamente restritiva em comparação com as sociedades gentias. Isso dificultou a reprodução de grupos de parentesco fechados. A Igreja católica, ao dificultar progressivamente os casamentos pseudoendogâmicos, favoreceu a formação de alianças matrimoniais à distância. Essa é a imagem de marca do sistema dinástico medieval europeu. Daí que, por exemplo, Filipe II [1527-1598], entre Lisboa e Viena, nunca ficaria na rua se quisesse dormir em qualquer capital da Europa Ocidental.
O cristianismo latino foi um dos grandes agentes da transformação do sistema de parentesco. Mas não é seguro dizer que essa transformação tenha sido um exclusivo do cristianismo. A gens romana já se estava a modificar antes da cristianização. A gens republicana era uma estrutura de descendência fortemente associada à linha masculina. Mas durante s fase imperial a gens republicana perdeu grande parte da sua função política e jurídica. O catolicismo desenvolveu uma política matrimonial extraordinariamente restritiva em comparação com as sociedades gentias. Isso dificultou a reprodução de grupos de parentesco fechados. A Igreja católica, ao dificultar progressivamente os casamentos pseudoendogâmicos, favoreceu a formação de alianças matrimoniais à distância. Essa é a imagem de marca do sistema dinástico medieval europeu. Daí que, por exemplo, Filipe II [1527-1598], entre Lisboa e Viena, nunca ficaria na rua se quisesse dormir em qualquer capital da Europa Ocidental.
Uma transformação estrutural que não teve apenas a ver com a questão religiosa quem podia casar com quem. Jack Goody argumentou que as instituições matrimoniais da Igreja tiveram efeitos profundos sobre a organização da família, da propriedade e do parentesco na Europa. Mas outros historiadores contestaram a versão mais forte dessa tese, mostrando que muitas transformações já estavam em curso no mundo romano, para além das influências que vieram do mundo germânico cujas práticas efetivas não correspondiam às normas do direito canónico católico. O cristianismo oriental - bizantino/ortodoxo - não produziu exatamente o mesmo padrão de parentesco da Europa Ocidental. Num sistema de casamento entre primos, duas ramificações da mesma família podem voltar a unir-se. A propriedade e as relações sociais tendem a permanecer concentradas. A exogamia promovida pela Igreja produz o contrário. No modelo agnático árabe tradicional, o casamento pode funcionar como instrumento de endogamia da linhagem. Na Europa cristã latina, a regulamentação matrimonial tende a transformar o casamento em instrumento de exogamia e criação de alianças entre grupos distintos. A proibição progressiva da poliginia e a condenação do concubinato produzem uma estrutura genealógica muito diferente. A unidade fundamental passa a ser o casal conjugal. E quando esse casamento é simultaneamente monogâmico, exclusivo e indissolúvel, a estrutura social muda profundamente. E isto ajuda a compreender a emergência da família nuclear ocidental. A Igreja foi desmantelando gradualmente os mecanismos institucionais que permitiam a reprodução de grupos de parentesco extensos e fechados. É precisamente esta ideia que está por trás da famosa hipótese da Igreja, associada sobretudo a Jack Goody, embora a sua versão forte seja discutida pelos historiadores. O Islão não criou o sistema agnático árabe; ele surgiu de estruturas tribais anteriores e foi profundamente regulamentado pelo direito islâmico. Já a Igreja latina, ao contrário, acabou por intervir cada vez mais profundamente nas próprias regras de reprodução do parentesco.
Beda - Historia Eclesiástica Gentis Anglorum - apresenta o papa Gregório Magno [540-604] como uma figura decisiva na cristianização dos anglo-saxões. A Igreja latina desenvolveu uma concepção de impedimentos matrimoniais muito mais abrangente do que a simples proibição do incesto nuclear. Com o tempo, foram restringidos casamentos entre parentes consanguíneos e também entre parentes por afinidade. A extensão máxima dos impedimentos chegou, no Ocidente medieval, a graus extraordinariamente amplos antes de ser posteriormente reduzida. Isso tinha uma consequência social muito importante: o casamento deixava de ser um mecanismo para reproduzir indefinidamente uma linhagem fechada.
Beda - Historia Eclesiástica Gentis Anglorum - apresenta o papa Gregório Magno [540-604] como uma figura decisiva na cristianização dos anglo-saxões. A Igreja latina desenvolveu uma concepção de impedimentos matrimoniais muito mais abrangente do que a simples proibição do incesto nuclear. Com o tempo, foram restringidos casamentos entre parentes consanguíneos e também entre parentes por afinidade. A extensão máxima dos impedimentos chegou, no Ocidente medieval, a graus extraordinariamente amplos antes de ser posteriormente reduzida. Isso tinha uma consequência social muito importante: o casamento deixava de ser um mecanismo para reproduzir indefinidamente uma linhagem fechada.







