segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A necessidade de uma ciência integradora: de volta ao tempo cíclico


O tempo cíclico é o tempo mítico, que a ciência e a filosofia moderna abandonaram para abraçar o tempo linear judaico-cristão, com um começo e um fim. É o tempo historicista/positivista, irreversível, correndo de trás para a frente.

Assim, com este paradigma de pensamento, o progresso técnico tocado pela evolução da ciência seria linearmente contínuo numa crescente melhoria de bem-estar. E não podia ser de outra maneira. Se a técnica apresentava problemas, eles não estavam na técnica em si mesmo, mas na sua excessiva utilização abusiva, fáustica, desequilibrada e sem o mínimo respeito pela qualidade da vida dos ecossistemas humanos e naturais.

É preciso refletir sobre o poder das formas mentais, para avaliarmos os efeitos do excesso de racionalismo e o défice daquilo a que os antigos chamavam Sagrado. E o que agora está à vista é uma certa patologia a que chamaremos demencial por falta de melhor, que vive num vaivém constante entre consciente e inconsciente.

A dimensão espiritual, a que os materialistas reduzem apenas à intuição, dispõe precisamente da capacidade de manejar as ambiguidades naturais da vida. O excesso de racionalidade inevitavelmente teria de dar origem à irracionalidade. Fico-me por poderes instituídos que continuam negacionistas aos sinais dos tempos, sem compreenderem as formas culturais nascentes, como é o caso de um Trump ou um Bolsonaro. Todos os tipos de fundamentalismo constituem barreiras intransponíveis a diálogos fundamentais que precisamos ter.


A ciência contemporânea tem sabido descrever a realidade com uma eficiência assombrosa, mas apenas no que diz respeito ao seu suporte material. Porque em relação a bom senso, necessário para orientar a nossa maneira de estar no mundo de forma sustentável, fracassou. Se a Natureza se criou a si própria, mas com um livro de instruções escrito em linguagem simbólica, sendo a matemática a linguagem de eleição para Galileu, e para mais alguns talentosos, a verdade é que este talento matemático se tem ficado apenas pela tinta com que o texto foi escrito, tendo o significado do poema ficado por decifrar. Neste aspeto, não temos estado mal nos últimos anos em Portugal, basta ver o crescente número de prémios que os nossos jovens vão ganhando no estrangeiro ao mais alto nível. Sobretudo, precisamente, no campo das ciências exatas. E o nosso Presidente não se tem feito rogado ao repetir à exaustão que “nós somos os melhores”.

Mas, já há pelo menos há duas décadas, um desses cientistas portugueses já consagrados ao fim de muitos anos radicado lá fora – António Damásio – nos vem informando da importância fundamental das emoções na racionalidade. Ou seja, sem o tempero das emoções a nossa razão cai na apatia de espírito. A nossa glória reside na imaginação e um pouco no sonho também. Para além do pensamento conceptual, que é intrínseco ao pensamento científico racional, precisamos também do pensamento metafórico e alegórico que é feito de imagens analógicas. Ora, o paradigma dominante tem sido o das ciências exatas, em detrimento das ciências sociais e humanas. Uma delas, desvalorizada e desacreditada pelo “mainstream” é a antropologia. E dentro desta, a antropologia cultural e simbólica.

Por muito difícil que a vida e a mente sejam de compreender, não faria sentido dizer que a mente não faz parte do Universo no seu fundamento essencial, como dizer que são coisas que evoluíram por acaso, mas que podiam não ter evoluído, e assim, a Terra a esta hora seria um planeta igual a Vénus ou Júpiter, sem vida nem mente. Um objeto mecânico sem vida nem mente.

Todos esses campos que por vezes se classificam de espirituais, devem merecer o mesmo tipo de atenção da ciência que é dada à matéria e às máquinas. Aquelas coisas que à partida são chamadas perjuramente de invisíveis pela ciência ortodoxa, também deviam ser aprofundadas pela ciência. Todos teriam a ganhar, crentes e não crentes nesses disparates supersticiosos. E de facto isso não contrariaria o facto de chamarmos disparates a muitas coisas que ouvimos todos os dias na rua ou na televisão. Mas sem arrogância ou presunção de superioridade. Na verdade, ainda há muita coisa por explicar, e que os verdadeiros cientistas não sabem. Por exemplo, na Holanda, Alemanha, Áustria, a medicina convencional recorre assiduamente à colaboração de radiestesistas, obtendo resultados muito satisfatórios. Todavia, em Portugal, um médico que tenha o mesmo procedimento, pode ser expulso da Ordem dos Médicos.

A radiestesia, por exemplo, aquela que é utilizada para a deteção de poços de água subterrânea, não prova ser uma ciência no sentido estrito, pois não há dados que corroborem as hipóteses dos proponentes. Todas as experiências conduzidas seguindo o método científico demonstraram que o uso de técnicas de radiestesia não aumenta a probabilidade de que seja encontrada água no solo estudado. Porém, mesmo existindo divergências sobre a sua eficácia a radiestesia conseguiu ser aceita pela Academia de Ciências de Cuba, e ser incluída em 2009 entre os temas debatidos no VIII Congresso Cubano de Geologia. A radiestesia também foi por muitos anos aceite nos Estados Unidos como ciência. No entanto faltam estudos que o comprove. Alega-se que o movimento dos bastões dos radiestesistas é causado pelo efeito ideomotor que supostamente explicaria essa característica - além de outros supostos mistérios paranormais. Alega-se também que a aparente taxa de acerto seria causada pelo viés de confirmação. Os erros não são mencionados. Essa é uma tendência natural da mente humana e não necessariamente aplicada de má-fé pelos proponentes. 


E há depois toda uma parafernália de terapias alternativas New age que incluem no seu repertório a radiestesia, de credibilidade muito duvidosa. Claro que, o facto de uma chusma de curandeiros se aproveitarem desta onda nova era para fazerem pela vida, não significa que o princípio da radiestesia, ta como é defendido por algumas pessoas aparentemente sérias, seja uma aldrabice. Agora, a verdade é que, a ciência através da sua metodologia seguramente consagrada, não atesta a veracidade do que por aí se diz.

Käthe Bachler, é uma das radiestesistas mais sérias a nível mundial. Atualmente com 96 anos de idade, vem de uma família de agricultores de Salzburgo. A partir de 1969, começou a lidar com radiestesia e, a partir de 1971, passou a fazer conferências baseadas nas suas experiências. Após as primeiras viagens de pesquisa (América do Sul, 1972), recebeu uma bolsa de pesquisa do Instituto Pedagógico de Salzburgo e publicou as suas experiências e resultados de pesquisa a partir de 1976: Experiências de radiestesista; Veritas, Linz 1981; Biologia e doenças do local; Neubeuern: Inst. For Baubiologie + Oekologie, 1989; Experiências de radiestesista ; Landesverl., St. Pölten 2003; O bom lugar; Residência, St. Pölten 2007; Pesquisa direta do bom lugar ; Residência, St. Pölten 2008, 6ª ed.


Segundo Käthe Bachler, nós somos afetados pelas radiações da própria Terra nos bons e maus lugares. Estas têm um efeito muito maior e mais importante sobre nós do que tem sido reconhecido cientificamente. E isso também se passa com os nossos pensamentos e obcecações. As reações radiestésicas não são uma invenção, o ser humano está envolvido numa espécie de corpo radiante, invisível a olho nu, mas que pessoas muito sensíveis o podem sentir. Pode ser fortalecido, e é essa a mina dos terapeutas, e também pode ser rompido pela exposição a energias nocivas. Neste caso, é o sistema imunitário que mais sofre.

Existem áreas ao alcance da ciência, que não tendo sido devidamente exploradas, têm um grande potencial para contribuírem factualmente para um melhor conhecimento do mundo em que vivemos, e de nós próprios. Uma situação que está bem demonstrada é a exposição contínua e prolongada ao ruído de baixa frequência. Agora, se tem a ver com esse tal corpo radiante de que fala Käthe Bachler, esse é o busílis. Um português que se tem dedicado ao assunto é José Alexandre Cotta, autor do blogue e co-fundador da associação Radiestesia Lusitaniae, e que em parceria com o esoterista Paulo Alexandre Loução realizaram trabalho de campo junto a um menir e a uma anta no Alentejo. Segundo a geobiologia, a Terra é percorrida pela denominada rede Hartmann, cujas linhas têm 21 cm de largura e seguem exatamente a direção norte-sul e oriente-ocidente. Frequências vibratórias Curry e Hartmann têm sido verificadas exaustivamente nos cinco continentes e por milhares de radiestesistas. As medidas podem ter variações e as linhas Hartmann em certos locais apresentam uma configuração mais ou menos serpenteada.


Mais no domínio da espiritualidade e esoterismo é de referir o extraordinário trabalho literário de José Manuel Anes, que tem sido conhecido pela apresentação dos "Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira", mas o seu curriculo nesta área é vastíssimo. Com a emergência do Novo Espírito Antropológico na área das ciências humanas, a reabilitação científica do esoterismo tradicional tornou-se uma realidade. Mas convém distinguir o esoterismo tradicional do esoterismo-ficção que hoje polula livremente pela sociedade ocidental transmitindo ideias de cariz excessivamente carregado de superstição. O esoterismo tradicional exige uma libertação de qualquer dogma ou superstição, bem como não aceita  esoterismo-revelação, aquele em que as pessoas se afirmam falar com seres espirituais.

No domínio das Espiritualidades e Religiosidades, leccionou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, desde 1998 até 2010. Cursos Livres sobre Novos Movimentos Religiosos e Espiritualidades Alternativas e Violentas, integradas no que foi o Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões fundado e dirigido pelo Professor Moisés Espírito Santo. Sobre esses temas também tem leccionado no Centro Nacional de Cultura. Foi, nos anos 90, director da Biblioteca Hermética da Editora Hugin, É membro da European Society for the Study of Western Esotericism. É autor e co-autor de cerca de 30 livros e artigos no domínio das espiritualidades e religiosidades alternativas, de entre os quais se referem “Re-criações herméticas I e II” (1996, 1997), ambos na Hugin eds. “Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos” (3ª. Ed. 2006), “Um outro olhar – a face esotérica da cultura portuguesa (2006), “Mozart e os mistérios iniciáticos” (2007), “Alquimia, os alquimistas contemporâneos e os novos movimentos religiosos” (2009). “Uma Introdução ao Esoterismo Ocidental (Arranha Céus, 2ª Edição, 2014) .

Um outro português com grande notoriedade é o médico Luís Portela, ex-Presidente dos Laboratórios Bial, que tem realizado um amplo trabalho de divulgação dos estudos de parapsicologia e da consciência humana, incluindo a realização de congressos na área do cérebro e da consciência, tendo num deles estado presente o Dalai Lama. Luís Portela é Comendador da Ordem do Mérito, de que mais tarde veio a receber a Grã-Cruz. É também Professor Honorário da Universidade de Cádiz, em Espanha. Em 1998, foi distinguido com o Prémio de Neurociências da Louisiana State University, nos EUA. Colabora regularmente na comunicação social, tendo publicado oito livros: Evolução Tecnológica; À Janela da Vida; Esvoaçando; Serenamente; Encarar a Realidade; Ser Espiritual; O Prazer de Ser; da Ciência ao Amor;  Textos seus foram traduzidos e publicados em Inglaterra, no volume Spirit of Life.

As alterações climáticas e o desafio do projeto: “Covering Climate Now”




Muitos de nós hoje tem um sentimento de injustiça em relação às gerações a quem deveríamos entregar um mundo melhor tem de reflectir-se na necessária urgência de convocar todos para a procura de respostas. É o que hoje estão a fazer 250 órgãos de comunicação social de todo o mundo, entre jornais, rádios, televisões, blogues e podcasts, a reforçar durante uma semana na cobertura sobre a crise climática na iniciativa Covering Climate Now. Porque já não há dúvida de que esta é a batalha para que todos estamos convocados.

“Esta é a batalha das nossas vidas”, disse António Guterres. O desafio gigantesco que temos pela frente, contrariado pelo lento ritmo na mudança da nossa consciência para uma nova mundivisão, e para novos modos de vida, vai precisar de muitos anos para inverter o desarranjo a que chegámos. E isso, ao dar-nos consciência de que é um problema que ficará para as gerações mais novas enfrentarem e imporem soluções, põe muita gente furiosa. É o caso de Mark Herstgaard, fundador do Covering Climate Now, na foto em baixo.


Comecei a interessar-me pelo debate à volta das alterações climáticas na mesma altura em que criei este blogue em 2007, inspirado no blogue ‘De Rerum Natura’ também iniciado nesse ano, sendo Carlos Fiolhais e Desidério Murcho dois dos seus fundadores, e que eu já conhecia há algum tempo pelo meu envolvimento em debates que se vinham fazendo no âmbito da relação filosofia/ciência, tendo como pano de fundo as edições que se vinham publicando na Gradiva de Guilherme Valente, nas duas chancelas principais: Ciência Aberta e Filosofia Aberta. 

Na altura havia ficado surpreendido com Jorge Buescu, a partir de um seu post em 3 de abril de 2007, em que fazia uma crítica serrada aos ambientalistas fundamentalistas, estando na berlinda o Greenpeace. Embora Jorge Buescu não negasse o “aquecimento global”, a forma como fazia a crítica, a mensagem que deixou foi a contrária. E depois da intervenção de alguns comentadores, cujo conteúdo acabou por não revelar grande dissenso, Carlos Fiolhais fechou a cadeia de comentários com o seguinte golpe de misericórdia: “Escrevi outro dia no Sol sobre "Verdade Inconveniente" de Al Gore, que eu fui ver ao vivo. Ele é um verdadeiro artista. O que ele diz pondera estar certo, mas a maneira como diz tem mais a ver com um pregador evangélico do que com um divulgador de ciência. Mas o facto de misturar tão bem ciência e política é no mínimo curioso...”

Um caso para que Jorge Buescu chamava a atenção, era o Consenso de Copenhaga numa resposta a um dos comentadores: “Caro Miguel Carvalho: para voltar um pouco atrás, o livro do Lomborg tem 25 capítulos, dos quais apenas 1 se refere ao clima. E, 6 anos depois da publicação, é mais ou menos consensual na comunidade científica que trouxe dados genuinamente novos para a discussão. Procure no Google o Consenso de Copenhaga, por exemplo”. E eu fui então ver de que se tratava, porque desconhecia.

Lomborg, professor adjunto do Copenhagen Business Scholl, diretor do Centro de Consenso de Copenhaga, e ex-diretor do Instituto de Avaliação Ambiental em Copenhaga, tornou-se conhecido internacionalmente pelo seu best-seller e polémico livro: The Skeptical Environmentalist”, lançado em 2002. Em 2006 editou How to Spend $50 Billion to Make the World a Better Place. Em 2007 veio à luz com outro livro: Cool It: The Skeptical Environmentalist's Guide to Global Warming.

Em 2002, Lomborg e o Instituto de Avaliação Ambiental criaram o Consenso de Copenhaga, financiado pelo governo dinamarquês e pela revista The Economist, com o objetivo de estabelecer as prioridades para promover o bem-estar global, utilizando metodologias baseadas na teoria da economia do bem-estar. Em 2006, com o apoio do governo, foi criado o Centro do Consenso de Copenhaga. Mas 2012, quando a polémica de Lomborg já escaldava, as verbas governamentais foram retiradas e o centro fechou, sendo reinstalado nos Estados Unidos. 

Mas depois a saga de Lomborg continuou, quando já ninguém bem ponderado acreditava na sua boa-fé. Em 2015 a Universidade da Austrália Ocidental estabeleceu uma parceria para abrir um centro australiano, mas a medida gerou controvérsia e foi descoberto que a ideia havia partido do governo, que havia feito pressão sobre a Universidade com a oferta de financiamento. Os estudantes reuniram-se e protestaram, não apenas pelos meios obscuros usados na transação, mas também porque a baixa reputação científica de Lomborg iria manchar a reputação da Universidade. Parceiros científicos internacionais ameaçaram retirar. O escândalo foi tanto que o contrato acabou por ser anulado.

Afinal, Lomborg promovia campanhas sobre as alterações climáticas que era do mais pseudocientífico que havia. Ele não negava a realidade do aquecimento global, mas era um forte opositor do Protocolo de Quioto, e outras medidas para reduzir as emissões de carbono no curto prazo, argumentando que nós deveríamos nos adaptar à elevação da temperatura porque era inevitável, e era melhor investir em pesquisa e desenvolvimento de longo prazo para solucionar problemas que considerava mais importantes, como a pobreza, a poluição, a SIDA, a malária e a desnutrição.

O Comité Dinamarquês para a Desonestidade Científica condenou The Skeptical Environmentalist como "claramente contrário aos padrões para a prática da boa ciência". Obra desonesta, embora pessoalmente o autor tenha ficado ilibado porque a falta foi considerada devido a incompetência, e não a fraude científica. Lomborg admitiu não ser um especialista em problemas ambientais. Apesar da maciça rejeição da comunidade científica, ele tornou-se uma celebridade e as suas publicações têm sido de grande utilidade como um apoio para que políticos, e lobistas económicos justifiquem a sua recusa em adotar medidas para reduzir as emissões que provocam o aquecimento global.

O Consenso de Copenhague - que reuniu oito dos mais influentes economistas do mundo (incluindo os ganhadores do Prémio Nobel Robert Fogel, da Universidade de Chicago; Douglas North, da Universidade de Washington; e Vernon Smith, da Universidade de George Mason - teve a árdua tarefa de definir como 50 mil milhões de dólares deveriam ser investidos para melhorar o mundo. Foram escolhidas, inicialmente, dez áreas com desafios para o desenvolvimento: conflitos civis, mudanças climáticas, educação, estabilidade financeira, governança, fome e subnutrição, migração, reforma de mercado, água e saneamento e doenças infeciosas. Esta lista inicial foi somente mais uma das críticas que Lomborg teve que enfrentar. 

Quando perguntado sobre a origem dessa lista e o porquê de ela não incluir nenhum desafio em relação ao papel das mulheres - como estava explícito nos Objetivos do Milênio das Nações Unidas, Lomborg limitou-se a explicar que os desafios foram retirados de avaliações das mais diversas agências das Nações Unidas ao longo dos quatro anos precedentes. A relação custo-benefício era a tese inicial de Lomborg, de que investir no meio ambiente era um péssimo negócio. Os quatro melhores investimentos, de acordo com a decisão do Consenso, foram, respectivamente, o controlo da SIDA, o combate à subnutrição através de micro-nutrientes (vitaminas, ferro, zinco e etc), a liberalização do mercado e o controlo da malária. Dentre os quatro piores investimentos, três seriam ações em relação ao meio ambiente: “Não é dizer que não há aquecimento global e que os problemas relacionados ao meio-ambiente são inexistentes. Na verdade, a questão é como investir o dinheiro de forma inteligente. Para que investir muito dinheiro para obter pouco retorno, se podemos investir pouco dinheiro e obter muito retorno?” – questionou Lomborg.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Alguns exemplos de escrita da Antiguidade



O Disco de Faísto (Phaistos)
O Disco de Faísto (Phaistos) encontra-se no Museu Arqueológico de Heraclião, em Creta. É um disco em argila gravada, datado de 1700 a.C., encontrado nas ruínas do palácio minoico de Phaistos, na costa sul de Creta. Tem cerca de 15 centímetros de diâmetro e 1 centímetro de espessura. O disco de argila está decorado de ambos os lados com um total de 241 ideogramas (correspondendo 45 símbolos ou carateres individuais), dispostos numa espiral contínua no sentido dos ponteiros do relógio em ambas as faces. Continua a ser o exemplo de uma escrita que se revelou indecifrável. Signos ideográficos para representar pessoas, animais, plantas e objetos do quotidiano. Gareth Owens e John Coleman conseguiram há pouco tempo descobrir parte do seu significado. Um lado é dedicado a uma mulher grávida. O outro a uma mulher a dar à luz. A oração lê-se em espiral de fora para dentro. É, portanto, uma oração à Deusa-Mãe dos minoicos, diz Gareth Owens. 


Acima está uma tabela analítica com alguns carateres do disco de Faísto, em que o número associado corresponde à frequência com que aparece. Parecem hieróglifos cretenses ou egípcios. 


A Pedra de Roseta
A Pedra de Roseta foi encontrada no Egito, 56 Km a leste de Alexandria, em agosto de 1799, por soldados do exército de Napoleão. O bloco de pedra apresentava glifos cunhados em três partes distintas. Cada parte revelava um tipo de escrita que em nada se assemelha às demais: hieroglífica, demótica egípcia e grega clássica. A escrita do antigo Egito é uma escrita pictográfica – ideogramas individuais que representam uma ideia. Basicamente uma escrita por enigmas figurados ou por imagens, tendo na sua raiz uma função fonética.

Levantava-se a hipótese de que os três textos fossem o mesmo, embora apenas o em grego pudesse ser entendido. O médico britânico Thomas Young obteve um substancial progresso em 20 anos de estudo. Mas o mérito final da completa realização da tradução, em 1822, pertence ao estudioso francês Jean-François Champollion, que desta forma iniciou a ciência do estudo de assuntos referentes ao Egito. 


O texto regista um decreto do corpo sacerdotal do Egito, reunido em Mênfis, instituído em 196 a.C., sob o reinado de Ptolomeu V Epifânio (205 a 180 a.C.), escrito em dois idiomas: egípcio tardio e grego. O texto em antigo egípcio foi escrito em duas versões: hieróglifos e demótico, esta última uma variante cursiva da escrita hieroglífica. A pedra tem 114 cm de altura, 72 cm de largura, cerca de 28 cm de espessura e pesa 760 kg.



Ao aplicar a técnica de Young a outras inscrições do período ptolemaico, Champollion pôde confirmar a leitura de Young dos nomes gregos nas cártulas. Aplicando o mesmo método a uma inscrição não-ptolemaica de Abu Simbel, que se sabia ter sido construída por Ramsés II, conseguiu-se identificar o nome deste faraó, o primeiro nome puramente egípcio a ser decifrado. Champollion estudara copta e apercebeu-se de que esta, a língua litúrgica da igreja copta, descendia da língua codificada nas inscrições hieroglíficas. Eram logogramas, sinais que representam uma palavra ou um conceito únicos, bem como de fonogramas. Algumas suposições, como o indicador do género, e o logograma de Ré, o deus-Sol, vieram a provar-se corretos. A escrita hieroglífica não tinha vogais, por isso não sabemos como era pronunciada a língua.

A escrita dos Maias


Quando o conquistador espanhol Cortés pilhou aldeias na costa do golfo do Iucatão em 1519, encontrou livros nas casas dos habitantes maias. Os livros maias foram escritos em folhas de papel de casca de árvore branqueada e dobrada como um biombo japonês, encadernadas entre capas de madeira. Sobreviveram apenas quatro. Em 1562, o provincial franciscano do Iucatão, o bispo Diego de Landa, destruiu todos os livros maias que conseguiu apanhar, por serem contra o cristianismo. No entanto a história tem destas ironias, foi ele que decifrou a chave do sistema de escrita maia.

Em baixo – Glifos em pedra. Existem inúmeras inscrições gravadas na pedra e pintadas em recipientes de cerâmica, e nas paredes das cavernas. Em 1973, após aturados estudos, mostrou-se como as inscrições nos monumentos de locais importantes como Palenque, podiam ser usadas para “ler” os monumentos onde eram colocadas e os rituais levados a cabo pelos governantes.


Popol Vuh é um livro sagrado maia que narra o nascimento do mundo. O códice foi escrito em língua indígena por nativos cristianizados. É possível observar diversas influências do cristianismo neste livro, que permaneceu oculto até 1701, quando foi traduzido por um sacerdote espanhol. Segundo o Popol Vuh, no começo tudo era escuro e silêncio, só existiam o céu e o mar. Até que Tepeu e Gucumatz criaram as árvores, os animais e os homens. Os deuses queriam alguém para louvá-los, então primeiro criaram os homens de barros. Mas eles não se multiplicavam nem podiam andar, então os deuses desmancharam os homens. Depois os deuses fizeram os homens de madeira, porém eles também não se multiplicavam e não louvavam seus progenitores e foram desfeitos. Os animais então levaram milho aos deuses, e do milho foi feito o homem. O livro narra a epopeia dos deuses gémeos Hunahpú e Ixbalanqué. Estes deuses venceram os senhores do Xibalbá, o submundo maia, em seu próprio jogo. Assim se tornaram o sol e a lua.

A herança perdida das tradições indígenas


Um totem ou tóteme é qualquer objeto, animal ou planta que seja cultuado como um símbolo ancestral de uma comunidade. A religião derivada do culto do totem é denominada totemismo. É em relação ao totem que as coisas são classificadas em sagradas ou profanas dentro da comunidade. A etimologia da palavra é derivada de dodaim, que significa aldeia ou residência de um grupo familiar. Numa outra latitude americana deriva do ojibwa, ou uma língua relacionada, e significa o mesmo “grupo de afinidade”. 

Uma das principais funções dos tótemes era registar as lendas, linhagens e acontecimentos notáveis familiares ou de clã. Erguiam-se postes da vergonha como lembretes simbólicos de dívidas em falta, discussões, assassínios e outros acontecimentos indignos que não podiam ser discutidos publicamente.

Dos códigos, sinais e linguagem



O termo “código” deve ser dos mais abrangentes que há. Aplica-se de uma forma tão ampla que é difícil em pouco tempo percorrê-los a todos. É provável que, desde o início do comportamento humano reconhecível, a codificação tenha sido fundamental a todos os grupos humanos, tal como o é agora. Viajando para trás no tempo, vamos até ao primeiro homo sapiens, altura em que a nossa espécie deve ter começado a falar. Por estimativa digamos que foi há 350 mil anos.

É claro que enquanto crianças, antes de começarmos a falar, já conseguimos descodificar algumas coisas que nos rodeiam. Mas convenhamos que é muito rudimentar. Aprender uma língua é um processo codificado altamente complexo, que envolve não apenas o domínio de um conjunto de sons, mas também as regras que os regem, a par de todos os gestos, entoações e expressões faciais.

Desde o início dos tempos, os humanos desenvolveram a capacidade de compreender o significado dos padrões naturais que a natureza lhes apresentava. Um dos primeiros exemplos é o da caça a animais selvagens. O caçador tinha de saber interpretar diversos sinais referentes aos animais, desde os seus hábitos até às pegadas. Rastos, pegadas, resíduos, cheiros – são todos índices de alguma coisa que por lá passou deixando suas marcas.


Em todos os tempos, grupos humanos constituídos em sociedade sempre recorreram a outros meios de comunicação diversos da linguagem verbal, desde os desenhos nas grutas de Lascaux (As pinturas rupestres de Lascaux, França, têm cerca de 17.000 anos), aos rituais, danças, músicas, cerimoniais, jogos… Nós Petróglifos primitivos encontramos sinais de vários tipos geométricos e pictogramas de figuras humanas e de animais, a que chamamos arte rupestre. Manifestação artística em pinturas, esculturas, poética, cenografia etc. E, quando consideramos a linguagem verbal escrita, esta também não conheceu apenas o modo de codificação alfabética criado e estabelecido no Ocidente a partir dos gregos. Há outras formas de codificação escrita, diferentes da linguagem alfabeticamente articulada, tais como hieróglifos, pictogramas, ideogramas, formas estas que se aparentam com o desenho.


 A dada altura da sua evolução há cerca de 5.500 anos, desenvolveram a escrita e criaram simbologias, dando origem às primeiras cifras. A escrita suméria (escrita cuneiforme); pouco depois no Egito a escrita hieroglífica; e depois o alfabeto. Cerca de 600 a.C. a escrita pictográfica da América Central ligada aos Zapotecas.

Portanto, desde o começo dos tempos que temos de saber descodificar o nosso ambiente físico para sobrevivermos. A sobrevivência implica decifrar sinais como, por exemplo, rastos de animais, saber ler a paisagem e o clima, e por aí fora até aos dias de hoje, com sinais de trânsito, saídas de emergência, cartazes publicitários… enfim, até sinais secretos característicos de muitos grupos humanos.

O nosso estar-no-mundo, como indivíduos sociais que somos, é mediado por uma rede intrincada e plural de linguagem, isto é, comunicamos também através da leitura e/ou produção de várias formas: imagens, gráficos, sinais, setas, números, luzes... Através de objetos, sons musicais, gestos, expressões, cheiro e tato, através do olhar, do sentir e do apalpar. Somos uma espécie animal tão complexa quanto são complexas e plurais as linguagens que nos constituem como seres simbólicos, isto é, seres de linguagem. Em termos mais latos, o pensamento é entendido como um processo simbólico. Não se trata apenas de exteriorizar o pensamento através de uma língua falada, mas também de analisar os elementos e os processos simbólicos reais e possíveis.

Santo Agostinho estudou o signo na esteira do que já haviam feito os estoicos. E enquadrou-o em dois planos: o semântico e o comunicacional. Ao apresentar-se diretamente aos sentidos, o signo oferece mais que a sua presença, algo que não passa pelos sentidos.

Hoje a semiótica é uma ciência com os mesmos pergaminhos das outras ciências desde Ferdinand de Saussure e Charles Sanders Peirce. Mas enquanto em Saussure a semiologia é a ciência geral dos signos no contexto da psicologia social e dos signos linguísticos, em Peirce tudo é integrável no espaço ilimitado da semiosis desde que haja um intérprete. Em Peirce, o signo é fundamentalmente um processo de mediação, e abre, portanto, para uma dimensão de infinitude. Semiótica, ciência de toda e qualquer linguagem.

Há inegavelmente diferenças entre a semiologia enquanto tradição da semiótica europeia contemporânea e a semiótica enquanto tradição da semiótica anglo-saxónica contemporânea. Umberto Eco fala mesmo de teóricos da primeira geração e teóricos da segunda geração: "Os teóricos da primeira geração partem de Saussure e defendem uma linguística da frase e do código. Os teóricos da segunda geração partem de Peirce e caracterizam-se pela capacidade de articularem um estudo da língua como sistema estruturado que precede as atualizações discursivas e um estudo dos discursos e dos textos como produtos de uma língua já falada". As diferenças objetivas entre semiologia e semiótica assentam em duas tradições diferentes: a tradição linguística e a tradição filosófica.

Em síntese: existe uma linguagem verbal, linguagem de sons que veiculam conceitos e que se articulam no aparelho fonador, sons estes que, no Ocidente, receberam uma tradução visual alfabética (linguagem escrita), mas existe simultaneamente uma enorme variedade de outras linguagens que também se constituem em sistemas sociais e históricos de representação do mundo.
Portanto, quando dizemos linguagem, queremos nos referir a uma gama incrivelmente intrincada de formas sociais de comunicação e de significação que inclui a linguagem verbal articulada, mas absorve também, inclusive, a linguagem dos surdos-mudos, o sistema codificado da moda, da culinária e tantos outros. Enfim: todos os sistemas de produção de sentido através de códigos. Nessa medida, o termo linguagem se estende aos sistemas aparentemente mais inumanos como as linguagens binárias de que as máquinas se utilizam para se comunicar entre si e com o homem, até tudo aquilo que, na natureza, fala ao homem e é sentido como linguagem.

 A vida está necessariamente ligada a uma linguagem, a uma ordenação obtida a partir de um compartimento armazenador da informação: o ADN. Desde a descoberta da estrutura química do código genético, nos anos 50, aquilo que chamamos de vida não é senão uma espécie de linguagem, isto é, a própria noção de vida depende da existência de informação no sistema biológico. Sem informação não há mensagem, não há plano nem reprodução, não há mecanismo de controle e comando. Portanto, os dois ingredientes fundamentais da vida são: energia (que torna possíveis os processos dinâmicos) e informação (que comanda, controla, coordena, reproduz e, eventualmente, modifica e adapta o uso da energia). Sem a linguagem seria impossível a vida, pelo menos como a concebemos nos dias de hoje. Nessa medida, não apenas a vida é uma espécie de linguagem, mas também todos os sistemas e formas de linguagem tendem a se comportar como sistemas vivos, ou seja, eles reproduzem, se readaptam, se transformam e se regeneram como as coisas vivas.

Outro tópico a considerar é o de fenómeno. Entende-se por fenómeno qualquer coisa que esteja de algum modo e em qualquer sentido presente à mente, isto é, qualquer coisa que apareça, seja ela externa, seja ela interna ou visceral, uma expectativa ou desejo, quer pertença a um sonho, ou uma ideia geral e abstrata da ciência. A Fenomenologia seria, segundo Peirce, a descrição e análise das experiências que estão em aberto para todo o homem, cada dia e hora, em cada canto e esquina do nosso quotidiano. Fenómeno é tudo aquilo que aparece à mente, corresponda a algo real ou não. Qualidade de sentir é o modo mais imediato, mas já mediatizado. Sentimento é, pois, um quase-signo do mundo: nossa primeira forma rudimentar, vaga, imprecisa e indeterminada de predicação das coisas.

Mas a qualidade (quale) é apenas uma parte do fenómeno, visto que, para existir, a qualidade tem de estar encarnada na matéria. A factualidade do existir está nessa corporificação material. Falar em pensamento, no entanto, é falar em processo, mediação interpretativa entre nós e os fenómenos. É o terceiro estádio da dialética: agir, reagir, interagir e fazer são modos marcantes de uma síntese intelectual, o pensamento em signos através do qual representamos e interpretamos o mundo.
Nessa medida, o simples ato de olhar já está carregado de interpretação, visto que é sempre o resultado de uma elaboração cognitiva, fruto de uma mediação que possibilita a nossa orientação no espaço por um reconhecimento e assentimento diante das coisas que só o signo permite.

O signo é uma coisa que representa uma outra coisa: o seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma outra coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no lugar do objeto. Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo modo e numa certa capacidade. Por exemplo: a palavra casa, a pintura de uma casa, o desenho de uma casa, a fotografia de uma casa, o esboço de uma casa, um filme de uma casa, a planta baixa de uma casa, a maquete de uma casa, ou mesmo o seu olhar para uma casa, são todos signos do objeto casa. Não são a própria casa, nem a ideia geral que temos de casa. Substituem-na, apenas, cada um deles de um certo modo que depende da natureza do próprio signo. A natureza de uma fotografia não é a mesma de uma planta baixa.

Ora, o signo só pode representar o seu objeto para um intérprete. Ao representar produz na mente do intérprete um quase-signo, naturalmente o objeto mediado pelo signo. Em Peirce existe a noção de interpretante. Não é o intérprete do signo, mas um processo relacional que se cria na mente do intérprete. A partir da relação de representação que o signo mantém com o seu objeto, produz-se na mente interpretadora um outro signo que dá o significado do primeiro signo. Portanto, o significado de um signo é outro signo (seja este uma imagem mental, uma palavra, ou mesmo uma emoção. Ao ouvirmos uma peça de música, se não somos músicos profissionais, a audição dessa música não produzirá em nós senão uma série de qualidades de impressão, isto é, sensações auditivas, viscerais e possivelmente correspondências visuais a que podemos resumir numa emoção, e que os últimos filósofos analíticos deram o nome de qualia.