terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Nem sempre o que parece é

 


Entre o que Catarina proclama neste seu poster e o que é a ideologia "woke" há uma longa distância incomensurável. Esse tipo de proclamações surpreende pela sua faceta absurda. É um tipo de religião laica nascida nas universidades americanas e que tendeu a impor-se em todas as sociedades ocidentais até à segunda vinda de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos da América. Bem, pelo menos é uma amálgama de teorias filiadas na Teoria Crítica das luminárias da Escola de Frankfurt que migraram para a América na época de Hitler, e que e espalharam pelas academias nos departamentos das ciências sociais e humanas.

Entre as várias teorias, os "wokes" explicam que o género se escolhe. E que tudo o que conta é a nossa consciência de sermos homem ou mulher ou qualquer outra coisa que seja. A "teoria crítica da raça", uma das teorias, assegura que o "homem branco" é na sua essência racista, por definição sexista e colonialista.

A classe dos jornalistas conotados com a esquerda política, e um grande número de políticos e políticas de esquerda aderiram a estas teorias com entusiasmo, que subitamente passou a fazer parte do discurso dito "politicamente correto". Este ativismo que começou nas universidades americanas acabou por penetrar no ensino primário e secundário, não apenas nos Estados Unidos da América, mas um pouco por todo o lado ocidental. 

Torna-se forçoso que nos esforcemos para tentar compreender todas esta irracionalidade que acontece e aparece aos olhos das pessoas, sobretudo dos grandes consumidores das apelidadas "redes sociais". O mais espantoso não é, com efeito, o facto de meia dúzia de entusiastas professar teorias extravagantes. É o facto de estas encontrarem um enorme eco e se propagarem a uma velocidade estonteante. 

Em termos intelectuais, alguma coisa subtil, mas decisiva, aconteceu ao pensamento depois do 11 de Setembro. A fragilidade da ordem global foi revelada. Nas palavras aos jornalistas de Karl Rove - delegado chefe da Casa Civil da Presidência dos EUA sob a administração de George Bush filho - a ilusão ficou delineada: "Agora somos um império, e, quando agimos, criamos a nossa própria realidade. E, enquanto vocês estudam essa realidade, nós agimos outra vez, criando outra nova realidade que vocês também podem estudar. E é assim que as coisas se processarão. Somos atores da História e vocês caber-vos-á apenas estudar o que nós fazemos."

Pelo menos, entre 1989 e 2001, a globalização foi saudada como imparável, um processo histórico de sentido único. Porém, depois de 2001, o mundo já não se enquadraria aí. A partir de aí, os EUA iriam começar a decair. Na Europa, o tempo ia passando, até que em França, na madrugada de 20 de outubro de 2012, oitenta ativistas da Génération Identitaire subiam ao telhado da Grande Mesquita de Poitiers e desfraldavam a sua faixa identitária onde se lia: " 732 Génération Identitaire". A referência era, evidentemente, ao ano em que Carlos Martel derrotara os mouros.

A dimensão dos protestos -- Berlim, Londres, Bruxelas, Estocolmo e em muitas outras cidades importantes -- nos dias que se seguiram à morte de George Floyd, sugere uma coisa em particular: as pessoas sentiram que tinham de vir para a rua porque tinham de exprimir a sua repugnância pelo facto de o país mais poderoso e influente do mundo dar tão pouca importância à vida dos seus cidadãos negros que permitia que os seus agentes de polícia os asfixiassem impunemente e em plena luz do dia. Por todo o mundo, manifestantes reagiram a uma imagem que a América projetava de si.

Em 2019, Adam Rutherford, autor de How to Argue with a Racist (Como Discutir com um Racista), terminou uma palestra numa sala cheia de adultos com a declaração: Se vocês forem racistas, são meus inimigos. Ele citou depois a ativista política americana Angela Davis: «Numa sociedade racista, não basta sermos não racistas. Temos de ser antirracistas.» Mesmo antes da morte de George Floyd, parece ter-se tornado tão comummente afirmado como geralmente aceite que as pessoas do mundo ocidental viviam em sociedades racistas e que a resposta a este peculiar problema ocidental devia ter uma resposta peculiarmente ocidental: tornarem-se antirracistas devotas e ativas. Também isto tinha de ser ensinado a partir do berço, e nunca era demasiado cedo para começar.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

É preocupante o que está a acontecer nos EUA com o ICE


A comparação do ICE com as SA é manifestamente exagerada. As SA (camisas castanhas) – eram uma força paramilitar partidária, não estatal no sentido clássico; usadas para intimidar opositores, sindicatos, jornalistas; toleradas (e depois instrumentalizadas) pelo Estado até Hitler consolidar poder. O ICE é uma agência estatal criada em 2003, integrada no DHS. Não é uma milícia partidária. Portanto, não é uma réplica direta das SA. Onde o paralelo é legítimo é na desumanização de grupos específicos (imigrantes como “invasores”, “criminosos”); normalização de abusos em nome da “ordem”; expansão de poderes executivos com fraco controlo; retórica autoritária que trata direitos fundamentais como obstáculos.

Isto não é “nazismo”, mas é erosão democrática, E é assim que sistemas democráticos apodrecem por dentro, não com tanques no primeiro dia. Sobre Trump, Vance e afins – Trump não é um ideólogo, é um oportunista autoritário com profundo desprezo por instituições e História. Mas figuras como J.D. Vance são mais perigosas noutro sentido: articulam uma visão nacionalista, iliberal, embalada em linguagem “intelectual”, que torna estas ideias socialmente aceitáveis.

A História mostra que regimes autoritários raramente começam com genocídio; começam com exceções, linguagem violenta e “casos especiais”. Não é preciso que os EUA se tornem a Alemanha de 1933 para que algo grave esteja a acontecer. Basta que certos grupos deixem de contar plenamente como “pessoas”; a lei passe a ser aplicada seletivamente; o medo substitua o debate. Ora, isto tem padrões que a História nos ensinou a não ignorar. Hoje, nos EUA, o que está a ser alarmante são as detenções administrativas, os Centros de detenção sem supervisão adequada, e a dificuldade real de acesso a advogados. Forças coercivas afastadas do controlo democrático.

Não estamos em 1933, mas 1933 não começou em 1933, começou anos antes, com linguagem, exceções e indiferença. É o que a História chama de “early warning signs”. Nenhuma sociedade aceita violência em massa contra pessoas. Por isso, o primeiro passo é retirar o estatuto de pessoa. Isso faz-se sobretudo pela linguagem. Historicamente, a desumanização usa quatro truques recorrentes: Redução a uma categoria abstrata - não são indivíduos, são um “grupo”; não têm nomes, só rótulos. Quando alguém é apenas uma categoria, o sofrimento deixa de ser pessoal. Se é uma praga ou um exército inimigo, erradicar torna-se lógico. Não se pune o que a pessoa faz, mas o que ela é. A desumanização reduz empatia (comprovado em neurociência); facilita obediência a ordens cruéis; cria distância emocional (“não são como nós”). Hannah Arendt já dizia que o mal extremo raramente vem do ódio puro, mas da normalização da indiferença. A desumanização não é um detalhe retórico, é infraestrutura moral para abusos maiores.

Há um padrão quase matemático, repetido vezes sem conta – Cria-se uma ameaça existencial – por exemplo: terrorismo. A população aceita exceções “temporárias”. Suspendem-se direitos para um grupo específico, nunca para “todos”. Exemplos históricos: Alemanha (1933) – comunistas e judeus; o Decreto do Incêndio do Reichstag. Não aboliu a Constituição de Weimar. Suspendeu direitos “até nova ordem”: liberdade de expressão, privacidade, habeas corpus.

As exceções aplicam-se a pessoas, não a crimes. Não é: “cometeu X, logo perde Y”. É: “é migrante irregular, logo tem menos direitos”. Historicamente, isto é um sinal vermelho. Hannah Arendt chamava a isto a transformação da injustiça em burocracia. Elementos preocupantes: operações com pouca transparência; detenções sem aviso prévio; erros com cidadãos legais e até cidadãos americanos;
mortes em custódia raramente com consequências; cultura interna defensiva (“nós contra eles”).

Os grupos radicais de extrema-direita de pendor neonazi


O Grupo 1143, em Portugal, é uma organização ultranacionalista de extrema-direita com ideologia neonazi, envolvida em atividades de ódio, racismo e violência. O nome “1143” faz referência ao ano tradicional apontado como data da fundação de Portugal (Tratado de Zamora), adotado pelo grupo como símbolo da sua visão ultranacionalista. 
Em janeiro de 2026, a Polícia Judiciária (PJ) desencadeou uma grande operação chamada “Irmandade” para desmantelar o grupo e deter dezenas de suspeitos acusados de crimes como incitamento ao ódio, discriminação, violência, posse de armas ilegais e organização criminosa. O Ministério Público também mencionou que o grupo planeava ações provocatórias destinadas a inflamar tensões com a comunidade muçulmana.

O Grupo 1143 tem ideologia neonazi, supremacia branca, associando-se a símbolos como a caveira “totenkopf” usada pelas SS nazis. Foi associado a manifestações racistas, discriminatórias e xenófobas, incluindo críticas violentas a imigrantes e a comunidades religiosas como a muçulmana. Originou-se no início dos anos 2000 como uma fação radical dentro da claque Juventude Leonina (Sporting CP) e evoluiu para um movimento autonomizado com foco ideológico mais amplo. Em anos recentes voltou a emergir nas redes sociais (como X e Telegram) e em eventos públicos com mensagens de ódio e manifestações anti-imigração e anti Islão. O 1143 é tratado pelas autoridades como um grupo criminoso extremista, não como um ator político, e as tentativas de o colar automaticamente a partidos fazem parte da luta política.

Independentemente do seu carácter ultranacionalista, 
há ligações e influências internacionais por trás do Grupo 1143 para além das figuras “teóricas” como Damien Rieu ou Martin Sellner (que vêm de movimentos identitários franceses e austríacos). No caso do 1143, os vínculos europeus e transnacionais são sobretudo de natureza neonazi e militante, não institucional. Investigações e análises de grupos que monitorizam o extremismo indicam que o Grupo 1143 tem raízes e conexões com organizações de extrema-direita que fazem parte de redes internacionais de skinheads e neonazis, em particular com os Portugal Hammerskins, que são o “capítulo” português de uma organização internacional neonazi Hammerskin Nation. Os Hammerskins são um movimento transnacional de skinheads de extrema-direita com presença em vários países europeus e nos EUA. Mário Machado, um dos fundadores históricos do 1143, esteve ligado à subcultura bonehead e aos Hammerskins em Portugal, o que liga o grupo a redes europeias e globais de neonazis.

De forma factual e sem rótulos fáceis: O Grupo 1143 não é um partido político, não concorre a eleições nem atua no plano institucional. As investigações e processos judiciais apontam sobretudo para atividade criminal organizada, violência, intimidação e propaganda de ódio. Nesse sentido, funciona mais como um gangue ideológico do que como um movimento político clássico. Quanto à ligação a partidos (como o CHEGA não existe prova judicial ou orgânica de que o CHEGA controle, dirija ou integre o Grupo 1143. O que acontece muitas vezes é uma associação por proximidade discursiva feita no debate político — especialmente pela extrema-esquerda — mas isso é retórica política, não prova factual.

Mesmo que o Grupo 1143 seja um grupo português, a sua ideologia neonazi, supremacia branca e ódio xenófobo, é parte de um espectro mais amplo de movimentos de extrema-direita que se espalharam particularmente pelo Ocidente. Esses movimentos partilham símbolos, slogans e repertórios de ação inspirados no neonazismo internacional, que atravessam fronteiras e não são exclusivos de um país específico. Organizações que monitorizam o fenómeno do extremismo, como o Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE), colocam o 1143 no mesmo contexto de outros grupos radicais em Portugal que partilham ideias semelhantes às de movimentos europeus como PEGIDA ou a extrema-direita radical fora dos espectros partidários tradicionais.

Muita gente mistura coisas diferentes a estes grupos (às vezes por ignorância, outras por conveniência política), como é o caso do partido de Marine Le Pen, ou o Fratelli d’Italia de Giorgia Meloni. São líderes de partidos legais, eleitorais e institucionais. Aceitam (mesmo que critiquem) o quadro constitucional, o Estado de direito e as eleições. Estão integradas em famílias políticas europeias, em parlamentos e até estão no governo, como é o caso de Meloni. Já o Grupo Identitário / Generation Identity não é um partido. É um movimento metapolítico e ativista, muitas vezes fora da legalidade. Pratica ações provocatórias, linguagem racializada e símbolos de rutura. Em vários países foi dissolvido ou vigiado pelos serviços de segurança.

Todavia, há pontos de contacto discursivos, sobretudo em três temas: imigração massiva; identidade nacional; confronto político com o islamismo. Mas em teoria: a nação define-se por leis, língua, costumes, cidadania. Um imigrante pode tornar-se francês ou italiano. Rejeitam oficialmente racismo biológico e supremacia branca. Ao passo que os grupos identitários lutam por um Nacionalismo étnico-civilizacional. A Europa como espaço racial ou etnocultural fechado. Ideia de “substituição demográfica”. Imigração vista como ameaça existencial, não política. Este ponto é essencial: um identitário não quer ganhar eleições; quer mudar a civilização.

Porque é que a extrema-esquerda insiste em colar partidos soberanistas a grupos extremistas? Isto não é acaso nem confusão inocente. É uma estratégia política consciente, que pretende retirar legitimidade democrática. Transformar adversários políticos em ameaça moral. Daí evitarem o debate de políticas concretas (imigração, segurança, soberania). É mais fácil dizer “são fascistas” do que discutir as falhas de políticas públicas de integração. Na Europa, fascismo e nazismo são memórias fundacionais do discurso político. A extrema-esquerda explora isso para criar alarme emocional, bloquear a normalização de alternativas políticas e manter o eixo “bem vs mal”, eficaz sobretudo em contextos mediáticos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Quando a periferia se torna centro para salvar o Estado




A propósito de Trump querer anexar a Gronelândia, seja por que via for, lembrei-me de Portugal quando no reinado de João VI transferiu a capital para o Rio de Janeiro. E se a Dinamarca fizesse o mesmo? A sua capital em Nuuk? Portugal fez isso em 1808; quase ninguém mais o ousou. Pensar a Dinamarca a partir desse precedente é um exercício intelectual revelador.

Quando D. João VI transfere a capital para o Rio de Janeiro, não está apenas a fugir a Napoleão. Está, de facto, a fazer algo sem precedentes: O império passa a ser governado a partir da colónia. O centro político desloca-se para onde está o espaço vital do futuro. Lisboa torna-se periferia provisória. Esse gesto teve três consequências profundas: salvou a soberania portuguesa; elevou o Brasil a sujeito político; reconheceu implicitamente que o futuro já não estava na Europa. Portugal sobreviveu porque soube abandonar simbolicamente o seu velho centro.

Durante séculos a Gronelândia foi marginal. Hoje é o oposto. Ocupa uma posição-chave no Ártico, que tem a ver com o controlo de rotas marítimas futuras, para além de recursos naturais estratégicos. Portanto, é uma peça central na rivalidade EUA–China–Rússia. Neste contexto, quando Trump (ou qualquer presidente americano) fala em “anexar” a Gronelândia, isso não é excentricidade: é o reconhecimento brutal de que o valor estratégico mudou de lugar. A Dinamarca, como Portugal no início do séc. XIX, enfrenta uma verdade desconfortável: o território decisivo do Estado já não coincide com o seu centro histórico. E se Copenhaga se tornasse Lisboa, e Nuuk o Rio? A ideia de transferir a capital dinamarquesa para Nuuk parece hoje absurda, tal como o Rio parecia em 1807.

Mas pensemos politicamente, não simbolicamente. O que isso significaria? Afirmação radical de soberania! A Gronelândia deixaria de ser “território associado”, tornar-se-ia coração político do Estado. Não se “anexa” a capital de um país sem guerra aberta. A presença institucional criaria um facto consumado. A Dinamarca deixaria de ser apenas europeia, tornar-se-ia um Estado ártico por definição. O choque interno e externo seria brutal.

Na Gronelândia a população é pequena, tem identidade inuit própria, muitos defendem independência, não integração mais profunda. A transferência poderia soar a colonialismo invertido, mas ainda colonialismo. Ou seja: sem vontade política local, a capital em Nuuk seria vista como ocupação, não como elevação. A Dinamarca está presa num dilema moderno típico: se não reforça o seu vínculo com a Gronelândia, arrisca perdê-la. Se reforça demais, pode acelerar a rejeição local. Se mantém o statu quo, outros decidirão por ela. Portugal, em 1808, não pediu permissão à História.

A Dinamarca, hoje, está condicionada por normas, alianças e sensibilidades pós-coloniais, ainda que o extremismo pós-colonial não se aplique às ilhas, não microscópicas em território, mas em população. Os Estados que sobrevivem são os que sabem deslocar o seu centro de gravidade quando o mundo muda. Portugal fez isso uma vez. E por isso ainda existe. A Dinamarca não o vai fazer. E por isso corre o risco de ver a Gronelândia decidir o seu destino sem ela.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O cidadão eleitor não entrincheirado



Um tema delicado e ao mesmo tempo crucial para quem quer manter a integridade intelectual numa época de trincheiras emocionais. O não entrincheirado não se prende a nenhuma tribo. Isso dá-lhe o único luxo realmente raro no mundo contemporâneo. Enquanto os facciosos mudam de opinião conforme a linha do partido, quem não pertence a lado nenhum pode corrigir-se sem humilhação, mudar de ideias sem culpa, rejeitar simplificações. A liberdade interior é o que separa o pensamento da propaganda, com imunidade relativa à manipulação. Fações vivem de slogans e certezas artificiais. A construção de inimigos por narrativas emocionais só serve para uma coisa: reforçar a coesão do grupo.

É verdade que ninguém é imune a ser influenciado, mas o sem fação resiste melhor. Quem não precisa de identidade política para se sentir inteiro é mais difícil de ser manipulado. Tem vantagem quem tem a capacidade de diálogo transversal. Quem constrói pontes para aceder ao outro lado. Quem não está preso a um lado pode seguir a verdade onde ela estiver, mesmo que atravesse campos políticos diferentes. Isto melhora a análise e o pensamento crítico. Ser um sem fação pode tornar a política menos uma guerra pessoal e mais um assunto humano.

Para tudo é preciso ter coragem, sobretudo nos tempos polarizados como os de hoje, em que o sem fação corre riscos. E convém saber exatamente porquê. É-se mal interpretado por todos os lados num mundo polarizado. A neutralidade crítica na dicotomia esquerda/direita ainda é muito suspeita. Assim: os de direita podem achar que o sem fação é um esquerdista disfarçado, ou envergonhado; ao passo que os de esquerda podem achar que essa pessoa é cúmplice da direita capitalista. Para uma mente tribal, quem não escolhe um lado é inimigo de todos. A solidão do pensador independente é real, e exige maturidade. Vivemos numa era de identidades. As pessoas querem saber de que lado está o Outro. Quem insistir no pensamento independente é interpretado como um relativista, um tímido, ou um cínico.

Uma pessoa sem fação até pode sentir-se de esquerda. Nesse caso nunca pode fazer parte, ou ser militante de um partido político, porque isso implica ser de fação. Qualquer partido exige do militante certificado de fidelidade. Uma pessoa, apesar de se sentir de esquerda, não tem necessariamente de abominar a direita. A não ser quando se veste com o mesmo uniforme da certeza. A ideologia só é perniciosa quando se transforma em dogma da tribo, ou em clube moral. Há quem, diante desta posição, veja tibieza. Mas há uma força particular em permanecer na diáspora das ideias, fora das trincheiras onde os soldados gritam slogans para se convencerem de que são mais do que apenas sapiens assustados. A liberdade intelectual, essa que quase ninguém hoje pode reivindicar, vive no exílio. E é por vezes que quando chega o tal momento, o exilado regressa para iluminar a tribo.

A política, que por natureza deveria ser o modo de governar a polis, converteu-se numa farsa de teatro. E o cidadão, que trabalha, é aliciado para subir ao palco para aplaudir e gritar slogans. É por isso que a contrafação não é neutralidade, é resistência. Resistência contra a tirania dos simplificadores, dos que dividem o mundo em bons e maus, dos que preferem a mentira confortável à verdade que faz doer nas consciências quando entra com ironia. A ironia não destrói, revela. É uma luz oblíqua que ilumina o ridículo dogmático. É por isso que morder nas canelas dos fanáticos tem qualquer coisa de serviço público. Não é para ferir, é para acordar.

Ser independente é um privilégio difícil. Significa não ter aplausos garantidos, nem camaradas automáticos. Significa ouvir críticas dos dois lados, às vezes insultos, muitas vezes incompreensões. Mas significa, acima de tudo, manter intacta a capacidade de julgar. O que é raro, hoje, é pensar por conta própria. O não entrincheirado não pretende estar acima do mundo, mas dentro dele. Só que sem vender a alma. Aceita que a realidade é demasiado complexa para caber num panfleto, e demasiado misteriosa para se deixar capturar por teorias definitivas. O não entrincheirado reconhece que os seres humanos são simultaneamente racionais e absurdos, previsíveis e caóticos. E sabe que a maturidade consiste em viver com essa ambiguidade sem a reduzir a uma caricatura.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Socialismo v/ Capitalismo


Tendo em conta o respeito pelas liberdades individuais, prosperidade material, inovaçãocapacidade de reduzir a pobreza em larga escala, estabilidade política … as economias capitalistas reguladas tiveram resultados substancialmente melhores que as economias socialistas / comunistas. Se usarmos critérios como igualdade básica de acesso a serviços essenciais, redução rápida de desigualdades iniciais … os regimes marxistas tiveram alguns sucessos, mas quase sempre acompanhados de custos humanos e políticos muito elevados. É o caso da Venezuela que, a esta data, depois da extração de Maduro e da mulher por parte de forças especiais a mando de Donald Trump, não se sabe que rumo irá ter nos próximos tempos. 

As experiências marxistas procuraram igualdade, mas historicamente acabaram por produzir igualdade totalitária, acompanhada de repressão e estagnação. Já o capitalismo produz desigualdade, mas onde é combinado com democracia, regulação e Estado social, tende a gerar prosperidade, liberdade e mobilidade com desigualdades mitigáveis. Uma economia planificada (ou centralmente planificada) é um sistema onde o Estado controla os meios de produção (terra, fábricas, energia, transportes). O Estado decide o que produzir, mas sabe-se a que preço e com que recursos. O mercado tem papel reduzido ou quase inexistente. O objetivo formal é evitar desigualdades, eliminar exploração e garantir necessidades básicas. 

A URSS, a China, Cuba, Coreia do Norte e vários países do Leste europeu seguiram esta lógica em maior ou menor grau. Países extremamente pobres (como a Rússia czarista ou a China feudal), no entanto, beneficiaram de alfabetização e instrução maciça gratuita; acesso a cuidados de saúde básicos gratuitos; industrialização acelerada; mortalidade infantil a cair; esperança de vida a subir. Estas conquistas foram reais e mensuráveis, sobretudo entre 1930 e1970. Não havia multimilionários, conglomerados privados ou grandes fortunas familiares. O nível de desigualdade era muito menor do que em economias de mercado. As pessoas tinham habitação universal, mas modesta; e emprego era garantido, ainda que precário e de baixos salários. Isto oferecia um tipo de segurança coletiva que sistemas capitalistas só conseguiram criar parcialmente com o Estado social.

Seja como for, os sistemas socialistas tiveram problemas profundos e insolúveis, muitos dos quais com fins muito fatais. Para planificar a economia, o Estado tinha de controlar informação, imprensa, sindicatos, movimentos sociais. Isto levou inevitavelmente a ditaduras de partido único, sem liberdade política. Repressão, polícia secreta e purgas não foram meros “acidentes”: eram parte funcional do sistema. As economias planificadas sofriam de ineficiência crónica; escassez de bens; falta de inovação; corrupção e burocracia gigantesca; baixa produtividade. A ausência de preços de mercado dificultava saber realmente o que devia ser produzido. A coletivização soviética causou fome brutal nos anos 30. O “Grande Salto em Frente” de Mao causou entre 15 a 30 milhões de mortes por fome. Isto é um dos maiores flagelos a que se assistiu durante o século XX. Havia igualdade? Sim, mas muitas vezes à custa de escassez crónica; bens de baixa qualidade; atraso tecnológico; vida materialmente limitada. Era uma igualdade nivelada por baixo. As economias planificadas conseguiram alguns benefícios importantes, sobretudo em educação e igualdade, mas os custos humanos, políticos e económicos foram demasiado elevados.

O capitalismo também não é um sistema isento de problemas: desigualdade extrema; precariedade; crises financeiras cíclicas; poder corporativo excessivo; exploração laboral. Mas os seus efeitos positivos têm superado os efeitos negativos. São claros os efeitos no crescimento económico e na inovação. O capitalismo é extraordinariamente eficaz a gerar  riqueza. A maior queda de pobreza na história humana ocorreu dentro de economias de mercado, sobretudo após 1980. E os sistemas capitalistas podem coexistir com democracia liberal, Estado social forte, direitos civis e liberdades. Economias planificadas almejaram a igualdade, mas frequentemente sacrificaram liberdades, vidas humanas e prosperidade. O capitalismo gera desigualdade, mas também riqueza, inovação e progresso material. 

Portanto, a humanidade nunca teve, nem provavelmente terá, um sistema de organização política minimamente próximo da perfeição. Por isso, em primeiro lugar, os sistemas devem ser democráticos. E dentro dos sistemas democráticos, os sistemas liberais são melhores do que os iliberais. Os modelos que melhor equilibram bem-estar humano, crescimento e liberdades são os modelos mistos de regimes democráticos que conjugam o Liberal com o Social. Desses modelos que já foram experimentados avultam os regimes escandinavos: Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O erro como efeito colateral da complexidade cognitiva


A evolução da Natureza Viva, uma vez chegada ao Homo sapiens, atingiu um tipo de cérebro capaz de linguagem simbólica, pensamento abstrato, imaginação, planeamento de longo prazo, simulação de cenários inexistentes. Esta complexidade imensa permite ao ser humano criar ferramentas, sociedades, ciência… mas também abre espaço para um vasto campo de falibilidade. Quanto mais níveis de decisão e interpretação existem, mais oportunidades para a coisa “descarrilar”. Enquanto isso, um macaco opera com sistemas cognitivos mais diretos: percepção–ação, heurísticas simples, aprendizagens mais restritas. Menos graus de liberdade → menos margem para “errar”.

Enquanto, para um macaco o “erro” é limitado à procura de alimento, subestimar uma ameaça ou perder uma disputa, a multiplicidade de escolhas por parte dos seres humanos gera consequências inesperadas. Ou seja, a quantidade de situações em que o erro pode surgir é muitíssimo maior. Nós criámos dezenas de milhares de contextos onde o erro é avaliável: trânsito, matemática, burocracia, ética, política, relações amorosas, escrita de poesia. A evolução selecionou humanos pela inovação, não pela precisão. Um macaco que arrisca demasiado tende a morrer cedo. Um humano que arrisca demasiado… pode inventar algo genial, ou falhar rotundamente.

A espécie humana foi moldada por pressões que favoreceram a criatividade, a experimentação, exploração e improvisação. Estes traços produzem avanços, mas também muitos “erros”. Podemos dizer que a história humana é uma espécie de laboratório evolutivo onde milhões de erros são um custo necessário para gerar novidade. Os macacos, por contraste, sobrevivem pela estabilidade e repetição de estratégias eficazes. Isso reduz drasticamente o espaço do erro. Refletimos sobre decisões, discutimos moralidade, inventamos a culpa, registamos fracassos. Ao passo que o macaco comete uma ação malsucedida e simplesmente procura corrigir. Não cria narrativas introspetivas sobre falhar. A autoconsciência multiplica a ansiedade de errar. Somos os únicos a tentar transcender a condição biológica.

É curioso: os macacos, ao serem mais simples, são também mais “coerentes”. Nós, ao sermos capazes de construir complexidade quase infinita, acabamos por criar igualmente infinitas possibilidades de tropeçar. E talvez seja essa a verdadeira idiossincrasia: o erro humano não é apenas uma falha. É um subproduto inevitável de uma mente que cria mais possibilidades do que consegue controlar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A masculinidade renascida nos jovens rapazes


A masculinidade jovem renascida não tem nada a ver com o velho machismo. Esse machismo era de um homem sem capital simbólico. Há um novo regime cultural a refazer uma masculinidade mais sadia. Mas não perdeu de vista a hierarquia, a diferenciação sexual clara. O que está a mudar nestes novos tempos posteriores à terceira vaga feminista? Convém separar intenção, resultado e efeitos colaterais. O que efetivamente tinha acontecido, com a terceira vaga feminista nas últimas décadas, foi uma reconfiguração assimétrica dos papéis de género que gerou o tal "ressentimento masculino". Foi a deslegitimação da 
cultura da masculinidade tradicional. A última vaga de feminismo sustentou a grande suspeição sobre a autoridade masculina. Ao mesmo tempo, não surgiu um modelo alternativo claro de masculinidade. E a explosão das teorias de género introduziu algo ainda mais radical: a ideia de que o sexo biológico, natural, era irrelevante ou opressivo. Que a diferença sexual era uma construção arbitrária. Que a identidade de género era fluida, autodefinida e reversível. Em muitos jovens, sobretudo rapazes adolescentes, isso produziu confusão ontológica. Afinal, o que significava ser homem?

Os rapazes passaram a virar-se de novo para a religião. Mas o interesse religioso masculino não nasceu primariamente do ódio às mulheres, mas do vazio normativo criado por décadas de crítica à masculinidade sem a reconstrução de uma nova. Aliás, em muitos contextos religiosos, as jovens mulheres também cresceram em presença feminina, mas por razões diferentes. Os riscos de fortes perturbações tornaram-se evidentes. E foi assim que em franjas das classes mais abandonadas o romantismo acrítico do patriarcado ressurgiu. E a religião serviu de instrumentalização da tentativa de restauração do poder masculino. Isso levou a uma rejeição generalizada da igualdade devido ao ressentimento. 

A leitura conspirativa da História não é um fenómeno de agora. Quando isso acontece, a religião como refúgio identitário defensivo, perde legitimidade moral. Em suma: o empoderamento feminino tal como foi culturalmente enquadrado pelas terceiras vagas feministas, e pelas teorias de género, contribuiu para este ressentimento, dado que atacou o sentido masculino. O que está a emergir não é uma “guerra contra as mulheres”, mas uma tentativa, por vezes confusa, por vezes excessiva, de reencontrar um sentido, uma certa forma de dignidade masculina, num mundo que se desconstruiu, mas não se soube reconstruir.

A masculinidade foi desconstruída sem reconstrução. Nas últimas décadas criticou-se, muitas vezes legitimamente, o patriarcado. Associou-se a masculinidade a opressão, e a violência. Isso tornou patológico o impulso masculino: competição; risco; desejo. Mas não surgiu um modelo alternativo positivo. Resultado: a masculinidade tornou-se um campo minado ao nível da moral e da ética. Mulheres mais ativas na iniciativa, homens mais passivos, ou cautelosos. Um fenómeno observado em vários contextos urbanos ocidentais. Não foi a “natureza” a inverter-se, foi a redistribuição da guerra cultural. A iniciativa masculina passou a ser associada a risco moral. Para muitos rapazes, não agir é mais seguro, por causa do medo de errar. As raparigas, por outro lado, foram socializadas para a agência, para o ativismo político, para as organizações não governamentais.

A sexualidade tornou-se um campo minado. Aquilo que antes era informal, passou a ser absolutamente passado a pente fino pelo normativo moral. Para muitos jovens homens o desejo é vivido como potencial culpa. O problema não é a iniciativa ter passado a ser assimetricamente feminina. A identidade masculina passou a construir-se de fora para dentro através da imposição de estatuto. Deixou de ser clara a distribuição social de papeis. Dantes um homem sabia quem era pelo que fazia. Médico, engenheiro ou carpinteiro, tanto fazia, desde que estabilizado pelo reconhecimento de competência. Hoje, essa falta de critério, teve um efeito desagregador. Ao passo que a Mulher passou a construir a sua identidade, de um modo geral, de forma mais relacional e intersubjetiva. A continuidade foi preservada apesar de as estruturas externas terem mudado. Por isso, o colapso normativo atingiu primeiro o Homem. As normas acabaram por ser coercivas, mas sem serem organizativas. Nesse vácuo masculino o Homem desorientou-se.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Os Europeus = por Ascenso Simões




O grande problema que se vive hoje o mundo ocidental, em especial na Europa, é simples – os Estados Unidos emanciparam-se, rejeitam a visão colonial permanente e arrogante dos europeus que os tratam por gringos e incultos, quase deixaram de se interessar pelo que se passa no lado de cá do Atlântico por decorrência das urgências asiáticas e da necessidade de recursos para poderem combater a crescente afirmação económica, industrial e científica chinesa.

3 de janeiro de 2026. Os Estados Unidos da América realizam uma operação especial e retiram de um bunker, com vida e para serem julgados, Nicolás Maduro e sua mulher. Tratou-se de uma ação para limitar a implicação deste, e da estrutura de narcoterrorismo que montou, na política e na sociedade americanas. No imediato, as opiniões públicas europeias proclamaram atentados contra o direito internacional, teria sido violada a Carta.

4 de janeiro de 2026. O Reino Unido e a França lançam um ataque ao Daesch, em pleno território sírio, alegando a defesa dos seus direitos. Se aplicássemos a bitola de grande parte da opinião publicada europeia, esta intervenção teria atentado contra o direito internacional, não se havia suportado no artigo 51º da Carta das Nações Unidas. Porém, nem uma notícia sobre isso, nenhuma lágrima se largou, nenhum comentário se ouviu. Os europeus, sempre dados a desassossegos, calaram-se e bem.

Antes de entrarmos na questão da “operação especial”, e da posição dos europeus, importa deixar aqui alguns factos. Maduro é o responsável por mais de 36.800 vítimas de tortura e violência, por mais de 18.305 presos políticos conhecidos, por mais de 10.000 execuções sem julgamento, por 468 assassinatos em protestos de rua, por mais de 8.000 casos de violação dos direitos humanos, por mais de 8 milhões de refugiados, por 405 meios de comunicação social encerrados, por 90% da população a viver na pobreza (50% sobrevive em pobreza extrema), e por um salário mínimo de 1 dólar. Todos estes dados estão confirmados por inúmeras instituições internacionais.

Perante tudo isto, o tal direito internacional nunca encontrou forma de o julgar e de o condenar, como também acontece com outros sanguinários. Porém, Maduro e o seu regime são “defendidos”, com vários ardis, por parte da política europeia, a mesma que nunca se levantou para defender Alexei Navalny, morto às mãos do regime sangrento de Putin. Agora três considerações sobre o que aconteceu em Caracas. Primeira, o regime de Maduro era/é uma ameaça real para todo o continente americano; segunda, a sua ação nos USA e na Europa era/é assente numa estrutura que não respeitava/respeita os direitos humanos e subjugava/subjuga uma população aos interesses de impérios de narcoterroristas; terceira, em 2020 os Estados Unidos acusaram judicialmente Maduro e sua mulher de um vasto conjunto de crimes, a Organização dos Estados Americanos pediu uma intervenção do Tribunal Penal Internacional e iniciou-se o processo de fazer sentar o ditador no banco dos réus. Não sendo Maduro presidente legítimo da Venezuela, nem sequer formalmente por ser um títere a mando dos cartéis da droga (o mundo democrático sempre repudiou a fantochada das eleições realizadas), ele é um mero cidadão comum, e tendo o sistema constitucional americano a previsão de “extraterritorialidade” da sua Justiça, Maduro podia (devia) ter sido detido há muito.

Tratados os problemas da ingerência e do respeito pelos direitos internacional e interno, vamos agora ao que importa – o papel dos USA no contexto da política internacional. Os europeus deviam estar gratos pelo facto de terem sido os americanos a salvar a Europa de uma ditadura nacional-socialista; de terem sido os americanos a aprovar o Plano Marshall que tirou o continente da devastação e da miséria a partir de 1946; de terem sido os americanos a garantir liberdade e a democracia pluralista em todo o tempo da Guerra Fria; de terem sido os americanos a caucionar a segurança do mundo ocidental ao longo das últimas oito décadas; de terem sido os americanos a suportar, em quase um quarto da sua despesa, o multilateralismo com banca na ONU. É obra! Há, contudo, uma coisa que os europeus esqueceram – os americanos não são “paizinhos” da Europa, não têm de aturar as perrices de irmãos mal-educados que, apesar de tudo o que fizeram por eles, acham que aqueles são tiranos e ditadores. Os europeus não querem sequer saber que os USA construíram um democracia forte e uma economia pujante na Coreia do Sul e que a União Soviética e a China edificaram uma ditadura vergonhosa e uma economia raquítica na Coreia do Norte. Este exemplo é relevante.

Enquanto tudo isto acontecia, a Europa envelheceu, deixou de ser competitiva, passou a viver dos rendimentos. A China comunista afirmou-se como grande potência asiática e mundial em concorrência com os USA; a Rússia renasceu militarmente e afirma o seu poder no leste europeu e em muitos outros territórios como é o caso do Ártico; a Índia cresce e ganha espaço mundial. Desde que o Sapiens iniciou o seu caminho na terra, que as relações de poder sempre foram o essencial da sobrevivência dos povos. Só os europeus se esqueceram disso depois da década de 1960, tempo que fez crescer a geração “paz e amor”, uma linhagem que, com os seus pupilos hodiernos, potenciou a decrepitude do continente que se afirmou global a partir do século XVI. A parte da geração de 1960 que ficou na política ativa abjurou as relações de poder, reais e simbólicos, dentro da família; depois na escola; e, por fim, nas sociedades. Criou regimes onde só existem direitos, onde a burocracia estadual é a base de economias subsidiadas e sem fibra. Estamos a viver o resultado de todo um desmoronar de referências. Este resultado é fruto da ação, nas últimas quatro décadas, de conservadores, populares, liberais, sociais democratas e socialistas democráticos. Willy Brandt, Helmut Schmidt, Olof Palme ou Bruno Kreisky (sociais democratas), Clement Attlee, Harold Wilson ou James Callagnhan (trabalhistas), François Mitterrand ou Bettino Craxi (socialistas), nas suas governações, sempre entenderam muito bem a realidade e o papel dos USA no contexto internacional posterior a 1946. Foram, porém, os novos socialistas, de François Hollande a Olaf Scholz, de Gordon Brown a Matteo Renzi, de Pedro Sanchez a António Costa, mais herdeiros de Rosa Luxemburgo do que de Friedrich Ebert, crescidos a viver dos influxos ideológicos soviéticos assentes na reivindicação “Nem Nato nem Pacto de Varsóvia” e persuadidos pelas mais recentes correntes woke, quem ajudou a alterar a visão que tínhamos sobre o nosso parceiro de sempre.

É tão verdade o cenário de decadência em que vivemos, que aquela instituição relevantíssima que dá pelo nome de União Europeia não consegue resolver, por si, o problema ucraniano, não consegue arranjar recursos financeiros para ajudar aquele povo que sofre às garras de um tirano, e muito menos conseguirá estruturar um exército que garanta um futuro de democracia e liberdade. Fabricar e comprar armas não é o mesmo que confirmar uma real política de segurança e defesa, elemento central para que o direito internacional não seja só uma mera proclamação que se extingue no espaço de horas. Os USA, no meio de tudo isto, são uma democracia. Sim, são uma democracia, mesmo que a opinião publicada e os grupos da esquerda radical europeus não queiram. É nessa democracia americana que acontecem manifestações à porta da prisão que encarcera Maduro; é nessa democracia que se realizam eleições livres em que um populista de esquerda e “militante do Syriza” consegue ser escolhido, por sufrágio universal e secreto, para mayor de Nova Iorque sem que o presidente reacionário da nação tenha qualquer condição de o impedir; é nessa democracia que o incumbente vai perder as próximas intercalares para o Congresso. Mas sempre haverá o interesse dos USA no petróleo, como Trump, o desbocado, afirmou. O dinheiro, sempre o dinheiro, diz a opinião publicada europeia. Talvez não saibam as mentes mais brilhantes que é o dinheiro que move o mundo, que as exportações do petróleo venezuelano só fazem regressar ao país 20% do seu valor, que os restantes 80% desaparecem em offshores espalhados pelo mundo com a cara da oligarquia chavista. E talvez não saibam igualmente que, sendo aquele país um dos que mais reservas tem, só consegue ser o décimo primeiro em exportações, fazendo doações a Cuba e vendendo a metade do preço à Rússia e à China.

As comoções europeias servem para atacar uma democracia que luta hoje pelo poder universal com duas ditaduras sangrentas, mas isso interessa pouco. Só interessa a máxima inocente de que perante as ameaças da Rússia e da China devemos afirmar o multilateralismo desprovido de ferramentas e completamente abjurado pelas estratégias de Pequim e Moscovo. Querem matar a nossa liberdade e nós entregamo-nos porque temos o direito internacional do nosso lado… A paz só se consegue com grande capacidade de dissuasão. Quem não tem poderio militar não faz a paz pelas palavras. Também uma parte da esquerda portuguesa, feita igualmente a partir do pensamento e da ação da tal geração de 1960 – paz e amor – é tolerante com o narcotráfico e com as ditaduras, desde que estas apoiem os seus centros de investigação e as suas forças partidárias. Esta realidade já aconteceu com o Podemos espanhol ou com o França Insubmissa, como há muito se provou. É por isso que uma parte da esquerda está a caminhar para a irrelevância política no mundo ocidental, porque deixou de entender o Homem, as suas relações de poder, a implicação das diferentes culturas no mundo atual.

Uma parte da esquerda europeia é anticolonialista mas continua a comportar-se como tal perante as Américas e África; é antirracista, mas é incapaz de conviver, de forma séria e com proximidade, nas suas zonas de residência, de trabalho e de estudo com cidadãos de outras realidades; é liberal e democrática, mas faz o jogo dos regimes totalitários. Trump, essa figura horrível e inenarrável que é temporariamente presidente dos USA, teve o condão de galvanizar os ódios da maior parte dos ocidentais porque aproveitou o campo aberto que é este mundo em transformação e completamente inseguro. A partir desse ódio está a ser construída uma nova narrativa antiamericana, o que é um perigo. Regressamos novamente à década de 1960 em que se levantava Paris, hoje já quase todas as restantes capitais, contra um “novo” imperialismo americano. Como se essa “batalha” não fosse hoje em benefício da Rota da Seda que tem capturado, de forma desenfreada, os recursos de África e da América do Sul. E a Europa velha também não entende o mundo do espetáculo em que vivemos, não sabe usar, como as ditaduras comunistas e neocomunistas fazem, as redes sociais e as ferramentas algorítmicas, nem sequer os media. O tempo de hoje não pode ser cinzento e lento como os europeus ocidentais gostavam que fosse, vivendo a nostálgica de um passado que não volta. Os amigos de Alex morreram! Horrorizou-me um post de uma deputada socialista portuguesa em que dizia – primeiro a Venezuela, depois a Gronelândia e por fim os Açores. Para além da completa falta de juízo que demonstra ao misturar tudo, os USA não precisam dos Açores porque já os “têm” há décadas. E também não querem a Gronelândia como território, só querem que os russos não ganhem vantagem estratégica neste espaço relevantíssimo. Essa ingerência russa já acontece hoje e muitos cabos submarinos, essenciais para a economia digital da EU, atravessam-se aqui. Como se viu esta semana, os petroleiros do contrabando energético cruzam por este território sem qualquer controlo.

Esta Europa quase falhada é a que permite, similarmente, que a China tenha presentemente uma relevância geopolítica extraordinária a partir do seu território. Foi esta Europa que assistiu à entrega de Hong Kong e Macau sem precauções, mas que se levanta a favor de Taiwan só porque neste território chinês são fabricados os raros semicondutores que fazem andar o que resta das máquinas industriais ocidentais. E foi ainda esta Europa esterilizada e desenfreada que não soube ajudar os países do sul, quem obrigou Portugal a entregar todas as suas redes elétricas ao Estado chinês. O exemplo português é lapidar. A EU só terá futuro se aprofundar as suas dimensões política, militar, económica e social, elegendo o poder de dissuasão como central. A revolta contra os USA é pura perda de tempo e só demonstra o quão distante estão os europeus da realidade que se vive hoje no mundo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Geração Z em contraciclo


A Geração Z - nascidos 
[1990 // 2010] sucede à Geração Y [1980 // 1990] e precede a Geração Alfa [2010 // 2020]. A maioria dos integrantes da Geração Z são filhos da Geração X, e espera-se que muitos sejam os pais da futura Geração Beta. A Geração Z foi a primeira geração social a crescer com a Web 2.0 e a tecnologia digital como algo consolidado. Desde jovens, eles assistiram a vídeos e séries online (muitas vezes pelo YouTube), e jogaram jogos online como Club Penguin e Minecraft. Como adolescentes e jovens adultos são apelidados de "nativos digitais", mesmo que não tenham sido necessariamente alfabetizados digitalmente.

A Geração Z é descrita como "mais bem-comportada e menos hedonista" do que as gerações anteriores. Menos gravidezes na adolescência, consomem menos álcool (mas não necessariamente outras drogas psicoativas). Mais focados nos estudos e nas perspectivas de emprego. Também são melhores em adiar a gratificação do que as anteriores. O "sexting" tornou-se popular durante a adolescência da Geração Z, embora os efeitos psicológicos a longo prazo ainda não sejam totalmente compreendidos. Sexting (contração de sex e texting) = é um anglicismo que se refere à divulgação de conteúdos eróticos e sensuais, inicialmente através das mensagens SMS de textos sexualmente sugestivos e conteúdo sexual explícito, e com o avanço tecnológico das redes sociais passou ao envio de fotografias e vídeos de nus em posições sensuais (nude selfie = selfie de nudez). 

É uma geração que por outro lado aumentou o interesse pela Religião. Em contraciclo com os pais e avós é um fenómeno ainda carente de melhor interpretação. Não é um “retorno simples à fé”, mas um sintoma profundo de mudança de ciclo cultural. A Geração Z é simultaneamente a menos catequizada da história ocidental. Do que se trata é de procura de sentido de vida, muito ligado ao sentimento identitário. Isto tem gerado um paradoxo fértil: rejeitam a religião católica tal como está institucionalizada. Mas, em contrapartida, mostram curiosidade pelo cristianismo das origens e o seu embrulho em misticismo. Também têm em boa conta o islamismo das origens que é conotado com as formas exigentes de espiritualidade. Não procuram “valores simpáticos”, procuram estruturas que aguentem o peso da existência.

Porquê este contraciclo geracional? Provavelmente é porque a liberdade sem transcendência provoca ansiedade crónica. E, consequentemente, a fragilidade identitária leva à incapacidade de lidar com a dor, o fracasso, e, por conseguinte, a morte. Assim, a religião reaparece não como consolo, mas como disciplina de sentido. As promessas progressistas levaram ao colapso. Portanto, o interesse religioso da Geração Z não nasceu dos usos e costumes. Não veio pela frequência na missa da Igreja da paróquia local.  Tornou-se fundamentalista e seletiva, com conversões adultas à revelia, que da Igreja, quer do patriarcado ateísta e secularista. Isto explica por que alguns aderiram à causa jihadista islamita e se voluntariaram aos grupos do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. É uma religião usada como âncora psicológica, não como caminho de verdade, com conversões como reação identitária agressiva. Uma fusão entre fé e guerra cultural online.

O que isto revela sobre o Ocidente? Que o projeto secular não eliminou a necessidade religiosa. Apenas adiou o encontro com o vazio. As gerações que cresceram nesse vazio estão agora a procurar estruturas mais antigas. O ser humano continua a ser trágico, finito e mortal. Em suma: o interesse religioso da Geração Z não é um regresso ao passado, nem uma vitória ideológica da Nova Direita. É um pedido silencioso por sentido, limite e transcendência, feito por uma geração que já não acredita que o progresso vá resolver a condição humana.