quinta-feira, 12 de setembro de 2019

As Tribos de Dana e a Pedra de Scone

          ««Os filhos de Nemed que haviam partido por mar sob o comando de Ibath, filho de Bethach, rumaram ao norte. Navegaram ao acaso durante muito tempo, até que desembarcaram num país que se diz ser a Beócia. Aí foram muito bem recebidos pelos naturais, e segundo consta, foi aí que eles se iniciaram nas artes, nas técnicas, na magia e no druidismo. Começaram a ser chamados Tribos de Dana porque, por um lado os mais versados no druidismo eram três, e todos eles filhos de uma mulher-chefe chamada Dana. Um dia, uma grande frota vinda da Síria veio atacar os habitantes da Beócia. E as coisas correram para o torto. Tiveram de partir em barcos à vela. Até que chegaram às Ilhas do Norte do Mundo. Um dia, uma certa Eri, estando a contemplar o mar, a certa altura viu surgir na linha do horizonte uma embarcação prateada com um homem lá dentro. O homem desceu do barco, pôs os pés em terra, e apercebendo-se de Eri disse: "Mulher, será esta a melhor altura para me unir a ti?” Ela ficou estupefacta com o que acabara de ouvir. E quis saber quem ele era. Então ele respondeu: “Aquele que veio encontrar-se contigo é Elatha, filho de Indech, que é um dos chefes dos Fomore. Eri engravidou. Oito dias depois do parto o rapaz parecia que tinha quinze, e aos sete anos parecia que tinha catorze. Assim era Bress, filho de Elatha dos Fomore e de Eri das Tribos de Dana. Com o tempo as gentes das Tribos de Dana multiplicaram-se tanto que tiveram novamente de partir e voltar à Irlanda. Aparelharam cerca de trezentos barcos e partiram. Da vila de Falias levaram a Pedra de Fail. Quando chegaram colocaram a Pedra na colina de Tara.»»


Em todas as narrativas deste género, as etimologias são necessariamente metafóricas. Bress significa literalmente “sopro violento”, golpe guerreiro. Geoffroy Keating, na sua história da Irlanda, conta que depois da conquista da Escócia pelos escotos, ou seja, os irlandeses, a Pedra de Fail foi emprestada para a entronização do primeiro rei gaélico da Escócia, tendo depois ficado na posse da Abadia de Scone.

A Pedra de Scone (Na Lia Fàil em gaélico escocês) – também conhecida como a Pedra do Destino, e em Inglaterra referida como a Pedra da Coroação – é um bloco de arenito vermelho, com um anel de ferro em cada extremidade para ajudar ao transporte, que o rei de Inglaterra Eduardo I fez transportar para a sua própria coroação em 1296 na Abadia de Westminster, e que foi usada pela última vez em 1952 na coroação de Isabel II. Na foto seguinte vê-se uma reprodução de 1855: a cadeira na Abadia de Westminstar, onde a Pedra de Scone havia sido colocada. Mas esta pedra não deixa de ser objeto de controvérsia entre escoceses e ingleses, pois existe alguma dúvida sobre a pedra capturada por Edward I. Alguns teóricos afirmam que as descrições lendárias da pedra não correspondem à pedra atual.

No Tratado de Northampton, 1328, entre o Reino da Escócia e o Reino de Inglaterra, a Inglaterra concordou em devolver a Pedra de Scone capturada à Escócia; no entanto, tal não foi cumprido, multidões tumultuadas impediram que fosse removida da Abadia de Westminster. Assim, a Pedra de Scone permaneceu na Inglaterra por mais seis séculos, mesmo depois de Jaime VI da Escócia ter assumido o trono inglês como Jaime I de Inglaterra. Durante o século seguinte, os reis e rainhas Stuart da Escócia mais uma vez se sentaram na Pedra de Scone na coroação, mas na coroação como reis e rainhas da Inglaterra.

No dia de Natal de 1950, um grupo de quatro estudantes escoceses removeu a pedra da Abadia de Westminster para a levarem para a Escócia. Durante o processo de remoção, a pedra partiu em dois pedaços. Depois de enterrarem a maior parte da Pedra num campo de Kent ficaram ali acampados  por alguns dias até conseguirem a viagem para a Escócia. O governo britânico ordenou que se recuperasse a pedra, mas em vão. Uma grande busca não surtiu efeito. Os guardiões deixaram a pedra no altar da Abadia de Arbroath em 11 de abril de 1951, sob custódia da Igreja da Escócia. Quando a polícia de Londres finalmente foi informada do seu paradeiro, a pedra foi devolvida a Westminster. Tinham passado quatro meses. Posteriormente, circularam rumores de que haviam sido feitas cópias da pedra, e que a pedra devolvida não era a pedra original.

Em 1996, como resposta simbólica à crescente insatisfação entre os escoceses em relação ao acordo constitucional vigente, o governo britânico decidiu que a pedra deveria ser mantida na Escócia, regressando a Inglaterra apenas para as cerimónias da coroação. Em 3 de julho de 1996, foi anunciado na Câmara dos Comuns que a pedra seria devolvida à Escócia e, em 15 de novembro de 1996, após uma cerimónia de entrega na fronteira entre representantes do Ministério do Interior e do Ministério da Escócia, a Pedra de Scone foi transportada para o Castelo de Edimburgo. A pedra chegou ao castelo em 30 de novembro de 1996, dia de Santo André, onde ocorreu a cerimónia oficial de entrega. Atualmente, permanece ao lado das joias da coroa da Escócia.

Não se pode deixar de estabelecer uma relação entre esta maravilhosa Pedra de Fail e o misterioso “Assento perigoso” da Távola Redonda, assento reservado àquele que levasse a bom termo a aventura da conquista do Graal, portanto ao “Rei do Graal”.

          ««As Tribos de Dana partiram então das Ilhas do Norte do Mundo e navegaram para a Irlanda. Naquele tempo o rei da Irlanda era Eochaid, filho de Erc, da raça dos Fir Bolg. Mas o descanso não durou muito. Do mar vieram outras tribos e fizeram-lhes guerra. As batalhas decorreram na Planície de Lira, que passou a chamar-se Mag-Tured. O combate começou então violento e implacável. A certa altura os homens das Tribos de Dana começaram a repelir os Homens-Trovão, enquanto na planície se iam acumulando os cadáveres. Os Fir Bolg decidiram não abandonar a Irlanda e combater as Tribos de Dana até ao último homem em condições de pegar em armas. E foi nesta batalha derradeira que Nuada, o rei supremo das Tribos de Dana, ficou sem um braço. O médico Diancecht, com a ajuda do artesão Credné, fez um braço de prata para Nuada, dotado de todos os movimentos da mão em cada dedo e em cada articulação. A partir de agora Nuada passava a ser conhecido o Nuada do Braço de Prata. Diancecht pediu aos homens da Tribo de Dana que se reunissem em conselho para decidir da viabilidade de Nuada como rei. E Nuada deu razão a Diancecht, pois sem o braço natural não podia continuar a ser o rei. Então após acesa discussão, acabaram por escolher Bress, filho de Elatha, pois ele tinha sangue real, sendo filho de um príncipe dos Fomore. E assim Bress tonou-se rei da Irlanda durante sete anos, após a batalha de Mag-Tured ,em que as Tribos de Dana combateram e venceram os Fir Bolg. Sreng, filho de Sengann, reuniu-se com os Fir Bolg que tinham escapado ao massacre de Mag-Tured, e partiu para Connaught, de que tomou posse.»»


Connaught, no noroeste da Irlanda, condado de Galway, conserva a marca da lembrança dos Fir Bolg na tradição popular, ortografando em gaélico Connachta, que significa "dos descendentes de ConnDeste modo, os habitantes das ilhas de Aran são considerados os descendentes dos Homens-Trovão, e as fortalezas pré-históricas que se encontram nas três ilhas de Inis Mór, Inis Meáin e Inis Oírr, passam por ser obras destes longínquos antepassados, na verdade mais míticos que reais, mas capazes de vencer as barreiras do tempo graças ao poder do imaginário.



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Passeando por Braga e arredores de antigamente


Não será boa ideia andar pelas estradas dos arredores de Braga quando o trânsito não flui. Mas é preciso arriscar. Vamos então passar pelo Núcleo Museológico de Dume, onde avultam vestígios arqueológicos da Basílica Sueva do tempo de São Martinho, o de Dume, onde se encontra o Sarcófago do mesmo. Tomámos o caminho de Frossos na estrada para Tibães, e não resistimos parar quando vimos a Capela de São Frutuoso de Montélios. É de destacar o contributo que São Martinho e São Frutuoso deram, durante o domínio suevo e visigótico (séc. V a VIII) à fundação de dois dos mais antigos mosteiros documentados no atual território português: O de Dume e o de São Salvador de Montélios. 




Esta capela é um exemplar único da arte romano-bizantina no país e é considerado um dos mais fascinantes monumentos da Alta Idade Média da Península Ibérica. A data de construção não está esclarecida. Se durante algum tempo se pensou estar diante da capela-mausoléu de São Frutuoso, hoje são mais fortes os argumentos que apontam para uma cronologia a rondar os inícios do século X, quando o culto do bispo foi renovado, no âmbito do repovoamento de Afonso III. O Convento de São Francisco, do século XVII, manteve a capela como anexo. Apresenta uma planta centralizada, de quatro absides articuladas em redor de um cruzeiro quadrangular. À sua volta existia um conjunto monástico bem maior, centro religioso da região neste período, mas que terá sucumbido, muito provavelmente no início do século XVI, quando se procederam às obras de reedificação do Mosteiro por parte dos franciscanos. O debate entre "visigotistas" e "moçarabistas" estendeu-se ao restauro do conjunto. Numa primeira fase, e sob o comando de João de Moura Coutinho, o monumento foi intervencionado tendo como modelo as construções tardo-antigas de Ravena. Para isso, chegaram a reproduzir-se elementos decorativos, iguais a outros aparecidos aquando da desmontagem de numerosas construções adjacentes. Apesar das posteriores tentativas, o restauro nunca foi concluído, ficando a obra inacabada ao nível das coberturas e de alguns enchimentos das paredes, facto ainda hoje bem visível para quem visita a capela. Na sua pequenez, Montélios é um dos mais fascinantes monumentos altimedievais peninsulares, simultaneamente aparentado com obras mediterrânicas dos séculos V-VI e IX-XI. Independentemente dos rumos futuros da historiografia, permanecerá como obra incontornável nos estudos dedicados à Alta Idade Média ocidental.

Começando pelo lado menos simpático de São Martinho de Dume, é preciso dizer que ele se notabilizou no combate à heresia do Priscilianismo. E foi, de facto, eficaz na conversão das elites suevas ao rito católico, em detrimento do que haviam escolhido primeiro: o rito Ariano, tem a ver com Ário, o presbítero cristão de Alexandria dos primeiros tempos do cristianismo primitivo. O arianismo não subscrevia a Santíssima Trindade. Jesus então, seria subordinado a Deus Pai, sendo Ele (Jesus) não o próprio Deus em si e por si mesmo. Segundo Ário, só existe um Deus e Jesus é seu filho e não o próprio Deus. Ao mesmo tempo afirmava que Deus seria um grande eterno mistério, oculto em si mesmo, e que nenhuma criatura conseguiria revelá-lo, visto que Ele não pode revelar a si mesmo. "O Deus de Ário é, assim, um Deus desconhecido, cujo ser se acha oculto em eterno mistério". Em 325, no Concílio de Niceia, o arianismo foi condenado como heresia. Ele também manteve um controlo apertado sobre as tradições celtas, pagãs aos olhos dos católicos. Daí ter emitido uma espécie de carta apostólica paulista “De Correctione Rusticorum”.




Hoje, o “Túmulo dito de São Martinho de Dume” encontra-se no Museu Arqueológico de Dume, situado na paróquia de Dume em Braga, depois de terem sido feitas escavações arqueológicas no local entre 1987 e 1991. Foram então colocadas a descoberto importantes vestígios da época de São Martinho de Dume. Era aí que se situava uma basílica cristã que havia sido mandada construir pelo rei suevo Charrarico, em meados do século VI. Ao lado também faz parte o Mosteiro fundado por São Martinho de Dume, em cima de parte do que havia sido uma villa romana. 









Em Tibães, o que lá está agora é do Estado, um final feliz resultado de muitas vicissitudes e recuperações. Lembro-me de ter andado pelo Mosteiro de Tibães em 1970/71, pela mão do nosso amigo Fernando Araújo, que agora muito me honra e anima com as visitas que me faz aqui. Fomos lá muitas vezes a bailaricos que eram consentidos generosamente “pro bono” pelas/os filhas/os da proprietária que eram nossas/os amigas/os. Já era bem nítida a delapidação, a ruína e abandono, mas nós não nos importávamos. Nessa altura, comentários acerca da preservação de joias com valor patrimonial incomensurável, não fazia parte das nossas preocupações. Nos tempos áureos Tibães chegou a ser um dos mais ricos e poderosos mosteiros do norte de Portugal, sobretudo na altura em que foi a Casa-Mãe de todos os mosteiros beneditinos. É preciso saber que o primitivo mosteiro viu as suas fundações nos finais do século X.



No regresso para casa, ainda tivemos tempo de passar pela rua do Raio para ver a Fonte do Ídolo de Bracara Augusta, do tempo do Império Romano inserida numa região chamada Galécia. A Fonte do Ídolo fazia parte de um santuário dedicado ao culto a Tongoenabiago, um deus da Fonte do Juramento. Consiste numa fonte de água com inscrições e figuras esculpidas num afloramento natural de granito. Uma inscrição indica que um indivíduo de nome Célico Fronto, natural de Arcóbriga, mandou fazer o monumento. Perto dessa inscrição encontra-se uma figura vestida com uma toga, que poderia representar o dedicante. Ao lado, sobre a fonte de água, encontra-se outra figura esculpida: um busto, erodido, dentro de um nicho de perfil clássico com uma figura de uma pomba no frontão. Perto dessa figura existe também outra inscrição com o nome do dedicante e o nome da divindade Tongoenabiago, que provavelmente é representada pela figura do nicho. 


O Balneário Pré-Romano de Bracara, hoje situa-se onde é a Estação de Caminhos de Ferro de Braga. Naquele tempo situava-se a 300 metros da que veio a ser a muralha da cidade romana de Bracara Augusta. Segundo os arqueólogos foi construído durante o período pré-romano. O balneário era semienterrado, típico da cultura castreja, de paredes em pedra e o teto em lajes de pedra que encaixavam nas paredes exteriores e numa viga central de madeira. O interior estava dividido em três zonas, uma sala de sauna, um forno e uma sala intermédia de transição. Entre a sala intermédia e a sala de sauna existe uma grande laje com uma abertura semicircular, abertura que permitiria a entrada e saída da sala de sauna. A laje destinava-se a reter o calor proveniente da sala de sauna. No exterior existe um pátio com uma pia. A água provinha de uma linha de água que descia do atual centro da cidade até ao rio Cávado. A água que corria no pátio era destinada a banhos frios e lavagens. Dentro do balneário, colocavam-se pedras de pequenas dimensões ou seixos no forno, onde eram aquecidas a fim de provocar, juntamente com água, os vapores que eram conduzidos para a sala de sauna. 




Para completar este roteiro finalizo com as Termas Romanas. Antigamente as Termas Romanas eram vastos edifícios públicos preparados para proporcionar aos habitantes ou visitantes da cidade a possibilidade de tomar o seu banho de acordo com as regras prescritas pela medicina da época. Segundo estas, o banhista devia começar por untar o corpo com óleos e praticar alguns exercícios. Entrava depois numa sala muito aquecida, o sudatório, onde transpirava abundantemente. Passava então ao caldário, sala ainda aquecida, onde podia lavar-se e retirar os restos de óleo. Depois de uma curta passagem pelo tepidário, mergulhava na piscina do frigidário, cuja água gelada lhe revigorava o corpo, sendo em seguida massajado e untado de óleos aromáticos. A área escavada das termas ocupa cerca de 850 metros quadrados. Estas termas eram, todavia, mais vastas, como se pode ver pela presença do hipocausto e piscina a sul, separados do restante corpo do edifício por um estreito corredor. De acordo com o espólio encontrado, terão sido construídas nos finais do 1º século desta era, restando desta fase o testemunho das quatro salas quentes cujos hipocaustos se encontram relativamente bem conservados. Não se conseguiu ainda definir o seu circuito interno nem a função de alguns dos seus compartimentos anexos. Em finais do século IV e início do século seguinte, o edifício sofreu uma grande remodelação e a sua superfície foi muito reduzida.



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Os Templários no Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco



Belbo passou imediatamente aos seus destilados preferidos, Diotallevi refletiu um bom tempo, hesitante, e optou pela água tónica. Arranjamos uma mesinha ao fundo, naquele instante deixada livre por dois trambestuurder que deviam acordar cedo na manhã seguinte.

"Com que então", disse Diotallevi, "aqueles Templários..." 


"Não, agora por favor não me ponham em crise... São coisas que se podem ler em qualquer parte..."


"Somos pela tradição oral", disse Belbo. 


"É mais mística", disse Diotallevi. "Deus criou o mundo falando, e não mandando um telegrama." 


"Fiat lux, stop. Segue epístola", disse Belbo. 


"Aos tessalonicenses, imagino", disse. 


"Os Templários?", perguntou Belbo. "Pois", disse eu. 


"Não se começa nada com pois", objetou Diotallevi. 


Fiz menção de levantar-me. Esperei que me pedissem para ficar. Não o fizeram. Sentei-me e falei.

"Bem, quero dizer, a história todos sabem. Houve a primeira cruzada, está bem? Godofredo adora o Santo Sepulcro e escolhe o claustro, Balduíno torna-se o primeiro rei de Jerusalém. Um reino cristão na Terra Santa. Mas uma coisa é ter Jerusalém, outra coisa o resto da Palestina, e os sarracenos foram vencidos mas não eliminados. A vida naquela parte não é fácil, nem para os novos entronizados, nem para os peregrinos. E eis que em 1118, sob o reinado de Balduíno II, aparecem nove personagens, liderados por um certo Hugues de Payns, e constituem o núcleo de uma Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo: ordem monástica, mas com espada e armadura. Os três votos clássicos, pobreza, castidade e obediência, e mais o de defesa dos peregrinos. O rei, o bispo, todos, em Jerusalém, logo ajudam com dinheiro e alojamento, e os instalam no claustro do velho Templo de Salomão. E aí está por que se tornaram os Cavaleiros do Templo."

"Quem eram?"

"Provavelmente Hugues e os primeiros oito eram idealistas, devotos da mística da cruzada. Mas em seguida agirão como cadetes em busca de aventuras. O novo reino de Jerusalém é um pouco a Califórnia daqueles tempos, pode-se fazer fortuna. Em sua terra não são muitas as perspetivas, e é de supor que entre eles haja algum que tenha feito das suas. Penso no assunto em termos de legião estrangeira. Que fazes se estás em apuros? Fazes-te Templário, pode-se conhecer novas terras, a gente se diverte, combate, dão-te comida, vestes e no fim até salvas a alma. É verdade, é preciso que estejas bastante desesperado, pois se trata de vagar pelo deserto, dormir em tendas, passar dias e dias sem ver vivalma a não ser os outros Templários e a cara de algum turco, a cavalgar debaixo do sol, dividindo as rações de água e estripando outros pobres-diabos..."

Calei-me por um instante.

"Talvez esteja tornando a coisa demasiadamente western. Há provavelmente uma terceira fase: a ordem torna-se poderosa, procuram fazer parte dela mesmo aqueles que têm boa posição na pátria. Mas naquela altura ser Templário já não significa necessariamente trabalhar, pode-se ser Templário até em casa. História complexa. Às vezes parecem recrutas sem eira nem beira, outras vezes demonstram ter certa sensibilidade. Por exemplo, não se pode dizer que fossem racistas; combatiam os muçulmanos, estavam ali para isso, mas com espírito cavalheiresco, e admiravam-se mutuamente. Quando o embaixador do emir de Damasco visita Jerusalém, os Templários destinam-lhe uma pequena mesquita, já transformada em igreja cristã, para que possa fazer as suas orações. Um dia entra um franco que se indigna de ver um muçulmano num lugar sagrado, e o trata mal. Os Templários correm com o intolerante e desculpam-se com o muçulmano. Essa fraternidade de armas com o inimigo os levará mais tarde à ruína, porque com o correr do tempo serão até mesmo acusados de terem tido ligações com seitas esotéricas muçulmanas. E talvez seja verdade, um pouco assim como aqueles aventureiros do século passado tomados pelo mal da África, que não tinham uma educação monástica regular, não eram assim tão subtis em entender as diferenças teológicas, imagine-os como outros Lawrences da Arábia, e com pouco se vestem como xeiques... Mas depois é difícil avaliar suas ações, porque amiúde os historiógrafos cristãos como Guilherme de Tiro não perdem ocasião de denegri-los."

"Porquê?"

"Porque se tornam poderosos demais e muito diligentes. Tudo começa com São Bernardo. Estão vendo São Bernardo, não? Grande organizador, reforma a Ordem Beneditina, elimina da igreja as condecorações, quando um colega o irrita, como Abelardo, ataca-o à McCarthy, e se pudesse o mandaria à fogueira. Não podendo, manda queimar seus livros. Depois prega a Cruzada, armai-vos e parti..."

"Não lhe é nada simpático, não", observou Belbo.

"Não, não o suporto, se dependesse de mim iria terminar num dos círculos horrendos, apesar de santo. Mas era um bom agente de publicidade de si mesmo, veja a homenagem que lhe presta Dante, nomeando-o chefe de gabinete de Nossa Senhora. Torna-se imediatamente santo porque alcovitou com a gente certa. Mas falava dos Templários. Bernardo intuiu logo que a ideia era de se cultivar, e apoia aqueles nove aventureiros, transformando-os numa Militia Christi, digamos mesmo que os Templários, em sua versão heróica, quem inventa é ele. Em 1128 faz convocar um concílio em Troyes especialmente para definir o que são aqueles novos monges soldados, e alguns anos depois escreve um elogio daquela Milícia de Cristo, e prepara uma regra de setenta e dois artigos, divertida de se ler, porque aí se encontra de tudo. Missa todos os dias, não devem frequentar cavaleiros excomungados, mas se algum deles solicita admissão no Templo devem acolhê-lo cristãmente, e vejam que eu tinha razão quando falava de legião estrangeira. Vestirão manto branco, simples, sem peles, a não ser que sejam de ovelha ou de carneiro, proibido usar calçados recurvos e macios segundo a moda, devem dormir de camisa e ceroulas, um colchão, um lençol e uma coberta..."

"...não decerto sem motivo", comentou Belbo. "São Bernardo certamente não era nenhum estúpido." 


"Não, estúpido não era, mas era monge também ele, e naqueles tempos o monge tinha uma estranha ideia do corpo... Ainda há pouco estava receoso de ter levado a minha história um pouco demais para o western, mas, pensando bem, ouçam o que dizia Bernardo sobre seus cavaleiros prediletos, trago aqui comigo a citação porque vale a pena: 'Evitam e aborrecem os mimos, os prestidigitadores e os ilusionistas, as canções inconvenientes e as farsas, cortam curtos os cabelos, tendo aprendido do apóstolo ser ignomínia o homem cuidar da própria cabeleira. Jamais são vistos penteados, raramente lavados, a barba hirsuta, fétidos de pó, sujos por causa da armadura e do calor'."

"Eu é que não queria morar junto deles", disse Belbo.

Diotallevi sentenciou: "Sempre foi típico do eremita cultivar uma sadia sujeira, para humilhar o próprio corpo. São Macário não vivia sobre uma coluna e, quando os vermes lhe caíam das costas, os recolhia e os punha de novo no corpo para que eles, também criaturas do Senhor, tivessem o seu festim?"

"O estilita era são Simeão", disse Belbo, "e acho que ficava em cima da coluna só para cuspir na cabeça daqueles que passavam por baixo." 


"Odeio o espírito do iluminismo", disse Diotallevi. "Em todo o caso, Macário ou Simeão, houve um estilita com vermes como eu disse, mas não sou autoridade na matéria porque não me ocupo das loucuras dos gentios."

"Acaso eram limpos os teus rabinos de Gerona?" perguntou Belbo. "Estavam em lúgubres casebres porque vocês os gentios os confinavam no gueto. Os Templários ao contrário se emporcalhavam por gosto."

"Não dramatizemos", disse eu. "Já viram um pelotão de recrutas depois da marcha forçada? Mas contei estas coisas para fazer-vos compreender a contradição dos Templários. Deve-se ser místico, ascético, não comer, não beber, não varrer, mas vai para o deserto, corta a cabeça aos inimigos de Cristo, quanto mais cortas tanto mais ganhas cupões para o paraíso, fede, faz-se hirsuto a cada dia que passa, e Bernardo ainda pretendia que depois de haver conquistado uma cidade não se atirassem sobre alguma mocinha ou velhinha que fosse, e que nas noites sem lua, quando como se sabe o simum sopra no deserto, não se deixassem fazer um servicinho qualquer pelo seu companheiro de armas preferido. Só porque és monge e espadachim, estripas muçulmanos e rezas a Avé-Maria, não deves encarar tua prima e quando entras numa cidade, depois de dias e dias de assédio, os outros cruzados fodendo a mulher do califa diante dos teus olhos, sulamitas maravilhosas abrindo o corpete e dizendo-te toma-me, toma-me mas deixa-me a vida... E o Templário nada, devia ficar duro, fedorento, hirsuto como o queria são Bernardo a recitar completas... Além do mais, basta ler os Retraits..."


"Que era isso?"

"Estatutos da Ordem, redigidos bem mais tarde, digamos quando a Ordem já estava de pantufas. Não há nada pior do que um exército que se entedia porque a guerra acabou. Por exemplo proibiram-se as rixas, que se ferisse um cristão por vingança, comércio com as mulheres, caluniar o irmão. Não se deve perder um escravo, encolerizar-se e dizer "vou para o lado dos sarracenos!", deixar extraviar por incúria um cavalo, dar animais com exceção de cães e gatos, partir sem permissão, quebrar o sigilo do Mestre, deixar a capitania de noite, emprestar dinheiro da ordem sem autorização, atirar o hábito por terra quando enfurecido."

"Através de um sistema de vetos pode-se intuir o que as pessoas faziam habitualmente", disse Belbo, "e com isso traçar esboços da vida quotidiana."

"Vejamos", disse Diotallevi, "um Templário, irritado por alguma coisa que os irmãos lhe haviam dito ou feito àquela noite, sai tarde sem permissão, a cavalo, com um sarracenozinho de escolta e três capões pendurados na sela, para ir à casa de uma rapariga de costumes indecorosos e locupletando-a com os ditos capões dela obtém as vantagens de ilícito conúbio... Depois, durante a esbórnia, o mourinho escapa com o cavalo e o nosso Templário, mais sujo suado e hirsuto que de costume, volta para casa com o rabinho entre as pernas e procurando passar despercebido entrega dinheiro (do Templo) ao usurário do costume, um judeu que o espera como um abutre sobre a trípode..."

"Tu o disseste, Caifás", observou Belbo.

"E assim por diante, segundo os estereótipos. O Templário procura reaver se não o mouro, pelo menos uma sombra do cavalo. Mas um co-templário percebe a tramoia e à noite (estamos vendo, naquela comunidade a inveja é de casa), quando entre a satisfação geral chega a carne, faz pesadas alusões. O capitão fica desconfiado, o suspeito se atrapalha, enrubesce, arranca o punhal e atira-se sobre o tipo..."

"Sobre o sicofanta" , precisou Belbo.

"Sobre o sicofanta, bem dito, atira-se sobre o miserável golpeando-lhe o rosto. Este arranca da espada, litigam indecorosamente, o capitão procura acalmá-los a catanadas, os irmãos escarnecem..."

"Bebendo e praguejando como Templários..." disse Belbo.

"Jurodeus, nomededeus, pordeus, afédedeus, sanguededeus!" dramatizei.

"Sem dúvida, o nosso Templário se altera, assim... como diabo fica um Templário quando se altera?"
"Fica com o rosto pavonáceo", sugeriu Belbo. 


"Isso, tal como dizes, fica com o rosto pavonáceo, arranca o hábito e o arremessa por terra... Fiquem com esta túnica de merda vocês e seu maldito templo!" propôs. "Depois, dá uma espadagada no sinete, despedaça-o e grita que lá se vai unir aos sarracenos."Violando pelo menos oito preceitos de um só lance." Concluí, para melhor ilustrar minha tese: "Pois ali havia tipos assim, que dizem lá me vou com os sarracenos, no dia em que o bailio do rei os prende e os faz ver o ferro em brasa: Fala marrano, diz que lhe metias no traseiro! Nós? Mas a mim as vossas tenazes me fazem rir, não sabem do que é capaz um Templário, meto no traseiro vosso, do papa, e se estiver à mão até mesmo no do rei Filipe!"

"Confessou, confessou! Foi decerto assim a coisa", disse Belbo. "E já para o calabouço, uma passada de óleo todos os dias, que assim queima melhor." 


"Como crianças", concluiu Diotallevi.

Fomos interrompidos por uma jovem, com uma nódoa de morango no nariz, e folhas de panfleto na mão. Perguntou-nos se já havíamos assinado pelos companheiros argentinos presos. Belbo logo assinou, sem sequer olhar a folha. "Em todo o caso, estão pior que eu", disse a Diotallevi, que o observava com ar perdido. Depois voltou-se para a moça: "Ele não pode assinar, pertence a uma minoria indiana que proíbe escrever o próprio nome. Muitos deles estão na cadeia porque o governo os persegue." A garota fixou Diotallevi com compreensão e passou o papel para mim. Diotallevi relaxou-se.

"Quem são?" perguntei.

"Como quem são? Companheiros argentinos."

"Sim, mas de que grupo?"

"Taquara, não?"

"Mas os Taquaras são fascistas", arrisquei, ao que sabia.

"Fascista", me sibilou com ódio a jovem. E lá se foi.

"Mas, em suma, esses Templários eram então uns pobres coitados?" perguntou Diotallevi. 


"Não", disse eu, "e tenho a culpa, porque estava procurando tornar mais viva a minha história. Tudo o que dissemos respeita à tropa, mas a ordem desde o início recebeu doações fantásticas e pouco a pouco foi constituindo capitanias em toda a Europa. Notem que Afonso de Castela e Aragão presenteou-a com um país inteiro, e, além disso, em seu testamento lhe deixa o reino caso venha a morrer sem herdeiros. Os Templários não confiam no gesto e fazem uma transação, como quem diz contentamo-nos com pouco, mas esse pouco são nada menos que uma dezena de fortalezas na Espanha. O rei de Portugal lhes doa uma floresta, e como ainda estivesse ocupada pelos sarracenos, os Templários se metem ao assalto, expulsam os mouros, e por assim dizer fundam Coimbra. E são apenas episódios. Em resumo, uma parte combate na Palestina, mas o grosso da ordem progride em casa. E que acontece? Se alguém tem que ir à Palestina e precisa de dinheiro, e não tem coragem de viajar com joias e ouro, entrega-os aos Templários na França, na Espanha ou na Itália, recebe um bónus que pode ser resgatado no Oriente."

"A carta de crédito?" perguntou Belbo.

"Isto mesmo, inventaram o cheque, e antes dos banqueiros florentinos. Donde se compreende que, por força de doações, conquistas à mão armada e corretagens sobre operações financeiras os Templários se tenham tornado uma multinacional. Para dirigir uma empresa do género era preciso gente de boa cabeça. Gente que consegue convencer Inocêncio II a conceder-lhes privilégios excepcionais: a ordem pode ficar com as pilhagens de guerra, e onde tiver bens não está obrigada a prestar obediência ao rei, aos bispos ou ao patriarca de Jerusalém, mas apenas ao Papa. Isentados em toda parte do pagamento da dízima, têm o direito eles próprios de impô-la nas terras que controlam... Em suma, trata-se de uma empresa sempre no ativo na qual ninguém pode meter o bedelho. Compreende-se por que passam a ser malvistos pelos bispos e reinantes, que contudo não podem passar sem eles. Os cruzados são uns trapalhões, gente que parte sem saber para onde vai nem o que vai encontrar. Já os Templários neste particular estão em casa, sabem como tratar o inimigo, conhecem o terreno e a arte militar. A ordem dos Templários é uma coisa séria, ainda que se sustente sobre as fanfarronadas de sua tropa de choque."

"Mas eram fanfarronadas?" perguntou Diotallevi. 


"Muitas vezes sim, e de novo nos surpreendemos com a variedade entre seu conhecimento político e administrativo, e seu estilo de boinas-verdes, todo fígado e nenhum cérebro. Tomemos a história de Ascalão."

"Tomemos", disse Belbo, que se havia distraído para cumprimentar com ostensiva luxúria uma certa Dolores que entrava.

Esta veio sentar-se ao nosso lado, dizendo: "Quero ouvir a história de Ascalão, quero ouvir.

"Ora, um dia o rei de França, o imperador germânico, Balduíno III de Jerusalém e dois grão-mestres dos Templários e dos Hospitalários decidiram assediar Ascalão. Partem todos para o assédio, o rei, a Corte, o patriarca, os padres com as cruzes e estandartes, os arcebispos de Tiro, de Nazaré, da Cesareia, em suma, uma grande festa, com as tendas erguidas diante da cidadela inimiga, e as auriflamas, o grande paves, os tambores... Ascalão era defendida por cento e cinquenta torres e os habitantes já estavam preparados há tempos para o assédio, cada casa dispondo de seteiras, outras tantas fortalezas na fortaleza principal. Digo, os Templários, que eram tão hábeis, deviam saber essas coisas. Mas nada, todos se excitam, constroem tartarugas e torres de madeira, sabem aquelas construções sobre rodas que se empurram para junto dos muros do inimigo e lançam fogo, pedras, flechas, enquanto de longe as catapultas bombardeiam com pedregulhos... Os ascalonitas procuram incendiar as torres, o vento lhes é desfavorável, as chamas pegam nas muralhas, que pelo menos em um ponto cedem. A brecha! Neste ponto todos os assediantes entram como se fossem um só, e acontece um facto estranho. O grão-mestre dos Templários faz uma barragem, de modo que na cidadela só entrem os seus. As más línguas dizem que fez isso para que o saque enriquecesse só os Templários, os de boa-fé acham que temendo uma emboscada quisesse mandar na vanguarda os seus audazes. Em todo o caso não daria a eles a direção de uma escola de guerra, porque quarenta Templários percorrem toda a cidade a cento e oitenta a hora, vão dar de cara com a muralha do lado oposto, freiam levantando grande nuvem de poeira, olham uns para os outros e se perguntam que coisa estão fazendo ali, invertem a marcha e desfilam precipitadamente entre os mouros, que os perseguem atirando-lhes pedras e venábulos das janelas, massacrando-os todos inclusive o grão-mestre, e em seguida tapam a brecha, penduram nos muros os cadáveres e fazem figa para os cristãos entre escárnios obscenos."

"O mouro é cruel", disse Belbo. 


"Como as crianças", repetiu Diotallevi.

"Mas eram uns bardamerdas do cacete esses seus Templários", disse Dolores, excitada.

"A mim fazem lembrar o Tom & amp; Jerry", disse Belbo.

Arrependi-me. No fundo estava há dois anos vivendo com os Templários, e os amava. Intimidado pelo snobismo dos meus interlocutores, acabei apresentando-os como personagens de desenho animado. Talvez fosse culpa de Guilherme de Tiro, historiador infiel. Não eram assim os cavaleiros do Templo, barbudos e flamejantes, com a bela cruz encarnada sobre o manto cândido, esvoaçante à sombra de sua bandeira branca e negra, o Beauceant, destinados — e maravilhosamente — à sua festa de morte e de audácia, e o suor de que falava São Bernardo talvez fosse um lucilar brônzeo que conferia uma nobreza sarcástica ao seu sorriso tremendo, enquanto estavam assim aplicados em festejar cruelmente o adeus da vida... Leões na guerra, como dizia Jacques de Vitry, cordeiros cheios de doçura na paz, rudes na batalha, devotos na prece, ferozes com os inimigos, benévolos com os irmãos, marcados do branco e do negro de seu estandarte porque cheios de candor pelos amigos de Cristo, soturnos e terríveis para com seus adversários... Patéticos campeões da fé, último exemplo de uma cavalaria no crepúsculo, por que me comportar em relação a eles como um Ariosto qualquer, quando poderia ser seu Joinville? Vieram-me à mente as páginas que lhes dedicara o autor da História de São Luís, que havia seguido para a Terra Santa em companhia do Rei Santo, escrivão e combatente ao mesmo tempo. Enfim os Templários existiam há cento e cinquenta anos, haviam feito cruzadas bastantes para extenuar qualquer ideal. Desaparecidas como fantasmas as figuras heroicas da rainha Melisanda e de Balduíno, o rei leproso, consumadas as lutas intestinas daquele Líbano ensanguentado desde então, tendo caído já uma vez Jerusalém, Barba Roxa afogando-se na Cilícia, Ricardo Coração de Leão, derrotado e humilhado que regressa à pátria travestido precisamente de Templário, a cristandade perde sua batalha, e os mouros têm uma ideia bem diversa da confederação dos potentados autónomos mas unidos na defesa de uma civilização — leram Avicena, não são ignorantes como os europeus, como é possível permanecer dois séculos exposto a uma cultura tolerante, mística e libertina, sem ceder às lisonjas, podendo-a comparar à cultura ocidental, rude, insolente, bárbara e germânica? Até que em 1244 ocorre a última e definitiva queda de Jerusalém, a guerra, iniciada cento e cinquenta anos antes, é perdida, os cristãos irão deixar de empunhar armas numa terra destinada à paz e ao perfume dos cedros do Líbano, pobres Templários, de que serviu vossa epopeia? Ternura, melancolia, valores de uma glória fenecente, por que não se dedicar então à consulta das doutrinas secretas dos místicos muçulmanos, à acumulação hierática de tesouros ocultos? Talvez daí tenha nascido a lenda dos cavaleiros do Templo, que até hoje obsidia as mentes desiludidas e desejosas, a história de uma potência sem limites que já agora não sabe mais sobre o que se exercitar...

Contudo, já no ocaso do mito, aparece Luís, o rei santo, o rei que tem por comensal o Aquinate, que ainda acredita na cruzada, mau grado dois séculos de sonhos e tentativas falidas pela estupidez dos vencedores, vale a pena tentar mais uma vez? Vale a pena, diz Luís, o Santo, os Templários topam, seguem-no na derrota, pois é este o seu dever, como justificar o Templo sem a cruzada? Luís ataca Damieta por mar, a praia inimiga é todo um reluzir de lanças e alabardas e auriflamas, escudos e cimitarras, bela e valorosa gente de se ver, diz Joinville cavalheiresco, que portam armas de ouro percutidas pelo sol. Luís poderia esperar, decide em vez disso desembarcar a qualquer custo. "Meus fiéis, seremos invencíveis se formos inseparáveis em nossa fé. Se formos vencidos seremos mártires. Se triunfarmos, a glória de Deus estará acrescida." Os Templários não vão na conversa, mas foram educados para serem cavaleiros do ideal, e tal é a imagem que devem apresentar de si mesmos. Seguiram o rei em sua mística loucura.

O desembarque incrivelmente teve êxito. Os sarracenos incrivelmente abandonam Damieta, tanto assim que o rei hesita em entrar na cidade pois não crê naquela fuga. Mas é verdade, a cidadela é sua e seus são os tesouros e as cem mesquitas que imediatamente Luís converte em igrejas do Senhor. Agora se trata de tomar uma decisão: marchar sobre Alexandria ou sobre o Cairo? A decisão prudente teria sido Alexandria, para subtrair ao Egito um porto vital. Mas lá estava o génio mau da expedição, o irmão do rei, Robert d’Artois, megalómano, ambicioso, sedento de glória e impulsivo, como todo o benjamim. Aconselha a marcha sobre o Cairo, coração do Egito. O Templo, a princípio prudente, obedece contrariado. O rei havia vetado as escaramuças isoladas, mas é o marechal do Templo que infringe a proibição. Vê um destacamento de mamelucos do sultão e grita: "Vamos a eles, em nome de Deus, pois não posso suportar uma vergonha destas!"

Os sarracenos em Mansurah se entrincheiram do outro lado de um rio, os franceses tratam de construir um dique para poderem vadeá-lo, protegendo-o com suas torres móveis, mas os sarracenos aprenderam com os bizantinos a arte do fogo grego. O fogo grego tinha uma ponta grossa como um barril, a cauda era como uma grande lança, chegava como um raio e parecia um dragão que voasse pelos ares. E desprendia tal luz que o campo ficava claro como se fosse dia. Enquanto o campo cristão está todo em chamas, um beduíno traidor indica ao rei um vau, por trezentos besantes. O rei decide atacar, a travessia não é fácil. Muitos se afogam e são arrastados pelas águas, e na margem oposta estão à espera trezentos sarracenos a cavalo. Porém, o grosso do exército finalmente toca em terra, e de acordo com as ordens os Templários cavalgam na vanguarda, seguidos do conde de Artois. Os cavaleiros muçulmanos põem-se em fuga e os Templários esperam o resto do exército cristão. Mas o conde de Artois avança com os seus em perseguição do inimigo.

Então os Templários, para não ficarem desonrados, lançam-se também eles ao ataque, mas cavalgando apenas na retaguarda de Artois, que já invadiu o campo inimigo e andava a fazer estragos. Os muçulmanos empreendem a fuga em direção a Mansurah. Para Artois, é como um convite para a festa, e toca a persegui-los. Os Templários tentam detê-lo, o irmão Gules, comandante-em-chefe do Templo, lisonjeia-o dizendo que Artois já havia realizado uma empresa admirável, das maiores empreendidas em terras de ultramar. Mas Artois, janota sedento de glória, acusa de traição os Templários, aduzindo ainda que, se tivessem querido, os Templários e os Hospitalários aquela terra já teria sido conquistada há muito, e ele próprio dera uma prova do que se podia fazer quando se tinha sangue nas veias. Era demais para a honra do Templo. O Templo não se deixa secundar por ninguém. Todos se atiram em direção à cidade, invadem-na, seguem o inimigo até às muralhas do lado oposto, e naquele instante os Templários se dão conta de estarem repetindo o erro de Ascalão. Os cristãos, Templários inclusive, demoraram-se em saquear o palácio do sultão, os infiéis se reorganizam, precipitam-se sobre aquela malta de aves de rapina, já agora dispersa. Será que os Templários mais uma vez se deixaram cegar pela cobiça? Já outros afirmam que, antes de seguir Artois na invasão da cidade, o irmão Gules lhe dissera com lúcido estoicismo: "Sir, eu e meus irmãos não temos medo e vos seguiremos. Mas sabei que duvidamos, e muito, que ambos possamos retornar." Em todo o caso, Artois, graças a Deus, acaba sendo morto, e com ele tantos outros bravos cavaleiros, inclusive duzentos e oitenta Templários. Deus seja louvado por tudo que lhe mandar, e grossas lágrimas lhe rolam dos olhos.

Mas não é sempre balé, por angélico e sanguinário que seja. Morre o grande mestre Guillaume de Sonnac, queimado vivo pelo fogo grego, o exército cristão, em razão da fedentina dos cadáveres e da escassez de víveres, acaba vítima do escorbuto, a armada de são Luís está a caminho, o rei é minado pela disenteria, de tal forma que tem de cortar o fundilho dos calções para ganhar tempo em meio das batalhas. Damieta é perdida, a rainha tem de pactuar com os sarracenos e lhes paga quinhentas mil liras tornesas para salvar a vida. Mas as cruzadas se faziam com teologal má-fé. Em São João de Acre, são Luís foi acolhido como triunfador e toda a cidade se dirige ao seu encontro em procissão, com o clero, as mulheres e as crianças. Os Templários conhecem a história toda e procuram entrar em tratativas com Damasco. Luís vem a sabê-lo, não admite ser apeado do trono, excomunga o novo grão-mestre em frente dos embaixadores muçulmanos, e o grão-mestre desrespeita a palavra dada aos inimigos, ajoelha-se diante do rei e lhe pede perdão. Não se pode dizer que os cavaleiros não se tenham batido bem, e desinteressadamente, mas o rei de França os humilha, para reafirmar seu poder - e para reafirmar seu poder, meio século depois, seu sucessor Filipe os mandará à fogueira.

Em 1291 São João de Acre é conquistada aos mouros, todos os seus habitantes são imolados. O reino cristão de Jerusalém chega ao fim. Os Templários estão mais ricos, mais numerosos e mais poderosos que nunca, criados para combater na Terra Santa e na Terra Santa não se encontram mais.Vivem esplendidamente sepultados nas capitanias de toda a Europa e no Templo de Paris, e sonham ainda com a esplanada do Templo de Jerusalém em seus tempos de glória, com a bela igreja de Santa Maria de Latrão constelada de capelas votivas, com buquês de troféus, e um rebuliço de forjas, selarias, lojas de fazendas, celeiros, uma cavalariça para dois mil cavalos, um enredar de escudeiros, fâmulos, turcópolos, as cruzes vermelhas sobre os mantos brancos, as cotas castanhas dos auxiliares, os enviados do sultão com grandes turbantes e elmos dourados, os peregrinos, um emaranhado de belas patrulhas e estafetas, e a euforia dos cofres cheios, o porto do qual partiam ordens e disposições e encargos para os castelos da mãe-pátria, das ilhas e das costas da Ásia Menor...

Tudo acabou, meus pobres Templários.

Percebi aquela noite, no Pilades, já então no quinto uísque, que Belbo estava me dando corda, que eu estava sonhando, com sentimento (que vergonha), mas em voz alta, e devo ter contado uma história belíssima, com paixão e compaixão, porque Dolores estava com os olhos lúcidos, e Diotallevi, precipitado na insânia de uma segunda água tónica, volvia os olhos seráficos para os céus, ou antes para o teto nada sefirótico do bar, e murmurava: "E talvez fosse tudo isso, almas perdidas e almas puras, palafreneiros e cavaleiros andantes, banqueiros e heróis...

"Certo que eram singulares", foi a síntese de Belbo. "Mas, Casaubon, quero saber se os ama?"

"Faço uma tese sobre eles, e quando se faz uma tese seja lá sobre a sífilis a gente acaba amando o treponema pálido."

"Belo como um filme", disse Dolores. "O caso é que agora tenho que me mandar, estão ouvindo, pois amanhã bem cedo vou circular uns volantes por aí. Vamos ajudar nos piquetes na Marelli."

"Tu é que tens sorte, que ainda te podes permitir essas coisas", disse Belbo. Ergueu a mão fatigada e acariciou-lhe os cabelos. Pediu, disse, o último uísque. "É quase meia-noite", observou. "Não falo por causa dos humanos, mas por Diotallevi. Porém, terminemos a história, quero saber do processo. Quando, como, porquê..."

"Cur, quomodo, quando", assentiu Diotallevi. "Isso, isso."

domingo, 8 de setembro de 2019

Dos símbolos da criação



Dois símbolos muito vistos em todo o lado são as estrelas de cinco e de seis pontas. E o território português não teria de ser exceção, onde a estrela de cinco pontas aparece desde há milénios. Por exemplo, na imagem seguinte, vê-se dinheiro de D. Afonso Henriques com a representação do pentalfa num dos lados. Está representado o “cinco” como um pentagrama (estrela de David) com um círculo no centro. 


Ainda hoje os amuletos populares portugueses têm o pentalfa, o hexalfa, a meia lua e a figa como símbolos preferenciais. A tradição portuguesa chama “Selo de Salomão” à estrela de seis pontas, que não é mais do que dois triângulos entrelaçados; e “Estrela de David” à estrela de cinco pontas. 


Agora reparando nas outras fotos das moedas dos primeiros reis portugueses verificamos que têm cinco escudetes com um número variável de besantes. Tendo evoluído para uma forma amendoada, os escudetes da origem estavam dispostos de uma forma que acabou por ser corrigida no reinado de D. João II, para que o escudo fosse endireitado segundo as regras da heráldica. 


Há nas cinco quinas uma aliança entre religião, política e guerreiro: forma de cruz; forma de amêndoa; forma de escudo. É curioso que no morabitino de D. Sancho I os escudetes têm apenas 4 besantes. Ao passo que no tornês de D. Diniz veem-se cinco, e na outra face a cruz templária. 


O escudo português será uma alusão à batalha de Ourique. Nestes casos, o brasão tem por missão captar o “valor simbólico” de um acontecimento histórico marcante. Por outro lado, nem sempre o facto histórico é tão evidente. Daí que os símbolos possam ter segundas e terceiras leituras que exprimem uma mensagem esotérica.

No Museu Arqueológico de Barcelos, num espaço ao ar livre, encontra-se um túmulo "O Túmulo de Faria" que se notabiliza pela grande complexidade simbólica inscrita num dos lados da arca tumular em granito. A estrela de seis pontas tem no seu centro um pentafólio esculpido , o que é significativo. As folhas de carvalho também estão presentes. Não tem recebido a devida atenção por parte dos especialistas, mas tudo indica que seja do século XI.



D. João III desconfiava de Ourique, das lendas e dos Templários. Também não sentia a força ideológica do Culto do Espírito Santo desde D. Dinis. O corte das elites dirigentes com as tradições, ritos, símbolos, enfim, com a mundivisão do Portugal Mítico que vinha acontecendo paulatinamente desde D. Manuel I com o caso dos judeus, culminou na Inquisição e no golpe de 1580. Em suma, os mitos foram recalcados para o inconsciente coletivo.

Diogo Pires, um judeu de origem portuguesa , exilado em Dubrovnik devido a édito manuelino, escreveu em 1547, numa alusão à concessão pelo papa da Inquisição para Portugal: “Mas ocorre neste ponto pasmar ante a enorme crueldade de alma daquele pontífice que, a um rei enfurecido (D. João III) contra um povo pacífico e inocente, prometeu aquilo que Clemente de Aquitânia (Clemente V), segundo julgo, quando governava em Avinhão com relutância concedeu a Filipe, o Belo, depois de ele lho reclamar, com insistência e há largo tempo, contra os templários. E eram tais as forças dos templários nesses tempos que os próprios reis as consideravam fora do comum.”

Eduardo Lourenço, por sua vez, referindo-se ao estigma da Inquisição que caiu sobre nós diz: “Criou em nós essa indiferença a toda a verdade criativa de inventores geniais. Uma forma de hipocrisia social, altamente conservadora no pior sentido da palavra, que criou uma névoa sobre a realidade e amputou o génio a muitos idealistas livres-pensadores, artistas de facto, inventores, humanistas, enfim, todos aqueles que acreditam que ‘o sonho comanda a vida’.