Os termos “cristãos-novos” e “marranos” estão relacionados, mas não são exatamente sinónimos. Cristãos-novos era a designação oficial dada em Portugal e Espanha aos judeus (e também muçulmanos) convertidos ao cristianismo entre os séculos XV e XVI. Era uma categoria jurídica e social extensível aos descendentes. Marranos era um termo pejorativo usado sobretudo para acusar certos cristãos-novos de continuarem a praticar o judaísmo em segredo. O termo equivalente de marrano que mais se encontra nos documentos inquisitoriais portugueses é “judaizante”. Ou seja: todo o marrano era um cristão-novo. Mas nem todo o cristão-novo era marrano.
Muitos cristãos-novos integraram-se sinceramente no cristianismo, enquanto outros mantiveram práticas judaicas clandestinas, por convicção religiosa, identidade familiar ou medo de perseguição. O termo “marrano” hoje é frequentemente evitado em contextos académicos por causa da sua carga ofensiva. Alguns historiadores preferem termos como: “criptojudeus”; “judeus secretos”; “judaizantes”.
A Inquisição Portuguesa ( o Santo Ofício) perseguiu especialmente cristãos-novos suspeitos de judaizar, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII. Em regiões do interior de Portugal, como Belmonte, sobreviveram comunidades de criptojudeus durante séculos. Portanto, muitos marranos, para estarem mais seguros nas suas práticas judaizantes, aos olhos da Inquisição em Portugal, foram-se deslocando para o interior, sobretudo as Beiras e Trás-os-Montes. Isso aconteceu com bastante frequência, embora não tenha sido um movimento único nem totalmente organizado. Muitos cristãos-novos suspeitos de “judaizar” procuraram zonas mais periféricas e menos vigiadas da Portugal, especialmente regiões do interior como as Beiras e Trás-os-Montes. Havia várias razões para isso: menor presença direta dos tribunais da Inquisição; comunidades pequenas e mais fechadas, onde redes familiares protegiam tradições; distância dos grandes centros de vigilância religiosa, que eram: Lisboa, Coimbra e Évora. Assim, conseguiam manter práticas discretas dentro do espaço doméstico. Em muitos casos, tornou-se sobretudo uma religião familiar e doméstica, que consistia em acender de velas à sexta-feira de forma velada. Também seguiam as regras alimentares específicas, os jejuns, e as orações que haviam sido transmitidas oralmente. Por outro lado, os casamentos eram mantidos preferencialmente dentro da comunidade cristã-nova.
A comunidade de Belmonte é o caso mais famoso, porque preservou práticas judaicas clandestinas até ao século XX. Mas houve também núcleos importantes em zonas como Bragança, Miranda do Douro, Chaves, Guarda, Covilhã e Trancoso. Ao mesmo tempo, muitos cristãos-novos seguiram outro caminho: emigraram para locais onde havia maior tolerância religiosa ou oportunidades comerciais, como: Amsterdão e Antuérpia; Império Otomano; Brasil. Nalguns desses lugares, antigos cristãos-novos regressaram publicamente ao judaísmo, como foi o caso da família de Espinosa em Amsterdão.
Consta que as alheiras, de Mirandela, foram uma invenção desses marranos para camuflar as suas práticas, como se fossem chouriços, visto que a carne de porco era proscrita nos judeus. É uma tradição muito difundida em Mirandela e noutras zonas de Trás-os-Montes: a ideia de que a alheira teria sido criada por cristãos-novos para aparentar, consumir enchidos “normais” perante a vigilância social e inquisitorial. A narrativa costuma ser esta: como os judeus não consumiam carne de porco; e os vizinhos observavam quem fazia ou pendurava enchidos; os cristãos-novos teriam criado enchidos feitos de aves, caça, pão e alho, com aspeto semelhante ao chouriço tradicional, para evitar suspeitas de judaísmo. Historicamente, a hipótese é plausível e tem algum apoio na tradição oral. Contudo, os historiadores também salientam que: não existe uma prova documental definitiva de que a alheira tenha sido “inventada” especificamente pelos marranos; as receitas atuais evoluíram muito ao longo do tempo; hoje muitas alheiras incluem porco, o que obviamente já não tem relação com regras "kosher". Portanto, a ligação entre alheiras e cristãos-novos é considerada verosímil e culturalmente importante, mas mistura história, memória regional e alguma construção identitária posterior. O que é certo é que a alheira de Mirandela acabou por se tornar um dos enchidos mais emblemáticos da gastronomia portuguesa.
Os sefarditas mais ricos, sobretudo entre mercadores, banqueiros, médicos e famílias com redes comerciais internacionais, preferiram emigrar sobretudo para Amsterdão e Antuérpia, porque aí puderam regressar à sinagoga. Muitos cristãos-novos de origem sefardita saíram de Portugal e de Espanha entre os séculos XVI e XVII para escapar à perseguição inquisitorial. Estes centros de sefarditas portugueses nos Países Baixos tornaram-se centros importantes da diáspora judaica. Alguns regressaram plenamente ao judaísmo; outros mantiveram uma identidade ambígua ou secular. Em lugares tolerantes deixou de fazer sentido manter essa identidade imposta pela Inquisição. Em cidades protestantes ou mais cosmopolitas, muitos passaram a apresentar-se simplesmente como “judeus portugueses” ou “nação portuguesa”, termos muito usados pelas comunidades sefarditas da época.
Era regra, na conversão a cristão-novo, a adoção de nomes portugueses, e muitos deles com nomes ligados à natureza, principalmente nomes de árvores de fruto. Quando os judeus de Portugal foram forçados à conversão no final do século XV, muitos passaram a usar apelidos cristãos comuns. Entre eles apareciam: Pereira. Oliveira. Figueira. Nogueira. Carvalho. Pinheiro. Mas também Costa Mendes Henriques Rodrigues Lopes Fonseca Pimentel Dias Cardoso. Ou seja, os cristãos-novos adotaram apelidos portugueses correntes, muitas vezes escolhidos pelos padrinhos de batismo; por famílias nobres protetoras; por conveniência social; ou simplesmente atribuídos pelas autoridades. A associação aos nomes de árvores ganhou força porque: muitos apelidos portugueses tradicionais já vinham da paisagem rural. Algumas famílias sefarditas realmente usaram esses nomes. Criou-se depois uma espécie de “folclore genealógico”, segundo o qual certos apelidos denunciariam origem judaica. Algumas famílias sefarditas portuguesas que foram para Amsterdão conservaram esses apelidos portugueses durante séculos como marca identitária da “nação portuguesa” sefardita. Há até um fenómeno curioso: alguns descendentes de sefarditas no estrangeiro mantiveram apelidos portugueses antigos que hoje parecem mais “tipicamente portugueses” fora de Portugal do que dentro dele.
Recentemente, em Portugal e Espanha, descendentes desse sefarditas que emigraram, foi-lhes concedida a nacionalidade. Na verdade, tanto Portugal como Espanha criaram leis para conceder nacionalidade a descendentes de judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica. Mas seguiram caminhos diferentes. Em Espanha a lei foi aprovada em 2015; exigia prova de ascendência sefardita e “ligação especial” a Espanha; havia exames de língua e cultura espanhola; o processo tinha prazo limitado. O programa espanhol terminou oficialmente em 2019 (embora alguns processos continuassem depois por questões administrativas). Já Portugal aprovou a sua lei em 2013, e o regime tornou-se mais conhecido internacionalmente porque o processo era inicialmente mais simples. Não exigia residência nem exigia exames da língua. Bastava certificação por comunidades judaicas portuguesas reconhecidas. Isso levou a dezenas de milhares de pedidos, especialmente de Israel, Turquia, Brasil e Estados Unidos. A polémica explodiu sobretudo após o caso do oligarca Roman Abramovich, que obteve nacionalidade portuguesa ao abrigo dessa lei. Isso gerou críticas em relação à fragilidade dos critérios. Uma espécie de genealogia industrial para a cidadania europeia. A falta de ligação a Portugal era escandalosa. Desde então, Portugal endureceu bastante as regras. Hoje já não basta provar origem sefardita remota; exige-se também demonstração de ligação efetiva ao país.
A década de 1630 foi um tempo particularmente difícil para a comunidade judaica portuguesa. Em 1638, Ana, a mãe de Bento Espinosa morre de doença respiratória prolongada, provavelmente tuberculose. Na casa de Espinosa falava-se português, e rezava-se em hebraico. A década anterior já havia sido difícil para as Províncias Unidas. A guerra com Espanha prolongava-se. Ocorreram sublevações e surtos de peste. Por volta de 1635, os Países Baixos aliaram-se à França, que havia declarado guerra à Espanha. Os Holandeses invadiram os Países Baixos pelo norte, enquanto os Franceses atacavam pelo sul. Por volta de 1635 rebentou o litígio das tulipas, quando o mercado dos bolbos começou a ser menos uma troca direta de dinheiro por mercadoria e mais uma questão de especulação. Tratava-se pois de uma área em que os judeus eram livres de atuar.
Em 1638 havia em Amsterdão três congregações: Beth Jacob; Neve Xalom; Beth Israel. Os "Quinze Senhores", depois de uma consulta à comunidade judaica de Veneza, reuniram em setembro (28 de Elul de 5398) a fim de ultimarem o acordo de unificação. Assim, todos os judeus da "nação portuguesa e espanhola" tornavam-se automaticamente membros da congregação unificada: "Talmude Tora". Os outros judeus que não eram sefarditas não podiam pertencer. E a sede seria a sinagoga de Beth Israel, oito casas a seguir à casa Espinosa, em Houtgracht. Embora grande parte da inspiração para a organização política interna da comunidade fosse proveniente de Veneza, a estrutura do poder, particularmente nas suas dimensões sociais, acompanhava de perto a estrutura calvinista de Amsterdão. No outono de 1639, ano em que a fusão entrou em vigor, Bento Espinosa fazia sete anos de idade e entrava para a escola da comunidade.
Em 1642, a congregação Talmude Tora recebeu a visita do estatuder Frederico Henrique. O cargo de estatuder era uma reminiscência dos dias em que os Países Baixos faziam parte dos territórios do Duque de Borgonha. Depois, com a coroa espanhola, os Habsburgos herdaram esses territórios, mas os holandeses conservaram o cargo do estatuder. Guilherme I, pai de Frederico Henrique, foi o estatuder mais popular. Mas esta visita de Frederico Henrique foi a primeira visita a uma sinagoga de um membro da Casa de Orange. Foi ao rabino Manassés ben Israel que coube a honra de apresentar as boas-vindas oficiais.










