domingo, 9 de agosto de 2020

Um passeio por Viena




Situada no centro da Europa, os romanos chamaram-lhe Vindobona. Marco Aurélio escolheu-a como residência, depois de a ter tomado aos Celtas. Depois de os romanos terem cedido o protagonismo da História àqueles povos a que chamaram bárbaros, Viena entra de novo na História em 1278 como a casa dos Habsburgos, que durou até 1918, com o fim do Império austro-húngaro. Foi o desfecho natural da Primeira Guerra Mundial, embora a morte do velho imperador Francisco José I, em 21 de novembro de 1916 tenha acelerado o desenrolar dos acontecimentos. 


Foi essa a marca que a cidade nos deixou em 1997, não sei se hoje seria a mesma coisa, um turista português freelancer deambular a pé nas calmas pela cidade, ou de táxi, o taxista a abrandar a marcha a pouco mais de cem metros do semáforo, ainda verde, à espera do sinal vermelho. Eu tinha-lhe dito que queria ir para Hofburg. Mas o taxista não me compreendia. Quando lhe apontei o nome no mapa, ele exclamou: “Ah! Oburgue!" À volta de Hofburg cheira a cavalo, e ouve-se um ruído misto de cascos e ferragens das rodas das carruagens a deslizar com velhos turistas de outros tempos "amaricanos".


De resto é uma cidade que se faz bem a pé enquanto andarmos no Innere Stadt (cidade interior), por dentro da Ringstrass, em ruas como Graben, Kärnter Strasse e Kohlmarkt, que se entrelaçam numa ampla zona reservada aos peões, pavimentada a pedras aparelhadas em bonitos desenhos. Nenhum ponto da Innere Stadt fica muito distante da reconfortante Catedral de Santo Estêvão, onde podemos repousar sentados nos bancos corridos, enquanto tiramos algumas fotografias de um interior deslumbrante, a uma luz filtrada que só as catedrais sabem fazer. E numa estreita ruela perto dali está a casa onde Mozart passou alguns dos seus anos mais felizes e produtivos. 


Na Graben entrámos num daqueles cafés típicos de Viena onde pedimos uma fatia de um bolo de chocolate e um kleiner brauner. Já cá fora não resistimos a uma hora de esplanada com um sumo e um tiramisu para mais tarde recordar. 


A visita ao Museu Kunsthistorisches ficou para o dia seguinte, um acervo impressionante de obras de arte desde as múmias egípcias até às pinturas de Brueghel, Rembrandt e Van Dyck, entre muitos outros. Enquanto nos deslumbrávamos com aquele quadro de Brueghel dos caçadores na neve, passa por nós um jovem levado pelo braço de um segurança, com a máquina fotográfica na mão, retirando-o da sala, porque estava a infringir uma regra sagrada naquele museu: não podia tirar fotografias aos quadros, e ele estava a tirar. Mas não tardou dali a pouco vermos, desta vez uma jovem, com uma coisa encostada ao peito e agarrada com as duas mãos, parecia um tablet, mas não devia ser porque naquela data ainda não havia tabletes. Mas o que é certo, com grande destreza e muito sorrateiramente ia passando pela frente dos quadros e filmando, com uma elegância que só visto. 


À tarde fomos visitar o Palácio de Belvedere, que em boa verdade são dois, um em frente do outro separados por um jardim em socalcos. O mais bonito é o que está mais alto, onde está o célebre quadro do beijo, de Klimt. 


Para o terceiro dia ficou o Palácio de Schönbrunn, para lá do Ringstrasse, pelo que naturalmente apanhamos um táxi. Um palácio imperial que vale pela beleza arquitetónica rococó e dos jardins, com um arco de triunfo no topo, no outro extremo do palácio, e um grande jardim no meio. Era o palácio de férias, ou a residência de verão dos Habsburgos, onde Sissi pendurava umas cordas de argolas, no vão de uma porta, para manter a sua forma física em linha. 


Não fomos ao Prater, o parque de diversões mais antigo do mundo, junto ao Danúbio, onde avulta aquela Roda-Gigante que Graan Green menciona no seu romance depois da Guerra – O Terceiro Homem. Inaugurado em 1895, e a Roda em 1897, ainda mantém alguns dos brinquedos originais. A Roda-Gigante de Viena é um dos emblemas da cidade. Trata-se de uma obra monumental, de 60 metros de altura, que foi inaugurada durante a celebração do 50º aniversário da coroação de Francisco José I. Ao longo da sua história, a Roda-Gigante sobreviveu a grandes catástrofes naturais e conflitos bélicos. Foi testemunha da I Guerra Mundial, quando deixou de funcionar durante dois anos.

Em dois filmes, precisamente "O Terceiro Homem", e um outro - "Antes do Amanhecer", lá aparece a Roda Gigante. Em O Terceiro Homem, a Roda Gigante é onde Holly Martins, o personagem principal, encontra o personagem de Orson Welles. Eles têm uma conversa memorável: «... Você sabe o que dizem – na Itália, por trinta anos sob os Borgia, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas eles produziram Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, e o Renascimento. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, quinhentos anos de democracia e paz e o que eles inventaram? O relógio cuco.”Orson Welles mais tarde confessou que numa viagem à Suíça, muito educadamente, foi informado que os verdadeiros relógios de cuco são alemães, inventados na Floresta Negra e produzidos desde o século XVIII. No segundo filme, Antes do Amanhecer, a Roda Gigante é a cena do primeiro beijo entre Jesse e Céline. A escolha não é coincidência, já que Linklater é um grande fã de Orson Welles. Eles também passam pela porta onde o grande diretor fez sua primeira aparição em O Terceiro Homem. 


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O cérebro é plástico, mas não é de plástico




Uma das características do cérebro, que durante muito tempo foi ignorada, é a sua plasticidade que continua pela vida fora, não sendo exclusivo da criança. A plasticidade do cérebro é a sua capacidade de se adaptar continuamente a novas circunstâncias. Tem a ver com a aprendizagem. E a verdade é que ao longo de uma vida temos sempre de lidar com coisas novas. E este encontro implica novos caminhos. Há uma enorme capacidade para a mudança no cérebro adulto, limitada apenas pelo declínio natural da velhice. O cérebro adapta-se continuamente ao ambiente que o rodeia. Mas para manter uma competência aprendida, tem de ser continuamente exercitado, porque senão essa competência desaparece ou enfraquece.

É o cérebro que gera a consciência. Mas a consciência é uma propriedade do ser vivo completo. Obviamente o cérebro não tem consciência. Para avaliarmos o critério, de uma pessoa estar ou não consciente, temos de observar essa pessoa, plena e total, e não o seu cérebro. O mesmo se aplica ao conhecimento. Quem conhece é: o animal, a pessoa, a João, o gato da João – e não o seu cérebro.

A ideia central é: viver e conhecer são atributos indissociáveis de qualquer ser vivo. E em alguns seres vivos, não em todos, a consciência é indispensável para conhecer. O ser humano para viver precisa de conhecer o meio ambiente e conhecer-se a si próprio. E para isso precisa de estar consciente. A consciência não é uma coisa que se tenha dentro da cabeça, é uma propriedade, ou uma função, que se tem. Portanto, a consciência é um processo dinâmico e funcional. É necessário que compreendamos estas questões, como, por exemplo, compreender que a cognição, ou o processo de conhecimento, são processos que fazem parte do viver. E quem vive são animais, plantas, pessoas. Pode ser excessivo, ou até abusivo, usar este conceito de conhecimento e aplicá-lo também às plantas, ao reino vegetal. Mas limitemo-nos então apenas ao reino animal, para não chocar, e digamos que a cognição é a atividade que garante aos seres vivos a sua geração e perpetuação. Por outras palavras, a cognição é o próprio processo da vida.

Assim, a atividade organizadora dos sistemas vivos, e falemos em sistemas vivos para incluir aqui também, por exemplo, os corais, ou seja, todos os níveis de vida, para utilizar a expressão 'mental' como metáfora de toda a atividade viva. Assim, pode dizer-se que as interações de um organismo vivo com o ambiente – seja ele vegetal, animal ou humano – são interações cognitivas. Vida e cognição são conceitos inextricáveis. A mente – ou melhor, a atividade mental – é algo que emerge naturalmente dos níveis da matéria para os níveis da vida. E a mente envolve todo o processo da vida – perceção, emoção, comportamento – e nem sequer depende necessariamente da existência de um cérebro, ou de um sistema nervoso.

A frase: quem conhece não é o cérebro, mas sim o animal, seja ele humano ou não humano – exprime uma proposição, porque tem valor de verdade. O que interessa nas frases é o que queremos dizer com elas, exprimindo ideias ou conceitos. Mas nem todas as frases exprimem proposições. Só as frases assertivas, ou declarativas, ou seja, que fazem afirmações, são proposições. E diz-se que as proposições têm valor de verdade, porque em relação à verdade: ou são verdadeiras; ou são falsas.

A metáfora do computador para explicar a mente consciente humana tem muitas limitações: a começar pelo facto de a mente consciente ser uma emanação dos sistemas vivos. E o computador é um mero artefacto não vivo, e não consciente, ainda que se possa dar de barato que seja uma extensão da mente humana. E a mente humana implica experiência subjetiva, que é uma experiência consciente, ainda que tenha surgido espontaneamente da natureza sem qualquer plano ou intenção. Ao passo que o computador não é nada disso, resulta de um propósito humano. E tudo o que o computador faz é sempre numa perspetiva humana, e não numa perspetiva de computador. Por outro lado, a experiência consciente é uma propriedade que surge espontaneamente sem que para isso tenha de existir um local específico no cérebro para a executar. É um processo dinâmico e holístico que pode envolver todo o cérebro conforme os vários níveis de consciência que podem existir: o nível da consciência do sonho a dormir, e o nível do êxtase místico, são níveis extremos opostos do estado de consciência comum que temos no nosso dia-a-dia, como quando comemos brincamos ou escrevemos. Os estados conscientes surgem e desaparecem continuamente mobilizando muitas funções cerebrais diferentes.

Não podemos conceber uma cor sem estar agarrada a uma superfície. E mutatis mutandis, não podemos pensar numa superfície sem cor. Podemos usar este exemplo como analogia aplicando-a à relação entre a mente humana e o indivíduo humano, a tradicional relação mente-corpo. Não podemos conceber a mente humana sem estar "agarrada", passe a expressão, a um corpo de uma pessoa. E, com as devidas proporções, não podemos pensar a pessoa sem uma mente.

Tudo isto pode oferecer ainda mais dificuldades consideráveis na sua compreensão quando a ideia de o cientista ser neutro, quando estuda a mente humana, ser uma falácia. Só um cientista marciano seria neutro. Mas parece que não há marcianos. Podemos simplesmente dizer que em qualquer investigação antropológica, fenomenologicamente orientada ou não, o homem é em simultâneo o sujeito e o objeto desse estudo. A mente humana, e até a biologia no seu todo, não é como a matemática: 2+2 são 4 e viva o velho, não há mais nada a dizer. Não há nenhum investigador da mente e da consciência humana que se possa distanciar suficientemente da sua humanidade para afirmar que estuda a autoconsciência, ou a sua própria subjetividade, com a máxima objetividade. O investigador é um sujeito de atos antes de ser investigador, ou seja, alguém que que já realiza a consciência na sua vertente subjetiva, ou de primeira pessoa, antes ainda de ter compreendido a sua natureza.

Bom, sabemos que o nosso pensamento, e, por conseguinte, a linguagem, contém centenas de metáforas primárias, a maioria das quais nós as usamos sem ter consciência disso; e, uma vez que se originam das experiências corpóreas mais básicas, as metáforas primárias tendem a ser as mesmas na maioria das línguas. Nos nossos processos abstratos de pensamento, nós combinamos as metáforas primárias de modo a formar outras metáforas mais complexas, e isso nos habilita a lançar mão de um rico imaginário e de estruturas conceptuais subtis quando refletimos sobre as nossas experiências de vida. O ato de conceber a vida como uma viagem, por exemplo, nos permite fazer uso de todo o conhecimento que temos das viagens para refletir sobre como levar uma vida significativa.

As organizações vivas, como sociedades, estados ou nações, não podem ser controladas através de intervenções diretas, como se fossem máquinas. Podem ser influenciadas através de impulsos, mas não com instruções de software. Assim, é muito raro as mudanças significativas das organizações sociais serem feitas exclusivamente por vontades. As mudanças nas sociedades E isto porque exige mudança de perceções. O que é tudo menos fácil. Essas mudanças a que me estou a referir. geralmente são espontâneas. Que quando acontecem, trazem consigo grandes recompensas. Quando trabalhamos com os processos intrínsecos dos sistemas vivos, não temos de despender um excesso de energia para pôr a organização em movimento. Não há necessidade de empurrá-la, puxá-la ou forçá-la a mudar. O ponto central não é nem a força nem a energia: é o significado. Perturbações significativas podem chamar a atenção da organização como um todo, e desencadear mudanças estruturais.

A partir do homo habilis, tudo indica que foi de um modo gradual e não abrupto, que os nossos ancestrais hominídeos transpuseram o abismo que separa os movimentos das mãos dos movimentos da boca para falar. A ciência ainda não compreendeu tudo o que esteve envolvido no surgimento da linguagem falada, particularmente no que respeita à sua componente sintática, mas sabe-se que evoluiu a partir da gesticulação e da habilidade das mãos que já vinha a ser desenvolvida por via dos movimentos para a fabricação de utensílios. Foi preciso também que se tivessem dado simultaneamente outros desenvolvimentos no cérebro para combinar símbolos de maneira a veicular significados. O que é interessante é o facto inequívoco de a linguagem e a consciência terem evoluído acompanhando a par e passo a evolução da capacidade tecnológica. 

O cérebro é apenas uma parte na produção da linguagem, uma vez que é o corpo todo que é envolvido.  É com a movimentação do nosso corpo que nós criamos as nossas estruturas conceptuais e modos de raciocínio. Muitos dos nossos raciocínios abstratos nascem da nossa experiência corpórea. O enigma foi resolvido pela neurologista Doreen Kimura, que descobriu que a fala e os movimentos precisos das mãos da linguagem gestual, para surdos e autistas, são controlados nas mesmas regiões do cérebro. O facto mais extraordinário, e a princípio totalmente inesperado, foi que as crianças autistas começaram a falar depois de terem estado a aprender sinais da linguagem gestual durante algumas semanas. É como se estas crianças tivessem percorrido o caminho evolutivo de dois milhões de anos dos nossos ancestrais hominídeos apenas em poucas semanas. Seja como for, ainda persiste a ideia de ter sido há 200.000 anos que o homem passou a falar como fala hoje, na qualidade de homo sapiens.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A propósito de ofendidos e perdoados, recordemos a remissão do pecado de Hamilton

Lewis Hamilton - automobilista britânico, seis vezes campeão mundial de Fórmula 1, nos anos de 2008, 2014, 2015, 2017, 2018 e 2019 foi notícia em agosto de 2018, quando os leitores da revista masculina GQ se depararam com a fotografia de Lewis Hamilton na capa, com vestes bem abertas mostrando os peitorais, com a frase: «"Eu quero pedir desculpa" Lewis Hamilton rejeita contornar a questão». E dentro da revista mais fotografias e uma entrevista. Hamilton tenta redimir-se de uma forma fora do comum, por ter envergonhado o sobrinho no Instagram, quando no Natal de 2017 o ridicularizou por se ter vestido de princesa.

Este caso, quanto ao tema da Liberdade de Expressão, ainda é paradigmático porque ilustra bem o que está acontecer nos dias de hoje com a censura nas redes sociais. No dia de hoje em que é notícia o Facebook ter apagado pela primeira vez um post de Trump, e o Twitter ter barrado a conta da campanha para a sua reeleição.

Lewis Hamilton dá a entrevista num quarto de hotel no Mónaco, para o evento de lançamento da nova coleção de roupa com Tommy Hilfiger. Aqui, o tetracampeão mundial de Fórmula 1, fala sobre a sua contrição e o dever dos modelos masculinos na era das redes sociais. Hamilton, afinal de contas, é o desportista vivo mais bem sucedido da Grã-Bretanha; um desportista que aos oito anos começou a dar nas vistas na modalidade de karting. Não era caso para ser trucidado nas redes sociais, por causa de ter cometido a gafe de tornar pública, através do Instagram, uma cena privada com o seu sobrinho em casa.
Antes de começarmos - um refrescante sobre o já referido debacle nas redes sociais: no dia de Natal de 2017, Hamilton publicou um vídeo no Instagram de si mesmo a ter uma conversa em tempo real com o sobrinho de quatro anos. No vídeo, Hamilton disse aos seus seguidores - 6,4 milhões deles - que estava "tão triste neste momento" porque o seu sobrinho, que sorria timidamente atrás da mão para a câmara, estava a usar um vestido de princesa cor-de-rosa fofinho que lhe tinha sido dado naquela manhã: “Porque estás a usar um vestido de princesa?" - perguntou Hamilton. "É isto que tens no Natal?" - continuou, antes de exclamar: "Os rapazes não usam vestidos de princesa!" - Nessa altura, o sobrinho saiu da sala. A reação nas redes sociais não se fez esperar. Muitos, no Twitter, com raiva, pediram sangue, enquanto figuras proeminentes pediam ação. O ativista LGBTQ+, Imraan Sathar, afirmou que Hamilton deveria ser despojado do seu MBE, enquanto o fundador da caridade anti-bullying Ditch The Label, Liam Hackett, disse: "Desapontante ver alguém com uma plataforma tão grande usá-la para envergonhar publicamente e tentar minar uma criança pequena". Hamilton retirou o vídeo e foi rápido a pedir desculpa no Twitter: "Não quis fazer mal e não quis ofender ninguém de todo." Apenas um mês depois, Hamilton fez uma aparição na Disneyland Paris com o sobrinho, que usou um vestido de princesa para a viagem enquanto estava de mãos dadas com o tio.
Tudo isto se tornou terrivelmente sério para HamiltonPerante estes casos, muitas pessoas preferem capitular, e alinhar na corrente da manada. Uma instituição antibullying condenou-o por usar a sua rede social para humilhar uma criança. Hamilton era um transfóbico com estereótipos de género datados. Hamilton desdobrou-se a pedir pedir desculpas publicamente, dizendo que amava muito o sobrinho, e que esperava ser perdoado pela sua atitude infeliz, mas mesmo assim, não foi suficiente. Alguns meses mais tarde, aproveitou aquela oportunidade de se redimir através da revista GQ. A GQ é estreitamente associada à metrosexualidade. A promoção da metrosexualidade foi deixada para os homens do estilo das revistas, como a GQ, Esquire, Arena e FHM. Os novos meios de comunicação social, que atingiu o seu auge nos anos oitenta, continua a crescer... "Eles com as suas revistas cheias de imagens de homens jovens narcicistas e desportivos, com moda, roupas e acessórios. E eles persuadiram outros homens jovens para estudá-los com uma mistura de inveja e de desejo".

Isto são coisas que muitas pessoas ainda mal começaram a compreender. A separação entre aquilo que se pode dizer em tom de brincadeira numa mesa de café, e que não se pode dizer à frente de uma câmara de filmar, colapsou. Hoje nem numa conversa livre à mesa do café entre amigos, se pode dizer coisas do género: "eu até aprecio as ideias dele, embora me chateie quando começa com aquelas paneleirices". Se for a passar um fiscal do "politicamente correto" e ouvir, estamos logo lixados. Somos tomados de ponta, e um dia, se tivermos o azar de ter mais visibilidade, a vingança é servida a frio. E se for um jornalista, não tarda ser denunciado e o Jornal onde trabalha não mais tem descanso enquanto não despedir esse jornalista. E é certo e sabido que tão cedo não arranja trabalho.

Em tempos de viragem na maré, como estes que atravessamos, nunca sabemos se podemos estar descansados com o que andamos a fazer. O que hoje é politicamente correto, à semelhança do que tem acontecido com 'politicamente corretos' do passado, nunca se sabe se, daqui a pouco, vamos ser ultrapassados por outra viragem na maré dos dogmas, e sermos acusados de qualquer coisa. Isto significa que cada processo é a causa de um imprevisível processo novo. Uma única palavra ou ação pode mudar tudo. E, além de nunca sabermos se agimos corretamente ou não, um dia se quisermos, jamais teremos a possibilidade de desfazer o engano. O que está feito, está feito. E a pior coisa que nos pode acontecer é ficarmos confinados para sempre por causa de uma única ação que já não podemos corrigir. Porque agora, já não haverá perdão.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Os ciclistas



Este ano, a 82.ª edição da Volta a Portugal em Bicicleta poderá realizar-se entre 27 de setembro e 5 de outubro, sob a organização da Federação Portuguesa de Ciclismo. Por causa da pandemia a Volta realiza-se mais tarde, a realizar-se . . .

Entrámos no mês de agosto e veio-me à memória o tempo da minha juventude, em que eu adorava ver os ciclistas a rolar pelas estradas de Portugal. A Volta a Portugal e as minhas réplicas de ciclista dando o gosto ao pedal em bicicletas emprestadas. Estou a falar dos primeiros anos da década de 1960. Só consegui ter uma bicicleta de corrida, mesmo minha, com os sapatos e os calções à maneira, nos primeiros anos da década de 1980.

Naquela altura os ciclistas passavam pelo centro da vila - ou no sentido Braga--Monção, ou de Monção em direção a Viana -, e passavam pela rua onde o meu pai tinha a loja de ferragens, do outro lado ficava o Café Chave d’Ouro. O meu pai dava-nos uma folga, um intervalo de meia hora para ver os ciclistas a rolar com os raios metálicos das rodas a brilhar no paralelo polido, e nós empoleirados em cima uns dos outros a bater palmas à passagem do primeiro fugitivo.

Ora reparem, estou a falar, por exemplo da 28ª edição da Volta a Portugal, 1965, de 30 de julho a 15 de agosto, que nesse ano foi ganha por Peixoto Alves, com a camisola do Benfica, em renhido duelo com o sportinguista João Roque - 2º classificado; e Mário Silva do FC Porto - o 3º. Enquanto que, por equipas, venceu a formação belga da Flandria seguida do Sporting e do FC Porto. Peixoto Alves era de Soutelo, a 5 Km de Braga, e o pai tinha uma oficina de bicicletas em Palmeira, a 2 Km de Braga. Lembro-me também da 25ª edição da Volta a Portugal em Bicicleta, em 1962, eu tinha nove anos de idade, que decorreu entre os dias 4 e 19 de agosto. Quem ganhou foi José Pacheco, pelo FC Porto. E da 27ª, que decorreu entre os dias 14 e 30 de agosto de 1964, vencida por Joaquim Leão, também do FC Porto.

Lê-se na narrativa de um repórter:
O franzino e irrequieto benfiquista Peixoto Alves, que já tinha sido segundo em 1962 e terceiro em 1963, após uma época muito discreta em 1964, com uma tenacidade de valor inverso ao da sua pequena estatura, atacou com grande determinação no primeiro contra-relógio, em terras espanholas entre Vigo e La Toja, com 63 Kms, e conquistou a camisola amarela, que estava na posse de Carlos Carvalho, para não mais a perder até Lisboa. Nessa longa caminhada, o Benfica cerrou fileiras em redor do seu líder, protegendo-o dos ataques dos espanhóis da equipa Inuri e dos belgas da Flândria. Os prémios foram entregues na noite do dia em que a prova terminou, durante uma festa no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, ao Parque Eduardo VII, cabendo a Peixoto 67.750$00 (incluindo um extra de 25 contos, oferta do Benfica). No dia seguinte Peixoto partiu para a caça às rolas e posteriormente emigrou para França.
 

Joaquim Leão do FC Porto havia vencido a Volta no ano anterior, estabelecendo um novo recorde na média, que, pela primeira vez, entrou na casa dos 39 (39,404 Km/h), suplantando assim o máximo de 37,408 Km/h, obtido no ano anterior por João Roque. Ao fim dos 2.398 Km, repartidos por 20 etapas, apenas 60 corredores, dos 103 à partida, resistiram às dificuldades do percurso e da competição. Joaquim Leão, que vinha perseguindo este triunfo há já algum tempo, fez por merecer a confiança do seu técnico, Emídio Pinto. No entanto, houve outros adversários a dificultar a tarefa do corredor do FC Porto, tais como o sportinguista João Roque, que fez quanto estava ao seu alcance para repetir o êxito do ano anterior, tendo terminado na terceira posição a 3m 22, e ainda os belgas da Flândria, Franz Brandt, Vandamme e Van den Berghe. Na ponta final da prova foi o tavirense Jorge Corvo quem mostrou maior espírito combativo, mantendo uma séria ameaça ao camisola amarela Joaquim Leão, mas veio a terminar, pela terceira vez, em segundo lugar, de novo com o ligeiro atraso de 44 segundos.

Em 1962 quem ganhou foi José Pacheco com a camisola do FC Porto; e em 1961 foi Mário Silva, também pelo FC Porto. Refira-se ainda que a tarefa de José Pacheco foi deveras dificultada, quer pela nutrida lista de inscritos que formaram um pelotão de 129 unidades - o maior até aí reunido numa Volta - quer pelo importante lote de favoritos que se apresentaram à partida, tais como os benfiquistas Peixoto Alves (2º), Francisco Valada (5º) e Manuel Simões (7º), os sportinguistas Pedro Carvalho (6º) e João Roque (9º) e o tavirense Jorge Corvo (3º).

A partir dos anos 60 a Volta incluiu etapas a terminarem no cimo da montanha para garantir a incerteza do resultado e manter o interesse mediático. Entre 1966 e 1973, a Volta deixa a referência da fronteira e o desenho passa a ter grandes diagonais que passam pelo interior do país, mantendo cidades como Lisboa e Porto nos seus trajetos. A etapa das Penhas da Saúde entra para o percurso em 1968, a da Torre em 1971, e por último, a da Srª da Graça em 1978.

Dada a dureza, popularidade da prova e a superação dos atletas, desde cedo o público escolheu os seus heróis. Até agora ainda não falei de um herói, por causa do seu fim trágico – Joaquim Agostinho – que merecerá uma crónica só reservada a ele. E também não vou falar de outros ciclistas míticos que ouvia o meu falar com grande entusiasmo todos os anos, nos dias em que a Volta preenchia todas as conversas, sentados na pedra das escadas até altas horas da noite iluminados pelo brilho das constelações que o doutor Ribeiro nos havia metido na cabeça a mascoto. E então o meu pai falava no José Maria Nicolau (vencedor em 1931 e 1934) e Alfredo Trindade (vencedor em 1932 e 1933), que protagonizaram uma das primeiras rivalidades da Volta, fazendo vibrar o país. José Maria Nicolau foi uma das primeiras grandes figuras do Benfica, enquanto Alfredo Trindade representou o Sporting em 1933 (no ano anterior representou o Rio de Janeiro, emblemático clube do Bairro Alto). António Barbosa, mais conhecido por Alves Barbosa (herdado do pai, outro ciclista de alto gabarito), foi o mais jovem vencedor da Volta, ao estrear-se em 1950, vencendo também as edições de 1956 e 1958. Ficaram para a história os inúmeros despiques com adversários de classe, como Ribeiro da Silva, Dia dos Santos, Luciano de Sá e Moreira de Sá.

No entanto o maior entre todos os ídolos dos portugueses nesta prova foi sem dúvida Joaquim Agostinho. A forma categórica como venceu por três vezes a Volta – 1970, 1971 e 1972, aos quais se juntariam os sucessos internacionais, granjearam-lhe assim uma aura ainda mais mágica à sua prestação nesta prova.


Por fim, ainda Marco Chagas, que se tornou um excelente comentador nas reportagens das provas do ciclismo transmitidas pela RTP,  deteve até 2012 o recorde de vitórias na Volta, com 4 triunfos averbados, sendo também um símbolo eterno da competição. Esteve perto de conquistar a 5ª vitória, mas foi desclassificado no controlo anti doping, em 1979. E por afastamento da edição de 1984, que foi ganha por Venceslau Fernandes. Mas nesta altura o meu entusiasmo pelo ciclismo já não tinha comparação com o entusiasmo dos idos anos 60.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Arábia: Lawrence e camelos



Dubai, anos 2000, ouve-se falar na clonagem de camelas e transferência de embriões. Naturalmente ficámos curiosos. Como é sabido, a corrida de camelos é um grande desporto nos países árabes. E só as fêmeas é que competem por serem mais pequenas e mais rápidas.

Sucede que os camelos ainda são piores do que os cavalos na reprodução assistida. Só têm uma cria de cada vez, não “superovulam”, não se conseguem desenvolver através de fertilização in vitro, só ovulam durante metade do ano, e apenas um dos seus ovários é funcional. E acasalam de joelhos. Esta do acasalarem de joelhos é para lembrar que os camelos da Revolução Árabe, do tempo de Lawrence da Arábia, eram todos castrados precisamente por causa de acasalarem de joelhos. Ora, está-se mesmo a ver: os camelos a correrem no campo de batalha, cheirarem de repente uma fêmea por perto, e ajoelharem-se. Coitado do soldado...

Foi então que um cientista se especializou em transferência de embriões em camelas de corrida. Passou a viajar entre a América e o Dubai com frequência, e a ir do aeroporto do Dubai para o laboratório conduzido por chofer num Rolls Royce. Gente com muito dinheiro que quer que os seus camelos sejam os melhores de todos. Logo que souberam do sucesso que esse cientista estava a ter com as éguas transgénicas de polo argentino, não tardaram a contratá-lo também. E este cientista além de se divertir à grande, já não sabia o que fazer ao dinheiro.

Injaz é um camelo de alta competição, nasceu no Centro de Reprodução de Camelos (CRC), a partir de óvulos extraídos do ovário de uma fêmea adulta, que cresceram in vitro antes de serem congelados em azoto líquido. Injaz nasceu após um período de gestação de 378 dias, pesando 30 quilos. O ADN das suas células é um autêntico clone da camela original. A comprovação genética foi feita no Laboratório de Biologia Molecular e Genética do Dubai, onde os especialistas analisaram o ADN das duas camelas. São camelas muito especiais para as corridas, que houve tempo serem montadas por jóqueis crianças. Mas agora são jóqueis robôs controlados remotamente, porque nos Emirados Árabes Unidos e no Catar, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU conseguiu que nestes países fosse punida a utilização de crianças em trabalho infantil.

O Al Marmoum Heritage Camel Festival é a principal competição de camelos do mundo que acontece todos os anos no Dubai. Um camelo, que faz parte da família real do Dubai, nas mãos do príncipe Highness Sheikh Hamdan bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum, tem ganhado vários prémios. Aos quatro anos de idade levou para casa um troféu que valia nada menos que 500 mil dirhams, um artefacto comprido que tem as cores dos Emirados. Ainda foi premiado com uma bolada de 2 milhões de dirhams e um carro Range Rover. É chamado o Cristiano Ronaldo dos camelos nos Emirados Árabes. Numa final, apesar de ter saído bem atrás dos outros, no fim acelerou e acabou por ultrapassar por largo os seus concorrentes. Chegou com um tempo de 11:50:06 em 11 km, atingindo uma velocidade impressionante de 60 km/h. A maioria não chega a 45 km/h. Como tudo que é Ronaldo, tem o seu preço. Esta estrela árabe está avaliada em mais de 10 milhões de dirhams, só que não está para transferências. Não sabemos o que ele fez ao Range Rover. Mas dinheiro, definitivamente, não é problema para ele, que mora na fazenda do Príncipe e é tratado como um rei, com uma alimentação à base de leite e mel. Mas também não tem a vida fácil. Assim como Cristiano Ronaldo, ele sabe que não basta ter talento, é preciso muito trabalho. Faz dois treinos diários de 8 km e chega bem cansado ao fim do dia depois dos 16 km percorridos. Os camelos iniciam a carreira de atletas com um ano de idade. No início, fazem atividades mais leves por 1km e o esforço vai crescendo até chegarem às competições em que são divididos em categorias por idades. Eles treinam em pistas que vão de 2 km a 11 km. As principais corridas têm uma distância de 8km. Agora, o camelo do Príncipe já fez seis anos de idade, e como corredor de alta competição, já entrou na reforma. Agora dedica-se à procriação. Nada mal para o melhor atleta do país. A corrida de camelos é muito exigente nos países árabes, muito semelhante, aliás, com os cavalos de corrida de outras paragens do mundo. Como se pode ver na fotografia acima, os camelos do Dubai já não correm com o jóquei criança em cima. Levam nas costas um aparelho que pesa apenas 2kg, orientado pelos seus treinadores via rádio.

Demos agora um salto mortal para trás, para o tempo da Primeira Guerra Mundial e a Revolução Árabe, para ler as 827 páginas dos Sete Pilares da Sabedoria de T.E. Laurence.


O exército concentrado em Bir el Waheida era de 5100 cameleiros e 5300 homens a pé, com quatro canhões Krupp de montanha e dez metralhadoras; e para o transporte 380 camelos de carga. Tudo muito abaixo das médias dos Turcos. Depois do almoço a tenda foi desmontada. Laurence da Arábia, com Faiçal e os seus homens, dirigiram-se para os seus camelos que se encontravam agachados num círculo, selados e carregados, cada um deles seguro à rédea curta por um escravo de pé em cima da pata dobrada do animal. O timbaleiro fez soar os timbales sete ou oito vezes, e fez-se silêncio. Faiçal agarrou o arção da sela com as duas mãos, pousou o joelho na parte lateral e disse alto: "Que Deus seja o vosso guia". O escravo soltou o camelo, que se pôs de pé de um salto. Quando já estava de pé, Faiçal passou a outra perna sobre o animal, introduziu a túnica e a capa por debaixo do corpo com um gesto do braço e instalou-se na sela. Toda a multidão se ergueu conjuntamente, alguns dos animais berraram, mas a maior parte das camelas conservaram-se silenciosas. A manobra foi executada na perfeição. Ao longo de 200 a 300 metros todos se perfilaram em duas alas com os camelos a marchar ao lado uns dos outros, em linha, tão próximos quanto os acidentes do terreno permitiam.

Há um filme de 1962 – Laurence da Arábia – cujo papel de Lawrence é desempenhado por Peter O’Toole, em que o argumento, para além da ficção, se baseia nos Sete Pilares da Sabedoria, um livro de difícil classificação, mas que tem muito de autobiográfico de T.E. Lawrence (1888–1935). Neste filme, o segundo papel mais importante foi atribuído ao actor Alec Guiness, representando o papel do Príncipe Faiçal (1883-1933), o principal dirigente da coligação de tribos árabes que, construída sob a inspiração de Lawrence, se bateu e contribuiu para derrubar o domínio otomano. Depois da Guerra e da divisão do Império Otomano, o Príncipe veio a tornar-se a partir de 1921 o Rei Faiçal I do Iraque, depois de ter sido escolhido por um plebiscito com 96% dos votos. O filme explora a excentricidade e a personalidade enigmática de Lawrence. Em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, o jovem arqueólogo e tenente do exército britânico estacionado no Cairo pede transferência para a Península Arábica, onde vem a ser oficial de ligação entre os rebeldes árabes e o exército britânico, aliados contra os turcos, que desejavam anexar ao seu Império Otomano a Península Arábica. Lawrence, admirador confesso do deserto e do estilo de vida beduíno, oferece-se para ajudar os árabes a se libertarem dos turcos. O filme mostra cinco episódios principais da vida de Lawrence durante a sua estada na Arábia: a conquista de Aqaba, as ações de guerrilha contra o Império Otomano, o seu rapto e tortura pelos turcos em Deraa, o massacre de Tafas e o fim do sonho de união das tribos árabes em Damasco. 



Naquele dia o caminho percorrido foi fácil, visto que era constituído por encostas de areia firmes, ondas de dunas pouco inclinadas, desprotegidas, com exceção da vegetação rasteira nas dobras, ou estéreis palmeiras solitárias nas depressões húmidas. Os porta-estandartes ergueram no ar as suas grandes bandeiras vermelhas, e toda a guarda à direita, à esquerda e ao centro, rompeu a cantar o vibrante coro do regimento. 

Quando tudo terminou, Lawrence e Newcombe foram dormir na tenda que Faiçal lhes dispensara como um luxo especial. And el Kerim sentiu-se satisfeito por a sua tribo ter demonstrado aquele novo espírito de serviço, mas, ao mesmo tempo, sentia pena; para ele as alegrias da vida consistiam num camelo rápido, nas melhores armas e num ataque curto e rápido contra os rebanhos dos vizinhos. E a gradual realização da ambição de Faiçal estava a tornar essas alegrias cada vez menos fáceis para as pessoas responsáveis.

domingo, 2 de agosto de 2020

A crónica de André Rito do acidente do Alfa Pendular

Partilho aqui a crónica no Expresso do acidente do Alfa Pendular há dois dias - um tributo da fisga da memória a André Rito, um jornalista de reportagens freelancer, - vivenciada por ele quando viajava com destino a Braga, a sua terra natal, e onde o pai o esperava depois destes meses de pandemia sem se verem. 


Há pessoas admiráveis, capazes de manter a calma nas situações mais caóticas. Ontem, seguia na carruagem quatro do Alfa Pendular quando me apercebi desta mulher, talvez com menos de 30 anos, sentada dois lugares à minha frente. Minutos antes tínhamos passado num túnel e eu, que estava meio a dormitar, abri os olhos e reparei que seguíamos a 20km/hora. Outro comboio cruzou-se no sentido inverso, e o nosso recomeçou a ganhar velocidade. 

Confesso que tive um pressentimento – na minha ignorância ferroviária perguntei-me como é que um comboio de alta velocidade tem de parar para outro passar. Recostei-me no banco sem tempo para reagir: sentiu-se uma travagem seguida de um enorme estrondo que abanou a carruagem. Todos os passageiros devem ter percebido que estávamos a ter um acidente, tal a poeira e os detritos que voavam do lado exterior das janelas. “Protejam a cabeça, tudo para o chão”, gritou então a mulher, sobrepondo-se ao pânico geral e ao choro das crianças assustadas. 

Foi exatamente o que eu e o rapaz que seguia ao meu lado fizemos. Durante aqueles segundos, o ruído da composição desgovernada, as bagagens a cair e os gritos das pessoas fizeram-me temer o pior. E por mais lugar comum que isto possa parecer, aqueles segundos até o comboio se imobilizar foram eternos. “Está tudo bem, está tudo, já parou, salvámo-nos”, disse-me o rapaz que seguia ao meu lado. Na extremidade norte da nossa carruagem – que era a terceira, embora tivesse o número quatro – não havia comboio. Tinha desaparecido e o sol entrava. 

O som do alarme, um bip bip constante, funcionou na minha cabeça como uma ordem de saída. Corri para essa ponta norte da carruagem, na esperança de encontrar uma saída, e encontrei um senhor perto dos 70 que tentava abrir a porta, sem sucesso. Disse-lhe para me acompanhar, que havia gente a tentar a outra saída. A mulher que nos mandara proteger a aconselhava “calma, calma”. Nesses breves instantes, atónitas, incrédulas, sem saber o que fazer, as pessoas tentavam pegar nos seus pertences. 

Gritei que tínhamos de abandonar o comboio, arranquei o martelo para partir o vidro e procurei a janela por onde poderíamos sair, até que alguém descobriu uma escapatória na extremidade sul. Não sei quanto tempo passou, sei que foi preciso saltar dois metros para conseguir chegar à berma, numa zona de mato. Saí disparado para o lado norte, onde estavam a tentar tirar uma senhora que ficara encarcerada. Na confusão, vi peças de metal espalhadas, senti o cheiro a queimado e a gasóleo, e vi a parte de baixo do comboio, o ferro retorcido, líquidos a verterem para a linha. 

Alguém gritou para seguirmos na direcção oposta. Corri até conseguir encontrar uma vedação que dava acesso à estrada. Uma senhora e o filho, moradores das primeiras casas, já desciam a rua com garrafas de água. “O senhor quer uma?”, perguntou-me o adolescente. Bebi de um gole, percebi que tinha sobrevivido, e voltei para trás. Uma mulher com a cara ensaguentada tentava equilibrar-se carregada com uma geleira nos dois braços, ao longo da berma. Disse-me que tinha apenas escoriações e pediu-me para ter cuidado: a geleira estava cheia de água, com peixes vivos. 

Fomos até à primeira ambulância – o socorro foi praticamente imediato – onde reconheci outro passageiro que tinha visto dentro do comboio. Perguntei-lhe se estava bem e ele retirou o pano com que cobria a boca: o lábio descaiu devido a um profundo corte que lhe rasgara metade da cara. Ainda consegui consertar a pega da geleira e fechar a tampa. Era tudo o que aquela mulher queria, salvar os seus peixes. Voltei para trás para ajudar quem estava na enorme fila, gente carregada de malas, um idoso em cadeira de rodas a ser transportado por vários passageiros, pessoas feridas, roupas com sangue. 

Ninguém se prepara para um acidente de comboio, de avião ou para um naufrágio de um barco. A verdade é que a assistência – bombeiros, ambulâncias, populares da região – chegou rapidamente. Não foi preciso sequer meia hora para que a Câmara Municipal de Soure chegasse ao local, com paletes de garrafas de água, e, pouco depois, os autocarros que transportaram os feridos ligeiros para o pavilhão multiusos, transformado em hospital de campanha. Aí encontrei o rapaz que seguia ao meu lado – que estava bem – a família de estrangeiros com uma criança, uma adolescente que estava na minha fila. 

Não voltei a encontrar a mulher que nos dera o melhor conselho que alguém poderia dar naqueles momentos de pânico. Gostava de lhe ter agradecido a coragem e calma que conseguiu transmitir à nossa carruagem, que estava praticamente cheia. Sei que ficou bem porque há pessoas que sobrevivem nem que seja para salvar os outros. Hoje, 24 horas depois, ainda oiço aquelas palavras. Nem sei se algum dia as esquecerei. 

Médicos, bombeiros, protecção civil foram abordando cada um dos passageiros. Senti o olhar perdido de quase todos, sem saber muito bem o que fazer, às mãos de médicos, psicólogos e técnicos inexcedíveis. Não fiquei ferido, tive apenas algumas mazelas nas costas devido ao impacto, e fiquei por ali à espera que o meu pai chegasse de Braga, o meu destino final. Era a primeira vez que ia a casa desde a pandemia. Algumas horas depois, à porta do pavilhão, de máscara na cara, lá encontrei o meu pai que não via desde janeiro. Tirou a máscara e correu para mim: “vou ter de te dar um abraço”. Nunca o vejo chorar. Ontem vi. 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O consumido(r) na Gramatologia de Jacques Derrida


Estava no restaurante Atena a beber um mazagrã (*) com o Carlos, enquanto esperávamos que chegassem os outros para almoçarmos, quando a certa altura ouvi da mesa ao lado - um fulano de meia idade, que conversava com outro um pouco mais novo, dizer: "Só a felicidade geral importa. A morte de um cientista a poucos dias de terminar uma investigação que traria a solução para o tratamento desta nova doença - a Covid-19 - seria sem dúvida uma morte pior do que a morte do maior corrupto da banca."

Resumindo: Enquanto o cientista prometeria trazer uma maior felicidade geral, o banqueiro, com um fartar vilanagem para luxúria pessoal, trouxe grande infelicidade para muitos. E eu pensei, ora aqui está um filósofo com uma perspetiva comparativista a avaliar o mérito pessoal da morte. A natureza do mérito levanta questões complexas. Será que a morte é mesmo um mal em termos absolutos? Ou será apenas em termos relativos? 

Há quem defenda que a morte nunca é um mal para quem morreu. É o repouso de um estado de potência. É um regresso ao estado antes de ter nascido. No entanto, quase toda a gente se comporta como sendo um mal. Na nossa inocência, ninguém quer morrer, e faz tudo o que esteja ao seu alcance para não morrer. Já para não falar que para muitos, a negação do mal da morte tem implicações morais. Porque se a morte não fosse um mal, estaria aberta a impunidade para matar. Nesse caso a sorte dos homicidas ficaria ao sabor: ou da impunidade; ou então também não haveria nenhum mal condená-los à forca. Mas estou a ser irónico.

Por causa do chamado "distanciamento social", já há alguns metodólogos a avaliar o aperto de mão: o efeito de não apertar a mão numa entrevista para a seleção de emprego; ou o não aperto de mão num encontro entre duas pessoas para fechar um negócio. E a forma como a outra pessoa nos aperta a mão antes de mais nada, pode fornecer-nos muita informação sobre essa pessoa e muitas vezes sobre o desfecho de um contrato ou um negócio. Sabe-se que nas entrevistas para selecionar pessoas, por exemplo, para uma determinada função profissional, as primeiras impressões contam muito. As razões para haver tantas frases feitas como "nunca terás uma segunda oportunidade de causar uma primeira impressão" é que isto é geralmente reconhecido como verdadeiro.


Dando uma vista de olhos na Gramatologia  de Jacques Derrida (**) – O advento da máquina e da técnica, reproduzindo processos que inicialmente começaram por ser uma sequência de gestos repetitivos do homem na transformação da matéria - chego à conclusão que é um dos exemplos, para Jacques Derrida,  da sua gramatização para a extrapolar à motricidade corporal em geral. Há que lembrar que no âmbito da gramatização de Jacques Derrida, a 'palavra' faz parte  dessa gramatização da motricidade corporal, na medida da utilização do sistema dos órgãos da fala – maxilares, língua, faringe e sopro pulmonar – para falarmos. A 'palavra' ocupa em Aristóteles um primeiro lugar naquilo a que ele chama o primeiro motor no seu sistema das quatro causas: material; formal; eficiente; final. Seria a quintessência. 

Derrida joga com conceitos de 'diferença' e 'desconstrução' para recorrer às metáforas da Física, o que lhe causou alguns dissabores quando os físicos perderam a paciência e resolveram ridicularizá-lo. Mas polémicas à parte entre académicos barricados na guerra das duas culturas: físicas e humanísticasQuintessência (quinta essência) é uma alusão a Aristóteles, que considerava que o Universo era composto de quatro elementos principais - terra, água, ar e fogo -, mais um quinto elemento, uma substância etérea que permeava tudo e impedia os corpos celestes de caírem sobre a Terra. Em 1998, três astrofísicos da Universidade de Pensilvânia - Robert Caldwell, Rahul Dave e Paul Steinhardt - reintroduziram o termo para designar um campo dinâmico quântico que é gravitacionalmente repulsivo.
A dinamicidade é a propriedade mais atraente da quintessência. O maior desafio de qualquer teoria de energia escura é explicar o facto de ela existir na medida exata.

O tempo passou, Aristóteles ficou para trás, até que no século XIX a gramatização mnemotécnica prosseguiu o desenvolvimento hipomnésico do Ocidente no modo industrial, a máquina a reproduzir a motricidade do corpo humano que o produtor fazia com as mãos, abria o mundo com as mãos desde o tempo do homo habilis. E de produtor e artesão passou a operário. E assim se proletarizou. E no século XX a caminho do XXI, a digitalização transformou-o completamente num consumidor da época hiperindustrial do capitalismo. O que teve por consequência agora também na proletarização do próprio consumidor. Um consumidor que, na sua própria subsistência, prefere comprar barato, ainda que esse barato seja à custa da escravização de Uigures forçados a trabalhar em campos de concentração.

Os filósofos franceses, os que se reclamam descendentes de Edmund Husserl, como é o caso de Jaques Derrida, malgré a linguagem deles ser uma 'linguagem de pássaros', que usa termos como o termo que agora vou usar – epoché – há muito que preconizam que o devir do sistema técnico necessita de um duplo redobramento epocal. Uma dupla interrupção do curso vulgar das coisas. Trata-se de uma mutação técnica em que é suspenso o estado de coisas que tem vigorado até aqui. E o aqui, e agora, pode designar-se por tempo pós-pós-moderno, que ainda não tem nome verdadeiro. Tal coisa, passaria por uma primeira epoché (uma primeira suspensão da ordem estabelecida); e seria preciso que a sociedade efetuasse depois uma segunda suspensão, para que se constituísse uma época propriamente dita, e esta sim, teria um nome verdadeiro.

No jargão da fenomenologia husserliana, epoché significa suspensão do juízo, que Husserl dizia: ‘pôr entre parênteses’. Seria a atitude de não aceitar nem negar uma determinada proposição ou juízo, no sentido de se opor ao dogmatismo que a aceita sem mais. Chamo a atenção que, ao contrário da epoché dos sofistas gregos, que chegavam a negar a existência, a epoché fenomenológica implica a "contemplação desinteressada" de quaisquer pressupostos naturais ou psicológicos da existência. Em outras palavras, a suspensão de juízo fenomenológica não põe em dúvida a existência. Os antigos céticos gregos emitiam juízos sobre a existência, ao ponto de duvidarem da nossa existência, ceticismo esse que serviu de mote a Descartes, do qual resultou a a tal sentença: "Penso, logo existo".

Assim, pelo que pensam estes filósofos franceses, das duas uma: ou se processa na sociedade ocidental este redobramento (duplo dobramento), e assim se afirmará uma nova vontade de futuro, que estabelecerá, portanto, uma nova ordem que se traduz num novo modo de vida; ou a não se verificar, será a decadência das democracias industriais desacreditadas. Segundo essas teses, o modelo industrial assente na divisão produção/consumo levou à ‘cretinização’ dos consumidores deliberadamente organizada pelo capitalismo, cujo pináculo da perfeição se concretizou na propaganda dos canais televisivos. É segundo esta doutrina que os que se reconhecem como os mais esclarecidos dos millennials, também conhecidos por geração Y, fazem questão de afirmar que não veem televisão.

Segundo tais doutrinas, a democracia hoje é uma farsa, em que os cidadãos subsistem, mas não existem. Mas até essa subsistência não será duradoura, porque a psyché do demos (o espírito do povo), que sobrepôs o pathos ao eros no movimento demencial das massas, conduziu inexoravelmente à liquidação do narcisismo primordial. E por sua vez, essa liquidação conduz à liquidação da lei, isto é, daquilo que constitui a condição de um demos: a diferença entre o facto e o direito. O modelo industrial caduco liquida assim o político e faz da democracia uma farsa da qual só podem surgir descrença e descrédito.

É viajando - não apenas pelo nosso pé, mas também pelo pé de outros que escrevem ou fazem reportagens filmadas, para depois as lermos ou as vermos através da Internet, ou na TV - que ficamos a saber que afinal não somos só nós os desenrascados, ou a dar a volta por cima. Por exemplo, basta passear pelas ruas de Quito, no Equador, para constatar a imaginação e a esperteza dos equadorenhos para ganhar algumas moedas e encher a barriga no fim do dia. Eu pergunto: como é possível viver com tão pouco? Mas, se calhar, eles perguntariam como podemos viver nós com tanto. Para quê? Nas ruas de Quito um massagista espera por clientes ao ar livre. Tem uma cadeira de plástico para os sentar ali, no meio do passeio a atrapalhar os transeuntes, e tratar-lhes dos entorses e torcicolos. Em janeiro, um dos meses mais quentes e húmidos do ano no Equador, rapazes e raparigas vendem limonadas, com o garrafão numa mão e os copos de plástico na outra. Questões de higiene à parte, miúdos indígenas, provavelmente descendentes dos Incas, sentam-se na berma da estrada de um lado e do outro com uma corda de sisal a atravessar a estrada, a fazer de portagem. Os carros param, eles pedem dinheiro, e sempre acabam por receber alguma coisa. Quito é património da UNESCO desde 1978.

Muitas pessoas estão preparadas para tudo. Esse é o paradoxo dos preparativos. Preparamo-nos, quer para viver o dia-a-dia, quer para não viver. De um dos lados temos aqueles para quem o mundo é essencialmente seguro e ordenado. Do outro temos aqueles para quem o mundo é o caos, regulado pelo Acaso, onde o perigo espreita na próxima esquina da vida. Lucrécio, no De Rerum Natura, descreve que o Universo é formado por milhões de átomos em movimento, e que o comportamento desses átomos é suscetível de saltos bruscos. É assim que o mundo funciona, previsível só até certo ponto, mas profundamente imprevisível a partir daí. Um pouquinho de negligência de Deus, para com as criaturas, não foi mau de todo, porque senão, como havíamos de ter livre arbítrio?

(*) Mazagrã, nome masculino, é uma bebida fria de café adoçado que teve origem na Argélia. Na versão portuguesa: gelo picado, açúcar, limão, um café expresso e água das pedras. Jacques Derrida nasceu na Argélia. Fica ao critério do leitor decidir se foi coincidência ou não.

(**)  Gramatologia  de Jacques DerridaObra de referência no debate crítico sobre o conjunto do pensamento ocidental – o 'logocentrismo' – a Gramatologia (ou ciência de possibilidade de ciência) visa o rompimento dessa condição 'logocêntrica', mantida e alimentada dentro de uma conceção estrita de 'escritura'. À procura de uma conceção mais ampla, que abarque um sistema total, aberto a todas as cargas de sentidos possíveis, Derrida coloca em questão mais uma vez a discutível oposição forma/conteúdo, examinando-a tal como ressurge dentro da linguística a partir de Saussure.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Um diálogo sobre a morte


Álvaro Siza Vieira está ao balcão do Bar da Eternidade. Eduardo Lourenço chega e Álvaro Siza fica encantado com a visita.


Olá Eduardo! Vou-lhe fazer uma pergunta impertinente: o que ficará de nós, homens e mulheres, se é que alguma coisa fica, quando partimos ... em férias?




Quem dera que a resposta à sua pergunta fosse essa, tão lírica e tão futurante como partir em férias. A nossa própria morte é-nos tão hostil que nós nem em sonhos morremos. Agora, a morte verdadeira é do outro. A do outro que existiu para nós. Que foi tudo para nós, que foi o absoluto para nós. E essa é que é a morte real. As outras mortes são ilusórias, mesmo a nossa, sobretudo a nossa.


Nós não sabemos nada sobre o nascimento, sobre a vida, também não podemos saber nada sobre a morte. Para mim a única coisa em que penso às vezes é que há uma continuidade de vida, e quando um de nós morre há filhos, netos, música para os músicos, arte, escrita, literatura ... Não desaparecemos completamente. O mundo continua. A História, no fundo, tem esse papel de sugerir ou de fazer real uma continuidade. Agora a morte não.


O problema é que nós, inconscientemente ou conscientemente, escrevemos como se fossemos eternos. Sem essa ilusão de eternidade como coisa nossa, nós não escreveríamos nada de realmente grandioso. O que os homens querem é que aquilo se transfigure numa espécie de estátua, que se pode tocar, viver e permanecer através dos séculos. Tenho a sorte de ter à minha frente um verdadeiro criador. Ainda por cima a obra dele é das obras que estão aqui por muitos séculos.


Eu faço os meus projetos com a ideia de que ... Essa ideia de que é para ficar. Mas pensando francamente, não é bem assim. Também a construção, muitas vezes, é não durável. É vulnerável ...


Hiroxima existia e foi destruída em nove segundos. É como se fossem feridas que a humanidade faz a si mesmo, não é? E essas sem reparação. Porque foram destruídas e não podem ser reconstruídas de nenhuma maneira. Aquilo que de mais belo há na humanidade é que nós somos submersos às mesmas forças que regem realmente o mundo. Porque é que nós escaparíamos, quando tudo o que foi criado está condenado a desaparecer?


E se não fosse assim talvez se tornasse insuportável.

Ouve-se uma voz feminina vinda do Além, chamando: Eduardo ... Eduardo ...



domingo, 26 de julho de 2020

A razão porque não seria boa ideia querermos ser Matusalém


Quando o vírus Corona o atingiu, na verdade fez-lhe um grande favor. O nosso Matusalém, já levava na bagagem 99 anos. É claro, este nosso Matusalém não chegou aos calcanhares do velho Matusalém, isto é, não chegou a ser um centenário por uma unha negra. Pois, Matusalém, terá vivido novecentos e sessenta e nove anos, passe o exagero.
Os exegetas da Bíblia dão várias explicações do significado de Matusalém. Essas explicações não importam para aqui, basta saber que de acordo com o Génesis, Matusalém bate todos os recordes da longevidade com 969 anos – filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé. Segundo a Enciclopédia Católica, o nome "Matusalém" tornou-se sinónimo de longevidade. Dizer que alguém é "tão velho como Matusalém" é uma maneira bem-humorada de dizer que alguém é muito velho, e não idoso, porque idoso é um eufemismo pretensioso. Uma árvore de 4.851 anos de idade da espécie Pinus longaeva, que cresce no alto das Montanhas Brancas do Condado de Inyo, no leste da Califórnia, é chamada Matusalém. O personagem Flint do episódio "Requiem for Methuselah", da série Star Trek: Série original, é um homem quase imortal que nasceu na antiga Mesopotâmia. Flint fica sozinho depois de viver um tempo num planeta deserto e cria um ginoide imortal para fazer-lhe companhia. Ele finalmente começa a morrer lentamente porque deixou a atmosfera da Terra. Sendo assim, dedica o resto dos seus dias à melhoria da dita espécie sem nome que habita a Terra. 

Bom, a morte do nosso amigo epigrafado, o que importa, é que foi uma morte boa. Que teria ganhado ele se tivesse mais uma vez fintado um vírus, e continuasse, digamos, por mais dez anos, e logo se veria? Não é preciso deitarmo-nos a adivinhar: continuaria a envelhecer, a adoecer, a definhar. 
Reparem, não é só a decrepitude física. É também a erosão da memória, cada vez mais esparsa e fragmentada. Com o avanço da demência, aliás, toda a personalidade se vai dissipando, todo o sentimento de si. Ponderadas todas as vantagens e desvantagens, dos oitenta aos noventa e nove teria tido uma vida nem boa nem má. É uma suposição realista! Por conseguinte, daí em diante, se continuasse vivo, iria ter uma vida sempre miserável, às tantas horrivelmente miserável. Se calhar, o mais certo, é que terá passado as passas do inferno dos 90 aos 99. Portanto, não foi um mal, ter morrido.

Mas, morrermos hoje seria muito inconveniente, logo no dia dos avós. Então aqui vai uma historinha para netos, as Viagens de Guliver:
Swift era altamente cético em relação à confiabilidade das narrativas dos Livros de Viagens, famosos na Idade Média. Daí as improváveis ​​descrições geográficas nas Viagens de Gulliver, que parodia esses Livros de Viagens. Em As Viagens de Gulliver, um romance satírico de Swift, Lilliput é uma ilha fictícia, em que a personagem principal se deparou com uma população de pessoas minúsculas, e os chamados liliputianos o tomaram por um gigante. Mas Brobdingnag é uma outra ilha ocupada por gigantes. O adjetivo "Brobdingnagian" passou a descrever qualquer coisa de tamanho colossal. Swift pretende retirar daqui uma lição de ordem moral, para os ingleses, com a descrição destes povos.  O rei de Brobdingnag é baseado em Sir William Steele, estadista e escritor, para quem Swift trabalhou no início de sua carreira. O exército de Brobdingnag é reivindicado ser grande, com 207.000 soldados, incluindo 32.000 de cavalaria, embora a sociedade não tenha inimigos conhecidos. A nobreza local comanda as forças; armas de fogo e pólvora são desconhecidas para eles. O rei repreende Gulliver quando ele tenta interessar o estadista no uso da pólvora. As leis de Brobdingnag são simples e fáceis de seguir. Há pouco litígio civil. Assassinos são decapitados. 

O povo de Brobdingnag é um sítio de gigantes, com uma altura de 60 pés e cujo passo é de dez jardas. O rei de Brobdingnag argumenta que a corrida se deteriorou, no passado eles eram muito maiores.  Swift descreve a localização de Brobdingnag, e a sua geografia, no texto da Parte II, e fornece um mapa mostrando onde está. No entanto, essas contas são um tanto contraditórias. O mapa impresso no início da Parte II indica que Brobdingnag está localizado na costa noroeste da América do Norte, provavelmente no que hoje é a Colúmbia Britânica. Mostra todos os locais na costa do Pacífico da América do Norte, e descreve Brobdingnag como uma península estendendo-se para o oeste, no Pacífico, ao norte do Estreito. Após o inverno, no Cabo da Boa Esperança, o navio alcançou uma latitude de cinco graus ao sul, ao norte de Madagáscar em março de 1703, e as Molucas, "cerca de três graus ao norte da linha" em abril. A partir daí, o navio é impulsionado por uma tempestade "cerca de quinhentas léguas a leste" (isso colocaria o navio ainda na Micronésia), após o que a tripulação decide "manter o mesmo rumo em vez de virar mais ao norte”. Eles avistaram terras, que Gulliver mais tarde descobre ser Brobdingnag, em 16 de junho de 1703. Brobdingnag é uma península do tamanho de um continente de 6.000 milhas (9.700 km) de comprimento e 3.000 a 5.000 milhas (4.800 a 8.000 km) de largura, o que, com base na localização fornecida por Gulliver, sugere que ela cobre a maior parte doo Pacífico Norte. Por outro lado, o mapa mostra Brobdingnag do tamanho e extensão do atual estado de Washington, e a sua descrição da viagem o coloca num périplo de seis semanas nas Molucas.

A língua de Brobdingnag é descrita como sendo de um caráter distintamente diferente da de Lilliput. Todos os outros animais e plantas, e até características naturais como rios e até granizo, são proporcionais. Os ratos são do tamanho de mastins, com caudas de "dois metros de comprimento”. Enquanto os mastins são iguais em massa a quatro elefantes. Gulliver descreve moscas "do tamanho de uma cotovia de Dunstable, e vespas do tamanho de perdizes, com picadas "de uma polegada e meia de comprimento e afiadas como agulhas". Isso também significa que o país é muito mais perigoso para pessoas de tamanho humano normal, como evidenciado por Gulliver.

Os struldbrug são os habitantes da nação de Luggnagg, em que os irmãos durões, aparentemente  normais, não morrem, mas continuam a envelhecer. Swift, no entanto, descreve o mal da imortalidade sem a eterna juventude. O termo struldbrug tem sido usado na ficção científica, mais prolificamente por Larry Niven e Robert Silverberg, para descrever centenários como Matusalém. Os struldbrug são facilmente reconhecidos por um ponto vermelho acima da sobrancelha esquerda. Eles são normais até atingirem a idade de oitenta anos. A partir dessa idade são desalmados, isto é, ao atingirem os oitenta anos, para todos os efeitos civis, é como se morressem. Legalmente mortos, e passam a sofrer de doenças, incluindo a perda da visão e a perda de cabelo. Aos oitenta anos, são vistos como mortos na lei. Os seus herdeiros imediatamente lhe sucedem na posse das propriedades; apenas uma pequena ninharia é reservada para o seu sustento; e os pobres são mantidos à custa da comunidade. Após esse período, são mantidos incapazes de qualquer trabalho de confiança ou responsabilidade; não podem comprar terras ou fazer arrendamentos; nem podem ser testemunhas em tribunal; Como consequência necessária da velhice, esses imortais são avarentos. Logo, se tornariam proprietários de toda a nação e absorveriam todo o poder, se lhes fosse mantida a liberdade  e os antigos direitos civis. Tudo ficaria arruinado, e todos acabariam na miséria. 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Liberdade de pensamento e liberdade de ação no Ocidente


Parto de uma noção de Ocidente mais no seu contexto político e cultural, não tanto como geografia. Digamos que geograficamente, para simplificar, este ocidente é como se fosse um hemisfério côncavo tendo como centro a que calote pertence – o Atlântico, símbolo de uma aliança política que se selou depois da Segunda Guerra Mundial, e enlaçou democracias liberais dos dois lados do Atlântico contra os dois totalitarismos – fascismo e comunismo. Entretanto deu-se o fim do sistema soviético, a guerra fria acabou e o globalismo acelerou em força no sentido do Oriente. E ao mesmo tempo, a partilha daquele conjunto de valores das democracias liberais e do estado de direito que parecia estarem consolidados nos finais do século XX, começou a abrir brechas com as crises financeiras que, entretanto, surgiram neste século XXI.

Em suma, as sociedades democráticas e liberais ocidentais permitiram à generalidade dos indivíduos realizar o melhor possível as suas aspirações, garantindo-lhes a igualdade de oportunidades para alcançá-las, que não encontrou paralelo em qualquer outra forma de organização das sociedades humanas. Deu-lhes a oportunidade de serem cidadãos com a capacidade única de corrigirem erros e injustiças através do debate livre entre ideias diferentes e a livre escolha de quem os governa em cada momento. Com todos os seus enormes defeitos, continuam a ser as sociedades mais livres, mas também mais justas, à escala global.

Na génese das divergências que hoje existem nos extremos do espectro político está a noção de identidade (cor da pele, classe, género, etc.). E o problema das ideologias é que em nome dos indivíduos, o indivíduo não conta. Ou se conta, é para aceitar que a sua identidade determina a sua individualidade. É, portanto, a negação do liberalismo que nasceu das Luzes e que faz de cada indivíduo, desde que nasce, um ser simultaneamente autónomo e igual a todos os outros. Este princípio definidor das democracias liberais não foi uma revelação divina (embora tenha algumas das suas raízes no cristianismo). Foi obra do pensamento dos homens e, por consequência, a sua aplicação ao longo de mais de dois séculos foi evolutiva e esteve longe da perfeição. Houve, não deve custar admitir, por parte deste liberalismo a aceitação pacífica de impérios europeus racistas, colonialistas, com a desculpa do bom governo a quem não se sabia governar. E do outro lado do Atlântico, os pais-fundadores dos EUA excluíram os escravos do direito de cada um à felicidade a partir da liberdade.

Ora, não é pelo facto de se reconhecer toda essa fileira de abusos no passado nos iniba de continuar a defender a democracia liberal dos ataques de que é alvo actualmente, e que não vêm apenas dos movimentos nacionalistas e populistas da direita e da extrema-direita. Há um radicalismo ideológico filiado no velho alinhamento à esquerda do espetro ideológico político conotado com o marxismo lato senso, cuja visão do mundo é, na sua essência, igualmente autoritária e discriminatória sob o manto diáfano das boas intenções. Por exemplo, para estas correntes, um branco é, por natureza, racista, mesmo que se declare anti-racista. Tal como, no tempo do apogeu marxista soixante-huitard, um intelectual seria sempre um “burguês”, por melhor que quisesse servir a classe operária.

É neste contexto que vale a pena ler Isabel Moreira, constitucionalista:
«A nossa Constituição, enquanto expressão de uma sociedade aberta, não impõe um modelo de tolerância virtuosa, porque, se assim fosse, a lei fundamental negaria o núcleo fundamental da liberdade de expressão e teria de consentir a censura, evidentemente proibida pelo artigo 37º, nº 2. Isto para dizer que o artigo 46º, nº 4, proíbe as organizações, mas não proíbe a expressão individual do pensamento racista ou fascista, por mais condenável que ele possa ser. Temos de distinguir os planos do pensamento, da palavra e da ação. Por vezes, quando se explica o alcance necessariamente limitado do artigo 46º da Constituição, é-se confrontado com alguma perplexidade, como se estivéssemos a proteger os inimigos da democracia. Acontece que faz parte do Estado de direito democrático e, portanto, de uma Constituição democrática, assumir o risco de acolher os intolerantes. As restrições à liberdade de associação e as restrições à liberdade de organização previstas no artigo 46º da Constituição devem ser lidas tendo em conta que as primeiras, introduzidas em 1976, constam de um preceito referente à liberdade de associação, enquanto que as segundas foram introduzidas em 1997 no mesmo preceito, ou seja, sem que o artigo relativo à liberdade de expressão (artigo 37º) fosse beliscado. O artigo 46º da Constituição deve, evidentemente, ser levado a sério, mas não pode ser pretexto político para pretender ilegalizar a livre expressão do pensamento e mesmo da organização política dos nossos adversários políticos quando não estão em causa os reais significados das restrições constitucionais aqui referidas.»