terça-feira, 24 de maio de 2022

Alguns episódios da II Guerra Mundial no ano de 1944


Durante o mês de fevereiro de 1944, Hitler precisou enfrentar um problema de natureza mais pessoal. Havia cerca de um ano que as suas refeições eram preparadas pela Sra. Marlene von Exner, uma nutricionista de Viena recomendada pelo ditador romeno marechal Antonescu. A Sra. Von Exner tornara-se noiva de um membro da SS pertencente ao quartel-general de Hitler e descobriu-se que tivera uma avó judia. “Compreenderá que preciso despedi-la. Não posso fazer uma lei para mim e outra para os restantes”, disse-lhe Hitler. A Sra. Von Exner deixou o seu posto no quartel-general de Hitler e seus parentes foram obrigados a sair do Partido Nazi, mas não tiveram problemas posteriores. Em 23 de fevereiro, pelo contrário, 26 judeus escondidos em Varsóvia foram descobertos, presos e deportados para Auschwitz, seguidos, dois dias mais tarde, por 37 judeus vindos de Viena. As deportações não estavam prestes a terminar: em 3 de março, 732 judeus holandeses foram deportados, seguidos, no dia 7 do mesmo mês, por 1.501 judeus capturados na França. Quase dois mil, entre eles, foram gaseados.

Entretanto, em Dachau, 31 prisioneiros de guerra soviéticos, todos oficiais, foram tirados de seus alojamentos e executados em 22 de fevereiro. Os dois homens mais jovens tinham apenas 21 anos: Anatoly Dunov e Konstantin Atamasov. Seus nomes, e os nomes das outras 29 vítimas, são conhecidos porque um sacerdote polaco, que trabalhava nos escritórios do campo, apoderou-se, mais tarde, de centenas de listas de condenados à morte para garantir que tais factos fossem preservados. Na noite de 25 de fevereiro, catorze submarinos alemães atacaram, no mar de Barents, um comboio naval aliado composto por 43 navios mercantes que se dirigiam para a Rússia; um submarino torpedeou o contratorpedeiro britânico Mahratta; entre os mais de duzentos tripulantes do barco, somente 17 puderam ser salvos das águas geladas por outro contratorpedeiro, o Impulsive. Durante a batalha, foram afundados também dois submarinos alemães. O comboio seguiu, incólume, seu caminho.

Chegados a 9 de outubro de 1944,  ao reunirem-se em Moscovo Churchill e Stálin conversaram não apenas sobre as fases finais da guerra contra a Alemanha, mas sobre as posições de seus países na Europa libertada após vencida a guerra. Por sugestão de Churchill, discutiram a futura influência da União Soviética nos países dos quais o Exército Vermelho expulsava os alemães. Churchill disse a Stálin que não tinha “grandes preocupações quanto à Roménia”, sendo o país, “em grande medida, um problema russo”. Quanto à Grécia, onde, segundo Churchill, “a Grã-Bretanha precisa ser a potência mediterrânica dominante”, esperava-se que Stálin deixasse aos britânicos a “primeira palavra”, como deixavam aos russos na Roménia.

Churchill procurava obter influência britânica determinante apenas sobre a Grécia. Quanto à Jugoslávia, propunha uma partilha “por igual” entre Ocidente e Oriente. Também disse igualmente a Stálin que considerava a possibilidade de deslocar a população alemã estabelecida na Silésia e na Prússia Oriental para o centro da Alemanha; a Prússia Oriental poderia, então, ser dividida entre Rússia e Polónia, e a Silésia, oferecida à Polónia para compensar a perda das regiões orientais que possuíra entre as duas guerras e que a Rússia ocupara e pretendia manter anexadas após o conflito.

Churchill ainda disse a Stálin, numa segunda reunião, no dia seguinte, que os Aliados queriam que cada país tivesse “a forma de governo que seu povo desejasse”. Não deveria existir imposições ideológicas em relação aos pequenos estados: “Deixemos que cuidem de seus próprios destinos nos anos que estão por vir.” Depois explicou a Stálin que havia receios, em todos os países da Europa Ocidental, em relação a um eventual “proselitismo comunista agressivo” após a derrocada do nazismo. Enquanto Churchill e Stálin conversavam em Moscovo, as forças americanas cercavam a cidade alemã de Aachen, nas portas ocidentais da Alemanha. 

Na frente oriental, o Exército Vermelho chegara à costa báltica da Lituânia e atacava Memel, cidade que Hitler anexara à Alemanha em março de 1939. Em 10 de outubro, chegaram a Auschwitz oitocentas crianças ciganas até então internadas em Buchenwald – entre elas, mais de cem rapazes, entre nove e catorze anos, que haviam sido enviados de Auschwitz para Buchenwald, onde foram considerados inaptos para o trabalho. Todos foram gaseados numa entre as câmaras que não foram destruídas ou afetadas pela revolta dos judeus três dias antes.

Na Itália, tropas neozelandesas atravessavam o Rubicão em 11 de outubro, ecoando as palavras de Júlio César, que atravessou o rio em sentido contrário: “Os dados estão lançados.” No mesmo dia forças soviéticas atravessavam o rio Tisza em Szeged, a cidade mais ao sul da Hungria. Ao leste, entretanto, os russos cercavam Debrecen e Cluj, onde uma defesa húngaro e alemã conjunta opôs-se a uma ofensiva soviética/romena. No dia seguinte, o Exército Vermelho entrou na cidade de Oradea na Transilvânia. A Hungria era, agora, objeto da ofensiva soviética ao longo de quase toda a sua fronteira sul e sudeste. Desesperados, os alemães tentavam pedir reforços às suas forças vindas do norte da Grécia e do sul da Jugoslávia, que se deparavam, no trajeto, com ações de resistência gregas e jugoslavas. Em 12 de outubro, um relatório dos serviços de informações alemães, enviado a partir de Salonica pelo tenente Waldheim, referia-se à crescente atividade guerrilheira em torno da estrada entre Stip e Kocani. Dois dias mais tarde, as tropas alemãs abandonavam Salonica; enquanto se apressavam para o norte, incendiaram três aldeias próximas da estrada ameaçada, matando 114 civis. Ao todo, de acordo com o relatório final de Waldheim, de 7 de novembro, 739 resistentes e civis haviam sido mortos na Macedónia durante a retirada alemã.

No Pacífico, uma força operacional americana destruía mais de cem aviões japoneses diante da ilha japonesa de Okinawa. Os preparativos para a retomada das Filipinas prosseguiam, em 12 de outubro, com um ataque aéreo maciço contra a Formosa (Taiwan), ao longo de três dias consecutivos, destruindo quinhentos aviões japoneses e quarenta navios de guerra, contra 89 aviões americanos. Muitos japoneses abatidos eram jovens pilotos, o que constituiu uma séria perda para o Japão.

Berlim vivia uma nova execução na mesma data: a morte de Carl Langbehn, advogado que, havia mais de um ano, tentara associar Himmler à conspiração contra Hitler e que, em setembro de 1943, na Suíça, fizera contatos acerca das possibilidades de uma paz negociada com os aliados, tendo sido preso pouco depois. Na manhã de 13 de outubro, um míssil V2 caiu na Antuérpia, matando 22 civis. Nessa tarde, uma bomba V1 atingiu o matadouro municipal, matando mais catorze civis – em sua maior parte, açougueiros que recolhiam a carne da semana. Passados seis dias, 44 civis eram mortos por uma segunda bomba voadora. A agonia de Antuérpia começara.

Em 13 de outubro, Stálin comunicou a Churchill, em Moscovo, que a União Soviética entraria em guerra contra o Japão assim que a Alemanha estivesse derrotada. No mesmo dia, tropas britânicas entraram em Atenas, após os alemães evacuarem a cidade durante a noite. Ainda em 13 de outubro, depois de uma violenta batalha de três dias, as tropas soviéticas entraram em Riga. Os combates na região dos estados bálticos haviam chegado ao fim. “Riga e Atenas são como ameixas maduras”, escreveu Clementine Churchill, ao marido que se encontrava em Moscovo, acrescentando: “Estou ansiosa para que chegue a vez de Roterdão e de Colónia.” Cidade a cidade, o domínio alemão sobre a Europa chegava ao fim. Porém, o caminho para a vitória final seria lento. Em 13 de outubro, os americanos desencadeavam um assalto intensivo contra Aachen, sitiada havia três dias.

No dia seguinte, dois generais alemães procuravam o marechal Rommel em sua casa em Herrlingen, onde convalescia dos ferimentos recebidos na Normandia. Em nome de Hitler, deram-lhe duas opções: suicídio ou um julgamento público. Rommel escolheu o suicídio, tomando o cianeto que os generais trouxeram. Duas semanas mais tarde, receberia um funeral de Estado. A opinião pública alemã era impedida, assim, de conhecer toda a extensão da oposição a Hitler e a vingança do Führer.

Em 25 de outubro de 1944, um piloto kamikaze lançou seu avião contra a pista do porta-aviões americano St. Lo, explodindo as bombas e os torpedos que se encontravam a bordo. Após trinta minutos, o St. Lo afundava. Ao fim da guerra, mais de cinco mil pilotos kamikaze haviam morrido, afundando 34 navios americanos, mas não havia heroísmo, tenacidade, perícia ou decisão suicida que pudesse superar o desastre naval na baía de Leyte quando quatro porta-aviões e três couraçados japoneses foram afundados, praticamente eliminando a marinha de guerra imperial. O mais experiente piloto japonês, Hiroyoshi Nishizawa, que abatera 87 aviões americanos, morria não em combate, mas a bordo de um avião de transporte japonês interceptado e derrubado por caças americanos.

Na Europa Ocidental, após a destruição quase completa das ruas e edifícios de Aachen, houve quem pensasse que os alemães se disporiam a reconhecer-se vencidos, mas a autoridade de Hitler, que continuava a exercer-se desde o distante quartel-general de Rastenburg, ainda era absoluta. Em 22 de outubro, o Exército Vermelho era detido em Insterburg, a apenas 72 Km da Toca do Lobo, por um esforço decidido dos alemães, enquanto, no dia seguinte, na frente ocidental, as forças alemãs resistiam a um prolongado assalto americano em St. Dié. Em 24 de outubro, as tropas alemãs reconquistaram Gumbinnen, na Prússia Oriental. No mesmo dia, trezentos judeus italianos foram deportados de Bolzano a Auschwitz; 137 foram gaseados assim que chegaram. No dia seguinte, enquanto as forças francesas se aproximavam de Strasbourg, Hitler ordenou a destruição da coleção de esqueletos do Instituto Anatómico da cidade – obtida em resultado do extermínio dos judeus de Auschwitz. No momento em que essas provas de muitos crimes eram destruídas, novas experiências, envolvendo o míssil V2, prosseguiam. Dado o avanço aliado na Holanda, a base de lançamento do projétil foi deslocada para Overveen, no mar do Norte; em 27 de outubro, foi testado um novo míssil, que subiu a novecentos metros antes de cair sobre os autores do lançamento, matando doze pessoas. A base de lançamento foi abandonada e, depois, transferida para Haia. No dia seguinte, uma bomba voadora matava, em Antuérpia, 71 civis.

Nesse 28 de outubro, ocorreu a última deportação do gueto de Theresienstadt para Auschwitz, reunindo um grupo de dois mil judeus; entre esses, 1.689 foram gaseados após a seleção à chegada. Mantinha-se, entretanto, a destruição sistemática das provas de extermínio de massa, em que os registros relativos aos prisioneiros e os certificados de morte de centenas de milhares de seres humanos, judeus e não judeus, eram transportados para os dois crematórios subsistentes e queimados. A ideia era apagar todos os documentos, vestígios dos cadáveres e até as próprias instalações assassinas. Assim, quando chegou a Auschwitz, em 3 de novembro, um comboio que trazia quinhentos judeus do campo de trabalho de Sered, na Eslováquia, os serviços administrativos telefonaram para Mauthausen: “Temos um carregamento. Podem cuidar dele aí, em suas câmaras de gás?” A resposta foi: “Seria um desperdício de carvão trazê-los até aqui. O problema é de vocês.” Porém, Auschwitz já não possuía o aparato necessário aos assassinatos em massa habituais, e, em 6 de novembro, os homens de Sered eram numerados com tatuagem; no dia seguinte, o mesmo aconteceu às mulheres e às crianças. Os homens foram mandados para as fábricas em Gleiwitz; as mulheres e as crianças, para os alojamentos do campo. Uma menina de doze anos, que sobreviveu, lembraria que haviam sido deportadas com ela cerca de 150 crianças.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

A propósito do 1º caso de crime de guerra julgado na Ucrânia

 

Um soldado russo de 21 anos, que confessou o assassinato de um civil de 62 anos, foi condenado a prisão perpétua por crimes de guerra. “Nunca tive tanta vergonha do meu país", disse Boris Bondarev, diplomata russo na ONU que se posicionou contra a invasão. Os combatentes ucranianos retirados de Azovstal vão ser julgados num tribunal da autoproclamada República Popular de Donetsk.
Desde “Os Julgamentos de Nuremberga 1945/46” – que foram numa série de tribunais militares, organizados pelos Aliados, depois da Segunda Guerra Mundial. E do caso do julgamento de Eichmann em Jerusalém, que após um julgamento de grande publicidade em Israel, foi considerado culpado por crimes de guerra e enforcado em 1962 – que as tentativas iniciais de o interpretar como um ultraje cometido por criminosos de nascença, sádicos, loucos, depravados sociais ou indivíduos de outra forma moralmente incompletos não encontraram qualquer confirmação nos factos envolvidos.

O atual curso do pensamento histórico foi sumariado de modo perspicaz por Kren e Rappoport:
Por critérios clínicos convencionais, não mais que dez por cento dos SS poderiam ser considerados “anormais”. Esta observação bate com o testemunho geral de sobreviventes indicando que na maioria dos campos havia normalmente um ou no máximo uns poucos SS conhecidos por fortes explosões de crueldade sádica. Os outros nem sempre eram pessoas decentes, mas seu comportamento era pelo menos considerado compreensível pelos prisioneiros…
A maioria dos que executaram o genocídio eram pessoas normais, que passariam facilmente em qualquer peneira psiquiátrica conhecida, por mais densa e moralmente perturbadora. Isso também é teoricamente intrigante, em especial quando visto em conjunto com a “normalidade” daquelas estruturas da organização que coordenaram as ações desses indivíduos normais no empreendimento do genocídio. Já sabemos que as instituições responsáveis pelo Holocausto, mesmo se consideradas criminosas, não eram, em nenhum sentido sociologicamente legítimo, patológicas ou anormais. 

Como diz a famosa frase de Hannah Arendt, o problema mais difícil que os iniciadores da Endlösung encontraram (e resolveram, por assim dizer, com sucesso estarrecedor) foi “como superar… a piedade animal que afeta todos os homens normais na presença do sofrimento físico”. Sabemos que pessoas alistadas nas organizações mais diretamente envolvidas no negócio do assassinato em massa não eram nem anormalmente sádicas nem anormalmente fanáticas. Podemos supor que participavam da aversão humana quase instintiva à aflição do sofrimento físico e da inibição ainda mais universal contra tirar a vida. 

Quando, por exemplo, eram recrutados membros para os Einsatzgruppen [grupos de ação] e outras unidades similarmente próximas do cenário efetivo dos morticínios, havia um cuidado especial em eliminar — barrar ou expulsar — todos os indivíduos entusiasmados, de muita carga emocional ou ideologicamente superzelosos. Sabemos que iniciativas individuais eram desencorajadas e se fazia muito esforço para manter toda a tarefa num quadro estritamente impessoal, prático, eficiente. Ganhos e motivações pessoais em geral eram censurados e punidos. Mortes induzidas por desejo ou prazer, ao contrário das perpetradas de modo organizado e obedecendo a ordens, podiam levar (pelo menos em princípio) a julgamento e condenação, como o assassinato ou homicídio comum. Em mais de uma ocasião, Himmler manifestou profunda e, com toda probabilidade, autêntica preocupação com a preservação da sanidade mental e dos padrões morais dos seus muitos subordinados envolvidos diariamente em atividades desumanas; também manifestou o orgulho de que, a seu ver, tanto a sanidade como a moralidade saíram incólumes do teste. 

Para citar Arendt de novo, “por sua ‘objetividade’ (Sachlichkeit), as SS se diferenciavam de tipos ‘emotivos’ como Streicher, esse ‘tolo idealista’, e também de certos ‘figurões do partido germânico teutónico que se portavam como se usassem chifres e pele de animais’”. Os líderes SS contavam (com razão, ao que parece) com a rotina da organização, não com o zelo individual; com a disciplina, não com a dedicação ideológica. A lealdade à sangrenta tarefa devia ser — e era de facto — um derivado da lealdade à organização.

O perpetrador alemão do genocídio em campos como Auschwitz não era um tipo especial de alemão. 
Qualquer integrante da Polícia da Ordem podia ser guarda num gueto ou num comboio de transporte de judeus em direção ao morticínio. Todo advogado no Departamento Central de Segurança do Reich devia estar pronto para liderar as unidades móveis onde os detidos eram gaseados. Era tudo considerado uma opção natural para o serviço nos campos de extermínio. Em outras palavras, todas as operações necessárias eram executadas com o pessoal que estivesse à mão.

E, então, como foram esses alemães comuns transformados nos perpetradores do extermínio em massa? Na opinião de Herbert C. Kelman, inibições morais contra atrocidades violentas tendem a ser corroídas se satisfeitas três condições, isoladas ou em conjunto: 1) a violência é autorizada (por práticas governadas por normas e a exata especificação de papéis); 2) as vítimas da violência são desumanizadas (por definições e doutrinações ideológicas); 3) foram expressas repetidas vezes naqueles princípios de ação racional que receberam aplicação universal pelas instituições mais representativas da sociedade moderna.

Há uma disciplina da organização; mais precisamente, a exigência para obedecer a ordens superiores, acima de quaisquer outros estímulos à ação, devotada ao bem-estar da organização, tal como definido nas ordens superiores, acima de todas as outras devoções e compromissos. Dentre estas outras influências “externas” que interferem com o espírito de dedicação e portanto marcadas para a supressão e extinção, as mais destacadas são as opiniões e preferências pessoais. O ideal da disciplina aponta para a total identificação com a organização — que, por sua vez, só pode significar disposição de obliterar a própria identidade separada e sacrificar os próprios interesses (por definição, interesses que não coincidem em parte com a tarefa da organização). 

Em ideologia organizacional, a disposição para esse tipo extremo de auto sacrifício é enunciada como uma virtude moral; na verdade, como a virtude moral destinada a pôr fim a todas as demais exigências morais. A observância altruísta dessa virtude moral é então vista, nas famosas palavras de Weber, como a honra do funcionário público: “A honra do funcionário público está investida na sua capacidade de executar de forma conscienciosa a ordem das autoridades superiores, exatamente como se a ordem expressasse a sua própria convicção. Isso vale mesmo se a ordem lhe parece errada e se, a despeito de seus protestos, a autoridade a mantiver.” Esse tipo de comportamento significa, para um servidor público, “a disciplina moral e a abnegação no mais alto grau”.

 Através da honra, a disciplina substitui a responsabilidade moral. A deslegitimação de tudo que não seja regra interna da organização como fonte e garantia do que é adequado, portanto a negação de autoridade à consciência pessoal, torna-se então a mais elevada virtude moral. O mal-estar que o exercício de tais virtudes pode por vezes causar é compensado pela insistência da autoridade superior de que ela e somente ela é responsável pelos atos dos subordinados (na medida, claro, em que se conformam ao seu comando). 

Weber completou a sua definição da honra do funcionário público dando forte ênfase à “exclusiva responsabilidade pessoal” do chefe, “responsabilidade que ele não pode e não deve rejeitar ou transferir”. Quando instado a explicar, no julgamento de Nuremberg, porque não renunciou ao comando do Einsatzgruppe cujas ações pessoalmente desaprovava, Ohlendorf invocou precisamente este senso de responsabilidade: se expusesse as ações de sua unidade para se ver livre de obrigações que, garantiu, o indignavam, estaria deixando que seus homens fossem “erroneamente acusados”. Obviamente, Ohlendorf esperava que a mesma responsabilidade paternalística que observou em relação a “seus homens” seria praticada por seus superiores para com ele; isso o eximia da preocupação com a avaliação moral de suas ações, que poderia com segurança deixar a cargo dos que o comandavam. “Não creio que esteja em posição de julgar se suas decisões… eram morais ou imorais… Submeto minha consciência moral ao facto de que eu era um soldado e, portanto, um pião em posição relativamente baixa dentro de uma grande engrenagem.”

A administração SS transformava tudo que caía em sua alçada — inclusive as vítimas — em parte integrante da cadeia de comando, sujeito às regras estritamente disciplinares e livre de julgamento moral. O genocídio foi um processo múltiplo; como observou Hilberg, incluiu coisas feitas pelos alemães e coisas feitas — sob ordens alemãs que em última instância remetia ao Führer, embora muitas vezes com dedicação que beirava a desistência de si mesmo — pelas vítimas judaicas. Esta é a superioridade técnica de um extermínio em massa deliberadamente projetado e racionalmente organizado em relação a acessos desenfreados de orgia assassina. 

A cooperação das vítimas com os executores de um pogrom é inconcebível. A cooperação das vítimas com os burocratas da SS foi parte do projeto: com efeito, foi uma condição crucial do seu sucesso. “Um vasto componente de todo o processo dependia da participação dos judeus — tanto os simples atos individuais quanto a atividade organizada em conselhos… Os supervisores alemães buscavam nos conselhos judaicos informações, dinheiro, mão de obra ou policiamento e os conselhos lhes davam tudo isso diariamente.” 

Esse espantoso efeito de estender com sucesso as regras da conduta burocrática, completado com a deslegitimação de lealdades e motivos morais alternativos no geral para abranger as pretendidas vítimas da burocracia, com isso empregando seus talentos e mão de obra na execução da tarefa de sua própria destruição, foi alcançado (muito como na atividade corriqueira de qualquer outra burocracia, sinistra ou benigna) de uma maneira dupla. O cenário externo da vida no gueto foi concebido de tal forma que todas as ações de seus líderes e habitantes só podiam ser “funcionais” para os propósitos alemães. “Tudo que visasse a manter sua viabilidade [do gueto] estava promovendo simultaneamente um objetivo alemão… A eficiência judaica em alocar espaço ou distribuir rações era uma extensão da eficiência alemã. O rigor judeu na taxação ou na utilização da mão de obra era um reforço da severidade alemã; até a incorruptibilidade judaica podia ser um instrumento do governo alemão.”

O cuidado era de tal modo especial que a cada passo do caminho as vítimas eram colocadas numa situação de opção onde pudessem aplicar critérios e ação racional, e na qual a decisão racional invariavelmente concordava com o “desígnio administrativo”. “Os alemães foram notavelmente bem-sucedidos em deportar judeus por etapas, porque os que permaneciam raciocinavam que era necessário sacrificar uns poucos para salvar muitos.” Por sinal, mesmo aqueles já deportados tinham a oportunidade de empregar a sua racionalidade até o fim. As câmaras de gás, sedutoramente chamadas de “banheiros”, eram uma visão bem-vinda depois de dias e dias em imundos vagões para gado. Aqueles que já sabiam da verdade e não alimentavam ilusões ainda tinham uma opção entre uma morte “rápida e sem dor” e outra precedida por sofrimentos extras reservados para os insubordinados. Daí não apenas as articulações externas do cenário do gueto, sobre o qual as vítimas não tinham controlo, eram manipuladas de modo a transformar o gueto como um todo numa extensão da máquina de extermínio; também as faculdades racionais dos “funcionários” dessa extensão eram empregadas para omitir o comportamento motivado pela lealdade e cooperação com os fins burocraticamente definidos.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Monte Cassino







A captura do Monte Cassino teve um preço alto. Os Aliados sofreram cerca de 55.000 baixas na campanha de Monte Cassino. Os números de perdas alemãs são estimados em cerca de 20.000 mortos e feridos. O total de baixas dos Aliados, no período das quatro batalhas de Cassino e da campanha de Anzio, com a subsequente captura de Roma em 5 de junho de 1944, ultrapassou 105.000.

A cidade de Cassino foi completamente arrasada pelos bombardeios aéreos e de artilharia (especialmente pelo ataque aéreo de 15 de março de 1944, quando 1.250 toneladas de bombas foram lançadas sobre a cidade) e dos seus 20.000 habitantes de antes da guerra, 2.026 foram mortos durante os ataques e a batalha.

No decorrer das batalhas, a antiga Abadia de Monte Cassino, onde São Bento estabeleceu pela primeira vez a Regra que ordenava o monasticismo no Ocidente, foi totalmente destruída pelos bombardeios aliados e barragens de artilharia em fevereiro de 1944.

Durante os meses anteriores, no outono italiano de 1943, dois oficiais da Divisão Panzer Hermann Göring, o capitão Maximilian Becker e o tenente-coronel Julius Schlegel, propuseram a remoção dos tesouros de Monte Cassino para o Castel Sant’Angelo, propriedade do Vaticano, antes da aproximação da frente. Os oficiais convenceram as autoridades da igreja e seus próprios comandantes a usar os camiões e o combustível da divisão para o empreendimento. Eles tiveram que encontrar o material necessário para caixotes e caixas, encontrar carpinteiros entre suas tropas, recrutar trabalhadores locais (a serem pagos com rações de comida mais vinte cigarros por dia) e depois gerir o "trabalho maciço de evacuação centrado na biblioteca e arquivo", um tesouro "literalmente incalculável". A riqueza dos arquivos, biblioteca e pinturas da abadia incluía "800 documentos papais, 20.500 volumes na Biblioteca Antiga, 60.000 na Nova Biblioteca, 500 incunábulos, 200 manuscritos em pergaminho, 100.000 impressões e coleções separadas". Os primeiros camiões, carregando pinturas de antigos mestres italianos, estavam prontos para partir a menos de uma semana desde o dia em que Becker e Schlegel chegaram a Monte Cassino. Cada veículo carregava monges para Roma como escolta; em mais de 100 camiões carregados, os comboios salvaram a comunidade monástica da abadia. A tarefa foi concluída nos primeiros dias de novembro de 1943. Após uma missa na basílica, o abade Gregorio Diamare apresentou formalmente os rolos de pergaminho em latim ao general Paul Conrath, ao tribuno militum Julio Schlegel e Maximiliano Becker medecinae doctori "por resgatar os monges e tesouros da abadia de Monte Cassino".Entre os tesouros removidos estavam Ticianos, um El Greco e dois Goyas.

A Batalha de Monte Cassino (também conhecida como a Batalha por Roma ou Batalha por Cassino) foi uma série de quatro duras batalhas dos Aliados contra a Linha de inverno na Itália, mantida pelas Potências do Eixo durante a Campanha da Itália na II Guerra Mundial. A intenção era um avanço em direção a Roma.

Os Aliados, em 15 de março tinham tentado pela terceira vez conquistar Monte Cassino. O ataque foi precedido por um entre os mais pesados bombardeamentos aéreos realizados durante toda a guerra, contra um único edifício – 992 toneladas de bombas foram lançadas num intervalo de três horas e meia, mas, devido a um erro, muitas bombas caíram não no mosteiro, mas a alguns quilómetros do alvo, matando 96 soldados aliados e 140 civis italianos. O ataque aéreo foi seguido por um bombardeamento de artilharia que usou 195 mil cargas – novamente, um entre os mais pesados ataques realizados contra um único edifício. No violento combate corpo a corpo que se seguiu, quando tropas britânicas, maoris e gurkhas desempenharam o principal papel por parte dos aliados, os alemães não foram desalojados. A sua tenacidade na defesa espantou os adversários.

“Duvido que outros soldados”, disse o general Alexander a Churchill, “aguentassem aquilo [ou seja, os disparos da artilharia] e combatessem com aquela bravura”. No fim do assalto, com Monte Cassino ainda em mãos alemãs, haviam sido mortos 863 neozelandeses e mais de mil indianos. Anzio e Roma ainda estavam fora do alcance do exército de Alexander.

No início de 1944, a metade ocidental da Linha de inverno estava sendo ancorada pelos alemães que dominavam os vales dos rios Rapido-Gari, Liri e Garigliano e alguns dos picos e serras circundantes. Juntos, esses recursos formavam a Linha Gustav. Uma abadia histórica fundada em 529 por Bento de Núrcia, dominava a cidade vizinha de Cassino e as entradas para o Liri e vales do Rapido. Situada em uma zona histórica protegida, ela havia sido deixada desocupada pelos alemães, embora eles tivessem se instalado em algumas posições defensivas nas encostas íngremes abaixo das muralhas da abadia.

Repetidos ataques pontuais de artilharia contra as tropas aliadas fizeram com que seus líderes concluíssem que a abadia estava sendo usada pelos alemães como um posto de observação, no mínimo. Os medos aumentaram junto com as baixas e, apesar da falta de evidências claras, foram marcados para a destruição. Em 15 de fevereiro, bombardeiros americanos lançaram 1.400 toneladas de explosivos, causando danos generalizados. O ataque não conseguiu atingir seu objetivo, uma vez que os paraquedistas alemães ocuparam os escombros e estabeleceram excelentes posições defensivas entre as ruínas.

Entre 17 de janeiro e 18 de maio, Monte Cassino e as defesas Gustav foram agredidas quatro vezes por tropas aliadas. Em 16 de maio, soldados do II Corpo Polaco lançaram uma das batalhas finais à posição defensiva alemã como parte de um ataque de vinte divisões ao longo de uma frente de 32 Km. Em 18 de maio, uma bandeira polaca seguida pela britânica foi erguida sobre as ruínas. Após esta vitória dos Aliados, a linha alemã Senger desmoronou em 25 de maio. Os defensores alemães foram finalmente expulsos de suas posições, mas a um alto custo. A captura de Monte Cassino resultou em 55.000 baixas aliadas, com perdas alemãs sendo muito menos, estimadas em cerca de 20.000 mortos e feridos.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Os primórdios da civilização e da guerra



O ethos das sociedades que começaram a sedentarizar-se pelo desenvolvimento da agricultura, é com efeito um ethos forjado no grupo, que evoluiu entre a caça e a recolecção, de uma forma bastante ambivalente, variando entre o cooperativo e o litigioso. Esta é a narrativa da chamada Civilização Ocidental: "entre o recuo do gelo e o aparecimento da escrita na Suméria, o homem — embora trabalhando ainda com as mesmas ferramentas de pedra — aprendeu, com esforço, de maneira errática e com muitas partidas em falso, as técnicas de limpar o terreno, arar e colher numa meia dúzia de regiões que se tornariam os centros de grandes civilizações.

Evidentemente, não se deu um salto direto do seu modo de vida da era glacial, Idade da Era da Pedra Lascada ou Paleolítica, para a agricultura intensiva. Os historiadores geralmente concordam que o homem começou a domesticar animais gregários sob um certo controlo. Há indícios de pastoreio no Norte do Iraque que datam de 9000 a.C. Os vales dos rios Tigre e Eufrates, Nilo, Indo e Amarelo mostram-nos que houve uma progressão cumulativa da colheita sistemática de grãos silvestres para a plantação e, por fim, para a seleção de melhores variedades. Mas os historiadores não estão de acordo sobre onde e como o homem estabeleceu os primeiros povoamentos agrícolas, o que é compreensível, uma vez que os indícios são tão retalhados. Uma primeira avaliação foi a de que ele escolhera as terras altas dos vales dos rios referidos, mais saudáveis e secas do que o solo mais abaixo, mais pantanoso, onde a limpeza por queimadas podia fazer sucessivas aberturas férteis na cobertura vegetal.

O Neolítico é determinado pelo surgimento de um novo tipo de instrumento de pedra, feito de basalto ou granito pesado e amolado por abrasão — os magníficos machados e enxós polidos. 
Alguns historiadores defenderam a tese de uma revolução: o Neolítico. As demandas da agricultura exigiram novas habilidades de trabalhar com ferramentas ou, alternativamente, novos instrumentos tornaram possíveis o avanço floresta adentro. É certo que instrumentos de sílex lascado provocam pouco dano em grandes árvores, enquanto um machado polido pesado pode derrubar uma árvore quase que de qualquer tamanho. No entanto, o simples determinismo tecnológico dessa teoria não durou muito, embora sugerisse que um padrão ainda mais simples de avanço agrícola teria ocorrido com nossos ancestrais da Idade da Pedra Polida: dos flancos dos morros do Crescente Fértil para as planícies aluviais dos grandes rios, e da queimada para o cultivo sazonal de terras baixas fertilizadas por inundações.

Em Jericó, a 180 metros abaixo do nível do mar, no árido vale do Jordão, os arqueólogos acharam os restos do que, por volta de 7000 a.C., fora uma cidade de três hectares, abrigando entre 2 e 3 mil habitantes, que viviam do cultivo da zona fértil do oásis circundante; suas variedades de trigo e cevada eram importadas de outro lugar, assim como a obsidiana de alguns de seus instrumentos. Pouco depois, em Çatal Hüyük, na Turquia moderna, cresceu uma cidade muito maior, de doze hectares e com cerca de 5 a 7 mil habitantes, levando uma vida de considerável sofisticação. As escavações revelaram a presença de uma ampla variedade de bens importados, supostamente trocados, uma variedade igualmente ampla de bens artesanais produzidos localmente, sugerindo uma divisão do trabalho, e, o que é mais impressionante, vestígios de um sistema de irrigação, indicando que seus habitantes já praticavam uma forma de agricultura que anteriormente se julgava característica apenas dos povoamentos muito maiores e posteriores dos grandes vales dos rios já referidos.

De significação essencial para os historiadores militares é a estrutura dessas duas cidades. Çatal Hüyük é construída com as paredes de fora das casas mais externas apresentando uma face contínua, sem aberturas, de forma que mesmo que um intruso fizesse um furo nelas, ou no telhado, ele “se encontraria não dentro da cidade, mas de uma única peça da casa”. Jericó, de forma ainda mais impressionante, está cercada por um muro contínuo de três metros de espessura na base, quatro metros de altura e cerca de 650 metros de circunferência. No pé do muro há um fosso cortado na rocha de nove metros de largura e três metros de profundidade; dentro do muro, em certo ponto, há uma torre de mais quatro metros e meio que serve de posto de observação e, embora não se projete para fora para formar um flanco, como o fariam mais tarde os bastiões, de plataforma de luta. Ademais, Jericó é construída de pedra, em vez de barro como a de Çatal Hüyük, indicando que se empreendeu um intenso e coordenado programa de trabalho, consumindo milhares de homens. Enquanto a conformação de Çatal Hüyük pode ter sido escolhida simplesmente para afastar os ladrões ou atacantes ocasionais, Jericó é bem diferente em propósito: incorporando dois elementos que iriam caracterizar a arquitetura militar até ao advento da pólvora — o muro de barragem e a torre de menagem —, bem como o ainda mais duradouro fosso, ela constitui uma verdadeira fortaleza fortificada, à prova de tudo, exceto o ataque prolongado com máquinas de cerco.

A descoberta de Jericó em 1952-58 obrigou a uma revisão completa das teorias dominantes sobre quando começaram a agricultura intensiva, a vida urbana, o comércio de longa distância, a sociedade hierárquica e a guerra. Até então, achava-se que tudo isso tinha surgido com a fundação da economia de irrigação na Mesopotâmia e daquelas que se acreditava terem derivado dela, no Egito e na Índia, em algum momento anterior a 3000 a.C. Depois das escavações de Jericó, ficou claro que pelo menos a guerra — pois para que serviriam muralhas, torres e fossos sem um inimigo fortemente armado, bem organizado e decidido? — começara a perturbar o homem muito antes do surgimento do primeiro grande império.

Porém, entre Jericó e a Suméria, não temos traços de como evoluíram os acontecimentos militares. Isso talvez se deva ao facto de que, em um mundo ainda muito vazio, o Homo sapiens estava devotando suas energias antes à colonização que ao conflito. Na Europa, já havia aldeias agrícolas em 8000 a.C. e a agricultura estava avançando para oeste a uma velocidade de cerca de um quilômetro e meio por ano nas zonas mais férteis, alcançando a Grã-Bretanha por volta de 4000 a.C. Houve povoações urbanas em Creta e na costa da Grécia no Mar Egeu em 6000 a.C. e uma cerâmica desenvolvida na Bulgária em torno de 5500 a.C.

Por outro lado, em 4500 a.C. os cultivadores da Bretanha estavam começando a erguer as tumbas megalíticas que ainda hoje homenageiam seus ancestrais. Na mesma época, cinco dos seis grupos étnicos distintos que habitam a Índia estavam estabelecidos, levando um modo de vida da Idade da Pedra Lascada em povoamentos dispersos. E havia uma florescente cultura neolítica nos férteis planaltos do Norte e Noroeste da China em 4000 a.C., baseada no solo de loesse do rio Amarelo. Apenas a Austrália, a África e as Américas continuavam unicamente nas mãos dos caçadores coletores, nunca numerosos, embora os ameríndios vindos da Sibéria, que tinham cruzado o estreito de Behring por volta de 10.000 a.C., trazendo com eles técnicas avançadas de caça da Ásia, tivessem conseguido extinguir os grandes animais de caça do continente, inclusive o gigantesco bisonte e três espécies de mamute, em cerca de mil anos.

Em quase toda a parte, a densidade populacional permanecia baixa. Embora o número de habitantes do mundo tenha passado dos 5 ou 10 milhões em 10.000 a.C. para talvez 100 milhões em 3000 a.C., em pouquíssimos lugares havia alta densidade populacional. Os caçadores precisavam de 2,5 a 10 Km quadrados de território para sustentar cada indivíduo. Os agricultores podiam sustentar as suas famílias em extensões muito menores. Na cidade egípcia de El-Amarna, por exemplo, fundada pelo faraó Akhenaton por volta de 1540 a.C., estimou-se que a densidade era de cerca de duzentos habitantes por quilómetro quadrado de solo produtivo. Isso, no entanto, ocorria nas plantações regadas pelo rico vale do Nilo e, de qualquer forma, muito adiante do período que estamos focalizando. Entre 6.000 e 3.000 a.C., as povoações agrícolas dispersas pela Europa oriental não ultrapassavam o tamanho de 50 a 60 lares; na Renânia, no quinto milénio a.C., os agricultores subsistiam fazendo queimadas nas grandes florestas, abandonando periodicamente e depois reocupando aldeias que nunca abrigavam mais que trezentas a quatrocentas pessoas.

A terra era efetivamente livre para qualquer um que quisesse andar uns poucos quilómetros e queimar alguma floresta — como os camponeses pobres ainda faziam na Finlândia do século XIX. A produção, por sua vez, deveria ser tão baixa que havia pouco que valesse a pena roubar, exceto imediatamente após a colheita, mas as dificuldades de transportar o produto do saque — ausência de animais de tração e transporte, falta de estradas, falta talvez mesmo de recipientes — tirariam o sentido da ação. O roubo, especialmente com violência, somente justifica os riscos envolvidos se a recompensa vier numa forma compacta de valor intrínseco alto. As cargas de navios cumprem esses requisitos, mas não havia navios cargueiros para piratear no quarto milénio a.C.. Os grandes excedentes agrícolas também servem, em particular se estiverem armazenados em pontos de fácil acesso e fuga, e mais ainda se estiverem guardados de forma transportável — em fardos, potes, sacos ou cestas, ou como rebanhos vivos. Então, evidentemente, a terra que é a fonte desse produto da pilhagem torna-se ela mesma um alvo, mesmo que os intrusos não tenham as habilidades para administrá-la, como aconteceria tantas vezes. Nos milénios em que o homem estava a aprender a plantar e colonizar as terras vazias do Médio Oriente e da Europa, havia uma única região que produzia grandes excedentes expostos à predação por vias de acesso que favoreciam os movimentos rápidos. Tratava-se da planície aluvial dos rios Tigre e Eufrates, conhecida dos historiadores antigos como Suméria. É dos Sumérios que temos as primeiras provas seguras da natureza da guerra para percebermos os traços que levaram a humanidade civilizada a perpetuar o instinto da guerra.



quarta-feira, 11 de maio de 2022

'Rasputitsa': a guerra obedece às leis da natureza



Na campanha do exército de Hitler na Rússia, no ano seguinte à Blitzkrieg na França, a Rússia oferecia ao invasor, particularmente o mecanizado, liberdade de movimentos. Entre as suas fronteiras de 1941, e as três cidades: São Petersburgo, Moscovo e Kiev, distantes mil quilómetros entre si, o terreno nunca se eleva a mais de 150 metros. Enquanto os rios, que atravessam essa imensa planície quase sem árvores, tendem a correr no sentido da linha de avanço, em vez de atravessá-la. Nada sólido deveria impedir a investida do invasor. Nada sólido a impede. O Dnieper corre para o Mar Negro. Os pântanos do degelo tornaram-se uma importante base de operações dos resistentes soviéticos contra a retaguarda da Wehrmacht. E embora a eficácia dessas operações tenha sido duvidosa, eram uma fonte de intranquilidade persistente do exército alemão à medida que a sua linha de frente na Rússia avançava para leste.




O início do degelo iria deter o avanço soviético, deixando a linha do Dnieper nas mãos dos alemães. E isso de facto aconteceu. Mas com mais frequência a “rasputitsa” trabalhou contra a Alemanha. Foi prolongada na primavera de 1941, atrasando assim por várias semanas decisivas o início da invasão, e novamente no outono, forçando o adiamento do avanço sobre Moscovo. Naquele ano, a chegada tardia dos gelos do inverno, que restauram uma crosta resistente na superfície da estepe, deixou os tanques da Wehrmacht literalmente atolados longe demais da capital para que pudessem assegurar a sua captura na data prevista. A rasputitsa de março e a de outubro revelaram-se bons generais para a Rússia em 1941 e podem, com efeito, tê-la salvo da catástrofe naquele ano. Rasputitsa é uma estação do ano em que viajar em estradas não pavimentadas se torna difícil, devido às condições lamacentas da chuva ou da neve derretida. Na Rússia, o termo rasputitsa refere-se à primavera ou outono, e também refere-se às condições da estrada durante esse período.

O que está claro é que a congruência de fatores operando permanentemente e fatores contingentes – clima, vegetação, topografia e as alterações que o homem fez na paisagem – são de primordial importância no desfecho de uma guerra. O homem e a sociedade são seus objetos e, contudo, a maioria dos seres humanos durante a maior parte do tempo coopera para o bem comum. É, pois, a imprevisibilidade do comportamento humano, sobretudo a do comportamento violento, a título individual e em grupos, que desafia os analistas a fornecer explicações. O indivíduo violento é a principal ameaça à norma de cooperação dentro de grupos, e o grupo violento, a causa principal da rutura da sociedade.

Os estudos sobre comportamento individual e grupal tomam direções diferentes, mas compartilham um terreno comum, ao qual o debate acaba retornando: o homem é violento por natureza ou a sua potencialidade para a violência é condicionada por fatores externos?

Estão em minoria aqueles que insistem em que o homem é naturalmente violento; ainda que muitos não aceitem a analogia, o argumento deles é o mesmo dos teólogos cristãos que defendem a história da Queda e a doutrina do pecado original. A maioria rejeita essa caracterização. Eles consideram que o comportamento violento seja como uma atividade aberrante em indivíduos defeituosos, seja como uma reação a tipos particulares de provocação ou estímulo, inferindo-se daí que, se esses gatilhos da violência forem identificados e mitigados ou eliminados, a violência poderá ser banida das relações humanas.

Em maio de 1986, em um encontro na Universidade de Sevilha, a maioria dos presentes assinou uma declaração, baseada na Declaração sobre Raça da UNESCO, condenando a crença na natureza violenta do homem em termos absolutos. A Declaração de Sevilha contém cinco artigos, cada um deles começando com “É cientificamente incorreto...”. O conjunto de artigos equivale a uma condenação de todas as caracterizações do homem como naturalmente violento. É negado: 1) Que herdamos uma tendência a fazer a guerra de nossos ancestrais animais; 2) Que a guerra ou qualquer outro comportamento violento está geneticamente programado em nossa natureza humana; 3) Que no decorrer da evolução humana tenha havido uma seleção por comportamento agressivo mais do que por outros tipos de comportamento; 4) Que os humanos tenham um cérebro ‘violento’; 5) Que a guerra seja causada por ‘instinto’ ou qualquer motivação isolada.

A Declaração de Sevilha ganhou apoios de peso. Foi, por exemplo, adotada pela Associação Antropológica Americana. No entanto, ela não ajuda o leigo que está ciente de que a guerra tem origens antigas, sabe que povos sobreviventes da “Idade da Pedra”, como os montanheses da Nova Guiné, são indiscutivelmente belicosos, tem consciência de impulsos violentos dentro de si mesmo.

Numa época esperançosa da história da humanidade, uma época de desarmamento efetivo e da adoção do humanitarismo como um princípio nos assuntos mundiais, o leigo busca naturalmente a reafirmação de que os redatores da Declaração de Sevilha estão corretos.

Assim, o sucesso na eliminação da guerra deveria ser idêntico ao sucesso obtido pela humanidade ao longo dos dois últimos séculos na alteração, para melhor, das circunstâncias materiais da vida. Sucesso também nos esforços contra as doenças, a escassez, a ignorância e as condições adversas do trabalho. A história da guerra deveria então ter-se tornado um assunto de antiquários. Infelizmente, não é isso que o leigo observa. E certo tipo de cientistas, como por exemplo antropólogos e sociólogos, só para exemplificar, sentem-se perplexos pelo facto de os leigos cada vez mais não acreditarem neles.

E o imperativo kantiano? Para dizer a verdade, não sabia muito sobre ele, dissera eu ao pobre-diabo do Eichmann. Na Ucrânia ou no Cáucaso, questões dessa ordem ainda não me preocupavam, eu me afligia com as dificuldades e as discutia com seriedade, com o sentimento de que se tratava de problemas vitais. Mas esse sentimento parecia ter-se perdido. Eichmann era um burocrata de grande talento, extremamente competente nas suas funções, com uma envergadura incontestável e um considerável sentido de iniciativa pessoal, mas unicamente no âmbito de tarefas delimitadas: num posto de responsabilidade, em que tivesse que tomar decisões, por exemplo, no lugar de seu Amtchef Müller, estaria perdido; mas como quadro médio teria sido o orgulho de qualquer empresa europeia.

Nunca percebi se alimentava um ódio particular contra os judeus. Simplesmente construíra a sua carreira em cima deles, que se tornaram não somente a sua especialidade, como de certa forma a sua moeda de troca, e, mais tarde, quando quiseram tomá-la, defendeu-a com unhas e dentes, o que é compreensível. Mas poderia igualmente ter feito outra coisa, e, quando diz aos seus juízes que achava um erro o extermínio dos judeus, podemos acreditar nele. Uma vez a decisão tomada, devíamos levá-la a cabo, e disso ele estava bem consciente: afinal, a sua carreira dependia disso. Não era certamente o tipo de pessoa que eu gostasse de frequentar, a sua capacidade de pensar por si só era das mais limitadas, e, ao voltar para casa naquela noite eu me perguntava porque fora tão expansivo, porque penetrara com tanta facilidade num ambiente familiar e sentimental que em geral tanto me repugna.
A despeito de toda a sua cordialidade, eu sabia que ele me considerava um estranho em seu departamento, e portanto uma ameaça potencial à sua autoridade. E pressentia que ele enfrentaria com astúcia e obstinação qualquer obstáculo ao que considerava seu objetivo, que não era homem de se deixar acuar facilmente. Eu compreendia muito bem a sua apreensão diante do perigo colocado pelas concentrações de judeus: mas para mim, caso necessário, esse perigo podia ser minimizado, convinha simplesmente refletir e tomar as medidas adequadas. Por enquanto eu mantinha o espírito aberto, não chegara a nenhuma conclusão, guardava o meu julgamento para quando a minha análise estivesse concluída.

sábado, 7 de maio de 2022

Cáucaso

 


Uma perpétua bruma estival impedia a visão dos montes do Cáucaso antes de chegarmos ao seu sopé. Atravessei os contrafortes acidentados por Armavir e Labinskaia; mal saímos dos territórios cossacos, bandeiras turcas, verdes com um crescente branco, tremulavam nas casas, hasteadas pelos muçulmanos para nos desejar boas-vindas. A cidade de Maikop, um dos grandes centros petrolíferos do Cáucaso, aninhava-se diretamente nas montanhas, limitada pelo Bielaia, um rio de águas profundas dominado pela cidade, dos altos penhascos de greda.

Depois atravessava-se uma ponte intacta e entrava-se na cidade, quadriculada por várias ruas compridas e retilíneas, todas idênticas, traçadas dos dois lados de um Parque da Cultura onde estátuas de gesso do herói do trabalho desmanchavam-se inelutavelmente. Braune, homem de aspeto equino, com um rosto grande em forma de lua prolongado por uma testa bulbosa, recebeu-me com solicitude: eu percebia, não obstante, esperasse seu substituto de uma semana para outra.
A história da região do Cáucaso pode ser dividida na história da Ciscaucásia (Cáucaso do Norte), historicamente na esfera de influência da Cítia e d sul da Rússia, e da Transcaucásia - Geórgia, Arménia e Azerbaijão. E a esfera de influência da Anatólia, Assíria e Pérsia. 
Nos tempos modernos, o Cáucaso do Sul foi parte do Império Otomano, enquanto o Norte do Cáucaso foi conquistado pelo Império Russo no século XIXApós o fim da União Soviética a Geórgia, o Azerbaijão e a Arménia tornaram-se independente em 1991. Entre 1988 e 1994 travou-se a Guerra do Nagorno-Carabaque; em 1992 o Conflito na Ossétia do Norte; em 1992-1993 a Guerra na Abecásia; e a Primeira e Segunda Guerra da Chechénia.
Braune preocupava-se com as instalações petrolíferas de Neftegorsk: a Abwehr, logo antes da tomada da cidade, conseguira infiltrar uma unidade especial, a “Chamil”, composta de montanheses do Cáucaso e disfarçada de batalhão especial do NKVD, para tentar controlar os poços intactos; mas a missão fracassara e os russos tinham dinamitado as instalações no nariz dos Panzer. Nossos especialistas, porém, já trabalhavam para restaurá-los, e os primeiros abutres da Kontinental-Öl faziam a sua aparição. Esses burocratas, todos ligados ao Plano Quadrienal de Göring, beneficiavam-se do apoio de Arno Schickedanz, o Reichskommissar designado para o Kuban-Cáucaso. O osseto é uma língua iraniana particularmente fascinante falada por aproximadamente meio milhão de pessoas, principalmente na Ossétia. Veja-se a situação geográfica da Ossétia: enquanto todos os outros falantes não caucasianos ocupam a periferia ou os contrafortes do Cáucaso, eles recortam o maciço em dois, justamente no nível do desfiladeiro mais acessível, o do Darial, onde os russos construíram a sua Voennaia doroga de Tiflis até Ordjonikidze, a ex-Vladikavkaz.
Embora essas pessoas tenham adotado o vestuário e os costumes de seus vizinhos montanheses, foi evidentemente um movimento de invasão tardio. Temos bases para julgar que esses ossetas descendem dos alanos e, portanto, dos citas; se isso for exato, a sua língua constituiria um vestígio arqueológico vivo da língua cítica. Dumézil editou em 1930 uma antologia de lendas ossetas que falavam de um povo fabuloso, semidivino, por eles denominados nartas. Ora, Dumézil também postula uma conexão entre essas lendas e a religião cítica tal como relatada por Heródoto. Os pesquisadores russos trabalham no tema; a biblioteca e os institutos de Ordjonikidze devem estar abarrotados de dados extraordinários, inacessíveis na Europa.

Em 1461 as tropas turcas, do que viria a ser o Império Otomano, conquistaram o Império de Trebizonda. E em 1475 submeteram o Kanato de Crimeia. Em 1501 saquearam Bacu e impuseram o islão sunita, que era xiita. Fizeram incursões na Geórgia e conquistaram a Arménia. Por seu turno, o cristianismo do Cáucaso sofre um decaimento. Parte da Abecásia, onde havia cristãos ortodoxos, tornou-se muçulmana sunita, espalhando-se depois para a Chechénia. 

O czar Ivan IV , o Terrível, conquistou o Kanato de Astracã e o Nordeste do Cáucaso até aos rios Tereque e Iergolique em 1557, instalando ali os cossacos. Entre 1577 e 1588 são os otomanos (com os seus vassalos da Crimeia que percorrem para o Cáucaso da costa do Cáspio, forçando o Xá da Pérsia a renunciar em 1590. O Xá Abas I, o Grande reorganiza o exército persa (incluindo arménios e georgianos, como os deportados para a sua capital Ispaã) em 1602-1606 e recuperou quase tudo o que havia perdido, a Geórgia e a Arménia, sendo divididas entre as duas potências e o Kanato Avar independente.

Um incidente em Shemakha leva o czar Pedro I a atacar (1722-1723) a Pérsia que cede toda a costa oeste e sul do Mar Cáspio, os otomanos atacaram os persas para obter o resto do sul do Cáucaso, mas colidem com a resistência dos arménios do Carabaque. Em 1735, a Rússia retirou-se da costa do Mar Cáspio (exceto o norte do rio Sulak). Seguem guerras entre russos e otomanos, e entre otomanos e Nadir Shah da Pérsia (que substituiu a dinastia safávida). Por estas guerras são envolvidos os caucasianos, alguns são mantidos independentes (como o Kanato de Avaristão), outros mais ou menos dependentes segundo as circunstâncias como Cabárdia, vassalo da Rússia desde 1761, e Imerícia que se livra do domínio otomano. 

A intervenção russa em Mozdok - Ossétia do Norte, 1763, resulta na Guerra entre a Rússia e a Cabárdia (1765-1779), que é mesclada com a guerra entre a Rússia e a Turquia (1768-1774) que abre para a Rússia o Mar Negro. Em 1783, a Rússia anexa o Kanato da Crimeia (e com ela as terras ao norte do rio Cubã). A presença russa no Cáucaso tem um efeito duplo: a oposição dos chechenos liderados pelo xeque Almançor, e a busca por apoio do rei da Geórgia Oriental Heráclio II da Geórgia. Em 1795, o Xá da Pérsia atacou a Geórgia oriental derrotando o rei Heráclio e a Rússia vem em seu auxílio, mas explorando as rivalidades de sucessão sobre a morte do Rei George XII, a Geórgia Oriental é anexada em 1801 pelo Império Russo. O Império Russo continua seu avanço, através do Cáucaso, e entra em guerra com a Pérsia que é derrotada em 1813. Em 1812 a Rússia em guerra com a Turquia assegura quase toda a Geórgia Ocidental.
Todos os homens eram montanheses caucasianos. Karatchais e circassianos, claro, mas também inguches, avars, laks. Levantei-me e lhe estendi a mão: “Agradeço pela informação, Obersturmführer. Mas desprezo e ignoro quem espalha covardemente rumores sórdidos em vez de vir falar com a pessoa cara a cara.” Ele me apertou a mão: “Compreendo perfeitamente sua reação. Ainda assim, abra o olho.” Sentei-me novamente, furioso: era então aquele o jogo que eles queriam jogar! Além do mais, estavam redondamente enganados. Já disse: nunca me ligo aos meus amantes, isso não tem nada a ver. Eu só gostava de uma pessoa neste mundo, e embora nunca a visse, aquilo me bastava. Ora, um canalha limitado como aquele Turek e seus amigos nunca poderiam compreender isso. Resolvi me vingar; ainda não sabia como, mas não faltaria oportunidade. Kern era um homem honesto, fizera bem ao me precaver: assim, eu teria tempo para refletir.
Os conflitos no Cáucaso são uma série de guerras civis, conflitos separatistas e/ou conflitos étnicos, e até mesmo conflitos entre nações, que ocorreram na região do Cáucaso na época da União Soviética até ao fim. Grande parte do traçado das fronteiras existentes na região do Cáucaso é considerada arbitrária e artificial pelos beligerantes. Foi, em grande parte, estabelecida no tempo de Stalin, entre 1922 e 1936. Com o colapso da URSS, era de esperar que as novas repúblicas autónomas viessem a ter à flor da pele problemas étnicos e religiosos. Na porção sul do Cáucaso, denominada Transcaucásia, três novos Estados se autonomizaram - Arménia, Azerbaijão e Geórgia. Na porção norte do Cáucaso, denominada Ciscaucásia, autonomizaram-se 7 repúblicas pertencentes à Federação Russa. As três repúblicas da Transcaucásia têm mantido a sua beligerância em múltiplos conflitos como é o caso da Arménia e do Azerbaijão que disputam o controlo do Nagorno Karabakh (região do Azerbaijão habitada na sua maioria por arménios, reclamada e ocupada pela Arménia, contrariando a Resolução 62/243 da ONU de 2008). 
E existem movimentos separatistas na Abcásia e Ossétia do Sul, que são territórios oficialmente pertencentes à Geórgia. Outros movimentos separatistas também existem nas repúblicas da Chechénia, Daguestão e Inguchétia, que são territórios oficialmente pertencentes à Federação Russa. Estes conflitos acabam por ser do interesse global na medida em que a região é um ponto de passagem de oleodutos e gasodutos que ligam as reservas de petróleo e gás do Azerbaijão e Cazaquistão. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

A Europa que se foi fazendo a seguir ao Império Romano do Ocidente




Império Romano após a divisão criada pelo Imperador Teodósio. Em vermelho, o Império Romano do Ocidente, e em roxo, o Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino)

Só foi a partir do Império Romano do Oriente, sob imperador  Justiniano [462 - 565] que governou de 527 até à sua morte, que o Ocidente após a sua queda em 476 com as invasões dos Bárbaros, começou a levantar a cabeça com um exército sob o comando de Belisário e Narses, os generais com os quais Justiniano recuperou o controlo da Itália e do Norte de África. 
O último imperador romano do Ocidente, Rómulo Augusto, foi deposto em 476 por um grupo de mercenários. Poucos territórios (e tropas) restavam ao seu serviço. Os comandantes e chefes que tentavam manter o Estado Romano nos últimos anos também eram, na maioria dos casos, de origem bárbara. Os soldados estavam organizados em unidades que derivavam daquelas das reformas de Constantino no século IV, e não em pesadas legiões de marcha; eram regimentos de infantaria e cavalaria pequenos e independentes que podiam ser combinados da forma que fosse necessária para reforçar as milícias de fronteira. 

No Ocidente, nenhum exército foi revivido para preservar os restos daquela civilização romana pela qual seus destruidores professavam uma grande admiração. Com efeito, o renascimento era impossível, pois a sua base de sustentação, uma tributação regular e equitativa — embora se tivesse tornado muito iníqua no período tardio do Império —, fora destruída. Os reis bárbaros taxavam da melhor maneira que podiam, mas as receitas eram insuficientes para sustentar soldados disciplinados. De qualquer forma, os conquistadores eram profundamente avessos à disciplina, preservando em seu íntimo uma crença teutónica na liberdade do guerreiro e em sua igualdade com os companheiros. Os godos, lombardos e borgonheses haviam sido lavradores antes que a pressão da estepe os empurrasse para o outro lado do Reno. E esperavam viver da agricultura quando chegaram às novas terras. Na Itália, cada um recebeu um terço do lote do morador no qual foi assentado, uma adaptação extorsiva do velho sistema imperial de designar um terço do local de um morador a um soldado acantonado; na Borgonha e no Sul da França, a proporcionalidade foi definida em dois terços. Dessa forma, os soldados se estabeleciam como agricultores indesejados em terras dispersas, desperdiçando as virtudes militares que os tinham tornado tão poderosos no ataque, sem produzir para o governo o excedente regular com o qual se poderia ter reconstruído um exército civilizado, mantenedor da paz.

Ao contrário da Grécia clássica, Roma foi uma civilização da lei e da realização física, não de ideias especulativas e criatividade artística. A imposição de suas leis e a incansável ampliação de sua extraordinária infraestrutura física exigia menos esforço intelectual que energia ilimitada e disciplina moral. Era dessas qualidades que o exército era a fonte última e, com frequência, em particular na engenharia de obras públicas, o instrumento direto. Portanto, era inevitável que o declínio dos poderes do exército — mesmo se provocado tanto por fracassos administrativos e económicos internos quanto por crises militares nas fronteiras — trouxesse consigo o do próprio Império, e que o colapso do exército significasse a queda do Império do Ocidente.

Os reinos que se sucederam no Ocidente não aprenderam quão valiosa era a instituição que tinham destruído e como seria difícil substituí-la. Todavia, a autoridade moral na Europa depois de Roma migrou para as instituições cristãs, firmemente estabelecida graças à conversão dos francos em 496, que transferiu para a Igreja Católica em Roma a continuidade do que restou do Império. 

A história da Europa ocidental no final do século VI e no seguinte é uma triste crónica de conflitos constantes entre casas reais dos reinos sucessores, moderadas apenas quando, no início do século VIII, o primeiro rei carolíngio estabeleceu a sua primazia nas terras francas de ambos os lados do Reno. O surgimento dos carolíngios resultou de uma luta interna, mas também pode ser visto como uma resposta às novas ameaças — notadamente, o avanço dos muçulmanos no Sul da Espanha e da França e os ataques dos Vikings e Saxões. A vitória de Carlos Martelo sobre os muçulmanos em Poitiers em 732 repeliu definitivamente os mouros para o outro lado dos Pireneus. As campanhas de seu neto - Carlos Magno - consolidaram uma linha de fronteira na Alemanha junto ao Elba e ao alto Danúbio e trouxeram o reino italiano dos Lombardos, que incluía a cidade de Roma, para o novo Império fundado com a sua coroação pelo papa Leão III no Natal do ano 800.

A legitimidade de Carlos Magno derivava do reconhecimento pelo Papa de que era o sucessor dos imperadores romanos através de uma descendência fictícia; seu poder dependia de suas forças armadas, que não se assemelhavam de forma alguma ao exército romano, mesmo em seu estágio final de decadência. Os primeiros reis francos, tal como outros soberanos bárbaros, tinham mantido como centro militar de seus séquitos grupos de guerreiros escolhidos com que podia contar para lutar com bravura e a qualquer momento — o equivalente da Cavalaria dos Companheiros de Alexandre. Na época das conquistas, não se colocava o problema de como seriam mantidos e, em tempos turbulentos, viviam improvisadamente. 

Mas quando um reino estabelecia fronteiras, embora mal definidas, e procurava manter a estabilidade em seus domínios, os guerreiros do rei precisavam de uma fonte de sustento mais estável que a pilhagem ou expropriação temporária. A solução foi acomodar os membros do bando de guerra germânico dentro da velha prática romana do precarium, espécie de arrendamento pelo qual os lavradores cultivavam lotes de uma propriedade rural. Na época de prosperidade do Império Romano, um precário era pago em dinheiro; como as desordens dos séculos V e VI tiraram o dinheiro de circulação, o pagamento de arrendamento deu lugar à realização de serviços de vários tipos. Não foi um processo complexo, embora tenha sido gradual, para os adeptos de um soberano, que já lhe deviam uma obrigação pessoal e, em troca, se beneficiavam do seu patrocínio, transformar essa relação em uma na qual se prestava serviço militar em troca do favor patronal. Mas o patrocínio era expresso pela concessão de um precarium. Essa relação atendia a ambas as partes: o vassalo (da palavra celta para dependente) recebia um meio de subsistência. O soberano assegurava-se de seus serviços militares; e o laço entre os dois era selado pela realização de um ato de homenagem que, quando cristianizado pela intervenção da Igreja, ficou conhecido como voto de fidelidade ou lealdade.

O arranjo conhecido por nós como feudalismo, nome derivado do feudum que o patrono concedia ao vassalo, tornou-se a base geral sobre a qual os reis montavam exércitos e a classe militar detinha terras na Europa carolíngia a partir de meados do século IX. Na mesma época estabeleceu-se também que os feudos seriam hereditários dentro das famílias, desde que continuassem a prestar seus serviços. A formalização desses elementos datados do ano 877, quando Carlos, o Calvo, rei dos francos ocidentais e neto de Carlos Magno, decretou na Capitulação de Kiersey que os feudos poderiam passar de pai para filho. Ele já decretara que todo homem livre — o que significava quem tinha terras ou levava armas — deveria ter um patrono ou senhor e que cada homem que tivesse um cavalo, ou devesse ter um, deveria vir montado à assembleia na qual, pelo menos uma vez por ano, o exército seria passado em revista. Quando cada homem passou a ser obrigado a ter um senhor, quando cada detentor de um benefício passou a ser obrigado a servir como soldado montado e quando cargos, benefícios e obrigações militares se tornaram hereditários, o feudalismo estava completo.

O feudalismo carolíngio, apesar da ênfase que colocava na posse de cavalos, não deve ser equiparado ao sistema militar dos nómadas. As terras cultivadas da Europa ocidental não podiam sustentar uma população equina muito grande e os exércitos feudais que respondiam ao chamado às armas não tinham nada em comum com as hordas das estepes. A diferença advinha, em larga medida, da cultura militar diferenciada das tribos teutónicas, que encorajava a luta corpo a corpo com armas afiadas, uma tradição reforçada pelos seus confrontos com os exércitos romanos antes que tivessem perdido o treinamento legionário. Essa cultura fora preservada quando os guerreiros ocidentais passaram a montar e foi reforçada pelas potencialidades do equipamento que vestiam e as armas que usavam montados. A própria sela tornara-se um assento sólido, em parte porque, a partir do início do século VIII, ela se tornou o ponto de fixação do estribo acabado de ser introduzido.

A origem do estribo talvez seja indiana, mas no século V foi adotado pelos chineses e depois pelos povos da estepe, de onde o seu uso migrou rapidamente para a Europa. Sabemos que no Ocidente, a partir do século VIII, o guerreiro montado cavalgava numa sela alta, colocava seus pés em estribos e, em consequência, podia manejar armas e usar equipamentos até então associados exclusivamente ao soldado a pé. É verdade que os persas e depois os bizantinos tinham colocado em campo esquadrões de cavaleiros com armaduras em datas anteriores, mas não sabemos como estavam equipados, nem como lutavam. Mas não há dúvida de que no século IX o cavaleiro feudal da Europa ocidental já usava cota de malha de ferro, levava um escudo e tinha suficiente liberdade com as mãos para manejá-lo junto com uma lança ou espada, em movimento.

Durante o século IX começou uma nova onda de ataques ao Ocidente que não poderia ter sido contida pelas hostes de guerreiros quase sempre a pé, desajeitados e raramente convocados dos reinos. Esses ataques tinham três pontos de origem: 1) as terras islâmicas; 2) a estepe; 3) as costas da Escandinávia. 

A partir das terras islâmicas montou-se um regime de pirataria e espoliação no Mediterrâneo que relembrava o dos vândalos no século VI, dependente do uso dos mesmos portos africanos. Os sarracenos, como ficaram conhecidos no Ocidente os invasores islâmicos, atuavam com toda a liberdade porque, desde a dissolução da frota romana no século V, não havia marinha estatal no Mediterrâneo ocidental para proteger as costas e garantir a segurança no mar. Em 827, a Sicília, que fora amiúde o ponto de apoio para potências agressivas — Atenas, Cartago, Vândalos —, foi ocupada; pouco depois, os piratas estabeleceram bases na ponta da bota italiana e no Sul da França; no século X, a Córsega, a Sardenha e até mesmo Roma foram atacadas. Os sarracenos foram finalmente expulsos da Itália pelos esforços dos bizantinos, a única potência que ainda mantinha uma frota de galeras. Mas isso só aconteceu depois de pilhagens e destruições do Ródano ao Adriático, por vezes bem dentro do continente.

A ameaça das estepes consistia nos magiares que, deslocados para oeste pelo poder crescente dos turcos, apareceram na planície do Danúbio em 862. A partir dali, lançaram uma série de incursões típicas, mas de alcance extraordinariamente longo mesmo para padrões hunos, que em 898 os levaram à Itália, atraindo Berenger, rei da Itália, e seu exército de 15 mil cavaleiros para uma batalha desastrosa junto ao rio Brenta, em setembro de 899. Em 910, confrontaram as tropas gerais dos francos orientais, convocadas pelo último imperador carolíngio, Luís IV, o Infante, perto de Augsburgo, e obtiveram uma grande vitória que lhes permitiu cruzar à vontade a Alemanha nos dez anos seguintes. Henrique I, o Passarinheiro, rei dos saxões e dos francos entre 919 e 936, restringiu gradualmente as depredações dos magiares construindo muitas fortalezas na fronteira oriental, mas mesmo assim eles conseguiram penetrar até à França e Borgonha, em 924 e 926, e apesar de uma derrota em 933 invadiram novamente a Itália em 954. 

Em 955, Oto I, sacro imperador romano, conseguiu reunir finalmente forças suficientes para cercar os magiares. Com um exército de 8 mil homens, a maioria da Suábia, e bávaros, contornou o acampamento dos magiares junto a Augsburgo, que estavam sitiando, cruzou o rio Lech para fechar a linha de recuo deles e esperou o ataque. Os magiares, cuja arma principal era o arco composto e cuja formação tática ainda era a mesma das hordas hunas das estepes, comportaram-se exatamente como Oto esperava. Cruzando o Lech para tentar abrir uma rota de fuga, foram atraídos para uma batalha confusa com as suas costas para o rio, e atropelados até à destruição pelos inimigos encouraçados. Os sobreviventes, dispersos, foram perseguidos pela gente armada do campo.

Os escandinavos, por seu turno, os Vikings, não podiam ser sumariamente expulsos, pois seus ataques se desencadeavam mediante um recurso contra o qual nenhum reino europeu tinha antídoto: o barco de guerra marinho. Os povos das costas setentrionais da Europa eram navegadores aventureiros havia séculos; os romanos tinham mantido uma frota no litoral saxão, na Britânia e na Gália para deter a pirataria dos Vikings. Foi o colapso dessa frota, no século V, que permitiu a anglos, saxões e jutos, vindos da Dinamarca e do Norte da Alemanha, colonizar a futura Grã-Bretanha. O esvaziamento das terras a leste do Reno por via das migrações levou a uma certa acalmia. Mas no final do século VIII a fome de terras na Noruega e na Suécia impeliu os escandinavos a renovar a sua procura por lugares de colonização, para pilhagem e para oportunidades de comércio em termos ditados por eles. Isso ocorreu no preciso momento em que tinham aperfeiçoado um barco que poderia transportar guerreiros a longas distâncias e sobre mares encapelados. As chaves da superioridade do barco longo dos Vikings sobre as outras embarcações da época eram o seu perfil estreito e quilha profunda, permitindo que navegasse à vela para barlavento, junto com a larga secção transversal a meia da nau, que o tornava adequado para ser remado quando não havia vento e abicasse em praia aberta, longe de portos guarnecidos.

Os Vikings, palavra nórdica que significa pirata, estavam entre os povos mais belicosos e resistentes que jamais assaltaram a civilização, com a sua disposição para a luta corpo a corpo intensificada no século de disputas por terras que precedeu a sua era de viagens. A partir do primeiro ataque ao mosteiro de Lindisfarne, no norte da Inglaterra, em 793, os Vikings aventuraram-se cada vez mais longe, surpreendendo Sevilha, na Espanha muçulmana.  
Em 834, devastaram o centro mercantil de Dorstadt, na foz do Reno, Em 859 chegaram ao Mediterrâneo em 859. E em 877 começaram uma invasão do território anglo-saxónico que acabou, na metade do século X, fazendo de toda a região central e Norte da Inglaterra um reino dinamarquês ultramarino. As viagens extensas que por saltos espantosos de navegação, levaram-nos à Islândia e à Groenlândia no século seguinte.

No Báltico, conhecidos como "rus" , passaram a fazer um comércio armado, saindo da Suécia, atravessando o Báltico e descendo pelos grandes rios russos, chegaram ao contacto com os bizantinos ortodoxos e os islâmicos muçulmanos. No Ocidente, os nórdicos, ao mesmo tempo que conquistavam o centro da Inglaterra, colocavam uma cabeça-de-ponte no Norte da França, que em 911 o rei foi obrigado a ceder-lhes um feudo - a Normandia. A partir da aquisição da Normandia, passando a ser conhecidos por normandos, em 1027 estabeleceram-se em Nápoles e Sicília, e em 1066 conquistaram a Inglaterra. 

Os meios militares sozinhos não eram suficientes para deter a devastação provocada pelos vários atacantes dos séculos IX e X. A Europa ocidental tinha necessidade, como a China diante dos nómadas da estepe, de alguma força cultural com que pudesse neutralizar o barbarismo e assimilá-los ao mundo governado. Os sarracenos, devido à sua religião, não podiam ser assimilados. Eles também atacavam e pilhavam, com a garantia moral dos ghazi, que eram guerreiros islâmicos de fronteira. Porém, vikings e magiares ainda viviam no mundo primitivo de deuses vingativos ou distantes a que pertenciam os povos teutónicos e da estepe antes de ouvirem a palavra de Cristo ou Maomé. Portanto, eram pagãos. A Igreja cristã já realizara um extraordinário trabalho de pacificação na Europa ocidental, como foi o caso da conversão dos francos em 496.

A conversão foi muitas vezes imposta pela ponta da espada, mas os cristãos, tal como o inglês Bonifácio, apóstolo dos germânicos, também morreram como mártires no esforço de implantar o Evangelho entre os povos pagãos. Foi pelos mesmos meios que os magiares foram convertidos no final do século X, fazendo da Hungria um bastião de resistência, quer contra as invasões vindas da estepe asiática, quer vinda dos escandinavos. 

Com efeito, a Europa depois do Império Romano, sem o Cristianismo teria sido um lugar bem diferente. Isso não quer dizer que algo não tenha ficado da civilização romana. Mas as instituições civis de Roma eram fracas demais para proporcionar uma base para a reconstituição da ordem e, na ausência de exércitos disciplinados, todo o continente entrou em conflitos endémicos sobre direitos territoriais e tribais. Porém, havia limites ao que a Igreja de Roma podia alcançar em sua obra de pacificação.

No Oriente, os bispos cristãos persistiam na prática de Constantinopla se subordinar ao imperador bizantino. Nas antigas terras cristãs que caíram nas mãos dos muçulmanos, as autoridades religiosas e seculares uniram-se na pessoa do califa. Mas no Ocidente o Papa do Vaticano resistia a essas acomodações. Sucessor de Roma e sediado em Roma, o papado buscou, a partir da queda do Império Romano, estabelecer a distinção entre autoridade religiosa e secular e justificar a subordinação da segunda à primeira. Carlos Magno restaurou o Império Romano, a que chamou Sacro, pela espada, mas o seu título de imperador devia a legitimidade, aos olhos dos papas, à sua coroação por Leão III na Sé de São Pedro.

No século XI a Igreja, pela sua riqueza, faz soar mais alto o seu poder temporal. Tornara-se mais rica e mais confiante em toda a parte. Suas terras, amiúde obtidas por legados caridosos, proporcionavam aos governantes muitos de seus feudos militares; seus mosteiros, igualmente fundados sobre heranças caridosas, tornaram-se centros de uma forte teologia que encontrava os argumentos para reforçar as pretensões papais à primazia. Esses argumentos censuravam o desenvolvimento da prática pela qual imperadores e reis, que designavam ou “investiam” bispos e abades em seus postos, usavam homens dóceis como instrumentos do governo civil, notadamente na convocação e manutenção de forças militares. Os teólogos admitiam com relutância a moralidade do combate quando realizado para impor ou restaurar os direitos legais de um soberano; a advertência de Cristo de “dar a César o que é de César” proporcionava, por extensão, a justificação necessária. Todavia, mantinham que matar e ferir eram pecados pelos quais era preciso fazer penitência.

Depois da batalha de Hastings, em 1066, os bispos normandos impuseram aos seus próprios cavaleiros um ano de preces e jejuns por matar um homem, quarenta dias por ferir —, embora Guilherme, o Conquistador, tivesse lutado contra Haroldo e os anglo-saxões com a aprovação do Papa de sua reivindicação de que buscava a restituição de seus direitos de soberano. No grande “conflito de investidura” entre o Papa Gregório VII e o Sacro Imperador Romano Henrique IV, no século XI, cuja questão manifesta era a da precedência na nomeação de bispos, Gregório não relutou em montar uma aliança de normandos e germânicos para lutar contra o imperador. No entanto, pairava sempre a dúvida cristã de como a bênção de Cristo aos pacificadores podia ser reconciliada com o impulso do homem a cavalo, mesmo quando cavalgava sob a bandeira papal, de ceder à ânsia de sangue quando enfrentava um semelhante de espada em punho.

Era uma questão de consciência que não podia ser evitada na Europa, onde metade da alta sociedade que não trabalhava usava trajes religiosos, enquanto a outra metade usava armaduras e mantinha cavalos de guerra. A classe dos cavaleiros do século XI ainda era tosca e os costumes da cavalaria ainda estavam por vir. Apenas duzentos anos antes, o decreto carolíngio de que “cada homem que tem um cavalo deve vir montado à hoste” tinha “trazido junto com as fileiras da nobreza fundiária uma horda de aventureiros presunçosos cujo principal título para acederem à nobreza [...] era que montavam em um animal nobre”. A Europa continuava a ser uma sociedade essencialmente guerreira. A lei de Deus caía em ouvidos moucos quando o sangue fervia e quando a lei civil não tinha uma jurisdição maior que o poder de um senhor de impor os direitos que o título lhe dava.

Foi, portanto, um alívio para a Igreja e os reis quando, no final do século , a disputa pela investidura foi encoberta por uma nova chamada às armas contra um inimigo comum não cristão. Em 1088 foi eleito papa Urbano II, um monge de Cluny, um dos mosteiros centrais da teologia do poder papal, que tratou imediatamente de restabelecer pela diplomacia as boas relações com o Sacro Imperador Romano. Ao mesmo tempo, começou a pregar que era pecado cristão lutar contra cristão. Em 1095, no Concílio de Clermont, recordou a ideia da Trégua de Deus, o armistício da Quaresma e dias santos, e exortou os cristãos a “deixar de matarem uns aos outros e, em vez disso, travarem uma guerra justa”. Lembrou também seus ouvintes de que, após o desastre de Manzikert, 24 anos antes, os Bizantinos haviam feito um apelo para o Ocidente, para que fosse em defesa da Cristandade no Oriente, que os Turcos muçulmanos continuavam a penetrar nas terras cristãs e que a cidade sagrada de Jerusalém estava em mãos islâmicas. Fez então um apelo para que se montasse sem demora uma campanha para devolvê-la à Igreja. Estava lançada a Primeira Grande Cruzada.

No século X, os muçulmanos da Espanha, sob o comando do dinâmico al-Mansur, tinham conquistado territórios dos pequenos reinos cristãos que sobreviviam no Norte da Península Ibérica, e jovens cavaleiros devotos do resto da Europa, incluindo normandos, italianos e franceses, foram combatê-lo. Para tanto, foram estimulados pelos abades de Cluny, que se interessavam especialmente pelo bem-estar dos peregrinos que iam ao ameaçado santuário do apóstolo Tiago, em Compostela. O patrono da expedição de 1073 foi o papa Gregório VII, um dos protagonistas do conflito sobre a investidura, que ao mesmo tempo que relembrava o mundo de que “o reino da Espanha pertencia à sé de São Pedro.

Assim, os cavaleiros e soldados cristãos foram estimulados pelas autoridades da Igreja a deixar de lado suas pequenas querelas e partir para as fronteiras da cristandade para lutar contra o infiel. Como recompensa de seus serviços, poderiam tomar posse das terras que reconquistassem e receberiam benefícios espirituais. A terra que fosse conquistada tinha de ser mantida, em última instância, sob suserania papal. Embora os grandes príncipes estivessem propensos a ficar de fora, os cavaleiros ocidentais responderam imediatamente ao apelo da guerra santa. Seus motivos eram, em parte, genuinamente religiosos. Estavam envergonhados de lutarem entre si: queriam lutar pela cruz. Mas havia também uma fome de terras a incitá-los, em particular no Norte da França, onde a prática da primogenitura estava sendo implantada. Na medida em que os senhores não se dispunham a dividir suas propriedades e seus cargos, que começavam a se concentrar em torno de castelos de pedra, os filhos mais novos tinham de procurar fortuna noutro lado. Havia uma inquietação geral e um gosto pela aventura na classe cavalheiresca da França, notadamente entre os normandos, separados por poucas gerações de seu passado de pirataria. A oportunidade de combinar o dever cristão com a aquisição de terras num clima meridional era muito atrativo.

Militarmente, os cruzados proporcionam o retrato mais preciso da natureza da guerra europeia no longo interregno entre o desaparecimento dos exércitos disciplinados de Roma e o reaparecimento das forças estatais no século XVI. A guerra dos cruzados era uma peleja estranha que confrontava a tradição do corpo-a-corpo dos guerreiros da Europa setentrional com as táticas evasivas e de fustigação dos nómades da estepe. O califado do Egito, antes de sua usurpação pelos mamelucos, dependia muito da cavalaria ligeira árabe e berbere, que lutava com lança e espada, em vez de arco composto, e portanto competia em termos desiguais com os cruzados encouraçados. Em Ascalon, em 1099, por exemplo, Godofredo, futuro rei de Jerusalém, destroçou um exército desse tipo. Mas com a chegada de Saladino do califado de Bagdá, em 1174, e particularmente depois que Baybars estabeleceu o poder mameluco no Egito, em 1260, foi contra o enxame da estepe que os cruzados tiveram de lançar aquela carga única e definitiva da qual dependia sua capacidade de vencer batalhas e, lutando sempre inferiorizados numericamente, a balança da vitória inclinou-se progressivamente contra eles.

Contudo, fizeram esforços decididos para melhorar sua eficácia contra métodos militares que lhes eram estranhos, notadamente pela incorporação, ao lado de suas forças montadas, de um número significativo de soldados de infantaria que, com armas afiadas, arcos e, por fim, bestas mecânicas, apresentavam uma face feroz aos cavaleiros sempre que avançavam para dividir e alvejar em detalhe um grupo de cavaleiros. Os soldados a pé tinham sido de pouca valia nas guerras contra magiares e vikings e menos ainda nas guerras sobre direitos que eram a obsessão da Europa feudal. Em território europeu, os homens montados efetivamente desestimulavam os sem montaria a portar armas, pois eles poderiam — especialmente se fossem moradores de cidades — defender e até reivindicar direitos não reconhecidos pelos guerreiros. Porém, na Terra Santa, os soldados de infantaria tinham seu valor, especialmente para proteger o carregamento da bagagem sem os quais os cruzados não podiam fazer suas campanhas, bem como os flancos vulneráveis do corpo montado quando disposto em ordem de batalha.

Na Europa, estava-se tornando uma questão de honra para um guerreiro não se esquivar do choque, uma continuação, numa forma elaborada, do código do lutador da falange. Nas cruzadas, o guerreiro ocidental defrontou-se com um adversário cuja tradição era bem diferente e que não via desonra alguma em lutar à distância e manobrar para evitar o golpe crítico. Com o passar do tempo, os cruzados adaptaram-se ao estranho desafio, incorporando um número cada vez maior de soldados de infantaria locais e escolhendo, sempre que possível, de acordo com a prática da região, lutar em lugares onde seus flancos ficassem protegidos por obstáculos. Enquanto isso, os muçulmanos se aproximavam da prática ocidental; há indícios de que no século XIII começaram a imitar a cerimónia ocidental da justa. O velho voto de fidelidade, pelo qual a Igreja celebrara a aceitação submissa pelo vassalo do benefício de um grande homem, foi transformado: agora o cavaleiro prendia-se pelo serviço pessoal ao senhor e jurava não apenas obedecer, mas também se comportar de forma cavalheiresca, o que significava levar uma vida honrada e até virtuosa.

Não demorou muito para que o foco do ideal cavalheiresco fosse transferido, no mundo dos cruzados, da pessoa do senhor para a da própria Igreja. No final do século XII, havia várias ordens monásticas que, embora originalmente dedicadas a obras pias tradicionais como a manutenção de hospitais para peregrinos à Terra Santa e seu bem-estar durante a jornada, estavam assumindo rapidamente uma outra função: a de lutar para defender a própria Terra Santa. Essas ordens de cavaleiros, os Hospitalários e Templários, logo se tornaram um esteio do esforço das cruzadas; além de recrutar e levantar fundos na Europa, construíram grandes castelos na Palestina e na Síria. 
A influência imediata dos Hospitalários e Templários no campo de batalha foi levar outros guerreiros cristãos, como os que lutavam contra os sarracenos na Espanha e os que travavam guerra contra os prussianos e lituanos pagãos, a criar ordens similares. Dessas, a mais importante foi a dos Cavaleiros Teutónicos que fundaram na Prússia conquistada um regime militar de cujas propriedades secularizadas Frederico, o Grande, quinhentos anos depois, recrutou o núcleo de seu corpo de oficiais. Na fundação das Ordens Militares, podemos perceber as origens dos exércitos regimentados que surgiram na Europa no século XVI. Pode-se dizer que a dissolução das ordens monásticas nos países protestantes durante a Reforma levou para os exércitos estatais os soldados laicos, través dos monges guerreiros que se secularizaram. 

As Cruzadas deixaram mudanças no mundo militar europeu que não se apagaram mais. Elas restabeleceram a presença dos Estados latinos (católicos romanos) no Mediterrâneo oriental, não só na Palestina e na Síria, mas de forma mais duradoura na Grécia, em Creta, em Chipre e no Egeu, o que permitiu às cidades do Norte da Itália, em especial Veneza (onde a vida e o comércio urbano não tinham morrido completamente), reabrir um próspero comércio com o Médio Oriente, e mais tarde, com o Extremo Oriente, e reviver o transporte seguro de bens entre portos de todo o Mediterrâneo. O dinheiro que ganharam com isso financiou a maioria das guerras travadas durante o século XV entre elas e, mais tarde, entre a França e os Habsburgo do Sacro Império Romano pelo domínio ao sul dos Alpes. Elas deram um poderoso impulso para fortificar a libertação da Espanha do islão (a Reconquista), bem como a ampliação para leste da fronteira cristã, na direção da Rússia e da estepe. 

Tendo debilitado os bizantinos, nada fizeram para deter o avanço dos turcos otomanos nos Balcãs; no início do século XV, eles já tinham chegado ao Danúbio, conquistando no processo o reino cristão da Sérvia e ameaçando o da Hungria. Em compensação, os cruzados tinham confrontado os reis belicosos da Europa e seus turbulentos vassalos com a ideia de um objetivo mais amplo para a guerra que as querelas intermináveis sobre direitos. Eles reforçaram a autoridade da Igreja em seus esforços para conter o impulso guerreiro dentro de uma estrutura ética e legal e, por mais paradoxal que pareça, ao ensinar à classe cavaleira europeia a disciplina da guerra útil, assentaram os alicerces para a ascensão de reinos efetivos. Com a afirmação do poder central dentro de suas fronteiras, esses reinos deram finalmente à luz uma Europa onde o conflito deixou de ser uma condição endémica da vida quotidiana e se tornou um empreendimento ocasional e, depois, externo.

O desenvolvimento desse padrão teria sido difícil de perceber para os coetâneos dos confusos séculos XIV e XV. Na grande disputa por direitos que levou à Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra (1337-1457), na guerra entre Habsburgo, Wittelsbach e Luxemburgo pela coroa do Sacro Império Romano e dos imperadores para controlar seus súbditos rebeldes da Boémia e da Suíça, e nas guerras das cidades italianas, qualquer ideia de que o domínio social e político, sem falar do militar, do homem a cavalo poderia estar a chegar ao fim teria parecido fantasiosa. Contudo, era esse o caso. A guerra montada entre homens encouraçados, travada na crença de que recuar do golpe na linha de batalha era uma ofensa, não só ao dever, mas à honra pessoal, acabou se revelando tão autodestruidora quanto o código da falange na Grécia antiga. Com efeito, há provas consideráveis de que mesmo em seu auge, no século XV, a guerra entre cavaleiros não era o que parece para nós ou o que seus devotos acreditavam que deveria ser na época. As armaduras cada vez mais pesadas e impenetráveis usadas pelos guerreiros montados (placas em vez de malha depois da metade do século XIV) estavam mais adequadas ao artificialismo das justas que às exigências do campo de batalha. Da mesma forma que a guerra moderna de investidas relâmpago encouraçadas e ataques aéreos precisos atinge a sua perfeição teórica apenas nos campos de treinamento, é bem possível que a armadura brilhante do guerreiro do século XV alcançasse o seu objetivo teórico de proteção diante da lança do adversário em um torneio e não contra uma flecha ou espada no campo de batalha. 

Das três batalhas da Guerra dos Cem Anos, temos conhecimento detalhado: Crécy (1346), Poitiers (1356) e Agincourt (1415). Os cavaleiros ingleses lutaram desmontados e apoiados por arqueiros nos três casos, e o grosso dos franceses desmontou nas duas últimas. Havia a ideia de que cavaleiros encouraçados, cavalgando joelho contra joelho, lanças em riste, em densas ondas de fileiras sucessivas, poderiam ter atacado uns aos outros sem que ocorresse uma catástrofe instantânea para ambos os lados no momento do impacto. Mas a guerra de ferro da Idade Média, tal como a dos gregos, era uma coisa horrível e sangrenta. Pior por sua recorrência e pela coragem sanguinária daqueles que se prendiam a ela. Apesar de todos os altos motivos envolvidos — independência cívica entre os gregos, fidelidade e cavalheirismo com os cavaleiros —, um certo primitivismo ocultava-se sob a superfície. Os gregos lutaram até à exaustão pela lógica de seus próprios métodos. O eclipse do modo cavalheiresco de guerrear teve uma causa externa: a chegada da pólvora.