quarta-feira, 5 de maio de 2021

As Direitas: conservadora; radical; extrema-direita


Há uma ligeira diferença entre Direita Radical e Extrema-Direita. Em ciência política, sobretudo europeia, os termos: direita radical; direita populista; extrema-direita – têm sido utilizados para referir certos partidos recentes na Europa, que têm crescido imenso na última década, mas cujo embrião remonta já aos finais da década de 1970, sendo apresentado como exemplo o paradigmático partido em França - Frente Nacional - de que Marine Le Pen é presidente desde 2011, quando substituiu seu pai - Jean-Marie Le Pen. Os habitualmente chamados "populistas de direita" têm partilhado uma série de causas, que incluem tipicamente: oposição à globalização e à União Europeia; críticas à imigração; ao multiculturalismo; e muitas outras agendas caindo no nacionalismo e obviamente na xenofobia e no racismo.

Segundo o historiador Pacheco Pereira, em Portugal, é no órgão de comunicação social “Observador”, onde podemos encontrar a direita radical em Portugal, dando nomes como: Rui Ramos, José Manuel Fernandes, Helena Matos, Jaime Nogueira Pinto, Alexandre Homem Cristo, entre outros. Pacheco Pereira chama-lhes o braço armado de um lóbi empresarial, assente numa lógica política sectária. Pacheco Pereira diz que o jornal tem qualidade, mas é um projeto político da ala mais radical da direita portuguesa e o que verdadeiramente nele conta é a opinião e a mobilização da tribo pelos comentários que comunicam com blogues, alguns atualmente muito próximos do Chega e da extrema-direita. Pacheco Pereira faz questão de sublinhar que a extrema-direita não é a mesma coisa que a direita radical.

A extrema-direita ainda vai mais longe que a direita radical, que ao contrário desta, rompe com a democracia e o Estado de Direito. A extrema-direita é ainda mais autocrática e nacionalista, desprezando e perseguindo minorias étnicas. Sendo, portanto, racistas e xenófobos, defendem uma ideologia "supremacista". O ditador Salazar, tendo sido tudo isso, logo, estaria hoje na extrema-direita. Em 1996, o cientista político holandês Cas Mudde observou que na maioria dos países europeus, os termos "direita radical" e "extrema-direita" eram utilizados indiferentemente. Citou a Alemanha como exceção, observando que entre os cientistas políticos alemães, o termo "direita radical" -  Rechsradikalismus era utilizado em referência aos grupos de direita que, estando fora do arco do poder, todavia, não ameaçavam "a ordem democrática". Utilizam esse termo para o distinguir da  Rechsextremen - extrema-direita. Estes grupos sim, ameaçam a constitucionalidade do Estado de Direito. Assim, como tal, a lei constitucional alemã podia proibi-los. Segundo o cientista alemão Klaus Wahl, no entanto, é a partir da direita radical que se faz a escalada para a extrema-direita já mais violenta, racista, totalitarista, já com métodos considerados terroristas. Estas fações tomam uma posição anti-imigrante ao ponto de proporem o seu repatriamento para defenderem o emprego dos nacionais. Tal como aconteceu com a extrema-direita fascista dos anos de 1930, Estes grupos sectários ao tornarem-se em partidos políticos, utilizam o sistema eleitoral para ascenderem ao poder, e depois deitarem-no abaixo. Atacam o sistema político vigente, considerando-se antissistema, com o argumento da corrupção. Existem também organizações de direita radical, intelectualmente mais sofisticadas, que para além de fazerem parte dos tais órgãos de comunicação social como "Observador", promovem a realização de conferências no mainstream do empreendedorismo capitalista. 

Portugal é um dos países da Europa que viveu mais tempo uma ditadura de extrema-direita, que ocupou os dois quarteis do meio do século XX. Por isso, não deve ser para admirar que em Portugal, no último quartel do século XX e neste primeiro quartel do século XXI, o regime político tenha tido um maior pendor para os partidos de esquerda, sendo os seguintes, os que atualmente ocupam 144 lugares dos 230 lugares no Parlamento: Partido Socialista; Bloco de Esquerda; Partido Comunista; PAN; PEV e Livre. Portanto, apenas 86 deputados da direita ocupam o hemiciclo. E ainda hoje alguns setores da esquerda consideram esta direita comprometida com o antigo regime de ditadura, uma estrutura de poder que justificava opressões e perseguições, por uma política política fascista. Assim, essa estrutura de que os portugueses estavam fartos, serviu de certo modo para estigmatizar a direita portuguesa. Mas como escreve António Barreto: "[. . .]  com o tempo, não seria de esperar outra coisa senão a conquista do poder. E depois a sua manutenção sem abrir mão dele. E assim se foi substituindo a história laudatória dos poderosos pela história militante dos ativistas, promovendo valores contrários aos anteriores conservadores. Mas seria tão estúpido fazer história para valorizar a Sharia, como foi estúpido no passado defender o cristianismo para justificar a Inquisição. Tudo o que pretenda ser história ou qualquer outra ciência social e que não se traduza num paciente e incansável esforço de procura da verdade, uma jornada sem repouso para compreender, é um passo atrás na civilização.[. . .]"

Assim, devermos estar atentos às derivas que resvalam, quer para um lado, quer para o outro. Uns quiseram manter poderes e privilégios. Depois outros vieram para conquistar poderes e privilégios. Portanto, querer conquistar o poder pelo poder, é perverso tanto de um lado como do outro. Muito diferente é privilegiar o valor do esforço e do rigor para alcançar, gradualmente, passo a passo, uma história isenta. Uma história feita por quem nada tem a ganhar com o que faz, nada tem a justificar, nada tem a defender, a não ser rigor e isenção.

Importa falar aqui do conservadorismo, e em particular do conservadorismo liberal, que se quer demarcar da direita radical e da extrema-direita. O conservadorismo liberal combina políticas conservadoras com elementos liberais, fortemente influenciado pelo liberalismo económico. Conservadores liberais modernos da Europa combinam as políticas conservadoras, no que diz respeito a valores sociais, mas com posições liberais em questões económicas. Historicamente, nos séculos XVIII e XIX, o conservadorismo incluía vários princípios baseados na questão da tradição estabelecida, respeito à autoridade e valores religiosos. Os conservadores ditos clássicos, muitas vezes para se definirem, invocam as ideias de Edmund Burke. E os conservadores liberais invocam John Stuart Mill, Jeremy Bentham e Montesquieu, os pais do liberalismo. A máxima do conservadorismo liberal é: "a economia vem antes da política". Os teóricos de direita hoje, localizados no conservadorismo liberal atual, podem ser vistos como os ideólogos dos partidos de centro-direita. Assim, há um consenso geral, que os conservadores liberais originais são aqueles que combinam atitudes sociais conservadoras com uma perspetiva liberal na economia, sem, contudo, criticar diretamente privilégios, uma vez que a democracia garante as liberdades individuais, aquelas a que no último quartel do século XX vieram a adotar as ideias de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, para a maior abertura do livre mercado, que acabou por cair naquilo a que se veio a chamar o neoliberalismo causador da crise financeira de 2008.

Edmund Burke era um Whig, do partido liberal britânico que se opunha ao partido de linha mais conservadora, Tory. Defendia a liberdade de mercado, era amigo de David Hume e admirava Adam Smith. Este dizia que Burke era o único homem que, sem nunca se terem encontrado, tinha as mesmas ideias económicas. Burke também defendeu a emancipação católica e o direito dos colonos americanos contra os abusos do governo inglês. O conservadorismo social também apoia a disseminação de valores familiares tradicionais, bem como o conceito de moralidade pública e os bons costumes. Nas relações intrafamiliares, boa parte desses setores rejeita a promoção de conceitos como o interesse superior da criança ou a autonomia progressiva, defendendo a ideia tradicional de sujeição estrita dos menores à autoridade dos pais e de outros adultos. Eles criticam que a promoção dos Direitos da Criança enfraqueceu a autoridade dos pais e acarreta o risco de degradação moral das famílias e da sociedade. Por outro lado, alguns setores conservam ainda um certo machismo exagerado, sobretudo quando rejeitam qualquer tipo de feminismo.

Vamos deixar para depois o caso dos “negacionistas”, que servem de exemplo para os atuais negacionistas que se manifestam contra as vacinas e as medidas oficiais anti-Covid-19. É um outro tipo de peste, negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável. Trata-se da recusa em aceitar uma realidade empiricamente verificável pela ciência. Em ciência, o negacionismo é definido como a rejeição de conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico. Os negacionistas defendem ideias tanto radicais como controversas. Um caso grave de negacionismo é o caso do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, um populista de extrema-direita. Os métodos de Bolsonaro são todos inspirados na extrema-direita internacional.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Uma viagem em cima de um camelo em Wadi Rum




Wadi Rum, também conhecido como O Vale da Lua, é um vale de arenito e rocha de granito no sul da Jordânia a leste de Aqaba. É o maior wadi da Jordânia. Um wadi é um leito seco de rio no qual as águas correm apenas na estação das chuvas. Rum é um nome que deve vir do aramaico e que significa alto ou elevado. 
Wadi Rum tem sido habitado por muitas culturas desde os tempos pré-históricos, como é o caso dos Nabateus, que deixaram a sua marca na forma de pinturas e grafitis rupestres, e templos. Na década de 1980 uma das formações rochosas em Wadi Rum foi batizada de "Os Sete Pilares da Sabedoria" em memória do livro que T. E. Lawrence escreveu logo após ter terminado a Primeira Guerra Mundial, embora os Sete Pilares referidos no livro, na verdade não têm ligação com Rum




No Deserto de Wadi Rum percorre-se a ancestral estrada do rei por onde, durante séculos, viajaram milhares de caravanas de camelos. O destino é a escultural e imponente Petra, escavada na rocha pelo povo Nabateu e posteriormente ocupada pelos romanos. Aqui a natureza mostra toda a sua força. As condições meteorológicas, de terra quente durante o dia e noites frias de céu estrelado, desafiam a vida humana. O cenário praticamente inalterado pelo homem é esculpido por ventos, que ergue e dá forma a imponentes labirintos de arenito e granito de cor avermelhada.




Quando do nosso regresso a Aqaba, os problemas internos absorveram-nos os restantes dias livres. Pela minha parte, dediquei-me especialmente à guarda para minha proteção pessoal. Os homens sentiam grande orgulho de pertencer à minha guarda pessoal, que deu azo a um profissionalismo quase teatral. Ao empenharem a sua resistência, aqueles homens ficavam desonrados se, por falta de energia ou insuficiência de coragem, não conseguissem cumprir as suas obrigações. Com uma curiosa justiça, os acontecimentos forçaram-me a portar-me à altura da minha guarda pessoal, a tornar-me tão duro e tão temerário como eles. Deste modo, organicamente, eu era eficiente no deserto, nunca me sentia com fome nem empanturrado, e a ideia da comida não me distraía. Aprendera a comer muito de uma vez. E depois passar dois, três ou quatro dias sem comer. E depois comer novamente até demais. A minha regra consistia em evitar regras de alimentação; e numa sucessão de exceções habituei-me a não ter hábitos. Podia beber muito num dia para compensar a sede da véspera e do dia seguinte. Da mesma maneira, embora o sono continuasse a ser, para mim, o mais caro prazer do mundo, substituía-o pelo oscilar intranquilo sobre a sela, durante uma marcha noturna, ou conseguia passar noite após noite em trabalho diligente, sem excessiva fadiga. Eu não era como os árabes, mas tinha a energia da minha motivação. As suas vontades menos preparadas cediam antes que a minha cedesse. E isso fazia de mim um duro e ativo. Para mim, os aspetos mental e físico eram uma unidade inseparável. O meu perverso sentido dos valores forçava-me a crer que o abstrato e o concreto, como símbolos, não representavam oposições mais fortes que um liberal e um conservador.

Era uma atitude niilista. O desfalecimento provinha sempre de uma fraqueza moral que corroía o corpo. Mas não tinha poder sobre a vontade desde que não houvesse traições internas. Quando marchávamos estávamos desencarnados sem consciência da carne ou dos sentidos. Olhávamos para o corpo com desprezo, não como veículo do espírito, mas quando, dissolvidos, os seus elementos serviam para estrumar um campo. Nós, pela nossa parte, para um único dia, já tivéramos suficiente adversidade. O terreno estava coberto de gelo, como se não bastasse a força do vento para nos atrapalhar; e nessa altura principiaram os nossos problemas. Os camelos pararam na neve derretida e lamacenta ao fundo de um talude de lama escorregadia e agacharam-se, sendo impossível fazê-los levantar, como se quisessem dizer-nos que não conseguiam levar-nos até lá acima. Desmontámos, para os ajudar, e nós próprios também começámos a deslizar pela encosta. Por fim, descalçámos as nossas botas novas adquiridas para nos protegermos contra o inverno, e, descalços, puxámos os camelos pela encosta e ajudámo-los a descer do outro lado. E tivemos de desmontar mais umas vinte vezes antes do pôr do sol. Aquele vento terrível não nos dava descanso. Nada na Arábia podia ser mais cortante que o vento norte em Maan, e naquele dia era ainda mais cortante e mais forte. Atravessava-nos as roupas, como se estivéssemos despidos. E provocava-nos cãibras nas pernas que não nos permitiam segurar-nos como devia ser na sela. Caíamos no solo de forma violenta com as pernas cruzadas, na atitude de quem ainda estava montado. Chegados já de noite a um riacho que ia cheio, decidi atravessá-lo. Os animais hesitaram, de modo que tivemos de ir à frente, a pé, mergulhando num metro de água gelada. Nos terrenos altos, do outro lado, o vento atacava-nos como um inimigo. Fizemos deitar os camelos numa falange e estendemo-nos entre eles, num relativo conforto, escutando o clamor do vento à nossa volta, tão forte como as altas ondas à volta do navio no alto mar. Cada um de nós dispunha de dois cobertores militares e de um pacote de pão cozido: deste modo estávamos bem apetrechados contra o mal e podíamos dormir em segurança no meio da lama e do frio.

Iniciada em 1916, a Revolta Árabe selou o fim do domínio do Império Turco-Otomano na região que estendia 
desde Alepo até Áden, no Iémen, o que abriu caminho para o domínio dos britânicos e dos franceses depois da guerra. O deserto de Wadi Rum e a Hejaz Railway guardam histórias de ataques aos comboios que Thomas Edward Lawrence, do Bureau Árabe do Império Britânico, deixou para memória futura na sua obra épica "Os Sete Pilares da Sabedoria". Ainda é possível conhecer pontos por onde passava a linha férrea, a única que cortava a região. Wadi Rum está associado a três nomes na história do sonho árabe, de fundar um estado unificado: o Xerife de Meca Hussein, da dinastia Hachemita; Auda Abu Tayi, líder beduíno, chefe dos Howeitas; e o galês Thomas Edward Lawrence. Foi na dinâmica do conflito árabe-turco que Lawrence da Arábia introduziu na região táticas dos chamados ataques terroristas aos comboios que atravessavam na única ferrovia que cortava a região, a Hejaz Railway. Construída a partir de 1900, com o apoio e a consultoria dos alemães, aliados do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

As ações terroristas de Lawrence, as promessas dos ingleses de entronizar Hussein, rei do Hejaz, num projeto da nação árabe unida, e o dinheiro inglês, que atraiu os beduínos, selou a aliança entre as antigas tribos árabes rivais. Os três líderes ousaram atacar a importante cidade portuária de Aqaba pelo deserto, algo considerado militarmente impossível, pela adversidade do terreno que teriam de cruzar. Os turcos foram apanhados de surpresa. Perderam Aqaba e, com ela, o único porto que tinham na região. À queda de Aqaba, em 1917, seguiu-se a conquista de Damasco. Os árabes penetraram e tomaram a cidade antes das tropas inglesas do general Allenby.

Os ingleses sofreram um duro revés dos turcos em 15 de agosto de 1915, na batalha entre navios britânicos e franceses contra a artilharia turca, no estreito de Dardanelos. Os ingleses e seus aliados tentaram melhor sorte em Gallipolli, numa planeada operação do então lorde do Almirantado: Churchill. Não só foram derrotados, mas humilhados durante quase nove meses. Os ocidentais recuaram à noite, às escondidas, depois de perder 43 mil homens. As baixas ocidentais alcançaram 220 mil homens, numa campanha que projetou a maior liderança político-militar turca no pós-guerra: o general Mustafa Kemal, Atatürk. Ingleses e franceses tentaram derrotar os turcos uma terceira vez, em setembro de 1915. Dessa vez, o alvo era Bagdade. Foram cercados em Kut, e depois de tentar até subornar o comandante turco, tiveram de se render para não morrer de fome.




A campanha árabe foi a única vitória inglesa no conflito contra os otomanos. E foi a única campanha em que as tropas regulares acabaram por ter um mero papel secundário. Por isso, tão logo Damasco foi tomada, Allenby e o rei Faisal, filho de Hussein, livraram-se de Lawrence, devolvendo-o à Inglaterra. Lawrence, entretanto, ganhou notoriedade com a obra: Os Sete Pilares da Sabedoria, em que narra a campanha da Revolta Árabe.

Não demorou muito para Hussein descobrir que as promessas inglesas valiam tanto quanto os seus exércitos. O Médio Oriente foi retalhado entre franceses e ingleses pelo acordo Sykes-Picot. Hussein tentou governar o Hejaz, mas foi destronado pelos seus inimigos sauditas. Aos seus dois filhos couberam os prémios de consolação: Abdullah ficou com a Jordânia, que não tinha petróleo algum, nem água sem a Palestina que foi entregue pelos ingleses aos israelitas. A Síria foi dada a Faisal. Mas quando este quis, de facto, governar, foi expulso pelos verdadeiros donos, os franceses. Os ingleses o acomodaram no recém-criado Iraque. Faisal, como se sabe, não durou muito, pois, ao contrário da Jordânia, o Iraque tinha petróleo e água. Terminou expulso de lá por militares árabes precursores de um movimento pelo qual ascendeu Sadam Hussein. Os árabes perderam o seu destino pelas mãos dos que os haviam ajudado. 

De volta ao Império Britânico, o herói Lawrence submergiu por cargos menores no Exército e na Aeronáutica, evitando expor-se como celebridade que já era, até encontrar o seu destino num acidente errático de moto. Afinal, como diria Friedrich Nietzsche, nada acontece na vida de um homem que não se pareça com ele.




Connosco viajaram dois mil camelos do Sirhan, carregando munições e víveres. A Minha escolta estava comigo, e Mirzuk tinha os seus Ageyls, com dois famosos camelos de corrida. Quase ao crepúsculo, avistámos a linha férrea numa ampla curva pela região descampada por entre tufos baixos de arbustos e grama. Vendo que tudo se apresentava pacífico, avancei para fiscalizar a travessia da linha o que despertava grande emoção tocar os trilhos, que eram o alvo e a razão de todos os nossos esforços. Cavalgando colina acima, as patas do meu camelo fizeram barulho ao deslocar umas pedras. Da longa sombra de uma passagem subterrânea, à minha esquerda, surge um soldado turco que dormia. Olhou embaraçado para mim e para a pistola na minha mão e depois, com tristeza, para a sua carabina encostada ao muro do aterro, alguns metros além. Era um jovem robusto, mas de aspeto sombrio. Fitei-o e disse-lhe, em voz baixa: “Deus é misericordioso.” Ele conhecia o sentido da frase árabe; e ergueu os olhos para mim. O seu rosto ainda ensonado começou lentamente a transmudar-se, assumindo uma expressão de incrédula alegria. Contudo, ele não disse palavra. Premi, com o pé, o pescoço peludo do meu camelo, começando com passos cautelosos, através dos trilhos, descendo pelo declive. Senti-me enternecido com o jovem soldado turco como sempre a gente se sente quando poupa a vida de alguém. Por isso, segui o caminho de costas viradas para ele sabendo que não iria tentar alvejar-me pelas costas. A certa distância, olhei para trás. Ele pôs o polegar no nariz e, com a mão aberta, acenou para mim com os dedos.

Acendemos à fogueira do café, como baliza para o resto da caravana, e esperamos até que as suas silhuetas escuras passassem a linha. Ali repousamos aquela noite, porque Zaagi havia abatido uma abetarda, cuja carne branca Xenofonte, com razão, qualificara como sendo boa. Enquanto festejávamos, os camelos também festejaram. Por fim, chegou a notícia de que os ingleses haviam tomado Amã. Em meia hora pusemo-nos a caminho de Themed, através da linha deserta. Mensagens ulteriores informaram-nos que os ingleses estavam recuando, e embora houvéssemos advertido os árabes a respeito desta manobra, ainda assim se mostraram perturbados. Outro mensageiro relatou como os ingleses acabavam de fugir de Salt. Isto contrariava inteiramente as intenções de Allenby, e eu jurei, imediatamente, que não era verdade. Um homem veio galopando para dizer que os ingleses haviam feito saltar apenas uns poucos trilhos, ao sul de Amã, depois de dois dias de inúteis assaltos contra a cidade. Senti-me seriamente perturbado no conflito de rumores contraditórios e mandei que Adhub, que merecia confiança por não perder a cabeça, fosse para Salt, levando uma carta destinada a Chetwode, ou a Shea, pedindo-lhes uma nota sobre a situação real. Durante as horas de permeio, vagamos inquietamente pelos campos de cevada nova, com o espírito a elaborar plano atrás de plano, em febril atividade. Bem tarde, já noite, os compassos dos cascos dos cavalos de corrida de Adhub ecoaram pelo vale, e ele chegou para nos dizer que o paxá Jemal agora se encontrava em Salt, vitorioso, enforcando os árabes locais que haviam dado as boas-vindas aos ingleses. Os turcos ainda prosseguiam repelindo Allenby para longe, pelo vale do Jordão abaixo. Pensava-se que Jerusalém seria recuperada por eles. Eu conhecia muito bem os meus compatriotas e rejeitava esta possibilidade; mas, sem dúvida alguma, as coisas corriam muito mal. Regressamos, desconcertados, para o Atatir. Esta reviravolta, por ser inesperada, feria-me ainda mais. O plano de Allenby parecia modesto, e era deplorável que tivéssemos de tombar assim aos olhos dos árabes. Nunca haviam confiado em nós, para a realização das grandes coisas que eu predizia; e agora, com os seus pensamentos independentes, passavam a gozar a primavera por ali. Foram atraídos por algumas famílias ciganas, vindas do norte com os seus apetrechos de latoeiro sobre jumentos. Os homens da tribo Zebn nos saudaram com uma alegria que mal compreendi. Até que notei que, além dos legítimos lucros do seu ofício, as mulheres abriam-se a outros adiantamentos. Eram fáceis, particularmente para os Ageyls; e, durante algum tempo, prosperaram de modo extraordinário, uma vez que os nossos homens tinham tanto apetite como generosidade. Eu também as utilizei. Parecia verdadeira pena estar sem coisa alguma a fazer, tão perto de Amã, sem sequer lançar um olhar ao redor. Assim, Farraj e eu alugamos três das alegres pequenas mulheres, vestimo-nos como tais, e fomos passear pela aldeia. A visita teve êxito, embora a minha decisão final fosse a de que a praça deveria ser deixada em paz. Tivemos apenas um momento ruim, junto à ponte, quando regressávamos. Alguns soldados turcos, encontrando-se connosco e tomando-nos os cinco pelo que parecíamos, tornaram-se excessivamente íntimos. Dando provas de recato, bem como de um golpe de canela pouco habitual a mulheres ciganas, escapamos, intactos. Para o futuro, decidi retomar o meu costume de usar o uniforme de simples soldado britânico, em campos inimigos. Era excessivamente jactancioso para ser suspeito.

Depois disto, determinei que os indianos de Azrak regressassem ao acampamento de Faisal, devendo voltar eu próprio para lá. Partimos em uma daquelas claras madrugadas que despertavam os sentidos com o sol, ao passo que o intelecto, cansado pelo pensar da noite, ainda continuava a cochilar. Por uma ou duas horas, em semelhantes manhãs, os sons, os aromas e as cores do mundo impressionavam o homem, um a um, diretamente, sem ser filtrados, nem transformados em tipos pelo pensamento; pareciam existir suficientemente por si próprios, e a falta de coerência e de cuidado, na criação, já não irritava. Marchamos para o sul, ao longo do caminho de ferro, esperando cruzar com os indianos de Azrak, mais lentos do que nós; o nosso pequeno grupo, montado em excelentes camelos, passava de uma elevação a outra, a fim de vigiar o horizonte. O frescor do dia encorajava-nos ao emprego de boa velocidade por cima de todas as colinas listadas de quartzo, desprezando a infinidade de veredas desérticas que conduziam apenas aos abandonados acampamentos do ano anterior, ou do último milhar, ou dezena de milhar de anos: porque uma estrada, uma vez palmilhada e sulcada naquele misto de quartzo e de pedra calcária, marca a face do deserto por todo o tempo em que o deserto durar. Perto de Faraifra vimos uma pequena patrulha de oito turcos marchando linha acima. Os meus homens, refeitos depois dos dias de folga de Atatir, pediram-me que realizássemos uma incursão contra eles. Julguei o caso muito insignificante, mas, quando eles resmungaram, concordei. Os mais jovens se arremessaram instantaneamente para a frente, a galope. Pus em ordem o resto, através da linha, para repelir o inimigo, forçando-o a retirar-se do abrigo, por trás da passagem subterrânea. Zaagi, a cem metros à minha direita, vendo o que se desejava, volteou de lado, sem perda de tempo. Mohsin seguiu-o um instante depois, com a sua secção; entretanto, Abdulla e eu fomos para diante, marchando vigorosamente do nosso lado, a fim de apanharmos o inimigo de ambos os flancos, juntos e ao mesmo tempo. Farraj, cavalgando à frente de todos, não quis ouvir os nossos gritos nem notou os tiros de advertência disparados por cima da sua cabeça. Contemplou a nossa manobra, mas prosseguiu no trote aloucado a caminho da ponte, onde chegou antes que Zaagi e o seu grupo houvessem atravessado a linha. Os turcos cessaram o fogo, e supusemos que se houvessem retirado para o lado de lá da colina, em busca de maior segurança; mas, quando Farraj puxou as rédeas, parando sob o arco da ponte, ouviu-se um tiro, e ele pareceu cair ou saltar da sela, desaparecendo. Pouco depois, Zaagi colocou-se em posição, sobre a colina, e o seu grupo deflagrou para o ar vinte ou trinta tiros, como se o inimigo ainda lá estivesse. Senti-me inquieto a respeito de Farraj. Seu camelo ali estava, ileso, junto da ponte, só. Farraj talvez estivesse ferido, ou perseguindo o inimigo. Eu não podia acreditar que ele houvesse deliberadamente cavalgado até aos turcos, em campo descoberto, e depois parado; contudo, era o que parecia. Mandei que Feheyd fosse ter com Zaagi, ordenando a este que corresse pelo seu lado tão cedo quanto possível, enquanto nós marchamos a trote apressado diretamente sobre a ponte. Ali chegamos, juntos; encontramos um turco morto, e Farraj terrivelmente ferido, com o corpo atravessado de lado a lado, jazendo junto ao arco, tal como caíra do camelo. Parecia estar inconsciente; mas, quando nos apeamos, saudou-nos, e depois caiu em silêncio, mergulhando no sentimento de solidão que sempre sobrevém aos homens feridos que pensam estar a morte perto. Rasgamos-lhe as roupas e contemplamos, inutilmente, a ferida. A bala apanhara-o em cheio e parecia haver-lhe lesado a espinha dorsal. Os árabes disseram, imediatamente, que ele teria apenas umas poucas horas de vida. Tentamos movê-lo, pois parecia estar sem forças, embora não revelasse sofrimento algum. Procuramos estancar o sangue, que escorria em jato amplo e lento, pondo manchas semelhantes a papoulas, na erva; mas isto parecia impossível, e, depois de breve tempo, ele próprio nos pediu que o deixássemos a sós, visto que estava morrendo, e que se sentia feliz por morrer, uma vez que já não alimentava amor algum para com a vida. Com efeito, havia longo tempo que perdera o gosto de viver; os homens muito cansados e entristecidos frequentemente se enamoram da morte, com essa fraqueza triunfal que se manifesta depois que a força é vencida na última batalha.

Enquanto nos atarefávamos em torno dele, Abd el Latif deu o grito de alarme. Estava vendo cerca de cinquenta turcos que subiam pela linha, na nossa direção; logo depois, um vagonete a motor foi ouvido, vindo do norte. Éramos apenas sessenta homens, em posição impossível. Eu disse que devíamos nos retirar imediatamente, transportando Farraj connosco. Os homens tentaram erguê-lo, primeiro na sua capa, e a seguir, num cobertor, mas a consciência do ferido voltou, e ele gemeu tão pungentemente que não tivemos coração bastante para o molestar mais. Não podíamos deixá-lo onde se encontrava, para que os turcos dele se apoderassem, porque já os havíamos visto queimar vivos os nossos infelizes feridos. Por esta razão combináramos, antes de entrar em ação, que um daria cabo da vida do outro, em caso de ferimento irremediável: mas eu nunca concebera que pudesse recair em mim o dever de matar Farraj. Ajoelhei-me a seu lado, segurando a pistola perto do chão, junto à sua cabeça, de maneira que ele não pudesse perceber o meu propósito; mas deve ter adivinhado, pois abriu os olhos e me agarrou com sua mão ardente e escamosa, a delicada mão daqueles imaturos moços de Nejd. Esperei um momento, e ele disse: “Daud ficará zangado com o senhor.” O antigo sorriso aflorou estranhamente ao rosto acinzentado e crispado. Respondi-lhe: “Saúde-o por mim.” Deu-me a resposta formal: “Deus lhe dará paz”, e, por fim, cansado, fechou os olhos. O vagonete turco estava, agora, bem perto, serpenteando pelos trilhos abaixo, na nossa direção, como um escaravelho; e as balas da sua metralhadora riscavam o ar ao redor das nossas cabeças, enquanto fugíamos para trás das colinas. Mohsin conduziu o camelo de Farraj, sobre o qual se achavam o seu odre e os seus cobertores; estes conservavam ainda a forma do corpo dele, no momento em que caíra junto à ponte. Ao anoitecer, fizemos alto; e Zaagi aproximou-se de mim, sussurrando que todos altercavam para saber quem deveria montar o esplêndido animal no dia seguinte. Ele o queria para si próprio; eu sentia-me amargurado pelo facto de aquela morte haver de novo roubado a minha pobreza; e, para vingar uma grande perda por meio de outra perda, embora pequena, matei o pobre animal com a minha segunda bala. Depois, o sol tombou sobre nós. Durante aquele meio-dia quente e irrespirável, nos vales de Kerak, o ar confinado havia pairado, na sua estagnação, sem movimento algum, enquanto o calor sugava o perfume das flores. Com a escuridão, o mundo se pôs novamente em movimento, e uma brisa, procedendo de oeste, rastejou pelo deserto acima. Encontrávamo-nos a quilómetros de distância das ervas e das flores, mas de súbito as sentimos perto de nós, assim que as ondas de ar perfumado passaram, espalhando uma doçura pegajosa. Entretanto, isto logo se dissipou, e o vento noturno, húmido e enervante, se seguiu. Abdulla trouxe-me o jantar: arroz e carne de camelo (do camelo de Farraj). Depois adormecemos.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Assédio sexual. O juridiquês e outros jargões



As recentes declarações da atriz Sofia Arruda ao assumir que foi vítima de assédio sexual por parte de alguém que alegadamente tinha muito poder numa estação televisiva e que, por causa disso, fora afastada durante anos dos ecrãs, só agora trouxe de uma forma mais visível  o tema do assédio sexual para a agenda mediática em Portugal, reproduzindo aquilo que já tinha começado a surgir em outubro de 2017, em Hollywood, e que ficou conhecido pelo movimento #MeToo (Eu também).

Agora o Expresso também contactou a apresentadora de televisão e atriz Catarina Furtado, que tinha assumido em 2018, num podcast da Rádio Comercial, ter sido assediada, sem na altura revelar mais detalhes. Mas aceitou agora aprofundar mais a questão e revelar pela primeira vez que foram três as pessoas com cargos superiores hierárquicos que a assediaram em momentos diferentes do seu passado profissional.

O assédio sexual não se encontra autonomizado no Código Penal, mas está criminalizado através da coação sexual (casos de contacto forçado da vítima com partes íntimas do corpo do agressor e com direito a penas até oito anos de prisão) e da importunação sexual (atos de exibicionismo ou formulação de propostas de teor sexual explícito e com penas até um ano de prisão). Todos os dias, são abertos pelo Ministério Público três casos por estes dois tipos de crimes, porém, a maior parte acaba arquivada.

Muita gente ainda deve estar lembrada da conduta do juiz desembargador Neto de Moura, quando citou a Bíblia para atenuar uma sentença por violência doméstica. Em 16 de janeiro de 2020, li a notícia que: 
«Neto de Moura havia mudado o nome com que assinava as suas decisões para Joaquim Moura. O acórdão de Neto de Moura que gerou mais polémica versa sobre um caso de violência doméstica, que envolveu agressões com uma “moca” com pregos.» Neto de Moura decidiu aplicar pena suspensa aos dois culpados alegando que o “adultério” da mulher era atenuante: 
“O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse ato a matasse”.
O juridiquês é a linguagem que se fala nos tribunais, que para a maioria do comum dos mortais que falam português é como se falassem chinês. E até mesmo para muitas pessoas licenciadas em Direito. É comum encontrar textos em juridiquês onde uma única frase se estende por um parágrafo inteiro, com dezenas de vírgulas e verbos condicionais, apostos com citações de artigos dos códigos penais. 

Quando o juridiquês é traduzido para outros idiomas menos tolerantes de frases infindáveis, o tradutor, para o público perceber, costuma quebrar estes parágrafos originais e ininteligíveis em várias frases mais coerentes, dado que quando o leitor chega ao meio do parágrafo-frase, a frase já deu tantas reviravoltas gramaticais e já agrupou tantas ideias que não é mais possível acompanhar o raciocínio sem voltar ao princípio. Daí que um amigo meu, em tom humorístico, tenha transformado o assunto assim, numa piada:
O quê? Uma velhinha de dois canos matou uma espingarda de sem anos? Não pode ser uoó Ramalho, vai pró. . . vira a página e torna a ler, vai-te. . .
Ah! Uma velhinha sem ânus foi morta por uma espingarda de dois canos. 
Chiça Ramalho, não pode ser, uma velhinha tem muitos anos. . . vira a página e torna a ler. 
Ah! Cem anos! E uma espingarda com dois ânus.
Atualmente, é importante ressaltar o incómodo da sociedade em face do "jargão jurídico", o que devia ser evitado ao máximo, a favor da clareza e transparência, e para nossa sanidade mental. Já lá vão uns anos quando, precisamente um tal Ramalho, teve o privilégio do convite para jantar em casa de um amigo, onde também estavam dois desembargadores, dois advogados e dois médicos, que nos anos de 1960 um deles havia dado guarida a Álvaro Cunhal na clandestinidade. Nunca lhe tinha passado pela cabeça, ao Ramalho, que os bastidores daquelas eminências fossem assim. Ora, nessa fase do campeonato, tudo levaria a crer que ele já estaria vacinado contra santas ingenuidades e filhos de Deus. Por isso, seria de esperar que já não se deixasse impressionar, mas impressionou, não apenas as ladainhas jurídicas, mas também um episódio de um encontro que um tal juiz desembargador havia tido com Álvaro Cunhal dos tempos da clandestinidade. E referiu-se aos olhos de lince do Cunhal que fulminou o juiz quando ele disse um suposto disparate. Como eram os olhos do Cunhal? Ele disse de outra maneira: “um olhar mefistofélico quase hipnotizante”.

É claro que os detalhes, perdem-se entre a memória e o esquecimento. A não ser a tal ladainha do juiz desembargador, uma narrativa de quando ainda jovem estudante, que mais parecia a Ceia dos Cardeais adulterada (do latim adulterāre, que neste caso tanto dá para significar falsificar como cometer adultério). Mas essa ladainha já o Ramalho se tinha fartado de ouvir a um colega, embora com outros contornos, trinta anos antes quando ainda andava no primeiro ano da Faculdade. Assim, o juiz desembargador, contou a sua história, quando ainda jovem estudante: "
Confirmo o que havia dito, ter amado uma rapariga linda de morrer, que mais tarde veio a dar em prostituta, porque o pai, que era um estupor, casou-a com o labrego de um abastado lavrador" :
Ele e ela ainda eram muito jovens, e ele passou os dias que lhe restaram, antes de ir para a Faculdade, a rondar a quinta do lavrador. Até que um dia, viu-a. Então, conseguiu persuadi-la a abrir o portão da eira e deixá-lo entrar, para depois os dois se infiltrarem num velho cabaneiro onde o caseiro guardava a palha, e onde estava por lá um carro de madeira de duas rodas, ao alto, todo escangalhado. Bem, ele não contava que o lavrador estivesse à coca, a topar a cena toda. A verdade é que os dois foram surpreendidos por ele no enlace de uma foda. E sendo o lavrador um homem alto, forte e machacaz, não esteve com meias medidas, desancou o jovem, que viria a ser mais tarde um juiz desembargador, com uma valente bofetada e um pontapé no cu. O jovem desandou às arrecuas, descalço e com as calças na mão. E, aos saltinhos, pelo lajedo da eira, lá se escapuliu por uma quelha, escondido do mundo, conforme pôde. Depois disso, já todos sabíamos que ele tinha ido estudar Direito para Coimbra. E que só soube muito mais tarde que a jovem rapariga havia deixado o lavrador e desaparecido para parte incerta.

domingo, 2 de maio de 2021

A história colonial dos portugueses e as falácias do luso-tropicalismo [1]


No passado 25 de abril, na cerimónia comemorativa dos 47 anos da Revolução dos Cravos, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa fez um discurso que para a maioria dos comentadores e líderes políticos terá sido o melhor discurso que ele alguma vez terá feito. E a forma como abordou a nossa história dos últimos 60 anos, tendo como pano de fundo o fim do império e o colonialismo, não podia ter sido mais oportuna numa altura em que estão a vir ao de cima as feridas que ficaram e ainda mal cicatrizadas devido ao facto de o tema dos estudos pós-coloniais ainda estar a fazer correr muita tinta em Portugal.

Marcelo Rebelo de Sousa falou da guerra de África, da descolonização e da difícil construção da democracia num país destituído de tradições democráticas. Prestou a homenagem devida a todos quantos de um lado e de outro pagaram a fatura mais cara com a sua vida. Lembrou assim os mortos da guerra. E falou também dos retornados e da sua trágica situação ao terem de refazer a vida depois de terem deixado tudo para trás.

Numa era de polarização, radicalismo e desconstrução da história, pediu aos portugueses que olhassem para a sua história com os olhos e as perspetivas dos vários lados, sem cegueira sectária nem anacronismos. Ou seja, ler a história verdadeira enquanto ciência sim, mas sem a julgar ou criminalizar com as grelhas epistemológicas dos dias de hoje.

Segundo o historiador Fernando Rosas, a representação do luso-tropicalismo perdura na sociedade portuguesa atual. O discurso legitimador do colonialismo português apresentando-o como um colonialismo bondoso e tolerante perdura e está muito presente nos discursos oficiais. Fernando Rosas sublinha que o luso-tropicalismo sendo o aspeto mais perdurável da ideologia do Estado Novo nem sequer é um conceito que tenha existido desde o princípio no colonialismo do anterior regime, mas acaba por manter-se ao longo das décadas. Até ao princípio dos anos 1950 a doutrina colonial predominante era a superioridade do homem branco, o darwinismo social, a raça superior, branca e as raças inferiores, os negros e, portanto, o colonialismo era legitimado em nome de uma raça que trazia a civilização e a fé às raças inferiores. Com o final da II Guerra Mundial as circunstâncias mudaram devido ao início do período da descolonização, das independências e dos movimentos de libertação.

Fernando Rosas defende que o Estado Novo importou as ideias do sociólogo brasileiro Gilberto Freire que defendiam que os portugueses teriam um "jeito especial" e um colonialismo diferente e uma forma de se "misturarem" dando origem a sociedades mestiças. Essa ideia do colonialismo bondoso e amigo dos africanos ficou e manteve-se como uma espécie de doutrina oficiosa do Estado português, em democracia, mas a realidade é bem diferente. O colonialismo português, nas suas relações com o africano, foi violento, racista, recorreu ao trabalho forçado, às culturas obrigatórias, ao estatuto dos indígenas, tal como o colonialismo francês, inglês ou belga. Não há grandes diferenças. Pode haver diferenças do ponto de vista administrativo, mas do ponto de vista doutrinário as diferenças não são nenhumas.

Assim, temos de considerar que estamos perante a voz dos que dominaram, e a voz dos que foram dominados. Importa saber se haverá lugar então para uma terceira voz, ou seja, uma voz autónoma. Uma cientista política cabo-verdiana, cujo doutoramento em estudos luso-afro-brasileiros o realizou na Universidade de Massachusetts, pronunciou-se recentemente, mas cuidadosamente, que “Os Maias” de Eça de Queirós, sendo uma das maiores obras de arte da cultura portuguesa, defende que em edições futuras devia ser feita uma introdução pedagógica no sentido de chamar a atenção para o viés do supremacismo, aspeto hoje em dia candente nas novas derivas autocráticas. O supremacismo é uma ideologia que defende, propala e reclama a supremacia de um grupo específico de indivíduos sobre outro ou outros, invocando raça ou características étnicas, religiosas, sociais, culturais e de género pretensamente dominantes.

Vejamos as seguintes transcrições de "Os Maias" de Eça de Queirós:
"Ega declarou muito decididamente ao Sr. Sousa Neto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido quem era seriamente temido... Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse lícito dar vergastadas […] Só houvera duas civilizações em que o homem conseguira viver com razoável comodidade: a civilização romana e a civilização especial dos plantadores de Nova Orleães. Porquê? Porque numa e noutra existira a escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!” Sousa Neto, perturbado, pergunta a Ega se não acredita no progresso. Ega, “entalando de vez em quando o monóculo no olho”, diz-lhe que não.

Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros […] Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso há ainda detalhes interessantes a terminar […] Por exemplo, em Luanda […] Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem de um teatro normal, como elemento civilizador! "

 O sociólogo brasileiro Gilberto Freire, criador da doutrina do luso-tropicalismo, define o “mundo português” – Portugal, Brasil, África e Índia portuguesa, Madeira, os Açores e Cabo Verde – em termos de uma “unidade de sentimento e cultura”. Já alguns anos depois, definirá este mundo em termos de “civilização luso-tropical”: uma cultura e ordem social comuns, às quais confluem homens e grupos de origem étnica e procedências culturais diversas.



quinta-feira, 29 de abril de 2021

Deepfakes


Um exemplo de Deepfake:



Deepfake é um neologismo em língua inglesa, uma amálgama de falso e profundo, para denotar o que agora a inteligência artificial faz quando coloca num vídeo ou numa fotografia a figura de uma pessoa, inclusivamente a falar com a a sua voz mas o que outro disse, com o objetivo de um embuste. Portanto, enganar-nos, umas vezes por diversão apenas, outras vezes com maldade com intenção de prejudicar alguém. Ou seja, a criação de vídeos falsos para nos convencer que uma certa pessoa disse uma coisa, sem que de facto o tenha dito. E geralmente diz coisas para o comprometer ou deixá-lo ficar mal perante a opinião pública.

Deepfakes e FakeNews são parentes. E o fenómeno em si não é recente. O que é recente é a utilização das novas tecnologias que utilizam os algoritmos da Inteligência Artificial. Não é de agora o apetite pela divulgação de notícias falsas como se fossem verdadeiras. Aliás, o termo FakeNews, já existe desde o final do século XIX, segundo o dicionário Merriam-Webstar. Mas a sua popularização só apareceu depois da Internet. As FakeNews na Internet espalham-se seis vezes mais rápido do que as notícias verdadeiras nas plataformas das redes sociais. Alguns jornalistas e canais de comunicação têm-se dedicado com afinco a desmentir textos falsos ou divulgações enganadoras acompanhadas de imagens manipuladas, tanto fotográficas como vídeos. Mas teria de ser ainda muito mais. São especificamente os vídeos manipulados por inteligência artificial que passam melhor porque pouca gente acredita ser possível uma manipulação tão perfeita. Mas é real essa possibilidade chamada Deeepfake, que é capaz de clonar a voz de uma pessoa.

A partir do desenvolvimento desta tecnologia, naturalmente, passou-se a utilizar essa inovação tecnológica para a prática de atentados moralmente reprováveis. Por ser uma recente inovação tecnológica, não existe legislação específica que nos proteja dela, quando é utilizada para criar falsos vídeos de caráter sexual ou pornográfico de celebridades, ou falsos inimigos. Deepfakes também podem ser utilizadas para gerar notícias falsas, com intuito político malicioso. Danielle Citron – professora de direito de Universidade de Boston – diz: “É frustrante saber que atualmente a lei não pode fazer nada para defender quem tenha a sua imagem adulterada. 
É necessária uma reposta internacional coordenada e rápida”. Para ela, seria necessário classificar o conteúdo e o contexto de cada Deepfake. Mas distinguir uma falsificação danosa - de uma sátira de um humorista, de um caricaturista ou qualquer outra forma de expressão artística, ou até uma ilustração pedagógica de âmbito educativo - não é fácil. Em suma, as leis ainda não estão bem definidas para os crimes cometidos com o Deepfake

Deep learning é uma área da inteligência artificial onde os algoritmos reconhecem padrões a partir de um extenso banco de dados. O computador “entende” como aquele rosto se comporta quando fala, pisca os olhos, e como reage à luz utilizando milhares de vídeos de fotos daquela pessoa. Depois, ele cria um protótipo, que será analisado pelo próprio sistema para verificar se a imagem criada está de acordo com o esperado. Em caso negativo, ele repete a operação até chegar o mais próximo daquilo a que nós chamamos a realidade, vá-se lá saber o que é a realidade da perceção humana, e não da perceção canina ou felina. E o mesmo pode ser feito com a voz.

Grandes empresas e políticos estão preocupados com o avanço desta tecnologia. O Facebook, em 2019, anunciou um gasto de dez milhões de dólares na luta conta o Deepfake em sua plataforma. Um enorme desafio, pois quando utilizamos uma Inteligência Artificial para verificar a veracidade de um vídeo, é possível que ela aprenda a criar falsificações ainda mais poderosas. E mais, há redes criminosas que estão a utilizar estas tecnologias criando indivíduos falsos sintetizados virtualmente. Ou seja, inclusivamente, vídeos de pessoas que nunca existiram. O problema, nesse caso, surge quando esses criminosos utilizam  essas identidades virtuais para cometerem crimes no mundo financeiro. Nestes casos a impunidade é total. 

A comunicação mimética, a propósito de pacientes com afasia


Vou espalhar-me por aquilo que conhecemos por pantomima, ou por mímica, como arte de comunicação humana, que pode ser muito útil aos pacientes que sofreram um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e ficaram afásicos. Na pantomima, praticamente não se fala. No teatro gestual não há palavras. É a arte de narrar só com gestos e contorções performativas do corpo. Uma modalidade cénica muito apreciada quando é bem feita. É uma arte de excelência para comediantes, cómicos, palhaços, enfim atores de stand-up comedy. Mas não só.




Relatos de histórias clínicas, feitas por neurologistas, de doentes que ficaram afásicos, alguns deles com afasia expressiva, em que ficou preservada a afasia compreensiva, descrevem que através da sua capacidade para cantar conseguiram superar essa dificuldade recuperando parte da linguagem. E isso deixou-os mais tranquilos para melhor enfrentarem as suas vicissitudes. Em algum lugar dentro de seu cérebro ainda havia onde ir buscar as palavras. A questão passa a ser, então, se as capacidades de linguagem embutidas na canção podem ser removidas do seu contexto musical e usadas na comunicação. Em alguns casos isso é possível, em grau limitado, essas pessoas podem falar cantarolando. 




Mas ainda melhor do que cantarolar, é as pessoas descobrirem o seu dom ou virtuosismo para a expressão mimética, outra aptidão que pode estar escondida e as pessoas nem saberem que a têm. Algumas pessoas apresentam uma habilidade e uma intuição próxima da genialidade. A expressão facial é de extrema importância na pantomima, uma vez que grande parte da mensagem é transmitida pelo rosto. Por isso, é importante conhecermos o nosso rosto. Por isso, vale a penas as pessoas treinarem expressões faciais em frente a um espelho de: felicidade, tristeza, raiva, amor, compaixão, medo, angústia, espanto - como fazem os atores de teatro.
O meu Mestre tinha uma paixão pela tagarelice, e até para uma certa bisbilhotice e indiscrição. Por isso, não podia ter tido maior asar quando teve um AVC trombótico que lhe apanhou toda a área da artéria cerebral média do lado esquerdo, tendo ficado irremediavelmente afásico. A afasia caracterizava-se por dificuldade em se expressar verbalmente embora compreendesse quase tudo o que era dito. No entanto, nunca o vi furioso por causa disso. Todos ficávamos assombrados com a sua resiliência. Como é que não ficava deprimido, só podia ser explicado pelo seu feitio de sempre bem-disposto, e calejado pela sua experiência de sofrimento derivada da sua paralisia devida à poliomielite desde a infância. Por outro lado, devido à sua inteligência, e profissão de médico, tendo-lhe passado pelas mãos centenas de pessoas vítimas de AVC, tinha a noção de que, em certo sentido, tivera muita sorte, apesar de metade do seu corpo estar paralisada. Tinha sorte porque a lesão em seu cérebro, embora extensa, não lhe minara a força de vontade, nem a inteligência. Além disso, porque a sua mulher, que era fisioterapeuta, se empenhara arduamente desde o início para mantê-lo ativo. Só não teve a sorte de encontrar nenhuma terapeuta da fala, porque nessa altura não havia nenhuma por perto.
Os primeiros estudos científicos sobre o sorriso que se tem notícia foram os do neurologista francês Guillaume Duchenne. Ele descobriu que os sorrisos são controlados por dois conjuntos de músculos: os zigomáticos maiores, que percorrem todo o lado do rosto e se conectam com os cantos da boca, e os orbiculares, que puxam os olhos para trás. Os zigomáticos maiores puxam a boca para os lados, expondo os dentes e alargando as bochechas, ao passo que os orbiculares estreitam os olhos e produzem os pés-de-galinha. É importante entender o funcionamento desses músculos. Os zigomáticos maiores são conscientemente controlados, isto é, obedecem à nossa vontade, – podendo ser , por isso, usados para produzir os falsos sorrisos e dar boa impressão, ou satisfazer a cordialidade, ou qualquer outra necessidade social, mas que é fácil de topar. É aquilo que popularmente se designa por "sorriso amarelo". Em contrapartida, os orbiculares atuam independentemente da nossa vontade, e por isso são eles os reveladores de um sorriso genuíno, ou seja, puxado pelo sentimento ou emoção. Portanto, os músculos orbiculares revelam os verdadeiros sentimentos que há por trás de um sorriso.

A mimese, representação deliberada e consciente de cenas, pensamentos, intenções por meio de mímica e ações, parece ser uma aquisição especificamente humana, como a linguagem (e talvez a música). Nos grandes primatas, que são capazes de “macaquear” ou arremedar, é ínfima a capacidade de criar representações miméticas de maneira consciente e deliberada. Uma “cultura mimética” pode ter sido uma etapa intermediária, mas crucial da evolução humana, entre a cultura “episódica” dos antropoides e a cultura “teórica” do homo sapiens sapiens. E acontece que a mimese tem uma representação cerebral muito mais extensa e profunda do que a linguagem falada. E isso talvez explique porque é preservada em muitos pacientes que deixaram de falar depois de um Acidente Vascular Cerebral. Essa preservação pode permitir uma comunicação notavelmente rica, ainda mais se for elaborada e intensificada pelo exercício de aprendizagem. Um bom desempenho nas atitudes corporais e no gesto pode dizer muita coisa. Uma boa pantomima, obviamente, para uma boa transfiguração, requer: interpretação; habilidade; e treino.

A pantomima é muito antiga, tendo acompanhado o desenvolvimento da dramaturgia na Grécia Antiga. Mas já há indícios de pantomima - em rituais religiosos egípcios, sumérios e hindus - há mais de cinco mil anos. Mas foi no século IV a.C. que a pantomima teve o seu apogeu nos festivais dionisíacos. Aparentemente a mímica era prodigiosa no Teatro de Dioniso. Nessa época, a forma mais elaborada de mímica, a "hypothesis", era representada por atores que incorporavam dentro de si as personagens propriamente ditas. Aristóteles na sua Poética, sobre a Tragédia, cita no primeiro parágrafo os mimos de Sófron de Siracusa. Sófron de Siracusa foi um poeta grego, que viveu na segunda metade do século VI a.C. Conhecido pela sua prosa ritmada escrita em dialeto dórico, exerceu influência sobre Platão na estruturação dos seus Diálogos. Conhecem-se apenas alguns fragmentos da sua obra, com cenas da vida quotidiana. A pantomima era, em todo o caso, uma expressão teatral à parte. Nos vasos jónicos encontram-se pinturas retratando pantomimas aos governantes locais, e a figuras típicas populares.  

A pantomima foi de novo provida no tempo do Império Romano de Augusto. Nos festivais realizados no Palácio dos Desportos podiam assistir 40.000 pessoas. Muito foi escrito sobre esse apogeu da pantomima. O poeta Lívio Andrónico, é considerado o primeiro one-man-show da história do teatro. O principal nome da pantomima romana ao incorporar a pantomima grega. Também vale reportar a citação de Cícero sobre a interpretação de dois grandes pantomímicos romanos, Bathylle e Pylade, com as suas versões de Ésquilo. Como se existisse uma língua em cada ponta dos dedos.

Com a queda do Império Romano, vieram para Roma os Papas, e os teatros não tardaram em fechar, e a pantomima foi proibida. Mas tarde veio a Inquisição, e então nem se fala, ao ponto de ser proibida qualquer livre manifestação artística. Os atores da chamada "commedia dell'arte" precisaram de adotar uma nova "conceção plástica de teatro". E assim, com o Renascimento a mímica voltou à cena, sendo representada basicamente nas praças e mercados. Espetáculo teatral e circense, tanto mais intensificado pela presença das máscaras. lembremo-nos de Veneza, que determinavam papéis mais ou menos estereotipados para toda a forma de representação com o gesto mímico, dança, acrobacia, consoante as circunstâncias. O que exigiu um conhecimento mais profundo da gramática plástica.




Em França, no início do século XIX, surgiu um genial pantomímico - Jean-Gaspard Deburau, que criou o personagem Baptiste oriundo da família dos Pierrots. Daí uma efervescência da pantomima romântica nos anos posteriores por toda a Europa. Muitos artistas aprimoraram o estilo apresentando-se em teatros, music-halls, circos, e até nas ruas. A famosa Boulevard du Temple marcou a Era de Ouro da Pantomima de 1825 a 1860. Mais tarde, 1945, imortalizado no cinema pelo filme de Marcel Carné "Les Enfants du Paradise" - protagonizado pelo grande ator e mímico francês Jean Louis BarraultFalava da biografia ficcional de Deburau, junto aos "Funâmbulos". E depois vieram os filmes de cinema mudo com os pantomimos: Charles Chaplin e Buster Keaton. Estes foram à época os mais expressivos herdeiros da pantomima. 




terça-feira, 27 de abril de 2021

A Lua: mitos e ciência


© Toby Melville - Stonehenge Reino Unido

Um pouco por   todo o mundo, esta madrugada, fotógrafos viraram-se para o céu, para apreciar o fenómeno da lua quando fica lua cheia e atinge o seu ponto máximo de aproximação à Terra. A 26 de maio haverá uma segunda lua Super. As Super Luas devem-se aos perigeus mais curtos. Em Portugal Continental houve uma Super Lua rosa pelas 4:30 da madrugada.


Mitos: a influência da lua nos seres vivos

Vários estudos de meta-análise realizados no sentido de avaliar os efeitos das fases da lua no ser humano – entre datas de nascimento de milhares de bebés, data e horário de dezenas de milhares de ligações para a polícia ou serviços de emergência, data e horário de faltas violentas em eventos desportivos, número de internamentos psiquiátricos – nenhum deles certificou uma correlação válida das variações comportamentais com as fases da Lua.

Nos raros trabalhos em que um possível efeito aparecia, uma análise mais aprofundada mostrava que era algo que podia ser atribuído a erro dos pesquisadores originais ou a coincidências. Por exemplo, um eventual pico no número de acidentes num determinado dia e noite de lua cheia, veio a verificar-se que se tratava de um sábado. E uma análise mais plausível concluiu que a causa para uma maior incidência de acidentes nessa noite seria melhor explicada pela taxa de alcoolémia nos condutores ser de esperar mais elevada num sábado à noite do que noutro dia da semana. Ora, fazia sentido correlacionar a taxa de alcoolémia e o sábado por um lado; e o facto óbvio de condutores alcoolizados estarem mais sujeitos a acidentes de viação. Portanto, houve mais acidentes não por ser noite de lua cheia, mas porque era noite de sábado. O que requer explicação, no fim, é a popularidade da ideia de que as fases da Lua têm efeito sobre as pessoas, uma impressão tão arraigada que está na raiz da palavra “lunático”. 

Mesmo a correlação das fases da lua com o ciclo menstrual, que está muito difundida na crença popular, é exagerada. O ciclo feminino médio (sempre sujeito a grandes variações individuais) é de 28 dias, mas o lunar é de 29,5 dias. O que acontece é que existe um efeito de perceção seletiva. Todos nós, que já comprámos mais que uma vez um carro novo, nos devemos lembrar de perguntar: por que é que agora, de um dia para o outro, só vejo carros da mesma marca do meu, quando antes nunca via nenhum? É a questão da perceção da realidade. A realidade, para cada um de nós, depende da perceção. E a perceção, sabemos que é muito seletiva. 

Quando algo extraordinário acontece na lua cheia, ligamos, em nossas mentes, o evento à fase. Mas, quando algo excecional ocorre na lua nova ou minguante, não fazemos a associação. Ainda hoje não sabemos por que carga de água certos órgãos de comunicação social escritos, e outros televisivos, são muito atreitos a fomentar o benefício da dúvida em relação a estes fenómenos. Por conseguinte, devemos incentivar as pessoas a não dar ouvidos ao que o seu cabeleireiro, a sua prima grávida, ou o folclore dos lobisomens dizem. Não existe nenhuma outra prova de que a lua afete coisas como comportamento violento, taxas de homicídio, atos de loucura, fertilidade ou o dia de as parturientes darem à luz. 

Uma questão que já começa a ser debatida na comunidade científica é se as fases da lua e o sono se sustenta, tal como conclui um estudo da Current Biology. Críticos apontam para o facto de a amostra ser pequena, apenas 33 pessoas. Isso é um fator que enfraquece a conclusão, entre outros problemas. Trata-se de um artigo científico que diz que a lua parece afetar a qualidade do sono: em média, nas noites de Lua Cheia, as pessoas tenderiam a demorar mais tempo para adormecer depois de apagar a luz; dormiriam pior; e o período de sono duraria 20 minutos a menos que em outras fases lunares. Se estiver correto, este trabalho, publicado na revista Current Biology, será o primeiro a confirmar, em condições rigorosas de laboratório, um efeito concreto das fases da Lua sobre o ser humano.

Mesmo se for verdadeira, no entanto, a relação não terá nada a ver com a gravidade lunar, as marés ou forças místicas. Os autores especulam que o organismo humano pode ter um relógio biológico de 29,5 dias -
“relógio circalunar” - semelhante ao já conhecido “relógio circadiano” que ajusta o ciclo diário da variação na temperatura do nosso corpo e a liberação de certas hormonas, relacionado com o dia e a noite da rotação da Terra.


Ciência: lua e marés





As marés, como sendo um fenómeno da Terra na parte dos oceanos dependente das posições da Lua e do Sol, são um objeto de conhecimento que remonta a tempos muito antigos. 
Esse conhecimento, pelo menos para as populações das costas oceânicas, resulta da observação direta da correlação aproximada entre a posição da Lua e a ocorrência local da praia mar e da baixa mar no mesmo local. Igual conhecimento resulta da observação da óbvia coincidência das marés vivas e mortas com as fases da Lua. O astrónomo grego Seleuco de Selêucia explicitou no século II a.C. uma visão heliocêntrica do mundo com base na visão de Aristarco de Samos, e com base nela construiu, por volta do ano 150 a.C. uma teoria das marés de base lunar. Um extenso e aprofundado trabalho de Posidónio, elaborado no primeiro século antes de Cristo, entretanto perdido e apenas conhecido a partir de citações antigas, pode-se concluir que a obra já continha a teoria lunissolar para a explicação dos efeitos diários e mensais da maré devido à ação mútua dos três corpos celestes. Dada a atenção despertada, a tentativa de explicação da física das marés desempenhou um importante papel no desenvolvimento inicial do heliocentrismo e da mecânica celeste. 

Porém, uma explicação científica com toda a credibilidade só foi dada depois da teoria da gravitação de Isaac Newton. Se a parte sólida da Terra fosse perfeitamente elástica e a parte líquida perfeitamente fluida, as marés seriam os efeitos instantâneos das forças de atração gravitacionais e as alturas máximas das marés ocorreriam sempre na direção do corpo atrativo. Neste caso em apreciação: a Lua. Contudo, não sendo a parte sólida da Terra perfeitamente elástica e nem a parte líquida perfeitamente fluida, as alturas das marés não estão perfeitamente alinhadas com os centros da Terra e da Lua, porque as propriedades físicas não são tão ideais como mostra a figura.

Os fenómenos de maré não se limitam aos oceanos, pois podem ocorrer em outros sistemas sempre que um campo gravitacional que varia no tempo e no espaço esteja presente. Por exemplo, a parte sólida da Terra é afetada pela maré terrestre, subindo e descendo ciclicamente, embora esses movimentos não sejam tão facilmente detetáveis como os movimentos da maré oceânica.

De facto, a Terra sofre um torque (uma torção ou rotação do eixo num sistema binário de forças paralelas de sentido contrário; um sistema conjugado de forças que tende a causar rotação). Essa tendência retarda um pouco o movimento de rotação (que é de alguns  segundos por século). A Lua também sofre um torque com a mesma direção, mesmo módulo e sentido contrário ao primeiro, acelerando-o, fazendo com que a Lua se afaste da Terra (alguns centímetros por ano). Desta maneira, por efeito das marés, uma parte da energia de rotação terrestre se transforma em calor pelo atrito das marés nas praias e no fundo dos oceanos. A outra parte é transferida ao movimento orbital da Lua. A aceleração gravitacional experimentada por uma grande massa não é constante em todo o seu diâmetro. Um dos lados do corpo tem uma maior aceleração do que o seu centro de massa, e do outro lado do corpo tem menor aceleração.

A força gravitacional do Sol exercida sobre a Terra é em média 179 vezes mais intensa do que a lunar, mas porque o Sol está em média cerca de 389 vezes mais longe da Terra, o seu gradiente de campo é mais fraco. Em consequência, à superfície da Terra a força de maré de origem solar representa cerca de 46% da força de origem lunar, ou seja a intensidade da força de maré de origem lunar é cerca de 2,21 vezes maior do que a equivalente de origem solar. Numa linguagem mais precisa, a aceleração gerada pela força de maré lunar à superfície da Terra ao longo da linha que une os centros de massa da Lua e da Terra é cerca de 1,1 × 10−7 g, enquanto que a aceleração devida à força de maré de origem solar (ao longo do eixo Terra-Sol, à superfície da Terra) é cerca de 0,52 × 10−7 g, onde g é a aceleração gravitacional à superfície da Terra. Para além do Sol e da Lua, o planeta Vénus é o astro que gera a maior aceleração de maré, com apenas 0,000113 vezes o efeito solar.

Embora as forças gravitacionais sigam uma lei do inverso do quadrado (a força é inversamente proporcional ao quadrado da distância), as forças de marés são inversamente proporcionais ao cubo da distância. A superfície do oceano move-se em consequência da mudança do equipotencial de maré, aumentando quando o potencial de maré é alto, o que ocorre nas partes da Terra mais próxima e mais distante da Lua. Quando o equipotencial da maré muda, a superfície do oceano deixa de estar alinhada com a força de maré, de modo que a direção aparente das variações verticais é alterada. A superfície então experimenta uma inclinação descendente, na direção em que o equipotencial aumentou.




A elevação das águas é muito mais acentuada quando os três corpos estão alinhados, o que é verificado duas vezes por mês: na Lua Cheia e na Lua Nova. São as chamadas marés vivas. Quando o Sol, a Lua e a Terra estão dispostos em ângulo reto (sendo a Terra o vértice), a variação das marés é menor. São as marés mortas.

A hora de ocorrência e amplitude da maré em cada local são influenciadas pelo alinhamento do Sol e da Lua, pelo padrão das marés no oceano profundo, pelos sistemas anfidrómicos dos oceanos e pela forma da linha de costa e batimetria das regiões costeiras adjacentes. Em consequência da combinação dos efeitos de todos esses fatores, algumas regiões costeiras experimentam marés do tipo semidiurno, com dois ciclos de maré de amplitude semelhante em cada dia, enquanto outras regiões experimentam maré de ciclo diurno, com apenas um ciclo de maré em cada dia. Embora menos frequentes, alguns locais apresentam marés de tipo misto com dois ciclos de maré desiguais por dia, ou uma maré cheia e maré vazia desiguais.

As marés variam em escalas de tempo, que vão desde algumas horas a vários anos devido a múltiplos efeitos. Para produzir os registos, são utilizados marégrafos em pontos fixos onde a variação do nível das águas com o tempo é registada. Em geral os marégrafos ignoram variações causadas por ondas com períodos inferiores a alguns minutos. Os dados recolhidos nas estações maregráficas são comparados com um nível fixo de referência geralmente referido ao nível médio do mar.

O melhor momento para mergulhar é na maré alta ou durante o estofo da maré, que é o período entre uma subida e o retrocesso da maré. A visibilidade neste momento é geralmente melhor porque as águas ficam mais limpas. Pessoas que trabalham com a pesca, navegação de embarcações e mergulhadores, por exemplo, guiam-se pelas previsões de movimento das águas oceânicas para realizar as suas atividades. As marés também têm sido utilizadas como fonte geradora de energia elétrica. Um dos modos de geração de energia funciona da seguinte maneira: gigantescos tanques são construídos para serem cheios com a água do mar na maré alta. Quando a maré baixa, a água sai do tanque, fazendo girar uma turbina que produz energia elétrica.


sábado, 24 de abril de 2021

A polarização da Esquerda





«Não é verdade que só a direita é corrupta. Não. A esquerda também. Nem é verdade que só a esquerda é corrupta. Não. A direita também. E a melhor corrupção é a que consegue uma espécie de apólice de seguro de vida que é a convergência entre esquerda e direita. É falso que a corrupção seja só da autoria dos políticos. Nem que só beneficie os políticos. A corrupção pode ser da autoria de muita gente e também beneficiar muita gente. Em todas as camadas sociais, profissionais e económicas. Mas podemos ter a certeza de que a corrupção beneficia poucos e prejudica muitos. É errado pensar que a corrupção começa e acaba sempre em dinheiro, nos bolsos e nas contas offshore. Muito do que é essencial na corrupção inclui círculos de poder, autorizações, nomeações, concursos, parcerias, vantagens, privilégios, posição social, poder de decisão… Importância! Há uma luta feroz em curso, que, a desenvolver-se, pode ser perigosa. É a que opõe dois campos antagónicos. De um lado, os que entendem que os políticos têm direitos especiais, que servem o povo e que devem como tal ser recompensados e respeitados. Do outro lado, os que pensam que os políticos são uns párias, vivem à custa dos outros e exercem o poder no seu exclusivo interesse. Estes dois campos estão bem presentes em Portugal, começam a dar sinais de vigor e envenenam o debate político. Evitá-los é urgente.» [António Barreto]


Em linhas muito gerais, a maioria dos arranjos políticos estão organizados numa distribuição cuja imagem é representada pelo hemiciclo em forma de leque do Parlamento ou Assembleia da República, onde os deputados de esquerda estão sentados à esquerda de quem os vê de frente; e os deputados de direita à direita de quem os vê. Este alinhamento remonta originariamente ao arranjo dos assentos no Parlamento Francês após a Revolução Francesa. Os radicais sentados à esquerda e os aristocratas sentados à direita. Depois disso vieram as Revoluções Liberais, com mais do que um tipo de liberalismo: liberalismo social, situado à esquerda, e liberalismo clássico situado à direita. Com a Revolução Russa Comunista, que deu lugar à União Soviética, o socialismo e o comunismo passaram a ser ideologias de esquerda, em confronto com o conservadorismo de direita, e o fascismo.

A ciência política e os cientistas políticos têm notado frequentemente que um único eixo [esquerda-direita] é simplista demais e insuficiente para descrever a variação existente nas crenças políticas, e por isso, surgiram outros eixos. Embora as palavras descritivas nos polos opostos possam variar, consideram-se mais úteis os espetros com um eixo horizontal e um eixo vertical: em que o eixo horizontal comporta as questões de ordem económica: e o eixo vertical as questões socioculturais.

O radicalismo, em filosofia política, pode ser definido como uma ideologia que se serve da ação revolucionária com o fito de transformar a sociedade segundo os valores dessa ideologia, geralmente utópica. 
O radicalismo tem as suas raízes no final do século XVIII e início do século XIX, ou seja, nos anos que se seguiram à Revolução Francesa. Em Portugal os radicais foram os Republicanos, que efetivaram o derrube da Monarquia com um programa muito semelhante aos radicais franceses à frente de um regime republicano. O radicalismo é politicamente inflexível, opondo-se a tudo e a todos os moderados cuja proposta de mudança é pela via de reformas constitucionais. Os radicais defendiam reformas e ações disruptivas e de luta social, que eram consideradas por outros grupos políticos como desestabilizadoras da ordem constitucional.

O extremismo, em política, refere-se a doutrinas ou modelos de ação política que preconizam soluções extremas, radicais e revolucionárias, para os problemas sociais. Frequentemente está associado ao dogmatismo, ao fanatismo e às tentativas de imposição de estilos e modos de vida, bem como à negação radical de valores vigentes. O extremismo indica a tendência a um comportamento ou a um modelo de ação política que rejeita as regras de uma comunidade política, não se identificando com as suas finalidades, valores e instituições. Na história política moderna e contemporânea, o extremismo foi adotado em diferentes ocasiões, por diversos movimentos sociais e políticos, de diferentes orientações ideológicas, principalmente em épocas críticas de intensa mobilização social e de profundas transformações económicas e institucionais.

Por terrorismo entendem-se as práticas políticas, individuais ou coletivas, amplificadas pela violência geradora de terror. Embora na França do final do século XVIII o vocábulo "terror" tenha sido apropriado para designar a violência revolucionária mobilizadora de sentimento nacional, a denotação contemporânea caracteriza ações criminosas contra inocentes e alvos simbólicos. O terrorismo não é guerra, porque enquanto que na guerra haveria uma declaração formal de hostilidades entre países e a provável isenção de inocentes e alvos não-militares nos conflitos bélicos, no terrorismo os inocentes e os alvos não-militares são os principais alvos das formas de ação.

Extrema-esquerda

Existem diferentes definições de extrema-esquerda. Existem algumas formas que se classificam de anarquismo e comunismo radical, e formas que se reclamam do anticapitalismo revolucionário e antiglobalização. A extrema-esquerda pode adotar atos violentos podendo atingir a forma de luta armada. Esta forma é hoje classificada como terrorismo de extrema-esquerda. 
Para distinguir a extrema-esquerda da esquerda, esta passa a ser considerada “moderada”, em contraponto com "radical" da extrema-esquerda. A extrema-esquerda rejeita a estrutura socioeconómica subjacente ao capitalismo contemporâneo; e defendem estruturas económicas e de poder alternativas que envolvam a redistribuição dos recursos das elites mais ricas para a população mais pobre. A maioria dos grupos terroristas de extrema-esquerda que operaram nas décadas de 1970 e 1980 na Europa, desapareceram em meados dos anos 1990.

Esquerda

Atualmente, o termo "esquerda" tem sido usado para descrever uma vasta gama de movimentos, incluindo os movimentos pelos direitos civis que pugnam pelo igualitarismo, e movimentos ambientalistas. A imprensa contemporânea, ocasionalmente, usa os termos "esquerda" e "direita" numa lógica de opostos no debate público. O conceito de igualitarismo teoriza que a igualdade social é possível através da redistribuição dos recursos na mão dos capitalistas. A partir da segunda metade do século XIX, a esquerda ideológica iria adotar as correntes do socialismo e do comunismo de matiz 'marxista'. Foi efetivamente de particular influência a publicação do Manifesto Comunista de Marx e Engels, 1848, com a teoria de que a história de todas as sociedades humanas existentes até então era a história da luta de classes. Ele previa que uma revolução proletária acabaria por derrubar a sociedade burguesa, através da abolição da propriedade privada. E assim seria criada uma sociedade sem classes, sem Estado, e pós-monetária. A Associação Internacional dos Trabalhadores (1864–76), às vezes chamada Primeira Internacional, reuniu representantes de diversos países, e de diferentes grupos de esquerda, e organizações sindicais. Alguns contemporâneos de Marx defendiam ideias semelhantes, mas não concordavam com a sua visão de como chegar a uma sociedade sem classes e sem Estado. Após a cisão entre grupos ligados a Marx, e grupos ligados a Bakunin na Primeira Internacional, os anarquistas formaram a Associação Internacional dos Trabalhadores. E assim se formou a Segunda Internacional, em 1888, que, por sua vez, se dividiu em 1916 devido a divergências quanto à questão da Primeira Guerra Mundial. Aqueles que se opuseram à guerra, como Lenine e Rosa Luxemburgo, eram mais à esquerda do que o resto do grupo. Foi daqui que resultou a divisão: de um lado os sociais-democratas; do outro os comunistas.

A partir daqui a esquerda te estado associada a distintos sistemas económicos. A esquerda ligada à Internacional Socialista, segue uma economia mista, combinando o Keynesianismo e o estado social, para limitar o que considera serem os problemas do capitalismo. No entanto, prefere manter grande parte da economia no sector privado. A esquerda comunista defende a nacionalização em larga escala, baseada numa economia cooperativista de empresas em autogestão, preferindo um controlo local, em que regiões descentralizadas são unidas numa confederação. Segundo os comunistas, o desenvolvimento humano floresce quando os indivíduos se envolvem em relações de cooperação e de respeito mútuo. Uma sociedade que não seja substancialmente igualitária,  é minada pela corrupção e pelos privilégios. 

Centro-esquerda

Centro-esquerda, entre a esquerda e o centro, centra-se mais na variação entre certas opções políticas, como por exemplo no âmbito das chamadas questões fraturantes e justiça social, dentro das organizações pertencentes à esquerda, do que haver propriamente partidos com essa classificação dentro da esquerda. O termo pode-se referir à esquerda do centro num país específico ou num hipotético espectro político global. As pessoas que se autodenominam ou se colocam como sendo do centro-esquerda geralmente utilizam expressões de 'socialismo democrático' ou 'social-democracia' que ganhou roupagem com o advento da chamada Terceira Via de Tony Blair. Linha de pensamento contemporânea da ascensão da globalização e economia de mercado. Associado com o centro-esquerda estão algumas bandeiras tais como o reformismo, o ambientalismo e outras políticas chamadas progressistas.

Ativismo e Movimentos Sociais

Nas últimas três décadas, os Movimentos Sociais têm sido compreendidos como uma forma de ação coletiva sustentada a partir da qual atores que compartilham identidades ou solidariedades enfrentam estruturas sociais ou práticas culturais dominantes. Nuns casos o Estado não é – e nem deve ser – relevante. Noutros casos é visto como um inimigo, frente ao qual os Movimentos Sociais ou a Sociedade Civil têm que medir forças. Mais recentemente, a forte disseminação do uso do conceito de “redes sociais” tem tido como resultado uma pulverização heterogénea de protagonistas e organizações menos hierarquizadas. Veja-se o exemplo dos protestos e ações coletivas de ecologistas e ambientalistas. Neste ativismo ambiental ou ambientalista, a noção de "ativismo" assume denotações particulares, caracterizando perspetivas ideológicas específicas.

Tradicionalmente, o conceito de "ativismo" referia-se à ideia de ações coletivas politicamente orientadas, principalmente as que envolvem formas de protesto. Entre as décadas de 1960 e 1980 muita energia ainda era direcionada para a discussão sobre a legitimidade dos movimentos. Hoje os movimentos são legitimamente relevantes na transformação das sociedades. Esse conceito refletia ainda a influência do Marxismo de modo relativamente explícito. Entretanto, a transição para o Pós-Marxismo e para os estudos multiculturais tem-se baseado, em boa medida, no reconhecimento dos perigos da exclusão de certos tipos de ação social. O caso clássico é o das feministas pelo trabalho igual salário igual, a partir dos movimentos socialistas, cuja causa era vista como um “epifenómeno”.

Os movimentos sociais, agora inseridos nas redes sociais e na comunicação mediada pela Internet, readaptam as suas estruturas de poder e de coordenação de ações. Hoje, o poder é mais difuso, diluído em rede. O indivíduo é capaz de melhor estabelecer as suas conexões, selecionar conteúdos, produzir as suas mensagens e transmiti-las a um grande público, sem que  para isso tenha de pagar. Os efeitos dessa promiscuidade são notáveis em termos de mobilização social. As constantes transformações das dinâmicas das ações coletivas estão associadas aos recursos comunicacionais disponíveis. É nesse ambiente virtual da Internet que se desfraldam hoje bandeiras diversas em confronto direto.

A noção de “ativismo político”, em grande parte restringe-se a ações orientadas ideologicamente à esquerda. Uma grande parte da literatura refere-se às ações coletivas e aos movimentos sociais alinhados à esquerda. O ativismo, por definição, é essencialmente político. Mas novos movimentos sociais deixaram de estar submetidos a um comando que tradicionalmente era exclusivo de sindicatos e partidos políticos. Atualmente o ativismo passa por um tipo de “protesto criativo”, “consciência social” e “solidariedade”. O que é ambivalente na medida em que combina “ações radicais” com propósitos solidários.

A doutrinação e ativismo político nas escolas e universidades constituem uma importante questão social contemporânea. 
O ativista atual é mais um militante do que um revolucionário. O ativista defende os seus ideais, mas as suas ações não apresentam um caráter impositivo – muito embora se proponha a transformação de uma determinada realidade social. Visa desafiar mentalidades a pequenos passos. Em anos recentes tem sido enfatizada nas universidades a diversidade étnica, cultural e de género em detrimento da diversidade político-religiosa. Apesar da sua importância, a diversidade político-religiosa na academia padece de uma restrição progressiva. A crítica ideológica da ciência como aparelho opressivo acarreta um relativismo epistemológico e desvio de foco da atividade académica da busca de conhecimento para o ativismo político. O partidarismo político resulta de emoções morais profundas, as quais ao mesmo tempo que congregam as pessoas, dificultam o debate com argumentação lógica. Moralismo e a hegemonia do politicamente correto por parte de alegados proprietários dos valores da Democracia, tem resultado em coerção e cerceamento à liberdade de opinião. 

A forma da doutrina politicamente correta, e a vitimização fraudulenta associada a pequenos ressentimentos, acarreta a uma deriva incriminatória em excesso injustificado. A cultura institucional académica está impregnada de ativistas em prol da justiça social com um duplo padrão moral face a violações de códigos de conduta. Ora, isto tem constituído uma ameaça ao modelo clássico de universidade focada na investigação. Esse fenómeno é mais saliente na área de humanidades e educação, do que na área das ciências matemáticas. Os mecanismos subjacentes a este progressivo enviesamento ideológico da academia tem naturalmente múltiplas causas, pelo que questões complexas dificilmente são resolvidas com respostas simplistas. Por isso, não é fácil deslindar quem estigmatiza quem.