quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

As cidades



É nas metrópoles das megacidades que a civilização se exprime no seu máximo esplendor. Mas é também onde multidões espalham o caos que leva à decadência. Este é o paradoxo que não acontece nas aldeias e vilas que preservam o germe do estado-nação. Desde a Atenas clássica até Londres, Paris ou Tóquio, a cidade é o lugar onde o humano se supera: onde surgem universidades, museus, mercados globais, inovação e cosmopolitismo. A metrópole é, nesse sentido, a obra-prima coletiva de uma sociedade. Uma expressão máxima da sua capacidade de organização.

Mas é precisamente essa concentração que gera o risco. Nas megacidades, o cidadão transforma-se em massa. A proximidade física não gera necessariamente comunidade. O anonimato dissolve a responsabilidade. A densidade humana facilita tanto a criatividade como a violência, tanto a cooperação como a desagregação. Pensadores, como Gustave Le Bon, Ortega y Gasset ou Hannah Arendt, alertaram para este fenómeno: a multidão urbana tende a agir de forma emocional, imediata e despersonalizada. O indivíduo deixa de se perceber como parte de um corpo político e passa a reagir como átomo numa turba. Daqui nasce o caos: não como ausência de ordem formal, mas como perda de sentido partilhado.


A decadência não é necessariamente económica ou tecnológica; é civilizacional: Fragmentação cultural e identitária; Enfraquecimento da autoridade legítima; Crescente desconfiança entre grupos; Substituição da lei comum por lealdades paroquiais (tribais, ideológicas, criminais). A megacidade deixa de ser o coração da nação e passa a ser um arquipélago de mundos paralelos. O espaço urbano já não integra, segmenta.

Em contraste, aldeias e vilas preservam aquilo que a megacidade tende a perder: Proximidade social real (todos se conhecem, ou podem conhecer-se); Continuidade histórica (memória viva, tradições); Responsabilidade recíproca; Identidade partilhada. Em suma, as aldeias e vilas foram o germe do estado-nação. Não é que sejam moralmente superiores, mas nelas o vínculo político é concreto. O estado-nação nasce precisamente dessa escala intermédia: grande o suficiente para criar lei comum, pequena o suficiente para manter reconhecimento mútuo. Por isso se pode dizer que aldeias e vilas guardam o germe do estado-nação: nelas, o “nós” ainda é inteligível.

O paradoxo da modernidade é este: A civilização precisa da cidade para florescer; O estado-nação precisa de comunidades para sobreviver. Quando as megacidades crescem sem enraizamento, tornam-se civilizações sem povo, sistemas sem alma, máquinas habitadas por multidões. A questão central do nosso tempo talvez não seja “como tornar as cidades maiores”, mas: como devolver forma política, ética e cultural à vida urbana sem destruir a sua complexidade.

As megacidades modernas deixaram de ser, em primeiro lugar, cidades nacionais. Tornaram-se plataformas globais. Funcionam em redes transnacionais de capital, tecnologia e cultura. A sua elite económica e administrativa é frequentemente mais próxima de Nova Iorque, Londres ou Singapura do que do interior do próprio país. A língua, os costumes e até os valores tendem a alinhar-se com padrões globais, não nacionais. Politicamente, isto cria uma fratura: a cidade já não representa o país, representa o mundo. O resultado é uma dissociação entre centros urbanos cosmopolitas e territórios periféricos enraizados.


Hoje, Lisboa enfrenta a imigração em massa e a fragmentação do espaço urbano. A imigração não é, em si, o problema central. O problema é a escala e a velocidade, combinadas com a lógica da megacidade. Nas grandes metrópoles a integração dá lugar à coexistência paralela; comunidades instalam-se sem absorver a cultura política comum; surgem bairros etnicamente, religiosamente ou culturalmente homogéneos. Em vez de uma cidade plural, temos uma cidade arquipélago. Isto enfraquece três pilares do estado-nação: Lei comum (que passa a ser negociada ou relativizada); Confiança cívica; Sentimento de pertença nacional. A aldeia, pelo contrário, impõe naturalmente integração: quem chega tem de adaptar-se, porque não há anonimato nem massa crítica para o isolamento. Isto conduz a uma erosão da soberania democrática. Quem governa a megacidade? Decisões cruciais são tomadas por entidades distantes (mercados, tecnocracias, organizações supranacionais). O cidadão sente que o voto tem pouco impacto real. Cresce a política de protesto, de rua, emocional, muitas vezes caótica. As multidões urbanas tornam-se terreno fértil para populismos voláteis, radicalismos identitários, movimentos sem projeto de longo prazo. O poder já não assenta no consenso nacional, mas na capacidade de mobilizar massas urbanas.

Fora das megacidades as populações sentem-se ignoradas, os serviços públicos desaparecem, o discurso cultural dominante parece estranho ou hostil. Daqui nasce o fenómeno recorrente nas democracias atuais: a revolta da periferia contra o centro urbano. Brexit, “coletes amarelos”, votos de protesto em vários países europeus ou americanos, todos refletem esta clivagem: cidade global vs. nação histórica. As aldeias e vilas tornam-se, assim, os últimos espaços onde a ideia de soberania popular ainda parece concreta.

As megacidades promovem um pluralismo que muitas vezes se transforma em indiferença identitária. Tudo é tolerado, mas nada é partilhado. A cultura nacional é apenas mais uma entre muitas. O passado torna-se irrelevante face ao presente contínuo. O estado-nação, porém, depende de memória histórica, narrativa comum, símbolos reconhecidos. Sem isso, a política reduz-se à gestão técnica e à contenção de conflitos.

Chegamos ao dilema central = Sem megacidades, não há competitividade global nem inovação. Com megacidades desligadas do tecido nacional, não há coesão política nem continuidade histórica. O desafio não é eliminar as grandes cidades, mas reintegrá-las simbolicamente na nação, travar a sua transformação em entidades pós-nacionais, reforçar o papel político, económico e cultural das vilas e regiões. Talvez o futuro do estado-nação dependa menos de capitais brilhantes e mais de uma rede viva de comunidades intermédias que sustentem o centro.

Portugal não tem megacidades no sentido estrito (20 milhões e mais), mas Lisboa funciona, à escala nacional, como uma megacidade política, económica e simbólica. O Porto, embora diferente, orbita parcialmente a mesma lógica. Lisboa concentra poder político, administração do Estado, media nacionais, elites culturais e académicas, economia globalizada (turismo, imobiliário, serviços, startups). Progressivamente, Lisboa deixou de ser apenas a capital de Portugal para se tornar uma cidade voltada para fora, mais conectada ao mundo do que ao país real. Isto cria uma dissonância profunda: a cidade que decide já não vive como a maioria do país.

No caso português, a globalização urbana não se manifestou sobretudo pela indústria ou finança, mas por turismo massificado, imobiliário internacional, economia de serviços de baixo valor acrescentado. Consequência direta: expulsão das classes médias e populares dos centros urbanos; transformação da cidade em espaço de passagem; erosão da continuidade social. Lisboa deixa de ser vivida por lisboetas e passa a ser consumida por visitantes e investidores. A cidade, que deveria ser o coração da nação, transforma-se numa montra da sociedade de consumo.

Portugal conheceu, num curto espaço de tempo, um aumento significativo de imigrantes, sobretudo na área metropolitana de Lisboa. O problema, novamente, não é a imigração em si, mas a sua concentração em áreas metropolitanas. A ausência de políticas assertivas de integração cultural e cívica, leva a fragilidades do próprio tecido identitário nacional.

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