O Estreito de Ormuz continua a ser, tal como no tempo de Afonso de Albuquerque, um ponto de estrangulamento, mas hoje com uma escala muito maior. Cerca de 20% do petróleo mundial passa por ali. Quando se fala em crise com o Irão, uma das maiores preocupações é o bloqueio do estreito. E o seu impacto resultou na subida rápida do preço do petróleo e também com impacto no gás natural cujo aumento do seu custo também se fez refletir. Na economia global fez subir a inflação, com o aumento do custo nos transportes e pressão sobre as cadeias de abastecimento.
O padrão histórico repete-se: controlar Ormuz = influenciar o mundo. O estreito é um “nó górdio” porque ninguém o controla totalmente. Todos dependem dele. Qualquer ação tem consequências globais E, tal como no tempo de Albuquerque as alianças improváveis podem surgir, em que conflitos locais se tornam globais.
O mundo moderno funciona através de alguns “gargalos” geográficos. Tal como o Estreito de Ormuz no tempo de Afonso de Albuquerque, há hoje vários pontos onde tudo passa. E onde tudo pode parar: Canal de Suez — Europa ↔ Ásia; Estreito de Malaca — fábrica do mundo; Bab el-Mandeb — ligação crítica; Canal do Panamá — Atlântico ↔ Pacífico. Todos estes pontos têm algo em comum: são estreitos ou canais; concentram tráfego enorme; não têm alternativas fáceis; são vulneráveis a bloqueios = pequenos no mapa… gigantes no impacto. O Estreito de Ormuz é o que está na ordem do dia, mas o Estreito de Malaca tem sido subestimado.
O Estreito de Malaca é vital para a economia da China. Por lá passa grande parte da energia importada e as exportações industriais da China. É o verdadeiro “cordão umbilical” da Ásia. Como é menos militarizado, está mais vulnerável à surpresa. Extremamente congestionado, é fácil de perturbar. Não há alternativas eficientes a curto prazo.
Bab el-Mandeb vem a seguir. Os Houtis do Iémen controlam o estreito. Já está a ser afetado por ataques a navios. Já está a acontecer em pequena escala. Portanto: impacto imediato e global → Ormuz; impacto sistémico e estratégico → Malaca; instabilidade real no terreno → Bab el-Mandeb. O mais perigoso não é um único ponto é a combinação de vários sob tensão ao mesmo tempo. O mundo moderno parece complexo — mas assenta numa realidade muito simples: há poucos sítios onde tudo passa… e demasiadas coisas que podem correr mal nesses sítios.
Se a situação atual de Ormuz persistir, as economias mais frágeis entram em crise, os mercados entram em recessão e as cadeias de abastecimento começam a falhar. Basta perturbar o ponto certo para afetar o mundo inteiro.




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