quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A questão da religião na Europa


Dizer: “A Europa vai cair nas mãos do Islão porque abandonou Deus” – simplifica um fenómeno muito complexo. É uma frase emocionalmente poderosa, mas intelectualmente incompleta, e não absolve erros políticos cometidos durante décadas. Portanto, a questão religiosa faz parte do discurso sobre a decadência de uma civilização, mas não explica sozinha o declínio europeu. O problema da demografia é o que devia preocupar mais os europeus. Aldeias e vilas vivem de continuidade, não de abstrações. Em meios pequenos as pessoas conhecem-se e as rotinas são estáveis. Qualquer mudança é automaticamente visível, e o medo da irreversibilidade instala-se naturalmente. Uma mesquita não é percebida como “mais um edifício religioso”, mas como “um sinal de mudança estrutural do lugar”.
Na Europa, está agora na ordem do dia o "movimento identitário" conotado com as margens da extrema-direita.  Para os identitários, o cristianismo é símbolo identitário, mas é mais do ponto de vista cultural, moral e dos princípios, do que propriamente ligado à fé religiosa viva. Para mencionar só dois nomes de ideólogos ligados ao movimento identitário na Europa -- Alain de Benoist, rejeita o cristianismo; Dominique Venner mitifica-o. E os militantes usam o cristianismo como matriz identitária. Mas o problema central é a perda de sentido coletivo, e não propriamente pura religião. A verdade é que, mais em aldeias e vilas, menos nas grandes metrópoles, nota-se uma forte resistência em relação à construção de mesquitas. Não sendo um fenómeno misterioso, também não é um fenómeno puramente “racista”. 
Alain de Benoist – nascido em 11 de dezembro de 1943 – também conhecido como Fabrice Laroche, Robert de Herte, David Barney e outros pseudónimos, é um filósofo político e jornalista francês, membro fundador da Nouvelle Droite (Nova Direita da França) e líder do think tank etnonacionalista GRECE. Principalmente influenciado por pensadores da Revolução Conservadora Alemã, Benoist é contra quase tudo conotado com “o sistema” (Cristianismo, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, neoliberalismo, globalização, democracia representativa, igualitarismo e ao que ele vê como incorporando e promovendo esses valores). Teorizou a noção de etnopluralismo, um conceito que se baseia na preservação e respeito mútuo das regiões etnoculturais individuais e fronteiriças. Segundo Benoist, a identidade de uma pessoa é composta por dois componentes: a "parte objetiva" vinda do próprio histórico (género, etnia, religião, família, nacionalidade) e a "parte subjetiva" livremente escolhida pelo indivíduo. A identidade é, portanto, uma evolução perpétua, e não uma noção definitiva.
Dominique Venner – 16 de abril de 1935 – 21 de maio de 2013) foi membro da Organisation armée secrète e mais tarde tornou-se nacionalista europeu, fundando a neofascista Europe-Action, antes de se afastar da política para se dedicar à carreira de historiador. Na época de sua morte, ele era editor da La Nouvelle Revue d'Histoire, uma revista bimestral de história. Em 21 de maio de 2013, Venner, indignado com a recente legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na França, suicidou-se dentro da catedral de Notre Dame de Paris. Em uma carta de suicídio, ele disse que sua morte foi um ato de "defesa da família tradicional" e na "luta contra a imigração ilegal". Venner acreditava que a extrema-direita se havia tornado branda demais e que manifestações pacíficas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo não eram suficientes para. Pouco depois de sua morte ser noticiada, várias personalidades de extrema-direita prestaram homenagem a Venner e elogiaram o suicídio público. Marine Le Pen publicou um tweet: "Todo nosso respeito a Dominique Venner, cujo gesto final, eminentemente político, foi tentar despertar o povo da França." Bruno Gollnisch o descreveu como um "intelectual extremamente brilhante" cuja morte foi "um protesto contra a decadência de nossa sociedade."
Numa vila uma mesquita pode tornar-se o símbolo dominante, altera a paisagem, concentra uma comunidade nova num espaço reduzido. A percepção não é proporcional ao número real de fiéis, mas ao impacto simbólico. Religião aqui funciona como marcador identitário, não teológico. É uma reação cultural, não religiosa no sentido espiritual. O erro frequente nesta questão tem sido tratar só como intolerância. O ressentimento leva a radicalização simbólica. E daqui surgem atores identitários a capitalizar o conflito, com um discurso que escorrega para a exclusão total. A democracia não pode aceitar veto absoluto a uma religião, discriminação legal ou intimidação. O desafio é gerir o conflito, não fingir que ele não existe. É claro que a resistência é maior em meios pequenos porque a identidade é mais frágil e mais visível. Ignorar isso alimenta os identitários. A solução passa por processos locais graduais e transparentes.

A demografia não é um argumento moral, não é boa nem má. É o resultado acumulado de decisões individuais e políticas passadas. A ideia de “nova cruzada”, literal ou simbólica, é psicologicamente compreensível, mas politicamente suicida, porque transforma ansiedade em guerra existencial. Empurrando os moderados para o silêncio, radicaliza os mais frágeis. E é assim que minorias barulhentas passam a definir o conflito. Os identitários vivem de conflito simbólico. Defender a civilização destruindo os seus próprios princípios é uma contradição clássica. A demografia é o que é. É inútil fazer cruzadas. A questão já não é impedir mudanças, é decidir como viver com elas sem colapsar.

Devemos aceitar a realidade sem a romantizar. E rejeitar a guerra sem fingir que não há tensão. Em aldeias ou vilas, a resistência não desaparece por decreto, mas pode ser administrada: Informação transparente; Participação ativa dos moradores; Mediação local e ajustes técnicos; Experiências de convivência concretas. Não são soluções mágicas, mas é a forma de transformar inevitabilidade demográfica em integração pacífica.

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