segunda-feira, 4 de maio de 2026

Presença judaica




É sabido que na sequência das guerras romano/judaicas no primeiro século desta era se desencadeou a grande diáspora dos judeus que em grande número se estabeleceram na Península Ibérica. Mas já existiam judeus ali antes destes acontecimentos. Já existiam comunidades judaicas na Península Ibérica antes das guerras romano/judaicas do século I que deram origem à grande diáspora associada à destruição de Jerusalém.

Há indícios de presença judaica na Península Ibérica (conhecida na Antiguidade como Hispânia) desde pelo menos o período romano inicial. Possivelmente ainda antes, no período fenício e cartaginês que existiu antes dos romanos. Alguns historiadores sugerem que comerciantes judeus podem ter chegado à Península Ibérica através de redes comerciais dos Fenícios, e mais tarde dos Cartagineses (séculos VIII–III a.C.). No entanto, isto é hipótese plausível, mas com provas limitadas. Durante o período romano, entre os séculos II a.C. e I d.C., os judeus deslocavam-se como comerciantes, soldados, escravos libertos e administradores. A mobilidade dentro do império facilitou a criação de comunidades judaicas em várias cidades ibéricas.

As provas mais confiáveis surgem já na época romana: inscrições funerárias e epigrafia (séculos I–III d.C.). Encontradas em locais como Mérida, Tarragona e outras cidades. Toponímia e referências posteriores indicam comunidades estabelecidas antes da grande diáspora. A Primeira Guerra Judaico/Romana, e a destruição de Jerusalém em 70 d.C. provocaram deportações e migrações forçadas que levaram à expansão de comunidades judaicas já existentes. A diáspora não criou as comunidades ibéricas do zero, ela reforçou e ampliou comunidades que já estavam lá.

A reivindicação, legítima perante os árabes e os palestinianos, dos judeus terem o direito do regresso a Jerusalém, cuja arqueologia atesta muitos dos seus despojos que lá ficaram desde que partiram, é uma questão complexa porque mistura história antiga, identidade, direito internacional e política contemporânea. E não há consenso universal. A presença judaica na região da Palestina está documentada. Que os judeus tiveram presença contínua na região da Palestina/Terra de Israel, desde a Antiguidade, é incontestável. 


O Levante - ca. 830 a.C.

Reinos judaicos = como Reino de Israel e Reino de Judá do século X ao século VI a.C. cuja centralidade se reúne à volta de Jerusalém = são uma evidência arqueológica (inscrições, templos, moedas, etc.). Apesar de após eventos como a Destruição do Segundo Templo, muitos judeus terem sido expulsos ou dispersos, a verdade é que nunca desapareceram totalmente da região. Houve presença contínua, embora minoritária. Este argumento é central no pensamento sionista moderno (associado ao movimento iniciado por Theodor Herzl): ligação histórica e religiosa contínua à terra; existência anterior de soberania judaica; persistência de comunidades ao longo dos séculos; ideia de “retorno” a uma terra ancestral, não colonização clássica. Para muitos, isso sustenta a legitimidade do regresso e da criação do Estado moderno de Israel em 1948.

Mas agora temos o argumento árabe/palestiniano. Os árabes palestinianos também apresentam uma reivindicação forte: presença contínua na região durante séculos (especialmente desde a conquista islâmica do século VII). Desenvolvimento de identidade local própria, com população maioritária na região até ao século XX. Eventos como a Nakba (quando muitos palestinianos foram deslocados) são centrais para essa narrativa. Para os palestinianos o território não estava “vazio”. O regresso judaico moderno ocorreu num espaço já habitado. Depois da Nakba, existe também um direito do regresso de palestinianos (refugiados) que estão exilados noutros países da região.

E o que diz o direito internacional? O direito internacional não resolve totalmente a questão histórica, mas estabelece alguns marcos: Nações Unidas aprovou o plano de partilha em 1947 (dois Estados), em que foi reconhecido o Estado de Israel. Desde essa altura que o debate ainda não cessou, é contínuo. Debate contínuo sobre fronteiras e assentamentos de colonos israelitas. Portanto, direito de regresso tanto de judeus como de palestinianos. O “direito histórico” por si só não é suficiente juridicamente. Os conflitos modernos consideram também as populações atuais, a autodeterminação e os Direitos humanos.

A arqueologia confirma presença judaica antiga significativa e continuidade de várias culturas (judaica, romana, bizantina, islâmica, otomana, etc.. Mas Arqueologia não determina soberania política moderna. Pode sustentar narrativas históricas, mas não resolve conflitos atuais. É historicamente correto que os judeus têm uma ligação antiga profunda à região. Mas também é correto que os árabes palestinianos têm uma presença contínua e longa na mesma terra. O conflito surge porque duas reivindicações legítimas entraram em choque. A legitimidade não é vista apenas como “quem esteve lá primeiro”, mas sim como um equilíbrio entre História, presença contínua e Direitos atuais dos povos.

É verdade que as Nações Unidas resolveram, mas não chegaram a um consenso. Israel aceitou esse acerto, mas os árabes no início, e hoje os "islamistas" nunca acataram ali um Estado judeu. E isso foi muito mau. Em 1947, a ONU aprovou o chamado Plano de Partilha (Resolução 181), que previa a Criação de dois Estados: um judeu; um árabe; internacionalização de Jerusalém. Foi aprovado por votação. Não foi um consenso unânime, houve votos contra da maioria dos países árabes e abstenções de outros países. Ou seja, os árabes não queriam ali um Estado sionista. A liderança judaica (ligada ao movimento sionista) aceitou o plano, apesar de reservas. O território ficou fragmentado, mas ainda assim aceitou, apesar de Israel não poder incluir a área reivindicada historicamente. Em suma, os Estados árabes, e a liderança árabe palestiniana, rejeitaram o plano. 

Do ponto de vista deles, a população árabe era maioritária na região, e o plano atribuía uma parte significativa do território ao futuro Estado judeu. Foi visto como uma imposição externa decidida por potências internacionais. Para eles, não era apenas rejeição “religiosa”, mas também política. Após a declaração do Estado de Israel em 1948 ocorreu a Guerra. Seguiu-se a deslocação de centenas de milhares de palestinianos, a Nakba. Alguns Estados árabes passaram a reconhecer Israel = Egito e Jordânia. Outros normalizaram relações mais recentemente. E a Organização para a Libertação da Palestina reconheceu Israel nos anos 1990. Muitos palestinianos ou árabes islamistas (ex: Hamas) não reconhecem Israel. Têm posições mais radicais. Ou seja: não há uma posição única “dos árabes” ou “dos islamistas” = há várias correntes. A rejeição árabe levou à guerra e prolongou o conflito. Do lado árabe/palestiniano o plano foi visto como injusto desde o início. A guerra e as suas consequências foram traumáticas. Durante décadas após 1948, a narrativa dominante em Israel foi: os líderes árabes rejeitaram irracionalmente uma solução justa e optaram pela guerra. O plano da Nações Unidas seria uma oportunidade perdida. A responsabilidade pelo conflito recairia principalmente sobre os árabes. A saída dos palestinianos (Nakba) teria sido, em grande parte, voluntária ou incentivada por líderes árabes. Esta visão dominou o ensino e o discurso público durante anos. Os “novos historiadores” israelitas A partir dos anos 1980–90, historiadores como Benny Morris ou Ilan Pappé reexaminaram arquivos. O que trouxeram de novo?

A expulsão de palestinianos foi em parte forçada, não apenas voluntária. Houve planeamento militar e decisões que contribuíram para o êxodo. A guerra não foi tão “defensiva e inevitável” como antes se dizia. Mas atenção: Morris e Pappé chegam a conclusões diferentes entre si. Morris é mais equilibrado, vê tragédia de ambos os lados. Pappé fala explicitamente em “limpeza étnica”.

Para historiadores palestinianos, como Rashid Khalidi, a ideia central é a seguinte: o plano de partilha foi injusto desde o início. A população árabe era maioritária, mas recebeu menos controlo político. O sionismo é visto como um movimento de colonização apoiado por potências externas. A Nakba é central: não um efeito colateral, mas um elemento estrutural do processo. Nesta leitura, a rejeição árabe não foi irracional, foi uma reação a algo considerado ilegítimo.

Historiadores internacionais e  académicos fora da região tendem a posições mais equilibradas, embora variem. Pontos comuns: o plano da ONU era difícil de aceitar para ambos os lados. Havia medo existencial judaico após o Holocausto. Do lado árabe era o receio de perda de terra e soberania. Muitos concluem que a rejeição árabe foi um erro estratégico, apesar de o plano ter problemas reais de legitimidade. Apesar das divergências, há alguns pontos relativamente aceites: ambos os lados tinham motivações reais e compreensíveis; a guerra de 1948 não foi inevitável, mas tornou-se altamente provável; o conflito não pode ser explicado por uma única decisão ou culpa unilateral.

O plano das Nações Unidas previa dividir a região da Palestina em dois Estados: Estado de Israel - +/- 55% do território, incluía a planície costeira (Telavive, Haifa e grande parte do deserto do Negev. 
População: ~ 55–60% judeus; ~ 40–45% árabes. Não era etnicamente homogéneo. Estado Palestiniano (árabe) - cerca de 45% do território, incluía a Cisjordânia, parte da Galileia e a faixa de Gaza. Mais contínuo em população árabe, mas menos território total. Zona internacional - Jerusalém e arredores, administrada internacionalmente (não por nenhum dos dois Estados). O mapa não era simples, parecia quase um “puzzle”: territórios fragmentados e interligados; enclaves e corredores estreitos. Difícil continuidade territorial, especialmente para o Estado árabe. Isto levantava problemas práticos -  transporte, defesa, administração.

 A questão demográfica era muito importante. Na altura (c. 1947): Judeus: ~33% da população; Árabes: ~67%. Mesmo assim, o Estado judeu receberia mais território, pela expectativa de imigração judaica (sobretudo após o Holocausto). Algumas zonas atribuídas tinham baixa densidade populacional (ex: Negev). A população judaica teve uma aceitação pragmática, era um Estado finalmente reconhecido, mesmo com fronteiras difíceis. Não sendo perfeito, era um começo. Ao passo que a intolerância árabe prendia-se à perda de controlo sobre grande parte do território, para além da inclusão de muitos árabes no futuro Estado judeu. Era a sensação de uma imposição externa.

Sem comentários:

Enviar um comentário