terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Bullshit ou bacorada?


“Bullshit”, palavra em inglês que é bem elástica, para todos os efeitos, é aplicada frequentemente àquela conversa fiada, dita conversa da treta com ar de autoridade. “Bacorada”, palavra em português, costuma significar: disparate; asneira; coisa mal pensada ou dita sem nexo. O filósofo americano - Harry Frankfurt - utiliza o termo "bullshitter" para qualificar Donald Trump por tudo o que ele diz à frente dos microfones ou escreve na sua rede social. Que não significa opor-se à verdade (mentir), mas indiferente à verdade. Uma espécie de niilista. Não considera que se aplique a Trump o termo de mentiroso. O mentiroso geralmente sabe qual é a verdade, e importa-se com a verdade para a poder contrariar. O bullshitter é indiferente em relação à verdade. Diz o que for útil, eficaz ou impressionante no momento. A verdade é irrelevante. Portanto, quando Frankfurt classifica Trump de um bullshitter, não está a dizer propriamente que ele é um “mentiroso”. Bullshit até pode ser mais corrosivo do que a mentira. A mentira piedosa costuma ser benéfica, ou pelo menos quem a profere é com intenção benigna. Bullshit é algo dito por alguém que não dá valor algum à verdade.

Para Harry Frankfurt - "bullshitter” - é quase uma categoria epistémica ligada à ética ou à moral. Não configura, portanto, um insulto vulgar. É difícil traduzir para português numa só palavra a palavra inglesa "bullshitter". Todas as opções possíveis são imperfeitas: embusteiro → aproxima-se, mas ainda implica engano intencional; charlatão → boa carga retórica, mas demasiado ligada à fraude clássica; vendedor de banha da cobra → muito bom semanticamente, mas coloquial; fala-barato → apanha a indiferença à verdade, mas perde densidade filosófica; demagogo → talvez a melhor em registo político, embora não seja idêntico; niilista da verdade → excelente explicação, péssima tradução.  Frankfurt diz mesmo que o bullshitter é mais perigoso que o mentiroso, porque corrói o valor da verdade como tal. 

André Ventura não é um ideólogo. É um operador discursivo. É um exemplo português do bullshitter. As afirmações não precisam de ser verdadeiras. Nem sequer precisam de ser consistentes entre si. Precisam apenas de produzir efeito: indignação, alinhamento identitário, visibilidade. Quando confrontado com os factos, em que o fact-chque diz que é falso, a reação típica é: “isso não interessa o que interessa é o que o povo sente, os portugueses sabem". Ventura usa muito bem o truthiness: “eu digo o que ninguém diz”. Soa verdadeiro porque confirma uma intuição moral prévia. Não se pede prova; pede-se reconhecimento. Ventura é bullshitter domesticado pelo contexto institucional europeu, mas a atitude epistémica é semelhante. O discurso de André Ventura caracteriza-se menos pela mentira deliberada do que por uma indiferença sistemática à verdade factual, privilegiando a eficácia emocional e identitária. Não é fascismo clássico (ainda). Não há mito fundador coerente. Não há projeto total de sociedade. Não há estética disciplinadora. Há oportunismo moral, ressentimento difuso, discurso reativo. É antecâmara ideológica. E isso é precisamente o perigo.

Os fact-checks falham quase sempre porque respondem à coisa errada. O bullshitter não está a fazer uma afirmação factual séria. Está a fazer uma performance. Corrigir o facto é como corrigir a letra de uma música que foi cantada para criar ambiente, não para ser lida. Reforçam o enquadramento. Ao dizer-se que é falso que os imigrantes recebam X, já se está a aceitar o enquadramento. O problema central são os imigrantes e os subsídios. O bullshitter ganha duas vezes: agenda imposta; visibilidade aumentada. O público-alvo não está à procura de verdade, está à procura de confirmação identitária, catarse moral, sensação de transgressão. Factos frios não competem com isso. O erro clássico dos adversários é responderem com superioridade moral. E pior ainda quando é com sarcasmo elitista.

Um outro termo muito utilizado em conjunto com este, sobretudo depois da primeira entrada de Trump na presidência dos EUA, é o de "pós-verdade", que não significa “depois da verdade”. Significa verdade alternativa, em que a verdade factual perde relevância. Com Trump o debate público deixou de ser regulado por critérios de verdade. Truthiness é o mecanismo cognitivo que torna bullshit eficaz em regime de pós-verdade. Hannah Arendt, em Truth and Politics, muito antes de Frankfurt, já dizia algo muito próximo do que diz Frankfurt. Quando a distinção entre facto e ficção colapsa, não passamos a acreditar em mentiras. Passamos a deixar de acreditar em tudo. O problema não é o erro. É a destruição do mundo comum de referência. Orwell descreve algo mais disciplinado: o Partido impõe uma versão da realidade, exige coerência, castiga desvios. O doublethink é um treino duro.

Portanto, a estratégia que funciona melhor é expor o padrão, e não o erro. Não exige crença imediata, mas cria desgaste cumulativo: “como é que sabes?”; “em que te baseias para dizer isso?”. Isto desloca o ónus sem soar tecnocrático. Sem histeria, sem moralismo, com insistência quase aborrecida, mas sem se adotar o niilismo do adversário. Não se pode cair na armadilha da neutralidade formal adotada pelos media. Em nome do “pluralismo”, os media fazem isso. A verdade aparece como apenas mais uma opinião, e o público é enganado com a ideia de que tudo é discutível. 

Isto é pós-verdade institucionalizada. O jornalismo político muito dependente de declarações para captar as audiências leva a que quem fala mais alto ocupe mais espaço. Os media tradicionais não criaram a pós-verdade, mas não têm sabido lidar bem com ela. E sem querer, ajudam a normalizá-la. Enquanto tratarem todos estes desvios performativos como se fosse o próprio conteúdo da narrativa, não deixarão de também fazerem parte do problema, que é mais um problema da esfera dos mecanismos cognitivos e epistemológicos que avassalam ideologias sociológicas e políticas dos ares dos tempos históricos. 

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