Com os ditames da linguagem inclusiva, hoje é preciso ter mais cuidado com as metáforas populares de outros tempos em que ninguém fazia caso. Porque antes “ninguém ligava”? Não é que não houvesse problema, havia menos consciência sobre discriminação linguística. Certos estereótipos eram socialmente aceites, grupos minoritários tinham menos voz pública. Portanto, a mudança não é só “moda”. É também mudança de consciência social.
Mas agora, como em tudo o que acontece em sociedade em relação a questões fraturantes, há sempre quem esteja do outro lado da “moda”, e resiste, e reage: “já não se pode dizer nada”? Mas é claro, a língua não muda só por moda, muda porque a sociedade passa a reavaliar significados antigos. O que acontece é que nem toda a gente aceita essa reavaliação ao mesmo ritmo. Daí a tensão.
Vou transcrever aqui expressões que mudaram de “inofensivas” para “problemáticas”. “Trabalho de preto” – era uma expressão para referir trabalho muito duro. Hoje pode ser visto como racista. “Lista negra” / “mercado negro” – era completamente normal. “Fazer uma judiaria” – hoje pode ser visto como ofensivo para os israelitas, em que historicamente os judeus foram reiteradamente vítimas de perseguições e com grande carga de estereótipos. “Pareces um atrasado mental” – hoje o uso de linguagem ligada a deficiência intelectual é tida como insulto. “Isso é coisa de maricas” – hoje quem disser isso, além de ser rotulado como homofóbico, está sujeito a ser levado a tribunal com o argumento de “crime de ódio”. Hoje é quase proibido de estereotipar seja quem for sobre orientação sexual. Um detalhe curioso, muitas pessoas hoje já evitam estas expressões automaticamente, sem sequer saber exatamente porquê. Isto mostra que a mudança cultural já entrou no “piloto automático”.
Nos anos 2010 houve uma forte valorização de linguagem inclusiva, identidades e normas sociais mais vigilantes. Isso gerou adesão, mas também saturação em parte da população. Figuras como Donald Trump capitalizaram essa reação, posicionando-se contra o que chamam de “excessos” culturais.
Pensar pela cabeça do momento não é novo, mas foi amplificado por redes sociais e algoritmos. Plataformas digitais tendem a premiar posições fortes e simplificadas. Criam bolhas culturais e aceleram modas. Não é só que as pessoas seguem modas, é o ambiente atual intensificar e encurtar esses ciclos. Há quem veja o atual momento como correção de excessos; outros veem como retrocesso (por exemplo, em direitos ou discurso público). A sociedade está fragmentada em visões de mundo diferentes. Há um movimento pendular (quase “hegeliano”) numa tensão contínua. E o papel das redes sociais tornou tudo mais rápido, mais visível e mais polarizado.
Nos EUA, a dinâmica é sempre mais intensa e polarizada. Após movimentos como Black Lives Matter e debates sobre identidade de género, diversidade, etc., houve uma forte institucionalização dessas causas. Políticos como Donald Trump e figuras mediáticas conservadoras começaram a atacar o “woke”. Estados aprovaram leis contra certos conteúdos em escolas (género, raça). Empresas começaram a recuar ou a suavizar os discursos. A Portugal o “politicamente correto” chegou mais tarde e com menos intensidade. A reação também é menos organizada e menos ideológica. O debate tende a ser mais difuso (media, redes sociais, academia). Figuras como André Ventura tentam capitalizar esse descontentamento cultural, mas o contexto português é menos polarizado do que o americano.
Dos anos 2015 até 2021 foram os anos da implantação dos “Programas DEI” (Diversidade, Equidade, Inclusão). Linguagem inclusiva institucional e pressão pública sobre marcas. De 2021 para cá algumas empresas reduziram ou tornam mais discretas essas iniciativas. O ativismo esmoreceu e o foco voltou a ser maior em resultados económicos. Mas muitas mudanças ficaram, mesmo que o discurso público tenha arrefecido, mantêm-se políticas contra a discriminação, e com menor ênfase na discriminação pela positiva das minorias. O campo universitário é o mais “hegeliano”. De um lado – maior sensibilidade à linguagem, identidade e microagressões. E mais cancelamentos e polémicas mediáticas. Do outro lado – críticas à “cultura de cancelamento”; defesa da liberdade de expressão.
Antes, por exemplo, numa entrevista de emprego, a pessoa candidata podia ter frases como: “Sou uma pessoa normal, dou-me bem com toda a gente”. Agora: “Adapto-me bem a diferentes perfis e valorizo ambientes inclusivos”. Pequena diferença, mas mostra alinhamento com o “espírito do tempo”. Houve exageros na prática da linguagem inclusiva. Agora há reação populista ou conservadora a expressões como “todes” e “elu” em vez de “minhas senhoras e meus senhores” e “ele e ela”. Aqui está um cavalheiro. Para muitos, deixou de ser só cortesia e passou a parecer obrigação moral. A ideologia intrometeu-se na maneira de falar. E do “já chega” ao partido “CHEGA” foi um instante ao boomerang populista.
Se a moda não parar, entretanto por força da “reação”, é possível que outras expressões venham a cair num futuro não muito longínquo, tal como: “Denigrir”; “Mercado negro”; “Cego” em sentido figurado; “Velhos”; “mulher da limpeza”. E piadas relacionadas com a psiquiatria.
Tudo isto é muito “hegeliano”. Expressões que parecem candidatas a desaparecer, podem muito provavelmente continuar por muito tempo. Por exemplo, expressões como “mercado negro” / “lista negra” – são frequentemente criticadas em teoria, mas na prática, são claras, curtas e universalmente entendidas. Não apontam diretamente para um grupo específico no uso atual. Em Portugal, dificilmente vão desaparecer no uso comum. “Humor negro” – paradoxalmente, esta até ganhou força. Descreve um tipo específico de humor que não é percepcionado como ataque a pessoas negras. “Trabalhar como um mouro” – pode parecer problemático (referência histórica aos mouros, mas, muita gente nem associa a origem, significa simplesmente “trabalhar muito”. Ainda é usado, especialmente por gerações mais velhas. Até a expressão “fazer em cima do joelho” estaria na lista do politicamente incorreto se a maioria soubesse a verdadeira origem histórica associada a escravatura. Mas hoje significa apenas “mal feito”. A maioria das pessoas não liga à origem. E há debate sobre se essa origem é sequer correta.
O que faz uma expressão “sobreviver”? Se a expressão já é automática, é muito difícil substituí-la. Se as pessoas já não associam ao significado original, a pressão para mudar é menor. Se não há alternativa tão simples e eficaz, a expressão resiste.
Entrando agora no humor, atualmente numa tensão conflituante depois dos atentados na França, a verdade é que o humor tradicional sempre usou exagero, estereótipos e provocação. O seu efeito, para além de essencialmente fazer rir, tem como ingrediente o facto de a sensibilidade humana ser das coisas mais idiossincráticas da condição social humana. Humoristas como Herman José em Portugal, ou Eddie Murphy nos EUA, faziam material que hoje seria polémico.
Ora, o humor dito inteligente ganha público porque não abdica de ser provocador. Os que evitam o risco têm sempre uma vida muito efémera. A piada está em parte precisamente no facto de roçar o proibido, o cancelado, o preconceituoso. Os limites são testados de propósito. Daí, os humoristas mais inteligentes, fazerem humor sobre o próprio tema do cancelamento. Só que não batem de frente de forma básica. Humoristas como Ricardo Araújo Pereira conseguem navegar isto bem, fazem humor crítico sem parecer ataque gratuito. Pelo menos para já, em Portugal, ainda não se chegou ao ponto de outros países como a França ou os EUA. Há muito mais polarização, com os públicos mais sensíveis e divididos, cujas consequências são muito mais perigosas para os humoristas. Aqui, o pêndulo oscilou com mais intensidade, migrando muito mais para o outro extremo.
Atualmente está-se a viver mais um daqueles períodos, sobretudo no Ocidente, de grandes abalos sociais de mudança. E isso, em parte, deve-se à chamada “explosão das redes sociais da Internet. A grande questão hoje é: o humor deve ter limites? Há quem defenda que o humor deve ser livre, a ofensa faz parte do humor, tudo pode ser alvo de piada. Mas os mais cautelosos argumentam que o humor, pelo forte impacto social que provoca, reforçando estereótipos, deve ser chamado à responsabilidade. Uma piada que se confinava a grupos restritos, hoje propagam-se como as epidemias virais. Agora, as reações podem ser aos milhares, por vezes até aos milhões. E isto já configura o clássico efeito das “massas”. As pessoas que se sentem atingidas no seu “ego”, automaticamente entram pelo campo da ofensa, e de forma brutalmente imediata. Não há tempo para pensar, para refletir, para arrefecer os ânimos do primeiro impulso instantâneo.
Assim, hoje os humoristas mais inteligentes fazem primeiro o diagnóstico da audiência. E em vez de fazerem uma piada diretamente ofensiva, fazem piadas sobre o facto de “já não se poder dizer nada”. Isso cria um meta-humor que reconhece o problema, e ao mesmo tempo faz a crítica ao exagero, à húbris.
Tudo isto é muito “hegeliano”. Expressões que parecem candidatas a desaparecer, podem muito provavelmente continuar por muito tempo. Por exemplo, expressões como “mercado negro” / “lista negra” – são frequentemente criticadas em teoria, mas na prática, são claras, curtas e universalmente entendidas. Não apontam diretamente para um grupo específico no uso atual. Em Portugal, dificilmente vão desaparecer no uso comum. “Humor negro” – paradoxalmente, esta até ganhou força. Descreve um tipo específico de humor que não é percepcionado como ataque a pessoas negras. “Trabalhar como um mouro” – pode parecer problemático (referência histórica aos mouros, mas, muita gente nem associa a origem, significa simplesmente “trabalhar muito”. Ainda é usado, especialmente por gerações mais velhas. Até a expressão “fazer em cima do joelho” estaria na lista do politicamente incorreto se a maioria soubesse a verdadeira origem histórica associada a escravatura. Mas hoje significa apenas “mal feito”. A maioria das pessoas não liga à origem. E há debate sobre se essa origem é sequer correta.
O que faz uma expressão “sobreviver”? Se a expressão já é automática, é muito difícil substituí-la. Se as pessoas já não associam ao significado original, a pressão para mudar é menor. Se não há alternativa tão simples e eficaz, a expressão resiste.
Entrando agora no humor, atualmente numa tensão conflituante depois dos atentados na França, a verdade é que o humor tradicional sempre usou exagero, estereótipos e provocação. O seu efeito, para além de essencialmente fazer rir, tem como ingrediente o facto de a sensibilidade humana ser das coisas mais idiossincráticas da condição social humana. Humoristas como Herman José em Portugal, ou Eddie Murphy nos EUA, faziam material que hoje seria polémico.
Ora, o humor dito inteligente ganha público porque não abdica de ser provocador. Os que evitam o risco têm sempre uma vida muito efémera. A piada está em parte precisamente no facto de roçar o proibido, o cancelado, o preconceituoso. Os limites são testados de propósito. Daí, os humoristas mais inteligentes, fazerem humor sobre o próprio tema do cancelamento. Só que não batem de frente de forma básica. Humoristas como Ricardo Araújo Pereira conseguem navegar isto bem, fazem humor crítico sem parecer ataque gratuito. Pelo menos para já, em Portugal, ainda não se chegou ao ponto de outros países como a França ou os EUA. Há muito mais polarização, com os públicos mais sensíveis e divididos, cujas consequências são muito mais perigosas para os humoristas. Aqui, o pêndulo oscilou com mais intensidade, migrando muito mais para o outro extremo.
Atualmente está-se a viver mais um daqueles períodos, sobretudo no Ocidente, de grandes abalos sociais de mudança. E isso, em parte, deve-se à chamada “explosão das redes sociais da Internet. A grande questão hoje é: o humor deve ter limites? Há quem defenda que o humor deve ser livre, a ofensa faz parte do humor, tudo pode ser alvo de piada. Mas os mais cautelosos argumentam que o humor, pelo forte impacto social que provoca, reforçando estereótipos, deve ser chamado à responsabilidade. Uma piada que se confinava a grupos restritos, hoje propagam-se como as epidemias virais. Agora, as reações podem ser aos milhares, por vezes até aos milhões. E isto já configura o clássico efeito das “massas”. As pessoas que se sentem atingidas no seu “ego”, automaticamente entram pelo campo da ofensa, e de forma brutalmente imediata. Não há tempo para pensar, para refletir, para arrefecer os ânimos do primeiro impulso instantâneo.
Assim, hoje os humoristas mais inteligentes fazem primeiro o diagnóstico da audiência. E em vez de fazerem uma piada diretamente ofensiva, fazem piadas sobre o facto de “já não se poder dizer nada”. Isso cria um meta-humor que reconhece o problema, e ao mesmo tempo faz a crítica ao exagero, à húbris.
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