segunda-feira, 13 de abril de 2026

Líbano


O Líbano é um “microcosmo”: Xiitas → Hezbollah e Amal; Sunitas → vários partidos políticos; Cristãos → também muito influentes. Aqui, a divisão não é só religiosa — é também política e institucional. O Irão → lidera o bloco xiita. A Arábia Saudita → lidera o bloco sunita. E os conflitos atuais são muitas vezes guerras indiretas entre estas potências. 



Mas como é que os aiatolás do Irão se impuseram com tanta força? O caso do Irão é mesmo único no mundo islâmico. A ascensão dos aiatolás não aconteceu de um dia para o outro; foi o resultado de uma combinação de religião, política e revolta popular. Até 1979, o Irão era governado pelo Mohammad Reza Pahlavi. Ele era pró-ocidental (aliado dos EUA) e foi um modernizador. Mas também era autoritário, repressivo (polícia secreta, censura) e era visto como “demasiado ocidentalizado” por muitos religiosos. No xiismo, ao contrário do sunismo, existe uma hierarquia religiosa forte. Os clérigos (como os aiatolás) têm grande autoridade. O mais importante foi Ruhollah Khomeini. Tinha ido para o exílio em Paris, mas continuou a influenciar o país (através de discursos gravados). As mesquitas tornaram-se centros de mobilização política. Quando o Xá caiu, Khomeini regressou ao Irão como figura central. Tinha enorme apoio popular. E a partir daqui criaram uma teocracia, com uma constituição baseada no Islão, em que os aiatolás, como do alto clero xiita, são os especialistas em lei islâmica. No Irão, o líder supremo (como tinha sido até aqui Ali Khamenei) tinha mais poder que o presidente eleito democraticamente embora com certas restrições.

O que aconteceu em 23 de outubro de 1983, em Beirute? Dois ataques suicidas com camiões carregados de explosivos atingiram o quartel dos Marines dos EUA e o quartel das forças paraquedistas francesas: 241 militares americanos mortos; 58 militares franceses mortos. Foi um dos ataques mais mortíferos contra forças ocidentais no pós-Guerra do Vietname. Quem foi responsável? Os atentados foram atribuídos a militantes ligados ao grupo que viria a ser conhecido como Hezbollah, com apoio do Irão. Durante a Guerra Civil Libanesa, o país estava dividido entre várias fações religiosas e políticas (cristãos maronitas, muçulmanos sunitas e xiitas, grupos palestinianos, entre outros). Em 1982, ocorreu a Invasão israelita do Líbano com o objetivo de expulsar a Organização para a Libertação da Palestina [OLP] do sul do país. Após essa invasão uma força multinacional foi enviada para Beirute, que incluía tropas dos EUA, França, Itália e Reino Unido. A missão era manter a paz e estabilizar o governo libanês.

Apesar de serem oficialmente “forças de paz”, muitos grupos locais viam-nas como aliadas do governo cristão libanês, próximas de Israel. Especialmente entre os xiitas libaneses, cresceu grande oposição apoiada pelo Irão, após a Revolução Islâmica Iraniana em 1079 liderada pelo aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini. Foi nesse contexto que surgiu o Hezbollah, com forte componente anti-ocidental. Os ataques de 23 de outubro demonstraram o poder e a eficácia dos atentados suicidas coordenados. Este acontecimento, ao abalar profundamente a opinião pública nos países ocidentais levou à retirada das tropas americanas e francesas em 1984. A missão multinacional havia colapsado.

Esses atentados são considerados um marco porque mudaram a estratégia militar ocidental: maior cautela em intervenções no Médio Oriente; Influenciaram decisões futuras, como na Guerra do Golfo; popularizaram o terrorismo suicida moderno, tendo-se tornado modelo para outros grupos nas décadas seguintes; influenciaram táticas usadas mais tarde por organizações extremistas; fortaleceram o Hezbollah ganhando prestígio regional ao ponto de se ter tornado um dos atores mais importantes no Líbano até hoje. Os atentados não foram um evento isolado. Foram o resultado de uma guerra civil complexa com intervenção estrangeira e com tensões religiosas e geopolíticas intensas. E marcaram uma viragem na forma como conflitos assimétricos são travados.

Um outro movimento que na altura foi importante – o Amal – um importante movimento político e militar xiita no Líbano, com um papel central durante a Guerra Civil Libanesa. O Movimento Amal (em árabe “Esperança”) surgiu na década de 1970 para defender a comunidade xiita, historicamente marginalizada no Líbano. Foi fundado por Musa al-Sadr, um influente clérigo. Durante a guerra o Amal tornou-se uma das principais milícias xiitas, combatendo vários adversários incluindo a Organização para a Libertação da Palestina. Tinha forte apoio da Síria. Um episódio importante foi a chamada “Guerra dos Campos” (anos 1980), contra milícias palestinianas. 
O Amal representava um xiismo mais tradicional e nacionalista libanês. Já o Hezbollah era mais radical e islamista, fortemente alinhado com o Irão. Os dois grupos chegaram a lutar entre si na disputa pelo controlo da comunidade xiita. Hoje, o Amal é um partido político legal no Líbano e participa no governo. É liderado por Nabih Berri, que também é presidente do parlamento há décadas. Mantém uma aliança política com o Hezbollah, apesar das rivalidades do passado.

A influência do Irão no Líbano – e o surgimento de “proxies” como o Hezbollah – não se explica por um único motivo. Israel é uma peça importante, mas não é a única razão. Vamos por partes. Durante a Guerra Civil Libanesa o Estado libanês praticamente colapsou. Várias milícias controlavam territórios. Isso abriu espaço para potências externas influenciarem grupos locais. A Invasão israelita do Líbano de 1982 foi crucial: Israel ocupou o sul do Líbano; a população xiita local sentiu-se abandonada e atacada. O Irão aproveitou essa situação. O Irão enviou instrutores (Guarda Revolucionária), dinheiro e ideologia através da Síria (que controlava partes do Líbano na altura). Resultado: criação e fortalecimento do Hezbollah nos anos 1980. Antes disso, os xiitas eram uma das comunidades mais pobres e marginalizadas. Grupos como o Movimento Amal já existiam, mas eram mais “tradicionais”. O Hezbollah oferecia resistência armada contra Israel, apoio social (escolas, hospitais), identidade e proteção. O Irão usa “proxies” por várias razões. Influência regional: quer ser uma potência dominante no Médio Oriente. Profundidade estratégica: combater inimigos fora do seu território evitando guerra direta. Exportar a revolução.

Desde a criação de Israel em 1948 que muitos palestinianos foram deslocados. O conflito com os árabes tornou-se central e o Irão posicionou-se como defensor da causa palestiniana considerando Israel como ilegítimo e uma presença “ocidental” na região. Para Israel o Irão passou a ser “a ameaça existencial”. O Hezbollah é um proxy do Irão, mas também um ator libanês real, combatendo Israel (especialmente no sul do Líbano) influencia a política libanesa e projeta o poder iraniano.

A queda do Líbano – e de Beirute como a “Paris do Médio Oriente” – não foi súbita. Foi uma erosão lenta, com vários choques acumulados ao longo de décadas. E sim: hoje muitos analistas falam de um quase Estado falhado, embora ainda funcione parcialmente. Até aos anos 1970, Beirute era centro financeiro e bancário, polo cultural e turístico, espaço relativamente liberal no mundo árabe. Daí o apelido “Paris do Médio Oriente”. Mas havia um problema estrutural, cujo sistema político era frágil desde o início. O país baseava-se num acordo chamado “confessionalismo”. O poder era dividido por religiões: Presidente → cristão maronita; Primeiro-ministro → sunita; Presidente do parlamento → xiita.

A Guerra Civil Libanesa foi o grande ponto de rutura. Tensões religiosas internas, presença armada palestiniana (Organização para a Libertação da Palestina) e interferência externa. Com as milícias a tomarem o controlo de facto, Beirute ficou devastada e o Estado colapsou. O Líbano tornou-se um “campo de jogo” para potências: Síria → ocupação durante décadas; Israel → invasões e ocupação do Sul; Irão → apoio ao Hezbollah. O Estado libanês nunca recuperou soberania total. Após 1990 a guerra cessou, mas os senhores da guerra viraram políticos. Cada grupo protegendo os seus, o Líbano transformou-se num Estado clientelar. E assim, com uma grande corrupção sistémica o Líbano passou a ser um Estado fraco.

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