domingo, 10 de maio de 2026

Até que ponto uma proteção prolongada reduz a autonomia estratégica de quem é protegido?

 

Há 83 anos, no melhor dos mundos possíveis de "O Pequeno Príncipe" todas as famílias do mundo tinham uma casa com água, luz e saneamento para viverem. Não havia bairros de lata nem sem-abrigo. Mas hoje, dos descendentes dessas famílias, mil milhões vivem em bairros de lata. Porquê? Que é feito daquelas casas? Ficaram em ruínas? Não houve dinheiro para obras de manutenção? Não houve dinheiro para fazer novas casas? Ou todo o bem-estar proporcionado por outros levou à preguiça destes?

É importante perceber que “bairro de lata” não significa necessariamente ausência total de esforço ou de comunidade. Em muitos casos, são bairros construídos gradualmente pelos próprios moradores, sem apoio estatal suficiente. Há bairros informais com enorme vida económica e social, mas sem saneamento, segurança jurídica ou infraestrutura adequada. Se “há 83 anos” todas as famílias tinham casa digna no mundo imaginário de "O Pequeno Príncipe", como é que hoje existem mil milhões de pessoas em bairros de lata? Pessoas que trabalham longas horas em construção, limpeza, fábricas, entregas, agricultura, cuidados domésticos ou comércio informal. O problema é que trabalhar não garante acesso a habitação digna quando os salários são demasiado baixos e o custo do solo urbano sobe muito mais depressa.

Até que ponto uma proteção prolongada reduz a autonomia estratégica de quem é protegido? Isto tem a ver com aquele muito antigo método analítico das dicotomias aplicado ao ser humano: há aqueles que são otimistas; e há os que são pessimistas; há os que aceitam a morte, na boa!; há os que não aceitam e por isso acreditam na vida eterna noutro lugar. Há os nómadas que são caçadores, que podem não voltar para contar a história à roda da fogueira; e há os sedentários, que compram tudo feito. Um mecanismo muito antigo do pensamento humano: compreender o mundo por contrastes. É quase inevitável. O cérebro humano simplifica a realidade em pares opostos para conseguir orientar-se: vida / morte ; ordem / caos ; dependência / autonomia ; risco / conforto. Isso aparece desde os mitos antigos até à filosofia moderna.

A população mundial triplicou desde os anos 1940. As cidades cresceram muito depressa. Milhões migraram do campo para as cidades à procura de emprego. Muitos países foram colonizados, explorados ou entraram em guerras e crises de dívida, dificultando investimento público duradouro. Em muitas cidades, construir habitação acessível nunca acompanhou o crescimento da população. O preço da terra e das casas passou a ser tratado também como ativo financeiro, não apenas como necessidade humana. Estados que antes investiam fortemente em habitação pública reduziram esse investimento em várias décadas. Corrupção, especulação imobiliária e planeamento urbano fraco agravaram o problema em muitos lugares. Entretanto, muitas casas degradaram-se por falta de manutenção. Outras foram destruídas por guerras, catástrofes ou abandono rural. Muitas simplesmente deixaram de ser suficientes para o número de descendentes. Em certas cidades, bairros populares foram substituídos por habitação cara.

Depois da Segunda Guerra Mundial, os pessimistas inventaram a metáfora 
“preguiça dos europeus”. Pois, a Europa voltou a ter "a Guerra" às suas portas. Os EUA assumiram grande parte do peso militar do bloco ocidental através da NATO. Durante décadas, muitos países europeus puderam investir mais no Estado social, infraestruturas e qualidade de vida porque contavam com a proteção estratégica americana, especialmente em inteligência, dissuasão nuclear, logística, aviação e projeção militar. A invasão russa da Ucrânia expôs algumas fragilidades europeias: stocks reduzidos de munições; dependência energética da Rússia; indústria militar menos preparada para guerra prolongada; dificuldades de coordenação política rápida entre muitos países.

Os nómadas-caçadores viviam numa lógica de incerteza permanente: mobilidade, perigo, adaptação rápida, coragem individual, improviso. A morte estava “ao lado da fogueira”. Isso tende a produzir culturas mais viradas para resistência, honra, fatalismo ou espiritualidade ligada à natureza. Já os sedentários agrícolas desenvolveram outra psicologia: armazenamento, estabilidade, planeamento, burocracia, propriedade, especialização. A segurança coletiva passou a depender menos do caçador individual e mais da organização da aldeia, depois da cidade, depois do Estado.

Esta é a ironia dos yempos modernos: quanto mais sofisticada fica uma civilização, menos cada indivíduo sabe produzir diretamente aquilo de que depende para viver. Um caçador-recolector talvez soubesse fazer abrigo; obter comida; orientar-se; defender-se. Um habitante urbano moderno depende de eletricidade; cadeias logísticas; internet; supermercados; sistemas financeiros; especialistas. Em troca, ganha conforto, medicina, longevidade, conhecimento acumulado e proteção contra muitos riscos naturais. Mas o conforto prolongado pode diminuir a perceção do risco. E isso vale tanto para indivíduos como para sociedades. É precisamente essa tensão que muitos comentadores veem hoje. Por um lado, sociedades habituadas à escassez e ao perigo. Por outro lado, sociedades habituadas à estabilidade e à abundância.

No fundo, as dicotomias ajudam-nos a pensar. Mas tornam-se perigosas quando passam de ferramentas analíticas para rótulos absolutos sobre povos inteiros. Quase todas as civilizações fortes da história, apesar do seu esplendor, nem por isso deixaram de aceitar a chegada do dia que ditou a sua sentença: "o seu esplendor chegou ao fim".

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