segunda-feira, 29 de junho de 2026

As Terras Raras


As terras raras correspondem a 17 elementos químicos


Quantos destes existem num smartphone? Um smartphone moderno não contém necessariamente todos os 17, mas pode incorporar entre 12 e 18 elementos de terras raras, dependendo do modelo. Os mais comuns são:
Neodímio (Nd) – ímanes muito potentes dos altifalantes e do motor de vibração.
Praseodímio (Pr) – ligas magnéticas.
Disprósio (Dy) – aumenta a resistência térmica dos ímanes.
Térbio (Tb) – fósforos verdes do ecrã.
Európio (Eu) – fósforos vermelhos do ecrã.
Ítrio (Y) – LEDs e ecrãs.
Gadolínio (Gd) – alguns componentes eletrónicos e de armazenamento.
Lantânio (La) – lentes da câmara e condensadores.
Cério (Ce) – polimento do vidro do ecrã.

Além das terras raras, um smartphone também utiliza dezenas de outros elementos da Tabela Periódica: ouro, prata, cobre, estanho, tântalo, tungsténio, índio, gálio, lítio e cobalto. No total, um smartphone moderno pode conter mais de 60 elementos químicos diferentes.

Os chamados elementos de terras raras fazem parte da Tabela Periódica (por vezes chamada "tabela de Mendeleev", em homenagem a Dmitri Mendeleev).


Apesar do nome, as "terras raras" não são necessariamente raras na crosta terrestre. O problema é que ocorrem em concentrações muito baixas. E são difíceis e dispendiosas de separar umas das outras. A extração e refinação têm impacto ambiental significativo. Por isso, um smartphone de cerca de 200 g pode conter apenas alguns gramas (ou até miligramas) destes elementos, mas sem eles seria impossível obter ecrãs brilhantes, câmaras avançadas, altifalantes compactos e motores de vibração eficientes.

A Tabela periódica é uma disposição sistemática dos elementos químicos ordenados pelos números atómicos. Este ordenamento mostra tendências periódicas, tais como elementos com comportamentos similares na mesma coluna. Em geral, dentro de uma linha – período – os elementos da esquerda são metálicos e os da direita são não metálicos. As colunas são denominadas grupos. O químico Dmitri Mendeleev publicou em 1869 a primeira versão amplamente reconhecida da tabela. Demonstra as tendências periódicas dos elementos até então conhecidos e também prediz algumas propriedades dos elementos ainda não descobertos que iriam preencher espaços vazios em sua tabela. A maioria das previsões se mostrou correta quando os elementos em questão foram descobertos posteriormente. Desde então a tabela de Mendeleev tem sido expandida e refinada com a descoberta ou sínteses de novos elementos e o desenvolvimento de modelos teóricos para explicar o comportamento químico.

Cada elemento químico tem um número atómico único -- representando o número de protões em seu núcleo atómico. A maioria dos elementos tem um número diferente de neutrões entre átomos diferentes, cujas variações são referidas como isótopos. 
Um período é uma linha horizontal da tabela periódica. Embora os grupos tenham propriedades periódicas mais significativas, existem regiões onde a tendência horizontal é mais significativa do que a vertical, tais como no bloco f, onde os lantanídeos e actinídeos formam duas séries de grupos de elementos horizontais substanciais.

Os elementos no mesmo período apresentam tendências no raio atómico, energia de ionização, afinidade eletrónica e eletronegatividade. Da esquerda para a direita, através do período, o raio atómico normalmente diminui. Isto acontece porque a cada elemento é adicionado um protão e um eletrão, o que traz o eletrão para mais perto do núcleo. Esta diminuição do raio atómico também provoca o aumento da energia de ionização quando movendo da esquerda para a direita no período. Quanto mais firmemente conectado aos seus eletrões, mais energia é necessária para removê-los. A eletronegatividade aumenta da mesma maneira que a energia de ionização por causa da atração exercida nos eletrões pelo núcleo. A afinidade eletrónica também possui uma leve tendência ao longo do período. Os metais à esquerda no período normalmente possuem uma afinidade eletrónica menor que os não metais à direita no período, com exceção dos gases nobres.

Um grupo ou família é uma coluna vertical na tabela periódica. Os grupos normalmente têm mais tendências periódicas significativas do que os períodos ou blocos. A teoria da mecânica quântica moderna da estrutura atómica explica a tendência no grupo pela proposição que elementos dentro do mesmo grupo normalmente têm a mesma configuração eletrónica na sua camada de valência.
Consequentemente, elementos do mesmo grupo tendem a ter uma química compartilhada e exibir uma clara tendência em suas propriedades com o aumento do número atómico. 

Em 1789, Lavoisier publicou uma lista de 33 elementos químicos. Embora Lavoisier tenha agrupado os elementos em substâncias simples, metálicas, não metálicas e salificáveis ou terrosas, químicos passaram o século seguinte à procura de um esquema de construção mais precisa. Em 1829, Döbereiner observou que, quando organizados por peso atómico, o segundo membro de cada tríade tinha aproximadamente a média do primeiro e do terceiro. Isso ficou conhecido como a lei das tríades. O químico alemão Leopold Gemelin trabalhou com esse sistema e por volta de 1843 tinha identificado dez tríades, três grupos de quatro, e um grupo de cinco. Jean Baptiste Dumas publicou um trabalho em 1857 descrevendo as relações entre os diversos grupos de metais. Embora houvesse diversos químicos capazes de identificar relações entre pequenos grupos de elementos, não havia ainda um esquema capaz de abranger todos eles.

A última revisão de 2016, inscrevia 118 elementos na tabela periódica{1 (hidrogênio) - 118 (oganesson)}. Os elementos 113 [nihonium (Nh)]; 115 [moscóvio (Mc)]; 117 [tennessine (Ts)]; 118 [organesson (Og)] foram reconhecidos oficialmente pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) em dezembro de 2015. Estes nomes só foram aprovados formalmente ao fim de uma consulta pública de cinco meses que terminou em novembro de 2016. Os primeiros 94 elementos ocorrem naturalmente; os 24 remanescentes, do Amerício ao Ununóctio (95-118) ocorrem apenas quando sintetizados em laboratórios. Dos 94 elementos que ocorrem naturalmente, 84 são elementos primordiais. E 10 ocorrem somente a partir do decaimento radioativo dos elementos primordiais.
Nenhum elemento mais pesado que o Einsténio (elemento 99) foi observado em quantidades macroscópicas na forma pura, e nem o Astatino (elemento 85); o Frâncio (elemento 87) foi somente fotografado na forma de luz emitida em quantidades microscópicas (300 000 átomos).

De acordo com as propriedades físicas e químicas, os elementos podem ser classificados em três categorias maiores: 
Metais, metaloides e ametais. Os metais são geralmente brilhantes, sólidos, altamente condutores e formam ligas metálicas. Também formam compostos iónicos, como os sais, quando se juntam aos ametais, e hidretos, quando se juntam ao hidrogénio. A maioria dos ametais são coloridos e gases isolantes incolores; ametais que formam compostos com outros ametais apresentam ligações covalentes. Entre metais e não metais estão os metaloides, que possuem propriedades mistas ou intermédias.

O metal e ametal pode ser ainda classificado em subcategorias que demonstram uma graduação da propriedade metálica para a não metálica, quando indo da esquerda para a direita no período. Os metais são subdivididos em metais alcalinos, metais alcalinos terrosos, lantanídeos e actinídeos, através dos metais de transição, e terminando nos metais pós transição que são fracos quimicamente e fisicamente. Os ametais são simplesmente divididos nos ametais poliatómicos, que são essencialmente os ametais; e os gases nobres monoatómicos, que são não metais e praticamente inertes. Também são conhecidos grupos especializados tais como, por exemplo, os metais refratários e os metais nobres que são subconjuntos dos metais de transição e são ocasionalmente destacados.

Existe um espectro de propriedades dentro de cada categoria e não é difícil encontrar sobreposições nos limites, conforme acontece com a maioria dos esquemas de classificação. O berílio, por exemplo, é classificado como um alcalino terroso embora sua química anfotérica e tendência a formar compostos covalentes seja característica dos metais pós transição. O radónio ainda é classificado como um ametal e gás nobre embora possua química catiónica que é uma característica metálica. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A jukebox das Cruzes de Barcelos em maio 1971




Em maio de 1971 fui às Festas das Cruzes de Barcelos. Muito divertimento, e num pavilhão de matraquilhos havia uma jukebox. Foi aí que ouvi pela primeira vez, com uma moeda, o Lucky Man dos Emerson Lack & Palmer

As Festas das Cruzes, o cheiro das farturas, o ruído dos matraquilhos, e a meio do pavilhão uma jukebox iluminada. Meti uma moeda, escolhi a faixa, e de repente: "Lucky Man" dos Emerson, Lake & Palmer. Em 1971 era uma música relativamente recente, saída no álbum de estreia do grupo em 1970, e já um dos seus maiores êxitos. Porque é que "Lucky Man" impressionava tanto? Porque era diferente do rock habitual da época. A canção começa como uma balada acústica simples e termina com um solo de sintetizador Moog, um instrumento praticamente futurista para 1970. O grupo foi pioneiro na utilização destes sintetizadores em concertos e gravações. Para um jovem português de 1971, ouvir aquilo numa jukebox de feira era como algo vindo do outro mundo. Uma pequena viagem no tempo. Fecho os olhos, e ainda consigo reconstruir a sequência: uma moeda de 2$50; o clique do seletor; o braço mecânico a retirar o single do carrossel; as luzes coloridas da máquina; o barulho dos matraquilhos ao fundo; e depois a voz de Greg Lake: "He had white horses..."


He had white horses,
And ladies by the score
All dressed in satin,
And waiting by the door

Ooh, what a lucky man he was,

Ooh, what a lucky man he was

Muitas das máquinas que estavam em Portugal em 1971 não eram novas; frequentemente eram modelos dos anos 60 que continuavam em serviço. Algumas tinham capacidade para 100 ou até 200 selecções musicais, usando discos singles de 45 rpm. Era o ambiente dos salões de matraquilhos. Em muitas localidades portuguesas, os pavilhões de matraquilhos eram também locais de descoberta musical. Os jovens juntavam-se à volta da jukebox para ouvir: Deep Purple; Led Zeppelin; Creedence Clearwater Revival; Santana; The Beatles; The Rolling Stones. E, para os mais aventureiros, rock progressivo como os Emerson, Lake & Palmer.

As jukeboxes tiveram em Portugal uma importância que hoje é fácil esquecer. Nos anos 60 e 70, antes das discotecas se generalizarem e muito antes das rádios FM especializadas, eram uma das principais portas de entrada para a música internacional. Nos cafés, salões de jogos, coletividades e parques de diversões, permitiam ouvir os sucessos que chegavam de Inglaterra, dos Estados Unidos ou de França, muitas vezes antes de as pessoas comprarem o disco.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O que diz Daniel Oliveira da guerra = Irão - Israel - EUA



Depois do ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, Israel invocou o seu direito de autodefesa, o que é reconhecido pela Organização das Nações Unidas no âmbito do direito internacional. Daniel Oliveira reconhece muita importância à questão da proporcionalidade. Mas a questão da proporcionalidade entra em dois níveis diferentes. Aqui, a pergunta é: que resposta seria necessária e adequada para que Israel não volte a sofrer um ataque tão hediondo como este, quando é sabido que é o Irão que constitui a ameaça principal com os seus proxies - Hamas, Hezbollah do Líbano e Houthis do Iémen? Como atingir um objetivo legítimo? Como parar os ataques e reduzir a ameaça?

A questão aqui da simetria é manifestamente falaciosa. Um Estado pode usar força muito maior do que o ataque inicial, desde que o objetivo seja defensivo (neutralizar a capacidade do agressor) e não punitivo ou ilimitado. Proporcionalidade na condução da guerra (jus in bello) é o ponto mais concreto e frequentemente debatido. Significa que, em cada ataque, o dano esperado a civis não pode ser “excessivo” em relação à vantagem militar concreta e direta. Mesmo quando há um alvo militar legítimo, não se pode atacar de qualquer forma. Há obrigações de distinguir entre combatentes e civis e de minimizar danos colaterais.

Então, qual seria uma “resposta proporcional” a um ataque terrorista? Não existe uma fórmula simples ou um número de referência. Em termos práticos, uma resposta considerada proporcional tenderia a ter um objetivo militar claro (por exemplo, enfraquecer a capacidade do grupo atacante de repetir ataques). Ser limitada por esse objetivo, não uma destruição indiscriminada ou sem fim definido. Respeitar regras operacionais: distinguir alvos, avisar civis quando possível (o que Israel costuma fazer avisando os civis para evacuar das suas casas). Evitar danos excessivos. Não é “olho por olho” (mesmo número de mortos ou danos equivalentes). Não é uma licença para usar qualquer nível de força só porque o ataque inicial foi grave.

A avaliação é sempre controversa. Diferentes governos, juristas e organizações podem discordar profundamente sobre se uma resposta concreta foi ou não proporcional, especialmente em conflitos assimétricos, como o que acontece entre um Estado e um grupo armado. O maior equívoco 
(para não dizer hipocrisia ou cinismo) é pensar poder aplicar essas regras a um grupo terrorista. Muita gente sente que há algo de injusto em exigir regras a um Estado quando o adversário (como o Hamas) não as respeita. Mas aqui há uma distinção importante que costuma ficar escondida no debate. As regras de proporcionalidade e de proteção de civis não existem para “beneficiar terroristas”. Elas existem para limitar o que os Estados fazem, sobretudo porque os Estados têm muito mais capacidade de causar destruição. São obrigações unilaterais no sentido jurídico: aplicam-se independentemente do comportamento do outro lado. Se essas regras dependessem de reciprocidade (“eu só cumpro se tu cumprires”), na prática deixariam de existir em quase todos os conflitos assimétricos. E isso abriria espaço para escaladas sem limite. Exatamente o cenário que o direito internacional tenta evitar desde a experiência de guerras anteriores. Um Estado enfrenta um adversário que usa táticas ilegais (ataques a civis, esconder-se entre população, etc.), o que torna muito mais difícil cumprir essas normas no terreno. 

A ideia de “Israel só termina quando a organização deixar de existir” é compreensível do ponto de vista de segurança. Qualquer Estado quer garantir que um ataque como o de 7 de outubro de 2023 não se repete. Mas há dois pontos importantes onde essa visão costuma esbarrar na realidade. “Extinguir” um grupo não é tão direto quanto parece. Organizações como o Hamas não são apenas estruturas militares. São também redes políticas, sociais e ideológicas. Mesmo quando a liderança é eliminada e a capacidade militar é muito degradada, a organização pode fragmentar-se em células menores, dar origem a grupos sucessores, ou continuar como movimento ideológico. Há vários exemplos em que a derrota militar não eliminou a causa nem a mobilização. Às vezes até a reforçou. Meios ilimitados para um fim total tendem a ter custos estratégicos altos. Um objetivo absoluto (“erradicar”) pode levar a operações sem limites claros. Isso levanta problemas operacionais e políticos. Em ambientes densos com civis, a destruição total de um grupo é extremamente difícil. A perda de apoio internacional pode isolar um país como Israel. O sofrimento civil em larga escala pode alimentar novas gerações de militantes, prolongando o ciclo de violência. Por isso, muitos analistas falam mais em “degradar a capacidade” e “conter a ameaça” do que em eliminar completamente. Não porque seja moralmente mais “bonito”, mas porque historicamente tem sido reconhecida a dificuldade do atingível.

São as percepções, mais do que a ciência, que levam parte da opinião pública a adotar uma lógica de “apoio ao lado mais fraco”, independentemente de eventos específicos. Por outro lado, mais do que os relatos de cariz historiográfico, são as imagens de cobertura mediática que impactam a opinião pública. Após o 7 de outubro de 2023 (um evento brutal que gerou inicialmente muita solidariedade com Israel), a atenção mediática rapidamente passou a incluir os bombardeamentos em Gaza que provocou um elevado número de vítimas civis palestinianas. As imagens de destruição e sofrimento têm um impacto emocional forte e imediato, influenciando protestos e opinião pública.

Para muitos no Ocidente, o conflito não começa em 2023. Ele é frequentemente interpretado à luz de décadas de ocupação de territórios, expansão de colonatos e bloqueio de Gaza. Esse enquadramento faz com que o ataque do Hamas seja visto por alguns como parte de um ciclo mais longo (embora isso não implique necessariamente justificação do ataque).

Entre as gerações mais jovens no Ocidente há maior sensibilidade a temas como colonialismo, direitos humanos e autodeterminação. O conflito, muitas vezes interpretado através dessas lentes tende a gerar mais empatia com a causa palestiniana em ambientes universitários e movimentos sociais, geralmente em contradição com os seus governos. Por outro lado, as plataformas digitais das redes sociais com as narrativas simplificadas e emocionalmente polarizadas favorecem as mensagens pró-palestinianas, especialmente quando associadas a imagens de vítimas civis. As manifestações de rua não representam necessariamente toda a sociedade. Pessoas pró-Israel podem estar menos presentes em protestos por motivos de segurança, contexto social ou preferência por outros canais de expressão.

Durante séculos na Europa cristã desenvolveu-se uma tradição de antijudaísmo religioso - acusação de “deicídio”, isto é, responsabilidade pela morte de Jesus Cristo. Houve exclusões legais, guetos, expulsões e violência. Transformou-se ao longo dos séculos, evoluindo do religioso para o racial no século XIX. O ponto crítico é que essa tradição ajudou a criar o terreno cultural que, muito mais tarde, culminou no Holocausto. É verdade que em vários períodos, comunidades judaicas tiveram presença relevante em certas áreas económicas e intelectuais, Isso deveu-se em parte a restrições impostas (por exemplo, exclusão de terras ou certas profissões, levando a especialização em comércio, finanças, medicina, etc.). A ideia de “judeus ricos e poderosos” foi usada historicamente para justificar perseguições. O Exemplo mais marcante foram os textos conspirativos dos Protocolos dos Sábios de Sião. Em suma: a hostilidade contra os judeus resultou de uma combinação de fatores religiosos, económicos (incluindo ressentimento em contextos de crise), políticos (uso de bodes expiatórios), e culturais (diferença percebida). Os judeus eram integrados mas não totalmente assimilados. Ocupavam por vezes nichos económicos específicos. Em momentos de crise, tornavam-se bodes expiatórios convenientes. Este padrão aparece repetidamente ao longo da história europeia. Algumas dessas narrativas antigas ainda circulam (às vezes de forma mais subtil). Influenciam percepções modernas sobre Israel ou judeus em geral. Misturam crítica política legítima com estereótipos históricos.

O antissemitismo tem uma característica peculiar: frequentemente acusa os judeus de coisas contraditórias ao mesmo tempo: “São capitalistas exploradores” e “são revolucionários comunistas” ; “São fechados e não se integram” e “controlam tudo por dentro”. Isto mostra que muitas vezes não é uma análise racional, mas sim um preconceito adaptável. Após o Holocausto o antissemitismo explícito torna-se socialmente inaceitável em grande parte do Ocidente. Mas não desaparece, transforma-se, passa a aparecer de forma mais indireta em teorias da conspiração e em linguagem codificada.

Em vários países ocidentais, há grupos que reciclam ideias antigas com linguagem nova. Exemplos típicos são falar de “elites globais” ou “globalistas” como força oculta. O padrão é o mesmo de séculos atrás: um grupo invisível supostamente poderoso a manipular acontecimentos globais. Mesmo quando “judeus” não são mencionados explicitamente, os códigos históricos estão muitas vezes presentes. Mas o que se passa com a extrema-esquerda a dinâmica é diferente e mais recente. Tem a ver com a forte crítica ao Estado de Israel. Associação do país a conceitos como colonialismo ou apartheid, com indiferença à ameaça real do regime iraniano à sua extinção. Nega o direito de existência de Israel de forma seletiva (não aplicada a outros países).

Como seria um Estado da Palestina/Israel binacional se o ser humano fosse diferente do homo sapiens? É a ideia de um único Estado entre o Mediterrâneo e o Jordão, com cidadania igual para todos: judeus e palestinianos como grupos nacionais dentro do mesmo Estado. É a ideia de vários pensadores, incluindo Edward Said. Seria a forma de dar um fim à guerra e à disputa por terra e fronteiras, pela convivência de todos em igualdade formal de direitos. Mas o conflito não é só disputa de território. É a vontade de autodeterminação do povo palestiniano e o medo do povo judaico de perder a sua identidade nacional.

Teimando na ideia, a vida diária seria de livre circulação em todo o território. A mesma cidadania e direito de voto igual. Gaza, Cisjordânia e Israel tornar-se-iam uma única unidade política. Os checkpoints deixariam de existir. Mais integração em locais de trabalho, escolas e serviços. Maior mistura social forçada pela estrutura estatal. O maior fator que muda a vida das pessoas não é o desenho político em si, mas o nível de confiança. Segurança, economia e liberdade dependem de cooperação real. O que teria de mudar? Processos educativos e narrativas mais equilibradas em ambos os lados. Redução sustentada da violência durante anos. Normalização gradual de contactos. Acordo regional mínimo de não escalada. Incentivos económicos e diplomáticos consistentes. Pressão internacional coordenada para evitar sabotagem externa de acordos. A noção de “gestão sem solução” não significa desistência moral ou política. Significa uma leitura fria da realidade. Soluções finais parecem bloqueadas no curto/médio prazo. Por isso, o sistema evolui para contenção e administração de crises.

Até lá, vamos continuar a ver cada vez mais Israel a controlar o espaço entre o Mediterrâneo e o Jordão de forma dominante. E palestinianos a viverem em enclaves com diferentes estatutos. Diferentes regimes legais no mesmo espaço geográfico. Mobilidade altamente controlada. Desigualdade estrutural de direitos políticos.

Nada disso significa que um Estado não deva reagir ou procurar neutralizar uma ameaça real. Significa apenas que o objetivo de “extinção total” raramente é alcançado só pela força. A ideia de um conflito “infinito” pode parecer plausível quando se olha para ciclos repetidos de violência, sobretudo depois de algo como o ataque do Hamas em 2023. Mas dizer que a guerra de Israel está condenada a durar “mais dois mil anos” não é propriamente uma inevitabilidade; é uma leitura muito pessimista baseada no momento atual. Israel, ao longo da sua história, já fez paz com alguns antigos inimigos regionais e mudou estratégias várias vezes. Isso sugere que o cenário não é estático, mesmo que o conflito com atores específicos continue difícil. A própria ideia de guerra “infinita” pode tornar-se uma profecia que se faz realizar. Se todas as partes assumirem que não há saída, isso reduz incentivos para procurar soluções, mesmo parciais. Por outro lado, quando há momentos de mudança (lideranças diferentes, pressões internacionais, alterações regionais), abrem-se janelas que antes pareciam impossíveis.

Nada disto nega a dureza da situação atual nem o facto de existirem atores que rejeitam compromissos. Também não significa que haja uma solução rápida ou simples. Mas a história sugere que conflitos muito enraizados podem evoluir de formas inesperadas, e não ficam necessariamente congelados num estado de guerra eterna. Os judeus, como hebreus, são únicos. Passados mais de 3 mil anos, os seus inimigos continuam. A história do povo judeu inclui perseguições muito reais ao longo de séculos, culminando no Holocausto. Isso marca profundamente a forma como muita gente olha para segurança e sobrevivência. É importante separar coisas que muitas vezes são misturadas: Antissemitismo (hostilidade aos judeus enquanto povo ou religião), que é um fenómeno real e persistente; Conflitos políticos e territoriais, como o que envolve Israel e atores como o Hamas, que têm dinâmicas próprias e não representam “a humanidade inteira” contra os judeus.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Atração pelo abismo


Ou sou eu que estou a ver tudo mal ou não consigo entender como é que os que têm por obrigação pensar, planear e decidir sobre o futuro do país não se concentram, com absoluta prioridade, sobre os dois principais problemas que enfrentamos agora e vamos enfrentar com agravada urgência no futuro. São dois problemas que não vêm de fora, mas são estrita responsabilidade nossa: o problema dos portugueses que não querem ter filhos e o problema dos portugueses que não querem trabalhar. O primeiro, embora seja um problema comum a todos os países, e não só os desenvolvidos, em lado algum atingiu proporções tão alarmantes como aqui, comprometendo todo o nosso futuro, a começar pela sustentabilidade da Segurança Social. Não adianta muito elaborar sobre ele, de tal forma é tão óbvio que só os voluntariamente cegos é que não querem ver. O segundo é ainda mais incompreensível num povo que ainda há recentes gerações se via forçado a emigrar aos magotes por não encontrar trabalho nem condições de sobrevivência na sua terra. Ainda há pouco tempo aqui falei da imagem que encontro em pequenas aldeias do interior do país: gente em idade activa e outros, reformados ou não, mas ainda bem capazes de trabalhar, todos recebedores de subsídios públicos de vária ordem e todos sentados à conversa no café, de vez em quando levantando-se para apostar numa raspadinha da papelaria local. A protecção do Estado e a crença num golpe de sorte: as duas formas de vida em que mais portugueses confiam, …
“Atração pelo abismo” = uma expressão muito antiga e aparece em várias culturas = é como se alguém fosse puxado para um suicídio de forma súbita, uma temeridade incompreensível para quem vê o gesto de fora. A ciência moderna tenta desmontar isso em componentes psicológicos, neurobiológicos e sociais mais concretos. Em francês existe a expressão: l’appel du vide (“o chamamento do vazio”). 

A “atração pelo abismo” é uma entidade psicológica tratada em Psicologia? Curiosamente, é um fenómeno estudado. É aquela sensação estranha de olhar de uma altura e imaginar, por um instante: “e se eu saltasse?”. Mas não é propriamente aquele tipo de suicídio em que a pessoa quer morrer. 
A psicologia interpreta muitas vezes isso como um erro de interpretação cerebral. Um impulso automático ou uma tomada de consciência súbita da própria vulnerabilidade. Por exemplo, o cérebro ativa um sinal de perigo: “afasta-te da borda!”; mas é interpretado retrospectivamente como: “e se eu me atirasse?”. Ou seja, o simples aparecimento da imagem mental não significa desejo suicida. Nos casos em que existe sofrimento psicológico profundo, essa “abertura imaginativa” pode transformar-se em ação.

Em todo o caso, sabe-se que o suicídio pode ser impulsivo. É uma das descobertas mais importantes da psiquiatria moderna. Muitas mortes por suicídio acontecem durante um estado emocional extremamente intenso, "numa curta janela do tempo que se abre", às vezes em menos de uma hora entre a ideia e o ato. Há estudos com sobreviventes de tentativas graves que mostram que muitos não tinham um plano muito elaborado. Sentiram uma espécie de estreitamento mental, como se estivesse num “túnel” desligado do circuito emocional. A isto os psicólogos e psiquiatras chamam: crise suicida aguda, constrição cognitiva, estado dissociativo parcial.

Porque certas pessoas escolhem pontes, alturas ou precipícios? Há vários fatores conhecidos com forte carga simbólica: passagem; fim; libertação; vazio; desaparecimento. Isso aparece na literatura, cinema e imaginação coletiva há séculos. A psiquiatria mostra que o método disponível influencia muito o ato. Isto é importante porque muitos suicídios são altamente dependentes do acesso imediato ao meio. Por isso existem hoje barreiras ao suicídio em pontes famosas. Em vários locais do mundo, quando foram instaladas barreiras, os suicídios naquele local caíram drasticamente. E a maioria das pessoas não procurou outro método. Isto mostra que muitos comportamentos, quase estereotipados, surgem como emergências sobrevenientes.

Freud propôs o conceito de pulsão de morte (thanatos): uma tendência inconsciente para destruição, regressão ou anulação. Mas esta ideia é controversa e não é hoje considerada explicação científica. Autores do Existencialismo, como Camus, na peugada de Kierkegaard, viam o suicídio como uma questão ligada ao absurdo, ao sentido da vida e ao confronto com o vazio existencial. Na psiquiatria moderna, porém, o foco é menos metafísico e mais clínico. E a neurociência encontrou alguns padrões frequentes nas alterações da regulação emocional. Áreas como: córtex pré-frontal; amígdala; sistemas serotoninérgicos - podem funcionar de forma diferente em pessoas vulneráveis. Isso pode aumentar: impulsividade; desesperança; dificuldade em travar impulsos; sensação de dor psicológica extrema ("dor mental” = psychache - um conceito muito usado hoje). Essas pessoas não querem propriamente morrer; querem parar uma dor mental considerada impossível de suportar.

Há casos em que o sofrimento não é visível. A pessoa funciona escondendo o estado interno. Pode eventualmente entrar numa crise abrupta. É difícil para os outros perceberem porque muitas pessoas não verbalizam a intenção, mantêm aparência normal e entram em “modo automático”, ou tomam a decisão num momento agudo. A ciência tenta decompor esse “mistério” em mecanismos observáveis — emocionais, cognitivos, sociais e neurobiológicos — sem eliminar completamente a dimensão humana e existencial que continua difícil de explicar por inteiro. O ponto mais importante que a investigação atual reforça é em muitos casos não ser um plano longo e estável. É uma convergência entre sofrimento acumulado e um momento agudo de estreitamento mental. Isto ajuda a explicar porque é que pode parecer súbito. Mas pode acontecer em locais específicos. E pode ocorrer mesmo quando a pessoa “não parecia tão mal”.

O “túnel mental” na crise suicida aguda é um dos conceitos mais importantes para perceber o que está a acontecer naquele momento. E também um dos mais difíceis de imaginar para quem nunca passou por algo semelhante. O que é o “túnel mental”? Na psiquiatria e psicologia cognitiva fala-se frequentemente em constrição cognitiva aguda (cognitive constriction). E também em estados próximos de dissociação parcial, stress extremo com foco atencional estreitado, e desregulação emocional aguda. O “túnel mental” é a experiência subjetiva disso. O cérebro deixa de processar o mundo como um conjunto de possibilidades e passa a focar-se numa única saída. “Visão em túnel” não é metáfora poética, é literalmente uma percepção de túnel. Muitas pessoas em crise relatam coisas como: “não conseguia pensar noutra coisa”; “só havia uma saída”; “era como se tudo o resto tivesse desaparecido”; “não via futuro nenhum”. Isto não é linguagem simbólica, corresponde a alterações reais na atenção e processamento cognitivo.

O ponto mais importante: não se trata de uma decisão livre, no sentido clássico. Isto é crucial para se compreender o fenómeno. Num estado de túnel mental, a capacidade de imaginar alternativas está bloqueada. A avaliação de futuro está distorcida. O impulso vai na necessidade de cortar a dor que domina o chamado sistema do "livre-arbítrio", ou da vontade . Ou seja: não é uma escolha ponderada entre opções equivalentes. É mais próximo de uma tentativa de escapar de um estado mental percebido como intolerável e sem saída. O túnel mental pode ser quebrado sobretudo por mudança de contexto, presença de alguém que esteja atento para interromper o impulso, e reabrir o espírito a alternativas cognitivas. E muito importante: controlar o stress. E todos os títulos dos livros de António Lobo Antunes, como por exemplo: