Ou sou eu que estou a ver tudo mal ou não consigo entender como é que os que têm por obrigação pensar, planear e decidir sobre o futuro do país não se concentram, com absoluta prioridade, sobre os dois principais problemas que enfrentamos agora e vamos enfrentar com agravada urgência no futuro. São dois problemas que não vêm de fora, mas são estrita responsabilidade nossa: o problema dos portugueses que não querem ter filhos e o problema dos portugueses que não querem trabalhar. O primeiro, embora seja um problema comum a todos os países, e não só os desenvolvidos, em lado algum atingiu proporções tão alarmantes como aqui, comprometendo todo o nosso futuro, a começar pela sustentabilidade da Segurança Social. Não adianta muito elaborar sobre ele, de tal forma é tão óbvio que só os voluntariamente cegos é que não querem ver. O segundo é ainda mais incompreensível num povo que ainda há recentes gerações se via forçado a emigrar aos magotes por não encontrar trabalho nem condições de sobrevivência na sua terra. Ainda há pouco tempo aqui falei da imagem que encontro em pequenas aldeias do interior do país: gente em idade activa e outros, reformados ou não, mas ainda bem capazes de trabalhar, todos recebedores de subsídios públicos de vária ordem e todos sentados à conversa no café, de vez em quando levantando-se para apostar numa raspadinha da papelaria local. A protecção do Estado e a crença num golpe de sorte: as duas formas de vida em que mais portugueses confiam, …
“Atração pelo abismo” = uma expressão muito antiga e aparece em várias culturas = é como se alguém fosse puxado para um suicídio de forma súbita, uma temeridade incompreensível para quem vê o gesto de fora. A ciência moderna tenta desmontar isso em componentes psicológicos, neurobiológicos e sociais mais concretos. Em francês existe a expressão: l’appel du vide (“o chamamento do vazio”).
A “atração pelo abismo” é uma entidade psicológica tratada em Psicologia? Curiosamente, é um fenómeno estudado. É aquela sensação estranha de olhar de uma altura e imaginar, por um instante: “e se eu saltasse?”. Mas não é propriamente aquele tipo de suicídio em que a pessoa quer morrer. A psicologia interpreta muitas vezes isso como um erro de interpretação cerebral. Um impulso automático ou uma tomada de consciência súbita da própria vulnerabilidade. Por exemplo, o cérebro ativa um sinal de perigo: “afasta-te da borda!”; mas é interpretado retrospectivamente como: “e se eu me atirasse?”. Ou seja, o simples aparecimento da imagem mental não significa desejo suicida. Nos casos em que existe sofrimento psicológico profundo, essa “abertura imaginativa” pode transformar-se em ação.
Em todo o caso, sabe-se que o suicídio pode ser impulsivo. É uma das descobertas mais importantes da psiquiatria moderna. Muitas mortes por suicídio acontecem durante um estado emocional extremamente intenso, "numa curta janela do tempo que se abre", às vezes em menos de uma hora entre a ideia e o ato. Há estudos com sobreviventes de tentativas graves que mostram que muitos não tinham um plano muito elaborado. Sentiram uma espécie de estreitamento mental, como se estivesse num “túnel” desligado do circuito emocional. A isto os psicólogos e psiquiatras chamam: crise suicida aguda, constrição cognitiva, estado dissociativo parcial.
Porque certas pessoas escolhem pontes, alturas ou precipícios? Há vários fatores conhecidos com forte carga simbólica: passagem; fim; libertação; vazio; desaparecimento. Isso aparece na literatura, cinema e imaginação coletiva há séculos. A psiquiatria mostra que o método disponível influencia muito o ato. Isto é importante porque muitos suicídios são altamente dependentes do acesso imediato ao meio. Por isso existem hoje barreiras ao suicídio em pontes famosas. Em vários locais do mundo, quando foram instaladas barreiras, os suicídios naquele local caíram drasticamente. E a maioria das pessoas não procurou outro método. Isto mostra que muitos comportamentos, quase estereotipados, surgem como emergências sobrevenientes.
Freud propôs o conceito de pulsão de morte (thanatos): uma tendência inconsciente para destruição, regressão ou anulação. Mas esta ideia é controversa e não é hoje considerada explicação científica. Autores do Existencialismo, como Camus, na peugada de Kierkegaard, viam o suicídio como uma questão ligada ao absurdo, ao sentido da vida e ao confronto com o vazio existencial. Na psiquiatria moderna, porém, o foco é menos metafísico e mais clínico. E a neurociência encontrou alguns padrões frequentes nas alterações da regulação emocional. Áreas como: córtex pré-frontal; amígdala; sistemas serotoninérgicos - podem funcionar de forma diferente em pessoas vulneráveis. Isso pode aumentar: impulsividade; desesperança; dificuldade em travar impulsos; sensação de dor psicológica extrema ("dor mental” = psychache - um conceito muito usado hoje). Essas pessoas não querem propriamente morrer; querem parar uma dor mental considerada impossível de suportar.
Há casos em que o sofrimento não é visível. A pessoa funciona escondendo o estado interno. Pode eventualmente entrar numa crise abrupta. É difícil para os outros perceberem porque muitas pessoas não verbalizam a intenção, mantêm aparência normal e entram em “modo automático”, ou tomam a decisão num momento agudo. A ciência tenta decompor esse “mistério” em mecanismos observáveis — emocionais, cognitivos, sociais e neurobiológicos — sem eliminar completamente a dimensão humana e existencial que continua difícil de explicar por inteiro. O ponto mais importante que a investigação atual reforça é em muitos casos não ser um plano longo e estável. É uma convergência entre sofrimento acumulado e um momento agudo de estreitamento mental. Isto ajuda a explicar porque é que pode parecer súbito. Mas pode acontecer em locais específicos. E pode ocorrer mesmo quando a pessoa “não parecia tão mal”.
O “túnel mental” na crise suicida aguda é um dos conceitos mais importantes para perceber o que está a acontecer naquele momento. E também um dos mais difíceis de imaginar para quem nunca passou por algo semelhante. O que é o “túnel mental”? Na psiquiatria e psicologia cognitiva fala-se frequentemente em constrição cognitiva aguda (cognitive constriction). E também em estados próximos de dissociação parcial, stress extremo com foco atencional estreitado, e desregulação emocional aguda. O “túnel mental” é a experiência subjetiva disso. O cérebro deixa de processar o mundo como um conjunto de possibilidades e passa a focar-se numa única saída. “Visão em túnel” não é metáfora poética, é literalmente uma percepção de túnel. Muitas pessoas em crise relatam coisas como: “não conseguia pensar noutra coisa”; “só havia uma saída”; “era como se tudo o resto tivesse desaparecido”; “não via futuro nenhum”. Isto não é linguagem simbólica, corresponde a alterações reais na atenção e processamento cognitivo.
O ponto mais importante: não se trata de uma decisão livre, no sentido clássico. Isto é crucial para se compreender o fenómeno. Num estado de túnel mental, a capacidade de imaginar alternativas está bloqueada. A avaliação de futuro está distorcida. O impulso vai na necessidade de cortar a dor que domina o chamado sistema do "livre-arbítrio", ou da vontade . Ou seja: não é uma escolha ponderada entre opções equivalentes. É mais próximo de uma tentativa de escapar de um estado mental percebido como intolerável e sem saída. O túnel mental pode ser quebrado sobretudo por mudança de contexto, presença de alguém que esteja atento para interromper o impulso, e reabrir o espírito a alternativas cognitivas. E muito importante: controlar o stress. E todos os títulos dos livros de António Lobo Antunes, como por exemplo:
Freud propôs o conceito de pulsão de morte (thanatos): uma tendência inconsciente para destruição, regressão ou anulação. Mas esta ideia é controversa e não é hoje considerada explicação científica. Autores do Existencialismo, como Camus, na peugada de Kierkegaard, viam o suicídio como uma questão ligada ao absurdo, ao sentido da vida e ao confronto com o vazio existencial. Na psiquiatria moderna, porém, o foco é menos metafísico e mais clínico. E a neurociência encontrou alguns padrões frequentes nas alterações da regulação emocional. Áreas como: córtex pré-frontal; amígdala; sistemas serotoninérgicos - podem funcionar de forma diferente em pessoas vulneráveis. Isso pode aumentar: impulsividade; desesperança; dificuldade em travar impulsos; sensação de dor psicológica extrema ("dor mental” = psychache - um conceito muito usado hoje). Essas pessoas não querem propriamente morrer; querem parar uma dor mental considerada impossível de suportar.
Há casos em que o sofrimento não é visível. A pessoa funciona escondendo o estado interno. Pode eventualmente entrar numa crise abrupta. É difícil para os outros perceberem porque muitas pessoas não verbalizam a intenção, mantêm aparência normal e entram em “modo automático”, ou tomam a decisão num momento agudo. A ciência tenta decompor esse “mistério” em mecanismos observáveis — emocionais, cognitivos, sociais e neurobiológicos — sem eliminar completamente a dimensão humana e existencial que continua difícil de explicar por inteiro. O ponto mais importante que a investigação atual reforça é em muitos casos não ser um plano longo e estável. É uma convergência entre sofrimento acumulado e um momento agudo de estreitamento mental. Isto ajuda a explicar porque é que pode parecer súbito. Mas pode acontecer em locais específicos. E pode ocorrer mesmo quando a pessoa “não parecia tão mal”.
O “túnel mental” na crise suicida aguda é um dos conceitos mais importantes para perceber o que está a acontecer naquele momento. E também um dos mais difíceis de imaginar para quem nunca passou por algo semelhante. O que é o “túnel mental”? Na psiquiatria e psicologia cognitiva fala-se frequentemente em constrição cognitiva aguda (cognitive constriction). E também em estados próximos de dissociação parcial, stress extremo com foco atencional estreitado, e desregulação emocional aguda. O “túnel mental” é a experiência subjetiva disso. O cérebro deixa de processar o mundo como um conjunto de possibilidades e passa a focar-se numa única saída. “Visão em túnel” não é metáfora poética, é literalmente uma percepção de túnel. Muitas pessoas em crise relatam coisas como: “não conseguia pensar noutra coisa”; “só havia uma saída”; “era como se tudo o resto tivesse desaparecido”; “não via futuro nenhum”. Isto não é linguagem simbólica, corresponde a alterações reais na atenção e processamento cognitivo.
O ponto mais importante: não se trata de uma decisão livre, no sentido clássico. Isto é crucial para se compreender o fenómeno. Num estado de túnel mental, a capacidade de imaginar alternativas está bloqueada. A avaliação de futuro está distorcida. O impulso vai na necessidade de cortar a dor que domina o chamado sistema do "livre-arbítrio", ou da vontade . Ou seja: não é uma escolha ponderada entre opções equivalentes. É mais próximo de uma tentativa de escapar de um estado mental percebido como intolerável e sem saída. O túnel mental pode ser quebrado sobretudo por mudança de contexto, presença de alguém que esteja atento para interromper o impulso, e reabrir o espírito a alternativas cognitivas. E muito importante: controlar o stress. E todos os títulos dos livros de António Lobo Antunes, como por exemplo:

