segunda-feira, 20 de julho de 2026

Existe só o humano, o desumano não existe


Diga-me, meu Capitão, afinal há ou não diferença moral entre um terrorista do Hamas e um soldado da IDF israelita?


Mamdani: admite prender Netanyahu se visitar Nova Iorque. "Ele é um criminoso de guerra".

Existe só o humano, o desumano não existe. O soldado é um bom exemplo disso mesmo. Certamente um bom pai de família, que quer alimentar os seus filhos. Mas obedece ao seu governo, ainda que no seu foro íntimo possa não estar inteiramente de acordo com as ordens. Por acaso nasceu em Israel. Veja-se, tivesse nascido em Portugal. Mas já houve tempos, no tempo do colonialismo português em África, que o dilema do soldado também se lhe colocava. O Estado Novo nacional-fascista imprimira o seu impulso a toda uma geração.

Quanta gente notabilíssima, mundo fora, filantropa ou benemérita, celebrizada pela sua generosidade extravagante, não deixou de colecionar monstros narcisistas, egoístas ávidos de glória pública, tiranizando, sabe-se lá se inconscientemente, os seus mais próximos? Todo o homem deseja satisfazer as suas necessidades. A Necessidade, já os gregos o sabiam, é uma deusa não só cega mas também cruel. Daí, o que mais se possa pedir ao homem comum, em qualquer democracia, que não seja apenas que obedeça à Lei?

Não é que faltem criminosos na Palestina, mergulhada numa atmosfera viscosa de corrupção. O homem não é naturalmente nem bom nem mau. O bem e o mal são categorias que podem servir para qualificar o efeito das ações de um homem sobre outro. Mas não servem para ajuizar o que se passa no coração de um homem. Matar pessoas é o mal em si mesmo. Mas o homem em si próprio é um bom homem para os que lhe são próximos.

São necessárias instâncias reguladoras que tracem limites aos desejos de cada um, e arbitrem os conflitos. Uma dessas instâncias é a Lei. É neste sentido que Hobbes tem razão. Mas ainda é preciso algo mais que faça acontecer o homem a acatar a lei: é o Poder, essa instância superior ao homem. Mas o Poder, mesmo democrático, não se aguenta muito tempo sem Força, algo que o homem sabe, por experiência, que é superior a si próprio.


No princípio da civilização, a Lei era Deus. Os Dez Mandamentos foram escritos por Deus. Não matarás, não prevê qualquer exceção. Mas qualquer judeu ou cristão aceita suspender a Lei em tempo de guerra. É justo matar o inimigo do nosso Povo. Terminada a guerra, a Lei retoma o seu curso natural. Até se chegar à soberania do Povo, que é quem mais ordena, ainda se passou pela fase intermédia do Rei, o substituto de Deus na Terra. Que homem só, movido pela sua própria vontade, poderá decidir e dizer: isto é bem; isto é mal? Assim, a lei moral kantiana, o imperativo categórico, é uma ficção como todas as outras. Se cada homem viver segundo a sua lei privada, por mais kantiana que seja, cairíamos no tal mundo de Hobbes, um caos de todos contra todos.

Por conseguinte, quem deseja julgar os crimes de guerra perpetrados por Netanyahu, será a toda a nação de Israel que tem de pedir contas. Ser líder de um país, no limite é por acaso. A guerra, sendo em nome de um país, da Nação ou do Povo, responsabiliza tanto o líder eleito como o seu vizinho que por acaso é objetor de consciência. Um soldado quando é enviado para a frente, não protesta. Não só arrisca a vida, como é obrigado a matar. Ainda que ele não queira matar. Se fugir é um traidor. E isso tem consequências fatais. Só o acaso o torna num morto, ou num assassino. Ou num herói.

terça-feira, 14 de julho de 2026

As críticas que se fazem ao mundo mediático


O mundo mediático tende, na genética do seu modus operandi, a responder preferencialmente ao contexto social e às audiências. À medida que as sociedades ocidentais mudam, os media adaptam os conteúdos de modo a refletir essas transformações. Não necessariamente por “captura”, mas por adaptação cultural, editorial e até comercial.

Comentadores políticos conservadores criticam o excesso de linguagem dos “progressistas”. Linguagem inclusiva em relação a minorias e temas fraturantes. Estes críticos dão como exemplo a influência do chamado “wokismo”. Curiosamente, do lado dos progressistas o argumento muitas vezes é o oposto: a BBC é acusada de convidar comentadores que questionam direitos trans ou temas de igualdade, em nome do “equilíbrio”. Os programas da BBC a favor das pessoas trans geraram simultaneamente acusações dos dois lados. Dos ativistas a favor dos trans, rebe a acusação de de transfobia. Dos conservadores recebe acusações de favorecer o ativismo pró. No Reino Unido - tanto Conservadores como Trabalhistas - já acusaram a BBC de enviesamento em relação aos seus respetivos partidos. Conteúdos sobre diversidade e identidade geraram críticas públicas e debates políticos sobre o papel do serviço público televisivo.

A BBC não está imune a críticas nem a possíveis enviesamentos. Nenhuma organização grande está. Mas os exemplos concretos mostram mais um campo de tensão entre valores sociais em mudança do que uma prova clara de controlo coordenado por um grupo específico. A Fox News frequentemente acusa outros media (como a CNN ou The New York Times) de promoverem agendas “woke”, progressistas ou alinhadas com ativismo social. A CNN / New York Times são acusados por críticos de direita de enviesamento liberal. Mas também criticados à esquerda por não irem suficientemente longe em temas como Justiça Social que tem a ver com Desigualdade. Nos EUA, a divisão é mais assumida: cada meio tem um posicionamento editorial mais claro, ao contrário da BBC, que tem obrigação formal de neutralidade.

A France Télévisions foi acusada por setores conservadores de importar debates “americanos” sobre identidade (género, raça, etc.). Ao mesmo tempo, figuras como Éric Zemmour criticam fortemente o que chamam de “ideologia woke” nos media. Mas também há críticas à cobertura mediática por alegada complacência com elites ou falta de diversidade social. Em França, o termo “woke” é muitas vezes associado a influência cultural externa (sobretudo dos EUA). Em Espanha, a RTVE, é acusada por diferentes partidos de enviesamento político, dependendo de quem está no poder. Partidos como o Vox criticam frequentemente conteúdos que consideram ideológicos (feminismo, diversidade, memória histórica). Já partidos de esquerda acusam os media de normalizar discursos conservadores ou de extrema-direita. Aqui, como no Reino Unido, a crítica varia conforme o lado político. Em Portugal, a RTP também não escapa. Certos programas, e alguns comentadores, alinham-se manifestamente pelas causas da esquerda e até extrema-esquerda. Outros acusam falta de pluralismo ou excesso de “mainstream”. Comentadores e figuras públicas portuguesas frequentemente importam o debate sobre “woke”, embora nada que se compare com o que acontece em países como EUA ou Reino Unido.

Estamos a atravessar um tempo de sociedades mais polarizadas. Os temas culturais são o que de mais sensível existe – género, identidade, igualdade, expectativas divergentes sobre o que é cultura, pluralidade e diversidade. 
As Redes sociais mudaram completamente o jogo. Plataformas como Twitter (agora X), Facebook e YouTube capturaram a definição da agenda. Já não são só os media tradicionais. Tudo explode em horas, jornalistas e redações são constantemente escrutinados. Resultado: os media (como a BBC) reagem mais rapidamente, e às vezes de forma mais sensível às críticas online. Os algoritmos amplificam o conflito. As redes sociais tendem a promover conteúdos que geram indignação, emoção, polémica. Isso favorece narrativas com o epíteto de "media capturada por manipuladores sem escrúpulos".

sábado, 4 de julho de 2026

Hoje comemoram-se os 250 anos dos EUA

 



Qualquer ideologia pode funcionar como um veneno para o cérebro. E, todavia, toda a ideologia passada quisera fazer com que cada cidadão do seu país almejasse a felicidade. E que cada cidadão no futuro pudesse ter a sua modesta parte das coisas boas da vida. Ora, nos limites de cada país isso sempre se revelou impossível. Muita coisa que os povos conseguiram de bom, de importante, foram obtidas tirando-as aos outros.

Há justiça nisso? Enquanto cada povo tiver a força e o poder, sim. No que se refere à justiça, a sua instância nunca é absoluta. Cada povo define a sua verdade e a sua justiça. Porque há sempre um dia em que vem uma noite mais escura, e o poder esboroa-se. E nessa circunstância tem-se de sofrer a justiça dos outros. Por mais terrível que isso possa ser, não deixa de ser justo.

Não é de ânimo leve que um soldado, que não seja um psicopata, se possa transformar num torcionário, num homicida em massa. Como foram possíveis as execuções perpetradas no tempo do Holocausto? Porque com os atos que praticaram, muito pior do que o cheiro a sangue e a cadáver, foi o que devem ter sofrido ao ver nos olhos das vítimas aquele indizível terror, aquela dor moral de um condenado à morte por nada. Nenhum homem fuzila - uma mulher, uma criança, um velho - sem estar a ver na sua imaginação os seus entes queridos que podiam estar ali em vez deles. A sua mulher, o seu filho, ou o seu pai. O Outro existe, é um facto, não é uma opinião. Nenhuma vontade, nenhuma ideologia, pode romper esse laço que aperta toda a humanidade.