As Festas das Cruzes, o cheiro das farturas, o ruído dos matraquilhos, e a meio do pavilhão uma jukebox iluminada. Meti uma moeda, escolhi a faixa, e de repente: "Lucky Man" dos Emerson, Lake & Palmer. Em 1971 era uma música relativamente recente, saída no álbum de estreia do grupo em 1970, e já um dos seus maiores êxitos. Porque é que "Lucky Man" impressionava tanto? Porque era diferente do rock habitual da época. A canção começa como uma balada acústica simples e termina com um solo de sintetizador Moog, um instrumento praticamente futurista para 1970. O grupo foi pioneiro na utilização destes sintetizadores em concertos e gravações. Para um jovem português de 1971, ouvir aquilo numa jukebox de feira era como algo vindo do outro mundo. Uma pequena viagem no tempo. Fecho os olhos, e ainda consigo reconstruir a sequência: uma moeda de 2$50; o clique do seletor; o braço mecânico a retirar o single do carrossel; as luzes coloridas da máquina; o barulho dos matraquilhos ao fundo; e depois a voz de Greg Lake: "He had white horses..."
He had white horses,And ladies by the scoreAll dressed in satin,And waiting by the doorOoh, what a lucky man he was,Ooh, what a lucky man he was
Muitas das máquinas que estavam em Portugal em 1971 não eram novas; frequentemente eram modelos dos anos 60 que continuavam em serviço. Algumas tinham capacidade para 100 ou até 200 selecções musicais, usando discos singles de 45 rpm. Era o ambiente dos salões de matraquilhos. Em muitas localidades portuguesas, os pavilhões de matraquilhos eram também locais de descoberta musical. Os jovens juntavam-se à volta da jukebox para ouvir: Deep Purple; Led Zeppelin; Creedence Clearwater Revival; Santana; The Beatles; The Rolling Stones. E, para os mais aventureiros, rock progressivo como os Emerson, Lake & Palmer.
As jukeboxes tiveram em Portugal uma importância que hoje é fácil esquecer. Nos anos 60 e 70, antes das discotecas se generalizarem e muito antes das rádios FM especializadas, eram uma das principais portas de entrada para a música internacional. Nos cafés, salões de jogos, coletividades e parques de diversões, permitiam ouvir os sucessos que chegavam de Inglaterra, dos Estados Unidos ou de França, muitas vezes antes de as pessoas comprarem o disco.


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