Qual é a diferença entre o mundo multilateral que está a evoluir para um mundo multipolar? A diferença é subtil, mas muito importante: multilateralismo refere-se sobretudo à forma como os Estados se relacionam, enquanto multipolaridade refere-se à distribuição do poder no sistema internacional.
Um mundo multilateral é aquele em que os países procuram resolver problemas através de instituições, regras e negociações envolvendo vários Estados. São exemplos: ONU; Organização Mundial do Comércio; FMI e Banco Mundial; Cimeiras sobre Alterações Climáticas; Tratados Internacionais ...
A ideia central é a seguinte: “Mesmo que sejamos diferentes e tenhamos interesses divergentes, aceitamos regras e instituições comuns para negociar.” O multilateralismo não exige que o poder esteja distribuído de forma equilibrada. Pode existir multilateralismo mesmo quando uma potência é claramente dominante.
Um mundo multipolar é aquele em que existem vários centros importantes de poder, nenhum deles capaz de dominar completamente o sistema. Hoje, os principais polos incluem, com diferentes graus de poder - Estados Unidos; China; União Europeia; Índia; Rússia - e, em determinadas áreas, potências como Japão, Turquia, Brasil e outras. Aqui a questão central é quem tem poder suficiente para influenciar as regras e contrariar os outros grandes centros.
Assim, o Multilateralismo é uma estrutura de cooperação. A Multipolaridade é uma estrutura de poder.
E as duas coisas podem coexistir. Por exemplo, podemos imaginar um mundo multipolar e multilateral, onde EUA, China, Índia, UE, Rússia competem entre si, mas continuam a utilizar a ONU e tratados internacionais. Mas também podemos ter um mundo multipolar e pouco multilateral, onde os grandes polos competem através de alianças, sanções, guerras comerciais, guerras por procuração, controlo tecnológico e zonas de influência, com as instituições internacionais a perderem capacidade.
O que está a acontecer atualmente? Durante grande parte do período posterior à Guerra Fria, sobretudo entre 1991 e a crise financeira de 2008, houve uma tendência para um sistema relativamente unipolar, com os EUA numa posição extraordinariamente dominante. Ao mesmo tempo, existia uma forte arquitetura multilateral. Agora está a ocorrer algo diferente, com uma crescente progressão para a multipolaridade. Mas isso não significa necessariamente que o multilateralismo esteja a desaparecer. Na realidade, estamos perante uma tensão entre duas tendências. O poder está a tornar-se mais multipolar. Mas as instituições criadas durante a segunda metade do século XX estão a perder força, para não dizer que se estão a esboroar.
É por isso que vemos, por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU praticamente mudo em relação aos vários conflitos, não apenas os conflitos já endémicos, particularmente em quase toda a África, como os atuais conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia. Particularmente nestes em que para além de envolver diretamente Israel e a Ucrânia, envolve as grandes potências - EUA e Rússia, diretamente e outros indiretamente como é o caso da China. Simultaneamente surgem ou ganham importância agrupamentos como os BRICS, a OCX, o G20 e outras estruturas.
A grande questão para as próximas décadas talvez não seja simplesmente se caminhamos para um mundo multipolar. É se será possível construir um multilateralismo adaptado a um mundo multipolar. Essa é, a meu ver, uma das grandes questões geopolíticas do século XXI.