domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Tradição e as duas tradições filosóficas: continental e anglo-saxónica


Em filosofia, segundo os cânones da Europa /América do século XX, os filósofos dividiam-se em duas correntes de pensamento apelidadas de tradições: a tradição continental, também designada por fenomenológica; e a tradição anglo-saxónica também designada por analítica. Eram, por conseguinte, apresentadas como rivais. Na verdade partilhavam a desconfiança em relação
 à confusão conceptual. 

A Tradição Analítica procura clareza através de análise lógica, precisão linguística e dissolução de pseudoproblemas. A Fenomenologia, também dita husserliana, procura clareza através da descrição da experiência sentida e da suspensão de pressupostos (epoché) ou preconceitos através da consciência (intensionalidade e não intencionalidade) na relação com as próprias coisas. Ambas combatem formas de ilusão, embora com métodos diferentes.

A filosofia analítica, que trabalha a linguagem, combate a ambiguidade linguística, erros lógicos, falsos problemas conceptuais. A filosofia husserliana combate a naturalização ingénua, pressupostos invisíveis que confundem o mundo com a experiência do mundo. Os problemas que nascem de conceitos vagos e que parecem sólidos. A analítica não resolve problemas, como disse Wittgenstein: dissolve parte da sua força emocional. Husserl tomou outro caminho com a pergunta: como essa inquietação é vivida? Não como tese abstrata, mas como tonalidade afetiva (somos afetados), que é o modo como o nosso mundo aparece. A fenomenologia revela algo subtil: O problema não está apenas no conteúdo do pensamento, mas na forma como o mundo se nos dá, ou nos afeta. À medida que vamos caminhando na idade, a estrutura do nosso pensamento vai sendo alterada de forma muito diversa. O mundo, sempre caótico, é o grande desafio ao nosso pensamento que abomina o caos. É nesse contexto que a nossa “textura vivida” se segura naquilo a que se costuma designar por Tradição. Exploremos então mais um pouco este conceito. 

Tradição = é memória social condensada. Não diz apenas “o que somos hoje”, mas “o que já correu antes”. Funciona como prudência acumulada, não como argumento de autoridade cego. Quando esta dimensão se enfraquece, de que faz sempre parte uma religião, não desaparece o impulso religioso. A religiosidade migra para ideologia. A ideologia já só marca um tipo de identidade política. Enquanto uma religião condensa um moralismo espiritual, uma ideologia também condensa moralismo, sendo estes apenas laicos ou seculares. São dogmas, que por definição são dados à intolerância. Os dogmas são verdades absolutas, puras, logo indiscutíveis.

Hoje, em todo o Ocidente, a política está polarizada, em que predominam os dois extremos do espetro partidário, embora no momento que atravessamos, quem leva a dianteira é a extrema-direita. E, por outro lado, vai emergindo uma Nova Direita que acerta quando identifica corretamente que as sociedades não sobrevivem sem fundamentos morais partilhados = a tradição. Percebe que o universalismo abstrato não gera lealdade nem sacrifício. Reconhece que a neutralidade cultural do Estado é, muitas vezes, uma ficção.

Aqui há uma ironia histórica enorme que raramente se fala na comunicação social do "mainstream". O que aconteceu às brigadas revolucionárias dos anos 70-80? Nessa altura, na Europa Ocidental, surgiram grupos como: Brigate Rosse (Itália) RAF / Baader-Meinhof (Alemanha) Action Directe (França) FP-25 (Portugal, já nos anos 80). Todos diziam: “Os partidos de esquerda traíram o povo.” Todos defendiam violência “pedagógica”. Ação direta. Rutura revolucionária. Como acabaram? Os grupos armados isolaram-se. Perderam apoio social e foram reprimidos pelo Estado. Muitos militantes acabaram presos ou politicamente irrelevantes. A história mostra que o ativismo violento não substitui a democracia, a começar por eleições livres e universais.

Ao contrário de França ou Itália, a direita radical portuguesa, representada no Parlamento pelo partido CHEGA, ficou associada ao Estado Novo salazarista. A seguir ao 25 de Abril não houve “direita pós-fascista” normalizada como o MSI italiano. O resultado foi o vazio político à direita do CDS //PSD durante décadas. A imigração também foi tardia, logo, a pressão social foi menor até aos anos 2000. Portugal manteve durante muito tempo redes familiares fortes, economia informal, emigração como válvula de escape. Em França ou Itália verificou-se guetização, desemprego urbano e tensões identitárias mais antigas.

Partidos como o Rassemblement National [RN] de Marine Le Pen / Jordan Barderlla (fase pós-Jean-Marie) beberam daqui a linguagem cultural. Até setores da esquerda são “anti-woke”. Os Identitários simplificaram a radicalização. Mensagem clara: “A Europa morreu porque deixou de acreditar em si própria.” A política institucional falhou. Le Pen e Meloni precisam de eleitores, não de mártires. Precisam de estabilidade, não de gestos trágicos. Precisam de leis, não de símbolos suicidários. Os identitários querem provocar o colapso. Os partidos querem governar. Misturar tudo isto é erro analítico grave.

Faz sentido analisar o tema religioso, mas é preciso fazê-lo com muito cuidado, porque aqui há três planos diferentes que muitas vezes são misturados à força: o religioso, o cultural e o político. Quando não se separam, dá mau diagnóstico. De onde vem essa ideia do “declínio por abandono do cristianismo”? Ela não nasce agora, nem é só da direita radical. Está presente em Spengler (Declínio do Ocidente), Toynbee, Nietzsche (“Deus morreu” como diagnóstico, não celebração). Enquanto narrativa civilizacional, não é absurda. Enquanto explicação total, é fraca. O identitarismo atual degrada-se quando utiliza o cristianismo como marcador, não como fé. Muitos grupos identitários não são praticantes nem seguem doutrina cristã. Ignoram princípios centrais (caridade, universalismo, dignidade humana). Mas dizem: “Somos cristãos contra o Islão.” Isto é cristianismo cultural, não religioso. Funciona como marcador identitário, fronteira simbólica e instrumento de exclusão. É por isso que há padres, bispos e teólogos que rejeitam explicitamente esse uso político da fé.

O problema real não é o secularismo, é vazio normativo. A Europa secular destruiu referências antigas. Mas não construiu novas suficientemente fortes. Resultado: Direitos sem deveres; Liberdade sem responsabilidade; Identidade reduzida a consumo; Política moralizada, mas sem transcendência. Esse vazio é o que os identitários exploram, não a perda da missa ao domingo.

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