A admiração pelo talento e o fanatismo por clubes não são apenas gostos pessoais; parecem estar ligados a mecanismos profundos que ajudaram os humanos a sobreviver como espécie social. Os humanos evoluíram em grupos pequenos, onde reconhecer competência nos outros era vital. Admirar quem é mais habilidoso podia trazer vantagens: identificar bons caçadores, líderes ou curandeiros; aprender por imitação (aprendizagem social); escolher parceiros com bons genes (seleção sexual); aumentar coesão do grupo ao valorizar quem contribui. Na psicologia evolutiva, isto liga-se à ideia de que o cérebro humano foi moldado para prestar atenção a quem tem prestígio. Assim, o prazer na admiração pode ser um reforço biológico para favorecer aprendizagem e cooperação. É bom querer aproximar-se de quem domina uma habilidade para além do prazer que dá observar excelência.
Os antropólogos distinguem dois tipos de estatuto: o da força, que provoca medo e submissão; o da competência que confere prestígio e respeito. Maquiavel aconselhava o Príncipe a ser mais temido do que admirado. Mas os humanos tendem a admirar mais o prestígio do que a dominância. Isso permite transmissão cultural eficiente, hierarquias estáveis e cooperação sem violência constante. O cérebro recompensa isso porque seguir os melhores aumentava a sobrevivência do grupo.
O desporto é uma espécie de substituto simbólico da guerra tribal. O fanatismo por clubes pode estar ligado a algo ainda mais antigo: todos os humanos primordiais começaram por formar tribos e coligações. Durante a evolução, a diversidade era mais ganhadora no sentido da sobrevivência. Há medida que os cérebros cresciam e se desenvolviam, mais diversa se tornou a opinião. E a partir daí se tornou mais visível a diferença entre o “nós” e o “eles” que se organizaram em grupos, ora formando alianças, ora formando rivalidades. O desporto funciona como um substituto seguro para conflitos reais. Torcer por um clube ativa mecanismos antigos: identidade de grupo; lealdade tribal; rivalidade intergrupal; emoções intensas sem guerra real. Estudos de neurociência mostram que ver o rival perder ativa áreas de recompensa no cérebro, como se fosse uma vitória tribal.
O fanatismo não é só biologia. Também é cultural. Ser adepto pode dar identidade (“sou do Benfica”, “sou do Porto”, etc.). Pertença a uma comunidade. Em sociedades modernas, onde a família extensa diminuiu, a religião perdeu força em alguns contextos, comunidades tradicionais enfraqueceram – o futebol e outros desportos ocuparam esse espaço. O clube torna-se quase uma tribo, uma religião. Mas o cérebro também gosta de ver algo difícil feito com facilidade. Gosta de perceber harmonia, coordenação, e de ser surpreendido.
A ideia de que sem rituais coletivos fortes as sociedades ficam instáveis é muito séria dentro da sociologia, antropologia e filosofia política. Vários autores, de épocas diferentes, defenderam que quando a religião tradicional perde força, alguma coisa tem de ocupar o lugar. Porque, de outro modo surge ansiedade social e radicalização. O futebol, os concertos, as manifestações políticas, até as redes sociais, podem funcionar como substitutos rituais.
O paralelismo com a religião é impressionante. O estádio é o templo. O jogo é o ritual. Os adeptos são os fiéis. O campeonato é o calendário litúrgico. E por aí fora incluindo sacerdotes, santos e peregrinos. O sociólogo Émile Durkheim dizia que a religião é antes de tudo um sistema de rituais que reforça a coesão do grupo. O futebol faz exatamente isso. Quando milhares cantam juntos num estádio, acontece o que Durkheim chamava de efervescência coletiva – uma emoção partilhada que reforça a identidade. Nas sociedades tradicionais havia religião forte, comunidade local forte, família extensa, rituais frequentes. Nas sociedades modernas há mais individualismo, menos rituais comuns, menos pertença coletiva. Mas o cérebro humano continua a precisar de pertença, emoção coletiva, símbolos, heróis, narrativas. O futebol oferece tudo isso. Por isso alguns autores falam em religião civil, religião secular, culto desportivo. O filósofo René Girard dizia que os humanos são profundamente miméticos: queremos o que os outros querem; imitamos desejos; criamos rivalidades. Isso gera conflitos entre grupos, necessidade de inimigos simbólicos, necessidade de rituais para controlar violência. O futebol permite rivalidade sem guerra real. O fanatismo dá descarga emocional sem destruir a sociedade.
O filósofo Friedrich Nietzsche dizia que os humanos precisam de admirar grandeza. Quando a religião perde força, o culto pode deslocar-se para artistas, líderes, atletas, celebridades. O jogador genial torna-se quase um semideus: Messi, Maradona, Pelé, Cristiano Ronaldo… Não é só talento, é mito. Chamar ao futebol “ópio do povo” pode ser verdade, mas incompleto, porque ele também cria comunidade, reduz violência real, dá alegria, permite catarse emocional, reforça identidade. Ou seja, não é só alienação. Pode ser também uma forma de satisfazer necessidades humanas muito antigas. Em suma, o povo sempre precisou de algum ópio simbólico para viver em sociedade.
Na Grécia antiga, a admiração por feitos extraordinários não era vista como exagero, era vista como algo nobre. Os gregos tinham o conceito de areté (excelência, virtude, realização máxima). O herói era alguém que ultrapassa o comum, realiza algo quase sobre-humano, mostra o que o ser humano pode ser no seu limite. Aquiles representa força e coragem; Ulisses → inteligência e astúcia; Hércules → poder e resistência. Os deuses eram quase humanos, e os heróis quase divinos. Admirar o extraordinário era admirar o potencial humano.
Do ponto de vista evolutivo, faz sentido que o cérebro humano responda com entusiasmo à excelência. Em grupos pré-históricos, reconhecer quem era excecional podia ser vital: melhor caçador → mais comida; melhor guerreiro → mais segurança; melhor líder → mais sobrevivência; melhor curandeiro → menos morte.
Hoje a questão que se levanta é quando estes mecanismos vão longe demais. A necessidade de heróis pode levar a culto da personalidade, fanatismo político, celebridades tratadas como deuses, líderes autoritários. O exemplo de Volodymyr Zelenskyy – de ator e comediante a presidente em tempo de guerra – ilustra bem a “elasticidade” humana, qualquer ideia de diversidade na desigualdade.
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