O mundo mediático tende, na genética do seu modus operandi, a responder preferencialmente ao contexto social e às audiências. À medida que as sociedades ocidentais mudam, os media adaptam os conteúdos de modo a refletir essas transformações. Não necessariamente por “captura”, mas por adaptação cultural, editorial e até comercial.
Comentadores políticos conservadores criticam o excesso de linguagem dos “progressistas”. Linguagem inclusiva em relação a minorias e temas fraturantes. Estes críticos dão como exemplo a influência do chamado “wokismo”. Curiosamente, do lado dos progressistas o argumento muitas vezes é o oposto: a BBC é acusada de convidar comentadores que questionam direitos trans ou temas de igualdade, em nome do “equilíbrio”. Os programas da BBC a favor das pessoas trans geraram simultaneamente acusações dos dois lados. Dos ativistas a favor dos trans, rebe a acusação de de transfobia. Dos conservadores recebe acusações de favorecer o ativismo pró. No Reino Unido - tanto Conservadores como Trabalhistas - já acusaram a BBC de enviesamento em relação aos seus respetivos partidos. Conteúdos sobre diversidade e identidade geraram críticas públicas e debates políticos sobre o papel do serviço público televisivo.
A BBC não está imune a críticas nem a possíveis enviesamentos. Nenhuma organização grande está. Mas os exemplos concretos mostram mais um campo de tensão entre valores sociais em mudança do que uma prova clara de controlo coordenado por um grupo específico. A Fox News frequentemente acusa outros media (como a CNN ou The New York Times) de promoverem agendas “woke”, progressistas ou alinhadas com ativismo social. A CNN / New York Times são acusados por críticos de direita de enviesamento liberal. Mas também criticados à esquerda por não irem suficientemente longe em temas como Justiça Social que tem a ver com Desigualdade. Nos EUA, a divisão é mais assumida: cada meio tem um posicionamento editorial mais claro, ao contrário da BBC, que tem obrigação formal de neutralidade.
A France Télévisions foi acusada por setores conservadores de importar debates “americanos” sobre identidade (género, raça, etc.). Ao mesmo tempo, figuras como Éric Zemmour criticam fortemente o que chamam de “ideologia woke” nos media. Mas também há críticas à cobertura mediática por alegada complacência com elites ou falta de diversidade social. Em França, o termo “woke” é muitas vezes associado a influência cultural externa (sobretudo dos EUA). Em Espanha, a RTVE, é acusada por diferentes partidos de enviesamento político, dependendo de quem está no poder. Partidos como o Vox criticam frequentemente conteúdos que consideram ideológicos (feminismo, diversidade, memória histórica). Já partidos de esquerda acusam os media de normalizar discursos conservadores ou de extrema-direita. Aqui, como no Reino Unido, a crítica varia conforme o lado político. Em Portugal, a RTP também não escapa. Certos programas, e alguns comentadores, alinham-se manifestamente pelas causas da esquerda e até extrema-esquerda. Outros acusam falta de pluralismo ou excesso de “mainstream”. Comentadores e figuras públicas portuguesas frequentemente importam o debate sobre “woke”, embora nada que se compare com o que acontece em países como EUA ou Reino Unido.
Estamos a atravessar um tempo de sociedades mais polarizadas. Os temas culturais são o que de mais sensível existe – género, identidade, igualdade, expectativas divergentes sobre o que é cultura, pluralidade e diversidade. As Redes sociais mudaram completamente o jogo. Plataformas como Twitter (agora X), Facebook e YouTube capturaram a definição da agenda. Já não são só os media tradicionais. Tudo explode em horas, jornalistas e redações são constantemente escrutinados. Resultado: os media (como a BBC) reagem mais rapidamente, e às vezes de forma mais sensível às críticas online. Os algoritmos amplificam o conflito. As redes sociais tendem a promover conteúdos que geram indignação, emoção, polémica. Isso favorece narrativas com o epíteto de "media capturada por manipuladores sem escrúpulos".
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