sábado, 5 de setembro de 2026

Identidade: étnica, cultural e geopolítica


Identidade étnica está ligada ao sentimento de pertença a um grupo definido sobretudo por uma origem comum. Essa origem inclui a ancestralidade genealógica, a mesma história partilhada, a língua e tradições. Por vezes, também inclui características físicas ou biológicas. A etnicidade não é um conceito puramente biológico nem puramente cultural, combina ascendência, memória histórica e tradições. Identidade cultural, por sua vez, diz respeito ao conjunto de valores, crenças, costumes, religião, normas sociais, gastronomia, arte e formas de viver que ligam pessoas, famílias e comunidade. Ao contrário da identidade étnica, a identidade cultural pode mudar significativamente ao longo do tempo ou mesmo durante a vida de uma pessoa. Uma pessoa pode integrar-se noutra cultura sem alterar a sua ascendência étnica. Identidade geopolítica, define a forma como um indivíduo ou grupo se perceciona e se posiciona em relação ao poder, ao Estado e à sociedade, com base em valores, ideologias ou caraterísticas sociais.

identidade étnica japonesa é, por exemplo, diferente da identidade da etnia Han chinesa, ainda que em termos de identidade cultural existam muitas afinidades entre os japoneses e os chineses Han. Mas em termos de identidade  geopolítica o Japão considera-se ter mais afinidade com o chamado "Ocidente"Um descendente de japoneses, nascido e criado na China pode manter uma identidade étnica japonesa, mas sentir uma identidade cultural predominantemente chinesa. Isso pode ser extensível a qualquer imigrante de qualquer outra origem. Um imigrante que viva décadas na China pode conservar a sua identidade étnica, enquanto a sua identidade cultural pode tornar-se em parte chinesa.

A identidade étnica japonesa é claramente distinta da identidade da etnia Han, que constitui a maioria da população da China. Embora japoneses e chineses partilhem algumas influências históricas [a escrita chinesa, o confucionismo e o budismo], os japoneses desenvolveram uma língua, uma história e uma consciência nacional próprias ao longo de muitos séculos. Mas, a identidade geopolítica e civilizacional é outra coisa. O Japão moderno tende a identificar-se muito mais com o chamado "Ocidente" do que com a China. Isso deve-se a vários fatores. Desde a Restauração Meiji (1868), o Japão procurou modernizar-se inspirando-se na Europa e, mais tarde, nos Estados Unidos, adotando instituições políticas, tecnologia, organização militar e modelos económicos ocidentais.

Daqui decorrem duas formas distintas de preconceito. Racismo étnico baseia-se na ideia de que determinados grupos humanos, definidos pela sua origem ou ascendência, são intrinsecamente superiores ou inferiores. Tradicionalmente, este tipo de racismo associa diferenças físicas ou de ascendência a características intelectuais ou morais. É a forma clássica de racismo. Racismo cultural (por vezes designado por alguns autores como "essencialismo cultural" ou "racialização da cultura") não afirma necessariamente que existam diferenças biológicas entre grupos. Em vez disso, sustenta que certas culturas são incompatíveis, inferiores ou incapazes de coexistir, tratando a cultura como se fosse uma característica fixa e imutável. Assim, pessoas são rejeitadas não tanto pela sua origem biológica, mas porque se presume que a sua cultura as torna permanentemente diferentes ou indesejáveis. Muitos investigadores salientam que, na atualidade, parte da discriminação deslocou o foco da "raça" para a "cultura". Outros, porém, preferem reservar a palavra "racismo" para discriminações fundadas em categorias racializadas e designar preconceitos dirigidos à cultura por termos como xenofobia, etnocentrismo ou preconceito cultural, dependendo do contexto. Não existe consenso absoluto sobre a terminologia.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão passou a integrar firmemente o bloco liderado pelos Estados Unidos, tornando-se um dos seus principais aliados na Ásia. A sua política externa e de segurança continua fortemente ligada aos EUA e às democracias liberais. O Japão participa em fóruns e parcerias com países ocidentais, como o G7, e coopera estreitamente com a Europa, os EUA, a Austrália e outros parceiros do Indo-Pacífico. No entanto, isso não significa que o Japão se considere "ocidental" do ponto de vista cultural. A maioria dos japoneses vê o seu país como uma civilização singular: nem plenamente ocidental; nem simplesmente parte do mundo chinês. A cultura japonesa preserva elementos próprios [xintoísmo, a língua japonesa, tradições sociais e uma forte continuidade histórica]. Etnicamente: os japoneses distinguem-se claramente dos Han chineses. 

Culturalmente, o Japão é uma civilização própria, profundamente influenciada pela China no passado, mas com identidade autónoma. Geopoliticamente, o Japão está hoje muito mais alinhado com o Ocidente do que com a China, embora continue a considerar-se um país asiático e não um país ocidental. Esta distinção entre identidade cultural e alinhamento geopolítico também ajuda a explicar porque o Japão pode cooperar estreitamente com os países ocidentais sem deixar de afirmar uma identidade nacional especificamente japonesa.



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