É em nome do Bem que os seres humanos dizem que constroem as instituições políticas. O problema é que ninguém consegue controlar depois, mesmo que à partida tenha sido criado com as melhores das intenções, que o Leviatã resvale para o lado do Mal. Em "Leviatã", Hobbes concebe o Estado soberano como o grande poder capaz de conter a violência dos indivíduos. Há uma lógica profundamente racional nisso: se cada homem puder exercer ilimitadamente a sua força contra os outros, a sociedade dissolve-se numa guerra de todos contra todos.
O paradoxo aparece depois: criamos o Leviatã para dominar a violência humana. Mas quem domina o Leviatã ? Hobbes percebeu isso modernidade descobriria, através da experiência histórica, a dimensão do problema. Porque o Estado não elimina a potência humana. Ele concentra-a. O indivíduo pode matar um homem. O Estado pode mobilizar milhares. O indivíduo pode confiscar uma propriedade. O Estado pode transformar milhões de pessoas em deslocados. O indivíduo pode mentir. O Estado pode construir uma realidade informacional inteira. E quando essa potência se concentra numa única vontade política, aparece a desproporção entre o homem e o poder que ele passa a encarnar.
Um tirano que dissesse: “Faço isto porque posso.” Seria psicologicamente muito mais simples de compreender. O problema começa quando diz: "Faço isto porque é necessário.” E mais ainda: "Faço isto porque é moralmente correto". Neste momento, o poder deixa de se apresentar como Poder. Apresenta-se como Dever. É talvez uma das máscaras mais eficazes que o Poder pode usar.
O salto decisivo é quando a vontade individual se identifica com a História. É aqui que entra em cena Stalin ou Mao, e o caso passa para o domínio do Absoluto, ou seja, da Metafísica. O líder já não se vê simplesmente como governante de uma sociedade. Ele passa a interpretar-se como instrumento de uma necessidade histórica absoluta. E é neste momento que o Bem sofre uma mutação para o Mal Absoluto. “Aquilo que eu quero” começa a confundir-se com “aquilo que a História exige”. A partir daí, o adversário deixa de ser simplesmente um adversário. Ele passa a ser alguém que está contra a História. E se a História é entendida como inevitável, o adversário torna-se não apenas politicamente errado, mas historicamente ilegítimo. É uma transformação terrível, porque permite ao Poder dizer: “Não sou eu que vos destruo. É a necessidade histórica.” O homem desaparece atrás da abstração.
E aqui aparece algo muito próximo do religioso. Há uma dimensão quase teológica nesses sistemas. Não necessariamente porque sejam religiosos, mas porque algumas ideologias políticas assumem funções que anteriormente pertenciam à religião. Oferecem uma explicação total do mundo. Distinguem o Bem do Mal. Identificam os culpados e prometem uma redenção futura. Dão sentido ao sofrimento presente e estabelecem uma comunidade dos “eleitos”. Em suma, uma escatologia. Quando isso acontece, a Política deixa de ser simplesmente administração do presente. Transforma-se numa espécie de Teologia Secular da História. E então o sacrifício pode adquirir significado. É precisamente aí que a morte de indivíduos pode ser reinterpretada como preço necessário para o futuro.
O paradoxo mais inquietante é quando o Poder entra no domínio do Absoluto. É assim porque permite ao homem fazer tudo aquilo que deseja. No início, o dirigente quer poder. Depois, precisa de conservar o poder. Depois, precisa de justificar as decisões anteriores. Depois, precisa de eliminar quem conhece os seus erros. Depois, precisa de controlar a informação. Depois, precisa de controlar a memória. E finalmente pode chegar a um ponto em que a realidade exterior tem de ser adaptada à narrativa do poder. É um processo de retroalimentação, o poder começa por servir a vontade, e progressivamente, a vontade passa a servir a conservação do poder. É aqui que o Leviatã se torna realmente monstruoso, não porque seja necessariamente “maléfico”, em sentido metafísico, mas porque é demasiado grande para o homem que o ocupa. Um homem mortal, limitado, emocional, sujeito a erros, ressentimentos e ilusões, passa a dispor de uma máquina institucional com capacidades quase sobre-humanas.
Stalin ou Mao eram humanos. E precisamente por serem humanos, com as fraquezas, desejos, medos, ressentimentos e mecanismos de autojustificação humanos, foram capazes de coisas que ultrapassaram incomparavelmente a escala normal da ação humana.
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