domingo, 1 de novembro de 2026

Multidões digitais


A multidão contemporânea não exige apenas que o poder responda. Exige, muitas vezes, que responda imediatamente, continuamente e nos termos definidos pela própria multidão.
A Rebelião das Massas [Ortega y Gasset] e a Psicologia das Multidões [Gustave Le Bon] -- é sempre a mesma. Mas conforme os tempos há sempre nuances. Hoje, com as redes sociais e a pulverização mediática das televisões, qualquer primeiro-ministro está sempre no olho do furacão dos jornalistas ou repórteres de microfone nas mãos: Luís Montenegro se fala, é criticado pelo que diz; se não fala, durante uma semana de acampamentos no Rossio, é criticado por não falar. É o chamado dilema do prisioneiro, ou soldado: preso por ter cão; preso por não ter.

Este é um dos fenómenos centrais da democracia mediática contemporânea: o poder político deixou de ser julgado apenas pelo que faz; é julgado, em permanência, pela forma como comunica, pelo momento em que comunica e até pelo silêncio que escolhe manter. A Rebelião das Massas – José Ortega y Gasset – é particularmente interessante para contextualizarmos os comentários. Em todo o caso, a psicologia das multidões não é necessariamente sempre a mesma; são os mecanismos fundamentais da pertença, da imitação, da indignação e da procura de certezas que tendem a persistir. O que mudou radicalmente foram os meios que os amplificam.

Ortega y Gasset refletia sobre a ascensão do homem de massas e sobre o risco de uma sociedade em que a opinião coletiva se impõe sem a correspondente exigência de reflexão e responsabilidade. Hoje, essa dinâmica adquire características novas. A instantaneidade: qualquer declaração de um primeiro-ministro é imediatamente recortada, difundida e comentada, antes mesmo de ser devidamente contextualizada. A fragmentação mediática: já não existe um espaço público relativamente comum. Existem múltiplos públicos, cada qual com os seus códigos, preferências e indignações. A amplificação emocional: a indignação, a ironia e a acusação tendem a gerar mais atenção do que a explicação ponderada. A memória permanente: uma declaração antiga pode regressar meses ou anos depois, desligada das circunstâncias em que foi produzida. A multidão já não precisa de estar fisicamente reunida numa praça. Pode constituir-se em segundos, dispersar-se pouco depois e reaparecer sob outra forma, com outros protagonistas e a mesma intensidade emocional.

O exemplo de Luís Montenegro ilustra um dilema comunicacional bastante conhecido. Perante uma situação como os acampamentos no Rossio, o primeiro-ministro pode enfrentar duas críticas aparentemente incompatíveis: se falar, a comunicação pode ser considerada insuficiente, inoportuna ou reveladora de hesitação; se não falar, o silêncio pode ser interpretado como indiferença, evasão ou incapacidade de liderança. O que torna o dilema particularmente difícil é que o mesmo comportamento pode ser interpretado de maneiras opostas, consoante as expectativas de quem observa. Para uns, falar é sinal de responsabilidade; para outros, é mero exercício de propaganda. Para uns, o silêncio é prudência institucional; para outros, é fuga às responsabilidades. A crítica contraditória resulta da fragmentação do espaço público, mas também pode refletir responsabilidades diferentes. Uma declaração pode merecer escrutínio e o silêncio pode, em certas circunstâncias, justificar perguntas legítimas. O paradoxo não torna toda a crítica injusta; torna mais difícil separar a crítica substantiva da reação puramente mediática. No dilema do prisioneiro, a dificuldade resulta da interação estratégica entre agentes que tomam decisões. Aqui, o governante enfrenta uma multiplicidade de interlocutores que não partilham necessariamente os mesmos objetivos nem os mesmos critérios de avaliação. É um jogo em que as regras mudam conforme o observador.

Nas democracias anteriores à revolução digital, o escrutínio mediático também era intenso, mas havia maiores intervalos entre acontecimentos, declarações e interpretações públicas. Hoje, o ciclo é quase contínuo. Este ciclo pode favorecer a transparência e tornar mais difícil ocultar erros. Mas também pode obrigar os governantes a reagir antes de compreenderem inteiramente os problemas, privilegiando a gestão da percepção pública em detrimento da deliberação. O paradoxo é evidente: quanto maior a disponibilidade de informação, maior pode ser a dificuldade em construir uma compreensão partilhada dos acontecimentos. E quanto mais a política se transforma num espetáculo permanente, maior é o risco de se confundir a capacidade de responder imediatamente com a capacidade de governar.

Ortega y Gasset receava a imposição da opinião coletiva sem o correspondente esforço de pensamento. Tocqueville, por seu lado, analisara a pressão da opinião maioritária sobre a autonomia individual. E Hannah Arendt chamou a atenção para a fragilidade de um mundo comum quando os factos deixam de constituir uma base partilhada para o debate. As perspeptivas são distintas, mas convergem num problema: a democracia não depende apenas da liberdade de falar. Depende também da capacidade de escutar, distinguir factos de interpretações, suportar a incerteza e admitir que uma decisão pode exigir tempo. No caso de um primeiro-ministro, isso implica aceitar o escrutínio sem se tornar escravo do ciclo noticioso. Para os jornalistas, implica questionar o poder sem transformar cada silêncio num veredicto antecipado. Para os cidadãos, implica não confundir a intensidade de uma reação coletiva com a solidez dos argumentos que a sustentam.

Gustave Le Bon também tocou na ferida com a psicologia das multidões. Gustave Le Bon foi um dos primeiros pensadores modernos a tentar compreender como o indivíduo, ao integrar-se numa multidão, pode alterar profundamente a sua maneira de pensar, sentir e agir. E a sua Psicologia das Multidões, publicada em 1895, continua a oferecer conceitos interessantes para interpretar a política contemporânea, embora algumas das suas teses devam ser lidas criticamente à luz da psicologia social atual.

Há uma ligação muito fértil entre Ortega y Gasset e Gustave Le Bon. A multidão não pensa como o indivíduo. Para Le Bon, a multidão psicológica não é simplesmente um conjunto de pessoas reunidas fisicamente. É um estado coletivo no qual os indivíduos podem tornar-se mais permeáveis à sugestão, à emoção e ao contágio das opiniões. Três mecanismos são particularmente relevantes. Contágio: emoções e atitudes propagam-se entre os membros do grupo, reforçando-se mutuamente. Sugestionabilidade: a repetição, a autoridade percebida e as imagens simples podem influenciar a adesão a determinadas ideias. Afirmação e repetição: uma mensagem curta, repetida incessantemente, pode adquirir uma força social desproporcionada relativamente à qualidade dos argumentos que a sustentam. Le Bon atribuía grande importância às imagens, às fórmulas simples e à capacidade de mobilização emocional dos líderes.

Transpondo estas ideias para o presente, pensemos numa declaração política de dez minutos, reduzida a um excerto de quinze segundos. O excerto circula nas redes sociais, recebe milhares de comentários e passa a representar, para muitos, toda a intervenção. A interpretação coletiva pode consolidar-se antes de a maioria ter contactado com o discurso integral. A tecnologia mudou; alguns dos mecanismos de influência que Le Bon procurou descrever continuam a ser pertinentes.

O canibalismo em circunstâncias trágicas



O voo 571 da Força Aérea Uruguaia caiu nos Andes, na Argentina, em 13 de outubro de 1972. A aeronave colidiu com uma elevação montanhosa, tendo ficado sem ambas as asas e o cone da cauda. A parte restante da fuselagem deslizou por um glaciar a uma velocidade estimada de 350 km/h, descendo 725 metros antes de colidir com um monte de gelo e neve a 3660 metros de altitude, nas remotas montanhas dos Andes na fronteira entre a Argentina e o Chile. O voo transportava 45 passageiros e tripulantes, incluindo 19 membros da equipa de rugby do Old Christians Club. Três tripulantes e nove passageiros morreram imediatamente. Vários outros viriam a morrer logo depois, devido às temperaturas muito baixas e à gravidade dos ferimentos. Aeronaves de busca e resgate sobrevoaram o local do acidente várias vezes nos dias seguintes, mas nunca os avistaram, provavelmente devido à cor branca da aeronave que se camuflava no branco da neve. As buscas foram interrompidas após oito dias.

Durante os 72 dias seguintes ao acidente, os sobreviventes sofreram dificuldades extremas: frio, fome, e uma avalanche que resultou na morte de mais 13 passageiros. Dos 19 membros da equipa de rugby, sobreviveram 7, a uma provação indizível, recorrendo à proteína muscular dos companheiros sepultados na neve. Mas acabariam por morrer se não viesse ajuda. Foi então quando três sobreviventes – Nando Parrado, António "Tintim" Vizintín e Roberto Canessa -- decidiram trepar a montanha em 12 de dezembro de 1972. Após três dias, Tintim foi enviado de volta, para que Parrado e Canessa pudessem gerir melhor a comida disponível. Após nove dias de viagem, acabaram finalmente por avistar alguém. Foi uma pessoa que estava a passar a cavalo - Sergio Catalán - junto a um ribeiro. Os 14 sobreviventes acabaran por ser resgatados nos dias 22 e 23 de dezembro de 1972, dois meses e meio após o acidente. 

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Durante o Cerco de Leninegrado (1941–1944), um dos bloqueios mais longos e destrutivos da história moderna, o canibalismo transformou-se de um tabu impensável numa estratégia de sobrevivência extrema provocada pela fome deliberada por parte de Hitler. A tática da Alemanha Nazi consistia explicitamente em cercar a cidade e deixar a população morrer à fome. O fenómeno atingiu o seu auge durante o "Inverno de Ferro" de 1941–1942, quando as rações diárias de pão para os civis caíram para escassas 125 gramas, sendo este pão misturado com serradura e celulose.

Os relatórios oficiais do Comissariado do Povo para os Assuntos Internos (NKVD) dividiram a prática do canibalismo
 em duas categorias distintas: Necrofagia (Trupoyedstvo) - o consumo de carne de pessoas que já tinham falecido (por frio, bombardeamentos ou fome), a forma mais comum de canibalismo devido à acumulação massiva de cadáveres nas ruas e habitações, que não podiam ser enterrados devido ao solo congelado; Antropofagia (Lyudoyedstvo) - o assassinato de pessoas vivas com o propósito explícito de consumo ou comércio de carne. A escassez extrema fez surgir criminosos e gangues organizados nas franjas da sociedade sitiada. Surgiram redes criminosas que operavam no mercado negro, ou perto de postos de racionamento. Atraíam cidadãos desesperados para apartamentos falsos com a promessa de trocar objetos por comida, assassinando-os de seguida. No mercado negro, pedaços de carne humana eram por vezes transformados em picado ou salsichas e vendidos como carne animal a compradores, fossem enganados, ou implesmente desesperados. Os agentes da polícia soviética relataram que identificar os canibais ativos era invulgarmente fácil: enquanto a maioria da população estava esquelética, cinzenta e debilitada, quem consumia carne humana apresentava um aspeto saudável, faces rosadas e movimentos enérgicos.

O regime soviético tratou o tema com extrema violência e censura militar absoluta para evitar a quebra moral e o pânico em massa. Até dezembro de 1942, o NKVD tinha registado oficialmente a detenção de 2.105 pessoas por canibalismo em Leninegrado. A distinção legal ditava o destino dos acusados. A necrofagia resultava frequentemente em prisão, mas o homicídio para fins de canibalismo (antropofagia) era punido com a execução imediata por fuzilamento pelas forças do Tribunal Militar, sem direito a recurso. Toda e qualquer menção ao canibalismo foi estritamente apagada dos jornais, transmissões de rádio e relatos oficiais durante décadas, só vindo a público de forma detalhada após a abertura dos arquivos soviéticos na década de 1990.

O número frequentemente citado é de cerca de 2.000 pessoas detidas por canibalismo durante 1941–42, embora os números variem conforme o período e a definição utilizada. E uma coisa particularmente importante é que a maioria dos casos não correspondia a homicídio para obtenção de carne. Por exemplo, entre 300 detenções em abril de 1942, apenas 44 envolviam pessoas acusadas de matar alguém para comer. Portanto, há uma diferença moral e psicológica enorme entre alguém cujo familiar havia já morrido de fome, e tenha utilizado o seu cadáver como alimento de sobrevivência, tal como aconteceu com os sobreviventes daquele trágico despenhamento de avião nos Andes; e matar deliberadamente outra pessoa para se alimentar. Ambas são terríveis, mas não são psicologicamente equivalentes.

A fome extrema pode destruir algumas das barreiras que normalmente tornam determinados comportamentos inimagináveis, mas não determina que esses comportamentos ocorram. Jeffrey Hass, estudando o cerco, observa precisamente essa transformação da própria categoria de "comida". Primeiro desaparecem as distinções habituais: comida deteriorada, animais, etc. Os habitantes comeram cavalos; depois gatos e cães. À medida que a fome avançava, o cadáver humano aproximava-se perigosamente da categoria de "recurso alimentar". Mas mesmo nesse ponto a maioria das pessoas não atravessou essa última fronteira. O próprio horror do canibalismo funcionava como uma reafirmação de que ainda existia uma fronteira moral.

A fome não transformou todas as pessoas em feras. Pessoas partilhavam as suas rações, cuidavam de familiares incapazes de se alimentar, mantinham crianças vivas, continuavam a trabalhar e até procuravam preservar música, teatro, livros e rituais sociais. Os estudos dos diários enfatizam precisamente esta coexistência de brutalidade e extraordinária capacidade de cooperação. O canibalismo não apareceu necessariamente quando as pessoas "perderam a razão". Parece ter surgido de um processo gradual de reclassificação cognitiva. É possível imaginar este processo como uma erosão progressiva dos tabus. E a literatura dos diários permite acompanhar essa erosão quase em tempo real. A investigação contemporânea sobre os diários salienta justamente como a fome modificava a experiência subjetiva do corpo, da morte e da própria linguagem. Mas existe uma última ironia. O caso de Leninegrado não demonstra simplesmente que, sob condições extremas, "qualquer pessoa pode tornar-se criminosa". Pelo contrário: demonstra que, mesmo quando as condições materiais são capazes de destruir quase todas as convenções sociais, algumas normas continuam extraordinariamente resistentes. É por isso que o canibalismo adquiriu uma importância simbólica tão grande. Não era apenas uma prática horrível: era a representação do ponto em que a civilização parecia estar prestes a atravessar uma fronteira sem retorno. E o facto de a esmagadora maioria dos habitantes não a ter atravessado, apesar de uma fome absolutamente inimaginável, é talvez tão revelador sobre a natureza humana como os casos daqueles que a atravessaram. E isto liga-se ao assunto da guerra, desumanização e a construção do "inimigo". É a fome que começa por fazer desaparecer a própria distinção entre comida, animal, cadáver e pessoa. A fronteira moral passa a ser simultaneamente uma fronteira cognitiva e biológica.