terça-feira, 10 de março de 2026

O enfraquecimento relativo da esquerda militante “woke”


O enfraquecimento relativo da esquerda militante/“woke”, em contrapartida com o crescimento de partidos ou movimentos de direita radical, não tem uma única causa ou um único acontecimento. É resultado de vários fatores que se acumularam entre aproximadamente 2016 e 2024 nos EUA e na Europa Ocidental.

Entre 2014 e 2021 houve um pico de ativismo progressista ligado a temas como racismo estrutural, identidade de género e linguagem inclusiva. Nos EUA isso ganhou enorme visibilidade após o movimento Black Lives Matter e protestos depois da morte de George Floyd em 2020. 


Ora, isto provocou uma reação (“backlash”) à política identitária e ao ativismo cultural. Para muitos setores da sociedade (especialmente classes médias e trabalhadoras), parte do ativismo “woke” passou a ser percebido como excessivamente moralizador sem fundamento na vida real. Isso gerou um efeito de reação cultural que foi explorado por líderes e partidos de direita. Nos EUA, figuras como Donald Trump fizeram campanha explícita contra o que chamam de “woke ideology”. Na Europa, discursos semelhantes aparecem em partidos como o Rassemblement National, a Alternative für Deutschland, Vox e Chega.

Quando o custo de vida dispara, eleitores tendem a abandonar debates culturais e votar em quem promete segurança económica ou controlo social, o que frequentemente beneficia partidos populistas de direita. A questão migratória tornou-se novamente central na Europa a partir da European migrant crisis (2015) e intensificou-se nos anos seguintes. Partidos de direita ganharam força com discursos de controlo de fronteiras, identidade nacional e críticas ao multiculturalismo. Isso aconteceu mesmo em países onde a direita radical era historicamente fraca.

Vários líderes de direita [Giorgia Meloni em Itália; Viktor Orbán na Hungria; Marine Le Pen em França] aprenderam a transformar guerras culturais em vantagem eleitoral, ligando imigração, segurança e identidade cultural, simultaneamente criticando as elites progressistas urbanas. Por outro lado, partidos de esquerda moderada afastaram-se do discurso mais radical para ganhar eleições. Nos EUA, por exemplo, os Democratas sob Joe Biden, tentaram moderar o tom cultural e focar mais a economia e as infraestruturas. Mas Kamala Harris não ajudou, e Trump voltou à Presidência.

Um ponto importante: apesar da percepção de “recuo”, as ideias progressistas não desapareceram. Muitas tornaram-se simplesmente menos visíveis ou mais moderadas no discurso público.


A compra do Twitter por Elon Musk em 2022 (depois renomeado para X) foi simbólica.

Mudanças importantes: redução de algumas políticas de moderação ideológica; retorno de contas banidas; maior visibilidade de críticas ao “woke”. Durante vários anos o Twitter tinha sido o epicentro das guerras culturais progressistas. Quando o ambiente mudou, isso alterou a percepção do debate público. Em 2023 aconteceu um momento muito comentado: a polémica em torno da campanha da Bud Light com a criadora trans Dylan Mulvaney. O resultado foram boicotes maciços, queda significativa de vendas e as empresas a recuar em campanhas semelhantes. Algo parecido aconteceu com a Target Corporation e produtos do Pride. Isso levou muitas empresas a reduzir o ativismo político nas campanhas.

Muitos analistas dizem que o fenómeno principal consistiu na fadiga social. Depois de quase uma década de debates intensos sobre linguagem inclusiva, identidade de género, cancelamentos, privilégio racial branco sob o epíteto de “branquitude” – uma parte da sociedade simplesmente desligou ou reagiu negativamente. Isso levou a menos ativismo corporativo, esquerda institucional mais cautelosa, direita mais confiante em atacar esses temas. Muitos cientistas políticos dizem que isso faz parte de ciclos culturais. Movimentos progressistas avançam → surge reação conservadora → depois aparece um novo equilíbrio.

Muitos investigadores de política e cultura dizem que o pico do fenómeno “woke” ocorreu aproximadamente entre 2020 e 2021. Isso aparece em vários indicadores ao mesmo tempo: protestos, políticas corporativas, linguagem institucional e cobertura mediática.


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