quinta-feira, 26 de março de 2026

Reconhecer os próprios erros é uma virtude


Hoje admite-se com menos controvérsia que o modelo de “manifestações de interesse” para os imigrantes em Portugal foi um erro. Tornou-se um íman para imigração desregulada, e um incentivo à economia informal. Acabou por acentuar a  praga da exploração laboral. Tudo isto é simplesmente factual. Exigir contrato de trabalho, meios de subsistência e enquadramento legal prévio, não é ideologia, é Estado de direito básico. Quase todos os países funcionam assim.

O governo socialista pecou pelo princípio das boas intenções com a sua péssima capacidade administrativa. A AIMA herdou um caos gigantesco, com processos acumulados por falta de meios humanos. Depois de expectativas criadas, a má gestão não foi capaz de o gerir o caos. Ora, sem resultados visíveis, o discurso perdeu credibilidade. 

Acresce agora o problema da integração. Controlar entradas sem investir seriamente em aprendizagem da língua, dispersão territorial, fiscalização laboral, combate a guetos habitacionais – é adiar o problema da integração, não resolvê-lo. O governo atual, ao contrário do que a esquerda diz, não está a comprar bandeiras do Chega, mas a executar o seu próprio programa. O facto de em matéria de bom senso, o governo coincidir com o bom senso neste caso do Chega, não significa que esteja a fazer a política do Chega. O argumento da esquerda é falacioso. Houve excessos de facilitismo e agora, como é costume dizer-se, está-se a correr atrás do prejuízo, ou seja, a corrigir os erros cometidos anteriormente. Estão-se a corrigir excessos reais. Mas o governo ainda não conseguiu liderar o debate, está apenas a tentar sobreviver a ele com vários erros de comunicação. A Comissão Europeia, embora também tarde, acabou por perceber o problema das "portas escancaradas". Na política europeia recente, quem não acordou a tempo acabou por ser liderado por outros.

Este tema vai inevitavelmente reconfigurar o sistema partidário em Portugal. A única dúvida é quem vai ganhar com isso, e quanto. Há três razões estruturais (não conjunturais). Durante anos era um tema distante, moral, quase académico. Hoje é: habitação, escolas sobrelotadas, SNS sob pressão, salários baixos em sectores específicos, mudanças visíveis no espaço urbano. O Chega pode ter usado linguagem tóxica, mas conseguiu uma coisa politicamente decisiva: quebrou o tabu. Portugal chegou atrasado ao ciclo europeu. O que França, Alemanha ou Suécia viveram há 10–15 anos, Portugal está a viver agora. Mas de forma comprimida e acelerada.

O PS está no dilema clássico: se regressa ao discurso permissivo, perde eleitorado popular; se endurece, fratura a ala ideológica e mediática. O PS só sobrevive unido se fizer algo tipo Dinamarca. Caso contrário, perde eleitores para os dois lados. O PSD pode tornar-se o partido do “controlo normal”, absorvendo eleitorado moderado que hoje vota por medo, não por convicção. Mas é um equilíbrio difícil, um deslize retórico e perde o centro. O Chega não precisa de crescer muito mais para vencer: precisa apenas que os outros falhem. Se o controlo parecer cosmético ou ineficaz, o discurso “eles falam, nós fazemos” volta em força. Mas atenção: se o tema for tratado com seriedade pelos partidos mainstream, o Chega não desaparece, mas pode estagnar. E a Esquerda à esquerda do PS? Aqui está o maior risco existencial. BE e PCP perderam ligação à realidade, ao eleitorado popular. Falam sobretudo para nichos urbanos e mediáticos. Tratam preocupações reais como “falsas consciências”. Se não reformularem o discurso sobre imigração, tornam-se irrelevantes para uma parte crescente do país real.

Hoje, quem ficar preso à velha grelha ideológica [Direta vs./ Esquerda], vai perder. Em suma: a imigração não é “mais um tema”. É o tema que vai reorganizar alianças, discursos e eleitorados na próxima década. Há sinais claros de que Portugal está a entrar na versão portuguesa do “modelo francês”, mesmo que ainda numa fase embrionária. A polarização francesa não surgiu de um dia para o outro. Foi construída por vários erros repetidos. Durante décadas, em França, qualquer discussão sobre imigração era tratada como falha moral.

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