quarta-feira, 18 de março de 2026

O wishful thinking do ativismo - ou uma filosofia para a vida


A filosofia, para muitas pessoas, não é um exercício intelectual, mas uma forma de respirar melhor dentro da condição humana. É nesse sentido que se pode fazer uma reflexão não propriamente política, mas existencial. O filosofar foi sempre um ponto de inquietação no pensamento clássico. Uma forma de conciliar com lucidez serena a agressividade do mundo com a escuridão do interior da alma. Quase toda a tradição filosófica gira em torno disto. Epicteto, Marco Aurélio e tantos outros estoicos fazem parte dessa família filosófica do estoicismo. Sofremos menos quando distinguimos o que depende de nós do que não depende. É, por assim dizer, uma forma de resignação passiva. É economia emocional. Posso agir → ajo. Não posso controlar → não me deixo consumir. É Marco Aurélio: "O mundo é instável por natureza, não por erro."

Outra via fascinante é o budismo, a libertação pela impermanência. O sofrimento nasce não apenas da dor, mas do apego à expectativa de que o mundo seja diferente do que é. Tudo muda. Tudo passa. Tudo é contingente. Não como tragédia, mas como estrutura da realidade. No budismo paira uma serenidade que nem é fixa nem niilista. Pensadores como Nietzsche ou Camus não ofereceram consolo, mas algo diferente: uma forma de dignidade diante do absurdo. O mundo é contraditório. A justiça é incompleta. O sofrimento persiste. Ainda assim há valor em viver, compreender, experimentar. É um ponto subtil que a idade frequentemente revela

Ora, o wishful thinking da eterna juventude nunca foi mais além do que apenas a busca de respostas. Só com o Tempo - esse grande escultor de Marguerite Yourcenar - se adquire a sabedoria. Com o Tempo, muitos descobrem algo diferente. A filosofia não elimina perguntas, transforma a relação com elas. Menos necessidade de fechamento. Mais tolerância à ambiguidade. A inquietação deixa de ser inimiga. Torna-se parte do modo de estar. “Filosofar é aprender a morrer" - disse Montaigne: relativizar urgências artificiais; diminuir medos imaginários; habitar melhor o presente. A consciência da finitude pode suavizar o peso das coisas.

Daí que o ativismo político banalize a natureza humana através da violência. Na juventude, essas tensões pesam muito. Na idade, a consciência do Tempo permite a retenção da lembrança que valoriza o que ainda é vivível com significado. Isso explica a serenidade paradoxal da vida já vivida. Inquietações permanecem, mas perdem a força que escraviza. Para Husserl, o Tempo não é apenas um relógio ou uma sequência de eventos externos. O Tempo é uma estrutura da consciência, algo que molda como tudo nos aparece. À medida que envelhecemos, as retenções acumulam-se em camadas profundas de memória vivida. As tensões diminuem em intensidade, porque a percepção do futuro mostra que ele está já aí. E o Presente torna-se mais o centro da experiência, menos acelerado por ambições longínquas. O resultado fenomenológico é o mundo aparecer com menos urgência e mais densidade qualitativa. As inquietações do velho perdem parte da tirania do jovem, não porque desapareçam, mas porque a estrutura temporal da consciência mudou.

Alguns historiadores e cientistas políticos dizem - em relação ao que está a acontecer agora - que faz lembrar outros ciclos ideológicos do passado ocidental, em que depois de uma grande vaga progressista se sucede uma reação conservadora. Que depois se segue um período mais estável, mais equilibrado, até que uma nova vaga aconteça. Isso já aconteceu várias vezes desde a 
Primavera dos Povos [Revolução de 1848] -- como ficou conhecido o período marcado por grandes levantamentos em vários países da Europa. Aconteceu após as Guerras Napoleónicas e não tinha uma única ideologia. O objetivo principal era acabar de vez com o Antigo Regime. Após essa onda de rebeliões, foram estabelecidas novas instituições jurídicas.

Entre cerca de 1870 e a Primeira Guerra Mundial, o mundo passou por mudanças económicas gigantes: segunda revolução industrial; urbanização rápida; crescimento de grandes corporações; enorme desigualdade social. Essas transformações criaram movimentos políticos populistas, especialmente entre agricultores e trabalhadores que se sentiam excluídos do novo sistema económico. Nos EUA surgiu o People's Party, que criticava: bancos; elites financeiras; concentração de poder económico. Era um discurso muito semelhante ao que hoje chamamos anti-elite.

E assim aconteceu depois no século XX, quando em 1968 surge uma enorme onda de protestos estudantis e culturais em todo o ocidente, embora com dois epicentros: Paris e São Francisco. Grandes manifestações de protesto contra a guerra no Vietname. Seguido de movimentos feministas e de contracultura. Esse período ficou associado à chamada Revolução Cultural dos anos 1960. Mas nos anos seguintes surgiu uma reação política forte que levou ao poder líderes conservadores como Ronald Reagan nos EUA e Margaret Thatcher no Reino Unido em resposta ao radicalismo cultural do chamado Maio de 68.


Depois do fim da Guerra Fria - assinalado pela Queda do Muro de Berlim em Novembro de 1989 - surgiu um período relativamente brilhante no Ocidente marcado por: globalização económica; multiculturalismo; integração europeia; expansão de direitos civis. Instituições, como a União Europeia, expandiram-se. Durante muitos anos acreditou-se que o liberalismo político e cultural iria expandir-se continuamente. A partir de meados da década de 2010 surgiu um novo ciclo político com forte reação populista marcada pela eleição de Donald Trump em 2016. E nesse mesmo ano o Brexit, cujo referendo sentenciou a saída do Reino Unido da União Europeia. E nesse sentido se verificou o crescimento de partidos nacionalistas na Europa. Essa reação foi alimentada por vários fatores: desigualdade económica; imigração; desconfiança nas elites; reação cultural a mudanças sociais rápidas.

Em 2026 já se está a debater o período depois do período "woke”. É, por conseguinte mais uma fase desse tipo de ciclo histórico. Curiosamente, alguns investigadores dizem que estes ciclos costumam durar cerca de 15–25 anos, porque correspondem à entrada de novas gerações na vida política. Há cientistas políticos que acreditam que o verdadeiro conflito atual já não é esquerda // direita, mas sim elites urbanas // classes médias e periféricas. E isso muda completamente a forma de entender a política atual.


Muitos cientistas políticos e sociólogos defendem hoje que o eixo principal da política ocidental mudou nas últimas décadas. Em vez da divisão clássica esquerda / direita económica, o conflito dominante estaria cada vez mais ligado a elites urbanas altamente educadas / classes médias e periféricas. Esta ideia aparece em vários estudos sobre populismo, desigualdade territorial e comportamento eleitoral.

Nas últimas décadas, a globalização beneficiou sobretudo: grandes cidades; setores ligados a tecnologia e finanças; pessoas com ensino superior. Enquanto muitas regiões rurais tiveram crescimento mais lento ou declínio económico. Esse fenómeno foi estudado por autores como Christophe Guilluy, que popularizou a expressão “França periférica” para descrever áreas fora das grandes metrópoles. Movimentos populistas de direita passaram a mobilizar principalmente: trabalhadores industriais; classes médias baixas; residentes de cidades pequenas ou zonas rurais. Isso foi visível em vários eventos: eleição de Donald Trump nos EUA; referendo do Brexit no Reino Unido; crescimento do Rassemblement National em França. Em muitos desses casos, mapas eleitorais mostram uma divisão geográfica clara: nas grandes cidades o voto vai para partidos mais progressista; nas periferias votam mais populista. O economista Thomas Piketty explica isso dizendo que a esquerda foi capturada pelas elites educadas.

Como resultado dessa mudança social, muitos debates políticos passaram a focar-se em: imigração; identidade cultural; globalização; mudanças sociais rápidas. Essas questões culturais tornaram-se mais importantes do que as económicas & mundo do trabalho. Por isso muitos analistas dizem que o conflito atual é mais sociocultural e territorial do que puramente económico.


Hoje vivemos outra transformação económica enorme: globalização das cadeias de produção; automação industrial; economia digital; concentração de riqueza em setores tecnológicos. Tal como no século XIX, muitas pessoas sentem que: perderam segurança económica; perderam influência política; elites globais tomam decisões importantes. Essa perceção alimenta movimentos populistas contemporâneos.


A verdadeira batalha ideológica do século XXI pode ser entre globalismo e nacionalismo, mais do que entre esquerda e direita. É uma mudança de eixo político bastante profunda. No debate político, “globalismo” costuma referir-se a uma visão que valoriza: integração económica global; comércio internacional; instituições multilaterais; mobilidade de pessoas e capital; cooperação internacional

A divisão não coincide perfeitamente com esquerda/direita. Um dos aspetos mais interessantes é que este novo eixo cruza as antigas divisões ideológicas. Globalistas podem ser: liberais económicos; social-democratas pró-EU; partidos centristas. Nacionalistas podem ser: conservadores culturais; populistas de direita; até alguns movimentos de esquerda antiglobalização. Por isso, as alianças políticas tornaram-se mais confusas.


Porque este conflito pode dominar o século XXI? Há várias razões estruturais: globalização económica criou vencedores e perdedores; imigração aumentou em muitas regiões; tecnologia conecta o mundo mas também gera competição; identidades nacionais continuam muito fortes. Isso faz com que debates sobre fronteiras, comércio e identidade cultural se tornem centrais.

Estamos possivelmente no início de uma grande mudança de ciclo político semelhante à de 1945 ou 1989. Momentos em que toda a ordem política internacional mudou. O Ocidente está possivelmente entrando numa grande mudança de ciclo político, comparável a momentos como 1945 (fim da Segunda Guerra Mundial) ou 1989 (queda do Muro de Berlim). Esses períodos marcaram reorganizações profundas da ordem política, económica e cultural.


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