Segundo a doutrina do “relativismo multicultural”, a verdade é múltipla, depende do ponto de vista do sujeito, e do contexto em que é formulada. Assim, todas as afirmações, sejam científicas, filosóficas, religiosas ..., seriam diferentes “narrativas”, que deveriam ser compreendidas em seus respetivos contextos históricos, culturais e linguísticos, pois apenas revelariam os preconceitos culturais de diferentes narradores. Os critérios de verdade, dizem-nos, são relativos às diferentes práticas e culturas, e não há qualquer juiz ou padrão de racionalidade imparcial e superior capaz de avaliar essas diferentes narrativas.
O debate multicultural surgiu a partir das reivindicações de diversos grupos e movimentos sociais com ponto de partida nos departamentos dos estudos culturais das universidades americanas. Nasce a partir de discussões que giram em torno da diversidade cultural, questões de classe, género, raça e etnia. Ciaram o "despertar" para o questionamento da unilateralidade das ações educativas universalistas, que historicamente fez da Escola um espaço de promoção e imposição dos valores e saberes culturais dominantes.
O termo multiculturalismo teve origem nas lutas iniciais contra o racismo empreendidas pelos negros norte-americanos. Inicialmente, surge a partir do reconhecimento da diversidade de culturas existentes naquele país. No entanto, preconizava que as diversas culturas existentes no interior desse território deveriam ser assimiladas pela cultura dominante. Essa visão "assimilacionista" e "integracionista" baseava-se na ideia de absorção da cultura dominante fundindo-se numa só, sem considerar qualquer contribuição das demais culturas.
Esse relativismo pós-moderno, não sendo apenas incoerente, trouxe consequências absurdas, verdadeiros contrassensos que não condizem com a realidade. Uma afirmação factual não pode ser considerada verdadeira ou falsa apenas dentro de um certo sistema de crenças particular. Se por um lado, é necessário um certo “relativismo” no procedimento do antropólogo que estuda o papel de diferentes costumes em várias culturas, disso não se segue um relativismo cognitivo que afirma ser a verdade apenas uma questão de diferentes práticas culturais, de diferentes maneiras de “conhecer” o mundo. Esse relativismo também é pernicioso por tornar a discussão de ideias vazia de sentido. Se cada qual tem a sua verdade, não há necessidade de levar a sério os argumentos do adversário ou de justificar as nossas próprias ideias, que também seriam apenas pontos de vista. Este desleixo intelectual é muito problemático, pois se todos os discursos se equivalem como meras “narrativas”, então somos levados a admitir que tudo - mesmo os preconceitos racistas, sexistas e toda forma de fundamentalismos religiosos - é igualmente legítimo.
As diversas atividades intelectuais desenvolvem diferentes tipos de teoria: filosóficas, físicas, matemáticas, etc., que visam resolver problemas diferentes e por isso têm características diferentes. A filosofia não tem o carácter empírico da física, mas um carácter conceptual. Mas também é diferente da matemática, por não dispor de métodos formais de demonstração. Os assuntos são diferentes. Somente aqui faz sentido a ideia de diferentes “critérios” para diferentes atividades intelectuais. Porque de contrário teríamos de admitir um relativismo metodológico que seria inaceitável.
Toda esta parafernália de discussões é típica do discurso pós-moderno, que se tornou absurda. Ressaltar a diferença entre as atividades intelectuais não é o mesmo que dizer que a maneira de avaliarmos uma determinada prática tem que ser totalmente determinada pelo método que escolhemos, sem qualquer justificação racional. É nesse ponto que o relativismo se caracteriza ao defender que discursos pseudocientíficos, como a Astrologia ou as terapias Nova Era, são tão verdadeiros quanto a Astronomia e a Física, pois utilizariam métodos diferentes com critérios próprios. Assim bastaria escolher o seu mito predileto e utilizar um “método” próprio para justificá-lo.
Pode haver vários métodos, mas qualquer pretensão de se chegar à verdade tem um critério fundamental: avaliação crítica e justificação racional. Seja um historiador que investiga acerca do passado; ou um detetive que pretende descobrir o autor de um crime; ou um químico que pesquisa em laboratório; ou um filósofo que está a avaliar diferentes afirmações. O critério é o mesmo. Devemos ficar atentos e ter uma atitude crítica perante esses diferentes métodos, pois não se trata apenas de uma questão de escolher o método predileto sem qualquer justificação adicional. É por esse motivo que um “método” dogmático e completamente fechado ao debate racional - como é o caso das práticas pseudocientíficas que são incapazes de justificar o que dizem - não representa método algum, mas apenas um embuste.
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