O disjuntivismo de John McDowell é uma posição particularmente interessante porque procura romper com uma ideia muito arraigada na filosofia da percepção: a de que uma experiência perceptiva verídica e uma alucinação, embora diferentes quanto ao que existe no mundo, têm necessariamente um mesmo “estado mental interno” em comum. Ou seja, os circuitos cerebrais têm o mesmo desenho [design = aspecto na sua configuração física; plano].
A ideia central pode ser formulada assim: Quando vejo realmente uma árvore diante de mim, a minha experiência não é apenas um estado mental que poderia ser exatamente o mesmo se eu estivesse a alucinar uma árvore. Percepção verídica: está uma árvore diante de mim e eu vejo-a. Alucinação:
não há árvore alguma, mas tenho uma experiência da percepção, fenomenologicamente falando, sobreponível à visão real de uma árvore. Tradicionalmente
Nos dois casos há um determinado estado mental interno. A versão que tradicionalmente defende que a percepção do real não é mais do que é ditado por um dado estado interno - é a versão da representação. Aquilo que se tem diante de nós na percepção é fundamentalmente um estado interno. Neste caso, o que se diz é que a nossa relação cognitiva com o mundo exterior é sempre mediada por esse estado interno. E é aqui que John McDowell entra com o disjuntivismo. No que McDowell discorda é que não há necessariamente uma entidade mental comum aos dois casos (visão do real vs/ visão alucinada). Vejo uma árvore porque a árvore está efetivamente diante de mim e a minha experiência é uma forma de estar perceptivamente em contacto com ela; no caso alucinatório parece-me ver uma árvore, mas não existe árvore alguma sendo percebida.
Assim, enquanto a percepção do real é um tipo de relação com o mundo; na alucinação o fenómeno da percepção é diferente, é 'como se' fosse. O cérebro é "perito" em criar imagens 'como se' fossem reais. Daí o nome: disjuntivismo.
Para McDowell, a percepção pode ser uma forma de contacto racionalmente significativo com o mundo. A isto ele exprime-se com a expressão “fricção com o mundo". Se todo o nosso conhecimento estivesse encerrado em estados internos, poderíamos perguntar: como é que algo que está “dentro da cabeça” consegue justificar uma crença sobre algo que está “fora da cabeça”? O disjuntivismo é uma forma de explicar que na percepção verídica, não estou epistemicamente fechado num intermediário mental; estou efetivamente em contacto perceptivo com o próprio objeto. Na conceção tradicional, poderia parecer que a justificação funciona assim: experiência interna → crença → inferência sobre o mundo. McDowell defende uma relação muito mais direta: árvore presente → experiência perceptiva → crença justificada. Ou seja, a própria experiência perceptiva pode constituir uma razão para acreditar que há uma árvore. E isto é crucial: McDowell não quer reduzir a percepção a uma mera causalidade mental. A árvore não é apenas uma determinada representação cerebral.
McDowell aceita que quem está em estado de alucinação está exclusivamente no seu puro estado de subjetividade. É aqui que ele faz entrar a disjunção: subjetividade / objetividade. Tem de existir um modo de distinguir o domínio subjetivo do domínio objetivo. E esta distinção é necessariamente uma questão epistemológica em que a prerrogativa está na cognição de terceira pessoa. Tal como é a cognição paradigmática de tudo o que é do domínio da Ciência. Subjetivamente a percepção do real é indistinguível da alucinação. Mas daí não se segue que a natureza metafísica do mundo seja apenas um exclusivo da nossa subjetividade. As duas experiências, fenomenologicamente falando, podendo parecer exatamente iguais para o sujeito que as experencia, ontologicamente não se segue que sejam o mesmo tipo de acontecimento. É aqui que entra a distinção entre facto e acontecimento. Sendo o mesmo facto para o sujeito perceptivo, os acontecimentos são diferentes. O que acontece no cérebro no estado de visão de uma árvore real, não é o mesmo que acontece no cérebro num estado de alucinação. A experiência de ver realmente uma árvore envolve uma relação com a árvore; a alucinação não. Metafisicamente falando, ontologicamente falando, são diferentes. O facto de o sujeito não conseguir distinguir os dois casos internamente, ao nível da primeira pessoa, não obriga, ao nível de terceira pessoa, postular um estado comum no cérebro do mesmo sujeito.
Isto aproxima McDowell de uma filosofia “anti-cartesiana”. Há aqui uma consequência bastante profunda. O modelo cartesiano tende a construir uma barreira entre o mundo e os sentidos. A consciência passa por uma representação mental que é reconstruída pela razão. McDowell é um realista, através de uma espécie sofisticada de realismo direto. Existe um mundo independente de nós. Na percepção podemos estar efetivamente em contacto com esse mundo. Aquilo que percebemos pode constituir uma razão para as nossas crenças. Não precisamos de inferir a existência do objeto a partir de uma representação interna. A fenomenologia comum não implica necessariamente uma ontologia comum. É precisamente esta passagem que torna o disjuntivismo filosoficamente poderoso.
O disjuntivismo de McDowell é especialmente relevante para a questão de como uma mente pode estar simultaneamente “dentro” do organismo e aberta ao mundo. Ele rejeita uma imagem segundo a qual a consciência seria uma espécie de teatro interno, onde primeiro aparecem representações e só depois tentamos descobrir se correspondem à realidade. Na percepção verídica, a própria realidade pode entrar na constituição racional da experiência. Isso não significa, evidentemente, que o cérebro deixe de ser necessário. McDowell não está a negar a neurociência. A tese é sobretudo filosófica e epistemológica: uma descrição neurofisiológica da experiência não esgota aquilo que significa dizer que vejo uma árvore.
A questão é esta: a experiência perceptiva verídica e a alucinação podem ter exatamente a mesma realização neural? Há que aprofundar o significado de "experiência". Essa é a diferença constitutiva entre "ver" e "perceber". A experiência acrescenta qualquer coisa relacional à mera cognição do que é percebido e que é tratado em filosofia pela categoria chamada "epistemologia". Essa é uma das grandes tensões internas do disjuntivismo — que nos últimos tempos tem sido reservado ao domínio da filosofia da mente. É a perene questão da aparência e realidade, assim como representação e não representação no processo de percepção e do conhecimento do mundo tal como ele é.
A oposição aparência/realidade é quase uma espécie de matriz subterrânea de grande parte da filosofia ocidental: de Platão e o problema das aparências, passando pelo cogito e pelo representacionismo moderno, até à filosofia contemporânea da percepção.
Na percepção verídica, a própria realidade pode estar presente na experiência sem que isso implique que tenhamos dentro da mente uma “imagem” ou representação dela. A questão torna-se então quase fenomenológica. Quando olho para uma árvore, posso descrever o acontecimento de duas maneiras: 1) Há uma árvore. Ela provoca determinadas alterações no sistema visual. Forma-se uma representação. Tenho a experiência da árvore; 2) Há uma árvore. Vejo a árvore.
A segunda formulação parece linguisticamente banal, mas filosoficamente é revolucionária. Porque o verbo “ver” já contém uma relação com o mundo. Não é necessário introduzir uma terceira entidade (uma representação mental) entre mim e aquilo que vejo. Se eu alucino uma árvore, parece-me exatamente que estou a ver uma árvore. Portanto, há aqui uma disjunção entre o domínio fenomenológico e o domínio ontológico. A experiência é definida pela relação efetiva do sujeito com o mundo. Na alucinação não há uma verdadeira experiência do sujeito com o mundo, “o mundo tal como ele é”.
É por isso que a expressão “perceber o mundo tal como ele é” pode ser enganadora. Nós nunca percebemos simplesmente a realidade em si sem mediação alguma: temos sistemas sensoriais específicos, cérebros, perspectivas espaciais, limitações temporais, categorização conceptual, atenção, memória, etc. A expressão "percepção" pode ser apenas um embaraço, uma espécie de escada ou moleta linguística a atrapalhar. A visão genuína de uma coisa não precisa de ser uma representação interna da realidade dessa coisa para ser o genuíno acesso à realidade. É errado dizer que a percepção nos entrega uma cópia perfeita do mundo.
No conhecimento da realidade há uma relação constitutiva do sujeito com o próprio objeto [uma relação, um circularidade entrelaçada: sujeito/mundo]. Na alucinação existe apenas algo subjetivo. O conceito de percepção, tal como é comummente usado, acaba por não implicar a necessidade da relação efetiva de um corpo perceptivo com o mundo. Portanto: não se trata de saber “que representação tenho dentro da cabeça”, mas “que relação está a acontecer entre o organismo consciente e aquilo que existe”. É uma diferença enorme. McDowell acaba por fazer a ligação entre todas as pontes até à data construídas no campo da Filosofia da Mente: neociência; ciência cognitiva; fenomenologia (Husserl/Merleau-Ponty); enativismo (Maturana e Francisco Varela). É por demais evidente que o conceito de representação, para explicar a fenomenologia da percepção, se torna filosoficamente supérfluo.
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