sexta-feira, 11 de setembro de 2026
A lição do 11 de setembro de 2001
Lição aos políticos. A maioria das pessoas de esquerda, nessa altura, não discerniu a dimensão política do terrorismo contemporâneo. Depois de os ânimos de indignação terem serenado em relação ao islão, as pessoas de boa-fé quiseram compreender o islão. O próprio Jürgen Habermas juntou-se ao grupo sem, contudo, sublinhar que terminara a época pós-moderna do relativismo dos valores e da ironia à moda de Richard Rorty.
A grande maioria dos que exprimiram esse desejo já militavam no debate identitário e nas questões fraturantes em relação ao mundo islâmico. Eram pessoas que queriam dar uma oportunidade ao islão, compreendê-lo por dentro e, desse modo, redimi-lo. Em suma, queriam convencer-se a si próprios da grande força espiritual do islão, para que a própria religião não fosse condenada pelo facto dos seus fundamentalistas serem criminosos terroristas. Era assim a doutrina do relativismo, em que cada um se devia colocar na posição do Outro.
Essa atitude veio a revelar-se inconsequente. Não podia ser apropriada para avaliar as dinâmicas políticas que se geraram e conduziram à jihad. A guerra santa na forma de terrorismo. A verdadeira ameaça, a longo prazo, veio a revelar-se noutros atos de terror em massa efetuados por participantes virtuais como se de um jogo de vídeo se tratasse.
A ironia está no facto de o Outro estar disposto a arriscar tudo, a própria vida, em nome de uma causa transcendente implicando a sua própria destruição. Os políticos ditos de esquerda caíram no paradoxo nietzschiano. Mestres colonizadores de escravos agarrados à sua existência. É difícil imaginar uma causa, universal que seja, em nome da qual os políticos de esquerda estariam dispostos a sacrificar a própria vida.
Os objetos críticos dos chamados “cultural studies”, ridicularizados pelo poder hegemónico das ciências duras, acabaram por se transformar num boomerang. Os estudos culturais, ramo de estudo dos departamentos das humanidades, particularmente nos EUA a partir dos anos 1960, no contexto do surgimento do pós-modernismo e multiculturalismo, desaguaram naquilo que viria a ser designado por “wokismo”. Um dos principais contribuintes dos estudos culturais em Inglaterra foi Stuart Hall (1932-2014) – sociólogo de origem jamaicana e diretor do Center for Contemporany Cultural Studies (CCCS) da Universidade de Birmingham. Hall, juntamente com Richard Hoggart e Raymond Williams, foi uma das figuras fundadoras dessa escola de pensamento – Escola de Birmingham dos Estudos Culturais. Ele foi presidente da Associação Britânica de Sociologia entre 1995 e 1997.
Hoje assinala-se o acontecimento. Uma é a versão patriótica americana. Outra é a versão de uma certa esquerda multiculturalista que considera que os EUA tiveram o que mereceram depois do que vinham infligindo ao Outro há décadas. Hoje está a decorrer já não uma guerra imaterial, mas um verdadeiro ataque que é visível e material. Nível da realidade material visível à vista desarmada. Uma superpotência a desengonçar-se, bombardeando um país que não se deixa vergar. Não tem servido de nada quando ao mesmo tempo Donald Trump se tornou refém da rede invisível. A rede das grandes corporações multinacionais do capitalismo globalizado.
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