Para perceber o que hoje parece um “nó górdio” geopolítico, vale mesmo a pena recuar ao início do século XVI — quando o Estreito de Ormuz já era um dos pontos mais estratégicos do mundo. E foi exatamente isso que percebeu Afonso de Albuquerque, um gargalo vital desde sempre. O estreito liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Na prática, tudo o que vinha da Pérsia, Mesopotâmia e interior da Ásia e seguia para a Índia, África ou Europa, passava ali. No século XVI, não era petróleo, eram especiarias, seda, cavalos árabes, pérolas. Mas a lógica era exatamente a mesma de hoje: quem controla Ormuz controla o fluxo da riqueza.
Na ilha de Ormuz existia um reino riquíssimo. Era descrita pelos cronistas portugueses como uma cidade cosmopolita cheia de mercadores persas, árabes e indianos. O mercado era de luxo, quase sem recursos próprios, dependia de importações. Um paradoxo, um entreposto riquíssimo… num lugar árido e hostil.
Afonso de Albuquerque, que andou por ali entre 1507 e 1515, tinha uma estratégia clara para o império português no Índico: controlar os “pontos de estrangulamento” do comércio. Os três principais eram: Ormuz; Malaca; Aden.
Em 1507, Albuquerque faz a primeira tentativa de conquistar Ormuz. Inicia construção de uma fortaleza, mas enfrenta uma revolta interna e falta de meios. É forçado a retirar. Só regressa em 1515, com mais forças, e é então que consegue impor o domínio português transformando Ormuz num protetorado. Os portugueses constroem uma fortaleza que ainda hoje se veem lá as ruínas. Controla o porto e impõe taxas aos navios. A presença militar é permanente.
Durante décadas, Portugal conseguiu dominar o comércio no Golfo Pérsico, controlando as rotas entre a Índia e o Médio Oriente. Mas esse controlo nunca foi absoluto nem tranquilo. A resistência local era permanente. Por outro lado, com a rivalidade otomana, a instabilidade mantinha-se constante. Portanto, o que se passa hoje no Estreito de Ormuz é muito semelhante ao que se passava no século XVI. O que é hoje o petróleo e o gás, no século XVI era a seda e as especiarias. O que é surpreendente é ter sido Portugal, um pequeno país no Atlântico ocidental, a potência dominante no Índico na época do Renascimento. O Estreito de Ormuz, passados cinco séculos, continua a ser o ponto mais sensível do planeta em termos geopolíticos.
A perda de Ormuz pelos portugueses (1622) não foi um evento súbito, foi o resultado de décadas de desgaste, e de uma aliança improvável. No início do século XVII, o Império Português no Índico já não era o mesmo de Afonso de Albuquerque. Portugal estava sob a União Ibérica (governado pelos reis de Espanha). Inimigos de Espanha tornam-se inimigos de Portugal. ingleses e holandeses entram agressivamente no comércio asiático, e os os portugueses ficaram mais isolados e atacados em várias frentes.
Do lado persa, um líder com ambição, surge uma figura decisiva: o Xá Abbas I. O objetivo era recuperar o controlo do comércio no Golfo Pérsico. Expulsar os portugueses de Ormuz e modernizar o seu exército (com influência europeia). Mas havia um problema: os persas não tinham poder naval suficiente. E é aqui que entra a aliança improvável: os ingleses, através da Companhia Inglesa das Índias Orientais. Era preciso quebrar o monopólio português e ganhar acesso direto ao comércio persa.
Em 1622, o cerco de Ormuz, o ataque foi combinado. Forças persas cercaram a ilha, e navios ingleses bloquearam e bombardearam. Os portugueses ficaram isolados, sem reforços. A fortaleza portuguesa, outrora símbolo de domínio, transformara-se numa armadilha. Após semanas de resistência os portugueses renderam-se.



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