Diga-me, meu Capitão, afinal há ou não diferença moral entre um terrorista do Hamas e um soldado da IDF israelita?
Mamdani: admite prender Netanyahu se visitar Nova Iorque. "Ele é um criminoso de guerra".
Existe só o humano, o desumano não existe. O soldado é um bom exemplo disso mesmo. Certamente um bom pai de família, que quer alimentar os seus filhos. Mas obedece ao seu governo, ainda que no seu foro íntimo possa não estar inteiramente de acordo com as ordens. Por acaso nasceu em Israel. Veja-se, tivesse nascido em Portugal. Mas já houve tempos, no tempo do colonialismo português em África, que o dilema do soldado também se lhe colocava. O Estado Novo nacional-fascista imprimira o seu impulso a toda uma geração.
Quanta gente notabilíssima, mundo fora, filantropa ou benemérita, celebrizada pela sua generosidade extravagante, não deixou de colecionar monstros narcisistas, egoístas ávidos de glória pública, tiranizando, sabe-se lá se inconscientemente, os seus mais próximos? Todo o homem deseja satisfazer as suas necessidades. A Necessidade, já os gregos o sabiam, é uma deusa não só cega mas também cruel. Daí, o que mais se possa pedir ao homem comum, em qualquer democracia, que não seja apenas que obedeça à Lei?
Não é que faltem criminosos na Palestina, mergulhada numa atmosfera viscosa de corrupção. O homem não é naturalmente nem bom nem mau. O bem e o mal são categorias que podem servir para qualificar o efeito das ações de um homem sobre outro. Mas não servem para ajuizar o que se passa no coração de um homem. Matar pessoas é o mal em si mesmo. Mas o homem em si próprio é um bom homem para os que lhe são próximos.
São necessárias instâncias reguladoras que tracem limites aos desejos de cada um, e arbitrem os conflitos. Uma dessas instâncias é a Lei. É neste sentido que Hobbes tem razão. Mas ainda é preciso algo mais que faça acontecer o homem a acatar a lei: é o Poder, essa instância superior ao homem. Mas o Poder, mesmo democrático, não se aguenta muito tempo sem Força, algo que o homem sabe, por experiência, que é superior a si próprio.
No princípio da civilização, a Lei era Deus. Os Dez Mandamentos foram escritos por Deus. Não matarás, não prevê qualquer exceção. Mas qualquer judeu ou cristão aceita suspender a Lei em tempo de guerra. É justo matar o inimigo do nosso Povo. Terminada a guerra, a Lei retoma o seu curso natural. Até se chegar à soberania do Povo, que é quem mais ordena, ainda se passou pela fase intermédia do Rei, o substituto de Deus na Terra. Que homem só, movido pela sua própria vontade, poderá decidir e dizer: isto é bem; isto é mal? Assim, a lei moral kantiana, o imperativo categórico, é uma ficção como todas as outras. Se cada homem viver segundo a sua lei privada, por mais kantiana que seja, cairíamos no tal mundo de Hobbes, um caos de todos contra todos.
Por conseguinte, quem deseja julgar os crimes de guerra perpetrados por Netanyahu, será a toda a nação de Israel que tem de pedir contas. Ser líder de um país, no limite é por acaso. A guerra, sendo em nome de um país, da Nação ou do Povo, responsabiliza tanto o líder eleito como o seu vizinho que por acaso é objetor de consciência. Um soldado quando é enviado para a frente, não protesta. Não só arrisca a vida, como é obrigado a matar. Ainda que ele não queira matar. Se fugir é um traidor. E isso tem consequências fatais. Só o acaso o torna num morto, ou num assassino. Ou num herói.

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