Não é a versão de factos transmitidos por métodos científicos ou historiográficos que impactam a opinião pública. São as percepções, como sói dizer-se. É o que acontece com a opinião que tende a apoiar o lado mais fraco, independentemente dos factos e eventos específicos.
O 11 de Setembro de 2001 e o 7 de outubro de 2023 foram eventos inomináveis. Após os atentados do Hamas em 7 de Outubro de 2023, apesar de inicialmente o povo israelita ter recebido muita solidariedade, rapidamente a atenção mediática mainstream passou a revelar os brutais bombardeamentos em Gaza com um elevado número de vítimas civis palestinianas. Impacto mediático que levou a fortes protestos nas ruas de incontáveis cidades no mundo ocidental.
Podemos estudar em conjunto: [11 de setembro + 7 de outubro + imigração vinda do mundo islâmico] através dos mesmos mecanismos cognitivos: ameaça, identificação, categorização, memória, proximidade psicológica, enquadramento narrativo e atribuição de responsabilidade. Antes do 11 de setembro de 2001, para a maioria dos ocidentais o terrorismo islâmico era uma ameaça relativamente abstrata. Depois, aconteceu algo diferente. As pessoas viram a ameaça. Não receberam simplesmente a informação: “2.977 pessoas morreram num atentado.” Viram aviões, fogo, pessoas a atirarem-se do alto do arranha céus, se calhar algum amigo ou familiar, pessoas a fugir e as míticas torres gémeas a desmoronar. Isso é cognitivamente muito diferente de uma tabela estatística. E há um detalhe decisivo: o acontecimento foi contado numa narrativa causal simples: “Eles atacaram-nos.” A partir daí, o cérebro faz uma operação muito natural: o acontecimento; o agente; a categoria do agente; avaliação da categoria. Aqui, a categoria tem um traço unificador: "jihadismo".
Estudos, realizados na Alemanha, encontraram uma alteração imediata e significativa das atitudes mentais em relação à imigração proveniente do Médio Oriente, depois do 11 de Setembro. Estudos europeus posteriores mostraram que os ataques terroristas praticados em solo europeu provocaram uma deterioração mental e comportamental em pessoas nativas europeias em relação aos imigrantes de etnia muçulmana. Ou seja, um acontecimento excecional pode funcionar como uma espécie de “atualização bayesiana emocional”. E diga-se, em abono da verdade, que nada tem a ver com o método estatístico. A pessoa pensa: “Eu sei que a esmagadora maioria dos imigrantes não é terrorista. Mas também sei que existe uma possibilidade maior de ser atacado. O que antes não tinha levado suficientemente a sério.” É assim que as coisas se passam na mente das pessoas por via do instinto de sobrevivência. E a possibilidade de poder ser atacado é o que passa a dominar a mente do sujeito que vai condicionar o seu comportamento daí em diante. Alguém que nunca foi assaltado pode pensar: “Para quê gastar dinheiro num sistema de segurança sofisticado?” Depois, é assaltado. A partir daí, a sua representação do mundo mudou. Não é: “Vou certamente ser assaltado outra vez.” Mas sim, bastar acreditar: “Agora sei que isto pode acontecer.” Esta diferença é fundamental. O acontecimento nem precisa de alterar muito a probabilidade objetiva. Mas altera brutalmente a probabilidade subjetiva percebida.
Há evidência de que ataques terroristas alteram as atitudes sobre a imigração, embora a magnitude e duração dependam do contexto social. Um estudo europeu mostrou que os atentados terroristas mudaram significativamente a atitude dos cidadãos para com os imigrantes. E os efeitos foram particularmente mais fortes nas sociedades mais homogéneas, onde paradoxalmente a experiência com a imigração é reduzida. Mas o paradoxo é enganador, porque as pessoas, ainda que só vejam o problema à distância nos vizinhos, a reacção preventiva é paradigmática.
Em 7 de Outubro de 2023, uma parte enorme do Ocidente recebeu uma imagem emocionalmente poderosíssima: civis israelitas assassinados, famílias, crianças, reféns. A categoria psicológica imediatamente ativada foi: “civis inocentes atacados pelo Hamas.” Essa representação é extraordinariamente potente. Mas depois de ter começado a guerra em Gaza surgiu uma segunda representação: crianças palestinianas mortas, famílias enterrando familiares, hospitais, deslocados, fome, destruição. A questão passou a ser: por que razão determinadas vítimas conseguem entrar mais facilmente na nossa esfera emocional do que outras? A vítima concreta derrota a estatística. Há evidência experimental para o chamado "identifiable victim effect": pessoas tendem a responder mais fortemente a vítimas identificáveis do que a vítimas apresentadas apenas estatisticamente. Uma meta-análise de 41 estudos encontrou esse efeito. “Esta era uma jovem de 23 anos. Chamava-se X. Estava com os pais. Temos fotografias dela.” Existe uma dimensão antropológica muito profunda. Não basta perguntar: “Quantas pessoas morreram?” Temos de perguntar: “Quais dessas mortes são socialmente apresentadas como mortes de alguém?”
A investigação recente sobre cobertura mediática da guerra encontrou precisamente diferenças na forma como vítimas israelitas e palestinianas foram representadas em alguns meios ocidentais. Um estudo sobre cinco jornais alemães encontrou maior personalização das vítimas israelitas com histórias familiares, nomes e narrativas individuais. As vítimas palestinianas aparecem mais frequentemente como números ou como parte de uma narrativa abstrata de guerra. Outro estudo publicado em 2026 -- The New York Times e The Washington Post -- encontrou assimetrias na humanização e enquadramento das vítimas israelitas e palestinianas, embora este tipo de análise diga respeito a determinados meios, e não possa ser generalizado para “os media ocidentais” como um todo. Isso pode produzir uma coisa psicologicamente poderosa: vidas diferentes tornam-se emocionalmente diferentes sem que ninguém tenha conscientemente decidido que umas valem mais do que outras.
Existe um mecanismo de distância psicológica que pode funcionar assim: “morreram palestinianos”. É uma informação. Mas “esta menina tinha seis anos, chamava-se X, gostava de desenhar e morreu juntamente com a mãe”. É uma pessoa mentalmente representada. A segunda formulação permite que o cérebro faça uma operação fundamental: “Ela poderia ser a minha filha.” Quando a identidade fica muito forte, a mesma morte pode ser interpretada de maneira diferente dependendo de quem a sofreu. Se morre alguém do nosso grupo: é “assassínio”. Se morre alguém do outro grupo: “consequência colateral da guerra”. Dano colateral e resposta necessária estão associados. A moralidade ainda está estruturada na nossa mente numa modalidade tribalizada. Daí a coerência entre identidade e julgamento moral. É por isso que a cobertura mediática da guerra de Gaza tenta corrigir o viés da mente tribalizada através da desmontagem do preconceito. A representação determina parcialmente quem aparece como vítima, quem aparece como agente e quem aparece como ameaça.
Se considerar os israelitas igual a “eles”, vou interpretar a morte de israelitas de determinada maneira. Se consider os israelitas igual a “nós”, a mesma morte muda de significado. Se considero os palestinianos como “eles”, as mortes em Gaza podem permanecer estatísticas. A percepção é frequentemente mais determinante do comportamento do que a avaliação estatística da realidade. O ser humano não atribui espontaneamente valor emocional ao número de vidas perdidas quando se trata de um número estatístico. A mente trabalha a desgraça através da cara das pessoas que se relacionam afetivamente, e não por números abstratos.
O status quo e as normas do mundo de hoje, a que damos o título de civilizado, resultam da tentativa de construção de instituições que corrijam esta limitação através de direitos universais, estatística, direito internacional e princípios de igualdade. Mas o cérebro continua a funcionar com mecanismos muito mais antigos. É por isso que podemos saber racionalmente: “Uma criança palestiniana vale exatamente tanto quanto uma criança israelita.” E, simultaneamente, sentirmos emocionalmente de maneira diferente perante cada uma, dependendo com qual nos identificamos mais. O grande problema aqui é que os neurónios espelho, os elementos cerebrais ligados à empatia não se deixam influenciar pelos outros neurónios que trabalham aquilo que se designa por "razão".
E isso coloca o 11 de Setembro, o 7 de outubro e a imigração numa mesma questão antropológica. Embora acontecimentos, que do ponto de vista moral e histórico sejam muito diferentes, é sempre como espécie tribal que reagimos. Somos altamente sensíveis à identificação de grupo. E qualquer ameaça à identificação do grupo é contrária à construção de uma moral verdadeiramente universal.
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