sábado, 10 de outubro de 2026

A origem dos europeus


Passado o período mais recuado da entrada na Europa do homo sapiens, vindo de África há cerca de 70 mil anos, chegamos ao período compreendido entre 20 mil e 12 mil anos atrás, no fim da última glaciação. Durante este período, chamado de “máximo glaciar”, os caçadores-recolectores da Europa estavam praticamente e maioritariamente acantonados em refúgios meridionais: Península Ibérica, Itália e Balcãs. Grande parte da Europa estava demasiado gelada para uma ocupação humana densa. A origem dos povos europeus, depois do fim da última glaciação, é uma história complexa porque a Europa não foi povoada por uma única migração, mas pelo encontro e mistura de várias populações ao longo de milhares de anos.

Quando o clima começou a aquecer, sobretudo entre 17 mil a 14 mil anos atrás, grupos de caçadores-recolectores foram progressivamente ocupando o centro e norte da Europa. Mas estes primeiros europeus à medida que iam progredindo para Norte e para Leste, não se encontraram sozinhos. Há cerca de 12 mil anos, com o início do Holoceno, a paisagem europeia transformou glaciares em florestas. As grandes estepes glaciares recuaram e surgiram ecossistemas muito mais produtivos. E passaram a existir populações de caçadores-recolectores geneticamente diferenciadas. 

Há aproximadamente 9 mil anos, agricultores provenientes da Anatólia e do Egeu começaram a expandir-se para a Europa. A expansão ocorreu por duas grandes vias: Pelos Balcãs e prosseguindo pela Europa Central; e pelo Mediterrâneo, chegando à Itália, depois ao sul de França, e finalmente à Península Ibérica. E foi com esses agricultores que se instalou a agricultura a Ocidente, bem como a criação de animais, cerâmica e novas formas de habitação. Estas populações de agricultores neolíticos eram geneticamente bastante diferentes dos caçadores-recolectores que já habitavam o Ocidente europeu. Naturalmente se foi dando a mistura genética dos caçadores-recolectores europeus com os agricultores neolíticos de origem anatólica/egeia. A proporção variou enormemente de região para região.

Entra então em cena, no estudo arqueológico, a cultura Yamnaya. Foram populações das estepes pôntico-cáspias, e das montanhas do Cáucaso -- entre o Mar Negro e o Mar Cáspio --, que ousaram expandir-se para a Europa Ocidental. Estas populações, que tinham uma economia fortemente baseada no pastoreio, a dada altura tiraram partido da domesticação do cavalo, e da invenção do carro. 
Uma proporção considerável da ancestralidade masculina europeia deriva dessas populações das estepes. E daí uma outra consequência: a propagação linguística. É neste contexto que muitos investigadores situam a expansão das línguas indo-europeias: grego; latim; germânico; celta; eslavo; báltico. 


É usual dar-se o nome de indo-europeus aos antepassados dos europeus. Os historiadores por seu lado preferem referir-se a anatólios, tocarianos, iranianos, gregos, samnitas, celtas, itálicos, germânicos, arménios, e assim, aos descendentes desses falantes da língua mãe indo-europeia, uma vez que também é mãe de línguas da Índia e do Irão. É a partir de 3000 a.C. que aparecem os nomes históricos: "celta", "romano", "germano", "eslavo", etc. São sobretudo categorias linguísticas e culturais, às quais se juntaram componentes populacionais diversos. A chegada das populações das estepes produziu uma transformação especialmente forte no norte e centro da Europa. Na Idade do Bronze [3300-1200 a.C.], houve várias migrações e invasões de povos nómadas da estepe eurasiática. Os carros de guerra, leves e rápidos, puxados por cavalos, deram a esses povos uma vantagem significativa em batalhas.

Há razões para acreditar que as causas das ondas migratórias anárquicas na zona do Mediterrâneo Oriental, no século XII a.C., se deveram a cataclismos naturais. Esse período é conhecido por ter sido uma época de grande instabilidade, marcada pelo colapso de várias civilizações na região, incluindo os impérios micénico, hitita, e a civilização egípcia, associados à chegada de povos mal conhecidos e designados tradicionalmente por "Povos do Mar". Evidências sugerem que houve um período de secas severas no Mediterrâneo Oriental durante o final da Idade do Bronze. Esses fatores naturais, combinados com as tensões sociais, invasões e outros conflitos, teriam criado uma situação em que grandes populações foram deslocadas, resultando em ondas migratórias. Durante a Idade do Bronze haviam sido estabelecidas redes comerciais extraordinariamente extensas. O estanho e o cobre circularam por centenas ou mesmo milhares de quilómetros. Apareceram sociedades hierarquizadas, elites guerreiras, fortificações e grandes centros cerimoniais. David Anthony, no seu livro "O cavalo, a roda e a linguagem: como os cavaleiros da Idade do Bronze das estepes da Eurásia moldaram o mundo moderno", dá uma visão geral das evidências linguísticas e arqueológicas das origens e da disseminação das línguas indo-europeias, descrevendo o desenvolvimento de culturas locais na costa norte do Mar Negro, de caçadores-recolectores e pastores, que introduziram o cavalo e a tecnologia do carro.

Quando o clima mudou entre 3.500 e 3.000 a.C., com as estepes a tornarem-se cada vez mais frias, essas invenções levaram a um novo modo de vida no qual os pastores móveis se mudaram para as estepes, desenvolvendo um novo tipo de organização social. Essa nova organização social, com as suas línguas indo-europeias relacionadas, espalhou-se por toda a Europa, Centro e Sul da Ásia, devido às suas possibilidades de incluir novos membros em suas estruturas sociais. David Anthony introduz as semelhanças entre uma ampla variedade de idiomas e seu ancestral comum, proto-indo-europeu. Ele propõe que "a pátria proto-indo-europeia estava localizada nas estepes ao norte dos mares Negro e Cáspio, no que é hoje o sul da Ucrânia e da Rússia". O proto-indo-europeu emergiu pouco antes do 3º milénio a.C. Os tecidos de lã e os veículos com rodas não existiam antes do 4º milénio a.C. 
A presença de cavalos domesticados nas culturas das estepes foi uma pista importante para o desenvolvimento de Marija Gimbutas da sua teoria Kurgan. Os artefactos de cavalo aparecem em maiores quantidades após 3.500 a.C. Andar a cavalo aumentou muito a mobilidade dos pastores, permitindo maiores manadas, mas também levou ao aumento da guerra pela necessidade de pastagens adicionais.

Os pastores das estepes, falantes arcaicos do proto-indo-europeu, espalharam-se no vale do baixo Danúbio causando ou aproveitando o colapso da Europa antiga. Os seus descendentes, mais tarde, migraram para a Anatólia num momento desconhecido, talvez já em 3.000 a.C. Os pastores, formando o complexo Suvorovo-Novodanilovka, também chamada de cultura Skelya, provavelmente eram uma elite principalmente da cultura Sredni Stog no vale do Deniepre. Houve um contacto substancial entre as culturas das estepes e a Mesopotâmia através da cultura Maicop (3.700–3.000 a.C.), no norte do Cáucaso. A oeste, a cerâmica Tripolye começa a assemelhar-se à cerâmica Sredni Stog, mostrando um processo de assimilação entre a cultura Tripolye e as culturas das estepes e uma quebra gradual da fronteira cultural entre as duas. A cultura Yamnaya espalhou-se rapidamente pelas estepes pôntico-cáspio, entre 3.400 e 3.200 a.C., e com ela a expansão do proto-indo-europeu. É a expressão arqueológica visível de um ajuste social à alta mobilidade. A parte oriental (Volga-Ural-Norte do Cáucaso) era mais nómada que a parte ocidental, mais orientada para a agricultura. A parte oriental tinha um número maior de homens enterrados em kurgans, e as suas divindades eram orientadas por homens.

A cultura Yamnaya espalhou-se rapidamente pela estepe pôntica, tendo ocorrido uma verdadeira migração de falantes proto-indo-europeus no vale do Danúbio, chegando até à Hungria, onde kurgans foram encontrados. Locais da Cultura Campaniforme em Budapeste, datados entre 2.800 e 2.600 a.C., pode ter ajudado a espalhar esses dialetos à Áustria e sul da Alemanha, dando origem ao proto-céltico. O pré-itálico pode também ter-se desenvolvido na Hungria e se espalhado para a Itália através da Cultura Campo de Urnas e da Cultura Vilanova. Assim, a Europa da Idade do Bronze já era uma Europa "mestiça". Populações que se misturam, expandem, diminuem e reorganizam-se. As populações das estepes entraram na Europa, os quais tinham ancestralidade relacionada com populações do Cáucaso e da região à volta do Mar Negro.

Hoje, a genética recorre ao ADN mitocondrial, que é sempre passado por via materna, e ao cromossoma Y, necessariamente passado por via paterna, para estudar as migrações humanas. Apesar de em cada geração se perder muito do material genético dos ancestrais, em contrapartida a história genealógica por via materna ou por via paterna é muito mais fácil de reconstituir, dado que ao ser estudado um bloco de genes monoparentais evita-se o “ruído” causado pela recombinação genética. As linhagens maternas e paternas fornecem informação quanto à distribuição geográfica. Há combinações que são caracteristicamente subsarianas; outras são tipicamente europeias; outras estão apenas presentes na Ásia, na América do Sul, e na Polinésia. Como é óbvio, esta informação é muito importante para a reconstituição das migrações populacionais ao longo da história humana.

De acordo com esses estudos o Haplogrupo R1b (ADN-Y) e o Haplogrupo R1a (ADN Y) são os mais comuns na Europa, e o R1a também é frequente no subcontinente indiano. Essa era também a teoria de Marija Gimbutas, a teoria de Kurgan, de que a difusão das línguas indo-europeias se deram a partir das estepes russas. Os padrões genéticos eram a favor de uma migração para a Alemanha no 3º milénio a.C. de um povo da cultura Yamnaya das estepes, a primeira a desenvolver uma economia pastoril baseada em carroças e cavalos.

Quanto à origem das línguas indo-europeias, o debate entre linguistas, arqueólogos e antropólogos continua em aberto e ainda bem aceso. Neste momento estão em disputa duas teorias ambas muito fortes: a teoria das Estepes e a teoria da Anatólia. Segundo a teoria das Estepes, os povos falantes do proto-indo-europeu, que inventara a roda e domesticara o cavalo, teria vindo das estepes ao norte do Mar Negro e Mar Cáspio e levado a sua língua para a Europa, Irão e Índia no 3º milénio a.C. Segundo a teoria da Anatólia foram os povos que inventaram a agricultura na região da Anatólia que difundiram a agricultura e a língua para os sítios referidos no 6º milénio a.C. Indo-europeu refere-se apenas à linguística, e não a etnias ou culturas. Na atualidade as línguas indo-europeias são as línguas mais faladas do mundo, sendo que das onze línguas com maior número de falantes, oito são indo-europeias: espanhol, inglês, hindi, português, bengali, russo, punjabi e alemão.

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