Há um argumento coerente que se pode aplicar a certas manifestações contemporâneas, incluindo algumas “paradas do orgulho gay”, especialmente quando a celebração deixa de ser apenas reivindicação de direitos e passa a uma estética de provocação, choque ou auto-exaltação. É húbris no sentido clássico = excesso, teatralização narcísica, celebração desmedida da própria identidade. Isso não é automaticamente homofobia. É uma crítica, sem ser crítica moral, ao estilo de expressão pública.
Muitos gays argumentam essas manifestações como resposta a décadas de invisibilidade ou repressão. Então uma crítica ao “excesso” pode soar-lhes como um pedido velado de regresso à discrição do “pecado original”. A palavra “pedagógico” pode soar paternalista, porque implica uma assimetria: “eu estou numa posição de corrigir-vos”. Mesmo que não o digam com hostilidade, o tom importa muito. Mas filosoficamente falando, não há nada de ilegítimo em dizer: “uma cultura centrada na exibição contínua da sexualidade e da identidade é cair em desmedida, na húbris”. Aliás, muitos gays também fazem essa crítica internamente. Há debates dentro da própria comunidade sobre comercialização do “Pride”, hipersexualização, performatividade e narcisismo identitário.
Portanto, o importante da crítica é que ela seja consistente, intelectualmente clara, e dirigida ao fenómeno cultural concreto, não à dignidade básica das pessoas. E foi precisamente aí que queria chegar Douglas Murray, apesar de ser homossexual, foi muito crítico em relação ao oportunismo e desorganização desse “mainstream pride parade”. Douglas Murray é um ensaísta e comentador britânico bastante conhecido por críticas à política identitária, ao multiculturalismo contemporâneo e a certos excessos do progressismo cultural. É também homossexual assumido, e isso dá-lhe uma posição peculiar no debate: ele critica aspectos do activismo LGBT contemporâneo sem poder ser facilmente reduzido ao estereótipo de “conservador reprimido” ou “religioso moralista”.
Uma das ideias recorrentes dele é precisamente essa distinção entre: a defesa de direitos civis básicos; e a transformação da identidade sexual numa ideologia totalizante ou numa estética permanente de reivindicação. Ele argumenta, em vários textos e entrevistas, que parte do movimento gay ocidental passou de um pedido legítimo de tolerância, para uma cultura de performance identitária, vitimização institucional, e, por vezes, celebração provocatória do excesso. Isso aproxima-se bastante do que podemos chamar de húbris: quando uma causa que começou como pedido de reconhecimento passa a adquirir uma espécie de imunidade moral ou exuberância autocelebratória.
Ao mesmo tempo, Murray também costuma insistir que: a integração dos gays nas sociedades ocidentais foi uma conquista civilizacional rara; e que desperdiçar isso em radicalismos performativos pode gerar reacções sociais contraproducentes. É um autor que divide muito as pessoas porque toca em temas onde há forte polarização cultural. Uns veem-no como alguém que denuncia incoerências do activismo contemporâneo; outros acham que ele amplifica guerras culturais e aproxima-se excessivamente de sectores reaccionários. Mas no contexto desta reflexão, faz sentido mencioná-lo: ele é um exemplo de alguém que faz uma crítica interna ao mainstream LGBT sem rejeitar a legitimidade da homossexualidade em si.

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