sexta-feira, 28 de março de 2025

O ativismo identitário


O ativismo identitário é muitas vezes alimentado pela frustração devido à perda da predominância no mundo da sua cultura, seja ao nível civilizacional, ou numa dimensão mais modesta ao nível nacional. Esses movimentos tanto contestam a globalização, que dissolveu as identidades nacionais através da uniformização enfraquecendo as estruturas locais e a sua autonomia. Geraram-se espécies de teorias da conspiração contra as elites financeiras e políticas, proclamando respostas e uma resistência mais radical. Gerou-se a crença de que se entrou numa guerra cultural, com restrições à liberdade de expressão. 

Criou-se assim um ambiente polarizado, com os globalistas de um lado e os identitários do outro, em conflito direto. A ascensão do ativismo identitário está alimentando o descontentamento popular, enquanto as elites tentam sustentar um sistema que, para muitos, parece estar a falhar. Isso se torna um campo fértil para o extremismo e a radicalização política. A grande questão é: qual será a resposta das sociedades europeias a esse confronto crescente entre identidade local e global? Será que haverá um compromisso ou reconciliação, ou todo o ocidente se tornará um campo de batalha cultural e político cada vez mais polarizado? Estamos a assistir a uma fragmentação não apenas económica e geopolítica, mas também cultural e política, traçando-se as linhas divisórias com maior nitidez à medida da aceleração destes tempos cibernéticos.

Os que defendem a globalização e o cosmopolitismo estão cada vez mais entrincheirados no velho progressismo, logo, estando a ser os conservadores do aqui e agora. Ainda acreditam no internacionalismo sindical e na integração transnacional, na abertura das fronteiras e na diversidade como forças positivas. No lado oposto estão os identitários nativistas, que veem essa agenda como uma ameaça existencial às tradições culturais e aos valores dos seus países, buscando preservar e fortalecer o valor da Nação, Cultura, Civilização. Este campo de batalha cultural não se restringe a questões de imigração ou soberania nacional, mas estende-se a todos os aspectos da sociedade: educação, liberdade de expressão, identidade de género e representatividade.

O campo de batalha estendeu-se aos órgãos de comunicação social 'mainstream'Os fora que se destinavam a espaços de diálogo e reflexão transformaram-se num campo de guerra ideológica, onde cada lado tenta impor a sua visão do mundo. O futuro pode, então, ser uma tensa luta entre a defesa do status quo, por um lado, e a resistência contra ele, por outro. Enquanto o globalismo busca um novo paradigma, os identitários querem retomar a autonomia e restaurar uma ordem que veem como perdida. Isso não é apenas uma luta política, mas também existencial, uma vez que toca diretamente a identidade das pessoas e a forma como elas se veem no mundo. Neste cenário, a radicalização pode-se tornar mais pronunciada, com movimentos de resistência se tornando cada vez mais organizados e poderosos. O risco é que essa polarização leve a uma instabilidade social e política, talvez até a conflitos mais violentos entre diferentes facções, ou até dentro de Estados. A Europa, com sua história de guerras internas e conflitos ideológicos, pode estar novamente à beira de uma nova era de confrontos, onde as linhas de batalha serão traçadas não apenas em fronteiras físicas, mas também em esferas culturais nos meios e plataformas digitais. Isso torna a questão do futuro ainda mais imprevisível.

As instituições europeias estão cada vez mais desconectadas da realidade e das preocupações das pessoas comuns. A União Europeia, que originalmente surgiu como um projeto de integração económica e cooperação política, tem sido vista por muitos como uma entidade burocrática distante e insensível às necessidades locais. A crescente fragmentação política e social da Europa reflete diretamente essa desconexão, já que a UE muitas vezes falha em responder às questões mais urgentes, como a crise migratória, o declínio económico, ou as ameaças à identidade cultural. A centralização do poder nas instituições de Bruxelas também gerou um sentimento crescente de alienação entre muitos cidadãos europeus, especialmente nas nações mais afetadas pela austeridade e pelos programas económicos impostos. A falta de flexibilidade para adaptar políticas a contextos locais tem alimentado uma desconfiança crescente, enquanto partidos populistas e identitários ganham força ao prometerem um retorno à soberania nacional e ao controlo local.

O Brexit é um exemplo claro de como essa dinâmica pode resultar em ruptura. Muitos britânicos sentiram que as decisões da UE estavam desconectadas das necessidades nacionais, e a saída do Reino Unido da União foi, em grande parte, uma tentativa de recuperar a autonomia e resistir à imposição de normas globais que percebiam como prejudiciais à sua identidade cultural e económica. Hoje, com o crescimento do nacionalismo e do populismo por toda a Europa, muitas dessas instituições estão sendo vistas como fracas e incapazes de manter a coesão do continente. A fragmentação política dentro da própria UE já é visível, com países como Hungria e Eslováquia adotando posturas cada vez mais autoritárias e se afastando dos princípios fundadores da União, enquanto movimentos como o RN na França, o AfD na Alemanha e outros ganham terreno. Neste contexto, a polarização apenas se aprofunda, e o papel das instituições europeias se torna cada vez mais insustentável. Elas estão perdendo sua capacidade de ser um ponto de união, e as desigualdades regionais, as questões identitárias e o desenho da globalização apenas agravou essa situação.

É muito plausível que, numa fase inicial de vulnerabilidade, a Europa passe por uma fragmentação das nações, onde cada país tente preservar o que é seu por si próprio, em vez de buscar solidariedade continental. Essa fragmentação pode resultar de várias pressões, desde as económicas até as sociais e culturais, e a resposta de cada nação será moldada pelas suas circunstâncias locais. Em uma Europa desgarrada e com sistemas políticos em crise, é natural que os países busquem se isolar ou procurar soluções próprias para problemas como a imigração, a segurança ou mesmo a economia. Cada nação, ou pelo menos aqueles que ainda conseguem manter algum grau de coesão interna, tenderá a buscar acordos bilaterais ou regionais, em vez de confiar numa União Europeia que parece cada vez mais desconectada das suas realidades diárias. Isso pode ser visto numa crescente onda de movimentos nacionalistas e populistas, que promovem a ideia de que cada país deve priorizar as suas próprias necessidades e deixar de lado compromissos mais amplos com a Europa unificada.

A polarização e o populismo estende-se à extrema-direita e extrema-esquerda. Esse radicalismo crescente, por parte de grupos nacionalistas, seja da direita ou da esquerda, é um reflexo da fragmentação social e da incapacidade dos sistemas políticos tradicionais de lidar com as crises económicas, culturais e identitárias. Na Alemanha a extrema-esquerda tem começado a adotar algumas das bandeiras nacionalistas que eram associadas mais à extrema-direita, o que é um fenómeno intrigante e paradoxal. Isso reflete, em parte, o enfraquecimento das fronteiras ideológicas tradicionais, onde a ideia de nacionalismo está a ser reinterpretada ou cooptada por vários grupos, dependendo da sua agenda. Para muitos, a ideia de pátria está sendo ressignificada, não necessariamente pela proteção do Estado/Nação tradicional, mas pela defesa de uma identidade cultural específica que se coloca contra influências externas.

O radicalismo nacionalista da extrema-direita e da extrema-esquerda pode, paradoxalmente, acabar por se unir em algumas questões, como a proteção da cultura nacional ou a defesa da soberania frente ao que eles consideram ser ameaças externas. Isso pode criar uma frente ampla de confrontação, onde os velhos alinhamentos ideológicos se tornam obsoletos e as tensões internas nos países europeus se tornam mais intensas. O mais grave é que, à medida que esses movimentos se intensificam, as instituições democráticas podem ser vistas por esses grupos como incapazes de representar a verdadeira vontade do povo. Isso pode gerar um desprezo pelas formas tradicionais de governo, como o sistema representativo, a liberdade de imprensa, e as instituições internacionais que antes promoviam consensos amplos. Nesse clima de radicalização e desconfiança, a resposta da sociedade pode ser o fortalecimento das posturas identitárias e, eventualmente, a militarização do discurso político, com a polarização se refletindo em conflitos nas ruas e estruturas sociais fragmentadas. O retorno ao nacionalismo pode também ser visto como uma reação defensiva ao que esses grupos percebem como um enfraquecimento das suas identidades devido à globalização e à migração.

A questão crucial, então, é até que ponto essa radicalização se manterá dentro dos limites do discurso ou passará para a ação violenta, como já vimos em movimentos extremistas no passado, que propõem rupturas totais com as instituições tradicionais. E, ao mesmo tempo, como os governos e as sociedades lidam com essa crescente ameaça à coesão interna. Enfim, está em marcha um movimento de contra-cultura em relação ao zeitgeist. Esse movimento é uma reação direta ao que muitos percebem como uma hegemonia cultural, ideológica e política que se manifesta de diversas formas, como a globalização, o progressismo identitário e as mudanças culturais rápidas. Diversidade inclusiva e mobilidade global, parece ser percebido por muitos como uma força que está a desestabilizar as identidades nacionais tradicionais. Em resposta a isso, há um movimento crescente de reafirmação identitária e cultural que busca resistir a esse processo de uniformização global.

Nacionalistas identitários questionam a perda de soberania nacional diante de pressões externas (como imigração em massa, comércio global, e influências culturais). Muitos desses grupos não só se opõem à globalização, mas também aos valores que consideram como parte do progressismo dominante, como a política de identidade, o multiculturalismo e as políticas ambientalistas, que veem como ferramentas para enfraquecer os valores tradicionais da civilização ocidental. Além disso também se manifesta em rebeliões culturais contra as instituições tradicionais e os grandes centros de poder, como os média dominantes, as corporações globais e, em alguns casos, o próprio sistema democrático representativo. Este movimento frequentemente busca desafiar a narrativa dominante, propondo alternativas à forma como o sistema global está a moldar as sociedades e os indivíduos.

O que estamos a ver é uma luta cultural onde, de um lado, há os defensores do status quo global, acreditando na inevitabilidade de um mundo mais interconectado e homogéneo; e, de outro, há uma oposição crescente, de várias frentes políticas e sociais, que acreditam que esse modelo está a destruir a autonomia cultural, a soberania nacional e até mesmo as próprias identidades que definem os povos. Este movimento não está restrito a uma única ideologia ou partido político; ele é multifacetado e inclui desde nacionalistas conservadores até certos grupos da esquerda radical que se opõem ao que consideram ser uma dominação de interesses corporativos globais. O importante a notar é que, à medida que essas divisões se tornam mais intensas, a polarização política e social se aprofunda, e o compromisso com as instituições tradicionais começa a diminuir.

quinta-feira, 27 de março de 2025

A Europa e os paralelos históricos


Há quem já esteja a fazer um paralelo entre o atual fluxo migratório para a Europa de gente vinda de terras do credo islâmico e a invasão árabe da Península Ibérica no século VIII. Se as tensões entre populações nativas e comunidades muçulmanas aumentarem num contexto de fragmentação, a Europa pode ver-se num impasse civilizacional. Já estão a decorrer alguns sinais preocupantes. Há bairros em grandes cidades europeias onde a lei do Estado de Direito já tem dificuldade de se impor nas comunidades que se regem pela Sharia. Por outro lado, a baixa taxa de natalidade dos europeus contrasta com a alta natalidade de algumas comunidades muçulmanas, o que pode alterar a dinâmica demográfica a longo prazo. O medo de um europeu autóctone ser acusado de islamofobia é um problema diário nas capitais europeias. 

Assim como em 711, os islâmicos na Europa já são num número suficientemente grande para pedirem ajuda aos seus irmãos do outro lado do Mediterrâneo. Assim como em 711, quando os visigodos estavam enfraquecidos por divisões internas, um pequeno grupo dentro do próprio reino visigótico facilitou a invasão muçulmana. Hoje a Europa está sem uma liderança forte e sem um projeto de defesa comum. A diferença é que, desta vez, a "invasão" não precisa acontecer pela via militar tradicional; a mudança pode ser gradual, através da demografia, da propaganda política, e da incapacidade europeia de reagir. Se os Estados do Norte de África e Levante usarem a migração como arma política (como já fez a Turquia ao liberar refugiados sírios em direção à Europa), isso pode acelerar uma mudança demográfica irreversível. Em um contexto de crise, células radicais podem-se organizar para criar zonas onde a lei islâmica se sobrepõe à lei do Estado, como já ocorre em algumas áreas urbanas europeias. O desafio para os europeus, ao contrário dos cristãos da Reconquista, é não haver hoje uma semelhante identidade forte para mobilizar uma reação. Além disso, qualquer tentativa de resistência cultural pode ser imediatamente taxada como de "extrema-direita" xenófoba e racista. Ora este anátema paralisa as lideranças políticas.

Os mais ricos já se isolam em condomínios fechados. Isso significa que perderam a confiança na capacidade do Estado de manter a ordem. O terrorismo pode ser a ferramenta mais avassaladora nesse processo. Não será preciso uma grande guerra aberta; ataques sistemáticos contra alvos estratégicos (infraestruturas, transportes, áreas de alta densidade populacional) podem tornar a vida nas cidades europeias insustentável. Isso acelerará ainda mais a fuga dos mais ricos para zonas protegidas, enquanto as populações mais vulneráveis ficam à mercê da sua sorte presas no caos das áreas devastadas. O ano de 2025 pode ser o ano decisivo para testar até que ponto a União Europeia terá os seus dias contados. Os
 europeus ou tomam as rédeas do seu próprio destino investindo seriamente na sua segurança, ou então: lá se foi a Europa com a perda da sua autonomia estratégica. A grande incógnita é se a Europa ainda tem energia política e cultural suficiente para reagir.

A falta de coesão europeia e a indefinição cultural e política tornam o continente ainda mais vulnerável. Sem uma visão clara para o futuro, sem capacidade de se renovar culturalmente, os europeus correm o risco de perder não apenas a coesão territorial, mas a própria identidade histórica. Os "outros", com uma narrativa forte e objetivos bem definidos, podem, sim, aproveitar essa oportunidade. O desconforto material e psicológico gerado pela acomodação do Estado de bem-estar social está criando uma geração de europeus que não têm força ou vontade de lutar por uma renovação de suas condições. O comodismo gerado por décadas de estabilidade económica, apesar de seus problemas, tem tornado a sociedade europeia vulnerável à fragmentação. As elites políticas, distantes da realidade das pessoas comuns, temem mexer no sistema de proteção social ou adotar reformas impopulares, porque isso significaria perder o apoio popular. No entanto, ao escolherem a conformidade, deixam de responder de forma eficaz aos desafios que vêm de fora, como a migração em massa, o crescimento de influências externas e até mesmo a pressão climática.

Esse cenário lembra o colapso de impérios antigos, onde as elites se tornaram corruptas e enfraquecidas. Quando perceberam as mudanças e os sinais de decadência já era tarde demais. A fragilidade climática apenas acelera esse processo, tornando a sociedade mais vulnerável a choques externos e internos. A seca, as inundações, a escassez de recursos e a crescente instabilidade política estão a forçar migrações em massa em direção à Europa. E isso está a criar um cenário de crescente instabilidade dentro da própria Europa. A História é implacável e não perdoa a falta de visão e coragem política. As gerações que viveram o auge da civilização europeia estão deixando um legado que, em muitos casos, não consegue mais responder à magnitude dos desafios contemporâneos.

Uma reconstrução radical exigiria algo equivalente a um prémio tipo "Euromilhões" gigantesco, algo que pudesse galvanizar a sociedade a olhar para o futuro com renovado vigor. Esse tipo de evento poderia ser o suficiente para quebrar a inércia e impulsionar uma onda de inovação social e económica, onde novos modelos políticos fossem discutidos e, quem sabe, implementados. No entanto, o problema é que o dinheiro e os recursos financeiros raramente são usados de maneira eficaz para transformar profundamente uma sociedade, especialmente quando há tanta resistência à mudança e um sistema tão acostumado ao bem-estar social. A necessidade de mudança, ou mesmo o desejo de algo novo, depende muito de uma revolução de mentalidades, mais do que uma revolução financeira. Mesmo com grandes recursos, se a mentalidade não mudar, o dinheiro vai acabar por ser usado para reforçar a velha estrutura. Assim, a verdadeira questão talvez seja perguntar se dentro da Europa existe uma vontade coletiva para abrir mão de uma parte do que foi construído para fazer algo diferente.

As fábricas de automóveis europeias estão enfrentando enormes dificuldades devido à concorrência da China e à transição para veículos elétricos, o que põe ainda mais em evidência a fragilidade do modelo de produção industrial europeu. A China não só domina a produção de veículos elétricos, mas também tem um controlo crescente sobre as tecnologias e matérias-primas essenciais para a indústria. Enquanto isso, os fabricantes europeus, que ainda dependem em grande parte de modelos mais tradicionais, lutam para se adaptar a um mercado global em transformação. É a perda de competitividade diante de potências emergentes como a China, que não só possui uma força de trabalho massiva e eficiente, mas também uma capacidade de inovação tecnológica que supera os modelos ocidentais. Além disso as indústrias europeias atrasaram-se na mudança, tendo sustentado tempo demais as velhas estruturas. Enquanto a China adotou uma abordagem mais radical e acelerada. Esse declínio das indústrias tradicionais europeias é um sinal claro de que a região não está conseguindo se adaptar rapidamente às novas realidades económicas e tecnológicas, e a falta de inovação pode ser fatal a longo prazo. Se a indústria automobilística, que é uma das mais emblemáticas do continente, está à beira da falência, o que isso significa para o restante da economia europeia? Isso reforça o pessimismo sobre o futuro europeu, uma vez que a velha ordem industrial e comercial da Europa parece estar perdendo a batalha para as novas dinâmicas globais.

Da pós-verdade


Na grande questão da pós-verdade não podemos ignorar que Wilfrid Sellars, Willard von Orman Quine e Richard Rorty têm de alguma forma responsabilidades nisso. A "pós-verdade" é um fenómeno que, embora tenha ganhado força nos últimos tempos, tem raízes filosóficas mais profundas, ligadas à evolução do pensamento epistemológico do século XX.

Wilfrid Sellars, com a sua distinção entre a "imagem manifesta" e a "imagem científica", aponta para a dificuldade de reconciliar as nossas intuições comuns sobre o mundo e aquilo que a ciência diz sobre o mundo. Essa clivagem abriu caminho para questionamentos sobre o que consideramos "real". Willard Van Orman Quine, por sua vez em Two Dogmas of Empiricism, desafiou a distinção kantiana entre verdades analíticas e sintéticas, mostrando que a verdade depende mais da linguagem e dos esquemas conceptuais, do que a noção que temos sobre os factos e sobre o que é a realidade. Ora, se não há uma estaca fixa onde nos possamos agarrar sobre o fundamento da verdade, e como uma espécie de fundação objetiva da realidade do mundo, abre-se o caminho para um campo de "narrativas" sobre a realidade, que em vez de fundações de pedra sobre a realidade apenas temos um pântano. 

Richard Rorty, talvez o mais precavido nesse percurso com o uso de uma espécie de "galochas da linguagem". rejeitou a ideia de que a verdade seja uma correspondência ponto por ponto de uma realidade objetiva. O que ele postulou foi que a realidade não passava de um produto de práticas discursivas e sociais. O seu pragmatismo, e a sua ironia, acabou por forjar na mente das academias, exclusivamente nos departamentos das humanidades e dos chamados estudos culturais, que aquilo a que chamamos de "verdade" não passa de uma questão de consenso dentro de uma comunidade linguística. E foi assim que se institucionalizou a pós-verdade, um relativismo epistemológico que foi apropriado politicamente para minar o sentido comum de ideia de realidade. 

Ora, se tudo é uma construção discursiva, então qualquer narrativa, por mais absurda que seja, pode apresentar-se como válida, desde que haja poder suficiente para a sustentar. Nenhum deles previu o que as suas teses viriam a provocar no cenário atual da Administração Trump em que a pós-verdade se tornou uma arma política em larga escala. Sellars, Quine e Rorty trabalhavam no campo da epistemologia e da filosofia da linguagem, mas não tinham uma agenda política direta nesse sentido. O que aconteceu foi que as suas ideias foram apropriada e, em alguns casos, distorcidas por discursos que relativizam a verdade ao extremo.

Os fenómenos: woke e Trump - são exemplos que se situam nos polos opostos desse desdobramento. De um lado, a esquerda identitária utiliza a desconstrução da verdade objetiva para afirmar que todas as perspectivas são igualmente válidas, tornando a realidade uma questão de narrativa. Do outro, Trump e seus aliados utilizam a mesma lógica para desacreditar qualquer facto inconveniente, alegando que tudo é uma questão de opinião ou manipulação mediática. O resultado é um mundo em que "facto" e "verdade" são campos de batalha no debate político e público, uma guerra de narrativas sem tribunal nem quartel. Tudo isto volta a trazer à baila Nietzsche quando sentenciou com o seu anúncio da "morte da verdade". Mas agora de forma acelerada, por intermédio das redes sociais e pela fragmentação da informação. O próprio Rorty, antes de morrer, já demonstrava preocupação com o rumo político que os EUA estavam a levar. No Achieving Our Country, ele alerta para o risco de estar na forja um populismo autoritário em resposta ao desvario wokista de uma esquerda que levou longe demais a sua luta pelas causas culturais e identitárias. Ou seja, ele ainda viveu a tempo de ver a tempestade a formar-se, mas talvez não tenha percebido o papel da sua maternidade nesse processo.

Em bom rigor a questão da verdade é um dos temas mais debatidos desde a antiga filosofia. Pode ser abordada de várias maneiras, mas há três grandes perspectivas que moldaram o pensamento ocidental sobre o tema: 
  • A Verdade como Correspondência
  • Essa é a concepção clássica da verdade, que remonta a Aristóteles e foi reforçada pelo realismo medieval e moderno. Segundo essa visão - Aristóteles, Tomás de Aquino, Bertrand Russell - uma afirmação é verdadeira se ela corresponde à realidade. Como podemos ter certeza de que uma afirmação corresponde fielmente à realidade, se todo o conhecimento passa por filtros perceptivos e linguísticos?
  • A Verdade como Coerência
  • Já o idealismo alemão e os racionalistas preferiram outra abordagem: a verdade como coerência dentro de um sistema. Uma afirmação é verdadeira se ela se encaixa logicamente em um conjunto de crenças ou proposições já aceites. Isso significa que a verdade não é algo externo à mente, mas sim algo que se constrói dentro de sistemas conceptuais. Era o que defendia Hegel, ou Spinoza, e alguns positivistas. Essa visão pode levar ao relativismo. Se diferentes sistemas podem ser internamente coerentes, como determinar qual é o "mais verdadeiro"?
  • A Verdade como Consenso pragmatista
  • No século XX, com autores como Nietzsche, William James e Richard Rorty, começou-se a defender que a verdade não é uma correspondência com o mundo nem mera coerência lógica, mas sim algo que emerge do consenso social e das práticas humanas. O que consideramos "verdadeiro" é aquilo que funciona na prática ou aquilo sobre o qual conseguimos chegar a um acordo. Esse modelo permite que diferentes grupos reivindiquem as suas próprias "verdades", tornando qualquer noção objetiva de realidade cada vez mais instável.
Na pós-verdade e na fragmentação da verdade - o problema surge quando a ideia de verdade como consenso se mistura com a dinâmica política contemporânea. O que era uma questão filosófica sobre a natureza do conhecimento tornou-se uma ferramenta para manipulação de massas. A internet permitiu que cada grupo criasse as próprias narrativas, reforçadas por algoritmos que excluem visões opostas. O que era uma "verdade" compartilhada por uma sociedade inteira fragmentou-se em múltiplas "verdades" tribais. Movimentos progressistas adotaram a ideia de que todas as perspectivas são válidas e que qualquer tentativa de estabelecer uma verdade objetiva é uma forma de dominação. Esse relativismo cultural e político minou a confiança em critérios objetivos, que desencadeou uma reação contrária, como naturalmente sempre acontece.

Fake News e propaganda política é o que hoje mais alimenta os autocratas. Governos autoritários e políticos populistas perceberam que, se não há uma verdade objetiva, então qualquer mentira pode ser validada pelo poder do discurso e da repetição. Trump, por exemplo, joga com essa lógica ao deslegitimar a imprensa e criar narrativas paralelas. Alguns filósofos pós-modernos argumentam que não há como voltar atrás e que devemos aprender a conviver com múltiplas "verdades". Mas isso não resolveria o problema da manipulação política e da desinformação. O ser humano não consegue viver sem um conceito compartilhado de verdade. Se tudo for apenas uma questão de narrativa e poder, a sociedade mergulhará no caos e na aniquilação. 

A História mostra-nos que os momentos em que a verdade se fragmentou radicalmente (queda de impérios, revoluções culturais ou grandes transições filosóficas) foram sempre seguidos por uma tentativa de reconstrução de um consenso. Então, se seguirmos esse padrão, é provável que algo semelhante aconteça. No entanto, há uma grande diferença entre os tempos passados e o presente: nunca houve um ambiente tão propício para a fragmentação contínua da verdade como agora. As redes sociais, a inteligência artificial e a conectividade ultra rápida tornaram a manipulação da informação muito mais sofisticada. Antes, a reconstrução de uma verdade comum dependia de uma classe intelectual ou de uma instituição dominante (como a Igreja na Idade Média, ou a ciência no Iluminismo). Mas hoje, quem pode assumir esse papel? A Ciência está sob ataque constante. Além disso, a ciência não trata de todas as dimensões da verdade, especialmente as que envolvem valores e significados. E se for o Estado, cai-se no autoritarismo. A Inteligência Artificial poderia ser um novo árbitro da verdade, filtrando desinformação e corrigindo distorções. Mas isso depende de quem programa a IA e de seus critérios.

Hoje os novos pragmatistas, que foram influenciados por Rorty, continuam a rejeitar a concepção tradicional de verdade como correspondência direta com a realidade. Em vez disso, enfatizam a utilidade prática das crenças e afirmações, avaliando-as com base no sucesso da orientação das ações humanas. Essa perspectiva aproxima-se de algumas posições pós-modernistas, que também questionam narrativas universais e verdades absolutas. No entanto, há diferenças significativas entre essas correntes. Enquanto os do pragmatismo insistem na aplicabilidade prática das crenças, os do pós-modernismo frequentemente valorizam a desconstrução de metanarrativas e a análise crítica das estruturas de poder subjacentes às construções sociais. 

Essas distinções geram debates intensos entre filósofos neopragmatistas e pós-modernistas, especialmente em relação ao papel da linguagem, da cultura e das estruturas de poder na formação do conhecimento. Além disso, os neopragmatistas participam de discussões com teóricos pós-coloniais e estudiosos das identidades de género. Esses diálogos exploram como as perspectivas pragmatistas podem contribuir para a compreensão das dinâmicas de poder, opressão e resistência presentes nas questões de identidade e representação. Os seguidores das filosofias de Sellars, Quine e Rorty estão ativamente envolvidos em debates contemporâneos. Eles buscam aplicar e adaptar as ideias neopragmatistas para abordar os desafios e as complexidades do mundo atual, interagindo com diversas correntes de pensamento para enriquecer essas discussões.

Não podemos viver sem um consenso alargado em relação ao que é verdade e ao que é mentira. É um problema que mergulha na raiz das civilizações. Se tudo for visto como uma construção social mutável, sem critérios mais sólidos, acabamos num estado de anomia, onde qualquer narrativa se afirma como válida simplesmente por ser "útil" para um determinado grupo. Isso compromete não só o debate público, mas até mesmo a própria noção de justiça e de ciência. Historicamente, as civilizações sempre precisaram de um mínimo de consenso sobre a verdade para funcionarem: Os gregos confiavam na lógica e na razão (Platão, Aristóteles). A Idade Média estruturou-se numa verdade religiosa, sustentada pela Igreja. A Modernidade buscou a verdade científica e racional, com Descartes, Kant e o empirismo. Agora, com a ascensão do neopragmatismo, do pós-modernismo e da era digital, o próprio conceito de verdade está sendo atacado de dentro. Mas, ironicamente, sem um consenso mínimo, não há civilização possível. E é justamente isso a que estamos assistindo no caos da política contemporânea, nos conflitos culturais e na erosão da confiança nas instituições. 

Em contraposição com o relativismo os novos realistas nas academias anglo-saxónicas lutam pela sobrevivência. Os novos realistas representam uma reação ao relativismo epistemológico e ao pós-modernismo. No contexto anglo-saxónico, essa corrente busca restaurar alguma forma de realismo ontológico e epistemológico, rejeitando a ideia de que a verdade é meramente uma construção social ou um efeito de práticas discursivas. O novo realismo surge como um movimento filosófico em resposta a décadas de desconstrução e relativismo promovidos por pensadores como Rorty, Foucault e Derrida. 

Entre as influências mais próximas desse realismo renovado estão aqueles que voltaram à metafísica analítica – Filósofos como Saul Kripke, Hilary Putnam e David Lewis - e já haviam contestado as formas extremas de antirrealismo na segunda metade do século XX. A redescoberta da realidade independente da linguagem – Inspirado por elementos do realismo especulativo e da fenomenologia, o novo realismo defende que a realidade existe independentemente de nossas interpretações. Filósofos como Maurizio Ferraris e Markus Gabriel argumentam que a ideia de que o mundo é constituído linguisticamente é um erro filosófico. 
Maurizio Ferraris é italiano, mas muito influente no mundo anglo-saxónico. Criador do termo “novo realismo”, propõe que os factos do mundo são independentes das nossas construções discursivas. 
Markus Gabriel é alemão, mas atua internacionalmente, desenvolvendo a teoria do "novo realismo ontológico", defendendo que a realidade se compõe de múltiplos domínios independentes. Hilary Putnam é um americano de gema, embora não um "novo realista" no sentido estrito. As críticas ao relativismo e a defesa do realismo internalista influenciaram esse movimento. Quentin Meillassoux é francês, mas com forte impacto em debates anglo-saxónicos. É crítico do correlacionismo kantiano, defendendo um realismo especulativo baseado na contingência radical da realidade.
Graham Harman dos EUA, embora mais próximo do realismo especulativo, contribui para o movimento ao defender um "realismo orientado a objetos". Os novos realistas acusam Rorty de reduzir a verdade a um consenso sociolinguístico, minando a objetividade científica. O novo realismo busca restaurar uma ontologia robusta em que a realidade não depende apenas da linguagem, das crenças ou das estruturas sociais. É um movimento que se opõe diretamente ao relativismo pragmatista de Rorty, e a outras vertentes pós-modernas.

quarta-feira, 26 de março de 2025

O relativismo de Richard Rorty

 

Richard Rorty, um dos principais representantes do novo pragmatismo, buscou integrar as ideias de Quine e Sellars, adaptando-as para a sua visão pragmatista da filosofia. Embora ele não tenha seguido à risca todos os detalhes das abordagens de Quine e Sellars, Rorty utilizou elementos de suas críticas ao empirismo e ao fundacionalismo para desenvolver a sua rejeição à busca de fundamentos epistemológicos fixos. Rorty reconheceu que Quine e Sellars, de maneiras complementares, desmontaram que o conhecimento humano não poderia ser fundado em dados sensoriais "puros" ou verdades inquestionáveis. Ele usou essas ideias como base para propor uma visão pragmatista radical. Rorty sugeriu que não precisamos de fundamentos epistemológicos (como uma teoria objetiva da verdade ou da justificação). Em vez disso, a verdade é aquilo que "funciona" dentro de um contexto linguístico e social. Assim como Sellars, Rorty enfatiza que tudo o que chamamos de conhecimento é mediado por práticas discursivas e normativas, e não por um acesso direto à realidade. Embora Rorty combine Quine e Sellars, ele vai além de ambos, ao abandonar completamente a ideia de que a filosofia precisa buscar uma teoria do conhecimento ou uma definição objetiva da verdade.

Para Rorty, todo o conhecimento é uma questão de vocabulário ou linguagem, e não há um ponto de vista "neutro" a partir do qual possamos comparar nossas crenças com a realidade. Ele rejeita o realismo tradicional e propõe que a verdade é um termo pragmático: aquilo que é útil para uma comunidade discursiva. Essa posição é influenciada por Sellars, que mostrou que nossa percepção do mundo é sempre filtrada por conceitos linguísticos. Enquanto Quine ainda trabalhava no contexto da ciência como critério para justificar crenças, Rorty rejeita até essa noção. Ele argumenta que a ciência é apenas mais uma narrativa ou prática linguística entre outras, sem estatuto privilegiado. A ciência, para Rorty, é bem-sucedida porque funciona no contexto de nossos problemas e interesses, não porque revele uma "verdade última" sobre o mundo. Rorty também desafia a visão tradicional da filosofia como a busca por fundamentos. Para ele, a filosofia deveria ser como uma literatura, servindo para criar novas maneiras de falar e pensar, em vez de tentar resolver problemas epistemológicos insolúveis.

Quine ainda mantém um compromisso com o naturalismo científico, tratando a ciência como o melhor método para compreender o mundo. Rorty rejeita essa ideia, argumentando que a ciência não tem mais "autoridade" do que outras práticas discursivas. Sellars tenta preservar um papel normativo para a razão e as justificações, enquanto Rorty abandona completamente a ideia de critérios universais para avaliar crenças. Rorty é profundamente influenciado por Quine e Sellars, mas leva as suas ideias a um extremo pragmatista, transformando-as numa rejeição completa da epistemologia tradicional e da busca por fundamentos filosóficos. Ele combina o holismo de Quine e a crítica ao "mito do dado" de Sellars numa visão que privilegia a linguagem, a contingência histórica e o pluralismo discursivo. Sua abordagem radical redefine o papel da filosofia, convidando-a a abandonar a busca por verdades universais e a abraçar a sua natureza criativa e transformadora.

As ideias de Richard Rorty continuam a ser influentes, mas também bastante controversas, tanto dentro quanto fora da filosofia. Sua abordagem radical ao pragmatismo, particularmente sua rejeição da busca por verdades objetivas ou fundações universais, divide opiniões. A recepção de suas ideias varia amplamente entre diferentes escolas de pensamento e disciplinas. Rorty é visto como um dos principais renovadores do pragmatismo americano, ao lado de figuras como John Dewey e William James. Ele popularizou a ideia de que a filosofia deve abandonar a epistemologia tradicional em favor de um foco nos usos práticos da linguagem e da cultura. Académicos pragmatistas contemporâneos reconhecem sua importância ao ampliar o debate para incluir questões culturais e literárias.

Rorty é frequentemente associado ao pós-modernismo, devido à sua rejeição da objetividade universal e sua ênfase na contingência histórica. Essas ideias ecoam em disciplinas como literatura comparadaestudos culturais e teoria crítica, onde a filosofia de Rorty é frequentemente celebrada por sua ênfase no pluralismo e na criatividade discursiva. Sua visão de que a filosofia é uma conversa contínua, e não uma disciplina em busca de verdades absolutas, influenciou áreas como ciência política, teoria social e estudos culturais. Ele é apreciado por propor uma integração mais fluida entre filosofia e humanidades.

Realistas e naturalistas filosóficos, como Hilary Putnam e Thomas Nagel, criticaram Rorty por abandonar qualquer compromisso com a verdade objetiva. Eles consideram a sua posição excessivamente relativista, com o risco de levar ao ceticismo generalizado sobre o conhecimento e a ciência. Muitos filósofos da ciência criticam Rorty por equiparar a ciência a outras práticas discursivas, sem conceder-lhe nenhum estatuto privilegiado. Embora ele não negue o sucesso da ciência, a sua posição relativista é vista como subestimando a sua capacidade de fornecer explicações robustas sobre o mundo. Alguns pensadores pragmatistas, como Richard Bernstein, consideram que Rorty distorce ou simplifica o pragmatismo clássico ao se concentrar exclusivamente na linguagem e ao abandonar questões éticas e políticas mais profundas. Rorty foi criticado por teóricos marxistas e críticos sociais por sua relutância em engajar-se numa crítica materialista das estruturas de poder. Ele era cético em relação a projetos emancipatórios que reivindicassem uma base objetiva para a sua legitimidade, o que o distanciou de algumas correntes da Teoria Crítica.

Rorty permanece uma figura central em debates sobre pragmatismo, filosofia da linguagem e epistemologia, e suas ideias continuam a ser estudadas e debatidas em muitas universidades. Sua ênfase na linguagem, na contingência e no pluralismo teve um impacto profundo, especialmente na filosofia anglo-americana e nos estudos interdisciplinares. Sua abordagem é frequentemente vista como excessivamente relativista ou como uma espécie de "desistência" da filosofia, especialmente por aqueles que ainda consideram a busca por fundamentos epistemológicos e fundamentos morais como uma tarefa importante. A ascensão de perspectivas realistas contemporâneas, como o novo realismo e o realismo especulativo, desafiou a relevância do relativismo pragmatista de Rorty. As ideias de Rorty continuam a ser amplamente debatidas e inspiradoras, mas polarizam os filósofos e pensadores contemporâneos. Ele é celebrado por sua originalidade e visão interdisciplinar, mas criticado por abandonar compromissos tradicionais da filosofia, como a busca por objetividade e fundamentos robustos. Seu impacto é particularmente forte na filosofia política, nos estudos culturais e na teoria literária, mas é recebido com ceticismo em disciplinas mais voltadas para o realismo ou a ciência.

Muitos cientistas e filósofos de orientação realista criticaram Rorty, acusando-o de relativismo e de negar a noção tradicional de verdade, especialmente no contexto da ciência. Essa percepção decorre principalmente da sua visão pragmatista radical, que rejeita a ideia de a verdade ser objetiva, universal, e independente das práticas humanas. Rorty rejeita a noção clássica de verdade como correspondência entre uma proposição e a realidade. Para ele, "verdade" é um termo útil dentro de comunidades discursivas, mas não implica uma relação direta com um "mundo objetivo". Ele argumenta que a ciência não revela verdades absolutas, mas sim constrói narrativas ou vocabulários úteis para resolver problemas específicos. Ao enfatizar que a verdade é contingente e depende de contextos históricos e sociais, Rorty é relativista, sugerindo que "todas as crenças são igualmente válidas". Embora ele rejeite essa leitura, a sua recusa em propor critérios universais de verdade reforça essa percepção. Muitos cientistas veem a posição de Rorty como uma ameaça à autoridade da ciência, especialmente em tempos de crise como as mudanças climáticas e o aumento do negacionismo científico.

Filósofos como Thomas Nagel e Hilary Putnam acusaram Rorty de minar a confiança na ciência ao tratar a verdade científica como uma construção linguística, e não como um reflexo da realidade. É associado ao pós-modernismo, um movimento acusado de relativismo e de rejeitar a verdade objetiva. Embora ele próprio rejeitasse alguns aspectos do pós-modernismo, a sua crítica ao realismo, e a ênfase na contingência e no pluralismo, são vistas como alinhadas a essa tradição. Putnam argumentou que Rorty exagerava ao tratar a ciência apenas como uma prática social entre outras. Embora Putnam reconhecesse que toda a linguagem é contingente, ele defendia que o sucesso prático da ciência reflete um tipo de correspondência com a realidade, o que Rorty considerava irrelevante. Para Putnam, a abordagem de Rorty arrisca dissolver a distinção entre verdade e consenso social, o que pode abrir espaço para a manipulação ideológica. Nagel criticava a tendência pragmatista de Rorty por desconsiderar a noção de objetividade. Para Nagel, a ciência busca explicações que transcendem a perspectiva humana, e relativizar essa busca compromete o progresso científico.

Muitos teóricos sociais, como Terry Eagleton, criticaram Rorty por evitar um compromisso com fundamentos éticos e políticos. A ausência de critérios objetivos para justificar lutas por justiça ou igualdade é vista como enfraquecendo movimentos progressistas. O marxismo, por exemplo, depende de uma análise objetiva das estruturas económicas e do poder, o que contrasta com a abordagem de Rorty baseada em narrativas contingentes. Com a ascensão da chamada "era da pós-verdade", onde factos objetivos são frequentemente ignorados em favor de crenças pessoais ou políticas, críticos argumentam que o relativismo de Rorty pode ser usado para justificar a manipulação da verdade. Essa preocupação ganhou força com o aumento do negacionismo climático e do ceticismo em relação às vacinas, onde a confiança no consenso científico é crucial. Embora Rorty não defendesse tais posições, sua rejeição de uma verdade objetiva é interpretada por alguns como uma base filosófica para essas práticas.

Michel Foucault e outros pensadores pós-modernos, como Jacques Derrida, compartilhavam com Rorty a crítica ao essencialismo e à verdade objetiva. Embora Rorty não se considerasse um pós-moderno, suas ideias alimentaram movimentos académicos e ativistas que questionam a autoridade epistémica tradicional. A extrema-esquerda usou-o para desafiar instituições como a ciência que são vistas como aliadas da dominação social. Curiosamente, Rorty também rejeitou o marxismo clássico, considerando-o excessivamente ligado à ideia de uma ciência da história ou de uma verdade objetiva sobre a luta de classes. Ele via a própria posição como mais flexível e adaptada ao pluralismo democrático. Embora Rorty fosse um defensor da democracia liberal e crítico da direita, algumas ideias relativistas podem ser manipuladas por narrativas de extrema-direita, especialmente no contexto contemporâneo da "pós-verdade".

A rejeição de verdades universais foi usada pela extrema-direita para justificar posições negacionistas, como o ceticismo em relação à mudança climática e à pandemia. Argumentos de que "toda a narrativa é relativa" ou que "os especialistas têm agendas políticas" ecoam, ainda que de forma deturpada, as ideias pragmatistas de Rorty. Embora ele defendesse a ciência como uma prática útil, a falta de um fundamento absoluto deixou espaço para sua instrumentalização. Movimentos de extrema-direita, como o trumpismo nos EUA, exploraram a desconfiança em relação à objetividade para promover "factos alternativos". A ideia de que a verdade é contingente foi distorcida para minar o consenso em torno de factos básicos. Curiosamente, a extrema-direita também se apropriou da crítica ao universalismo como forma de reforçar identidades particulares (nacionalistas, religiosas ou étnicas). Essa postura ressoa com a rejeição de Rorty ao essencialismo, mas é utilizada para justificar exclusão, em vez de solidariedade.

Paul Feyerabend, conhecido por seu livro Against Method, é frequentemente associado a um relativismo mais radical que o de Rorty, especialmente na filosofia da ciência. "Tudo vale" e "Adeus á Razão": eram os seus slogan preferidos. Feyerabend argumentava que não existe um método científico único ou superior; diferentes práticas culturais podem produzir conhecimento válido. Essa postura associa-se a Rorty, negando a ideia de uma ciência universal. Feyerabend levou essa ideia ainda mais ao extremo. Sua posição foi usada por críticos da ciência ocidental, tanto na extrema-esquerda (como movimentos anticoloniais) quanto na extrema-direita (como negacionistas científicos). Rorty e Feyerabend rejeitavam a ideia de uma "fundamentação" para a ciência, mas Rorty era mais moderado, tratando a ciência como útil e prática, enquanto Feyerabend enfatizava a equivalência entre diferentes formas de conhecimento.

Michel Foucault, um dos principais pós-modernos, compartilha com Rorty a rejeição de verdades universais, mas a sua ênfase está nas relações de poder subjacentes ao conhecimento. Para Foucault, o que consideramos "verdade" é uma construção social moldada por interesses de poder. Essa visão dialoga com a crítica de Rorty à objetividade, mas é dirigida mais para a política. Movimentos de extrema-esquerda adotaram Foucault para questionar instituições como o sistema penal, a psiquiatria e a ciência, vistas como mecanismos de dominação. Rorty não tinha o foco político explícito de Foucault. Ele via a filosofia como uma ferramenta para promover solidariedade e liberdade, enquanto Foucault estava mais interessado em desvelar as estruturas de poder.

Tanto a extrema-esquerda quanto a extrema-direita aproveitaram aspectos do relativismo de Rorty, mas de maneiras diferentes: Extrema-esquerda usou as ideias de Rorty para questionar narrativas hegemónicas, para desconstruir o poder e promover o pluralismo cultural. No entanto, isso às vezes levou a uma rejeição exagerada da ciência e da razão, algo que Rorty provavelmente não endossaria. Extrema-direita: usou a desconfiança da verdade objetiva para minar instituições democráticas, promover teorias conspirativas e justificar "factos alternativos". Essa apropriação foi mais oportunista e menos alinhada com os valores democráticos de Rorty.

O ironismo em Richard Rorty é um conceito chave, especialmente no contexto de sua filosofia pragmatista. Ele o desenvolve para descrever uma atitude filosófica que está enraizada no ceticismo sobre a possibilidade de atingir verdades absolutas ou fundamentais, mas que também abraça a necessidade de se engajar com o mundo de forma prática e ética. O ironista, para Rorty, é uma pessoa que desconfia de todas as crenças e valores que considera absolutos, mas que ao mesmo tempo, não se entrega ao niilismo ou à indiferença. Ao invés disso, adota um compromisso com uma visão do mundo que é contingente e histórica. O ironista reconhece que as crenças e práticas em que acredita são apenas produtos de uma tradição cultural ou de uma determinada narrativa histórica. Não há nada de essencial ou universal nessas crenças; elas são "acidentais", mas, ao mesmo tempo, são as melhores opções que temos para viver uma vida significativa e moralmente boa.

Para o ironista, as suas crenças são instrumentos úteis, e não reflexões de uma verdade universal. Aceita a contingência de suas convicções, sem achar que isso diminui a validade delas para a vida quotidiana. O ironista desapega-se, não se leva a sério, é aquele que percebe que suas crenças não são absolutas. Aceita a ideia de que qualquer sistema de crenças é substituível, que as melhores opções podem mudar com o tempo, à medida que surgem novas narrativas e práticas. No entanto, isso não leva ao pessimismo ou à inação. Pelo contrário, o ironista continua a agir no mundo, a comprometer-se com suas ideias e com os outros, mas sempre com a consciência de que essas ideias são relativas e não definitivas. É um desafio, viver com a consciência da contingência.

Para Rorty, o ironista é alguém que está ciente de que sua visão de mundo é histórica e socialmente construída, mas continua a viver de forma plena, engajada e ética. Não se trata de abandonar qualquer tipo de compromisso com o bem ou com a justiça, mas de manter um compromisso com as práticas e valores que promovem a convivência humana, sem iludir-se com a ideia de que esses valores têm um fundamento eterno ou universal. Esse é, em grande parte, o dilema do ironista, ao manter uma atitude de distanciamento crítico, mas ao mesmo tempo um compromisso prático com o que considera ser o melhor para o seu grupo e para o bem-estar humano. Esse é um tipo de ceticismo positivo: ceticismo em relação à verdade absoluta, mas fé prática nas instituições democráticas e na solidariedade humana.

O ironista de Rorty, apesar de ser cético sobre as grandes "verdades", não é um nihilista. Acredita que, por não haver uma verdade última, todas as práticas são igualmente válidas ou que devemos desistir de qualquer tipo de moralidade ou ação política. O ironismo de Rorty é uma forma de viver sem dogmas, mas mantendo a capacidade de engajar-se no mundo com um compromisso ético. O ironista também rejeita o fundacionalismo, ou a ideia de que existe uma base sólida e universal para a moralidade ou para o conhecimento. Em vez disso, o ironista aceita que nossas práticas, valores e crenças evoluem com o tempo e são sempre susceptíveis de serem modificadas à medida que novas perspectivas surgem. Para ele, a busca por uma fundação última e indiscutível é fútil e até perigosa.

Viver de forma irónica, então, não é um estado passivo, mas uma prática ativa que envolve um compromisso com o diálogo e com a tolerância. O ironista reconhece a pluralidade de visões de mundo, mas se engaja ativamente na construção de uma sociedade mais justa e democrática, dentro das possibilidades que o momento histórico oferece. O ironismo de Rorty é uma tentativa de equilibrar o ceticismo radical com o compromisso prático. Ele mostra uma maneira de viver ciente da contingência e da falibilidade humana, mas sem cair no relativismo niilista ou na paralisia cética. Para ele, viver ironicamente é aceitar que nossas crenças são provisórias e mudáveis, mas ao mesmo tempo agir com base nelas como se fossem as melhores opções disponíveis, enquanto permanecemos abertos a revisá-las quando necessário. Esse conceito de ironismo, portanto, reflete a flexibilidade e a adaptabilidade que Rorty queria para as pessoas e para as sociedades, incentivando um compromisso ético que não depende de fundamentos absolutos ou verdades definitivas, mas que continua a ser profundamente comprometido com as questões práticas da vida humana.

Entre democracias e autocracias, cá vamos andando



A divisão entre democracias e autocracias continua uma questão central na política internacional, especialmente no contexto atual de crescente polarização e mudanças geopolíticas. Embora a classificação tradicional de esquerda e direita tenha a sua relevância, a distinção entre democracia e autocracia transcende essa divisão ideológica. Enquanto a democracia tem a ver com um sistema em que o governo é sustentado e legitimado pela participação popular em eleições livres, complementada pela divisão de poderes - legislativo, executivo, judiciário, e liberdades civis; A autocracia é um regime baseado na concentração de um poder autoritário e num tipo de democracia fragilizado pelo populismo de tipo iliberal. 

As democracias, especialmente as liberais, são baseadas na ideia de que o poder político é exercido pelo povo, diretamente ou por meio de representantes eleitos. Os principais princípios das democracias incluem direitos civis e liberdades individuais - liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade religiosa e de associação. Eleições livres e justas, em que os governantes são escolhidos por meio de eleições regulares e transparentes, respeitado o Estado de direito. As leis são aplicadas igualmente a todos os cidadãos, e há um sistema judiciário independente. Os poderes - executivo, legislativo e judiciário - são separados, evitando abusos de poder. No entanto, mesmo em democracias consolidadas, há desafios. A polarização política, a crise de confiança nas instituições e o crescimento de movimentos populistas podem ameaçar a estabilidade dessas democracias.

Atualmente, surpreendente ou não, as democracias não são a maioria no mundo. Embora tenha havido uma expansão significativa dos sistemas democráticos nas últimas décadas, em termos numérico de países não se consideram em maioria como classificadas de democracias. Mas esse número tem crescido desde o final da Guerra Fria, especialmente com a transição para a democracia de vários países da Europa Central e Oriental, bem como de África. Contudo, quando se olha para a qualidade democrática e o grau de liberdade em que esses regimes funcionam, a situação é mais complexa.

As autocracias são sistemas de governo onde o poder está concentrado nas mãos de uma única pessoa ou de um pequeno grupo de indivíduos, sem a supervisão popular e com limitação das liberdades civis. Nas autocracias, de um modo geral, os governantes não são eleitos democraticamente ou têm controlo sobre o processo eleitoral, e as oposições políticas e a imprensa livre frequentemente são reprimidas. O poder está concentrado numa figura ou partido político. As eleições, quando realizadas, não são livres ou justas, e a oposição é frequentemente suprimida. Daí ser frequente nesses regimes haver repressão da sociedade civil. Há censura, vigilância, e perseguição a grupos dissidentes. A supressão dos direitos humanos passa pela restrição da liberdade de expressão, e do direito ao protesto ao ponto de as manifestações na rua serem severamente reprimidas. Exemplos de autocracias: Rússia (sob a liderança de Vladimir Putin); China (sob o governo do Partido Comunista Chinês, liderado por Xi Jinping); Irão (sob o regime teocrático); Arábia Saudita (monarquia absoluta); Coreia do Norte (sob o regime de Kim Jong-un); Turquia sob o poder de Erdogan. 

Hoje ainda podemos elencar várias ideologias políticas, mas com a ressalva de que muitas delas perderam a sua pureza original, umas tendo-se fragmentado, outras se misturaram a outras correntes. Além disso, algumas ideologias clássicas evoluíram para versões mais adaptadas às realidades contemporâneas, como é o caso do liberalismo. O liberalismo origina-se do Iluminismo e defende a liberdade individual, a democracia representativa e o mercado livre. Estado mínimo, livre mercado, proteção da propriedade privada. O neoliberalismo é uma versão mais pragmática, defendendo desregulação e privatizações, mas aceitando algum papel do Estado. O liberalismo progressista valoriza as liberdades civis e direitos individuais, aceitando uma maior regulação económica. 

O conservadorismo tradicional preza a religião e valores morais fortes, defende a família tradicional e a soberania nacional. Ao passo que o neoconservadorismo apoia os mercados livres, mas com ênfase na força militar e nos valores ocidentais. O conservadorismo nacionalista mistura patriotismo rejeitando a globalização. Os Patriotas pela Europa - grupo político populista de direita, agora na10ª Legislatura do Parlamento Europeu - é o terceiro maior grupo. Nos vários países da União Europeia é representado por partidos conservadores, populistas e, muitas vezes, anti-imigração. Defendem a primazia da cultura e dos valores nacionais, frequentemente rejeitando cosmopolitismo e globalismo. Apresentam a narrativa de que grandes fluxos migratórios ameaçam a coesão social e cultural dos países. 

Paradoxalmente, aqueles partidos populistas de direita ou de esquerda, apesar de estarem representados no Parlamento Europeu da União Europeia, são contra a União Europeia e a outras instituições supra nacionais como a ONU, a NATO, e por aí fora. Imputam a essas organizações internacionais a causa da erosão da soberania nacional. Criticam o multiculturalismo – considerando que a mistura cultural enfraquece a identidade nacional, em vez de enriquecê-la. Preferem proteger a economia nacional contra a influência de empresas estrangeiras e acordos de livre comércio. Buscam preservar costumes, língua e símbolos nacionais. Na Europa, são exemplos o Partido Rassemblement National (França); Fratelli d’Italia (Itália); AfD (Alemanha). O discurso destes partidos incentiva o patriotismo nativista.

Nos EUA é o movimento “America First” de Donald Trump que está a pôr os Estados Unidos de pernas para o ar, ou virado do avesso, conforme os dias. Em todo o caso, os critérios classificativos políticos na Europa e na América do Norte não são plenamente coincidentes, pois refletem tradições históricas, culturais e institucionais distintas. Embora conceitos como esquerda e direita, liberalismo e conservadorismo existam em ambos os contextos, o significado desses termos pode variar bastante. Na Europa, "liberal", geralmente refere uma posição centrista ou de direita, associada ao livre mercado, ao Estado mínimo e, em alguns casos, a um conservadorismo social moderado - FDP alemão; Partido Liberal britânico. Ao passo que nos EUA é quase sinónimo de progressismo de esquerda, associado ao Partido Democrata, e a causas como direitos civis, ambientalismo e regulação económica.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Matriz indo-europeia


Faz sentido falar ainda numa matriz europeia de raiz indo-europeia em contraponto com uma outra cultura de raiz semita, que também teima em persistir?

Do ponto de vista linguístico e mitológico, a matriz europeia de raiz indo-europeia continua evidente, pois a maioria das línguas faladas na Europa (exceto o basco, o finlandês, o húngaro e algumas outras) pertence à família indo-europeia, e muitas das estruturas narrativas e simbólicas da cultura europeia ainda refletem essa herança. No entanto, a civilização europeia foi profundamente influenciada por elementos semitas, principalmente através do judaísmo e do cristianismo, que se tornaram fundações espirituais e éticas do Ocidente.

Se olharmos para a história, a Europa moderna é uma síntese de múltiplas influências, onde a matriz indo-europeia se misturou com a semita, a greco-romana e até influências orientais posteriores. O cristianismo, por exemplo, é uma religião de origem semita, mas foi reinterpretado e moldado pela mentalidade greco-romana e depois germânica. Já o Islão, outra tradição de raiz semita, teve períodos de grande presença na Península Ibérica e nos Balcãs, deixando marcas culturais a vários níveis, desde a gastronomia até a arquitetura.

Se a questão for vista de maneira mais essencialista, como uma oposição contínua entre um "ethos" indo-europeu e um "ethos" semita, pode-se argumentar que certos traços distintos ainda persistem. Alguns identificam o primeiro com uma visão mais pluralista e humanista da organização social (com base no pensamento grego e romano) e o segundo com uma forte ênfase monoteísta e dogmática, herdada do judaísmo e do islamismo. Mas essa distinção pode ser forçada, pois as culturas são dinâmicas e interdependentes. Então, faz sentido falar nessas duas matrizes como categorias históricas e antropológicas, mas a realidade cultural da Europa atual é muito mais híbrida do que uma simples oposição entre raízes indo-europeias e semitas. A persistência de certas estruturas mentais e religiosas pode ser analisada, mas sempre com a cautela de não reduzir fenómenos complexos a dicotomias rígidas.

Se entendermos um "cataclismo identitário" como um colapso das referências culturais e civilizacionais – algo que pode acontecer por imigração em massa, declínio demográfico, desagregação social ou perda de valores fundadores –, então a questão é profundamente instigante: há uma "genética espiritual" que pode emergir quando uma civilização está à beira do desaparecimento. Historicamente, há precedentes que sugerem que sim. Quando Roma caiu, muito do espírito greco-romano foi preservado e reinterpretado pela Igreja e pelo Império Bizantino. A Europa medieval, por sua vez, recuperou fragmentos do legado clássico através do Renascimento. Em tempos de crise, identidades culturais latentes parecem reemergir, muitas vezes sob formas inesperadas.

Se admitirmos que certas matrizes civilizacionais carregam uma "alma coletiva", algo que pode ser expresso em arquétipos -- mitos, valores e padrões de organização social –, então é plausível que, num contexto de grande fratura, haja um instinto de retorno às raízes. A questão é saber se esse retorno se dará de forma consciente e organizada ou se será um reflexo primitivo e fragmentado. Se a matriz indo-europeia ainda tem força para ressurgir num momento de crise, dependerá de quão profunda ainda é a sua influência no inconsciente coletivo europeu. O que é certo é que outras forças também persistem, e a matriz semita, especialmente através das religiões monoteístas, mostrou uma resiliência notável ao longo da história. Portanto, se houver um colapso identitário na Europa, é possível que certos padrões ancestrais venham à tona. Mas há um dilema: qual será a forma dessa ressurreição? Um renascimento da tradição greco-romana? Uma reafirmação dos valores cristãos? Ou algo inteiramente novo, híbrido e imprevisível?

A questão demográfica é um fator decisivo. No Renascimento, havia uma Europa jovem, com crescimento populacional e capacidade de inovação. Hoje, a situação é oposta: baixíssima taxa de natalidade, envelhecimento acelerado e dependência da imigração para sustentar a economia. Isso levanta a pergunta: que renascimento civilizacional será possível se a matriz original está em declínio numérico? A tese da "substituição" pode ter algum fundamento se olharmos estritamente os números: uma população que não se reproduz e que recebe fluxos migratórios de culturas diferentes, com taxas de natalidade mais altas. Ao longo de gerações pode perder a sua identidade original. Mas a história não é só demografia. Identidade cultural não se substitui apenas pelo crescimento de um grupo e a redução de outro; há também a dinâmica de assimilação e resistência.

Se a matriz europeia ainda tem um "núcleo espiritual" forte, ela pode adaptar-se e influenciar aqueles que chegam, como ocorreu com os povos germânicos que entraram no Império Romano e acabaram absorvendo o cristianismo e a tradição clássica. Se esse núcleo já está esvaziado, então a transformação será mais profunda e poderá dar origem a algo irreconhecível. O desafio da Europa é que a demografia não favorece uma revitalização orgânica da sua identidade tradicional. O renascimento que alguns esperam teria de ser uma reconstrução consciente, não um processo espontâneo como no passado. Mas isso exigiria um novo sentido coletivo de missão, algo que a Europa atual parece não ter.

No que diz respeito a ameaças, a União Europeia tem duas: Uma é a ameaça bélica e geoestratégica da Rússia; outra é a invasão pacífica de povos de África e Médio Oriente. Essas duas ameaças são muito distintas, mas ambas podem ter efeitos desestruturantes para a Europa. A ameaça russa é geoestratégica e militar. A guerra na Ucrânia mostrou que a Rússia ainda vê a Europa como um espaço de influência disputado. Embora a UE e a NATO tenham demonstrado alguma coesão até agora, o desgaste interno e as divisões políticas dentro dos países europeus podem tornar a posição ocidental menos sólida a longo prazo. A Rússia, mesmo economicamente mais fraca que a UE, joga no tabuleiro do tempo longo, apostando no cansaço europeu e nas suas próprias reservas de força bruta.

A invasão pacífica vinda de África e do Médio Oriente, por sua vez, não é militar, mas demográfica e cultural. O fluxo migratório constante coloca em xeque a identidade europeia e as suas estruturas sociais. O problema é que essa pressão não vai diminuir – pelo contrário, com o agravamento das crises climáticas e económicas nesses continentes, a tendência é para aumentar. Os líderes europeus têm oscilado entre políticas de acolhimento e tentativas de contenção, mas sem uma estratégia clara de longo prazo.

A grande diferença entre essas duas ameaças é que a russa é externa e pode ser enfrentada com força militar e sanções, enquanto a segunda acontece dentro da própria Europa, tornando qualquer resposta muito mais delicada. A UE pode reforçar as suas fronteiras e endurecer políticas migratórias, mas a questão de fundo permanece: uma população envelhecida e um modelo económico que precisa de imigração. No longo prazo, a ameaça migratória pode ser mais transformadora do que a ameaça russa. Uma guerra com Moscovo pode ser evitada ou resolvida, mas a mudança demográfica e cultural pode ser irreversível. A grande incógnita é se a Europa conseguirá assimilar e moldar esses novos fluxos ou se será moldada por eles.

Com a viragem estratégica dos EUA para o Indo-Pacífico, a Europa perde a sua "rede de segurança" tradicional. Durante décadas, a defesa europeia foi garantida mas, na prática, isso significava uma dependência dos EUA. Com Washington focado na contenção da China e numa possível crise em Taiwan, a Europa pode ser forçada a lidar sozinha com os desafios à sua segurança, incluindo a Rússia. Isso levanta duas questões fundamentais: A Europa consegue defender-se sozinha? Ou fragmentar-se-á ditando o fim da União Europeia? A UE tem poder económico, mas a sua capacidade militar é desprezível. França e Reino Unido ainda têm forças relevantes, mas a maioria dos países europeus reduziu os seus exércitos desde o fim da Guerra Fria. A criação de uma defesa europeia unificada sempre encontrou resistência, especialmente por parte de países que confiaram demais na NATO. Se os EUA se afastarem, a Europa terá de acelerar o rearmamento, ou aceitar um papel secundário no xadrez geopolítico.

O afastamento americano pode ser um choque de realidade para os europeus, forçando-os a uma maior cooperação militar. No entanto, também pode aprofundar divisões: alguns países podem procurar novos acordos de defesa fora do eixo franco-alemão, enquanto outros podem até se inclinar para concessões à Rússia para evitar confrontos. No fim de contas, a UE terá de decidir se assume um papel de ator estratégico global ou se aceita uma posição cada vez mais periférica, sujeita às arbitrariedades de um possível triunvirato de superpotências: EUA, Rússia e China. Seja qual for a escolha, uma coisa parece certa: a ilusão de que a Europa poderia regozijar-se com a sua economia e os direitos humanos, sem cuidar da sua segurança, está a desmoronar-se.

A ONU, na prática, está impotente diante dessas questões. Como organização, foi concebida para evitar conflitos entre Estados soberanos, mas nunca teve poder real para intervir de forma decisiva em questões geoestratégicas. O Conselho de Segurança, onde a Rússia tem poder de veto, paralisa qualquer tentativa de ação que seja contrária aos interesses de Moscovo. E as crises migratórias não são tratadas como uma ameaça existencial, mas sim como uma questão humanitária. Se olharmos para os últimos grandes conflitos, a ONU falhou em praticamente todos.

Na Síria, assistiu impotente à destruição do país, sem conseguir deter nem Assad nem os jihadistas. Na Ucrânia, limitou-se a condenações formais e a ajuda humanitária. Na crise migratória, não tem conseguido criar soluções estruturais para evitar o êxodo em massa de África e do Médio Oriente. A ONU reflete a correlação de forças do mundo. Sem um consenso entre as grandes potências, o máximo que consegue fazer é emitir resoluções e enviar missões de paz para conflitos menores. Para os desafios que a Europa enfrenta – a Rússia e a pressão migratória – a ONU não será um fator relevante. Se a Europa quiser proteger-se, terá de agir por si mesma. A ilusão de que uma "comunidade internacional" resolveria os seus problemas está fora de qualquer hipótese.

O córtex da ética



A área do cérebro mais associada à ética, moralidade e juízo crítico é o córtex pré-frontal, especialmente as regiões ventromedial (CPFvm) e dorsolateral (CPFdl). O primeiro sendo essencial para a tomada de decisões com base em valores morais e emocionais, está ligado à empatia, julgamento social e à avaliação de ações em termos de consequências éticas; e o segundo, sendo responsável pelo pensamento crítico, planeamento e controlo das emoções e impulsos durante a tomada de decisões. Auxilia na aplicação de regras e normas sociais.

O córtex cingulado anterior contribui para a monitorização de conflitos morais e para a sensação de culpa ou remorso, regulando ações baseadas em normas éticas. Essas áreas interagem com outras partes do cérebro, como a amígdala, para integrar componentes emocionais nas decisões morais. O córtex parietal está associado a aspectos cognitivos e sociais relacionados à moralidade. Juntos, formam uma rede complexa que suporta o comportamento ético e o juízo crítico.

É no córtex pré-frontal que ocorre a avaliação crítica que pode rejeitar reações puramente instintivas. Um exemplo de reação instintiva é o nojo, que é uma participação visceral na revolta ou indignação, como por exemplo diante de imagens de terroristas a libertar reféns. Essa área regula impulsos emocionais mais primários, que passam pela amígdala, e os transforma em julgamentos mais elaborados, considerando os fatores éticos, culturais ou políticos. Ao sentir repulsa por ações ou imagens que simbolizam violência, o córtex pré-frontal pode ajudar a interpretar o contexto ou a rejeitar essas reações instintivas em favor de análises racionais ou reflexões éticas, como o que é certo ou errado diante de cenários como o apresentado.

A imagem de horror projetada pelos jihadistas do Hamas, como atos violentos ou aparições em conferências de imprensa armados e mascarados, pode prejudicar os palestinos como um todo, especialmente no cenário internacional. Muitos observadores passam a associar a causa palestina exclusivamente a esses atos, ignorando o sofrimento humanitário ou as proclamações legítimas de autodeterminação. Isso contribui para reforçar estereótipos negativos, dificultando a empatia e o apoio global aos palestinos, além de enfraquecer os esforços diplomáticos. Na esfera pública, as percepções emocionais frequentemente têm mais peso do que análises racionais ou históricas, prejudicando as populações que vivem sob condições extremas e não têm controlo sobre essas representações.

A repulsa que muitos sentem diante dessas imagens reflete uma resposta visceral à falta de empatia e humanidade demonstrada por ações que parecem glorificar a violência ou o terror. Quando um grupo, como os jihadistas do Hamas, adota uma postura ostensiva de brutalidade, o impacto emocional é profundo: eles acabam por ser percebidos como desumanos e insensíveis, não apenas pelos seus inimigos, mas também por potenciais aliados ou simpatizantes da causa palestina. Isso é devastador para a percepção global da luta palestina, que envolve milhões de pessoas inocentes, muitas delas vítimas de deslocamentos, pobreza e opressão. A falta de empatia exibida por grupos extremistas mina o apoio humanitário e político que poderia ser mobilizado por um discurso baseado na dignidade humana e na justiça, em vez de medo e terror.

É razoável afirmar que ações como as descritas revelam uma grave deformação na decência moral, especialmente quando analisadas sob os princípios universais de empatia, respeito à vida e valores éticos. Indivíduos ou grupos que promovem atos de violência indiscriminada, glorificam o terror e desconsideram o sofrimento alheio, demonstrando uma falha profunda no desenvolvimento moral. Essa falha pode ser atribuída a uma combinação de fatores nomeadamente a doutrinação ideológica extrema, que desumaniza o "outro" e justifica qualquer meio para alcançar os fins. No entanto, é importante reconhecer que essa "malformação" não surge do nada. Muitas vezes, ela é resultado de contextos históricos, sociais e psicológicos degradantes, que perpetuam ciclos de violência e ódio. Isso não justifica as ações, mas ajuda a entender como esses indivíduos chegam a tal ponto de alienação moral.

A crueldade, entendida como a capacidade de infligir sofrimento sem remorso ou compaixão, parece ser uma característica marcante em indivíduos que protagonizam atos tão extremos. Essa crueldade reflete não apenas uma falta de empatia, mas também uma inversão dos valores morais mais básicos, onde a violência e a brutalidade são não apenas praticadas, mas exibidas como forma de poder ou resistência. Essa postura amplifica a desumanização e dificulta qualquer tipo de diálogo ou solução pacífica, pois a crueldade não apenas destrói vidas, mas também aniquila a possibilidade de reconciliação, respeito mútuo e coexistência. É, de facto, um dos traços mais devastadores no comportamento humano, tanto para os que a exercem quanto para os que a sofrem.

O fanatismo ideológico não é exclusivamente uma questão de julgamento crítico atribuído às funções do córtex pré-frontal e cíngulo anterior. Ele envolve também áreas do cérebro ligadas às emoções, recompensa e aprendizagem, criando um sistema integrado que sustenta crenças extremas. A amígdala é responsável por respostas emocionais intensas, como medo e raiva. No fanatismo, a amígdala está muito ativada reforçando reações emocionais exageradas contra grupos percebidos como "inimigos". O estriado ventral, que funciona nas recompensasreforça comportamentos ligados ao prazer, e também à validação social. No fanatismo, a violência ligada às motivações ideológicas, reforça o sentido de realização ligado à pertença, o que cria um ciclo reverberante de reforço positivo.

O hipocampo é crucial para a formação de memórias associativas, que ao consolidar narrativas simplistas, que dividem o mundo entre "nós" e "eles", também contribui para o fanatismo. O córtex da ínsula está relacionado à percepção emocional e à noção de identidade. Pode fortalecer a ligação entre a identidade pessoal e o grupo ideológico, tornando difícil questionar as crenças do coletivo. O fanatismo ideológico é, portanto, uma construção cerebral complexa que une emoção, identidade e recompensa. Isso explica o porquê de ele poder ser tão resistente a argumentos racionais: ele está profundamente agarrado às estruturas emocionais e sociais do cérebro, indo além das áreas dedicadas ao juízo crítico e moralidade.

Há uma associação intrigante entre o fanatismo ideológico extremo e as características associadas à psicopatia. A psicopatia envolve padrões de comportamento que desconsideram o sofrimento alheio e mostra uma falta de empatia, embora os seus mecanismos neurológicos possam diferir em ambos os casos, sobretudo nos circuitos neurais que fazem correr as motivações. Tanto fanáticos como psicopatas desumanizam as suas vítimas. Nos fanáticos, isso é desencadeado pelo ambiente exterior, provocado, por exemplo, por uma ideologia. Ao passo que no psicopata tal disposição é inata. Assim como os psicopatas geralmente agem sem remorso, os fanáticos justificam os seus atos cruéis em nome de um ideal maior. Ambos são insensíveis emocionalmente às consequências das suas ações, porque o que está em causa são objetivos e causas ideológicas.

Os psicopatas tendem a agir apenas para ganho pessoal, ou prazer, enquanto os fanáticos se veem como parte de uma causa maior ou missão moral. Os fanáticos estão fortemente ligados a grupos ideológicos; enquanto os psicopatas são mais individualistas e operam através da manipulação e sedução. Mas ambos envolvem a amígdala no seu processamento neuronal: córtex pré-frontal (controlo de impulsos e julgamento). Mas no fanatismo há uma maior integração de sistemas de identidade e recompensa social.
Na psicopatia, observa-se frequentemente uma subatividade da amígdala e do cíngulo anterior, o que dificulta a empatia e a aprendizagem a partir do remorso. A aproximação entre esses dois comportamentos sugere que, no caso do fanatismo, o comprometimento moral é exacerbado pela racionalização ideológica; enquanto na psicopatia, o que se passa é mais uma falha constitucional dos circuitos neuronais das emoções e da sua ligação aos circuitos do juízo crítico. Seja como for, em ambos, o resultado é devastador.


sábado, 22 de março de 2025

A dupla subjetividade

 

Voltando ao fenómeno da dupla subjetividade: o meu eu real e um ego ainda maior. Como diz S. Paulo "eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim". O lógico platónico declara: "penso, mas cada vez que penso corretamente, não sou eu mesmo, mas a ideia em mim".

A questão da dupla subjetividade reflete um profundo dilema filosófico e espiritual sobre a identidade e o papel do eu em relação ao transcendente ou ao universal. No caso de S. Paulo, a frase "eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim" indica uma transcendência do ego pessoal em favor de uma identidade maior, uma fusão com a divindade ou com um princípio absoluto que molda a vida de forma plena. Esse tipo de experiência sugere uma superação do ego individual, onde o eu se dissolveria em algo mais elevado.

A declaração platónica "penso, mas cada vez que penso corretamente, não sou eu mesmo, mas a ideia em mim" aponta para uma humildade do eu enquanto sujeito, sendo o Logos que assume o protagonismo. E essa é que é a Verdade. Neste pensamento herdado dos gregos clássicos que abunda nos escritos de Platão, a Verdade no pensamento não é uma mera expressão da vontade ou desejo do indivíduo, mas uma participação numa ideia universal, algo que transcende a particularidade do eu humano. A verdadeira essência ou identidade do sujeito se desvia para uma realidade que é a linguagem, e o intelecto que resulta dela. E o nosso esforço de humildade é superar o ego individual abraçando algo que é universal e circula no âmbito da linguagem a que os gregos clássicos deram o nome de Logos. Portanto, São Paulo vai beber ao grego platónico o Logos. E é daí que parte para a dualidade da subjetividade onde o ego não é mais o centro exclusivo da experiência, mas sim um reflexo ou um veículo de algo maior. 

O fenómeno da dupla subjetividade pode ser entendido, então, como a tensão entre o ego pessoal, que busca afirmar a sua identidade e autonomia, e uma dimensão mais profunda de existência, em que o sujeito se perde para se encontrar em algo maior que ele mesmo. A dialética entre esses dois estados é uma das grandes questões que atravessa as tradições filosóficas e espirituais, e é central para a compreensão do sentido da vida e da evolução espiritual ou intelectual do ser humano.

O ego das pessoas só acredita naquilo que quer ouvir. E o que quer ouvir foi capturado pelos seus desejos. E os desejos são hedonistas. As pessoas não se importam de ser enganadas, desde que o faz-de-conta seja mais agradável e as faça ser felizes. Infelizmente aprendemos as verdades apenas à custa de muito sague, suor e lágrimas. É trágica a condição humana. O desejo de prazer imediato é reforçado por sistemas económicos e culturais que incentivam o consumo, a superficialidade e a gratificação instantânea, enquanto desencorajam o sentido crítico e as reflexões profundas.

A "felicidade" baseada no autoengano é frágil, mas enquanto funciona, parece suficiente. É só quando a realidade chega à hora de cobrar é que o véu é rasgado. E é então nessa altura que as pessoas sabem o que custa a vida. Mas nessa altura já pode ser tarde de mais. Os custos são brutais. Não é preciso que tenha de ser a 3ª Guerra Mundial. Cada vez há mais mortes e destruição de casas. Ora secas, ora vendavais e inundações. Tempestades que trazem consigo mais migrações humanas. E dessa forma mais instabilidade social. E a Natureza ainda tem uma cereja que vem na forma de erupções vulcânicas, terremotos, que amplificam ainda mais o caos e a desgraça.

Há quem diga que a visão dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse vislumbra através da destruição a verdadeira purificação, a renovação. Historicamente, as crises mais devastadoras forçaram mudanças profundas. A Segunda Guerra Mundial forçou os europeus a uma reconstrução de uma Europa melhor. Apesar do horror, ela gerou um compromisso renovado com a paz (pelo menos por algumas décadas) com avanços tecnológicos e sociais. No entanto, o que torna o cenário atual particularmente desafiador é o potencial de autodestruição total. Se até aqui se puderam reconstruir, após crises localizadas, coisas melhores, hoje a escala global das ameaças pode não deixar espaço para uma segunda oportunidade. O mito dos Quatro Cavaleiros é uma advertência universal. Eles nos lembram que os desequilíbrios humanos -- ganância, violência, negligência ambiental -- cobram-se com preços muito elevados. A questão otimista é: estamos conscientes desse preço e interessados em pagá-lo? Mas a questão pessimista é: teremos sempre que pagar um alto preço para continuar a sobreviver; só não se sabe quando, nem com que intensidade. Mesmo depois da catástrofe, a humanidade será capaz de encontrar uma forma de reconstruir um sistema mais justo e sustentável? Ou as forças destrutivas prevalecerão de forma definitiva? Quem vai ter de responder à pergunta provavelmente ainda não nasceu. Ou estará quase a nascer? A história humana sugere que as gerações que enfrentam crises podem, paradoxalmente, mostrar uma resiliência surpreendente. Muitos dos avanços tecnológicos e sociais vieram de contextos de escassez e destruição.

A China de Xi Jinping

 

A liderança de Xi Jinping tem-se concentrado em equilibrar vários desafios, tanto internos como externos, com um foco particular na preservação da estabilidade política e na continuação do crescimento económico, embora com um modelo mais sustentável e focado em autossuficiência. A principal prioridade do Partido Comunista Chinês (PCC) sob Xi é manter o seu controlo absoluto sobre o país, e ele tem feito isso através de um fortalecimento contínuo da sua posição política e de uma grande centralização do poder incluindo a economia​. Embora o crescimento económico continue a ser importante, a ênfase de Xi tem sido na redução das dependências externas, com políticas voltadas para revitalizar as empresas estatais e promover inovação tecnológica doméstica. Isso tem sido em parte uma resposta ao envelhecimento populacional, altos índices de desemprego juvenil e desigualdade social, que são vistos como desafios estruturais que o país precisa enfrentar a longo prazo​.

No entanto, a relação com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos, continua um grande desafio. A China, sob a liderança de Xi, tem procurado minimizar os riscos de "desacoplamento" económico, embora a sua política externa frequentemente entre em confronto com as potências ocidentais numa competição estratégica que pode afetar as relações globais​. Portanto, enquanto a China mantém seu foco em crescer e enriquecer, as condições internas e externas, como a rivalidade com os EUA e a necessidade de ajustes económicos, podem tornar esse caminho mais difícil, e os resultados a longo prazo são imprevisíveis.

A questão de Taiwan continua sendo um dos maiores pontos de tensão na política externa da China. Sob a liderança de Xi Jinping, Pequim tem deixado claro que considera Taiwan uma província da China, com planos de reunificação. No entanto, a forma como essa reunificação será alcançada ainda é incerta. Xi tem reiterado a importância da reunificação pacífica, mas também não descartou o uso da força, especialmente diante do apoio internacional crescente à autonomia de Taiwan e da presença militar dos EUA na região​. A questão é complicada não apenas pela resistência de Taiwan, que possui um governo democraticamente eleito e se opõe a qualquer forma de integração forçada, mas também pelo impacto geopolítico global. Os Estados Unidos têm-se comprometido a apoiar Taiwan, apesar de sua política de "uma só China", que reconhece oficialmente Pequim como o único governo legítimo da China. Isso cria um cenário delicado, onde qualquer movimento mais agressivo por parte de Pequim poderia desencadear um conflito maior, envolvendo não apenas a região, mas potências globais como os EUA​.

Além disso, a economia chinesa, com a sua interdependência com o Ocidente, também se vê afetada por qualquer escalada em Taiwan, uma vez que a estabilidade regional é crucial para o comércio e a cadeia de suprimentos globais. A China, portanto, tem de equilibrar os seus objetivos de reunificação com a necessidade de manter relações económicas estáveis e evitar uma guerra aberta que prejudicaria a sua própria prosperidade​. Por enquanto, o futuro de Taiwan continua a ser uma questão estratégica e de grande complexidade para a China, com o risco de um erro de cálculo que possa levar a uma escalada militar, afetando não apenas a região, mas todo o equilíbrio geopolítico global.

A China, sob a liderança de Xi Jinping, tem-se mostrado bastante cautelosa em relação à guerra nuclear e desaprova a retórica agressiva de Vladimir Putin a esse respeito. A posição da China em relação ao uso de armas nucleares tem sido de longo prazo e é centrada no princípio de "não ser o primeiro a usar armas nucleares", uma política que reflete um desejo de evitar uma escalada militar que poderia resultar em destruição mútua. A China tem enfatizado a estabilidade estratégica e tem procurado reduzir o risco de uma guerra nuclear, preferindo negociar e manter uma abordagem mais diplomática para resolver as suas disputas geopolíticas. Além disso, a China tem-se distanciado da abordagem mais beligerante do Kremlin, especialmente à medida que as tensões globais aumentam. Beijing vê a escalada nuclear como um risco inaceitável, não apenas para a segurança regional, mas também para a sua própria prosperidade e o futuro de suas relações internacionais, especialmente com o Ocidente e países vizinhos. Embora a China tenha sido aliada estratégica da Rússia em algumas frentes, a situação da guerra na Ucrânia e a retórica nuclear de Moscovo colocam Pequim numa posição desconfortável. Em termos de políticas nucleares, a China tem tentado reforçar a ideia de que a utilização de armas nucleares deve ser um último recurso, caso seja necessário para a defesa nacional. Isso contrasta com a postura mais agressiva e provocadora da Rússia, que, especialmente sob Putin, tem elevado a ameaça nuclear em suas declarações. Para a China, uma guerra nuclear representaria uma catástrofe que também minaria os seus próprios interesses económicos e a estabilidade política interna.​

Assim, a China, provavelmente prefere distanciar-se das ameaças nucleares do Kremlin, buscando garantir a sua posição como uma potência global responsável e evitando ser vista como cúmplice de uma retórica perigosa. A ênfase chinesa numa abordagem pacífica para resolver disputas reflete a sua percepção de que um conflito nuclear seria, além de destrutivo, contraproducente para os objetivos de longo prazo da nação.