quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Neve, de Orhan Pamuk



É talvez o romance que melhor condensa o conflito interior da Turquia moderna: um país suspenso entre o Islão e o secularismo, entre o desejo de pertença à Europa e a nostalgia do seu próprio passado otomano. Pamuk transforma Kars, a cidade fronteiriça coberta de neve onde decorre a ação, num microcosmo da alma turca – isolada, melancólica, dividida.

Ka, o protagonista, é um poeta exilado na Alemanha que regressa à Turquia para cobrir uma série de suicídios de jovens muçulmanas impedidas de usar o véu nas escolas –símbolo supremo do choque entre a laicidade republicana e a fé islâmica. Mas a viagem de Ka é também interior: ele reencontra o país que já não compreende e o amor que nunca soube viver. A neve, omnipresente, é metáfora da pureza impossível, do silêncio e da suspensão do tempo. Uma espécie de parêntese onde tudo se torna visível, mas nada se resolve.

Pamuk mostra que a laicidade turca, imposta de cima por Atatürk, é uma construção tensa e artificial – uma “modernidade melancólica”, feita de desejo europeu e ressentimento oriental. O tom elegíaco de Neve revela a consciência de que o projeto secular não conseguiu substituir o papel espiritual da religião, mas também que o retorno ao fanatismo é uma forma de desespero. Ka, dividido entre a razão e o sentimento, acaba por encarnar a própria Turquia: um homem sem chão, condenado a olhar para o Ocidente com inveja e para o Oriente com saudade.

O espelho é inquietante. A Europa secular, que já foi modelo para a Turquia de Kemal Atatürk, vive agora a sua própria melancolia: perdeu a fé na sua vocação moral e universalista, e vê crescer, nas suas margens e dentro de si, a mesma tensão entre laicidade e identidade. O vazio espiritual que atravessa Neve ecoa hoje nas sociedades europeias. Não mais entre o Islão e o cristianismo, mas entre o racionalismo técnico e a necessidade de sentido. Pamuk pressente, com trágica lucidez, que o problema não é a religião nem o secularismo, mas a solidão metafísica do homem moderno, privado de transcendência. A neve de Kars cai, branca e silenciosa, sobre a Turquia. Mas também, metaforicamente, sobre a Europa inteira.

Em Neve, Orhan Pamuk transforma a cidade de Kars – isolada pela tempestade, branca e muda – num espelho da alma turca, dividida entre o legado otomano e a promessa europeia. O romance é, à primeira vista, uma narrativa política sobre o conflito entre laicidade e fé, mas, em profundidade, é um retrato metafísico da melancolia de um país que já não acredita plenamente em nada. Ka, o poeta exilado na Alemanha que regressa à Turquia, parte como observador racional: vai investigar os suicídios de jovens muçulmanas proibidas de usar o véu nas escolas. Contudo, à medida que a neve o envolve, a objetividade do repórter dissolve-se. O frio e o silêncio tornam-se metáforas do desencanto espiritual de um homem que, como a própria Turquia, perdeu a fé na modernidade e não consegue regressar ao consolo da tradição.

Pamuk revela com subtileza o paradoxo da laicidade turca. Kemal quis criar um Estado europeu no corpo de uma nação asiática, substituindo o sagrado pela Razão e o Imã pelo Cientista. Mas essa modernidade imposta de cima deixou um vazio: quando a religião é afastada à força, o espaço que ela ocupava na alma não desaparece – apenas se converte em melancolia. Kars, na ficção de Pamuk, é o retrato desse impasse: uma cidade coberta pela pureza aparente da neve, mas onde se acumulam o medo, o desejo e o ressentimento. A “melancolia turca” de Neve é, no fundo, o pressentimento de uma crise que já é europeia. Hoje, a Europa vive a mesma fadiga espiritual que a Turquia ensaiou sob a neve. Laica, racional e tecnocrática, já não acredita nas grandes narrativas que a fundaram – nem cristãs, nem iluministas –, e observa com desconforto o regresso das identidades religiosas e nacionais que julgava ultrapassadas. Em Pamuk, a fé e a descrença não são inimigas, mas irmãs tristes: ambas procuram um sentido que se esvaiu. O islão, que regressa como refúgio, e a laicidade, que sobrevive como hábito, partilham o mesmo destino de orfandade. Assim também a Europa, que quis ser universal, descobre-se provinciana e exausta.

A neve que cai sobre Kars, branca e imaculada, simboliza essa suspensão do tempo em que nem o Oriente nem o Ocidente conseguem avançar. É o instante em que o homem moderno reconhece que o secularismo não cura a sede de transcendência, e que o retorno ao sagrado não basta para restaurar o sentido. Pamuk não oferece soluções; oferece o frio. No seu mundo, a neve é a forma visível do silêncio de Deus. Um silêncio que cobre igualmente Istambul e Berlim, Kars e Paris. É nesse silêncio que a modernidade se escuta a si mesma, tentando ainda acreditar que, debaixo da neve, algo pulsa.

Essa mesma pulsação subterrânea pode ser ouvida noutros escritores europeus da melancolia moderna. Em W. G. Sebald, o tempo congela sob o peso da memória e da culpa histórica; em Michel Houellebecq, a descrença torna-se tédio e pornografia emocional; em Peter Handke, o homem contempla o mundo com uma nostalgia que já não tem objeto. Pamuk partilha com eles a consciência de que o secularismo ocidental, ao libertar o homem de Deus, o deixou só diante do nada. Entre a neve de Kars e as paisagens desoladas de Sebald ou Houellebecq corre o mesmo fio: a modernidade como inverno espiritual. E talvez seja esse o grande mérito de Neve: mostrar que, sob diferentes geometrias culturais, turcos e europeus habitam o mesmo crepúsculo.

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