segunda-feira, 20 de outubro de 2025

As mundividências na arte: apolínea e dionisíaca


Segundo a mitologia, Zeus teria atribuído uma medida apropriada e um limite certo a cada ser. E essa medida teria de ser contemplada pelos que governam o mundo sob os auspícios das quatro frases escritas nas paredes do Templo de Apolo em Delfos: o mais justo é o mais belo; observa os limites; odeia a hybris; nada em excesso. É nestas regras que os gregos observavam o belo. E era este o senso comum grego da Ordem, em oposição ao Caos. sob os auspícios de Dioniso, com quem os gregos observavam o feio. Em Delfos celebrava-se o belo sob a proteção de Apolo. No frontão ocidental do Templo de Delfos figurava Apolo entre as musas.



Ruinas do Templo de Apolo: o centro do Oráculo de Delfos e Pítia com vista para o vale da Fócida



Ilustração especulativa de Delfos em seu apogeu pelo arquiteto francês Albert Tournaire

Mas neste mesmo templo (que remonta ao século IV a.C.) Dioniso é representado no lado oposto, no frontão oriental, infringindo as regras. Nietzsche viu bem isso no Nascimento da Tragédia. É esta a antítese: a apolínea, do domínio do visual; e a dionisíaca que é do domínio da música. Esta, é apanágio da desordem, o lado escuro, uma espécie de provocação ao lado luminoso, belo, que é apanágio do domínio do visual. Por conseguinte, a música, recai na esfera de ação de Dioniso. Esta diferença é compreensível, se pensarmos que uma estátua devia representar uma ideia no sentido platónico, enquanto a música era entendida como algo que suscita paixões.
Em outubro de 2024, os Museus do Vaticano reinauguraram o famoso Apolo de Belvedere, escultura emblemática do século II. Após quase cinco anos de trabalho com tecnologia de ponta, uma barra de carbono e aço inserida em sua base e fragmentos de gesso que datam dos séculos V e VI a.C. considerada a quintessência da beleza e da arte que voltou a estar disponível ao público. A peça de mármore de 2,24 metros representa o deus Apolo caminhando com o braço esquerdo estendido após disparar uma flecha com o seu arco. Havia sido descoberta em Roma em 1489 entre as ruínas de uma antiga domus e levada ao Vaticano pelo Papa Júlio II (1503-1513). Os trabalhos de restauração da obra custaram cerca de 150 mil euros, além dos 100 mil euros do projeto de renovação, e foram parcialmente financiados pelos Patronos da Arte dos Museus do Vaticano. A revitalização da estátua foi iniciada após “graves danos estruturais” terem sido detectados em 2019.


Vaso Pronomos, cerâmica ática, 410 a.C., representando uma companhia de teatro completa - com atores, um coro de sátiros, músicos, ménades e um poeta - junto com Dionísio e Ariadne, está em exposição no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles

E em São Petersburgo, no Museu Hermitage, pode ver-se um vaso com figuras vermelhas, datado de 500 a.C., que segundo diz a legenda representa Apolo e as musas. 

Chegados ao século XIV, a beleza é concebida segundo uma dupla orientação que parece contraditória, agora, mas na altura parecia coerente. A beleza passava a ser a imitação da natureza segundo regras cientificamente estabelecidas, quer como contemplação de um grau de perfeição sobrenatural, não perceptível pela visão. Vivia-se o clímax do misticismo neoplatónico gótico. Dão então entrada as artes liberais com novas técnicas pictóricas na Flandres, e a visualização tridimensional italiana. A beleza é mágica. É tempo de entrar em cena Leonardo da Vinci simultaneamente criador, inventor, e imitador da natureza. Em vez da repetição maciça das formas é o sfumato (esfumado) que torna enigmática a imagem do rosto feminino.


O conhecimento do mundo visível torna-se o meio para o conhecimento de uma realidade ordenada segundo regras logicamente coerentes. O pintor é dono de todas as coisas que podem cair no pensamento humano. É senhor de gerar a beleza nas coisas que quiser. E também de gerar coisas monstruosas, se quiser. Do ponto de vista social o Renascimento é, pela natureza das forças que o agitam, incapaz de se aquietar num equilíbrio que não seja lábil, e provisório. Entra-se aqui numa dialética entre a harmonia e a proporção das partes de que se havia ocupado Platão por influência pitagórica; e o esplendor neoplatónico que Platão havia exposto em Fedro. No Renascimento, a chamada "grande teoria" atinge um alto grau de perfeição, segundo a qual a beleza consiste na proporção das partes. Ao mesmo tempo assistimos ao surgimento de forças centrífugas que impelem para uma inquietação surpreendente. O progresso das ciências guiadas pela Matemática, com que o Renascimento havia relançado a "grande teoria", leve à descoberta de harmonias mais complexas.

Em todos os séculos, filósofos e artistas sempre forneceram definições do Belo. Por isso, graças aos seus pensamentos é possível reconstruir uma história das ideias estéticas através dos tempos. Mas a fealdade aconteceu de maneira diferente. Na maioria dos casos, definiu-se o Feio em oposição ao Belo. Mas quase nunca se lhe dedicaram tratados extensos, somente alusões paramétricas e marginais. Portanto, embora uma história da beleza se possa servir de uma ampla série de escritos teóricos, dos quais se pode deduzir o gosto de uma época, uma história da fealdade, na maioria dos casos, nunca existiu. 
Podemos somente supor que os gostos das pessoas comuns corresponderiam, de algum modo, aos gostos dos artistas do seu tempo. Neste contexto, quão desagradável, quão feia é a representação pictórica de um Cristo na Cruz ?


Dizer que belo e feio são relativos consoante os tempos e as culturas não significa que não se tenha sempre procurado vê-los como definitivos em relação a um modelo estável. Darwin relevava que o que provoca o desagrado numa dada cultura nem sempre o provoca noutra, e vice versa. Conclui que há vários indícios do desprezo e do desagrado idêntico numa grande parte do mundo. Nesse sentido, alguns filósofos interrogam-se se se poderia pronunciar um juízo estético de fealdade visto que o feio provoca reações passionais, como o desagrado descrito por DarwinEntre o feio em si e o feio formal temos a representação artística dos dois.

Em Platão, o mundo das ideias é que era o verdadeiro mundo. O real. E tudo o que existia no mundo das ideias só podiam ser belas, perfeitas. O belo era exclusivo do mundo das ideias. Portanto, o feio existiria só na ordem do sensível como aspecto da imperfeição do universo físico em relação ao mundo ideal. É na linha de Santo Agostinho, e de São Tomás de Aquino, no pensamento escolástico, que encontraremos vários exemplos de uma justificação do feio no quadro da beleza total do universo, onde também as deformidades e o mal ganham o mesmo valor. Entre luzes e sombras se manifesta a harmonia do conjunto. Diz-se que também os monstros são belos enquanto são seres. E como tais, contribuem para a harmonia do conjunto em que o pecado rompe a ordem das coisas. A ordem é restabelecida pelo castigo. Os condenados ao inferno em Dante são exemplo de uma lei de harmonia. Ou então, procurar-se-á atribuir a impressão de fealdade aos nossos defeitos perceptivos pelos quais, para alguns, o feio pode parecer por defeito, ou falta de luz. A distância; ou o olhar de viés; ou o ar do tempo nevoento: deformam o contorno das coisas.

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