segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Consciência intencional e fenoménica

Todo aparecimento, ou surgimento, é fenoménico. E todos os fenómenos são surgimentos interdependentes. A fenomenologia mente/mundo acontece, numa continuidade interdependente. Assim, a vida no nosso dia-a-dia, quando aparece, é da ordem do fenomenal.

Tínhamos visto em artigos anteriores que era possível distinguir os estados mentais fenomenais, as vivências conscientes sem objeto, dos estados de consciência intencionais, ou seja, aqueles estados definidos por serem acerca de algo, como por exemplo as crenças e os desejos. E tínhamos constatado, depois da leitura dos livros de António Damásio, que era compatível o estado de vigília com a ausência de qualquer tipo de consciência. É mais ou menos o que podemos encontrar na escala animal, por exemplo, ao nível dos insetos, em que há vigília mas não há consciência. Mas como há sensibilidade, se bem que de um tipo automático, é consensual classificar o sensível dentro daquilo que se convencionou chamar de mental. Portanto, a mosca também é um ser com uma mente, por mais rudimentar que possa ser. Mas se aqui ainda hesitamos, ninguém contesta a mente do cão e do gato, neste caso já com algum grau de consciência.

A consciência fenoménica, que autores da tradição analítica preferem referir-se a ela através de termos tais como: “qualia” e “imagens mentais” é aquela que acompanha a nossa experiência vivida. E a consciência intencional é a que acompanha o conhecimento das coisas. É acerca de algo.
Embora neste artigo não caiba o questionamento acerca da passagem dos padrões neurais localizados no cérebro para a consciência fenomenal, podemos usar o sentido da visão para tentar perceber melhor a diferença entre visão e perceção visual. E podemos utilizar o exemplo da visão cega, um caso da patologia neurológica, para percebermos o que difere o visível do percetível. As vítimas com este tipo de lesão cerebral veem coisas mas não têm consciência de que as veem. Quando lhes mostramos um objeto, e lhes perguntamos o que estão a ver, eles respondem que não estão a ver nada. Mas depois. Quando interrogados acerca de aspetos desse objeto, eles sabem responder. Ou seja, eles perderam a fenomenalidade consciente do objeto, isto é, a experiência do objeto através do contacto visual com ele, mas não perderam a sua intencionalidade, pois ficaram a saber algo acerca do objeto.

Assim, na experiência visual, ou visão, há fenomenalidade através da impressão sensorial. E na perceção há conhecimento do objeto. Estamos cientes de alguma coisa. Mas isso não significa que a perceção tenha que ser representacional de dados dos sentidos acerca do objeto. Será mesmo a representação do próprio objeto, que é material e real. Uma perceção deste género é uma perceção real, que a distingue de um outro tipo de perceção que é virtual e a que se dá o nome de alucinação. A perceção material resulta de uma experiência visual de um objeto material no mundo. Ao passo que na alucinação não há uma experiência visual de objeto material porque o objeto não existe. A alucinação é uma experiência percetiva e não uma experiência visual.

Portanto, acabamos de ver que percecionar um objeto não é a mesma coisa que ver um objeto. A perceção é já um processamento mental de objeto. E o objeto tanto pode ser material como virtual. E a perceção é sempre acerca de algo. E é a este “acerca de algo” que gira o conceito de intencionalidade. Esta decomposição visão/perceção acaba por ser uma conceção mais realista do que representacionalista. Não se tratando, contudo, de realismo ingénuo. A realidade da nossa perceção do mundo vai até onde os órgãos dos sentidos nos podem levar. E isso é determinado pela Natureza, à medida da sua História evolutiva.

O tipo de perceção que temos do mundo é fruto de um processo evolutivo de cooptação em que somos ativos em nos acoplarmos ao mundo o melhor possível para sobrevivermos. A aptidão é variável. Por exemplo, as águias poderão ser melhores do que nós a ver certas coisas. A visão delas é pentacromática, ao passo que a nossa só é tricromática. E enquanto nós temos por milímetro quadrado de retina 200.000 células fotossensíveis, as águias têm um milhão. A perceção também é indissociável da ação. E a Natureza não é fixa, pois está em constante mudança e transformação. Por isso, faz mais sentido conceber a evolução da Natureza como um todo, organismos e ambiente. Mudar e evoluir é a essência da Natureza. Não é só o ambiente que é Natureza. Nós também somos Natureza. O ambiente não pode ser separado daquilo que os organismos fazem, e vice-versa. Os organismos não são determinados separadamente do ambiente. É preciso lembrar que dos 4600 milhões de anos que a Terra tem, 3600 milhões já foram passados com a existência de vida. E esta participa na feição da do planeta, com é o caso da composição da sua atmosfera. Por exemplo, o oxigénio deve-se, praticamente, à vida.

Por conseguinte, é muito mais acertado considerar que os seres vivos e o ambiente mantêm uma correlação que se especifica mutuamente. A história evolutiva de cada espécie é específica. E cada história de adaptabilidade, ou melhor, de adequabilidade e aptidão, é produzida por acoplamento evolutivo. E isto é uma Lei da Natureza. Uma Força da Natureza.

Assim, a perceção é a capacidade que se tem de penetrar num mundo compartilhado. É uma interpretação. Daí a boa medida na perceção não ser encontrada, nem através de uma atitude radicalmente objetiva, nem numa atitude radicalmente subjetiva. Não há um sujeito como se fosse um objeto, mas também não há objetos prontos no mundo a servirem de um fundamento para a verdade sobre a realidade. Não há sujeitos independentes a descobrir mundos fixos e sólidos. O que há são experiências vividas, entre aquilo que pensamos ser uma mente, e aquilo que pensamos ser o mundo. Não há independência absoluta da mente em relação aos objetos. E esse tem sido o principal problema difícil de ultrapassar.

A consciência intencional é uma aptidão de ação que se faz através da perceção e não de representação de dados dos sentidos. Nem de representação de algo fixo lá fora. E como uma das bases da cognição é a perceção, consequentemente se deduz que a cognição é ação, através de uma história de acoplamento evolutivo bem-sucedido.

sábado, 5 de Julho de 2014

A dor sentida

Fala-se aqui da fenomenologia da dor sentida na primeira pessoa, que noutro tipo de terminologia se diz ser a subjetividade da dor e não a objetividade descrita epistemologicamente pelo neurocientista na terceira pessoa pela observação dos processos causais ao nível da neurofisiologia.

Ao nível da fenomenologia, ao nível do sentir, não ao nível da descrição da neurofisiologia, o estatuto do pronunciamento “sinto dor” é de uma ordem diferente do relato do fisiologista após observação de factos internos ao nível dos mecanismos causais da dor.

A experiência pessoal da dor é de uma fenomenologia tal que não faz sentido perguntar, porque não tem resposta, “como é que sabes que estás a ter uma dor e não uma comichão?”. Nós só podemos dizer que sabemos distinguir uma dor de uma comichão, mas não podemos responder em termos epistemológicos como é que sabemos, para dizer que sabemos distinguir uma dor de uma comichão.

O “sentir” tem um estatuto que não se acomoda às problemáticas teorias do conhecimento na terceira pessoa. O médico, perante o paciente que o consulta e se queixa de dores de cabeça (e é curioso que não diz que se queixa de dores na cabeça), faz perguntas acerca das características da dor, como por exemplo: onde dói mais precisamente. E o paciente pode responder que é em toda a cabeça, mais interior do que exterior; se é muito ou pouco intensa; se é em aperto ou tipo picadelas; etc. Depois o médico vai tentar entrar dentro da cabeça do paciente, através dos conhecimentos científicos que tem, para tentar encontrar uma explicação fisiológica, tenta entrar no lado “sub-pessoal” do paciente que é, ao-fim-e ao-cabo, o espaço onde está o cérebro, o lado neurofisiológico. É o lado “sub-pessoal”, para o contrapor ao lado “pessoal”, que é o nível subjetivo.

Dor sentida, como termo de linguagem fenomenológica, não tem cabimento a sua utilização na linguagem científica quando descreve o cérebro e o demais funcionamento. Ora, daqui se pode concluir que o nível pessoal é o nível da consciência. Para existirem dores, cuja realidade só faz sentido considera-las ao nível pessoal, ao nível da fenomenologia subjetiva da primeira pessoa, tem de existir consciência.

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Factos observacionais puros e asserções acerca de factos

A propósito de mais um táxon de Archaeopteryx recém-descoberto na Baviera, em que é afirmado: “ser um facto que a generosa cobertura de penas por todo o corpo não foi inventada para voar”, não deixa de fazer jus ao lema muito conhecido que diz que a ciência deriva dos factos observacionais.

Pode ser um facto para paleontologistas, que tiveram de educar os seus olhos e os cérebros para saber ver estas coisas. Mas não é para um indivíduo que apenas se movimente no conhecimento de senso comum. Acreditar em factos por apelo ao que se vê pode não ser assim tão certo. Porque a informação que chega ao cérebro de um paleontólogo a partir de um achado arqueológico que lhe entra pelos olhos, não é interpretada da mesma maneira por outra pessoa que não possua o mesmo quadro de referência conceptual.

Não pode estar certa a tese de que para termos uma perceção da verdade dos factos basta captá-los através dos órgãos dos sentidos. As perceções não são determinadas apenas pelos objetos vistos numa experiência visual. Pelo menos em ciência, é preciso aprender a ser um observador competente. E para além disso, o que importa em ciência são as asserções. É necessário distinguir as asserções acerca de factos das próprias perceções de factos. Eu estou a falar aqui acerca do Archaeopteryx porque é um facto que só se me tornou acessível porque uma equipa de paleontólogos o transmitiu através de asserções que por sua vez derivaram das suas observações.

Ora, como é que se transformam perceções em palavras para asserir aquilo que asserimos? Aqueles que desejam defender que o conhecimento científico deriva de factos tem de ter em mente que asserções não são perceções. Dado que os factos, que podem constituir base apropriada para conhecimento científico, têm de assumir a forma de asserções, a tese de que os factos nos são dados por observação direta através dos sentidos não pode estar certa. Seria um absurdo pensar que as asserções factuais entram no cérebro através dos sentidos.

Dali se conclui que o paleontólogo para dizer o que diz, e para poder formular e acreditar naquilo que diz, tem de possuir um quadro de referência conceptual apropriado, e saber como aplicá-lo. E são certamente pré-requisitos de conhecimentos avançados. Por isso, aquela ideia de que primeiro estabelecemos os factos por via da informação captada através dos estímulos na forma de raios de luz, que nos entram pelos olhos e vão até ao cérebro, e só depois a partir daí é que derivamos o nosso conhecimento, não pode estar certa.

Atenção, dizer isto não é o mesmo que dizer que o conhecimento científico sólido prescinde da base factual estabelecida pela observação. Não prescinde. Mas para fazermos as afirmações que fazemos no campo da ciência baseada na observação, temos de o fazer no quadro de referência conceptual apropriado. A verdade ou falsidade de certas afirmações com pretensão de científicas pode ser estabelecida pela observação. Mas para isso temos de saber previamente dominar as técnicas observacionais apropriadas. A comprovação está dependente de conhecimento prévio para se saber o que procurar.

E assim se explica por que Karl Popper deu tanto apreço à sua tese da falsificabilidade: “Para uma asserção ser refutável ou falseável, em princípio será possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que tente mostrar que essa asserção é falsa”. Assim, teorias que ainda há muito pouco tempo eram de uma solidez inexpugnável, à prova de tudo, de um dia para o outro veem-se cair por terra, só porque uma nova observação veio invalidar uma suposta verdade anterior. E a história da ciência está cheia disto. 

quarta-feira, 2 de Julho de 2014

A categorização experiencial

Na atividade cognitiva, uma das atividades mais fundamentais que todos os organismos executam é a categorização. Assim, a singularidade de cada experiência é transformada no conjunto mais limitado de categorias apreendidas às quais os seres humanos, e outros organismos, atribuem significado.

Como é que nós conhecemos o mundo? A abordagem da resposta a esta pergunta terá e ter em conta, entre muitas coisas, as leis da perceção. A perceção não envolve apenas a estimulação passiva dos nossos sentidos por estímulos vindos do mundo, mas também envolve a nossa ação para melhor nos acomodarmos ao contacto do corpo com esses estímulos.

As nossas estruturas cognitivas emergem de padrões sensoriomotores que também guiam o corpo para captar as regularidades do mundo nas melhores condições possíveis. O nosso organismo não é um recetor passivo que meramente reage a estímulos. Há que considerar o comportamento de ajustamento que condiciona e é condicionado numa interação constante e co-dependente. Há uma acomodação do organismo ao mundo para expor os órgãos de forma que melhor sirva o processo de conhecimento por coaptação. Isto claro de acordo com a sua natureza e as leis que regem os mecanismos fisiológicos entre os contactos sensoriais e as redes neuronais no cérebro.

O organismo seleciona a parte do mundo que mais interessa a cada momento para a captação da realidade. Há um ambiente próprio e singular que emerge do mundo para satisfazer necessidades de conhecimento, através do próprio corpo que se coadapta com o mundo. Por conseguinte, o organismo percetivo na sua situação localizada, guia as suas ações atuando no mundo por forma a melhor o conhecer. Isto é mais do que representação, mais do que mera fotografia recuperando propriedades do mundo como se fosse estático e pré-estabelecido. As situações locais do mundo estão em permanente alteração, já para não falar do que está sempre a mudar na atividade do agente da perceção. Para que o conhecimento aconteça tem de haver uma modelagem nos dois sentidos, entre a estrutura sensoriomotora do sujeito e as ligações com o mundo, e vice-versa. Organismo e ambiente estão ligados, numa especificação e seleção recíprocas, moldando-se mutuamente. Por exemplo, para vermos uma determinada porção de mundo não basta o estímulo do ambiente e a mera extração passiva da sua impressão nos órgãos dos sentidos. É preciso uma atenção ativa, passe o pleonasmo, que guie os órgãos e os oriente para uma visão adequada. Para experienciarmos os objetos do mundo lá fora temos de dirigir ativamente as partes do corpo que interessam.

Um outro aspeto que importa salientar é que nesta conceção não é útil a ideia de representação. Nós atuamos por forma a criar padrões de significado através da configuração de padrões neuronais, numa dinâmica de aparecimento e desaparecimento rápido, em que entram em jogo não só os circuitos sensitivos e motores, mas também os circuitos das emoções. É o conjunto dinâmico destas três estruturas básicas que vão dar origem a interpretações cognitivas com a sua tonalidade afetiva. Assim, o conhecimento do mundo emerge de estruturas sensoriomotoras recorrentes, que constroem padrões fenoménicos do mundo, obedecendo a leis naturais e lógicas. Há, de facto, leis que regem a coadaptação dos organismos ao mundo. Por isso, experiência, interpretação e categorização não se dão de forma arbitrária.

Assim, há padrões não arbitrários de categorização ao nível mais básico e inclusivo de certas estruturas lógicas tais como: espaço/tempo; dentro/fora; parte/todo; etc. E é nestas estruturas básicas que a linguagem assenta para formar as palavras e os seus significados, que podem mudar á medida que evolui a relação do corpo/mente com o ambiente. O conhecimento e os conceitos a priori não preexistem em nenhum lugar. Daí que as estruturas conceptuais significativas da cultura, com sentido histórico, sejam um produto da própria estrutura natural do corpo em experiência, ou seja, em interação contínua e permanente com o ambiente.

Falemos, por exemplo, da cor como categoria experiencial. É inadequada a ideia de indagar a localização da cor quando ela aparece. A cor é produzida no ato de ser apercebida. A categoria experiencial da cor envolve não apenas o fenómeno percetivo mas também a sua vertente cognitiva, conjunto limitado de categorias às quais damos nomes. As categorias não se encontram já prontas a ser servidas num mundo preestabelecido. É no ato de apercebimento que as cores são encontradas, longe da dicotomia fora/dentro da cabeça.

A categorização experiencial não pode restringir-se apenas à categoria das coisas. É importante atender à categoria dos acontecimentos, ou eventos. Foi Leibniz quem inventou o princípio da razão suficiente para explicar a existência dos próprios acontecimentos para além das coisas substanciais. Quando pensamos na estrutura fundamental da realidade é comum esquecermos o seu aspeto dinâmico. Isto, claro, se aceitarmos como uma boa intuição metafísica básica o facto de haver realmente acontecimentos irredutíveis a qualquer outra categoria metafísica. Este é o problema da mudança ao longo do tempo. Portanto, para explicarmos adequadamente a realidade, tal como é, não podemos prescindir da categoria dos acontecimentos.

Vale a pena o esforço de tentar perceber como é que acedemos ao mundo das cores enquanto “fenómeno”, o qual é livre de qualquer fundamento absoluto, fundamento esse ao qual nos podemos agarrar para discernir a verdadeira natureza do mundo. Um ponto fixo e estável no meio de tudo a fluir, não apenas a vida. A ausência de fundamento é a própria condição para o mundo da experiência, um mundo que não é estático nem predeterminado. Esta averiguação põe em causa versões do realismo científico, segundo as quais a verdade do mundo é independente do sujeito conhecedor. É claro que quando falamos aqui de verdade do mundo estamos a considerar a “verdade” como entidade epistémica e não como entidade metafísica.

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Os fenómenos mentais e o problema semântico da linguagem

Por razões metodológicas vou considerar no universo mental o que podemos designar por ‘impressões fenomenológicas’ separadas daquilo que os filósofos analíticos designam por ‘atitudes proposicionais’.

Fixando-me agora apenas nas impressões corporais, encontramos as sensações que são diferentes das perceções. Enquanto as perceções têm um objeto intencional e transitivo, as sensações não. As experiências sensoriais como dores, arrepios ou comichões, não possuem um conteúdo representacional como as experiências percetivas. As perceções representam o mundo como sendo de determinada forma. No entanto, faz sentido agrupar em conjunto sensações e perceções porque há uma fenomenologia que as caracteriza, ao contrário das atitudes proposicionais. Estas têm a ver com estados cognitivos, crenças, desejos, intenções, etc. Não parece que, tal como as sensações, as atitudes proposicionais se definam por uma fenomenologia distinta. É claro que mutos estados mentais têm tanto aspetos sensoriais como proposicionais e, por conseguinte, são identificados ao mesmo tempo fenomenologicamente e proposicionalmente. O que se pode ainda dizer é que as impressões fenomenológicas estão mais diretamente vinculadas ao conhecimento na primeira pessoa, enquanto as atitudes proposicionais estão mais ligadas ao conhecimento em terceira pessoa.

O neurocientista pode saber através dos seus métodos de imagem se um indivíduo estava a falar ou não quando as imagens foram captadas. Mas não pode saber o que ele estava a dizer. O neurocientista apenas tem informação sobre a atividade neuronal subjacente e não sobre a geografia semântica. A abordagem fenomenológica do mental não pressupões uma divisão entre continente e conteúdo. Transcende o domínio fechado de um cérebro tido como “o interior” que capta algo como exterior. A abordagem fenomenológica da mente evita a dicotomia interior/exterior. Pode-se dizer que é em relação a este aspeto que a Fenomenologia como método é transcendental.

Muitas das coisas que pensamos que existem – Eu, consciência, interior – não passam de maneiras convenientes de falar de coisas que de outro modo não conseguiríamos falar. E nós acabamos por acreditar que o Eu é uma espécie de essência real e imutável, fonte da nossa identidade. É claro que isto não se restringe à nossa vida quotidiana, pois é assumido por muitos neurocientistas nos seus trabalhos acerca da consciência. Imaginam que existem recessos secretos dentro do cérebro que escondem um Eu verdadeiro. 

É claro que isto levanta outros problemas porque, a não existir um Eu também não faz sentido existir um não-eu, o chamado mundo fixo como realidade última e estática. O mundo não pode ser assim, uma relação entre um Eu fixo e um mundo fixo. Temos de conceber uma terceira via.

Há de facto uma realidade fenomenológica do Eu, mas que nada tem a ver com uma conceção ontológica ou metafísica de realidade. Assim, a realidade fenomenológica reflete as experiências vivenciais comuns. E agora falando acerca da epistemologia, ou conhecimento do Eu do ponto de vista fenomenológico, direi que é um conhecimento obtido através dos sentidos e não do intelecto. Por conseguinte, entende-se que o conhecimento ontológico é um conhecimento puramente mental, ou seja, a priori, ou conceptual.


A fenomenologia da ação percetiva

É melhor pôr muitas “aspas” nas metáforas antes que os meus amigos se chateiem. Em termos de espaço e de tempo o “Universo em Si” não tem princípio nem fim. E “Deus” é uma metáfora conveniente porque nós não conseguimos falar do “Universo em Si” sem antropomorfizar. É o caso de chamar “partícula de Deus” ao bosão de Higgs.

Os físicos dizem que existe a matéria negra e a energia escura, ou vice-versa. E a gravidade. Mesas, televisores e aviões. E tudo o mais ainda mais bizarro. Devemos aceitar como verdadeiras estas teorias científicas ou não? Mesmo quando elas são acerca de uma realidade inacessível às nossas perceções fenoménicas?

Bem, se adotarmos o ‘realismo científico’, direi que são verdadeiras. É claro que neste caso não faz sentido a dicotomia entre o modo como o mundo aparece aos seres humanos e o modo como ele é em si. O conceito de mundo em si é absurdo na atitude ontológica natural, que é neutra quanto a esta questão metafísica.

Dando como certo que o ponto de partida do pensamento no mundo se fez a partir do cérebro humano, a partir daqui percebemos que o conhecimento que temos do mundo resulta mais de uma interpretação através da nossa ação percetiva do que de uma mera emissão de informação dada pelo ambiente ao nosso cérebro. Nem o ambiente está etiquetado, como se nos enviasse mensagens codificadas. O agente, por via da ação, e devido a exigências de significado, projeta no ambiente os seus objetivos. Projetamos sobre o mundo sem destino nem significado o nosso próprio objetivo e sentido. O mundo não está organizado em categorias já prontas. Somos nós que criamos as categorias de acordo com as nossas conveniências.