sábado, 25 de abril de 2015

O que significa “Transcendental” em Kant


Na Segunda Parte da Doutrina Transcendental dos Elementos (Lógica Transcendental) – a dada altura Kant faz a seguinte observação:

“É que não se deve chamar transcendental a todo o conhecimento a priori, mas somente àquele pelo qual conhecemos que e como certas representações (intuições ou conceitos) são aplicadas ou possíveis simplesmente a priori.”

Assim, “Transcendental” significa possibilidade ou uso a priori do conhecimento. Eis porque nem o espaço nem qualquer determinação geométrica a priori do espaço são representações transcendentais. Só é transcendental aquele reconhecimento de que certas representações não empíricas podem referir-se a priori a objetos da experiência.

É também transcendental o uso do espaço relativamente a objetos em geral; ao passo que é empírico quando se limita apenas a objetos dos sentidos.

A distinção entre o transcendental e o empírico compete apenas à “crítica” dos conhecimentos e não se refere à relação destes conhecimentos com o objeto. Isto pressupõe a existência de conceitos que se possam referir a priori a objetos, não como intuições puras ou sensíveis, mas apenas como atos do pensamento puro.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Filosofia Transcendental Kantiana

Kant chama “Crítica da Razão Pura” a uma ciência particular que faz parte de uma filosofia a que chama “filosofia transcendental”. A esta ciência chama “crítica” para a contrastar com “doutrina”, uma vez que se trata tão só de analisar as próprias possibilidades da razão (suas fontes e limites). E como se trata de conhecer apenas o nosso modo de conhecer os objetos, e não propriamente os objetos, através de conceitos, é possível conhecê-los a priori. É neste sentido que esta ciência é “filosofia transcendental”.

A razão é a faculdade que nos fornece os princípios do conhecimento a priori. E é pura porque o conhecimento através dela não vem da experiência sensorial. E quando é completamente a priori o conhecimento é absolutamente puro.

Um sistema de conceitos deste género, isto é, a priori, para ser suficientemente ambicioso, deveria conter integralmente, tanto o conhecimento analítico como o conhecimento sintético. Ora, é aqui que é indispensável compreender até onde é possível levar a análise dos princípios de “síntese a priori”. A sua finalidade não é o alargamento dos próprios conhecimentos, mas a sua justificação.

Para prosseguirmos o estudo das ideias de Kant, é pois essencial perceber o significado de analítico e sintético no contexto do a priori, ou seja, o conhecimento do entendimento que julga a natureza das coisas e não a natureza das coisas. É a crítica da própria faculdade da razão pura. E o problema difícil é saber como se faz a “síntese” nesta ciência em que não entra conceito algum que contenha algo de empírico, ou seja, um conhecimento a priori totalmente puro. Só se avança na análise até onde o exige a apreciação completa do conhecimento sintético a priori.

Como são então possíveis os juízos sintéticos a priori? Antes de mais é preciso distinguir juízos analíticos de juízos sintéticos. Ora, a matemática pura é conhecida a priori, e todavia contém proposições sintéticas a priori. As verdadeiras proposições matemáticas são sempre juízos a priori e não empíricos. Do mesmo modo nenhum princípio de geometria pura é analítico. Que a linha reta seja a mais curta distância entre dois pontos é uma proposição sintética. O conceito de “mais curta” tem de ser totalmente acrescentado e não pode ser extraído de nenhuma análise do conceito de linha reta. Tem de recorrer-se à intuição, mediante a qual unicamente a síntese é possível. O analítico é mera decomposição de conceitos que residem a priori na razão. Mas a crítica inclui dentro do a priori o conhecimento sintético.

Em todos os juízos, em que há uma relação entre um sujeito e um predicado, ou o predicado está contido no conceito do sujeito, ou está totalmente fora embora em ligação com ele. Assim, no primeiro caso trata-se de um juízo analítico, e no segundo caso trata-se de um juízo sintético. Sendo assim, todos os juízos de experiência são sintéticos. Tomemos a proposição: ‘tudo o que acontece tem Uma causa’. O conceito de causa não está contido no conceito de acontecimento. Como se chega à conclusão que o conceito de causa, embora não contido no conceito do que acontece, lhe pertence sem recorrer à experiência?

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A ligação das várias categorias de uma recordação é um mistério


As várias categorias de uma recordação (como por exemplo a prova de um vinho) são guardas de forma dispersa pelas várias áreas do cérebro. Ao ser evocada uma recordação, a memória unifica-se por vibrações elétricas que podem ser registadas num eletroencefalograma. É por vibrações eletroencefalográficas, que vibram em uníssono, que a memória se evoca. Isto significa que há vibrações elétricas a circular constantemente por todo o cérebro ligando diferentes regiões, e reativando assim memórias completas.

Sendo assim, o fluxo de informação não se faz apenas linearmente e sequencialmente de neurónio a neurónio, mas também por ressonância que percorre diferentes estruturas do cérebro situadas muito distante umas das outras.

Para armazenarmos a memória das vivências diárias por um período longo é preciso que a informação, antes de ser armazenada por categorias nas diversas áreas específicas do córtex cerebral, passe pelo hipocampo e seja aí redistribuída para as respetivas áreas. Por exemplo: as memórias das emoções são armazenadas na amígdala; as palavras no lobo temporal; as cores no lobo occipital e assim sucessivamente. Já foram identificadas mais de vinte categorias armazenadas em diferentes partes do cérebro.

Xis-kar, ao ser submetido a uma intervenção neurocirúrgica para tratamento de convulsões incapacitantes, adquiridas num traumatismo craniano alguns anos antes, sofreu um efeito colateral demasiado grave: secção parcial do hipocampo. Este segundo desastre deixou-o definitivamente incapaz de reter novas memórias. As memórias antigas, tudo bem. Fora disso, passou a viver sempre no presente. Passado um minuto já não se lembrava mais do que se tinha passado momentos antes.

Quando num AVC se perde a função de um pequena área, também se perde a categoria específica de uma memória, como as cores, por exemplo. Mas as outras categorias que fazem parte dessa memória, como as emoções e o cheiro associadas a uma cor, mantém-se preservadas. Saber como o cérebro junta de novo num só episódio fenoménico as várias categorias de uma memória espalhadas por várias áreas do córtex cerebral, quando evoca uma lembrança, é o que os especialistas chamam o ‘binding problem’. Conforme a experiência de cada um, para um mesmo tipo fenoménico, pessoas diferentes podem ter categorias diferentes. É o caso, por exemplo, numa prova, um leigo não ter as mesmas categorias que um escanção tem acerca das características de um vinho.


Hemisfério Direito


Estima-se que o hemisfério direito do cérebro humano, durante o período paleolítico e todo o neolítico, estava mais ativo do que o esquerdo. Daí não nos admirarmos de os rituais religiosos terem tido nessa altura uma presença muito mais intensa.

Sabe-se, de facto, que os rituais estimulam particularmente o hemisfério direito. As pessoas davam crédito às vozes que ouviam em situações de transe, pois eram tidas como vozes dos deuses. As áreas estimuladas no hemisfério direito seriam áreas equivalentes às áreas da linguagem no hemisfério esquerdo.

Mas por razões e causas mal esclarecidas, a partir de uma dada altura, inverte-se o sentido de domínio, passando a ser o hemisfério esquerdo a dominar. A atividade de pensamento lógico e abstrato do hemisfério esquerdo passou a ser mais autónoma. O cérebro humano pode sofrer processos de aceleração significativos em situações de grande stress, como é o caso da sobrevivência em cenários de grandes cataclismos. Parece que as pessoas ficam mais surdas às vozes alucinadas. A partir de certa altura passou a ser necessário recorrer aos Oráculos, prerrogativa dos favorecidos, ou favorecidas, pelos deuses.

É possível que a transformação da mente humana para o Logos tenha coincidido com uma série de catástrofes naturais, nomeadamente identificadas e situadas no período histórico designado por “buraco negro da história das civilizações à volta do Mediterrâneo”, e que terá ocorrido, mais ou menos, entre 1300 e 1000 a.C. Um período de grandes migrações em massa, sendo os denominados “Povos do Mar” um exemplo disso. Isto poderá ter constituído uma pressão epigenética com valor adaptativo a novas circunstâncias ecológicas de vida.

Nos nossos dias ainda há disto, com vestimentas próprias da época – místicos, médiuns, xamãs, etc. A maior parte são de geração espontânea, mas pode ser provocado artificialmente, com ou sem hipnose. O cérebro direito dá ordens que são estranhas ao cérebro esquerdo.

Casos bizarros de disfunção cerebral


 Os livros do Dr. Oliver Sacks são praticamente acerca destes casos.

Quando o Dr. Sacks perguntou à mulher do homem que a confundiu com um chapéu, como é que ele fazia para se vestir, ela respondeu: “ele consegue vestir-se tal como consegue comer. Eu ponho a roupa no local habitual e ele veste-se sem dificuldade, ao mesmo tempo que canta. Se há uma interrupção perde o fio à meada, deixa de reconhecer a roupa e o seu próprio corpo. Tem canções para tudo, para comer, para se vestir, para tomar banho… para tudo”.

Deve-se recordar que este homem era um cantor notável, tinha um ouvido perfeito. Tinha um maravilhoso córtex musical.

A história do “homem que confundiu a mulher com um chapéu” é um caso de disfunção do hemisfério direito. Depois de o ter observado como neurologista numa pormenorizada consulta, à saída, o paciente pegou na cabeça da mulher pensando que era o seu chapéu. Tratava-se de um professor de música muito distinto. Foi na escola onde ensinava música que se começou a notar que algo de estranho se passava. Ele deixou de reconhecer os alunos pelo seu rosto. Só os reconhecia depois de eles começarem a falar. Reconhecia-os pela voz.

Um aspeto peculiar destes casos, agora exemplificado por outro paciente, é a perda da espacialidade de certos campos visuais por atingimento de áreas cartografadas no lobo parietal do hemisfério direito. Por exemplo, quando lhe foi pedido um copo, que estava na prateleira de cima do armário, ele dirigiu-se para uma das portas de baixo do mesmo armário. E o comportamento repetiu-se sistematicamente em outros testes do género. Pedido que descrevesse os prédios da sua rua ao descer, ele omitia sistematicamente os prédios do lado esquerdo. Mas depois, ao pedir que a descrevesse a subir, ele passava a omitir os prédios do seu lado esquerdo, aqueles que havia descrito a descer. E o mais curioso é que ele não tinha consciência deste pormenor. Era como se tudo fosse normal. Nitidamente, o processamento das imagens visuais na sua imaginação estava comprometido.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A miragem do oásis no deserto


A miragem é um problema da perceção que é comum em paisagens do deserto.

A existência de erros de perceção na forma de ilusões e alucinações é uma coisa que choca a nossa intuição da perceção. A nossa perceção ilusória de um oásis no deserto é indistinguível de uma perceção verídica. Assim, ao modelo explicativo da perceção que a coloca apenas ligada à perspetiva do sujeito que perceciona chama-se modelo fenomenológico. Segundo o qual o sujeito não tem nenhuma maneira de distinguir a ilusão do que é verdadeiro.

Assim, o fenómeno da ilusão serve para sustentar o argumento da falibilidade do conhecimento que nos é dado pelos sentidos. O nosso conhecimento através da perceção sensorial não é um conhecimento totalmente seguro. Pelo menos, é muito menos seguro do que a nossa intuição nos faz crer. Por conseguinte, às vezes, o mundo não é como o percecionamos.

Para um fenomenólogo, certas características dos objetos, por exemplo, cores, sabores, cheiros, que são designadas por propriedades secundárias, existem como tal apenas quando e enquanto são por nós percecionadas. Já as propriedades primárias, como por exemplo a existência das coisas e a sua forma, existem como tal independentemente de estarem a ser ou não percecionadas por um sujeito.