sexta-feira, 28 de agosto de 2015

No prazer e na dor

Na verdade, nas experiências de dor e de prazer, parece que o que fica para a narrativa e que passa a contar é o último momento. Se convidar um amigo a ouvir uma sinfonia que ele muito gosta, num disco de vinil riscado no último minuto do último andamento, e depois lhe perguntar se gostou, muito provavelmente a única referência que ele fará, se for sincero ou intelectualmente honesto, é à parte desagradável de o disco estar riscado. Ou seja, o último minuto arruinou o resto da hora agradável que ele passou à medida que ia ouvindo a música. A memória até pode estar muitas vezes errada, mas é ela que classifica e rege o nosso modo de viver.

Nós sabemos se estamos ou não com dores. Basta estarmos pura e simplesmente nesse estado doloroso. Este relato não é um relato de tipo inferencial. A distinção que fazemos entre uma dor intensa e uma dor fraca não é um conhecimento científico mas uma condição ou uma capacidade. Asserções de experiências interiores, como dores, que convocam a memória, não é pela memória semântica que vêm à narrativa, mas sim pela memória episódica ou autobiográfica. Não é conhecimento epistémico que resulte de qualquer verificação, ou qualquer inferência lógica. Não existe um Eu pessoal a verificar interiormente seja o que for.

O poder identificador de uma dor e da sua qualidade não passa pelo escrutínio da linguagem que é usada nas verificações empíricas de terceira pessoa, ou científicas. Não é possível estabelecer mecanismos de identidade entre o que aparece em primeira pessoa e as causas físicas na terceira pessoa. Se por um lado, nós não temos acesso em primeira pessoa aos processos físicos do cérebro, por outro também não temos acesso à fenomenologia da dor pelos métodos de acesso aos processos físicos.

Recapitulando. O relato da dor na primeira pessoa sai diretamente desse estado sem mais nenhuma recolha de dados, sem qualquer inferência ou raciocínio. Mentes e cérebros são dois conceitos pertencentes a categorias diferentes. Não são tipos de entidades ontológicas que existam separadamente. Quando digo “esta dor é insuportável” não estou a descrever nada que esteja a observar. Mas sim como se estivesse a gritar. Tem esse sentido. Não é expressão de conhecimento semântico de um sofrimento interior.

Dizer “esta dor é insuportável” não é observar o que se passa dentro do cérebro e dizer depois em voz alta aquilo que observámos. Esta frase não é nenhuma referência do estado do cérebro. A semântica do sentido tem apenas uma função puramente instrumental. Podemos trautear uma música vinda de dentro da nossa cabeça, que só nós a ouvimos. Mas convenhamos, não existe nada dentro do cérebro que materialmente seja uma música a tocar.

O que aparece na consciência?

O que aparece na consciência são os fenómenos. O fenómeno da aparição ´w algo difícil de apreender às primeiras tentativas. Só depois de nos livrarmos de muitos equívocos poderemos entrar na forma como os nossos sentidos nos fazem chegar às coisas e aos acontecimentos. Por exemplo, cores e sons são aspetos do mundo que só fazem sentido quando consciencializados por um agente, como nós. A queda de uma árvore produz um certo tipo de vibrações físicas que são trazidas na forma de som ao nosso cérebro através do nosso órgão auditivo. E o sentido é relativo à consciência. Cores, melodias, dores são estados fenoménicos, na consciência, de acontecimentos físicos.

Somos uma unidade de consciência com certos conteúdos fenomenológicos que fluem integrados na própria consciência. O fluxo da consciência é a própria vivência de uma infinidade de coisas e que se unificam numa unidade a que chamamos “Eu”. Entre o conteúdo vivido conscientemente e a própria vivência não há qualquer separação.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Os qualia ou o mundo fenomenal


Em filosofia da mente, um dos tópicos muito discutido é o dos qualia. Do que falamos quando falamos de fenomenologia ou de qualia? É por exemplo, a cor das árvores quando as vemos, ou o sabor dos frutos quando os comenos, assim como as nossas dores quando as sentimos, é disso que se trata.

Há uma distância entre aquilo que percecionamos ou sentimos, e as palavras que usamos para falar delas. Isso não impede, contudo, que consigamos discriminar a diferença entre dois perfumes. Nem todas as culturas arranjaram palavras para referir todas as cores que os indivíduos são capazes de distinguir.

Um dos aspetos ligados ao tema dos qualia é o da representação. Nem tudo é representação. Sentir uma dor num pé é fenómeno que apenas o próprio pode sentir e não é representação de nada. Mas por outro lado, achamos que o sabor dos alimentos quando comemos, ou a cor das coisas que vemos, pertence exclusivamente á coisas e que não tem nada a ver connosco. E no entanto sabe-se que uma parte dessas propriedades depende de nós. É claro que não há nada no nosso cérebro que seja verde. O verde é um fenómeno que resulta do nosso encontro com as coisas no mundo. É como se fosse uma transparência colorida entre nós e o mundo. Mas nada de representacional, como se fosse uma construção mental.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A afeção dos sentidos é insuficiente para que haja conhecimento

Para conhecer as coisas no mundo não basta a afeção dos sentidos e a transmissão de sinais físico-químicos pelos canais sensoriais até ao cérebro. É preciso que isso interpretado com significado. Por conseguinte, para que haja conhecimento das coisas no mundo, os sentidos não bastam. Através de um sistema categorial é construída uma escala de valores na qual é inserida a qualidade do mundo. A qualificação de verdadeiro ou falso é uma qualificação acerca do conhecimento que temos do mundo.

Saber quem é uma pessoa sem a conhecer é, apesar de tudo, um saber a posteriori. Não é um saber como saber que uma pessoa não pode ser casada e solteira ao mesmo tempo. Este último é a priori e analítico. Não necessita de qualquer experiência vivida.

Podemos descrever um acontecimento mental de duas maneiras: a descrição fenoménica e a descrição física. Os termos da descrição da consciência na primeira pessoa são diferentes dos termos da descrição neurofisiológica na terceira pessoa. São, conceptualmente, de domínios diferentes. Os termos usados para descrever objetivamente a neurofisiologia não servem para descrever a fenomenologia subjetiva. Não se pode reduzir a subjetividade da fenomenologia à objetividade da física, e vice-versa. 

Visão cega

A visão tem uma eficácia prática, mesmo sem ser consciencializada. Um paciente com visão cega, por lesão de uma parte do córtex visual, é incapaz de consciencializar o que vê fisiologicamente. Vê fisiologicamente, mas não tem consciência disso. O cérebro processa os circuitos da informação proveniente dos olhos intactos, mas não processa a ligação destes circuitos com os circuitos da consciência. A visão cega, que é cegueira cortical, não é uma cegueira completa. Embora os olhos continuem a transmitir informação visual e as outras partes não danificadas do cérebro que processam informação visual se mantenham intactas, o paciente de visão cega é incapazes de aceder conscientemente à informação visual processada pelas restantes partes do cérebro. Assim, o paciente com visão cega convence-se que adivinha. Tal tipo de “adivinhação” não acontece com a cegueira total. Enquanto as pessoas com cegueira total, têm mesmo lesão nos circuitos do processamento da informação da visão, os doentes com visão cega têm estes circuitos preservados. O que falta a estes doentes é a integração desta informação com os circuitos da consciência. A ausência de consciência da informação visual é como se o Eu estivesse impedido de interpretar a informação que entra no cérebro.

Dicrocolium dendriticum


O que se vê nesta imagem é um verme, (Dicrocolium dendriticum) do filo dos platelmintas, parasita que vive no estômago de uma ovelha ou de uma vaca, que na fase larvar precisa do cérebro de uma formiga para completar o seu ciclo reprodutivo. Enlouquece-a ao ponto de a formiga durante a noite trepar até ao topo de uma folha de erva. Se por acaso uma ovelha ou uma vaca passar por ali e comer a erva juntamente com a formiga, (tudo obra do acaso) cumpre-se a sorte do parasita. Se não, a formiga ao romper do dia regressa ao formigueiro para repetir a loucura da noite anterior.

Surpreendente, qual bombista suicida possuído por uma ideologia, a formiga a partir do momento em que é invadida pela larva do Dicrocolium dendriticum que se instala no seu cérebro, a formiga passa a ter um comportamento bizarro: prejudicando-se a si e beneficiando o verme.

Os cientistas tropeçam nos seus raciocínios. Conferem intencionalidade, quando não racionalidade à larva, para se posicionar no topo da folha de erva a fim de ser mais fácil ser comida. O Sumum Bonum aqui é para o parasita. Mas continuemos a ver a coisa pelo lado da formiga e perguntemos como é possível tanta sabedoria por parte da larva? E a Natureza está repleta de casos semelhantes. Metaforicamente falando é como se fosse uma ideia abstrata que se insinuou na cabeça da formiga. Mas na realidade continua a ser o acaso a comandar a vida.

Neste caso, o verme só se limitou a aproveitar o acaso de um cérebro de formiga prosseguir a sua evolução existencial. Mas poderia ter sido de uma outra maneira que também servisse essa lei da natureza. E ao servir passa a constituir uma norma. É normal, toda a natureza viva é assim. Mas mais ninguém sabe que é assim, exceto nós.