Transtorno de personalidade anti-social [TPA] é a designação científica actualmente mais aceite, em vez de psicopatia ou sociopatia. Cada época é dominada por uma determinada perspectiva cultural. Ainda vai há poucos anos que o termo sociopatia substituía o de psicopatia, para se referir aos desvios de personalidade encontrados com mais frequência em criminosos e delinquentes. Actualmente já não se chama psicopata a ninguém com comportamentos desviantes que leve a praticar actos anti-sociais contínuos que podem variar entre o tipo da pequena delinquência ou corrupção e crimes violentos como assassínios em série.Um dos traços mais marcantes da personalidade anti-social é a inabilidade de seguir normas sociais que geralmente se devem adquirir na adolescência e desenvolver depois continuamente ao longo de toda a vida adulta. As pessoas com este tipo de transtornos mentais geralmente são difíceis de identificar porque não apresentam os sinais que habitualmente fazem parte das doenças psicóticas, como delírios e alucinações. O TPA caracteriza-se por um padrão de desrespeito pelos outros, por actos altamente sancionados pelas leis penais de qualquer sociedade.
O TPA resulta de um somatório de factores que multideterminam os comportamentos. Factores genéticos e factores ambientais que interactuam entre si desde o nascimento. Há internalização das vivências que vão vincular os genes de formas diversas conforme a sua arquitectura. Existem traços de ordem social que participam na formatação mental das pessoas com genes propensos a serem despertados no sentido do comportamento anti-social.
Estudos funcionais cerebrais vão mostrando cada vez mais evidência de determinados padrões paradigmáticos deste transtorno. Os exames com ressonância magnética, tomografia com emissão de positrões e mapeamento topográfico cerebral entre outros, mostram uma elevada ocorrência de alterações no lobo frontal e em áreas de controlo das emoções. O cérebro como funciona de uma maneira lentificada, desencadeia a busca de situações que provoquem emoções mais fortes e perigosas.
Em estudos efectuados com criminosos nas prisões, mais de 64% apresentam alterações nos lobos frontais. E 24% relatam experiências compatíveis com a condição de vítimas de maus tratos físicos e/ou sexuais. Noutros estudos 20% apresentavam alterações focais temporais no electroencefalograma.
Nas imagens cerebrais os assassinos apresentam um nível de actividade muito baixo no córtex pré-frontal. Mas há também outras anomalias no metabolismo neural no giro parietal superior, giro angular esquerdo, corpo caloso e assimetrias na actividade da amígdala, tálamo e lobo temporal medial. Como algumas destas estruturas fazem parte do sistema límbico, que processam as emoções do comportamento normal, não admira que estejam associadas à violência e criminalidade.
Os lobos frontais são o local onde se processam uma data de funções de contexto social que requerem auto-controlo, planeamento, julgamento e sentido de equilíbrio interindividual. Os seres humanos normalmente aprendem muito cedo na vida a evitar comportamentos anti-sociais porque são programados pelos genes nesse sentido. Alterações genéticas a esse programa, ou activações inapropriadas desses mesmos genes vindas do ambiente onde a criança desenvolve a sua personalidade, poderão ser mecanismos explicativos para a causa dos comportamentos anti-sociais.
Os portadores de TPA exibem profundas alterações das emoções. Não significa que não tenham emoções, o que sucede é que são emoções descontroladas com egocentrismo exacerbado, com falta de auto-percepção, fraco controlo da impulsividade, baixa tolerância para as frustrações, e fraca aprendizagem com a punição. De fato, tais indivíduos são incapazes de sentir emoções sociais tais como simpatia, empatia e gratidão. Para eles, as emoções das outras pessoas não têm qualquer importância. A fraca empatia para o sofrimento dos outros tem sido demonstrado experimentalmente em muitos estudos, os quais têm mostrado processamento emocional anormal. Os detectores de mentiras podem não mostrar alterações mesmo quando se sabe que eles estão a mentir. A atenção é extremamente apurada, semelhante à dos grandes predadores, em testes específicos. Além disso, em situações de crise social são propensos a adqurir estatuto de líderes.
Sejam as alterações dos circuitos neurais sobretudo ao nível dos lobos frontais de causa primariamente genética, sejam provocadas por traumas repetidos na infância, o conhecimento aprofundado destes mecanismos podem ser de grande interesse do ponto de vista político e social, para além do interesse meramente médico, quando se pretendem desencadear acções de grande profundidade ao nível da prevenção e recuperação social. Não há margens para dúvidas quanto à correlação entre o diagnóstico do transtorno de personalidade anti-social e os comportamentos dos agentes do mundo do crime, sendo alta a percentagem de casos encontrados nos gangues do crime organizado.
Imagem: Hans Hofmann. The Gate, 1959–60. Solomon R. Guggenheim Museum, New York









