quarta-feira, 29 de julho de 2015

Quando dizemos que uma entidade é consciente?


Podemos imaginar autómatos que se comportam de um modo muito semelhante aos seres humanos. E então, serão conscientes? Se não, o que lhes falta?

À luz da tradição filosófica fenomenológica, aos autómatos ou robôs falta-lhes a “capacidade fenomenal”. Ou seja, a faculdade de sentir a realidade do mundo (como por exemplo as cores) e a realidade do corpo (com por exemplo as dores) na sua “dimensão aspectual”.

É claro que há aqui questões de raiz metafísica para as quais a ciência pura e dura não dispõe de heurísticas adequadas para lhes responder. Por um lado, as questões metafísicas não são do domínio da ciência pura e dura. Por outro lado, os conceitos como os de consciência são conceitos que partem da vida natural e não da oficina científica. As operações lógicas e matemáticas, que estão ao alcance das capacidades dos autómatos, não são do domínio fenomenológico. Ainda que continue a correr muita polémica acerca do que é a fenomenologia nas escolas de tradição analítica anglo-americana.

É o sentido de consciência fenoménica que tem constituído problema para alguns filósofos. Isto é, se nos fixarmos apenas numa das duas grandes divisões da natureza, que é a parte que diz respeito aos sistemas vivos expressa no seu comportamento. Mas, não temos como começar a falar da consciência da mente humana sem assentar em perspetivas conceptuais que permitam analisar uma série de estados que fazem parte de um todo integrado como é o ser humano.

Se olharmos para uma formiga e para um chimpanzé somos tentados a dizer que a formiga não tem consciência mas o chimpanzé tem. E que por sua vez o chimpanzé não tem capacidade de estabelecer objetivos, planificar meios para os atingir e dar sentido a isso tudo, como o ser humano é capaz. O ser humano atua por razões. Mas quando dizemos a razão que alguém teve para agir de um certo modo não estamos a indicar a causa da ação. As razões não são causas. E não faz sentido perguntar se a ação foi produzida por um acontecimento físico ou mental.

O essencial das diferenças entre um estado puramente fenomenal, e um não fenomenal reside no cérebro. Diversas teorias da mente baseiam-se nesse facto fundamental.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Autoconhecimento



Não há ninguém que possa saber mais do que o próprio acerca da sua mente, quanto a pensamento e fenomenologia. Isto não implica que aquilo que o sujeito pensa do seu íntimo tenha que ser verdadeiro.

O autocontrolo do “eu” resulta da autorrepresentação linguística. As questões do sentido e da consciência não podem prescindir de noções semânticas. Sem elas não nos podíamos sentir tal como nos sentimos, ou seja, pessoas livres. Portanto, o problema do autoconhecimento não deve ser tratado de forma independente das questões gerais acerca da natureza do pensamento e da linguagem. Mas é duvidoso que a autoconsciência seja introspeção linguística, ou apenas isso. Muito embora nós tenhamos conhecimento direto dos nossos pensamentos, desejos, emoções, perceções, sentimentos isso não explica toda a mente. Não pode ser desconsiderada a dimensão da terceira pessoa no seu conhecimento. Nós não somos totalmente inabordáveis a partir de fora. De realçar sobretudo os casos da psicopatologia ou da patologia neurológica. 

Que observador é este que conhece imediata e transparentemente algo de imaterial e ontologicamente distinto? Um interior que na perspetiva da terceira pessoa não passa de atividade cerebral, seja qual for a melhor linguagem do seu processamento. Não cometamos, todavia, excessos de terceira pessoa. O facto de a significação ser do domínio mental, e o facto de o aparelho cerebral da linguagem ser inato, não quer dizer que os significados já estejam na cabeça de uma forma inata. A linguagem é um sistema de partilha pública do que pensamos. E para dizer o que pensamos temos que passar por uma longa aprendizagem da língua nativa. Temos de saber primeiro o que as palavras significam para entendermos o que nos querem dizer. Uma criança quando começa a falar já tem de saber o que quer dizer e dominar o significado das palavras que utiliza para dizer o que quer dizer.


O cérebro é um sistema dinâmico



A teoria dos sistemas dinâmicos não-lineares parece adequada aos processos neurobiológicos subjacentes à fenomenologia da consciência. O cérebro é um sistema complexo não-linear que, pela sua grande margem de autonomia e de auto-organização, responde com alto grau de imprevisibilidade. A variabilidade é intrínseca ao seu funcionamento. O facto de os sistemas biológicos funcionarem em equilíbrio dinâmico não significa que sejam sistemas perfeitos.

As propriedades destes sistemas comportam qualidades que, apesar de emergirem em resultado de interações que se estabelecem entre as suas partes constitutivas, conferem ao sistema como um todo a capacidade de exercer influência sobre as partes, de modo a manterem-se organizadas numa totalidade emergente. Assim, o mesmo modelo de interação e comunicação passa tanto ao nível dos elementos básicos que constituem uma unidade individual simples, como ao nível da relação entre as unidades individuais simples em sistemas cada vez mais complexos numa continuidade hierarquicamente organizada.

Um outro conceito no âmbito da teoria geral dos sistemas de Bertalanfy é o de sistema homeodinâmico, que alarga a compreensão do funcionamento sistémico para além do mero princípio homeostático.

O mental ou a fenomenologia do mundo


A fenomenologia do mundo tem a ver com aquelas propriedades físicas que nós instanciamos conscientemente na forma de sensações e perceções. À agitação termodinâmica dos gases que compõem o ar da atmosfera envolvente e que em física se chama “calor” nós sentimos isso de uma forma idiossincrática ao ponto de dizer que sentimos calor. É essa forma de sentir que constitui a fenomenologia do mundo. Ou quando se trata de uma certa refletância de luz num objeto que faz com que o vejamos de uma certa cor, por exemplo vermelho, é a este aspeto da nossa perceção a que chamamos “vermelho” que constitui uma certa fenomenologia da existência do mundo.

Agora analisemos o exemplo da “dor”. As características fenomenológicas da dor são distintas das características fenomenológicas do “calor”. E mais ainda da cor dos objetos. E isso podia ser dito para toda uma panóplia de sons e sabores. A sensação de dor é algo fenomenológico que corresponde a alguma alteração da estrutura física do nosso corpo e que pode ser conhecida nos termos da perspetiva em terceira pessoa.

Ora, não há como escapar à constatação da diferença entre uma dor conhecida nos termos da perspetiva em primeira pessoa, e conhecida nos termos da perspetiva em terceira pessoa. Tratam-se de dois níveis de existência do mundo, isto é, de dois níveis ontológicos diferentes. As características ontológicas da manifestação fenomenológica de uma dor, isto é, exclusivamente do domínio da nossa subjetividade, a qual não pode ser transferida para outra pessoa, não tem nada a ver com as características físicas do corpo subjacentes a esse “fenómeno dor”. Por outro lado, a sua captação epistémica também se faz de modo diferente. Não há possibilidade de se reduzir uma perspetiva de primeira pessoa a uma perspetiva de terceira pessoa. E vice-versa.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Não Representações nem Imagens Mentais na experiência do conhecer



Afinal as coisas, quer como elas são no mundo, quer como elas são no conteúdo da nossa experiência percetiva são tal qual elas são. Para as conhecer, os nossos sentidos de afeção são como ‘transparências’, e as respetivas áreas do cérebro que lhes correspondem são como ‘janelas’ que se abrem ao mundo, e não como representações. As representações vêm depois, quer na sua retenção da memória, quer quando imaginamos ou sonhamos. Neste caso é legítimo falarmos em imagens mentais.

O que se quer dizer com o que se disse no primeiro parágrafo é que afinal não existe nenhum hiato entre aquilo que é, ou que há, e o que pode ser conceptualizado. Não há necessidade de haver uma fronteira opaca entre o conceptual e os impactos nos sentidos provocados pela realidade “lá fora”. As capacidades conceptuais entram logo de imediato na experiência da ação percetiva, e não apenas quando entram os juízos. Qualquer perceção do mundo por parte do ser humano é desde logo à partida conceptual. Já o mesmo poderá não ser com os outros animais não humanos.

Claro que é possível saber-se o que é o mar conceptualmente, sem que se tenha previamente conhecido o mar através da perceção visual. Ainda hoje há muitas pessoas adultas, concretas e reais, a quem se aplica tal proposição. Têm conhecimento apenas do conteúdo semântico dos termos linguísticos, que é o que está na cabeça. O resto não está na cabeça, seja o significado seja a “res-extensa”.

O conceptual é um domínio humano que contrasta com os outros animais. Diria que constitui uma segunda natureza, para a distinguir da primeira natureza que é aquela que é comum com os restantes animais. Não deixando de fazer parte da mesma Natureza, a única natureza que existe e que faz parte do estudo de todas as ciências, é contudo muito especial uma vez que se deixa guiar por ‘normas’ em vez de leis. Isto não tem que nos remeter para algo extra ou sobrenatural. Posso neste caso tranquilizar aqueles que têm uma atitude crua e cientificista extrema para com a Natureza.
As normas têm a ver com o que “dever ser” do ponto de vista do valor, do certo e do errado quer quanto às normas de pensamento da Lógica, quer da Ética e da Estética.

De resto, há uma só realidade, e não duas como se houvesse uma interface a interpor-se entre elas. O espaço da mente e do mundo é um campo aberto sem fronteiras opacas. A mente é experiência. E a experiência faz parte do mundo.

Portanto, a mente como experiência/mundo não pode ser algo que se restrinja a ficar dentro das nossas cabeças como meras representações. Estamos envolvidos com factos e coisas. Daí não fazer sentido continuarmos com a mesma chave de pensamento kantiano, em que precisa de um vocabulário que contenha ‘coisas em si’ e ‘representações’ dessas coisas na forma de aparências, para falar de fenómenos. A subjetividade humana está envolvida não apenas nos juízos sobre os factos, mas também nos factos eles mesmos.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Linguagem


Quando a criança entra na sua língua nativa é como se uma luz caísse gradualmente sobre ela. Entrar numa língua é entrar numa conceção de mundo. Coisa em que os outros animais não conseguem entrar. Os outros animais, e nós enquanto crianças antes de entrarmos na língua nativa, dispõem de um ambiente apenas. Mas nós, para além de dispormos de um ambiente, dispomos ainda de um mundo.

A ideia de “mundo”, uma ideia que remonta a Aristóteles, está relacionada com uma segunda natureza que é específica da espécie humana: a racionalidade. É esta aptidão que permite ponderar razões e tomar decisões. São os poderes conceptuais que permitem ao animal humano ter um mundo sem transcender a sua natureza biológica. E ter uma subjetividade.

À nascença, com o cérebro ainda não completamente maduro, em comparação como os outros animais, de pressa nos transformamos em pensadores quando começamos a aprender uma língua. Gradualmente até nos tornarmos maduros com a espontânea racionalidade. Um ser humano maduro é um animal racional. Sendo que a racionalidade é espontânea na sua própria natureza. Aqui a noção de ‘espontaneidade’, que impregna a noção de ‘ação’ no sentido de seres morais, paga tributo a Kant quando ele articula a sensibilidade (intuição) com o entendimento (espontaneidade) para chegar à razão.