sábado, 20 de junho de 2015

Imagens mentais

Como é ver? Para entender esta forma de experiência fenomenológica, certos analistas fenomenológicos recorrem à fenomenologia estática. A fenomenologia estática consiste na análise da forma como os objetos intencionais da experiência são trazidos à nossa consciência.

Estas pesquisas fenomenológicas tratam de perceber aquilo que pertence à experiência subjetiva da perceção e da imaginação. Não só na característica das coisas mas também no caráter subjetivo da própria atividade mental de percecionar ou imaginar. E assim se pensa ultrapassar o hiato conceptual e epistemológico da experiência subjetiva em primeira pessoa, partido das descrições funcionais da biologia dos processos neuronais e cognitivos. A análise fenomenológica centra-se explicitamente na ligação entre o caráter qualitativo daquilo que experienciamos e o caráter subjetivo da atividade mental pela qual experienciamos.

Experienciamos visualmente o mundo na sua riqueza de pormenores, não porque tenhamos de representar todo esse pormenor no cérebro em dado momento, mas porque temos acesso constante ao mundo. A ideia de representações pictóricas na nossa cabeça é uma crença resultante de teorias na terceira pessoa. Isto não é tão evidente como é evidente a realidade do mundo captada pela fenomenologia na primeira pessoa quando acedemos a ela através da nossa experiência. A haver uma ilusão, ela será provável do lado da teoria em terceira pessoa. A experiência percetual é uma relação do sujeito com o mundo, e não uma relação com eventuais imagens no seu cérebro. Não há nenhuma razão em particular para supor que há representações quase pictóricas no cérebro correspondentes aos objetos que vemos ou visualizamos. O que percecionamos é o que vemos. O que vemos são os objetos ou os acontecimentos no mundo, e não imagens ou filmes no cérebro desses mesmos objetos ou acontecimentos.

É intrigante a fenomenologia das imagens mentais na imaginação. Imaginar um objeto não é visualizar uma imagem mental com o nosso olho da mente, mas antes a representação mental do que é, foi, ou seria ver esse objeto. Há um acordo tácito acerca do nosso conhecimento do aspeto que as coisas têm, de como esse conhecimento está organizado e das nossas capacidades sensório-motoras.
Nesse sentido, na imaginação de um objeto, não há quados mentais pictóricos observados através do olho da mente. Não há olho da mente, pelo que também não observamos quadros pictóricos na nossa mente. Em vez disso apresentamos uma simulação de uma experiência subjetiva de perceção.

É claro que o que interessa a um neurocientista é explorar empiricamente as áreas topograficamente organizadas das áreas cerebrais envolvidas num ou outro tipo de imaginação visual. Mas no cérebro não se vai encontrar o conteúdo daquilo que resulta de uma atividade mental. Naturalmente que não é de esperar que o conteúdo dessa atividade, a imagem de um objeto, seja aí encontrada. Há quem acredite que o cérebro manipula mesmo imagens. Mas os seus críticos rotulam estas pessoas de pictorialistas.

Não podemos confundir as qualidades daquilo que é representado quando imaginamos com as propriedades do que se passa na nossa própria mente. A imagem mental fenomenal não é uma entidade pictórica na nossa consciência, mas um tipo de atividade mental que é relacional, uma vez que é através dela que nos relacionamos com algo ausente do ponto de vista fenomenal.

Pois é pensando assim que não faz sentido procurar representações no cérebro que correspondam às imagens mentais fenomenais. Em vez disso deve-se procurar a estrutura dinâmica da atividade cerebral a qual se relaciona com a estrutura experiencial do ato de visualizar num contexto de imaginação.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O conceito de coemergência dinâmica nos estudos da mente


Note-se que o cérebro não causa a mente mas realiza-a sincronicamente. Isto ilustra de que modo a distinção cartesiana mental/físico se tornou inútil. A consciência não é uma propriedade microestrutural do cérebro, mas antes uma propriedade emergente com novos poderes causais no mundo, poderes esses que não podem ser identificados como poderes causais das redes neuronais do cérebro. Há ao nível da mente uma estrutura relacional que não existe ao nível do cérebro. Tudo o que tem a ver com a consciência fenomenal – as propriedades qualitativas ou fenomenais da experiência consciente – resiste a qualquer tentativa reducionista fisicalista.

De um modo geral, todos os cientistas que se autorreconhecem como fisicalistas tiveram que recorrer à expressão “epifenomenal” para se referirem ao estatuto da consciência. Isto é, disseram para não a levarmos a sério. Ora, esta posição não tem em boa conta os progressos conceptuais no campo da auto-organização de sistemas complexos não lineares. Não chegaram a perceber como é que o todo afeta causalmente as partes de que a sua própria existência e natureza dependem.

Assim, coemergência dinâmica significa que parte e todo coemergem e se especificam mutuamente. A diferença é meramente de nível epistemológico e não ontológico. Quando muito se poderá chamar nível físico ao nível “micro” e nível fenomenológico ao nível “macro” (que engloba a parte comportamental e psicológica). Apenas se tornou útil para nós considerar o cérebro como um sistema causal na produção de certos eventos a que chamamos mentais. De resto, o nível físico não tem que ter a primazia ontológica, ou seja, ser considerado como o fundamento da realidade a partir do qual emerge tudo o resto. Aliás, melhor dizendo, não tem que haver uma derradeira estrutura onde fundamentar aquilo a que se convencionou chamar “realidade” última, ou realidade em si. A única realidade que conhecemos é na forma de fenómeno. E os fenómenos, em todas as escalas, não são substâncias fixas e imutáveis, mas processos dinâmicos.


terça-feira, 2 de junho de 2015

O problema difícil da consciência


As leis da natureza não bastam para explicar a vida, em particular os organismos vivos, e muito menos a consciência.

A ideia de teleologia, ou seja, do Ser derivado de um plano, ou ‘design’ (causalidade que opera de acordo com finalidades), é muito antiga. É famosa a metáfora do relógio, apresentada no século XVIII por William Paley, para invocar a conceção divina na criação dos seres vivos. Mas já nesse mesmo século, ao contrário do teólogo britânico, Kant afirmava que os organismos vivos eram produtos naturais, e não produtos de conceção divina, apesar de ter a mesma ideia de teleologia, era diferente da de Paley. O relógio é um artefacto, ao passo que um organismo vivo é natural, não sendo causado por nenhum agente racional externo. Bastam os seus poderes auto-formativos, em que a causa da produção de um organismo reside dentro dele.

Portanto, Kant aceitava para o organismo vivos a ideia de teleologia, ou seja, uma finalidade dentro de si próprio, mas não aceitava a ideia mecanicista, em que os organismos eram equiparados a máquinas como os relógios.

O conceito de fim ou finalidade é apenas uma necessidade instrumental para explicar a natureza dinâmica da vida. É como se fossem gruas e andaimes para construir prédios altos. Uma vez os prédios levantados, deitam-se fora.

Um organismo é um ser auto-organizado, simultaneamente causa e efeito de si mesmo. É o que diz a ‘Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos’. As teorias de auto-organização biológica são ferramentas conceptuais a que Darwin não teve acesso. Por isso, a teoria darwiniana da evolução por seleção natural não se debruça ao nível da organização interna do organismo. Darwin partiu do organismo como um dado já adquirido.

A abordagem etológica do comportamento animal tem em conta a emoção, o contexto ambiental, a cultura e a história. Mas ainda assim não dá a conhecer em que consiste a fenomenologia que está na base da subjetividade da experiência vivida.

Já Kant tinha tentado fazer a unificação entre a perceção e a razão, tendo concebido um campo entre as duas balizas – os esquemas mentais entre a baliza da experiência sensorial bruta e a baliza das categorias abstratas.

Embora a consciência seja um fenómeno inteiramente natural, Kant achava que não tínhamos todos os instrumentos cognitivos para uma explicação da consciência por parte das ciências naturais. Daí a sua ideia de filosofia transcendental para referir um princípio regulador dos nossos juízos sobre a natureza, e não constitutivo da própria natureza.
Nessa altura ainda não tinham surgido os saberes ligados aos sistemas auto-organizados complexos, com a visão de causalidade circular e emergência não linear. A física no tempo de Kant não era a que é hoje. A matéria era inerte. E aqueles que acreditavam em almas e vitalismos na matéria eram apelidados de hilozoístas. E Kant não acreditava em qualquer princípio imaterial de vitalidade fora da natureza.

Hoje acredita-se que a auto-organização é mesmo um princípio constitutivo da própria natureza. Embora ainda se suponha que a ciência não é reveladora de nada absoluto que esteja por trás dos fenómenos. É um subproduto das relações recíprocas e dinâmicas entre a realidade como um todo e as subjetividades dos cientistas nas suas práticas de investigação.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Mais fenomenologia da perceção

Aquilo que vemos depende da forma como vemos, que depende da experiência anterior. Não é um dado fixo mas algo que emerge no ato de ser dado a partir da experiência anterior. Não percecionamos o mundo a cada momento como se tivéssemos vindo de fora.

O sujeito da perceção é um sujeito que tem hábitos, pontos de vista, etc. A perceção é um processo ativo em que o sujeito participa na produção dos objetos. Tudo depende do grau de inter-relação, que é dinâmica, onde estão envolvidas as aptidões do sujeito de sensibilidade variável, como é o caso da atenção, da motivação e até do estado da sensibilidade afetiva.

Um ser humano comporta-se como uma unidade coerente de sentir, percecionar, agir, pensar e imaginar, que se autodetermina nas suas interações com o meio. Por outro lado, uma pessoa é um sistema dinâmico de alta complexidade não linear. As suas estruturas cognitivas funcionam através de padrões de atividade estendidas no tempo, que se influenciam mutuamente.

A mente, como emergência da vida, é a parte do organismo através da qual algo adquire significado, tendo em vista em primeiro lugar a sua preservação. O significado tem uma dependência direta do acoplamento do organismo à natureza, a qual condiciona o comportamento. Organismo e meio codeterminam-se.

As estruturas vivas são unidades que se autoproduzem e autorregulam. A sua morfodinâmica é qualitativamente diferente das estruturas simplesmente físicas. Estas são dissipativas, como é o caso da chama de uma vela. Ao passo que uma organização de células vivas é constituído por unidades que controlam e produzem um fluxo de matéria e energia para a sua autossustentabilidade. Para isso o organismo vivo molda o ambiente de modo a conferir-lhe significado. Este significado tem a ver com as suas condições ideais de sobrevivência.

É o metabolismo do ser vivo que confere significado às substâncias do meio. É o caso, por exemplo, do amido, ou da sacarose, como nutrientes. Estas substâncias adquirem o seu significado apenas quando ligadas ao metabolismo do ser vivo.

Assim, da matéria ao homem podemos encontrar uma série de ordens. A sacarose, enquanto entidade física e química, é apenas da ordem física. Mas como nutriente já faz parte da ordem viva. Mas não se tratam de ordens discretas, com saltos e sobressaltos, mas sim fazendo parte de uma unidade contínua. Há um contexto organizacional a ter em conta, em que nutrientes e organismos ocupam um lugar com significado e valor. Ontologicamente os seres vivos fazem parte de uma nova ordem da natureza qualitativamente diferente da ordem simplesmente física.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Subjetividade Fenomenológica

Tudo o que é mental está mergulhado na vida. Mas nem tudo o que é mental se reduz simplesmente ao cérebro. Há mais mental que se ramifica através de um organismo vivo e se prolonga pela natureza. As nossas vidas mentais envolvem o nosso corpo e o mundo para lá dele.

A mente, que abarca os processos cognitivos e muito mais, é algo que não se limita à rede neuronal dentro da cabeça, mas algo em continuidade não linear que envolve o cérebro, o corpo e o meio. A mente é mais um sistema dinâmico num organismo vivo do que um sistema representacional simbólico abstrato.

As estruturas e processos cognitivos emergem dos padrões sensório-motores recorrentes que governam a perceção e a ação em agentes autónomos e situados. E não como representações de estados de coisas externos. Há processos cognitivos de nível consciente, mas também os há de nível inconsciente. Faze parte deste segundo nível aqueles processos ligados às emoções.

Daqui se segue que a subjetividade fenomenológica, assim como a experiência humana, não pode ser entendida sem ser situada em relação a essas estruturas e processos inconscientes. Estende-se ao longo do corpo e circulam através do meio material e social em que o corpo está integrado. Não se limitam aos processos neuronais.

Em termos cognitivos, para o ser humano, o mundo é mais um reino fenomenológico do que algo em si pré-especificado extraído por nós através de representações situadas no cérebro. Este reino fenomenológico pressupõe tratar-se de um domínio relacional em que a nossa ação é determinante no modo como nos ligamos ao meio. Assim, a experiência é central nesta forma de compreensão do que é a mente.

Há uma estrutura formal da nossa consciência onde as coisas são apresentadas para serem conhecidas. O mundo tem as características que nós percebemos mercê da forma como a mente o organiza ao nível consciente e inconsciente. Nos quais os processos de constituição passam despercebidos. É dessa estrutura, dependente da atividade dinâmica não linear ao nível do cérebro que decorre e depende a noção que temos do momento presente. Dada a forma como a nossa consciência está estruturada, o presente é uma zona ou extensão do tempo apercebida como uma atualidade expandida.

É pena que a ciência, a bem dizer até aos dias de hoje, não se tenha preocupado com a subjetividade fenomenológica da experiência vivenciada. Raramente as emoções, os afetos e a motivação são tidos em conta nos estudos da ciência cognitiva. E é desconcertante como nada tenha a dizer acerca da consciência. Ora, a consciência é a peça de resistência de todo o problema relacionado com a nossa compreensão do que é a mente. As propriedades cognitivas da mente não pertencem a cada cérebro individual, mas ao sistema que envolve o indivíduo, que não só é sociocultural como também ambiental.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Fenómenos, númenos e ideias transcendentais

Kant faz dos fenómenos objetos dos sentidos e númenos objetos apenas do entendimento, embora reconheça não ser possível determinar objetos para o mundo do entendimento. Kant chama problemático a um conceito que se encadeia noutros conceitos mas cuja realidade objetiva não pode ser de modo algum conhecida. Númeno é pois tudo aquilo que a intuição sensível não atinge, que se estende para além do fenómeno. Coisa em si para além do fenómeno. Coisa que apenas cabe no domínio do intelecto.

Vimos assim que para termos objetos como fenómenos temos de ligar o entendimento aos sentidos.

Assim como Kant havia aplicado categorias aos conceitos puros do entendimento, da mesma forma designou por “ideias transcendentais” os conceitos da razão pura. É na Dialética Transcendental (segunda divisão da Lógica Transcendental) que Kant prossegue a Crítica da Razão Pura propondo-se conhecer, rigorosamente, o uso transcendental da razão pura, seus princípios e ideias, Para poder determinar e avaliar convenientemente a influência da razão pura e o seu valor. E para começar compromete-se a respeitar o significado original da palavra “ideia”. Para que não haja confusões quando se fala de representações, é mantido o significado que Platão lhe atribuía.

O conceito da razão é uma ideia extraída de noções que transcendem a possibilidade da experiência. Para todos os efeitos isto faz parte da Lógica, como método, em que a simples forma lógica dos conceitos puros do conhecimento, que são a priori, possibilita que os objetos sejam conhecidos empiricamente. É à forma dos raciocínios quando aplicados à unidade sintética das intuições que Kant chama “ideias transcendentais”. No conjunto total da experiência determinam o uso do entendimento segundo princípios.

Assim, um conceito puro da razão pode ser definido como o conceito do incondicionado, que depois entrega ao entendimento o que se refere imediatamente aos objetos da intuição. É por assim dizer o absoluto dos conceitos do entendimento. Como os conceitos puros do entendimento se restringem apenas à experiência possível, eles são imanentes. Ao passo que os conceitos puros do entendimento são sempre transcendentes. Daí o termo “transcendental” para referir os conceitos puros da razão como “ideias transcendentais”.

É na Dialética Transcendental que Kant coloca a origem de conhecimentos especulativos a partir da razão pura. Conhecimento que não pode ser dado empiricamente, por isso transcendental. Não pode ser condicionado com é o conhecimento empírico. Com efeito, a razão pura nunca se refere diretamente aos objetos, apenas aos conceitos que o entendimento tem dos objetos.