sexta-feira, 22 de maio de 2015

Subjetividade Fenomenológica

Tudo o que é mental está mergulhado na vida. Mas nem tudo o que é mental se reduz simplesmente ao cérebro. Há mais mental que se ramifica através de um organismo vivo e se prolonga pela natureza. As nossas vidas mentais envolvem o nosso corpo e o mundo para lá dele.

A mente, que abarca os processos cognitivos e muito mais, é algo que não se limita à rede neuronal dentro da cabeça, mas algo em continuidade não linear que envolve o cérebro, o corpo e o meio. A mente é mais um sistema dinâmico num organismo vivo do que um sistema representacional simbólico abstrato.

As estruturas e processos cognitivos emergem dos padrões sensório-motores recorrentes que governam a perceção e a ação em agentes autónomos e situados. E não como representações de estados de coisas externos. Há processos cognitivos de nível consciente, mas também os há de nível inconsciente. Faze parte deste segundo nível aqueles processos ligados às emoções.

Daqui se segue que a subjetividade fenomenológica, assim como a experiência humana, não pode ser entendida sem ser situada em relação a essas estruturas e processos inconscientes. Estende-se ao longo do corpo e circulam através do meio material e social em que o corpo está integrado. Não se limitam aos processos neuronais.

Em termos cognitivos, para o ser humano, o mundo é mais um reino fenomenológico do que algo em si pré-especificado extraído por nós através de representações situadas no cérebro. Este reino fenomenológico pressupõe tratar-se de um domínio relacional em que a nossa ação é determinante no modo como nos ligamos ao meio. Assim, a experiência é central nesta forma de compreensão do que é a mente.

Há uma estrutura formal da nossa consciência onde as coisas são apresentadas para serem conhecidas. O mundo tem as características que nós percebemos mercê da forma como a mente o organiza ao nível consciente e inconsciente. Nos quais os processos de constituição passam despercebidos. É dessa estrutura, dependente da atividade dinâmica não linear ao nível do cérebro que decorre e depende a noção que temos do momento presente. Dada a forma como a nossa consciência está estruturada, o presente é uma zona ou extensão do tempo apercebida como uma atualidade expandida.

É pena que a ciência, a bem dizer até aos dias de hoje, não se tenha preocupado com a subjetividade fenomenológica da experiência vivenciada. Raramente as emoções, os afetos e a motivação são tidos em conta nos estudos da ciência cognitiva. E é desconcertante como nada tenha a dizer acerca da consciência. Ora, a consciência é a peça de resistência de todo o problema relacionado com a nossa compreensão do que é a mente. As propriedades cognitivas da mente não pertencem a cada cérebro individual, mas ao sistema que envolve o indivíduo, que não só é sociocultural como também ambiental.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Fenómenos, númenos e ideias transcendentais

Kant faz dos fenómenos objetos dos sentidos e númenos objetos apenas do entendimento, embora reconheça não ser possível determinar objetos para o mundo do entendimento. Kant chama problemático a um conceito que se encadeia noutros conceitos mas cuja realidade objetiva não pode ser de modo algum conhecida. Númeno é pois tudo aquilo que a intuição sensível não atinge, que se estende para além do fenómeno. Coisa em si para além do fenómeno. Coisa que apenas cabe no domínio do intelecto.

Vimos assim que para termos objetos como fenómenos temos de ligar o entendimento aos sentidos.

Assim como Kant havia aplicado categorias aos conceitos puros do entendimento, da mesma forma designou por “ideias transcendentais” os conceitos da razão pura. É na Dialética Transcendental (segunda divisão da Lógica Transcendental) que Kant prossegue a Crítica da Razão Pura propondo-se conhecer, rigorosamente, o uso transcendental da razão pura, seus princípios e ideias, Para poder determinar e avaliar convenientemente a influência da razão pura e o seu valor. E para começar compromete-se a respeitar o significado original da palavra “ideia”. Para que não haja confusões quando se fala de representações, é mantido o significado que Platão lhe atribuía.

O conceito da razão é uma ideia extraída de noções que transcendem a possibilidade da experiência. Para todos os efeitos isto faz parte da Lógica, como método, em que a simples forma lógica dos conceitos puros do conhecimento, que são a priori, possibilita que os objetos sejam conhecidos empiricamente. É à forma dos raciocínios quando aplicados à unidade sintética das intuições que Kant chama “ideias transcendentais”. No conjunto total da experiência determinam o uso do entendimento segundo princípios.

Assim, um conceito puro da razão pode ser definido como o conceito do incondicionado, que depois entrega ao entendimento o que se refere imediatamente aos objetos da intuição. É por assim dizer o absoluto dos conceitos do entendimento. Como os conceitos puros do entendimento se restringem apenas à experiência possível, eles são imanentes. Ao passo que os conceitos puros do entendimento são sempre transcendentes. Daí o termo “transcendental” para referir os conceitos puros da razão como “ideias transcendentais”.

É na Dialética Transcendental que Kant coloca a origem de conhecimentos especulativos a partir da razão pura. Conhecimento que não pode ser dado empiricamente, por isso transcendental. Não pode ser condicionado com é o conhecimento empírico. Com efeito, a razão pura nunca se refere diretamente aos objetos, apenas aos conceitos que o entendimento tem dos objetos.

Os conceitos e as categorias do entendimento

Se o conceito estiver apenas no entendimento, em ligação com as condições formais da experiência, o seu objeto é possível se estiver ligado à perceção e determinado por ela, o objeto é real.

Os princípios da modalidade apenas exprimem, relativamente ao conceito, a ação da faculdade de conhecimento que o origina. Não tem o poder de alargar conhecimento mas apenas indica como o conceito está ligado à faculdade de conhecer.

As categorias não são conhecimentos mas simples formas de pensamento. Servem para formar conhecimentos a partir das intuições. Não se pode extrair das categorias proposições sintéticas. Não se consegue provar uma proposição sintética a partir de simples conceitos puros do entendimento.

O que é digno de nota é que para entender a possibilidade das coisas, em consequência das categorias, e assim mostrar a realidade objetiva destas últimas, temos de ter intuições externas. Uma intuição no espaço (a da matéria) para, em correspondência com o conceito de substância, dar algo de permanente na intuição. E para representar a mudança ligada ao conceito de causalidade, é preciso o conceito de movimento. Toda a mudança pressupõe algo de permanente na intuição, para poder ser percebida como mudança. A permanência é a existência de todo o tempo. E a substância é sujeito e não predicado.

Kant diz que pode conceber, em contraponto com Leibniz, a possibilidade das substâncias como fenómenos se as representarmos no espaço, ou seja, na intuição externa. Portanto, todos os princípios do entendimento puro nada mais são do que princípios a priori da possibilidade da experiência. E somente a estas se referem também todas as proposições sintéticas a priori.

É importante reter que o entendimento só pode fazer uso empírico de todos os seus princípios a priori, e nunca transcendental. E mesmo de todos os seus conceitos. O uso transcendental de um conceito diz respeito a objetos que não nos são dados por intuições. O mesmo é dizer não nos serem dados pelos sentidos. Para cada conceito exige-se primeiro a forma lógica e depois a possibilidade de lhe dar um objeto. Sem este, o conceito é desprovido de sentido.

Na matemática os objetos são sempre representados a priori. Mas se não pudessem mostrar o seu significado nos fenómenos, de nada valiam. De contrário, o conceito deixaria de ter sentido, e daí sem qualquer significado.

As figuras como triângulos e círculos, embora sejam produzidos a priori, são ao mesmo tempo apresentados aos sentidos. Por outro lado, os números só podem encontrar o seu uso na experiência. Daqui decorre que os conceitos puros do entendimento nunca podem ter uso transcendental e sim empírico. Sem intuição o objeto é simplesmente transcendental e o conceito do entendimento tem apenas uso transcendental.

Os postulados do pensamento empírico em geral

Por que se denominam de “postulados” os princípios da modalidade? Os princípios da modalidade não são objetivamente sintéticos, dado que os predicados da possibilidade, realidade e necessidade não acrescentam nada ao conceito a que se referem. Convém recordar que postular, segundo os matemáticos, significa dar como imediatamente certa uma proposição, sem justificação nem prova.

Os princípios da modalidade, que têm a ver com: possibilidade/impossibilidade; existência/não existência; necessidade/contingência – no seu uso empírico, que não se limita a exprimir analiticamente a forma do pensamento, têm de aplicar-se à experiência possível e à sua unidade sintética.

Se a síntese for extraída da experiência, denomina-se então conceito empírico. O postulado relativo ao conhecimento da realidade das coisas exige uma perceção e, portanto, uma sensação, acompanhada de consciência. Não exige consciência imediata do próprio objeto. Se apenas está em causa a mera possibilidade de uma coisa, o conceito pode preceder a perceção. Mas quando se trata da coisa real, é a perceção que precede o conceito, ou seja, o objeto é dado pela perceção ao conceito.

Perante uma coisa real, há um encadeamento empírico que vai do fenómeno ao entendimento. Temos de facto experiência das coisas exteriores ao pensamento. E a experiência do nosso próprio pensamento, ou melhor, do “eu sou”, pressupõe a existência da experiência externa. Por analogia, se eu existo, pressupõe a existência de outras coisas.

Só a experiência exterior é propriamente imediata. Assim, possuímos sentido interno e externo. Até porque para imaginarmos coisas externas que são apresentadas aos sentidos na intuição, é necessário primeiro que se tenha um sentido externo para que o possamos imaginar.

A representação “eu sou” ainda não é conhecimento. Além de o podermos pensar é necessário ter uma intuição interna. E para isso são necessários objetos exteriores.

Por conseguinte, a experiência interna só é possível através da experiência externa.

sábado, 2 de maio de 2015

Juízos sintéticos a priori

Kant para determinar a extensão e os limites do entendimento puro, traça como objetivo principal a demonstração da possibilidade dos juízos sintéticos a priori. Diz que a síntese das representações assenta sobre a imaginação. Porém, a unidade sintética das mesmas (requerida para os juízos) repousa sobre a unidade da aperceção.

É a possibilidade da experiência que confere realidade objetiva a todos os nossos conhecimentos a priori. As condições da possibilidade da experiência em geral são as mesmas da possibilidade dos objetos da experiência. São as condições necessárias da unidade sintética do diverso da intuição numa experiência possível. E é deste modo que são possíveis os juízos sintéticos a priori.

Na aplicação dos conceitos puros do entendimento à experiência possível, o uso da sua síntese é matemático ou dinâmico, pois se dirige, em parte, simplesmente à intuição, em parte, à existência de um fenómeno em geral. Ora, as condições a priori da intuição são absolutamente necessárias em relação a uma experiência possível, enquanto as de existência dos objetos de uma intuição empírica possível são em si apenas contingentes.

Todos os fenómenos contêm, quanto à forma, uma intuição no espaço e no tempo, que é o fundamento a priori de todos eles.

O espaço e o tempo podem ser percebidos em si. Por isso diz-se que são intuições puras. Mas os fenómenos como objetos da perceção não são intuições puras porque não podem ser percebidos em si. Contém além da intuição a matéria. Ora, da consciência empírica à consciência pura é possível uma passagem gradual, em que desaparece totalmente o real da primeira, permanecendo apenas a consciência formal (a priori) do diverso no espaço e no tempo. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os conceitos na Analítica Transcendental de Kant

Para o conhecimento é necessário primeiro o conceito (categoria) e depois a intuição. Tem de ser dado ao conceito uma intuição correspondente. Assim, o pensamento de um objeto em geral só pode converter-se em conhecimento por meio de um ‘conceito puro do entendimento’. As categorias só servem para conhecimento das coisas, ou seja, aplicam-se a objetos da experiência possível. Assim, pensar um objeto não é a mesma coisa que conhecer um objeto. As categorias não nos concedem nenhum conhecimento a não ser através da possibilidade da sua aplicação à intuição empírica. Também temos uma intuição pura, que é aquela que nos dá o espaço e o tempo.

É assim que Kant desenvolve, na dedução transcendental das categorias, o princípio segundo o qual os conceitos a priori têm de ser reconhecidos como condições a priori da possibilidade da experiência. O fundamento objetivo da possibilidade da experiência é concedido pelos conceitos a priori. Isto é, só as categorias possibilitam a experiência. Sendo assim, as categorias relacionam-se necessariamente e a priori com os objetos da experiência. Sendo que os objetos da experiência são na forma de fenómeno. Em toda a experiência existe o conceito do objeto que é dado pela intuição dos sentidos.

O segundo passo é dado pela síntese na imaginação do diverso da intuição pura. Mas que ainda não proporciona o conhecimento do objeto. Para que o conhecimento de um dado objeto se dê é preciso o terceiro passo dos conceitos (categorias) que conferem unidade à síntese pura, a qual tem lugar no entendimento. O que é dado no espaço e no tempo é dado a priori, e neste caso trata-se de síntese pura.

O juízo é a representação de uma 'representação do objeto'. A esta chama-se intuição, que possibilita o conhecimento a priori a partir dela. Trata-se de uma operação do entendimento, o qual não é mais do que a capacidade de ligar a priori o diverso das representações e submete-lo à unidade da aperceção. A reunião num conceito do 'diverso do objeto dado na intuição' é a 'unidade transcendental da aperceção'.