Os povos da região do Cáucaso e das estepes adjacentes, que os linguistas do século XX os classificaram como indo-europeus, chegaram à Península Ibérica durante a Idade do Bronze.
Geneticamente - R1b-P312 no cromossoma Y - é a expressão masculina associada à Idade do Bronze, e que contribuiu para a transformação genética da população da Europa ocidental que aí residia desde o fim do último período glacial. O fim do último período glacial ocorreu há cerca de 11.700 anos, marcando o término da época do Pleistoceno e o início do Holoceno (a época geológica atual).
Um estudo de 2021 encontrou uma forte predominância de R1b-S116/P312 em pessoas do País Basco. Este dado foi interpretado como evidência de uma importante substituição das linhagens masculinas anteriores à Idade do Bronze. Geneticamente - os bascos não são uma população "paleolítica congelada". Porém, linguisticamente, preservaram uma língua que não pertence à grande família indo-europeia que acabou por dominar quase toda a Europa.
Na Península Ibérica, antes da conquista romana, existia uma enorme diversidade de povos: iberos; celtiberos; lusitanos; galaicos; tartéssios; bascos e outros grupos pirenaicos; comunidades fenícias e cartaginesas; colónias gregas. A conquista romana foi progressiva [218 a.C. - 19 a.C.] A transformação populacional e cultural foi gigantesca. O latim, como língua administrativa e erudita, mais tarde gerou as línguas românicas: português, galego, castelhano, catalão, francês, italiano, romeno, etc. A ocupação romana abriu estradas e construiu cidades, criou instituições jurídicas, conferiu a cidadania romana aos nativos e facilitou ao cristianismo a sua propagação.
No final do Império Romano, a cidadania romana já não era constituída por uma população genética específica. Um cidadão romano podia ser um habitante da Hispânia, da Gália, dos Balcãs, do Norte de África ou da Síria. Este é talvez o maior exemplo antigo de como a identidade política ultrapassou a ancestralidade genética. O caso do povo do País Basco é precisamente um dos melhores exemplos para perceber até onde podemos correlacionar a genética com a língua, e também onde essa correlação deixa de funcionar. Na Península Ibérica existiram línguas como: celtibérico; lusitano; euskara (basco) várias línguas célticas; outras línguas indo-europeias. E depois o latim praticamente apagou todas elas à excepção do basco que sobreviveu. Os bascos não sendo simplesmente "os descendentes dos caçadores-recolectores paleolíticos", ainda assim apresentam uma continuidade populacional regional bastante homogénea desde a Idade do Ferro.
Por volta de 100 d.C., o panorama europeu já era diferente do da Idade do Bronze. O Império Romano era: a Hispânia; a Gália; a Itália; a Britânia; a Grécia; os Balcãs; a Dácia. Fora do Império Romano eram: os germanos; os povos bálticos; os sármatas; e outros grupos. Estes, ocupavam o Norte e o Leste da Europa. O Império Romano criou uma enorme zona de circulação humana. Soldados sírios serviam na Britânia. Comerciantes africanos mercadejavam na Gália. Habitantes da Hispânia podem instalar-se em Roma. E escravos de praticamente todas as regiões podiam ser deslocados milhares de quilómetros. Portanto, o Império Romano foi também uma gigantesca máquina de mistura populacional.
Entre 200 d.C. e 500 d.C., o espaço dominado pelo Império Romano é inadido por esses povos fora da sua fronteira a Norte: anglos e saxões vândalos; suevos; alanos; francos. E fora da sua fronteira a Leste: godos; lombardos; burgúndios; hunos. Em muitos casos tornaram-se numa elite militar e política a dominar as populações locais muito mais numerosas. Assim, na Gália, os francos, à frente de populações galo-romanas, formaram uma realidade política medieval que viria a ser a França. Na Hispânia aconteceu o mesmo, visigodos dominando os hispano-romanos formaram uma identidade política medieval ibérica. Na Itália, foram os ostrogodos e lombardos. Na Britânia foram os anglos, saxões e jutos a formar os anglo-saxónicos.
Em suma, durante os primeiros séculos desta era, havia populações do centro e leste europeu que viviam à volta e fora do Império Romano, mas ainda assim falavam diversas línguas indo-europeias. Entre aproximadamente 500 d.C. - 700 d.C., comunidades eslavas expandiram-se para a Europa Central, Europa Oriental e Balcãs. Foi uma das grandes transformações demográficas da Alta Idade Média. Os Balcãs passaram a ser um verdadeiro laboratório humano. Nesta região encontramos uma extraordinária sucessão: caçadores-recolectores; agricultores neolíticos; populações das estepes; trácios ilírios gregos; macedónios; romanos; populações germânicas e hunas; eslavos; populações medievais balcânicas. E todas essas camadas deixam vestígios. É por isso que procurar um "povo original" dos Balcãs é frequentemente enganador. Não existe uma substituição simples. Os povos que hoje consideramos "antigos" – romanos, celtas, germanos, iberos, gregos – também eram eles próprios o produto de migrações e misturas anteriores. Não existe um ponto em que apareça subitamente: o "povo francês", o "povo português", o "povo alemão" ou o "povo italiano". Essas identidades foram sendo construídas progressivamente durante um período de transição entre a Antiguidade e a Idade Média.
Como se transmite uma língua através das gerações, e como se transforma essa língua quando as comunidades humanas se separam, se encontram ou reorganizam as suas relações sociais? Como é que uma população que fala uma língua acaba, séculos depois, por falar duas ou dez línguas diferentes?
Há uma população que fala uma língua comum; uma parte instala-se num vale distante; outra permanece na região de origem. Durante algum tempo, as duas comunidades continuam a compreender-se. Mas começam a acumular-se pequenas diferenças. Mudanças locais na pronúncia, no vocabulário e na gramática. O processo é gradual. Não existe um momento biológico ou linguístico universal em que um dialeto se transforma subitamente numa língua. A mudança linguística não exige que os falantes queiram mudar a língua. Uma criança aprende a falar imitando e interpretando a linguagem dos adultos. Nunca reproduz perfeitamente todas as características daquilo que ouve. As diferenças individuais são pequenas, mas, ao longo de muitas gerações, podem acumular-se. A transmissão cultural é, portanto, simultaneamente conservadora e inovadora. A faculdade da linguagem falada é um atributo biológico que reside no cérebro humano, mas as línguas em si não são entidades biológicas que se reproduzem com os seus falantes. As línguas faladas pelos seres humanos resultam de sistemas interativos humanos que são aprendidos na experiência do convívio quotidiano e que faz parte de um sistema ainda mais amplo a que chamamos cultura.
A geografia fragmenta as comunidades -- montanhas elevadas, vales profundos, florestas densas, rios difíceis de atravessar e zonas costeiras separadas por ambientes muito diferentes. Uma comunidade pode viver num vale e manter contactos frequentes com os seus vizinhos imediatos, mas raros com populações a poucas dezenas de quilómetros de distância. Esta estrutura favorece a diferenciação linguística. Pelo contrário, planícies, grandes rios navegáveis, e redes comerciais - permitiram, em vários períodos, a circulação de populações e de línguas por áreas extensas. Mas a geografia, por si só, não explica tudo. As relações entre comunidades mudam. Uma aldeia pode estabelecer alianças matrimoniais com uma região, relações comerciais com outra e rivalidades com uma terceira. Essas relações influenciam quais as línguas aprendidas, transmitidas ou abandonadas.
O cérebro humano não nasce já com as línguas inscritas nos seus circuitos. Uma criança nasce com capacidades que a possibilitam de aprender uma língua humana, desde que exista exposição adequada durante o desenvolvimento. A criança aprende regularidades estatísticas, categorias sonoras, padrões gramaticais e convenções comunicativas. Faz isso num ambiente social. A linguagem é aprendida através de outras pessoas, não apenas pela observação abstrata de sinais. Decorre daqui que a capacidade humana para a linguagem é prévia a qualquer língua particular que hoje conhecemos. E a diversidade das línguas é, em grande medida, uma consequência da capacidade de uma mesma espécie para construir sistemas simbólicos diferentes e transmiti-los culturalmente. A língua é simultaneamente um instrumento de comunicação e um património coletivo. A analogia com a biologia é a descendência com modificação: tal como as espécies descendem de antepassados, as línguas podem descender de uma língua ancestral. Mas há uma diferença crucial. Uma pessoa pode aprender uma língua sem ter descendência biológica dos seus falantes. Uma comunidade inteira pode mudar de língua em poucas gerações. Por isso, as árvores genealógicas das línguas e as árvores genealógicas das populações humanas nunca coincidem perfeitamente.
O caso basco -- aponta para uma questão profunda: até que ponto a nossa experiência do mundo é moldada pela língua que aprendemos? A linguagem não se limita a atribuir nomes a objetos ou a coisas já categorizados de forma definitiva. As línguas diferem na maneira como organizam certos domínios – o espaço, o tempo, as relações sociais, a evidência, a classificação dos objetos – e essas diferenças podem influenciar hábitos de atenção e de memória. Isso não significa que cada língua crie uma realidade mental incomunicável, nem que os seus falantes estejam presos a uma determinada visão do mundo. A influência da língua depende do domínio cognitivo e das circunstâncias. A espécie humana possui uma capacidade cognitiva partilhada que, ao ser transmitida através de comunidades históricas diferentes, produz uma pluralidade extraordinária de mundos linguísticos. O basco mostra-nos como uma tradição pode persistir durante milénios, mesmo quando a população se transforma. Existem outros casos que nos mostram outro tipo de evoluções - a mesma capacidade pode gerar uma diversidade imensa quando as comunidades seguem trajetórias históricas distintas. E ambos os casos recordam que a unidade biológica da humanidade é perfeitamente compatível com uma diversidade cultural e linguística extraordinária.
O caso basco -- aponta para uma questão profunda: até que ponto a nossa experiência do mundo é moldada pela língua que aprendemos? A linguagem não se limita a atribuir nomes a objetos ou a coisas já categorizados de forma definitiva. As línguas diferem na maneira como organizam certos domínios – o espaço, o tempo, as relações sociais, a evidência, a classificação dos objetos – e essas diferenças podem influenciar hábitos de atenção e de memória. Isso não significa que cada língua crie uma realidade mental incomunicável, nem que os seus falantes estejam presos a uma determinada visão do mundo. A influência da língua depende do domínio cognitivo e das circunstâncias. A espécie humana possui uma capacidade cognitiva partilhada que, ao ser transmitida através de comunidades históricas diferentes, produz uma pluralidade extraordinária de mundos linguísticos. O basco mostra-nos como uma tradição pode persistir durante milénios, mesmo quando a população se transforma. Existem outros casos que nos mostram outro tipo de evoluções - a mesma capacidade pode gerar uma diversidade imensa quando as comunidades seguem trajetórias históricas distintas. E ambos os casos recordam que a unidade biológica da humanidade é perfeitamente compatível com uma diversidade cultural e linguística extraordinária.
No País Basco, entraram populações geneticamente relacionadas com as populações das estepes. Entrou população, mas não entrou uma língua indo-europeia. Como se disse, os bascos modernos possuem ancestralidade associada às migrações da Idade do Bronze. Duas populações geneticamente semelhantes podem falar línguas diferentes; duas populações geneticamente diferentes podem falar a mesma língua. Isto aconteceu inúmeras vezes na história. A única afirmação, quase tautológica, que podemos fazer é: o euskara é quase de certeza uma língua descendente de uma língua pré-indo-europeia da Europa ocidental. Há numerosos topónimos antigos na Península Ibérica, e na região dos Pirenéus, cuja interpretação é difícil e alguns parecem relacionar-se com o basco. Há também evidências de que o ancestral do basco era falado numa área mais ampla do que o País Basco atual. Portanto, é possível que o basco moderno seja o último sobrevivente de uma língua pré-indo-europeia muito maior.
Durante muito tempo existiu a ideia de que os bascos seriam uma espécie de relíquia genética paleolítica que sobreviveu nas montanhas dos Pirenéus, enquanto os outros europeus teriam vindo da Anatólia e das estepes orientais à volta do Cáucaso, Cáspio e Mar Negro já na fase de agricultores e falantes da chamada língua indo-europeia. Um estudo genético, em 2024, confirmou a enorme transformação da genética europeia, desde há cerca de 6 mil anos, relacionada com a expansão de povos destas regiões. Ao mesmo tempo, os estudos de ADN, de achados arqueológicos no País Basco, mostram que esses povos agricultores orientais do Neolítico também lá chegaram. A grande diferença está no que ocorreu posteriormente na Idade do Ferro, em que a miscigenação a partir daí foi muito escassa.
O grande enigma dos bascos é a língua. O euskara (o basco) é uma língua absolutamente excecional na Europa. Não pertence a nenhuma família linguística europeia conhecida, nem outra família como a afro-asiática ou semítica. E não se conhece sequer nenhuma língua viva que seja claramente sua irmã. Isto significa que ninguém consegue dizer que o basco veio com os agricultores neolíticos; nem que tenha origem nos caçadores-recolectores paleolíticos. Sabe-se apenas que está relacionado com o aquitano. A língua aquitana (ou aquitano) foi um idioma pré-indoeuropeu falado na antiguidade na Aquitânia (região entre os Pirenéus e o rio Garona, no sudoeste da França) e em partes do norte da Península Ibérica, antes da romanização. Uma língua antiga conhecida através de nomes de pessoas e de divindades inscritos em monumentos romanos. As semelhanças entre esses nomes e elementos do basco são suficientemente fortes para estabelecer uma relação linguística. Mas a documentação é escassa. Três mecanismos poderão ter contribuído para a sua sobrevivência. 1) A geografia -- Os vales, montanhas e zonas rurais dos Pirenéus ocidentais podem ter favorecido a continuidade de comunidades locais e limitado certo tipo de integração política. Mas as montanhas não são muralhas, também permitem circulação, comércio e contacto. 2) A organização social -- Uma língua sobrevive quando continua a ser transmitida às crianças, utilizada nas famílias e nas relações quotidianas. A persistência de redes locais de comunicação pode ser mais importante do que a existência de fronteiras físicas. 3) A história política -- A conquista romana não implicou a substituição linguística imediata de todas as populações conquistadas. O latim difundiu-se de forma desigual, e diferentes comunidades conservaram as suas línguas durante períodos distintos. É provável que a sobrevivência do basco resulte da combinação destes fatores, e não de uma única causa.
O basco não se conservou sem sofrer evolução. E este ponto é essencial. Uma língua pode sobreviver durante dois mil anos e, no entanto, sofrer transformações na pronúncia e sotaque, vocabulário e gramática. O basco recebeu empréstimos importantes do latim e das línguas românicas. A influência não se limitou a palavras isoladas, também afetou construções gramaticais. Ao mesmo tempo, a língua basca (euskara) manteve características estruturais próprias. Além disso, o basco antigo não correspondia necessariamente a uma comunidade linguística uniforme. Existiam variedades regionais, e a língua padronizada moderna, o euskara batua (basco unificado), é uma criação relativamente recente. Isto sugere uma distinção importante. A continuidade linguística de uma língua transmite-se de geração em geração. A pureza linguística é uma ideia geralmente enganadora, porque todas as línguas evoluem: mudam e recebem influências.
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