quinta-feira, 28 de março de 2019

A ordem ocidental e o colapso do planeta



          A bem dizer, apesar de estar por um fio, ainda vigoram no mundo os princípios básicos do Tratado de Vestefália, 1648, resumidos nos princípios de soberania e de igualdade.
          Tudo começou com os Portugueses quando se lançaram ao mar no século XV, dispostos a fazer o reconhecimento do globo e aperfeiçoar, explorar e “civilizar” as terras às quais chegariam, sobre os povos encontrados. Secundados depois sobretudo por Espanhóis, Ingleses e Holandeses, os europeus imprimiram suas visões sobre religião, ciência, comércio, governo e diplomacia, modeladas pela experiência histórica ocidental, a qual consideravam o ápice da realização humana. Passou então a ser considerada a Era Moderna, com um Ocidente confiante, se bem que truculento e territorialmente dividido.
          Os “Ocidentais” acabaram por revelar as características habituais do colonialismo, uma notável arrogância, deixando transparecer a convicção de que detinham o direito de moldar uma ordem mundial de acordo com suas máximas. Relatos a respeito da China e da Índia adotavam um tom condescendente, definindo a missão europeia como sendo a de educar as culturas tradicionais de modo a elevá-las a níveis mais altos de civilização. Com um número relativamente pequeno de funcionários, administradores europeus redesenharam as fronteiras de nações antigas, ignorando o facto de que esta atitude poderia não ser bem-vinda ou ser considerada anormal e ilegítima. É verdade que os seus melhores elementos tentaram promover uma espécie de método intelectual que encorajasse o ceticismo e um conjunto de práticas que conduziram à ciência que hoje é reconhecida por todos como um “bem universal”, em última instância também contaminou a política ao ponto de serem aceites pela maioria dos países os dois conceitos políticos fundamentais: democracia e direitos humanos.
          Recuando na história, não se pode esconder a prática sórdida da escravidão. E o Ocidente, mais uma vez, produziu o que nenhuma outra civilização escravocrata fizera antes: um movimento abolicionista global baseado na convicção de uma humanidade comum e da dignidade inerente ao indivíduo. Rejeitando sua adesão anterior a esse comércio desprezível, a Grã-Bretanha assumiu a liderança na aplicação de uma nova norma relativa à dignidade humana, abolindo a escravidão do seu império e proibindo a circulação de navios negreiros em alto-mar. A combinação singular de uma conduta autoritária, arrojo tecnológico, humanitarismo idealista e um fermento intelectual revolucionário provou ser um dos fatores que ajudaram a dar forma ao mundo moderno. Mas tudo isso, ainda assim não evitou as brutais depredações das potências expansionistas através das grandes empresas.
          E aqui chegamos agora ao grave problema do Ambiente. Todas as sociedades modernas dependem da extração de recursos naturais. Até aqui, apesar de alguma parte da energia de que necessitamos ter origem em recursos renováveis, como as barragens hidroelétricas e as torres eólicas, a maior parte tem sido extraída de fontes não renováveis e poluentes: petróleo, gás e carvão. Mas um outro setor que muitas vezes esquecemos, que é o setor dos nossos instrumentos e máquinas, é o dos metais. Para além da madeira e dos plásticos derivados do petróleo e outros produtos sintéticos, que dependem da exploração mineira.
Depois das grandes controvérsias abertas entre os ambientalistas e as empresas industriais que se arrastaram no quase último meio século, com acusações mútuas muitas vezes verdadeiras de ambos os lados, hoje já não há nenhuma controvérsia quanto ao contributo humano para as catástrofes ambientais que acontecem um pouco por todo o planeta cuja intensidade tem aumentado de ano para ano.
          No passado, houve sociedades e civilizações que colapsaram e desapareceram por sua própria culpa. Que lições podemos extrair daí? E o que ainda podemos fazer para não destruirmos mais os habitats naturais? Por exemplo, a destruição das florestas representa uma perda efetiva para nós, porque para além da madeira e outras matérias primas, é imprescindível ao ecossistema, como a proteção das bacias hidrográficas, a proteção do solo contra a erosão, habitat para a maior parte das espécies animais e vegetais terrestres, e essencial ao ciclo da água que gera uma grande parte da precipitação. As alterações na estrutura das florestas têm-se traduzido nas alterações nos regimes de fogos que colocam as florestas e matas sob um risco acrescido de incêndios cada vez mais anómalos e catastróficos.
          Mas se os exemplos do passado se limitaram a problemas nos ecossistemas terrestres, como foi o caso da Ilha de Páscoa ou da Gronelândia na Idade Média, hoje temos também problemas nos ecossistemas marítimos e oceânicos. Cerca de um terço dos recifes de coral – o equivalente no oceano às florestas tropicais húmidas, porque são habitats de uma percentagem desproporcionada de espécies marinhas – foram já gravemente danificadas. E isto deve-se não apenas aos agressivos métodos de pesca, mas sobretudo ao efeito do escoamento de sedimentos de terras adjacentes desflorestadas e convertidas em terras agrícolas, e poluentes industriais. A esta pressão acresce também o aumento da temperatura dos oceanos, que contribui para o incremento do branqueamento dos corais.

terça-feira, 26 de março de 2019

Anamorfose na pintura: Os Embaixadores, de Hans Holbein, o Jovem


Este quadro, de 1533, ano do nascimento de Isabel I de Inglaterra, incorpora com uma caveira, o exemplo típico de anamorfose na pintura. 

A Anamorfose é um efeito de perspetiva que força o observador a se colocar sob um determinado ponto de vista, o único a partir do qual o elemento recupera uma forma proporcionada e clara, que neste caso se trata da caveira colocada no centro da composição. Uma vanitas ou memento mori, opondo vida e morte num rito de passagem, não está claro por que Holbein lhe deu tal proeminência nesta pintura. A Anamorfose esteve em voga sobretudo na pintura mural dos séculos XVI e XVII para criar ilusões de óptica na pintura sobre superfícies curvas, como as abóbadas das igrejas, por exemplo, onde a deformação de perspectiva permite a visão correta somente a partir de um único ponto de vista: se o observador se colocar em qualquer outra posição, a imagem fica deformada e incompreensível.

Entre as pistas para a exploração das associações entre as duas figuras estão uma seleção de instrumentos científicos incluindo dois globos, um quadrante, um torquetum e dois relógios de sol (um horizontal e outro vertical), bem como vários tipos de têxteis, incluindo o mosaico do chão, com base no pavimento da Abadia de Westminster, e o tapete oriental na prateleira superior, um exemplo dos tapetes orientais frequentes na pintura renascentista. A escolha das duas figuras pode, além disso, ser vista como simbólica. A figura da esquerda está em trajes seculares, enquanto a figura da direita está vestida com roupas clericais. E a mesa exibindo livros abertos de cariz religioso, simboliza a unificação do poder secular com o poder espiritual.

Holbein nasceu na Alemanha, mas passou a maior parte da sua vida em Inglaterra. No entanto, Holbein mostra nesta obra a influência da pintura flamenga. Essa influência na pintura a óleo de Holbein veem-se nos detalhes meticulosos dos objetos do conhecimento científico misturados simbolicamente com os livros reservados ao espaço do sagrado.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Por Londres: Turner como metáfora do espaço infinito


Turner nasceu em Londres em 23 de abril de 1775, vindo a falecer a 19 de dezembro de 1851 em Chelsea. As suas obras mais importantes estão na National Gallery e na Tate Gallery, ambas em Londres. Está sepultado na Catedral de São Paulo, na capital inglesa.

A pintura de Turner serve e modelo, por sinal bastante interessante, de como a gramática da representação do espaço pode compor uma textura de uma estrutura narrativa. Apesar de a pintura, ainda no tempo de Turner ser a representação de corpos finitos, normalmente manifestados através de contornos, Turner ousou subverter o espírito da época para dar forma ao infinito. Neste aspeto Turner é um génio, com uma intuição audaciosa que acompanha outra intuição noutro campo do saber: a matemática.

Até 1800, os matemáticos mantinham uma oposição absoluta entre as ideias: ‘infinito’ versus ‘indefinido’; ‘linear’ versus ‘não linear’. Assim se introduziram os números chamados ‘indefinidos’, números que submetidos a certas operações, fazem que estas se prolonguem até ao infinito. E Turner apresenta também novas categorias: luminoso versus opaco; ortogonal versus circular; policromático versus monocromático; e contornado versus expandido.

Hegel, na Estética, diz que “o infinito pertence ao divino e o humano só pode chegar até ele através do indefinido”. É necessário estabelecer equivalências entre “infinito” e “indefinido”, de maneira que a representação do segundo tenha como significado o primeiro. O indefinido ao nível da expressão será portador do infinito ao nível do conteúdo. Foi isso que Turner pretendeu fazer na pintura: uma nova palavra pictórica.


“Sombras e Trevas (a noite do Dilúvio, 1843)” encontra-se no National Gallery of Art, Washington. E “Luz e Cor, 1843 (o dia seguinte ao Dilúvio), a teoria de Goethe) encontra-se na Tate Gallery de Londres. A referência a Goethe explicitada no título do quadro “Luz e cor”, revela que Turner conhecia bastante bem a obra do poeta alemão. No exemplar do livro de Goethe “Teoria das Cores”, 1810, que possuía, foi densamente anotado por ele.

Turner foi um génio incompreendido no seu tempo, mas considerado o antecipador da arte abstrata contemporânea. Os primeiros a darem-lhe valor foram os impressionistas. Com a sua intuição de ter chegado o momento da destruição de todas as leis da proporção e perspetiva até aí vigentes, levou a cabo uma caminhada de libertação espacial isenta da forma figurativa.

Turner elimina a narrativa a favor do abstrato, chamando-lhe “o sublime sem mediação”. Extraordinário exímio na manipulação do espaço e, sobretudo, das ideias de espacialidade, realizou uma reformulação da semiótica do mundo natural, como ponto máximo da sua autoconsciência.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Ter petróleo ou não ter, eis a questão


Os portugueses, por experiência própria, sabem que o 'rating' de um país é muito mais importante para o seu bem-estar económico do que as suas jazidas de petróleo. O rating indica a probabilidade de um país pagar as suas dívidas. 


Além de dados puramente económicos, estes tomam em consideração fatores políticos, sociais e culturais. A Venezuela é um país rico em petróleo, mas está amaldiçoado pelo seu governo de Maduro, e por um sistema político que deixa muito a desejar quanto a corrupção. 

Como tal, lamentavelmente os venezuelanos estão condenados à pobreza, uma vez que não conseguem angariar a confiança necessária para aproveitar ao máximo o seu petróleo enquanto é tempo. Daqui a alguns anos, pelo caminho que o aquecimento global está a tomar, o petróleo vai deixar de ter qualquer valor comercial.  

Assim, um país pode não ter jazidas de petróleo, mas se viver em paz consigo e com os outros, desfrutar de um governo livre e democrático de um estado de direito com um sistema judicial justo, tem mais hipóteses de obter crédito a juros baixos. 

Apesar de não devermos ser ingénuos em relação à doutrina do mercado livre, a verdade é que é esta crença que domina o atual sistema capitalista, que é global. E por mais que apregoem que o poder político não se deve meter na economia, um mercado, livre de toda a influência política, é algo que simplesmente não existe. 

O recurso económico mais importante é a confiança no futuro. Mas é também o recurso mais sujeito a ameaças, vindas de dentro ou de fora do país. 


segunda-feira, 18 de março de 2019

Europa: que futuro..?



Parece uma obviedade afirmar, no atual contexto de uma ordem mundial globalizada, que as sociedades europeias têm muito mais chances de se viabilizarem, com mais ou menos sucesso, unidas numa União Europeia, do que fragmentadas nos seus nacionalismos cada um por si. Daí a quantidade de pessoas apreensivas com o Brexit.

Contudo, afirmar a inevitabilidade de a sociedade europeia estar destinada a se unir para sobreviver não significa dizer que o resultado final tinha de ser este, a União Europeia que temos atualmente. Podemos naturalmente imaginar que podia ser diferente. Porque está a língua inglesa tão difundida hoje em dia? Não podemos efetuar experiências contra-factuais. Se quisermos saber como foi o passado, só temos um caminho. Mas se quisermos saber como será o futuro, temos uma miríade de caminhos. Às vezes a História segue por atalhos inesperados.

Podemos descrever como é que se chegou a este Brexit. Mas não se consegue explicar porque foi que este Brexit específico se concretizou.

Há uma diferença entre explicar como e explicar porquê. Pode-se reconstruir a série de acontecimentos que conduziu a este ponto. Mas para explicar porquê é preciso descobrir uma quantidade imensa de razões indeterminadas. Hoje a maioria dos historiadores não acredita nas teorias deterministas. Quanto mais informação se tenha, quanto mais se conheça, mais difícil se torna explicar porque aconteceu de uma forma e não de outra.

Em retrospetiva é sempre fácil dar uma explicação ad hoc. Em História as coisas passam-se assim: as pessoas que vivem os acontecimentos são aquelas que menos percebem o que se passa, porque o futuro é insondável. Ao passo que um acontecimento analisado em retrospetiva é mais fácil de entender, é quase sempre óbvio. Mas esteve longe de ser óbvio para as pessoas que o vivenciaram.

Não sabemos ainda o desfecho que vai ter a atual desregulação do clima e da ecologia. Existem bons argumentos para que seja uma catástrofe, um desastre ecológico. Mas não há certezas. E, todavia, dentro de algumas décadas, as pessoas vão olhar para trás e não entender como gerações passadas foram tão imprudentes, acreditando num certo tipo de paraíso tecnológico, quando era evidente o que está à vista de todos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A adolescência e a sua maneira desenfreada de agir, entre a empatia e a violência


Numa análise puramente neurobiológica, a revolução por que passamos na adolescência está relacionada com o processo de amadurecimento cortical da parte pré-frontal do cérebro. Mas daí não se pode inferir que o amadurecimento cortical frontal tenha evoluído para que os adolescentes pudessem agir de maneira desenfreada.

O adolescente não é ainda um adulto, porque lhe falta ainda o amadurecimento do lobo pré-frontal que em média apenas está concluído por volta dos 21 anos de idade. Formam-se novas sinapses, criam-se novos neurónios, os circuitos são refeitos e as regiões cerebrais umas expandem-se e outras contraem-se. E assim aprendemos, mudamos e nos adaptamos.

O adolescente é bom em vestir a pele do outro, mas ainda é insuficiente quanto aos julgamentos morais. Em todo o caso já consegue fazer avaliações de tipo meritocrático, o que não acontece na infância, em que a tendência é de tipo igualitário, com a divisão dos recursos da mesma forma. À medida que vão amadurecendo os adolescentes também distinguem melhor o que é um dano pessoal e um dano material. Outro fator determinante é a abertura à novidade. Mas sentir muito intensamente as dores do outro também comporta grandes problemas. Isso torna menos provável que tomem atitudes pró-sociais que requeiram coragem. Em vez disso, a aflição pessoal produz um foco sobre si mesmo que leva ao escape. À medida que o sofrimento empático aumenta a sua própria dor torna-se a principal preocupação. Portanto, um fator preditivo para indivíduos que agem, de facto, é a capacidade de estabelecer algum distanciamento, de cavalgar a onda da empatia, em vez de se deixar engolir por ela. O excesso de empatia pode atrapalhar a ação efetiva.

Obviamente, os verdes anos adolescentes não giram apenas em torno do altruísmo e da luta contra a "extinção do panda". É o pico da violência, das disputas isoladas ou em gangue. As agressões irrompem por todo o lado. A biologia subjacente à emoção exacerbada é a mesma. O que sustenta o pico de violência dos adolescentes, ao contrário do senso comum, não tem nada a ver com o súbito influxo de testosterona. Tem a ver com o córtex pré-frontal e com a dopamina. Um facto muito importante: a inteligência emocional e a inteligência social são melhores indicadores para prever o sucesso e a felicidade de um adulto, do que o Q.I., as notas no Liceu, ou na Faculdade. A vida adulta está cheia de encruzilhadas significativas, em que fazer a coisa certa é definitivamente mais complicado. Para fazer a coisa certa, e para desenvolver as habilidades necessárias para fazer isso corretamente requer um profundo aprimoramento feito à custa da experiência.

Dependemos sem dúvida dos genes. E o cérebro recebe grande influência dos genes. Mas, curiosamente, a parte do cérebro que melhor nos define como humanos é o córtex pré-frontal. E este depende menos dos genes do que da experiência vivida. Por ser o último a amadurecer, o córtex frontal está menos limitado pelos genes do que pela experiência para ser esculpido de forma a tornar a espécie humana tão extraordinária. E ao mesmo tempo tão absurda.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O deleite com a desgraça de quem se tem inveja



Os alemães têm para a frase em epígrafe uma única palavra: Schadenfreude.

Isto tem a ver com o estudo do sistema dopaminérgico no cérebro que está ligado ao mecanismo da recompensa, uma propriedade que não se reduz apenas aos hominídeos, mas que de um modo geral se estende a todos os mamíferos. Em termos gerais o sistema dopaminérgico lida com recompensas. Algumas recompensas nestas espécies de animais, como o sexo, libertam dopamina em todas elas.

Tem sido interessante observar os padrões de libertação de dopamina relacionados com as interações sociais. O sistema dopaminérgico traz-nos perspetivas sobre a inveja, o ressentimento e a animosidade, que são as situações em que há uma maior ativação dopaminérgica.

Assim, os mecanismos de recompensa e punição são fundamentais para que a convivialidade em sociedade seja possível. Há, todavia, uma habituação à recompensa. Nada é tão bom como da primeira vez. Para que o sistema possa responder com força total à próxima novidade, uma dada resposta a uma recompensa vai-se atenuando à medida que a mesma recompensa se repete.

O sistema dopaminérgico codifica uma vasta gama de reações a experiências de surpresa, respondendo com aumentos de dopamina livres de escala a boas notícias inesperadas. Há uma consequência que tem a ver com a habituação. Quanto mais consumimos, mais desejosos ficamos de consumir mais, mais forte e mais rápido. O que era um prazer inesperado ontem, é algo de que nos julgamos merecedores hoje, e que não será o suficiente amanhã.

Os nossos comportamentos podem ser bons ou maus, depende do contexto. Uma vez que as contingências da recompensa são aprendidas, a dada altura a dopamina passa a lidar mais com a antecipação do que com a recompensa. Passa a estar mais ligada à expectativa e à confiança. Ou seja, o prazer está na antecipação da recompensa. Quando sabemos, temos confiança, que um determinado apetite vai ser saciado, o prazer sente-se logo no estado de apetite antes de ser saciado. E o prazer passa a ser maior no estado de apetite do que propriamente no estado de saciedade.

Portanto, a felicidade que a dopamina nos proporciona tem mais a ver com a antecipação da recompensa no período em que se busca por ela, uma recompensa de que estamos confiantes da alta probabilidade de que venha a ocorrer. Isto é essencial para entender a natureza da motivação, bem como das suas deficiências.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Vai em busca da verdade que eu vou lá ter contigo


A fé baseia-se no dogma. Segundo um aforismo: a fé é aquilo por que se morre e o dogma é aquilo por que se mata, sempre que o fanatismo se junta ao ressentimento e à ignorância.

Isto é o oposto da investigação responsável, seja levada a cabo no campo científico, seja no campo judiciário. A busca da verdade é o que se espera no tribunal da justiça, ou no tribunal da razão. A fé é a negação da razão. A razão é a faculdade de ajustar o julgamento à informação, os pesos e as medidas. E, todavia, poder-se-ia pensar que a ciência tinha posto em museu as antigas superstições.

A fé fanática, uma vez aferrada a uma qualquer falsidade, vai até às últimas consequências, a morte se for preciso. De uma maneira bizarra e invertida, a morte é a luz pela qual se mede a sombra de todo o sentido da vida. Mas a morte assusta-nos. E, como nos assusta, evitamos pensar nela.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Leis da apostasia em alguns países islâmicos



Nem todos os países são amigáveis para aquelas pessoas que deixaram de acreditar na religião que lhes foi transmitida à nascença, e desejam sair. O mapa anexo mostra os países onde de alguma maneira as pessoas são punidas: nos países pintados a vermelho, um apóstata é punido com a morte; pintados a castanho, sofre pena de prisão e perda da custódia dos filhos e do matrimónio; pintados a laranja, comete crime quem tentar converter um muçulmano a outra religião, com pena agravada se for para ateísmo.

A Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos considera a mudança de religião um direito humano legalmente protegido pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. A Comissão observa que a liberdade de "ter ou adotar" uma religião ou crença implica necessariamente a liberdade de escolher uma religião ou crença, incluindo o direito de substituir a sua religião ou crença atual por outra ou para adotar pontos de vista ateístas.

Etimologicamente ‘apostasia’, do grego “estar longe” tem o sentido de um afastamento definitivo e deliberado de alguma coisa, uma renúncia de sua anterior fé ou doutrinação. Ao contrário da crença popular, não se refere a um mero desvio ou um afastamento em relação à sua fé e à prática religiosa. Pode manifestar-se abertamente ou de modo oculto. Dependendo de cada religião, um apóstata, afastado do grupo religioso no qual era membro, pode ser vítima de preconceito, intolerância, difamação e calúnia por parte dos demais membros ativos. Os casos daqueles países islâmicos são casos extremos, como por exemplo a Arábia Saudita.

O direito canónico católico diferencia a apostasia da heresia e do cisma. Enquanto a heresia diz respeito a crenças apócrifas, e o cisma a uma dissidência quanto à autoridade, a apostasia é o afastamento definitivo, muitas vezes com estrondo e grande mal-estar. Mas estes conceitos deixaram de ter interesse para o Papa a partir do Concílio Vaticano II, na medida em que passou a reconhecer a liberdade das pessoas de escolherem uma ou nenhuma religião, de acreditar ou não acreditar.

Ainda assim, em 2010, a Associação Ateísta Portuguesa, promoveu uma campanha de apostasia coincidindo com a vinda de Bento XVI a Portugal. Alegava que havia ainda algumas pessoas batizadas que não se sentiam confortáveis com a conotação católica. Assim, fizeram circular uma minuta que os candidatos a apostasia podiam preencher e enviar para a respetiva paróquia, onde supostamente o seu nome seria riscado dos livros de batismo.

Há muitas pessoas que não vão tão longe, dar o passo da apostasia, dizendo apenas que são católicos embora não praticantes. Mas, Frei Bento Domingues, diz que já não faz sentido distinguir entre católicos praticantes e católicos não praticantes. Não praticantes de quê? De ir à missa? De rezar e fazer o sinal da cruz? Ou apenas de receber os sacramentos?

Diz-se que hoje vigora um paradigma pós-secular. As pessoas até podem acreditar num ser divino que está para além de nós e nos ultrapassa. Todavia, não praticam uma religião. Pós-secular é mais um jargão académico para significar que já não faz sentido a dicotomia religioso/secular. Isso foi no tempo do processo de secularização das sociedades ocidentais e que ainda não era reconhecida a categoria de “crente sem religião”. Num inquérito realizado no fim do século XX, em Portugal, 80% das pessoas eram católicas porque a hipótese "crente sem religião" não existia. E assim a melhor acomodação era ser católico pela tradição do país.

Hoje, já há em Portugal uma larga camada de população que faz uma socialização católica primária e depois se distancia sem mais nenhum questionamento. Predomina a indiferença e falta de fé. Por outro lado, surgiram novas formas esotéricas de vivência espiritual que ainda não receberam o devido reconhecimento público para serem faladas abertamente.


Do filme - Silêncio

Cristóvão Ferreira (c. 1580-1650) - o jesuíta português que inspirou o filme “Silêncio” de Martin Scorsese, 2016 - tornou-se um apóstata. Foi torturado nos expurgos anticristãos do Japão. Chocou os jovens jesuítas ao ponto de não acreditaram que ele, o último chefe da Companhia de Jesus no Japão, não tenha querido morrer como um mártir, à semelhança de muitos outros missionários. Nascido por volta de 1580, em Zibreira, Torres Vedras, foi enviado para a Ásia, onde foi missionário no Japão de 1609 a 1633, tornando-se o chefe dos jesuítas sob a opressão do shogunato Tokugawa. Em 1633, Cristóvão Ferreira foi capturado. E declarou-se apóstata depois de ter sido torturado. Tornou-se o mais famoso dos "padres caídos", tendo mudado o seu nome para Sawano Chuan. Em 1636, escreveu um livro intitulado A Deceção Revelada, e participou em julgamentos governamentais de outros jesuítas capturados. Morreu em Nagasaki em 1650.

Em A Deceção Revelada, ele afirmou que Deus não criou o mundo, e que além disso o mundo nunca tinha sido criado. Nem o inferno, o paraíso ou a predestinação. O cristianismo foi uma invenção. Pagamento de missas e indulgências, excomunhão, leis dietéticas, a virgindade de Maria, era tudo um disparate. A Ressurreição de Jesus foi um conto desprovido de razão, ridículo, escandaloso, uma brincadeira; sacramentos e confissões não tinham sentido; a Eucaristia uma metáfora; o Juízo Final uma ilusão inacreditável.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ler Heródoto e ver pintura de Gérard David em Bruges. Sisamnes – o juiz esfolado vivo às ordens de Cambises II


Segundo Heródoto, Sisamnes era um juiz real, corrupto, da época do reinado de Cambises II da Pérsia. Ele aceitou um suborno num julgamento e pronunciou uma sentença injusta. Como resultado, Cambises ordenou que fosse preso e a seguir que fosse esfolado vivo. A pele foi usada para estofar o assento da cadeira onde Sisamnes se sentava para proferir as sentenças, cadeira onde o filho teve de se sentar, substituindo-o no seu lugar. Assim, Ótanes levaria em conta a origem da pele sempre que tivesse de deliberar e dar as suas sentenças.

Sisamnes foi o tema destas duas pinturas de Gérard David – O Julgamento de Cambises e A Pele de Sisamnes, ambos de 1498. Juntos, formam o díptico de Cambises. É uma pintura a óleo sobre carvalho, que se encontra em Bruges, no Museu Groeninge. Serviu de referência aos magistrados e funcionários da câmara para os encorajar a serem honestos. Uma apologia pública à detenção do imperador Habsburgo, Maximiliano I, em Bruges, 1488. Na zona superior direita da cena do esfolamento, pode observar-se o filho de Sisamnes e a cadeira, agora envolta com a pele esfolada.