segunda-feira, 13 de maio de 2024

O sino Pummerin da Catedral de Viena e o cerco em 1683 pelos otomanos





O famoso sino da Catedral de Santo Estêvão, o "Pummerin", pesando não menos que 21 toneladas, sofreu consideráveis danos causados pelos ataques da Segunda Guerra Mundial, desde então ele vem sendo consertado e é usado atualmente em ocasiões especiais, assim como para anunciar o novo ano.

Depois da vitória na Batalha de Viena em 1683 após o cerco otomano, os canhões otomanos foram capturados e derretidos para fundir sinos para a Catedral de Santo Estêvão, em Viena. Esses sinos foram posteriormente instalados na catedral como um símbolo da vitória sobre os otomanos e como uma maneira de celebrar a resistência da cidade.




Em 1683, Jan III Sobieski, rei polaco, liderou as forças cristãs na Batalha de Viena contra o Império Otomano. Sua intervenção foi crucial para a vitória, que é considerada um ponto de viragem na história, impedindo a expansão otomana na Europa Central. Durante o Cerco de Viena, em 1683, os otomanos estiveram perto de capturar a cidade, mas foram derrotados pelas forças combinadas do Sacro Império Romano e das forças polaco-lituanas, lideradas pelo rei Jan III Sobieski. Foi uma batalha crucial que marcou o fim das tentativas otomanas de expandir o seu império na Europa Central.

Os hussardos alados polacos desempenharam um papel significativo na Batalha de Viena. Sob o comando do rei Jan III Sobieski, esses hussardos, conhecidos por suas habilidades de cavalaria e táticas agressivas, desempenharam um papel crucial no sucesso das forças polaco-lituanas e do Sacro Império Romano na batalha, contribuindo para a derrota dos otomanos. "Boca de Porco" era um epíteto para se falar do rei Jan III Sobieski, o grande vencedor da Batalha de Viena. Sua liderança e as táticas habilidosas empregadas pelos hussardos, uns bons alados polacos, foram fundamentais para a derrota dos otomanos e a defesa bem-sucedida de Viena.



Sobieski enviando a mensagem de vitória para o Papa, após a Batalha de Viena
por Jan Mateiko  

Jan Alojzy Matejko, nasceu e morreu em Cracóvia 1838-1893. Pintor polaco, é considerado o maior pintor histórico polaco de todos os tempos. Tornou-se famoso por retratar personalidades e eventos históricos.





Golda Meir e a Guerra do Yom Kippur





Golda Meir [1898-1978] enquanto era a Primeira-Ministra de Israel [1969-1974] Anwar Sadat [1918-1981] presidente do Egito [1971-1981] e Hafez al-Assad [1930-2000] presidente da Síria [1971-2000] preparavam em Alexandria um ataque a Israel que se veio a dar inesperadamente para Golda Meir aparentemente apanhada desprevenida. Foi o resultado de uma guerra que decorreu entre 6 e 26 de Outubro de 1973, conhecida pela Guerra do Yom Kippur, cujo desfecho redundou numa pequena vitória militar de Israel, mas ganhos políticos para o Egito. O Ministro da Defesa de Israel era Moshe Dayan, um veterano de todas as outras guerras desde a Revolta Árabe entre 1936 e 1939. 




Enquanto o Egito atacava as posições israelitas desprotegidas na península do Sinai, as forças sírias atacaram os baluartes dos Montes Golã. Nessa investida, graves perdas foram infligidas ao exército de Israel. Após três semanas de luta, as tropas árabes foram forçadas a retroceder. Mas as fronteiras iniciais tiveram de se reconfigurar. Guerra do Yom Kippur foi um momento crítico na história do Médio Oriente, em que Golda Meir saiu muito desgastada, e as consequências para  resto do mundo foram significativas e com muitas implicações.

Foi uma espécie de sentimento de vingança por parte dos árabes depois da humilhante derrota da Guerra dos Seis Dias. A seguir vieram os Acordos de Camp David que normalizaram as relações do Egito com Israel. 
O Egito, que já se vinha afastando da União Soviética, cortou completamente de vez.Mas uma das consequências desta guerra para o Mundo foi a crise do petróleo. Os estados árabes, membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) boicotaram os Estados Unidos e os países europeus que apoiavam a sobrevivência de Israel. Se a curto prazo a medida agravou a crise económica mundial, a longo prazo a comunidade internacional aprendeu a usar fontes alternativas de energia, e inclusive outras áreas do planeta começaram a aumentar a exploração de petróleo, como foi o caso da região do Mar do Norte, na Europa, do Alasca, nos Estados Unidos, da Venezuela, do México, e tantos outros.

Havia o antecedente de no ano anterior, a 6 de setembro de 1972, terroristas palestinos capturaram 11 atletas israelitas durante os Jogos Olímpicos de Verão em Munique, na Alemanha. Um grupo de terroristas palestinos do grupo "Setembro Negro" invadiu a Vila Olímpica e capturou 11 membros da equipa olímpica de Israel. O evento ficou conhecido como o Massacre de Munique. Após horas de negociações malsucedidas, um resgate mal planeado resultou na morte dos 11 atletas israelitas, além de um polícia alemão e cinco dos oito sequestradores palestinos. Este trágico acontecimento teve um impacto significativo nas relações internacionais e na perceção global do terrorismo.

Erro fatal de Golda Meir e Moshe Dayan, Ministro da Defesa de Israel, que não acreditaram no ataque. Não levaram a sério os sinais de um ataque iminente. Houve informações de inteligência indicando que o Egito e a Síria estavam a preparar-se para uma ofensiva, mas esses sinais foram subestimados ou ignorados. Esse erro de avaliação teve consequências graves para Israel.

Após a Guerra do Yom Kippur, o rei Faisal da Arábia Saudita e outros líderes da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) aproveitaram a oportunidade para orquestrar um aumento nos preços do petróleo. Eles implementaram um embargo ao petróleo contra os países que apoiaram Israel durante a guerra, incluindo os Estados Unidos e vários países europeus. Além disso, a OPEP reduziu a produção de petróleo, aumentando assim os preços. Esse aumento repentino nos preços do petróleo teve um impacto significativo na economia global e nas relações geopolíticas, marcando o início de uma crise energética. 

Uma curiosidade: Ashraf Marwan, genro do ex-presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, era suspeito de ser um agente duplo, trabalhando tanto para Israel quanto para o Egito durante o período que antecedeu a Guerra do Yom Kippur. Ora, acontece que em 2007 foi encontrado morto em Londres. Sua morte permanece envolta em mistério e especulação, com algumas fontes sugerindo que ele foi assassinado, enquanto outras alegam que foi um acidente ou suicídio. O caso de Ashraf Marwan continua a ser objeto de debate e investigação.

domingo, 12 de maio de 2024

Catarina, uma rainha Médici e a França em Guerras de Religião



Sim, Catarina de Médici 1519-1589] foi uma figura importante na história da França. Ela foi rainha consorte da França de 1547 a 1559, como esposa do rei Henrique II, e depois rainha-mãe de 1559 a 1589, durante os reinados de seus três filhos: Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Nesse tempo reinava em Portugal D. João III desde 1521 e reinaria até 1557. E desde 1554 que Filipe II estava à frente do Reino de Espanha.

Catarina desempenhou um papel significativo na política francesa durante um período de tumultos, incluindo as Guerras de Religião entre católicos e protestantes. Ela também foi uma patrona das artes e da cultura renascentista. Os irmãos Guise, liderados por Henrique I, Duque de Guise, e seu irmão Carlos, Cardeal de Guise, eram figuras proeminentes na facção católica durante as Guerras de Religião na França. Eles estavam fortemente comprometidos em defender o catolicismo e suprimir o protestantismo, representado pelos huguenotes. Os Guise lideraram várias campanhas militares contra os huguenotes e estavam envolvidos em várias intrigas políticas para garantir a hegemonia católica na França. Suas ações desempenharam um papel significativo no agravamento das tensões religiosas e políticas durante esse período conturbado da história francesa.



Quarto de Catarina no Château de Chenonceau

Uma das propriedades mais cobiçadas por Catarina de Médici era o belíssimo Château de Chenonceau, que Henrique II havia dado para Diana de Poitiers, na região do rio Loire, ao sul de Chambord. Propriedade da Coroa e utilizado como residência real, Chenonceau é um lugar excepcional, não só por causa do seu design deslumbrante (abrangendo o rio Cher) como também pela riqueza de suas decorações. Ao longo de sua história, foi uma residência edificada, administrada e protegida por algumas das mulheres mais importantes da França. Conhecido também como o Château des Dames, sua aparência atual data de 1513, graças a Katherine Briçonnet. Foi sucessivamente embelezado por Diana de Poitiers e depois por Catarina de Médici. O edifício permaneceu protegido dos tumultos da Revolução Francesa por Madame Dupin e hoje é um importante ponto turístico. O visitante pode conhecer o quarto da rainha Catarina, contendo uma cama de madeira com dossel que teria sido utilizada pela própria soberana nas muitas ocasiões em que esteve no Château.




Château de Chenonceau

Nostradamus, o famoso astrólogo e médico renascentista, teve um encontro com Catarina de Médici. Nostradamus era conhecido por suas habilidades proféticas e foi consultado por muitas figuras proeminentes da sua época, incluindo Catarina de Médici. Embora não haja muitos detalhes precisos sobre o encontro entre os dois, é sabido que Catarina era uma patrona das artes e das ciências, e é plausível que tenha consultado Nostradamus em busca de orientação sobre assuntos políticos ou pessoais.

Henrique II da França não era conhecido por expressar publicamente um desejo de "exterminar" os protestantes. No entanto, durante o seu reinado, houve tensões religiosas significativas entre católicos e protestantes na França, culminando eventualmente nas Guerras de Religião. Estas guerras envolveram conflitos violentos entre as duas facções religiosas, mas é importante notar que os líderes políticos muitas vezes buscavam objetivos políticos e territoriais, além de motivos religiosos.

Francisco II reinou como rei da França de 1559 a 1560, casado com Maria, Rainha dos Escoceses, também conhecida como Maria Stuart. O casamento entre Francisco e Maria ocorreu em 1558, quando Maria tinha apenas 15 anos. Este casamento tinha como objetivo fortalecer os laços entre a França e a Escócia, bem como reforçar a posição católica na Europa, já que Maria era católica. No entanto, o reinado de Francisco II foi curto, pois ele morreu em 1560, aos 16 anos de idade, deixando Maria viúva.

Na mesma altura, nos Países Baixos, Margarida de Áustria, conhecida como Margarida da Parma, também era uma figura importante nas conhecidas Dezessete Províncias. Ela foi nomeada como governadora dos Países Baixos espanhóis em 1559 pelo seu meio-irmão, nada mais nada menos que o rei Filipe II da Espanha. Margarida enfrentou muitos desafios durante o seu governo, incluindo as tensões religiosas entre católicos e protestantes e a crescente insatisfação dos nobres locais com o governo exercido por Espanha. Ela tentou administrar esses conflitos da melhor maneira possível, mas a situação acabou por se deteriorar ao ponto de levar ao levantamento da Revolta dos Países Baixos contra o domínio espanhol. Na verdade, Margarida de Áustria era filha de Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, e de Isabel de Portugal [1503, Lisboa - 1539, Toledo]. O pai era D. Manuel I de Portugal; e a mãe Maria de Aragão e Castela. 

Era também o tempo de Fernando Álvarez de Toledo [1507-1582], também conhecido como o Duque de Alba, general espanhol que desempenhou um papel significativo na supressão de várias rebeliões nos territórios espanhóis, incluindo os Países Baixos. Ele é especialmente conhecido por sua atuação durante a Revolta dos Países Baixos, uma revolta contra o domínio espanhol que ocorreu entre 1568 e 1648. O Duque de Alba liderou as forças espanholas na repressão brutal da revolta, o que lhe rendeu uma reputação temível entre os rebeldes. Sua estratégia incluía medidas rigorosas, como execuções em massa e a criação de um tribunal especial conhecido como o Tribunal dos Tumultos para julgar os envolvidos na rebelião. Embora tenha sido eficaz em esmagar a rebelião em algumas áreas, as suas táticas brutais também alimentaram o ressentimento e fortaleceram a determinação dos rebeldes em outras partes dos Países Baixos.

As posições do Duque de Alba colidiam com as posições de Guilherme de Orange, também conhecido como Guilherme, o Taciturno, líder da revolta contra o domínio espanhol nos Países Baixos. 
O Duque de Alba era o representante do rei espanhol Filipe II e liderava as forças espanholas que tentavam suprimir a revolta, enquanto Guilherme de Orange era um dos líderes rebeldes que buscavam a independência dos Países Baixos do domínio espanhol. Suas interações geralmente envolviam conflitos militares e políticos, que nunca levaram a negociações diretas. Mas houve um momento em que Filipe II da Espanha nomeou Guilherme de Orange como stadtholder (governador) da Holanda e Zelândia em 1572. Essa nomeação ocorreu em parte devido às habilidades políticas e militares de Guilherme e também como uma tentativa de Filipe de conter a rebelião dos Países Baixos, oferecendo uma concessão aos rebeldes. No entanto, essa nomeação não impediu Guilherme de Orange de continuar a liderar a revolta contra o domínio espanhol na região. Ele se tornou uma figura central na luta pela independência dos Países Baixos. Já agora, João de Áustria, irmão de Filipe II da Espanha, foi o comandante da frota da Liga Santa na Batalha de Lepanto, em 1571, onde obteve uma importante vitória sobre a Marinha Otomana.

Filipe II de Espanha casou quatro vezes, sendo Ana de Áustria a sua quarta esposa. O casamento entre Filipe II e Ana de Áustria ocorreu em 1570. Ana era filha do imperador Maximiliano II e irmã do futuro imperador Rodolfo II. O casamento foi político e também estratégico, buscando consolidar alianças entre as poderosas casas reais da época. Ana de Áustria foi uma influência significativa na corte espanhola durante o reinado de Filipe II, exercendo uma considerável influência sobre ele.

sábado, 11 de maio de 2024

Aquebar, o Grande





Jalaludim Maomé Aquebar [1542-1605] foi o terceiro imperador Mogol da Índia/Industão, um descendente direto da Dinastia dos Timúridas. Era filho de Humaium e neto de Babur. 
No final do seu reinado, em 1605, o império Mogol cobria a maior parte do Norte da Índia. Aquebar, tinha treze anos quando ascendeu ao trono em Déli. No fim, como imperador, havia solidificado o império pela diplomacia com a poderosa casta Raiput. Sua origem étnica era Mongol por parte da mãe, descendente de Gengis Cã; e descendência Turca ou dos Timúridas, cujo fundador foi Tamerlão, por parte de pai.

Ele expandiu o domínio Mogol sobre regiões como o norte da Índia, partes do sul da Ásia e partes do Afeganistão. Também estendeu a sua influência sobre regiões como Gujarat, Bengala, Caxemira e partes do atual Paquistão. Além disso, ele implementou políticas diplomáticas e administrativas que ajudaram a consolidar o império.


  

Mausoléu de Aquebar em Agra



O reinado de Aquebar influenciou significativamente a arte e a cultura na região. As paredes de seus palácios foram adornados com murais. Além de incentivar o desenvolvimento da escola Mogol, também patrocinava o estilo europeu de pintura. Ele gostava de literatura e tinha várias obras em sanscrito traduzidas para o persa, além de obter muitas obras persas ilustradas por pintores de sua corte. Aquebar iniciou uma série de debates religiosos, onde eruditos muçulmanos podiam debater questões religiosas com siques, hindus, ateus carvaka e jesuítas portugueses. 

O Império Mogol existiu entre 1526 e 1857 (com um interregno entre 1540 e 1555) que chegou a dominar quase todo o subcontinente indiano. A designação Mogol parece ter sido apenas atribuída durante o século XIX e deriva de Mongol, denotando a ascendência direta de Gengis Cã e de seu fundador Babur.

Surat, localizada no estado de Gujarat, na Índia, desempenhou um papel crucial no comércio entre a Índia e os países europeus durante vários séculos. Durante o período Mogol, Surat era um importante porto de comércio que facilitava as trocas comerciais entre a Índia e as potências europeias, como Portugal, Holanda, Inglaterra e França. Essas potências buscavam principalmente especiarias, seda, tecidos e outros produtos valiosos da Índia. Surat tornou-se um dos principais centros comerciais e portos de exportação da Índia, conectando o subcontinente indiano ao comércio global.

Aquebar conquistou Bengala, uma região rica em recursos naturais e estratégica para o comércio, em 1576. Nomeou seu general, Khan Jahan Quli, como governador da província. Também expandiu o império para incluir a região de Caxemira, em 1586, após uma campanha militar liderada pelo príncipe Salim (mais tarde conhecido como Imperador Jahangir), filho de Aquebar. A conquista de Caxemira permitiu controlar uma área estratégica no norte da Índia e estender sua influência sobre as regiões montanhosas do Himalaia.



Goa portuguesa

Os portugueses ganharam direitos sobre Goa através de uma combinação de negociações diplomáticas, alianças com líderes locais e conquistas militares. Em 1510, Afonso de Albuquerque, um explorador e militar português, conquistou Goa, então sob controlo do Sultanato de Bijapur, como parte dos esforços portugueses para estabelecer uma presença comercial na Índia. Após a conquista, os portugueses construíram fortalezas e estabeleceram uma administração colonial em Goa. Eventualmente, Goa tornou-se a capital do vasto império português na Índia, controlando uma extensa área costeira e desempenhando um papel central no comércio entre a Índia e a Europa. Os portugueses mantiveram o controlo sobre Goa por cerca de 450 anos, até que a Índia, governada por Nehru, invadiu a região em 1961, passando a partir daí a fazer parte integrante da Índia tal como é atualmente.



Goa portuguesa

Em 1535, o sultão do Gujarate, Badur-Shá, concedeu a Nuno da Cunha autorização para construir uma fortaleza em Diu. Conservam-se o castelo e grande parte da muralha de terra, além de baluartes e cortinas na costa sul. As primeiras obras realizadas foram da responsabilidade de Martim Afonso de Sousa. O vice-rei D. João de Castro foi o responsável pela renovação das fortificações da cidade após o segundo cerco posto a Diu, tendo ao seu serviço o mestre Francisco Pires.



Fortaleza de Diu: portão de armas

Quanto às muralhas, na ponta de terra mais para leste, foram executadas entre 1570 e 1574, por iniciativa do capitão Aires Telles, a quem se devem as portas, e por Manuel de Miranda, que em 1584 edificou o maior dos baluartes, o de São Sebastião da Vitória.


 

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Identidades



A abordagem etnocêntrica nas ciências sociais analisa e interpreta outras culturas a partir de uma perspectiva própria, muitas vezes considerando-a superior às outras. Isso pode levar a preconceitos e distorções na compreensão das sociedades e culturas estudadas. É importante buscar uma abordagem mais objetiva e inclusiva, reconhecendo e respeitando a diversidade cultural. Toda a teoria social é uma ferramenta para entender o mundo e não um instrumento de autossatisfação intelectual. A teoria social tem o propósito fundamental de fornecer insights e compreensão sobre as dinâmicas complexas da sociedade, e não apenas para alimentar o ego intelectual de quem a estuda.
  
O nosso mundo é contraditório na sua pluralidade e temos de saber conviver com isso. A diversidade e as contradições são características intrínsecas da sociedade humana. A habilidade de conviver com essa pluralidade é essencial para construir sociedades mais inclusivas e resilientes. É por isso que os movimentos sociais podem ter tanto de bom como de mau. Os movimentos sociais são uma manifestação da diversidade de perspectivas e necessidades na sociedade. Eles podem ter impactos positivos ao promover mudanças sociais importantes, mas também podem apresentar desafios quando levam a conflitos ou exclusões. É fundamental analisar criticamente os objetivos e métodos de cada movimento para entender o seu impacto completo.

Não foram assim tão poucos os movimentos que com a ambição do paraíso na terra acabaram em tragédia. Infelizmente, ao longo da história, houve exemplos de movimentos sociais que começaram com ideais nobres, mas acabaram em tragédias devido a diversas razões, como autoritarismo, intolerância ou falta de consideração pelos direitos individuais. É importante aprender com esses erros para evitar repeti-los no futuro e promover movimentos mais inclusivos e responsáveis. Para não ser tendencioso em relação ao Ocidente, recordo a Rebelião Taiping, que acabou com um saldo de vinte milhões de chineses mortos. A Rebelião Taiping, que ocorreu na China entre 1850 e 1864, foi um dos conflitos mais sangrentos da história, resultando num enorme número de mortes. As razões para o alto saldo de vítimas incluem a escala do conflito, as táticas brutais empregadas pelas partes envolvidas e as condições sociais e económicas da época. Esse trágico evento ilustra como movimentos sociais podem ter consequências devastadoras quando não são adequadamente controlados ou quando suas lideranças não consideram o bem-estar da população.

Nunca houve nenhum povo que na construção da sua identidade não tenha recorrido aos feitos gloriosos dos seus antepassados em detrimento dos seus defeitos contra os outros. É verdade que muitas culturas tendem a glorificar os feitos positivos de seus antepassados enquanto minimizam ou ignoram os seus defeitos. Isso pode ser parte do processo de construção da identidade e do orgulho cultural. Mas deve ser feita uma pedagogia permanente sobre a importância de reconhecer que devemos aprender com os erros do passado para promover a compreensão e a reconciliação. É sabido que o que dá significado à coesão identitária de um povo são as suas qualidades positivas e não as negativas. As qualidades positivas de um povo, como sua cultura, valores e conquistas, certamente desempenham um papel importante na coesão identitária. Elas ajudam a unir as pessoas em torno de uma narrativa comum e a fortalecer o sentido de pertencimento. No entanto, é igualmente importante reconhecer e abordar as questões negativas, como injustiças históricas ou conflitos, para promover uma identidade mais inclusiva e resiliente.

Não adianta sermos ingénuos porque a pluralidade de um determinado coletivo social sempre foi fonte de tensão e contradição. A diversidade dentro de um grupo social pode criar tensões e contradições, especialmente quando há diferenças culturais, políticas ou socioeconómicas significativas. Essas tensões muitas vezes refletem dinâmicas de poder e privilégio, e lidar com elas requer uma abordagem sensível e inclusiva que reconheça e respeite as diferentes perspectivas e experiências dentro do grupo. A aceitação da complexidade e a disposição para o diálogo aberto são fundamentais para lidar com essas questões de maneira construtiva.

Quantas vezes a nossa razão teórica entra em contradição com a nossa razão inata? A razão teórica, baseada em conhecimento adquirido e raciocínio lógico, às vezes pode entrar em conflito com a nossa razão inata, que é influenciada por instintos, emoções e experiências pessoais. Esses conflitos podem surgir quando há uma desconexão entre o que sabemos ser racionalmente verdadeiro e o que os nossos instintos ou emoções nos impulsionam a fazer. Nesses momentos, é importante reconhecer essas contradições e buscar um equilíbrio entre a razão teórica e a razão inata para tomar decisões informadas e éticas. E é esse o viés frequente das más teorias académicas dos sociólogos, que também as há.

É verdade que algumas teorias académicas em sociologia, como em qualquer campo, podem ser influenciadas por viés, limitações metodológicas ou interpretações tendenciosas. Isso pode levar a uma compreensão inadequada ou simplificada de questões sociais complexas. No entanto, é importante reconhecer que a sociologia é um campo diversificado, com uma ampla gama de teorias e abordagens, algumas das quais são mais rigorosas e válidas do que outras. A crítica construtiva e o debate dentro da comunidade académica são essenciais para melhorar a qualidade e a relevância das teorias sociológicas.

É através dos significados simbólicos que os povos forjam a sua identidade coletiva. Os significados simbólicos desempenham um papel fundamental na formação da identidade coletiva de um povo. Os símbolos, como bandeiras, hinos, rituais, mitos e monumentos, são carregados de significados culturais e históricos que ajudam a unir as pessoas em torno de uma identidade compartilhada. Esses símbolos muitas vezes representam valores, crenças e aspirações comuns, proporcionando um sentido de continuidade e pertença de uma comunidade. O estudo dos significados simbólicos é uma parte importante da sociologia e da antropologia cultural, pois ajuda a entender como as identidades coletivas são construídas e mantidas ao longo do tempo.

É assim que a construção de identidades se faz da história, geografia, memória coletiva e até fantasias pessoais plasmadas nos mitos e lendas. A construção de identidades é realmente um processo complexo que envolve uma interação entre vários elementos. A história de um povo, a sua relação com a terra em que vive, as narrativas compartilhadas sobre eventos passados, e as histórias transmitidas oralmente ao longo do tempo, todos eles desempenham um papel na formação da identidade coletiva. Além disso, as fantasias pessoais e os mitos podem refletir aspirações e ideais comuns dentro de uma comunidade, contribuindo para uma compreensão compartilhada de quem são, do que são, e do que valorizam na vida. Esses elementos combinados ajudam a moldar e sustentar a identidade coletiva de um grupo social.

Por exemplo, em relação à Ucrânia atual, enquanto Putin quer impor, através da força, uma identidade legitimadora, Zelensky socorre-se da identidade em trincheiras de resistência. A situação na Ucrânia é um exemplo vívido de como a construção e a defesa da identidade nacional podem desempenhar um papel crucial em contextos geopolíticos complexos. Enquanto Putin busca impor uma narrativa que legitima suas ações por meio da força e da reivindicação de uma suposta herança histórica, Zelensky e outros líderes ucranianos resistem a essa pressão, mobilizando símbolos, narrativas e memórias coletivas para fortalecer o sentido de identidade nacional e promover a resistência contra a intervenção externa. Essa dinâmica demonstra como a identidade coletiva pode ser usada como uma ferramenta política poderosa em tempos de conflito e desafio.

Por outro lado, Portugal consolidou a sua identidade através do projeto dos Descobrimentos. 
Tais feitos desempenharam um papel significativo na consolidação da identidade portuguesa ao longo dos séculos. A expansão marítima portuguesa durante os séculos XV e XVI trouxe não apenas novos territórios, mas também uma sensação de orgulho nacional e uma narrativa de exploração e conquista. Os navegadores portugueses, como Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, foram celebrados como heróis nacionais, e suas viagens foram retratadas como expressões do espírito empreendedor e a audácia do povo português. Além disso, os Descobrimentos contribuíram para a difusão da língua portuguesa, da cultura e das tradições em todo o mundo, ajudando a estabelecer uma identidade nacional distintiva. No entanto, também é importante reconhecer que os Descobrimentos tiveram consequências negativas e controversas, incluindo a exploração de povos indígenas e o estabelecimento do comércio de escravos. A compreensão da identidade portuguesa muitas vezes envolve uma reflexão crítica sobre esse legado histórico.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A França e a Espanha entre a Fronde e d'Artagnan


A Fronde foi uma série de guerras civis em França entre 1648 e 1653 concomitantemente com a guerra entre a França e a Espanha entre 1635 e 1659. A monarquia francesa viu-se diante de uma série de conflitos contrários que partiram de vários segmentos da sociedade, incluindo a insatisfação com as políticas do cardeal Mazarin, altos impostos, a centralização do poder real e o descontentamento das classes nobres e do povo com o governo de Luís XIV, que era ainda muito jovem na época. Os eventos da Fronde foram marcados por uma série de levantes armados, conflitos entre fações nobres e tentativas de limitar o poder do rei e do cardeal Mazarin. No entanto, apesar de várias reviravoltas e mudanças de alianças, a Fronde não conseguiu derrubar o governo centralizado em Mazarin e depois em Luís XIV. Em última análise, a Fronde fortaleceu a posição do monarca francês e consolidou o seu poder.



Jules Mazarin

Jules Mazarin [1602-1661] havia sido um discípulo e sucessor de Richelieu. Ele seguiu os passos de Richelieu como principal conselheiro do rei durante o reinado de Luís XIII, que depois continuou o seu papel de liderança durante a regência de Ana de Áustria. A ascensão de Mazarin ao poder na França foi em parte resultado da herança deixada por Richelieu [1585-1642] Richelieu foi um estadista e prelado francês mais conhecido por seu papel como primeiro-ministro do rei Luís XIII. [1601-1643] Ele foi uma figura proeminente na política francesa. Richelieu havia passado algum tempo na Itália durante a sua vida. Ele viajou para lá em 1614 como embaixador do rei Luís XIII, onde passou cerca de três anos. Durante a sua estadia na Itália, Richelieu teve a oportunidade de estudar a política e a cultura italianas, além de fazer contactos importantes que mais tarde seriam úteis em sua carreira política na França. Sua experiência na Itália teve uma influência significativa em seu desenvolvimento como estadista e diplomata.



Richelieu

O cardeal Mazarin tinha uma sobrinha chamada Marie Mancini por quem Luís XIV [1638-1715] teve um grande afeto. Durante a juventude do rei, Marie Mancini foi uma das suas primeiras paixões e ele demonstrou um grande interesse por ela. No entanto, devido a pressões políticas e à influência do cardeal Mazarin, o romance entre Luís XIV e Marie Mancini não se concretizou em casamento. Em vez disso, Luís XIV foi induzido a se casar com Maria Teresa da Espanha [1638-1683], filha de Filipe IV de Espanha, como parte de um acordo político entre a França e a Espanha. 



Ana de Áustria

O cardeal Jules Mazarin, como primeiro-ministro da França, desempenhou um papel importante na negociação do casamento do jovem rei, Luís XIV, com Maria Teresa da Espanha. Esse casamento foi parte do Tratado dos Pirenéus, que encerrou a Guerra Franco-Espanhola. Mazarin era conhecido por sua habilidade diplomática e por sua influência na política externa francesa durante esse período. Luís XIV era filho de Ana de Áustria. [1601-1666] Esta por sua vez era filha de Filipe III de Espanha [1578-1621] e de Margarida da Áustria. [1584-1611].



Maria Teresa da Espanha, por Diego Velázquez

Filipe IV de Espanha era conhecido como "o Rei Planeta" devido ao seu grande patrocínio das artes e à sua reputação de ser um monarca culto e aficionado pela cultura e pela literatura. Ele reinou durante o período conhecido como a "Era de Ouro Espanhola", um período de grande florescimento cultural e artístico na Espanha. Filipe IV foi um dos principais patronos do famoso pintor espanhol Diego Velázquez, que retratou o rei em várias ocasiões, criando algumas das obras de arte mais icónicas da época. Esses retratos são conhecidos por sua habilidade técnica e pela capacidade do artista de capturar a personalidade e a dignidade do monarca.

No famoso quadro "Las Meninas", pintado por Diego Velázquez em 1656, o próprio artista incluiu um autorretrato. Ele aparece ao fundo, no centro do quadro, pintando um grande painel que está fora do alcance da visão do espectador. Esta é uma das características mais fascinantes do quadro e adiciona uma camada extra de complexidade e interesse à obra. Filipe IV e a rainha, Mariana da Áustria, estão representados refletidos em um espelho no fundo da sala, embora não estejam olhando diretamente para o espectador. Isso cria uma sensação de profundidade e também sugere que eles estão presentes na cena, observando a pintura sendo feita por Velázquez e interagindo com suas filhas, as meninas do título.




Velázquez e Rubens foram contemporâneos e estabeleceram uma amizade e uma relação profissional durante suas vidas. Rubens, o renomado pintor flamengo, era muito respeitado na Espanha e atuou como um importante intermediário entre Velázquez e o rei Filipe IV, ajudando a garantir a nomeação de Velázquez como pintor da corte espanhola. A troca de influências entre esses dois grandes mestres foi significativa para o desenvolvimento da arte da época.

No dia 17 de agosto de 1661 Nicolas Fouquet recebeu o Rei e a corte para uma grandiosa recepção em comemoração ao restauro do Castelo de Vaux-le-Vicomte. O refinado trabalho realizado pelo arquiteto Louis Le Vau, o pintor Charles Le Brun, e pelo paisagista André Le Nôtre, transformaram o château num símbolo do poder da nobreza francesa, fatco este que desagradou profundamente o Rei Luís XIV. Pouco tempo após a grande festa, o soberano ordenou a prisão de Fouquet; considerando-o demasiadamente poderoso e ambicioso. Entre as acusações havia uma suspeita (pouco fundada) de conspiração contra o Rei. Ao fim de um processo que durou três anos, Fouquet foi condenado a passar 15 anos preso na fortaleza de Pinerolo, na Itália, onde morreu em 1680. Fouquet era um poderoso político e superintendente das finanças da França, conhecido por sua grande riqueza e influência. 



 Nicolas Fouquet, por Charles Le Brun

Luís XIV confiava bastante em Charles de Batz-Castelmore d'Artagnan, [1611-1673] que serviu como capitão dos mosqueteiros do rei na França. D'Artagnan era conhecido por sua lealdade e habilidades como espadachim, e ele desfrutou de grande confiança e respeito por parte do rei e da corte. Ele é mais conhecido por ser um dos protagonistas do romance "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas.

Os mosqueteiros do rei eram uma guarda de elite na França durante o reinado de Luís XIII e Luís XIV. Eles eram soldados altamente treinados, conhecidos por sua habilidade com o mosquete, uma arma de fogo de longo alcance. Os mosqueteiros eram uma força respeitada e prestigiada, responsável pela proteção do rei e do país, além de participarem de batalhas e missões especiais. Eles foram imortalizados na literatura por Alexandre Dumas que segue as aventuras ficcionais de d'Artagnan e seus companheiros Athos, Porthos e Aramis.



d'Artagnan in Aldenhofpark, Maastricht.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Susan Neiman - numa crítica ao wokismo



Na sua génese e nas suas pedras basilares, o wokismo entra em conflito com as ideias que guiam a esquerda há mais de duzentos anos: um compromisso com o universalismo, uma distinção objetiva entre justiça e poder, e a crença na possibilidade de progresso. Sem estas ideias, afirma a filósofa Susan Neiman, numa crítica muito fundamentada, afirma que os wokistas, de uma forma irresponsável, 
contribuem para a sabotagem do seu próprio caminho com as armas do radicalismo de direita conservadora, que tentam combater. O wokismo arrisca tornar-se aquilo que despreza. Agora, há uma geração que foi educada com essa noção, que cresceu rodeada por uma cultura bem mais vasta, modelada pelas ideias implacáveis do neoliberalismo e da psicologia evolutiva, e quer mudar o mundo.

Susan Neiman, filósofa e escritora, nasceu nos Estados Unidos da América. Formou-se em Filosofia, em Harvard, onde se doutorou sob a orientação de John Rawls e Stanley Cavell. Vencedora do prémio PEN com a memória que escreveu sobre os seus anos de mulher judia a viver em Berlim, na década de oitenta, foi professora assistente em Yale e, depois, professora associada na Universidade de Telavive, onde deu aulas de Filosofia. Em 2000, foi nomeada diretora do Einstein Forum, em Potsdam, na Alemanha.

Neste livro, a autora, um dos nomes mais importantes da filosofia, demonstra que a sua tese tem origem na influência negativa de dois titãs do pensamento do século XXI, Michel Foucault e Carl Schmitt, cuja obra menosprezava as ideias de justiça e progresso e retratava a vida em sociedade como uma constante e eterna luta de nós contra eles.

O movimento woke, nasceu nos campus universitários americanos, em 2016, baseado num conflito entre emoções e ideias. As pessoas ativistas deste movimento querem que todas as pessoas sejam iguais, mas simultaneamente ao lado dos oprimidos, dos marginalizados. Querem fazer algo por todas as vítimas, e olhar de frente para os crimes da história e, se possível, fazer algo para os reparar.

É verdade que hoje abundam em todos os órgãos de comunicação social, seja ela escrita, seja televisionada, artigos baseados em estudos académicos com a falácia de científicos, no sentido de que "se é científico, então é credível". E o movimento woke cai sistematicamente nessa armadilha ardilosa. Ora, já foi bastante denunciado por outros cientistas à prova de bala, que muitos estudos são autênticas fraudes manipuladas com vários intuitos, um deles engajado em agendas ideológicas que o ativismo, tal como o ativismo woke, se tem apropriado para fazer valer os seus argumentos junto daqueles pessoas que lhes reagem com muito ceticismo.

A bem dizer, a entrada do novo milénio, do século XXI, é a marca da perda da esperança no socialismo, e do aviltamento dos fantasmas do neoliberalismo. E a chamada “esquerda tradicional” começou a entrar em desespero. O movimento woke não é mais do que um sintoma disto tudo. Não é por acaso que toda esta pseudociência da psicologia evolutiva ganhou asas, enquanto a ideologia neoliberal global tomava conta do mundo. As pessoas perderam a esperança de que os seres humanos possam ser motivados por qualquer outra coisa que não seja a volúpia e o desejo de poder.





O sentimento de desespero, que tomou conta da esquerda no início do terceiro milénio, explodiu em 2016 nos campus das universidades americanas, com a ascensão de Donald Trump a Presidente da América. A palavra woke não foi usada na campanha presidencial americana de 2016. Cresceu mais tarde. Em primeiro lugar, Trump chegou ao poder como racista, como alguém que dizia as coisas racistas e sexistas que os outros tinham medo de dizer. Ficou claro que as pessoas queriam lutar contra isso. 


Homero, é a referência para que devemos olhar quando invocamos a nossa condição de gente civilizada. É o valor fundamental do universalismo, ou se quisermos, do cosmopolitismo, um princípio muito antigo e que a nossa civilização greco-romana o leva até Homero. O cosmopolita tem um profundo respeito pelo visitante. O direito do visitante é sagrado. Ou seja, se um estranho aparecer à sua porta, é suposto cuidar dele. Não assumir uma posição de animosidade imediata para com alguém que não faz parte da nossa tribo.

E antes de Homero parece que ninguém tinha visto isso. E esta ideia parece estar agora a ser posta em causa precisamente por parte de uma certa direita, ela mesma herdeira do mesmo princípio ancestral imputado a Homero, com a retórica de que só podemos realmente ligar-nos a pessoas da nossa própria tribo e que não temos nenhuma verdadeira obrigação com ninguém.

Tema deveras importante é o da vitimização e da culpa, sobretudo nestes tempos de líderes queixinhas, demagogos que exibem traços de narcisismo, psicopatia e maquiavelismo, que tem um impacto tremendo em tudo o que mexe à sua volta. Desbragadamente manipuladores, que quando líderes de partidos se dispõem a usar qualquer meio para alcançar os seus objetivos. Vá-se lá saber quem acolhe essa demagogia tão estapafúrdia. Seja como for, estes demagogos acabam por contaminar e intoxicar a sociedade, e, de tabela, os outros governantes. Ora, os governantes têm de “pensar” (enxergar) que esses traços, mesmo que mínimos, são muito perniciosos.

A manipulação do ressentimento e da vitimização por parte de um certo ativismo radical de esquerda podem prejudicar seriamente o processo de reconciliação entre diferentes grupos, como os brancos colonizadores e os colonizados. Isso pode criar um ciclo de hostilidade e desconfiança que dificulta a construção de pontes e a busca por entendimento mútuo. É importante abordar essas questões com empatia, diálogo aberto e um compromisso genuíno com a justiça e a reconciliação.

Apesar de a agenda woke trazer à tona questões importantes de justiça social e equidade, no entanto também não deixa de ser polarizadora e divisionista. Esta contradição acaba por se autodestruir. Algumas abordagens podem ser contraproducentes, especialmente se forem percebidas como promovendo ressentimento ou vitimização em detrimento do diálogo construtivo e da reconciliação. O desafio é encontrar maneiras de abordar as injustiças de forma inclusiva e eficaz, promovendo a compreensão mútua e o progresso social.

O excesso de queixume woke é ingénuo, porque desvaloriza aspetos intrínsecos ligados à luta pela sobrevivência. O excesso de queixume pode desviar a atenção de questões fundamentais relacionadas à busca por justiça social que tem a ver com a instinto de sobrevivência. É importante reconhecer e abordar as injustiças de forma a promover a mudança real e significativa, em vez de se concentrar apenas na expressão de indignação ou ressentimento. Isso não significa minimizar as experiências de injustiça, mas sim encontrar maneiras construtivas de canalizar esses sentimentos em ações que promovam a igualdade, a equidade e o progresso para todos.

A vitimização pode de fato complicar a discussão sobre racismo, tornando-a mais polarizada e menos produtiva. Enquanto é importante reconhecer as experiências de discriminação e injustiça, a vitimização excessiva pode levar à perpetuação de estereótipos negativos e à diminuição da responsabilidade individual e coletiva na busca por soluções. Uma abordagem mais construtiva seria reconhecer as injustiças enquanto também se promove a capacitação e a ação para a mudança, enfatizando a importância do enfrentamento do racismo de forma proativa e inclusiva.


O enviesamento na perceção do racismo pode ocorrer quando as experiências individuais são generalizadas para toda uma comunidade ou quando há uma ênfase excessiva em narrativas de vitimização em detrimento de outras perspetivas. Isso pode levar a uma perceção distorcida da realidade, onde o racismo é visto apenas em termos de vitimização, ignorando outras formas mais subtis ou estruturais de discriminação. É importante adotar uma abordagem equilibrada, reconhecendo tanto as injustiças quanto os progressos feitos na luta contra o racismo. Isso envolve ouvir uma variedade de vozes e experiências, promover a empatia e a compreensão mútua, e buscar soluções que abordem as raízes profundas do problema de forma abrangente.

Há várias razões que podem explicar o recrudescimento do racismo na Europa Ocidental. Períodos de dificuldades económicas podem aumentar o ressentimento e a xenofobia, levando a um aumento do racismo contra grupos minoritários em que estão os imigrantes. O aumento da imigração e a crescente diversidade étnica podem levar a tensões e conflitos em algumas comunidades, resultando em manifestações de racismo e xenofobia. E este facto está sempre acompanhado da ascensão de partidos políticos de extrema-direita que exploram e promovem agendas nacionalistas e anti-imigração. De resto, este fenómeno não é novo. É claro que também contribui a inoperância dos governos na eficiência de integração quando o afluxo é superior às suas capacidades, que não tem apenas a ver com os serviços diretos de acolhimento e vistos, mas também as áreas da habitação, educação e emprego. Sobretudo estes. Mas hoje o Ódio Online das redes sociais amplifica o fenómeno da xenofobia.

O facto de a razão da Memória Histórica do Colonialismo ser apenas uma parte do problema é o fenómeno atual da xenofobia na Europa ser ainda mais grave em países que não estiveram envolvidos diretamente na colonização nem na escravatura. Mas é um facto que as questões não resolvidas do passado colonial e a memória histórica podem influenciar as atitudes contemporâneas em relação a grupos étnicos específicos, alimentando preconceitos arraigados. É importante abordar esses problemas de forma proativa, promovendo a educação, o diálogo intercultural e políticas inclusivas que reconheçam e valorizem a diversidade étnica e cultural.

O tema das reparações é altamente debatido e complexo. Envolve questões históricas de injustiça, desigualdade e exploração, muitas vezes relacionadas à escravidão, colonialismo e discriminação sistemática. Alguns argumentam que as reparações são essenciais para corrigir os danos do passado e promover a justiça social, enquanto outros questionam a viabilidade prática e os critérios de implementação. A discussão sobre reparações geralmente gera emoções intensas e exige um diálogo cuidadoso e inclusivo para encontrar soluções que possam ser justas e eficazes para todos os envolvidos. A reconciliação pode ser desafiadora quando há ressentimento e uma demonização generalizada do outro como racista. A demonização pode dificultar o diálogo e a construção de pontes entre os grupos, perpetuando ciclos de hostilidade e polarização. No entanto, a reconciliação não é impossível.

É essencial promover o entendimento mútuo e a empatia, reconhecendo as perspetivas e experiências de ambos os lados. Isso pode envolver o reconhecimento das injustiças passadas e presentes, assim como um compromisso genuíno com a justiça e a igualdade. O diálogo aberto e honesto, juntamente com ações concretas para abordar as causas subjacentes do racismo e da discriminação, são fundamentais para avançar em direção à reconciliação.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Enquanto Filipe II em Espanha era O Prudente - Ivan IV na Rússia era O Terrível





Filipe II - O Prudente [1527-1598] foi Rei de Espanha (1556-1598). Rei de Portugal e Algarves (1580-1598). Rei de Nápoles, Sicília e Sardenha (dessde1554). Jure uxoris Rei de Inglaterra e Irlanda (enquanto durou o seu casamento com Maria I, de 1554 a 1558). A partir de 1555, Senhor dos Países Baixos. Era filho de Carlos V, o imperador do Sacro Império Romano Germânico; e de Isabel de Portugal. Durante seu reinado, os reinos espanhóis alcançaram o auge de sua influência e poder. 

Filipe II da Espanha mandou construir o majestoso Mosteiro de El Escorial, que decorreu entre 1563 e 1584. El Escorial serviu como um centro político, religioso e cultural importante para a Espanha durante o reinado de Filipe II. E continuou a desempenhar um papel significativo na história espanhola desde então.





Tendo vivido os primeiros anos de seu reinado nos Países Baixos, Filipe II decidiu ir morar para Castela. Embora às vezes descrito como um monarca absoluto, Filipe enfrentou muitas restrições constitucionais à sua autoridade, influenciadas pela crescente força da burocracia. É preciso recordar que o Império Espanhol era o Império dos Habsburgos, não era uma monarquia com um único sistema legal, mas uma federação de reinos separados, cada um guardando zelosamente os seus próprios direitos consuetudinários. Na prática, o rei frequentemente dava conta que a sua autoridade era anulada pelas assembleias locais.

No tempo de Carlos V foram dados passos para que as hostilidades com Navarra tivessem um fim. Henrique II era o legítimo monarca de Navarra. E o filho de Carlos V,  Filipe II, seria uma boa ideia casá-lo com Joana III de Navarra. O casamento forneceria uma solução dinástica para a instabilidade em Navarra, tornando-o rei de toda a cidade de Navarra e príncipe do independente do Bearne, além de senhor de grande parte do sul da França. No entanto, a nobreza francesa sob Francisco I opôs-se ao acordo e terminou com sucesso as perspectivas desse casamento.

Carlos V recomendou que o filho devolvesse então o reino de Navarra. Mas, tanto o imperador Carlos V como Filipe II falharam em respeitar a natureza eletiva (contratual) da coroa de Navarra e consideravam o reino garantido. Isso provocou uma tensão crescente não apenas com o rei Henrique II de França e a rainha Joana III, mas também com o Parlamento da Navarra. Violava as leis específicas do reino (fueros). As tensões em Navarra vieram à tona em 1592, após vários anos de desacordos sobre a agenda da sessão parlamentar pretendida.

Em novembro de 1592, o parlamento de Aragão revoltou-se contra outra violação das leis específicas do reino, de modo que o Procurador Geral do reino, Juan de Lanuza, foi executado por ordem de Filipe II, com o seu secretário Antonio Perez tendo que partir em exílio para a França. Em Navarra, as principais fortalezas do reino foram guarnecidas por tropas alheias ao reino (castelhanos), em violação grosseira das leis de Navarra, e o parlamento há muito que se recusava a prometer lealdade ao filho e herdeiro de Filipe II, sem uma cerimónia adequada. Em 20 de novembro de 1592, uma sessão fantasmagórica do parlamento foi convocada, pressionada por Filipe II, que havia chegado a Pamplona à frente de uma força militar não especificada. Houve nomeações ilegais de oficiais castelhanos, que eram de confiança, e a imposição, na Catedral de Santa Maria, de seu filho como futuro rei de Navarra. Os protestos, que não se fizeram esperar, eclodiram em Pamplona. A repressão foi violenta.

Filipe II também tinha de enfrentar a população de origem mourisca. Para sanar os ânimos, tentava-se a conversão ao cristianismo. Mas isso também era forçado. Daí que em Granada as revoluções eram constantes. Filipe II tentou dispersar os mouros de Granada pelas outras províncias, mas sem grande sucesso. 
Apesar de seus imensos domínios, os reinos espanhóis tinham uma população escassa que rendia uma renda limitada à coroa (em contraste com a França, por exemplo, que era muito mais populosa). Filipe enfrentou grandes dificuldades em aumentar os impostos, e a coleta foi em grande parte destinada aos senhores locais. Ele conseguiu financiar suas campanhas militares apenas tributando e explorando os recursos locais de seu império. O fluxo das rendas que vinha do outro lado do Atlântico provou ser vital para a sua política externa. Mas, mesmo assim, o tesouro enfrentou várias vezes a falência.

Seja como for, os tempos de Filipe II foram tempos dourados em Espanha. Foram tempos áureos no campo das artes: literatura, música e pintura. Uma das artistas mais notáveis da corte de Filipe II foi Sofonisba Anguissola, que ganhou fama por seu talento e seu papel incomum como mulher artista. Ela foi convidada para a corte de Madrid em 1559 quando era uma funcionária de Isabel Clara Eugénia (1566–1633). Anguissola também se tornou uma dama de companhia e pintora da corte da rainha Isabel de Valois. Durante o seu tempo como pintora da corte, Anguissola pintou muitos retratos oficiais da família real.



Em 1963, o antropólogo Mikhail Gerasimov, reconstruiu a aparência de Ivan IV a partir do crânio. 

Ivan IV Vasilyeviche [1530-1584] O Terrível, foi o Grão-Príncipe de Moscovo em 1533, passando a ser designado o primeiro Czar de todas as Rússias a partir de 1547 e até à morte em 1584. Filho de Basílio III e  Helena Glinskaia. Foi um grande conquistador, trazendo para a Rússia o Canato de Kazan, o Canato de Astracã, e o Canato da Sibéria. Diversas fontes históricas descrevem a personalidade de Ivan como complexa, sendo descrito como inteligente e piedoso, com acessos de raiva e surtos esporádicos de psicose. Num desses ataques assassinou o herdeiro ao trono, também chamado Ivan. Tal facto transmitiu o czarismo para o filho mais novo Teodoro I, que tinha uma deficiência qualquer mental. Mas reza a história que Ivan, o Terrível foi um hábil diplomata, patrono das artes e comércio, líder muito popular entre as pessoas comuns da Rússia, mas também lembrado por sua paranoia e indiscutivelmente por seu tratamento rígido com a nobreza.

Ivan IV, o Terrível, é frequentemente retratado usando um chapéu alto decorado com joias e pérolas, que é uma peça de vestuário cerimonial conhecida como "chapéu de Monomakh". Este chapéu é associado à coroação e simboliza a continuidade do poder real na Rússia, remontando ao príncipe Constantino Monómaco.

Há sugestões históricas de que Ivan IV admirava Vlad III, conhecido como Vlad, o Empalador, que inspirou o mito de Drácula. Ambos os governantes eram conhecidos por serem extremamente cruéis e impiedosos com seus inimigos. Vlad, o Empalador, governou a Valáquia no século XV, enquanto Ivan, o Terrível, governou a Rússia no século XVI. Embora não haja evidências concretas de que Ivan IV tenha expressado admiração por Vlad, há paralelos em seus métodos de governança e reputações infames na história. As relações com o Império Bizantino eram limitadas na época de Ivan IV, e os mongóis já haviam deixado uma marca significativa na história russa antes de seu reinado.

Ivan IV, o Terrível, casou-se com Anastasia Romanovna Zakharina-Yurieva em 1547. Anastasia era da família nobre russa, e seu casamento com Ivan IV foi uma união política importante para fortalecer a posição do czar. Ela é frequentemente retratada como uma influência estabilizadora sobre Ivan IV durante os primeiros anos de seu reinado. O casamento deles durou até a morte de Anastasia em 1560, o que afetou profundamente Ivan IV, contribuindo para sua mudança de comportamento e a subsequente era de repressão e paranoia conhecida como "o reinado do terror". Ivan IV, o Terrível, era conhecido por ser poliglota, incluindo o tártaro, que era uma língua importante na Rússia de sua época, devido à presença significativa da população tártara na região do Volga. No entanto, não há evidências claras de que ele falasse tártaro fluentemente. Como líder russo, é provável que ele tenha tido alguma compreensão do tártaro para fins diplomáticos e administrativos, mas a extensão de sua proficiência na língua não é completamente documentada.

Durante o reinado de Ivan IV houve um relacionamento tenso entre ele, o principado de Vladimir e os boiardos. Vladimir era uma importante região dentro do principado de Moscovo, e os boiardos eram a nobreza feudal que detinha poder político e influência na Rússia da época. Isso levou a vários confrontos e revoltas, como a Revolta dos Boiardos em 1565. Além disso, Ivan IV também implementou reformas administrativas e políticas que reduziram o poder dos boiardos em favor de um estado mais centralizado. Em 1556, ele liderou uma expedição militar contra o Canato de Astracã, uma região localizada nas margens do rio Volga, que na época era uma importante potência tártara. Ivan IV conseguiu capturar Astracã, incorporando-a ao território russo. Além disso, em 1552, Ivan IV também liderou uma campanha contra o Canato de Kazan, que culminou na captura da cidade de Kazan e na incorporação de seu território ao domínio russo. Essas vitórias militares são consideradas marcos importantes na expansão do Império Russo para o leste e na consolidação do poder de Ivan IV como czar.

Astracã era um importante centro comercial ao longo do rio Volga e desempenhava um papel significativo no comércio de escravos na região. Durante séculos, Astracã foi um ponto crucial ao longo das rotas comerciais que ligavam o Oriente e o Ocidente, facilitando o comércio de diversas mercadorias, incluindo escravos. Escravos de várias origens étnicas e culturais eram comprados e vendidos em Astracã. A captura de Astracã por Ivan IV em 1556 teve implicações significativas no comércio de escravos na área, mudando o controlo político sobre essa importante cidade comercial.

Foi dada permissão aos Stroganov, uma rica família mercantil russa, para expandir a presença russa na região dos Urais e além, incluindo o Canato de Sibir. Os Stroganov patrocinaram várias expedições lideradas por exploradores como Yermak Timofeyevich, que avançaram para o leste, contribuindo para a expansão do território russo na Sibéria. A principal motivação por trás do envolvimento dos Stroganov na expansão para o leste era o controlo de recursos naturais, como peles de animais, minerais e terras férteis. Essas expedições também estavam relacionadas ao comércio de peles e à busca por rotas comerciais mais lucrativas para o Oriente.

Durante o reinado de Ivan IV, o Terrível, os cossacos desempenharam um papel significativo na história da Rússia. A palavra "druzhina" se refere a uma unidade militar ou uma comitiva de guerreiros que serviam a um líder político, e os cossacos frequentemente operavam como druzhinas durante esse período. Os cossacos eram guerreiros fronteiriços e camponeses livres que habitavam as regiões fronteiriças da Rússia, especialmente ao longo do rio Don e do rio Dnieper. Eles eram conhecidos por sua habilidade em combate e por defender as fronteiras do território russo contra invasões estrangeiras, além de participarem de expedições militares e de exploração. Durante o reinado de Ivan IV, os cossacos frequentemente serviam como parte das forças armadas russas em suas campanhas militares para expandir o território russo para o leste, incluindo as conquistas de Astracã e Kazan. Eles também desempenharam um papel importante na defesa das fronteiras contra ataques tártaros e outras ameaças. Embora os cossacos fossem frequentemente aliados do governo central russo, às vezes também entravam em conflito com as autoridades e eram conhecidos por seu espírito independente e por desafiar o controlo centralizado.

Alexandrovskaya Sloboda, era uma vila situada perto da cidade de Alexandrov, na Rússia, que serviu como residência de verão e local de descanso para Ivan IV, o Terrível, durante parte de seu reinado. Era uma forma de assentamento característica da Rússia medieval, muitas vezes composta por artesãos, comerciantes e outros trabalhadores que viviam fora das restrições dos assentamentos urbanos regulares. Alexandrovskaya Sloboda foi estabelecida como um lugar onde Ivan IV poderia escapar dos rigores da vida na capital, Moscovo, e desfrutar de uma atmosfera mais tranquila e rural. Durante o seu tempo lá, Ivan IV supostamente envolveu-se em várias atividades, incluindo a caça e a pesca, além de se reunir com conselheiros e nobres próximos.

domingo, 5 de maio de 2024

As reparações simbólicas do colonialismo por parte das ex-potências europeias colonizadoras



O presidente francês, Emmanuel Macron, tem adotado algumas medidas para enfrentar o legado da escravidão na França. Isso incluiu discursos reconhecendo a escravidão como um crime contra a humanidade e a criação de comissões para examinar questões relacionadas à escravidão e ao colonialismo. Além disso, Macron expressou apoio à devolução de artefactos culturais africanos mantidos em museus franceses, como uma forma de reparação simbólica. No entanto, as opiniões sobre a extensão dessas medidas e a sua eficácia variam entre diferentes grupos e estudiosos.

O que tem feito o reino unido pelas reparações da escravatura? O Reino Unido tem discutido e implementado várias medidas para lidar com o legado da escravidão, incluindo ações como pedidos de desculpas, financiamento de projetos de pesquisa e educação sobre o comércio transatlântico de escravos, além de discussões sobre reparações financeiras para as comunidades afetadas. No entanto, até onde sei, não houve um acordo nacional sobre pagamentos diretos de reparações.

E em relação às pilhagens, como, por exemplo, os mármores do Pártenon? A questão dos Mármores do Pártenon, também conhecidos como os Mármores de Elgin, tem sido um ponto de controvérsia entre o Reino Unido e a Grécia por muitos anos. Os mármores foram retirados do Pártenon em Atenas pelo diplomata britânico Lord Elgin no início do século XIX e posteriormente vendidos ao governo britânico, que os colocou em exibição no Museu Britânico em Londres. A Grécia tem há muito tempo pedido a devolução dos mármores, argumentando que foram retirados ilegalmente e que pertencem ao património cultural grego. No entanto, até onde sei, o Reino Unido ainda não devolveu os mármores, apesar da pressão contínua da Grécia e de outros defensores da restituição.

A escravidão foi praticada por várias culturas e sociedades ao longo da história, incluindo europeus e árabes. Ambos tiveram um papel significativo no comércio transatlântico de escravos, que afetou principalmente africanos, e também estiveram envolvidos em outras formas de escravidão ao longo do tempo. Não há uma resposta simples para determinar quem teve mais implicações na escravatura, pois as práticas variaram ao longo das regiões e períodos históricos. O importante é reconhecer e confrontar os legados e impactos de todas as formas de escravidão, independentemente da sua origem geográfica ou cultural.