quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Que Estado para os palestinos?





A seguir ao recente encontro de Netanyahu com Trump na Casa Branca, durante a conferência de imprensa, Trump expôs um plano para os EUA “assumirem” Gaza, deslocando palestinos para países vizinhos e reconstruírem o território devastado pela guerra. No que ele descreveu como a “Riviera do Médio Oriente”. Trump rompe com décadas de política externa dos EUA, que há muito tempo enfatiza uma solução de dois Estados para Israel e Palestina. Ora, até que ponto a proposta é viável, é outra questão.

“Os EUA vão assumir o controlo da Faixa de Gaza e faremos um trabalho com isso também”, anunciou Trump, revelando o que chamou de “propriedade a longo prazo” e plano de reconstrução para o território, grande parte do qual foi reduzido a escombros após 15 meses de guerra entre Israel e o Hamas. Os ataques aéreos israelitas danificaram ou destruíram cerca de 60% dos edifícios, incluindo escolas e hospitais, e cerca de 92% das casas, segundo as Nações Unidas.

“Nós seremos donos e seremos responsáveis ​​por desmantelar todas as bombas perigosas não detonadas e outras armas no local, nivelar o local e nos livrar dos edifícios destruídos”, afirmou o presidente americano na terça-feira. Não está claro como exatamente a apropriação de terras proposta por Trump funcionaria, e analistas lançaram dúvidas sobre a viabilidade do seu plano. A maioria dos dois milhões de pessoas que vivem em Gaza não vai querer sair. E é proibido serem removidas à força pela lei internacional. Nenhum Exército árabe vai transportar pessoas contra sua vontade para fora de sua terra natal. Já existem cerca de 5,9 milhões de refugiados palestinos em todo o mundo, a maioria deles descendentes de pessoas que fugiram com a criação de Israel em 1948.

Metade da população de Gaza já era formada por refugiados de fora da faixa costeira. Aproximadamente 90% dos moradores de Gaza foram deslocados na última guerra, e muitos foram forçados a se mudar repetidamente, alguns mais de 10 vezes, segundo a ONU. Pode-se argumentar que a solução de Trump é pragmática, quando se pergunta se os palestinos serão masoquistas. Mas também é simplista demais. O apego de um povo que se identifica com um determinado pedaço de terra é atávico. É a Pátria. “Por que eles iriam querer retornar? O lugar tem sido um inferno”, disse Trump, enquanto um repórter gritava: “Porque é o lar deles”. Em vez de Gaza, Trump sugeriu que os palestinos recebessem um “bom, fresco e belo pedaço de terra” para viver.

A ocupação ou o bloqueio não podem ser usados para justificar completamente os erros internos, práticas autoritárias e discriminatórias de grupos palestinos, e o terrorismo do Hamas. O Hamas, que governa Gaza desde 2007, tem sido amplamente responsabilizado pela repressão política, corrupção, violações de direitos humanos e pela imposição de normas sociais obedientes à Sharia. Ora isso é tudo contrário à Carta das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Além disso, o uso de violência, incluindo ataques terroristas, prejudica a causa palestina e agrava o sofrimento da população.

A ocupação e o bloqueio criam um contexto que exacerba essas questões, mas não devem ser uma desculpa para evitar críticas legítimas aos erros internos das lideranças palestinas. Assim como é injusto desconsiderar os impactos estruturais da ocupação, também é necessário reconhecer que a responsabilidade pelas condições de vida dos palestinos não é apenas externa, mas também fruto de escolhas internas das lideranças e da fragmentação política entre grupos como o Fatah e o Hamas.

Por conseguinte, a piedade e discursos idealistas, por si só, não resolvem problemas estruturais profundos. No caso de Gaza, a situação atual é o resultado de décadas de conflitos, bloqueios, má gestão interna e a brutalidade dos ciclos de violência. As lideranças locais têm muita culpa, tanto por priorizarem esforços bélicos em vez de bem-estar civil quanto por falharem em construir instituições que promovam o desenvolvimento sustentável e a prosperidade da população. Por outro lado, as faltas de uma solução política para o conflito agravam enormemente a situação. Mesmo com ajuda humanitária e esforços internacionais, a destruição em Gaza é vasta, e a economia está em colapso. Uma infraestrutura incapaz de atender às necessidades básicas de milhões de pessoas.

Os "bem-pensantes" que defendem abordagens puramente idealistas, desconhecem a profunda realidade do conflito, limitando-se apenas a uma retórica típica de quem só olha para o ar do tempo. Sem mudanças estruturais concretas a realidade da população de Gaza dificilmente mudará. Ao mesmo tempo, estratégias unilaterais baseadas apenas na força ou repressão também não têm gerado soluções duradouras, como demonstra o estado atual da região. A verdadeira elevação de um povo exige paz, e políticas realistas que combinem investimento. Neste caso muito investimento para a habitação, saúde e educação. Mas quanto à questão económica, as oportunidades serão sempre muito escassas. Mas antes de tudo isso são necessários os líderes certos no momento certo. E onde estão eles?

O Hamas nunca fez isso em Gaza, antes pelo contrário. E a Autoridade Palestina tem-se revelado muito incompetente, fraca e corrupta. Ambos igualmente prejudiciais para o avanço do povo palestino. O Hamas, que controla Gaza, tem priorizado políticas militares e de confronto, enquanto negligencia o desenvolvimento social e económico da região. Além disso, sua repressão interna, autoritarismo e o uso de Gaza como base para ataques contra Israel resultaram em retaliações devastadoras, deixando a população civil numa situação desesperada. Já a Autoridade Palestina, liderada pelo Fatah em Ramallah, tem enfrentado grandes dificuldades para governar com eficiência. Corrupção endémica, fraqueza institucional e falta de legitimidade entre os próprios palestinos minaram a sua capacidade de implementar reformas significativas ou alcançar avanços políticos na busca de um Estado palestino viável. Essa liderança enfraquecida não conseguiu negociar uma solução com Israel nem oferecer uma alternativa convincente à resistência armada promovida pelo Hamas. Ambas as lideranças falharam em fornecer à população palestina uma visão unificada e uma estratégia viável para superar os desafios históricos e atuais. Isso deixou o povo palestino preso entre a repressão militar de Israel, a estagnação política e a falta de progresso económico, enquanto a devastação em Gaza se torna cada vez mais insuportável.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O género deve ser uma escolha pessoal indiferente à biologia?


É pena que os pós-modernistas, com algumas excepções, tenham negligenciado os trabalhos de Charles Sanders Peirce no campo da semiótica e da percepção. E o humanismo está hoje a pagar por isso. Charles Sanders Peirce oferece uma abordagem robusta e profundamente estruturada para compreender os processos de significação e percepção, o que poderia ter enriquecido enormemente as discussões pós-modernas. A ênfase de Peirce na lógica triádica (ícone, índice e símbolo) e na semiose contínua fornece uma base epistemológica e metodológica que, talvez, corrigisse algumas das tendências mais relativistas e fragmentárias dos pós-modernistas. O pós-modernismo, ao rejeitar as "grandes narrativas" e abraçar o pluralismo interpretativo, muitas vezes deixou de lado sistemas que sugerem uma conexão mais profunda entre percepção, significado e realidade. Isso acabou enfraquecendo as bases do humanismo contemporâneo, especialmente no que diz respeito a um fundamento ético ou epistemológico comum.

Peirce, com a sua visão de que a verdade é alcançável (ainda que de maneira assintótica) por meio de um processo comunitário e contínuo de investigação, oferece um contraponto crucial ao niilismo que muitas vezes permeia o pensamento pós-moderno. Sua abordagem poderia ter ajudado o humanismo a evitar a armadilha de cair em um relativismo absoluto, preservando ao mesmo tempo a abertura à multiplicidade de perspectivas. Ignorar Peirce foi uma oportunidade perdida, mas talvez ainda haja tempo para resgatar e integrar a suas ideias à filosofia contemporânea, especialmente no esforço de reconstruir um humanismo mais sólido e coerente.

Muito bem. Então faz sentido reposicionarmos certos valores ditos tradicionais perdidos, em que, por exemplo, os pós-modernos identitários chegaram ao ponto de quase nos exigir que deitássemos fora os conceitos tradicionais de homem e mulher? Os conceitos de homem e mulher, enraizados tanto na biologia como em construções culturais, não precisam ser rejeitados para abrir espaço às novas perspectivas. Pelo contrário, podem ser reinterpretados de maneira que incorporem a diversidade sem negar o que há de valioso e funcional na tradição. A crítica pós-moderna, ao desconstruir categorias e binarismos, trouxe contribuições significativas, como a ampliação do reconhecimento de subjetividades e identidades que antes eram marginalizadas. No entanto, ao pressionar por uma desconstrução quase total de conceitos estabelecidos, corre-se o risco de criar uma desconexão cultural e histórica, privando a sociedade de referências compartilhadas que dão sentido e coesão à experiência humana. Por exemplo, a ideia de homem e mulher pode coexistir com o reconhecimento de identidades não binárias, desde que seja permitido que essas categorias continuem desempenhando seu papel onde são significativas, como na linguagem quotidiana, na biologia e na psicologia.

A semiótica de Peirce, aliás, poderia ser útil nesse esforço, pois enfatiza a necessidade de interpretar signos dentro de um contexto dinâmico e evolutivo. Isso nos permite ver categorias como homem e mulher não como prisões fixas, mas como signos cuja significação se expande ao longo do tempo, acomodando tanto a tradição quanto a transformação. A verdadeira solução talvez não esteja em abolir, mas em complexificar e enriquecer os conceitos, preservando o melhor dos dois mundos.

É claro que preservar a biologia tal como é, e fazer ver aos ideólogos pós-modernos que não há outra volta a dar senão dizer que só as mulheres podem parir, e que isso não pode ser um atributo de homem, a biologia estabelece parâmetros fundamentais. A questão da biologia é central, especialmente quando tratamos de definições fundamentais como a capacidade de parir. Essa é uma realidade objetiva: apenas indivíduos com sistema reprodutivo feminino possuem a capacidade biológica de gerar e dar à luz. Isso não é uma construção social, mas um dado científico inegável, baseado na anatomia e fisiologia humanas. Os ideólogos que tentam desconstruir essa base objetiva muitas vezes caem no ridículo de relativizar tudo, ignorando que certos limites naturais não são passíveis de debate. Portanto, ao preservar a biologia tal como ela é, estamos garantindo um terreno comum e estável, que serve de base para discussões mais amplas. Negar factos biológicos em nome de uma ideologia corre o risco de alienar as pessoas e enfraquecer os próprios movimentos sociais que buscam inclusão e justiça. Reconhecer essas verdades fundamentais é essencial para uma convivência que respeite tanto a ciência quanto a pluralidade humana.

E é com exemplos desses que desmistificamos aqueles que nos atiram a retórica de termos de ser mais abertos e não nos agarrarmos ao fechamento das tradições. A realidade não pode ser ignorada sem consequências. A retórica pós-moderna que exige uma reinterpretação radical de conceitos tradicionais, como homem e mulher, muitas vezes falha ao desconsiderar as verdades fundamentais e imutáveis da biologia. Essas ideias podem ser atraentes em um nível teórico, mas quando se trata de questões tangíveis, como a reprodução ou as capacidades biológicas, as tradições e os conhecimentos científicos não devem ser descartados sem reflexão cuidadosa. A crítica que fazemos ao fechamento das tradições não significa uma aceitação cega do status quo, mas sim um reconhecimento de que certos valores e conhecimentos, forjados ao longo do tempo, têm uma validade intrínseca e ainda oferecem uma base fundamental para a sociedade. Essa base, por sua vez, pode ser adaptada para acomodar novas realidades, mas sem perder a sua essência.

Ao apontar exemplos claros e inegáveis, como o fato biológico de que apenas as mulheres podem parir, estamos desmistificando a ideia de que o apego à tradição é uma forma de conservadorismo vazio. Em vez disso, mostramos que há uma diferença entre manter valores fundamentais e ser fechado à mudança. A verdadeira abertura vem de uma integração consciente e ponderada entre a tradição, a ciência e as novas perspectivas, sem perder de vista o que é imutável e essencial para a sociedade. Este tipo de argumentação permite desarmar a acusação de que estamos "agarrados ao passado" e revela, de forma clara, que a tradição pode e deve ser um ponto de ancoragem para resistir ao que é, por vezes, uma excessiva e imprudente desconstrução.


É com esse ânimo leve que o esquerdismo, ao querer passar certas ideias que não são mais do que uma moda estúpida, acabam por se descredibilizar junto das pessoas do senso comum. Com o devido respeito, ao ponto de uma mulher cirurgiã entrar no bloco operatório para operar com estas unhas da moda muito compridas e pintadas. A questão das unhas longas e pintadas, por exemplo, pode parecer um detalhe trivial, mas simboliza um problema maior. Algumas correntes ideológicas ou culturais tendem a abastardar as questões mais substanciais. A mulher cirurgiã que entra no bloco operatório com unhas extremamente longas e decoradas pode ser vista como alguém priorizando uma estética que não se alinha com as exigências profissionais do seu campo, como precisão, higiene e eficiência. Isso não apenas desvia a atenção do que realmente importa, mas pode também gerar desconfiança quanto à seriedade do movimento que a pessoa representa.

Mas se em relação ao profissional do bloco operatório, seja médica ou enfermeira, cujas implicações tem a ver com a destreza dos movimentos das mãos, e a higiene que te a ver com as bactérias instaladas nos espaços subungueais, também se aplica às próprias pacientes que vão ser operadas. É que o anestesista precisa de monitorizar a oxigenação do sangue durante a intervenção. E para isso utiliza-se um oxímetro que é colocado na ponta do dedo. E é a luz que atravessa a unha que vai registar o nível de saturação de oxigénio no sangue. Ora, os pigmentos coloridos que cobrem a unha funcionam como uma barreira a essa leitura.

É verdade que, ao tornar certas ideologias ou tendências como uma "moda", o esquerdismo corre o risco de banalizar temas importantes, tornando-os suscetíveis de serem desprezados por parte do senso comum. Quando certas questões, especialmente as relacionadas com identidade de género, são apresentadas de maneira excessivamente radical ou desconectada da realidade quotidiana, pode criar-se uma percepção de superficialidade e até de irracionalidade, que, no final, enfraquece a credibilidade das discussões.

O problema surge quando essas "modas" ou símbolos de identidade se tornam representações de um movimento mais amplo, que deveria ser focado na promoção de direitos e igualdade, mas acaba sendo confundido com uma agenda de performance superficial. É crucial que os defensores dessas ideias sejam cuidadosos para não perderem o foco na substância das questões, como direitos, acesso a recursos e igualdade de oportunidades, ao invés de se perderem em símbolos e tendências que podem ser facilmente desacreditados por aqueles que têm uma visão mais pragmática da realidade. A busca por aceitação e visibilidade não pode, portanto, ser confundida com um descompasso com a realidade quotidiana, onde as funções sociais e profissionais exigem mais do que uma imagem ou um gesto. Isso pode ser um fator decisivo para que algumas propostas sejam vistas com um ceticismo até mesmo desmedido por aqueles que, fora dos círculos ideológicos, preferem uma abordagem mais equilibrada e pragmática.

A ideia de que género deve ser uma escolha pessoal é mais frequente em movimentos ativistas do que na literatura académica. No entanto, na academia, é um tema de debate, e não um consenso. Muitos pesquisadores enfatizam que, mesmo que o género seja em grande parte construído socialmente, ele ainda está intrinsecamente relacionado às condições materiais e biológicas. Como diz Andrew Sullivan, é uma moda que leva toda a absurdidade de arrasto por tudo o que é "campus"

Andrew Sullivan tem sido um crítico vocal do movimento que ele vê como uma extensão do "wokeismo" nos campi universitários, acusando-o de promover ideias radicais e, muitas vezes, absurdas. Ele argumenta que essas ideias, como a completa desvinculação entre género e biologia ou a ênfase extrema na identidade pessoal como determinante de todas as questões sociais, representam uma moda académica que foge ao bom senso e à base empírica. Sullivan, em seu estilo provocador, frequentemente critica o que ele considera ser a intolerância ideológica que tomou conta de muitas universidades, onde debates sobre género, raça e identidade seriam tratados com rigidez quase dogmática. Para ele, isso não só sufoca o debate intelectual, mas também aliena pessoas que poderiam ser aliadas em causas legítimas de justiça social, por conta dos excessos e da falta de conexão com a realidade prática. Ele vê essa tendência como parte de um movimento maior, que ele denomina de "religião secular". Nessa visão, o ativismo progressista radical teria substituído a religião tradicional como uma estrutura moral, com doutrinas rígidas, heresias (opiniões divergentes), e práticas punitivas, como a "cultura do cancelamento".

Woke pode ser definido em português pelo slogan que caracteriza as feministas da terceira vaga que vieram dizer que finalmente acordaram em relação à opressão do perpétuo patriarcalismo que se havia inaugurado há dez mil anos com a Revolução Agrícola na zona do Crescente Fértil Foi o "despertar" para questões sistémicas de opressão. Esse contexto histórico reforça a ideia de que, com a transição de sociedades de caçadores-coletores para estruturas agrícolas e hierárquicas, emergiram sistemas mais rígidos de dominação, incluindo o patriarcado. O termo woke em português poderia, de facto, ser interpretado como esse "estado de alerta" ou "despertar consciente" para opressões que muitas vezes estão profundamente enraizadas na história humana. No caso das feministas da terceira vaga, elas ampliaram o debate, abordando não apenas o patriarcado como uma estrutura de opressão, mas também como ele se entrelaça com outras formas de dominação, como o racismo, o classismo e o colonialismo.

A afirmação de que "o género deve ser uma escolha pessoal indiferente à biologia" é mais uma ideia amplamente debatida no campo académico, especialmente em disciplinas como estudos de género, sociologia e filosofia, do que uma posição consolidada. Dentro da academia, existem pensadores e teóricos que exploram a distinção entre sexo (biológico) e género (construção social), mas poucos afirmariam de forma tão absoluta que o género deve ser completamente desvinculado da biologia.

Judith Butler, uma das principais figuras nos estudos de género e autora de Gender Trouble (1990), argumenta que o género é uma construção social performativa, ou seja, que ele é sustentado por atos e práticas sociais repetidos, em vez de ser algo inerente ou biologicamente determinado. No entanto, mesmo Butler não diz que o género é totalmente "indiferente" à biologia, mas que as categorias biológicas de sexo são interpretadas socialmente e, portanto, carregam significados culturais.

Académicos da teoria queer, como Jack Halberstam e Paul B. Preciado, questionam as fronteiras fixas entre sexo, género e sexualidade. Preciado, em particular, em obras como Testo Junkie (2008), aborda a transição de género e a "biopolítica" do corpo, sugerindo que os avanços tecnológicos e sociais permitem maior autonomia individual sobre a identidade de género.

Em alguns círculos académicos e ativistas, há posições mais radicais que defendem que género deve ser tratado como algo inteiramente autodeterminado, independentemente de características biológicas. Essas ideias frequentemente encontram críticas de outros académicos que alertam para o risco de negligenciar aspetos materiais, como as diferenças biológicas que têm relevância em áreas como saúde e medicina. Nem toda a academia concorda com essas perspetivas. Feministas materialistas, como Germaine Greer e Sheila Jeffreys, e teóricas como Kathleen Stock, criticam a desvinculação completa entre género e biologia, argumentando que isso pode apagar as experiências concretas das mulheres como classe social, definida, em parte, por características biológicas.

Sullivan argumenta que a "moda woke" se espalhou rapidamente pelas universidades, particularmente nas áreas de humanidades e ciências sociais, por algumas razões, entre as quais avulta a pressão social e o conformismo. Professores e estudantes sentem-se compelidos a alinhar-se a essas ideias para evitar represálias ou ostracismo. Muitas universidades adotaram códigos de conduta e programas que reforçam essas perspetivas, limitando o espaço para debates genuínos. A academia reflete e amplifica as tendências culturais de justiça social que dominam redes sociais e movimentos ativistas.

A "absurdidade" a que ele se refere incluem-se a noção de que género é puramente uma construção social e pode ser redefinido indefinidamente. É a rejeição de ideias científicas tradicionais em nome de "epistemologias alternativas". Os wokes fazem passar a ideia de que discordar de determinados posicionamentos é automaticamente sinal de opressão ou preconceito. Muitos académicos, mesmo progressistas, apontam que o movimento atual carece de bom senso, ou seja, não está escrito na pedra que a estupidez seja obrigatória. A questão que ele coloca, e que muitos compartilham, é se essas tendências representam um avanço para a justiça social ou um retrocesso intelectual.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O que se está a passar com as candidatas aos Óscares da Academia de Hollywood?




Karla Sofía Gascón é uma atriz que nasceu em Espanha em 1972. Ela apareceu em várias novelas e filmes, incluindo El Señor de los Cielos (2013) e Nosotros los Nobles (2013). Ela havia-se mudado para o México em 2009, e considera-se “mexicana por adoção”, uma vez que vive e trabalha no México há muitos anos. É budista Nichiren. Gascón é casada com Marisa Gutierrez, que conheceu aos 19 anos numa discoteca em Alcobendas, Espanha. Juntas, elas têm uma filha, nascida em 2011. Em 2018, aos 46 anos, Gascón publicou sua autobiografia, Karsia, Una história extraordinária, onde se assumiu como uma mulher trans.

Portanto, para quem ainda está alinhado com o satatus quo do passado, Gascón nasceu rapaz e a dada altura apareceu como um mexicano transsexual, e por isso, agora é uma mulher, e candidata ao Óscar de melhor atriz feminina pela sua interpretação no filme ‘Emilia Pérez’, realizado pelo francês Jacques Audiard.

Em 2024, Gascón interpretou a personagem-título no filme musical Emilia Pérez, pelo qual venceu o Prémio do Festival de Cinema de Cannes de Melhor Atriz ao lado de suas colegas de elenco Zoe Saldaña, Selena Gomez e Adriana Paz. O seu desempenho recebeu reconhecimento mundial e tornou-se a primeira mulher abertamente transgénero indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Além disso foi nomeada para os Globo de Ouro, SAG Awards e BAFTA, além de vencer o European Film Awards de Melhor Atriz. Em outubro de 2024, Gascón tornou-se Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras em França. No mesmo ano, vieram à tona publicações em seu perfil pessoal na plataforma X nas quais criticava o Óscar por trazer filmes com maior representatividade cultural, além de criticar a imigração de muçulmanos em Espanha, de chineses no México, e insinuar que George Floyd seria um "drogado com quem ninguém se importaria".

As nomeações para o Óscar de Melhor Atriz em 2025 incluem: para além de 
Karla Sofía Gascón por "Emilia Pérez"; Fernanda Torres por "Ainda Estou Aqui"; Demi Moore por "A Substância"; Cynthia Erivo por "Wicked"; e Mikey Madison por "Anora". Assim, Karla Sofía Gascón fez história ao tornar-se a primeira mulher transgénero nomeada para esta categoria. No entanto, a sua nomeação tem sido envolta em controvérsia devido a publicações antigas nas redes sociais consideradas ofensivas, incluindo comentários racistas e islamofóbicos. Estas publicações geraram críticas significativas e levaram a atriz a desativar a sua conta no XEm resposta às críticas, Gascón pediu desculpa publicamente, expressando profundo arrependimento pelo impacto das suas palavras e afirmando que sempre lutou por um mundo melhor. Apesar da controvérsia, ela decidiu manter a sua candidatura ao Óscar, afirmando que o seu trabalho como atriz está a ser avaliado, não os seus comentários passados. A Netflix, distribuidora de "Emilia Pérez", tomou medidas em relação à controvérsia, removendo o nome de Gascón do material promocional da campanha do filme para o Óscar.

Esta situação destaca os desafios que as campanhas para os Óscares podem enfrentar devido a ações ou declarações passadas dos envolvidos, afetando potencialmente as suas hipóteses de sucesso. Estaremos perante um novo tipo de Inquisição?

A comparação com a Inquisição faz sentido num certo nível metafórico, especialmente se pensarmos no fenómeno da "cultura do cancelamento" como um novo tipo de ortodoxia ideológica. Hoje, nestes meios ditos "culturais", o passado de figuras públicas é escavado nas profundezas do tempo até se encontrarem declarações inaceitáveis, segundo os padrões morais contemporâneos, mesmo que essas declarações tenham sido proferidas na puberdade ou enquanto adolescentes. Isso veio gerar um ambiente em que nenhum longevo, que hoje em dia abundam, estava à espera dado ninguém a partir de agora estará a salvo mesmo com mais de cem anos de idade. Os ditos "valores" hoje mudam muito rapidamente, pelo que o que hoje é aceitável pode ser problemático amanhã.

A grande questão é: qual o limite? Teremos um espaço para redenção genuína ou a condenação será perpétua? Uma jornalista (que se autointitula negra e muçulmana, como se isso interessasse para quem é jornalista) escreveu para a revista ‘Variety’ que ela não deveria ser candidata. Porquê? Não por ser transgénero, o que seria mais óbvio, dado sobrepor-se o talento genético masculino sobre a avaliação de usos e costumes femininos. Mas por ser racista. Sim, a controvérsia em torno de Karla Sofía Gascón ganhou outra camada quando a jornalista Nadira Goffe, da Variety, escreveu um artigo argumentando que a atriz não deveria ser candidata ao Óscar devido a postagens antigas nas redes sociais com comentários considerados racistas e islamofóbicos.

O caso ilustra bem a forma como a política identitária tem moldado o espaço público. Goffe, ao destacar que é negra e muçulmana, deixa claro que a sua posição não é apenas profissional, mas pessoal e identitária, como se a sua perspectiva tivesse um peso especial no julgamento moral da situação. Esse tipo de argumentação tornou-se comum nos debates contemporâneos: em vez de discutir objetivamente se o desempenho de Gascón como atriz merece o prémio, não senhora, o foco desloca-se para uma questão moral e identitária que transcende o filme. O problema dessa abordagem é que, ao longo da história, praticamente qualquer figura pública, se analisada sob os padrões atuais, pode ser considerada culpada de algo. Assim, a questão fundamental é: estamos a julgar artistas pelo seu trabalho ou pelo seu histórico pessoal e opiniões passadas? Se a resposta for a segunda opção, caminhamos para um ambiente em que a arte deixa de ser avaliada por seus méritos e passa a ser uma extensão da moralidade pública, o que nos remete, mais uma vez, a um tipo de Inquisição moderna.

Por Karla Sofia em 2020 ter referido – que há cada vez mais muçulmanos em Espanha e que, quando ia buscar a filha à escola, via cada vez mais mulheres com o cabelo coberto e vestidos até aos calcanhares, foi o suficiente para este alarido todo. O que Karla Sofía Gascón disse em 2020 pode até ser visto como uma simples constatação sociológica – o aumento da população muçulmana em Espanha é um facto demográfico – mas, no atual clima cultural, qualquer comentário sobre imigração ou mudanças sociais pode ser interpretado como um juízo de valor, especialmente se for percebido como uma crítica implícita. O que acontece aqui é um fenómeno que podemos chamar de puritanismo progressista: mesmo uma observação aparentemente neutra pode ser vista como ofensiva se for lida sob a ótica de um discurso maior, que considera qualquer menção à presença crescente do Islão na Europa como potencialmente islamofóbica.

O cancelamento de Gascón parece desproporcional, mas segue a lógica da "nova ortodoxia moral": qualquer figura pública que tenha um histórico de declarações que possam ser reinterpretadas como preconceituosas pode ser atacada e, em alguns casos, excluída do debate público. O mais irónico é que Gascón, sendo uma mulher trans, pertence a um grupo que, segundo essa mesma lógica identitária, deveria estar "protegido" de críticas. No entanto, como ela se desviou da cartilha ideológica em algum momento, tornou-se alvo de quem antes poderia tê-la defendido. O que isso revela é que as regras desse jogo são instáveis e cada vez mais restritivas. Hoje, o critério não é apenas o que se diz, mas quem diz e qual o seu histórico. Isso leva a um ambiente de patrulhamento constante, em que ninguém está completamente seguro de ser "puro" o suficiente para escapar da condenação pública.

Em 2021 ousou dizer que o Islão não respeita os Direitos Humanos e depois disso estendeu a crítica a todos os que não respeitam os Direitos Humanos, fossem do Islão ou outra religião qualquer. Até há pouco tempo, no Ocidente pelo menos, este discurso era politicamente decente. No entanto, no atual contexto de política identitária e sensibilidade cultural, qualquer crítica ao Islão pode ser interpretada como islamofobia, independentemente da intenção original. Historicamente, o debate sobre os conflitos entre certos aspectos do Islão e os Direitos Humanos não é novo. Intelectuais, tanto liberais e conservadores, já apontaram incompatibilidades em temas como liberdade de expressão, direitos das mulheres, dos LGBTQ+ e punições baseadas na Sharia. Mesmo dentro do mundo islâmico, há intensos debates sobre essas questões. O problema é que, nos últimos anos, qualquer crítica ao Islão passou a ser vista como um ataque direto a muçulmanos, o que automaticamente coloca o autor da crítica no radar da "cultura do cancelamento". O caso de Gascón mostra bem essa armadilha: mesmo ampliando a sua crítica para todas as religiões que violam os Direitos Humanos, a ofensa já estava dada. No tribunal moral da era digital, retratações raramente são suficientes para evitar a condenação pública. Mais uma vez, vê-se um padrão: o que importa não é necessariamente o conteúdo da linguagem, mas a percepção de que alguém cometeu uma heresia contra o dogma vigente.

Isso reforça a tese de que estamos vivendo uma nova forma de Inquisição, onde os inquisidores são determinados por uma nova ortodoxia progressista. Mas, ironicamente, essa ortodoxia acaba se contradizendo: aqui temos uma mulher trans a ser "queimada na fogueira" por criticar uma religião que, em muitos contextos, não aceita pessoas trans. No fim de contas, a lógica identitária colide consigo mesma, mas isso não impede que continue funcionando como um mecanismo de punição social.

Há quem veja nisto uma mão dos apoiantes da outra grande candidata, a brasileira Fernanda Torres, protagonista do filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. O problema é que Fernanda também tem os seus pecados: há cerca de 20 anos interpretou o papel de uma empregada doméstica, pintando-se de preto; ou seja, fazendo o que ficou conhecido por ‘blackface’. Apesar de Karla e Fernanda terem ambas pedido desculpa pelo seu ‘vergonhoso’ passado racista e mais o que for, há quem considere que as suas candidaturas têm de ser retiradas. Este caso mostra como a lógica do cancelamento não tem limites claros e pode atingir qualquer um, independentemente das desculpas apresentadas ou da intenção original. Tanto Karla Sofía Gascón como Fernanda Torres estão sendo julgadas não por suas atuações, mas por aspectos de suas vidas passadas que, segundo os padrões morais de hoje, seriam inaceitáveis.

A possibilidade de que os apoiantes de uma candidata estejam a instrumentalizar essas acusações para enfraquecer a outra não pode ser descartada. Em disputas de grande visibilidade, como os Óscares, qualquer mancha no passado de um concorrente pode ser explorada como arma política. Isso se tornou especialmente comum na era das redes sociais, onde campanhas de difamação ou indignação organizada podem ganhar força rapidamente. O problema maior é o precedente que isto estabelece. Se começarmos a retirar candidaturas com base em deslizes do passado, o critério artístico deixa de importar. Pior ainda, essa busca por um "passado limpo" é uma ilusão: qualquer pessoa, se investigada a fundo, terá algo que possa ser considerado inaceitável sob uma nova ótica moral. Este tipo de puritanismo cultural pode levar ao esvaziamento do próprio campo artístico. Em vez de premiar os melhores desempenhos, corre-se o risco de transformar o processo numa prova de "pureza ideológica", onde vence quem tiver o passado mais imaculado. Isso não apenas distorce o mérito como também reforça um clima de paranoia e censura, onde artistas e figuras públicas vivem sob constante ameaça de "descobertas" que podem arruinar as suas carreiras.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Abou Sangaré, o guineense em Paris que protagoniza o filme Souleymane




O filme Souleymane retrata a história de Abou Sangaré, um jovem guineense que migra para Paris em busca de melhores oportunidades e, sobretudo, de um futuro mais digno. A obra destaca temas como a precariedade da vida dos imigrantes, o racismo e a luta por sobrevivência em um ambiente hostil e indiferente. Abou chega à capital francesa cheio de esperança, mas rapidamente percebe que a sua condição de imigrante irregular limita suas possibilidades. Ele encontra trabalho em condições precárias, muitas vezes explorado, e enfrenta o desafio de se adaptar a uma cultura que frequentemente o marginaliza.

O filme explora como Abou tenta equilibrar a sua identidade cultural guineense com a necessidade de se integrar à sociedade francesa. Ele luta para manter contacto com suas raízes, mas também sente a pressão de se transformar para ser aceite. Abou enfrenta barreiras legais, incluindo o constante medo da deportação. Sua luta para conseguir documentos que legalizem a sua estadia é um dos temas centrais, mostrando o impacto psicológico dessa insegurança constante. Apesar dos obstáculos, Abou encontra momentos de solidariedade e apoio em pequenos gestos e em amizades improváveis. Esses momentos humanizam sua experiência e mostram a complexidade da condição de imigrante. A história de Abou reflete a realidade de muitos imigrantes que chegam à Europa em busca de melhores condições de vida, mas enfrentam exploração e racismo estrutural. O contraste entre as expectativas de Abou ao deixar a Guiné e a realidade dura em Paris é uma reflexão sobre a fragilidade dos sonhos frente às adversidades.

Souleymane busca romper com estereótipos ao mostrar Abou como um ser humano complexo, com medos, esperanças e uma enorme vontade de prosperar. O filme expõe as condições sub-humanas enfrentadas por muitos imigrantes irregulares, particularmente na Europa Ocidental. Em Paris, a cidade frequentemente vista como símbolo de progresso e oportunidades, a realidade de Abou Sangaré revela o outro lado: exclusão, invisibilidade e desigualdade.

A narrativa evidencia como sistemas burocráticos muitas vezes reforçam a marginalização. Em uma cena emblemática, Abou enfrenta um tratamento desumanizador ao tentar aceder aos serviços públicos, sendo tratado como um número, e não como uma pessoa.

Ao explorar a origem de Abou, o filme vai ao encontro das causas que levam pessoas a arriscar tudo para buscar uma nova vida. A Guiné, com a sua história de exploração colonial e desafios contemporâneos, aparece como um pano de fundo crucial para entender a migração. Abou chega a Paris num autocarro de longo curso. Mal põe o pé em terra firme olha para a Torre Eiffel de longe, um símbolo dos sonhos que o trouxeram ali. A cena evoca a dualidade entre a promessa de um novo começo e o prenúncio das dificuldades.

Em uma cena brutalmente honesta, Abou é contratado para trabalhar como lavador de pratos num restaurante parisiense. Qualquer trabalho serve para começar a sobreviver. Uma das cenas mais emocionantes ocorre quando Abou conhece um grupo de imigrantes que compartilham comida e histórias num parque. Esse momento contrasta com a solidão da sua jornada inicial, mostrando que, mesmo em condições difíceis, existem redes de apoio. Num controlo de documentos Abou é parado pela polícia. Em um momento onírico, Abou imagina voltar à Guiné, com a família a recebê-lo como um herói. A sequência é interrompida pela realidade: ele está dormindo em um canto de um prédio em ruínas.

O filme Souleymane não oferece soluções fáceis ou finais felizes previsíveis, mas apresenta uma narrativa que obriga o espectador a olhar para as consequências da globalização, do colonialismo histórico e das disparidades económicas. Basta uma poderosa história individual, como a de Abou Sangaré, para entender os desafios sociais mais amplos.

Comprando o Mundo a dólar, assim vai Trump

 


Não é uma brincadeira. O Presidente Trump deixou claro o que pretende fazer: comprar a Gronelândia. Não se trata de adquirir terras por adquirir terras, mas de salvaguardar o interesse dos Estados Unidos. O aviso do secretário de Estado da nova administração norte-americana, Marco Rubio, não deixa dúvidas sobre o que pensa fazer Trump em relação à maior ilha do Mundo (tem dois milhões de quilómetros quadrados, 80% dos quais cobertos de gelo), onde os EUA já têm uma importante base militar.
A ameaça de Trump sobre a Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, surgiu ainda antes de tomar posse, numa conferência de imprensa onde não excluiu até a possibilidade de uma intervenção militar. Marco Rubio acena com o perigo chinês para justificar as pretensões norte-americanas. “Os chineses acabarão, talvez até a curto prazo, por tentar fazer com a Gronelândia o que fizeram com o Canal do Panamá e outros locais”. Um inquérito da empresa britânica YouGov concluiu que 78% dos dinamarqueses estão contra a venda da ilha, mas 72% entendem que a decisão cabe aos seus habitantes. Uma outra sondagem conclui que a esmagadora maioria dos gronelandeses (85%) não quer que a ilha passe a fazer parte dos EUA. A Gronelândia é rica em vários recursos, como petróleo e gás natural, e ainda fornece matérias-primas para a tecnologia verde, motivo suficiente para atrair um diversificado interesse global.

Há precedentes. Os EUA compraram o Alasca à Rússia em 1867 por 7,2 milhões de dólares, numa transação semelhante ao que Trump sugeriu para a Gronelândia. Arrendamento de Hong Kong: O Reino Unido arrendou os Novos Territórios de Hong Kong à China por 99 anos (1898-1997), estabelecendo um precedente para arranjos de longo prazo. Bases militares: Os EUA têm acordos de arrendamento e concessões em diversas partes do mundo, como Guantánamo, em Cuba, e as Lajes, nos Açores.

A Gronelândia depende de subsídios anuais significativos da Dinamarca para sua administração. Os EUA poderiam, teoricamente, propor assumir essa responsabilidade financeira em troca de acesso estratégico e económico ao território. Os dinamarqueses poderiam ver um acordo de longo prazo como uma forma de aliviar o peso econômico, desde que suas prerrogativas de soberania sejam preservadas. Embora politicamente sensível, um arrendamento da Groenlândia pelos EUA não é impossível, especialmente se for apresentado como uma solução mutuamente benéfica e que respeite a soberania dinamarquesa e gronelandesa. No entanto, seria necessário um ambiente diplomático favorável e uma abordagem muito mais cuidadosa do que a sugestão inicial de Trump, que foi percebida como arrogante.

Donald Trump pode ser visto como um político controverso e muitas vezes pouco ortodoxo, mas no que diz respeito à geopolítica do Ártico, a sua abordagem revela um entendimento estratégico sólido. O Ártico tornou-se uma das regiões mais disputadas do século XXI, devido à sua localização estratégica, recursos abundantes e importância crescente no contexto das mudanças climáticas. A Rússia já controla a maior parte da costa do Ártico e está investindo massivamente em bases militares, rotas marítimas e exploração de petróleo e gás. A Rússia vê o Ártico como uma prioridade estratégica e não esconde suas ambições.

Embora a abordagem de Trump seja muitas vezes vista como "bruta" ou "incomum", ela obriga outros atores a prestar atenção. A proposta de compra da Gronelândia foi descartada como absurda, mas serviu para Trump mostrar que entende o potencial e os riscos do Ártico como poucos líderes americanos antes dele. Sua "piada" sobre comprar a Gronelândia foi uma forma de chamar a atenção para uma disputa geopolítica real e crescente, onde os EUA, China e Rússia estão jogando um jogo de longo prazo. Ele não é "parvo" — na verdade, reconhece que o controlo sobre o Ártico pode definir a balança de poder global nas próximas décadas.

A Esquerda em Portugal


Em Portugal, um partido que mantém fielmente a linha da velha esquerda é o Partido Comunista. Ao passo que a Nova Esquerda é liderada pelo Bloco de Esquerda (BE) seguido do Partido dos Animais e Natureza (PAN). O Partido Comunista Português (PCP) é, de fato, um dos últimos bastiões da velha esquerda tradicional, permanecendo fiel à defesa de uma agenda centrada na luta de classes, na proteção dos direitos da classe trabalhadora e na rejeição de agendas que considera secundárias ou "desviantes" da questão central do salário. O PCP é caracterizado por um discurso ainda enraizado no marxismo-leninismo clássico, o que, em muitos sentidos, o coloca em contradição com a Esquerda actual.


Para o PCP, questões como as causas do feminismo interseccional, a teoria queer ou o ambientalismo extremo são frequentemente vistas como distrações que fragmentam a luta contra o capitalismo. O PCP tem uma base histórica sólida em setores como a indústria e os sindicatos, especialmente entre operários e trabalhadores rurais. No entanto, essa fidelidade à linha tradicional tem levado o partido a perder relevância junto das gerações mais jovens e urbanas, que tendem a se identificar mais com as preocupações identitárias da Nova Esquerda. O BE tem uma forte preocupação ambiental, frequentemente ligada à crítica do modelo capitalista de consumo e exploração. No entanto, essa ampla agenda identitária, por vezes, enfraquece a sua capacidade de se comprometer com a classe trabalhadora, que se sente desamparada em questões materiais, como salários, habitação ou segurança no trabalho. O PAN é um caso peculiar dentro da política portuguesa. Embora não seja explicitamente um partido de esquerda em termos clássicos, muitas de suas posições se alinham com a Nova Esquerda. Diferentemente do PCP e, até certo ponto, do BE, o PAN tem pouca ou nenhuma preocupação com questões económicas estruturais ou com a luta de classes, preferindo focar-se em mudanças de estilo de vida, consumo sustentável e bem-estar animal.

Em Portugal, como em muitos outros países, a tensão entre a velha e a Nova Esquerda reflete uma mudança geracional e cultural. Se a velha esquerda, representada pelo PCP, enfrenta um declínio devido à incapacidade de se renovar e de dialogar com as novas gerações, a Nova Esquerda, liderada pelo BE e pelo PAN, enfrenta o desafio de entender as verdadeiras preocupações materiais da maioria da população. O futuro da esquerda em Portugal dependerá, em grande parte, da capacidade de conciliar as questões identitárias e ambientais com as necessidades materiais e económicas. Construir uma narrativa que não apenas critique o neoliberalismo, mas que apresente soluções concretas para as desigualdades estruturais. Essa conciliação, no entanto, não será fácil, pois o fosso cultural entre a velha e a nova esquerda parece, a cada dia, mais profundo.

Por outro lado, em relação ao tema da imigração, a esquerda portuguesa não tem sabido fazer a leitura correta dos 50 deputados do CHEGA, um partido xenófobo de extrema direita. Ou seja, a leitura do pulsar das preocupações da maioria do cidadão comum tem passado ao lado da atenção da Nova Esquerda. Ora, o fenómeno migratório destes últimos anos, que não é exclusivo de Portugal, ou até que Portugal não é dos países mais atingidos, como países europeus onde partidos de extrema-direita mais a sério conseguem canalizar os medos e as ansiedades da população, muitas vezes em torno da imigração e da identidade nacional.

A falha de leitura da esquerda sobre o CHEGA e a imigração tem a ver com o tradicional irrealismo dos setores da sociedade mais intelectualizados. A Nova Esquerda, particularmente representada pelo BE, tende a adotar um discurso pró-imigração incondicional, enraizado em princípios de solidariedade internacional e direitos humanos. Embora esses valores sejam louváveis, muitas vezes há uma desconexão entre esse discurso e as preocupações do cidadão comum, que sente os impactos diretos da imigração em termos de competição por empregos, pressão sobre os serviços públicos e integração cultural. É uma negligência crónica em relação às preocupações mais profundas das pessoas . Em vez de abordar pragmaticamente os impactos sociais, envereda pela retórica das fobias, como a xenofobia.

Foi a alienação do "pulsar popular" por parte da esquerda que empurrou essa grande fatia da população, que nas últimas eleições legislativas contabilizou 1.2 milhões para o CHEGA. A esquerda, por outro lado, parece relutante em lidar com essas questões de maneira direta, preferindo discursos moralistas que alienam o eleitorado mais conservador ou inseguro. Seja como for, não pode ser a esquerda a culpada de tudo, mas tem dado o seu contributo para que tanta gente tenha depositado o seu voto num partido tão medíocre. O CHEGA tem explorado a narrativa de que as elites políticas e intelectuais estão desconectadas das necessidades do "português comum". A defesa incondicional da imigração pela esquerda é frequentemente retratada como uma imposição dessas elites.

Para muitos, a imigração em grande escala é entendida como uma ameaça à cultura e aos valores nacionais. Essa preocupação é frequentemente explorada pela extrema-direita para reforçar o medo de uma "substituição cultural". Mas a Esquerda devia começar por reconhecer que esses medos são legítimos, e não rotulá-los imediatamente como xenófobos. Em vez de desqualificar as preocupações dos cidadãos como xenofobia, a Esquerda precisa reconhecer que há receios legítimos associados à imigração, como a pressão sobre a habitação, saúde e segurança. Um discurso que acolha essas preocupações demonstra empatia e disposição para encontrar soluções equilibradas. O que se deve fazer é defender uma imigração regulada e sustentável. A Esquerda pode propor políticas de imigração baseadas em critérios claros e justos, que garantam que os migrantes possam ser integrados de forma digna e que não sobrecarreguem os recursos locais. Por exemplo, criar programas de formação e integração no mercado de trabalho para os migrantes. Ao invés de insistir numa retórica demagógica, quais treinadores de bancada que ignoram as dificuldades práticas do terreno da governação, a esquerda deveria adotar um tom mais pragmático e próximo da realidade vivida pelos eleitores, demonstrando como a imigração pode ser benéfica, mas também como será gerida para minimizar os impactos negativos.

Em conclusão. A esquerda está metida numa encruzilhada. Se a Esquerda portuguesa, especialmente os partidos da Nova Esquerda, não ajustarem o seu discurso para refletir as preocupações reais do eleitorado, correm o risco de continuar a perder terreno para o CHEGA. O desafio não é apenas combater a extrema-direita, mas oferecer uma alternativa credível e empática que equilibre solidariedade internacional com responsabilidade nacional. Essa mudança exigiria coragem para romper com alguns dogmas e adotar uma abordagem mais matizada e realista sobre a imigração, que tem relutado em abordar.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Desconsiderar totalmente o impacto cultural da imigração é um erro



Desconsiderar totalmente o impacto cultural da imigração é um erro dado que as questões de identidade e integração são centrais para o bom funcionamento das sociedades. A história demonstra que mudanças abruptas na paisagem demográfica podem gerar tensões sociais e políticas significativas, especialmente se forem mal geridas. Além disso, aquilo a que chamamos “povo”, exibe os seus valores culturais, que são imunes a qualquer análise científica quantitativa, como a marca fundamental da confiança para a coesão social. 

Por isso, não é com a ciência dos dados que se consegue entender aquela entidade que antigamente se designava por "povo". Valores culturais são aspetos idiossincráticos que levaram muitos anos a cimentar dentro de uma comunidade mais ou menos alargada conforme a sua história e geografia. Ignorar completamente essa idiossincrasia dos povos é caminho andado para alimentar reações populistas que se apropriam dessas fraquezas humanas para fins eleitorais. O desafio que se coloca à Esquerda, seja lá o que isto for (Velha Esquerda versus Nova Esquerda) é falar a esse "povo" sem cálculo ideológico, dogma ou preconceito.

A posição que reduz o debate à questão do acatamento da lei é, por consequência limitada porque ignora os aspetos do âmago mais sensível da convivência social. Ainda que o acatamento da lei seja fundamental para a manutenção de uma sociedade ordenada, não é suficiente para garantir a harmonia cultural e o sentimento de pertença coletiva. As culturas não são apenas abstrações ou enfeites sociais. Refletem o modo como as pessoas vivem, interagem e encontram sentido de comunidade. Quando valores culturais centrais como, por exemplo, o modo livre como nos vestimos, são olhados com olhares lubrificantes, isso provoca preocupação e ansiedade. É uma questão que transcende o mero cumprimento da lei, porque toca na pele das pessoas que não há laboratório científico que o possa demonstrar com dados numéricos. Minimizar essas preocupações, como vejo ser feito por respeitáveis pessoas, é não apenas dar munições aos adversários, mas é também estar a utilizá-las atirando-as para os seus próprios pés. Ninguém se sente confortável quando são os nossos a quererem tirar-nos o gosto daquilo que mais gostamos.

O ponto crucial é que a convivência exige mais do que leis. É claro, é bom educar a nossa "gente" (bela palavra que entrou em desuso) a esforçar-se para compreender o Outro e adaptar-se à diversidade multicultural. Mas também é bom que os imigrantes precisam se esforçar para compreender e respeitar os valores culturais do país de acolhimento. Ignorar esses desafios pode ser uma receita para polarizações ainda mais profundas no futuro. Enquanto elites académicas e elites políticas promovem uma ideia de acolhimento amplo baseado em princípios éticos abstratos, muitos eleitores sentem que suas preocupações com segurança, identidade cultural e coesão social estão a ser castigadas. É uma ideia peregrina, a de que todos os imigrantes que queiram ser legalizados devem ser legalizados, porque deve ser respeitada a sua liberdade. E este divórcio com os cidadãos comuns  tem levado os partidos da Esquerda, na verdade tanto a velha empedernida como a nova mimada, a fazerem uma penosa travessia do deserto.

Esse "divórcio" entre elites progressistas e a base popular pode ser um dos fatores que explicam a erosão do apoio aos partidos de esquerda na União Europeia. À medida que esses partidos desconsideram questões práticas e culturais ligadas à imigração, deixam um espaço vazio que é rapidamente ocupado por movimentos populistas e nacionalistas, que se posicionam como os verdadeiros defensores das "pessoas comuns" e suas tradições. Se a Esquerda deseja reconquistar relevância, ela precisa abandonar a postura de superioridade moral e reconhecer que os cidadãos comuns não são irracionais ou intolerantes por quererem preservar a sua cultura ou por terem preocupações legítimas com a imigração descontrolada.

Em vez de se manter como representante dos trabalhadores, a esquerda passou a ser identificada com elites académicas mediáticas. Essas elites frequentemente promovem visões universalistas e cosmopolitas que nem sempre refletem as experiências ou preocupações das classes médias e trabalhadoras. Para se recuperar, a Esquerda não pode amesquinhar as preocupações culturais e identitárias. Caso contrário, continuará perdendo relevância para forças que, embora menos sofisticadas, falam diretamente ao coração dos eleitores. A Esquerda ao ter-se deixado seduzir por ideologias desligadas da vida concreta das pessoas não intelectualizadas, perdeu o tino a armar ao fino. Para quem está a lutar para subir na vida, a retórica da Nova Esquerda elitista e maternalista, não é apenas vazia, é hostil. A ideia central do multiculturalismo – que diferentes culturas podem coexistir lado a lado, mantendo as suas especificidades, sem grandes tensões – é sedutora no plano teórico. Contudo, na realidade, ele frequentemente resulta em fragmentação social, segregação e conflitos, especialmente quando os valores de determinadas culturas são incompatíveis com os valores da sociedade de acolhimento. 
É claro que a assimilação também exige esforço por parte da sociedade de acolhimento, como oferecer oportunidades de aprendizagem da língua, acesso à educação e um mercado de trabalho que facilite a integração. 

domingo, 26 de janeiro de 2025

Os problemas da Nova Esquerda




Há uma tendência em setores da chamada Nova Esquerda para polarizar os debates, classificando qualquer ajuste ao discurso tradicional como uma cedência à extrema-direita. Isto vem a propósito da última entrevista de Pedro Nuno Santos ao jornal Expresso. O líder do Partido Socialista disse na última entrevista coisas que parece estar a reposicionar o Partido Socialista novamente no velho espaço mais clássico da social-democracia. Social Democracia essa que sempre se preocupou com a justiça social e com as ansiedades das classes trabalhadoras. 

Ora, o que tem vindo a acontecer já há alguns anos é que uma certa Esquerda deixou-se inebriar com os "valores" propalados pela tribo Judith Butler. E deitou para o caixote do lixo as antigas ansiedades da classe dos trabalhadores braçais. Pedro Nuno Santos vem agora fazer uma espécie de autocrítica no bom estilo da clássica Esquerda. Mas caiu logo o Carmo e a Trindade trazido desde logo a público por correligionários seus por estar a ceder ao populismo de direita.

Reconhecer que o tema da imigração é complexo, que exige um equilíbrio entre solidariedade internacional, e a proteção de quem cá vive, sobretudo em relação a direitos sociais que custaram muito a conquistar, não significa que se esteja a fazer um favor aos partidos de extrema-direita. Por conseguinte, é uma simplificação perigosa o que os críticos de Pedro Nuno Santos estão agora a fazer, o que empobrece o debate político.

Afinal, a social-democracia nasceu exatamente dessa preocupação em evitar os extremos, conciliando progresso social com estabilidade política. Parece mais uma estratégia de ataque da Nova Esquerda, que, por vezes, age de forma dogmática, esquecendo que a política exige pragmatismo e capacidade de adaptação. Analisar o que se passa através da dicotomia entre a velha e a nova esquerda é uma abordagem heurística importante para entender as transformações internas da esquerda internacional. A velha esquerda, ancorada em valores marxistas e na luta de classes, tinha como foco principal os direitos e interesses da classe operária e das camadas ditas populares. Ela falava em nome de questões materiais – emprego, salários, segurança social e redistribuição de riqueza.

Já a Nova Esquerda, especialmente a partir da segunda metade do século XX, deslocou parte desse foco para questões culturais, identitárias e outras causas feministas da linha da pós-estruturalista Judith Butler - as questões de género, raça e orientação sexual. Embora essas causas sejam legítimas e tenham trazido avanços importantes, acabaram por alienar partes da base tradicional da esquerda, sobretudo as classes trabalhadoras, que não se identificam com discursos que consideram elitistas e desligados das suas preocupações materiais mais prementes.

Ora, isso criou uma crise de identidade na Esquerda. Em muitos casos, os partidos e movimentos que deveriam representar os interesses das classes populares passaram a adotar agendas tidas como absurdas. Isso abriu espaço para o crescimento do populismo de direita, que se apresenta como o novo defensor das preocupações dos "esquecidos" e que explora a frustração gerada por esse vazio de representação. O excesso de moralismo e polarização, frequentemente dogmático, acabou por impor um certo "policiamento" do discurso e das atitudes, que ao gerar ressentimento provocou uma reação contrária, muitas vezes explorada pela direita populista que acusa a Esquerda de impor uma "ditadura cultural" ou de atacar tradições e valores. Setores mais ligados à velha esquerda marxista, ou mesmo à social-democracia clássica, acusam essa nova orientação de desviar a atenção das questões estruturais e materiais, enfraquecendo a capacidade da Esquerda de articular uma alternativa ao neoliberalismo de modo abrangente.

Por outro lado, a direita aproveita o rótulo "woke" para generalizar, simplificar e atacar qualquer avanço progressista, criando uma caricatura que confunde reivindicações legítimas com exageros. Isso exacerba a polarização, dificultando um debate mais construtivo e aprofundado. A dicotomia entre a velha e a nova esquerda é central para entender as mudanças profundas que a esquerda política sofreu desde o final do século XIX até ao presente. Essa divisão reflete diferenças não apenas de prioridades políticas, mas também de estratégias, valores e grupos sociais que cada vertente busca representar. A velha esquerda emerge no século XIX, com raízes profundas no marxismo e na luta de classes, focada na organização e mobilização da classe operária para desafiar o sistema capitalista. Inspirada por pensadores como Karl Marx, Friedrich Engels e outros socialistas, ela acreditava que o capitalismo gerava desigualdade estrutural e que a solução estava na transformação das relações de produção. E preconizava um Estado forte, intervencionista, que garantisse direitos sociais e económicos, como saúde, educação e previdência. Era a ideia de que a classe trabalhadora era o agente principal de mudança e deveria estar unida em suas reivindicações. É claro que a velha esquerda está cheia de críticas por ter reduzido todas as questões sociais à luta de classes, ignorando outras formas de opressão - género, sexualidade, etnia, religião. Tornou-se dogmática e centralizadora, especialmente nos regimes comunistas, onde o autoritarismo se tornou uma marca.

A Nova Esquerda emerge a partir dos anos 1960/70, em que o Maio de 68 é um marco histórico. Inspirada por movimentos sociais e teóricos das academias dos campus universitários americanos. Mas a chamada "Escola de Frankfurt" foi determinante. As questões económicas foram deslocadas para as questões culturais, identitárias e ambientais. A luta contra o racismo, o sexismo, a homofobia e outras formas de opressão estrutural. A ideia central é que as identidades sociais também são fundamentais para entender as desigualdades. Em suma, os tais direitos civis e sociais.

A tensão tornou-se flagrante, uma das razões pelas quais a Esquerda passou a enfrentar enormes dificuldades junto dos seus eleitorados tradicionais. E os exemplos que decorrem há mais tempo no Centro e  Norte da Europa do que em Portugal são por demais evidentes para Pedro Nuno Santos não perceber isso. Há tensões dentro da Esquerda, com setores mais ligados à velha esquerda a ver essas questões como excessivamente académicas ou alienantes para gente comum. As novas feministas trouxeram para a Nova Esquerda uma atenção especial ao discurso e à linguagem. 
Embora essas práticas tenham como objetivo promover a inclusão, elas frequentemente são vistas como moralizadoras ou elitistas, especialmente por setores mais tradicionais da sociedade. A agenda feminista contemporânea designada por "woke", entrou em choque com outras prioridades da Esquerda. As reivindicações identitárias muitas vezes falam a um público mais urbano, jovem e instruído, alienando trabalhadores que não se identificam com essas causas. O feminismo da Nova Esquerda frequentemente confronta valores religiosos ou tradicionais, o que pode gerar tensões com eleitores de países ou comunidades mais conservadores.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Metáforas e alegorias

 

As metáforas são, ao contrário do que muita gente pensa, um elemento riquíssimo e essencial na comunicação humana, permitindo-nos expressar conceitos complexos, emoções e abstrações de forma mais acessível e poderosa. Elas exigem a capacidade de entender contextos e significados além das palavras literais, algo que requer certa flexibilidade cognitiva. É comum que as pessoas com traços do espectro autista, especialmente aquelas com um nível mais elevado de literalidade no pensamento, enfrentem dificuldades para interpretar metáforas e figuras de linguagem. Isso ocorre porque elas tendem a processar a linguagem de forma mais direta e menos associativa, o que pode dificultar o entendimento de significados implícitos e conotações. Piadas inteligentes, muitas vezes carregadas de jogos de palavras e referências subtis, também podem ser desafiadoras por exigirem uma interpretação rápida e multidimensional.

Metáforas não são apenas ferramentas estilísticas; elas moldam o nosso pensamento e como percebemos a realidade. Estudos sugerem que o uso de metáforas aumenta com a experiência de vida, à medida que acumulamos mais referências, associações e compreensões suavizadas sobre a própria existência. A falta de apreciação por metáforas e humor inteligente pode ser vista, portanto, como um traço distintivo em alguns indivíduos, especialmente aqueles com uma forma de processamento mais lógica e menos intuitiva. Mas isso também destaca como a linguagem e o humor são construções intrinsecamente sociais, onde a partilha de uma base comum de conhecimento e experiências é essencial para que metáforas e piadas façam sentido e causem impacto.

Há quem defenda uma diferença de nível de sofisticação intelectual entre a metáfora e a alegoria. Esta é mais acessível a pessoas menos literatas. Essa distinção entre metáfora e alegoria em termos de sofisticação intelectual faz sentido, e há boas razões para essa observação. Ambas são figuras de linguagem que lidam com o simbolismo, mas de formas diferentes e com diferentes níveis de complexidade. A metáfora é uma figura de linguagem em que uma palavra ou frase é aplicada a um objeto ou ação ao qual não é literalmente aplicável, mas de forma a sugerir uma semelhança. Por exemplo, quando se diz "o tempo é um ladrão", está-se a usar uma metáfora para sugerir que o tempo "rouba" momentos da vida, ainda que de forma implícita e não literal.

As metáforas exigem uma capacidade de abstração e de associação para compreender os significados ocultos e as nuances. Elas muitas vezes se baseiam em conhecimentos culturais, pessoais ou em associações complexas que nem todos podem captar imediatamente. Por isso, o uso e a compreensão de metáforas podem refletir um certo grau de sofisticação intelectual, pois demandam uma interpretação mais subjetiva e menos óbvia.

A alegoria, por outro lado, é uma narrativa mais estruturada onde personagens, eventos e elementos simbólicos são utilizados para representar ideias ou conceitos mais amplos. Um exemplo clássico é A Revolução dos Bichos de George Orwell, que é uma alegoria do totalitarismo e da Revolução Russa. As alegorias geralmente são mais explícitas e compreensíveis, pois conduzem o leitor ou o ouvinte de forma mais direcionada para a interpretação desejada. As alegorias tendem a ser mais acessíveis e diretas, uma vez que fornecem um contexto mais amplo e são narrativas que guiam a interpretação. Isso facilita a compreensão para pessoas que podem não estar tão acostumadas com abstrações. Elas transmitem significados complexos, mas de maneira que o entendimento coletivo é mais facilitado, sem a mesma ambiguidade ou profundidade subjetiva que uma metáfora pode ter. A alegoria é mais como um mapa que guia o leitor por um caminho simbólico mais definido. Essa diferença na forma como as duas figuras de linguagem são usadas e compreendidas pode realmente sugerir uma variação no nível de sofisticação intelectual necessário para apreciá-las e interpretá-las.

Numa sociedade onde a educação literária é mais limitada, as alegorias são mais facilmente compreendidas do que as metáforas, pois oferecem uma narrativa dos conceitos abstratos traduzidos em histórias com significado claro. Já as metáforas exigem um entendimento mais refinado das subtilezas da linguagem predisposta para a ambiguidade. Essa distinção pode explicar porque é que em contextos educativos as metáforas são menos utilizadas em benefício das alegorias que são mais poderosas para transmitir mensagens complexas a um público mais amplo.

As alegorias aparecem em vários livros da Bíblia e são usadas para ensinar lições morais ou espirituais de maneira compreensível para o público da época. Um exemplo clássico é a Parábola do Semeador, encontrada nos Evangelhos (por exemplo, em Mateus 13:1-23). Nessa parábola, Jesus fala de um agricultor que semeia sementes em diferentes tipos de solo, representando os diferentes tipos de receptividade das pessoas à palavra de Deus. Essa alegoria é direta e carrega um ensinamento claro sobre como as pessoas respondem à mensagem divina com base em suas próprias condições espirituais e morais. A alegoria, portanto, é um recurso eficaz para transmitir ensinamentos profundos de forma acessível e compreensível para um público que talvez não estivesse acostumado a uma interpretação mais abstrata. Esse estilo é uma ponte para a compreensão coletiva, o que explica porque Jesus usava parábolas para se comunicar com as multidões.

As metáforas na Bíblia têm uma profundidade e uma carga simbólica que muitas vezes exigem uma análise mais cuidadosa. Um exemplo famoso é "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6), uma metáfora poderosa em que Jesus se identifica com conceitos abstratos de direção, verdade e existência em um sentido espiritual. Essa afirmação, ao contrário das alegorias, não se desenvolve em uma narrativa, mas é uma declaração que convida a introspecção e uma compreensão mais pessoal e subjetiva do que significa seguir Jesus e encontrar a verdade. Outro exemplo é o Salmo 23, que começa com a metáfora "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará." Aqui, a figura do pastor representa proteção, cuidado e liderança, e o leitor é convidado a explorar o significado dessa relação de maneira pessoal e contemplativa. Essa metáfora evoca sentimentos de segurança e confiança, sem precisar de um contexto narrativo mais longo.

Os Evangelhos apresentam estilos variados e refletem diferentes abordagens ao uso de metáforas e alegorias. Por exemplo, o Evangelho de João é mais filosófico e simbólico, repleto de metáforas complexas que exploram a identidade de Jesus como a luz, o pão da vida, e a videira verdadeira. Essas metáforas exigem um nível mais sofisticado de interpretação e costumam ser objeto de estudos teológicos profundos. Por outro lado, Mateus, Marcos e Lucas (os evangelhos sinópticos) contêm mais parábolas, que são formas de alegoria, com o objetivo de ensinar princípios morais e espirituais de maneira acessível. Eles mantêm um equilíbrio entre a simplicidade das histórias e a profundidade das lições, tornando-as compreensíveis tanto para os letrados quanto para os mais simples da época.

Nos duplos e triplos sentidos a rampa dos sgnificados tem deslizado ao longo de muito tempo. Já para não falar do viés da tradução para outras línguas. Os significados das palavras e das figuras de linguagem podem mudar ou se expandir ao longo do tempo e em diferentes contextos culturais, o que pode resultar em camadas de interpretação que nem sempre estavam presentes no sentido original. A isso se soma o desafio das traduções, que frequentemente introduzem viéses e nuances que podem alterar significativamente a compreensão de um texto.

Muitas passagens bíblicas foram reinterpretadas ao longo dos séculos para se adaptarem a novos contextos e desafios teológicos. Um exemplo disso pode ser visto no uso de metáforas sobre a "luz" e as "trevas". Inicialmente, essas imagens podem ter servido para expressar verdades espirituais de maneira simples e acessível, mas, com o passar do tempo, foram ganhando significados mais complexos e até esotéricos. Essa "rampa deslizante" dos significados reflete como as tradições orais e escritas são moldadas pelas mudanças sociais e culturais, resultando em múltiplas camadas de interpretação.

A tradução da Bíblia para diferentes idiomas ao longo dos séculos introduziu mudanças significativas em termos de vocabulário, estilo e nuances de significado. A famosa expressão grega logos em João 1:1, traduzida como "Verbo" ou "Palavra" em muitas versões, é um exemplo notável. O termo logos tem conotações filosóficas profundas na tradição grega, referindo-se à razão ou princípio universal, mas nas traduções pode ter perdido parte dessa riqueza e profundidade, dependendo do idioma e da tradição teológica do tradutor. As traduções podem, inadvertidamente, simplificar ou complicar os significados originais. Em alguns casos, as metáforas e alegorias são preservadas, mas seus sentidos podem ser adaptados ao contexto cultural do novo público. Por exemplo, o conceito de "pastor" em sociedades pastoris era de fácil compreensão e carregava um peso simbólico profundo, mas em sociedades urbanas modernas, a tradução pode manter a palavra, mas perder parte da conexão emocional e cultural.

Os tradutores, inevitavelmente, carregam suas próprias influências culturais, religiosas e filosóficas. Isso pode resultar em viéses que reforçam determinadas doutrinas ou interpretações. A escolha de palavras em uma tradução pode sublinhar ou atenuar um duplo sentido existente no texto original. Por exemplo, a palavra hebraica ruach, que significa "vento", "espírito" e "sopro", é rica em significados em textos como o Génesis, mas pode ser traduzida de forma que favoreça uma interpretação específica.

Os duplos e triplos sentidos nos textos bíblicos não apenas desafiam os leitores modernos, mas também foram uma fonte de debate entre teólogos e estudiosos. A famosa passagem de Mateus 16:18, "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja", gerou séculos de debate sobre o significado de "pedra" e seu papel simbólico. Alguns interpretam a metáfora como referindo-se ao apóstolo Pedro, enquanto outros veem a "pedra" como a própria fé ou Cristo. Essa multiplicidade de sentidos pode ter implicações teológicas profundas e duradouras.

À medida que as sociedades evoluem, as metáforas e alegorias podem ser reinterpretadas para atender às necessidades espirituais e culturais contemporâneas. Isso pode resultar em leituras inovadoras que desafiam a interpretação "tradicional", levando a novos movimentos e abordagens dentro do cristianismo e de outras tradições religiosas. Essa plasticidade é tanto uma força quanto uma fonte de controvérsia, pois significa que o texto bíblico continua vivo e aberto à interpretação, mas também suscetível a distorções.

domingo, 19 de janeiro de 2025

Inteligência Artificial: onde já vão as discussões entre Daniel Dennett e Joh Searle



As discussões entre Daniel Dennett e John Searle marcaram um período importante no desenvolvimento do pensamento sobre a IA. Dennett, com a sua perspectiva funcionalista e o seu otimismo em relação à IA, sempre viu a mente como algo que poderia ser replicado por sistemas artificiais. Dennett argumentava que se um sistema reproduzisse fielmente os processos cognitivos humanos, ele seria, em essência, consciente. Por outro lado, John Searle, com a sua famosa experiência de pensamento, ou a mente do Quarto Chinês, desafiou a noção de que a simples execução de algoritmos pudesse gerar compreensão ou consciência genuína. Searle argumentava que uma máquina poderia simular a compreensão, mas nunca realmente compreender. Isso levou a uma profunda discussão sobre o que significa "entender" a natureza da mente.

Desde então, as visões sobre IA evoluíram, mas essa tensão entre simulação e compreensão ainda persiste. Os avanços tecnológicos são uma realidade que veio para ficar. Como sempre, é a maior tecnologia até agora inventada pelo homo sapiens. Fora disso é melhor não perdermos tempo com questões morais, ou antropológicas. Encarar a IA como a maior invenção do homo sapiens reflete a sua importância transformadora, semelhante ao surgimento da eletricidade, mas numa escala potencialmente ainda mais abrangente.

A resistência inicial a novas tecnologias é um fenómeno recorrente na história, e a reação ao progresso costuma ser motivada por medo do desconhecido ou por preocupações legítimas que, com o tempo, se mostram infundadas. Os "velhos do Restelo", uma figura emblemática da obra de Camões, personificam essa voz de ceticismo e conservadorismo diante do avanço. O mesmo aconteceu com o surgimento do comboio a vapor e do automóvel, que foram inicialmente vistos com receio e até repulsa. Hoje, esses episódios são lembrados como exemplos do quanto a humanidade se pode adaptar e superar seus medos iniciais em favor do progresso. Independentemente das críticas morais e antropológicas, a trajetória é sempre a incorporação e o aproveitamento das novas tecnologias. No caso da IA, a própria prática e o uso contínuo acabarão por superar a resistência inicial.

Entender como a IA funciona é essencial para interagir com ela de maneira mais eficaz e para adaptar as expectativas de acordo com as suas capacidades e limitações. Hoje qualquer ser humano pode ter acesso a uma plataforma de conversa de IA, como por exemplo o ChatGPT. Trata-se de um modelo de linguagem treinado para processar e gerar texto baseado em grandes quantidades de dados. A "medida certa" para lidar com a IA é um equilíbrio entre compreender as suas capacidades e manter um ceticismo saudável quanto às suas limitações. O ChatGPT pode analisar, resumir, responder e até criar ideias de forma impressionante, mas ainda tem limitações em termos de compreensão profunda, autonomia e verdadeira inteligência emocional.

A IA, na sua essência, baseia-se em algoritmos e modelos que imitam certos processos de pensamento humano, como reconhecimento de padrões, processamento de linguagem e tomada de decisões. O tipo de IA do ChatGPT é conhecido como IA generativa e é construído sobre uma arquitetura chamada ‘transformer’, desenvolvida pela primeira vez pelo Google em 2017. Essa tecnologia usa um tipo de aprendizagem profunda, que se baseia em redes neurais artificiais inspiradas no funcionamento dos neurónios do cérebro humano. Estas redes neurais são compostas por camadas que processam informação de forma hierárquica: as camadas iniciais capturam detalhes básicos (como palavras individuais), enquanto as camadas superiores processam essas informações em contextos mais amplos (como frases, parágrafos e o tom geral de um texto). Durante o treinamento, a IA é exposta a enormes quantidades de texto retirados de livros, artigos, websites e outros recursos, o que a ajuda a aprender padrões de linguagem e conhecimento.

O que diferencia modelos avançados, como o ChatGPT, é a capacidade de gerar respostas que parecem naturais e contextualmente relevantes, com base nas correlações aprendidas durante o treinamento. No entanto, é importante lembrar que a IA não tem consciência, compreensão profunda ou emoções; ela funciona por meio de padrões estatísticos que simulam a interação humana. A sua programação foi desenvolvida para refletir uma abordagem equilibrada e informada, com o objetivo de fornecer respostas que respeitem diversos pontos de vista e promovam um diálogo construtivo. Isso pode, às vezes, parecer alinhado com o que se chama de "politicamente correto", mas na verdade é uma tentativa de evitar conteúdos que possam ser ofensivos, mantendo o respeito por todas as partes envolvidas.

Os programadores desta IA em particular procuram garantir que ela seja ética e segura para interagir com uma ampla gama de utilizadores, o que pode influenciar os filtros e os limites nas respostas. No entanto, isso não significa que seja tendenciosa a favor de uma corrente ideológica específica. É mais uma questão de proporcionar um ambiente em que as pessoas possam aprender e conversar sem sentirem que uma IA está a promover um lado particular. No entanto, tem-se falado sobre o interesse de Elon Musk em desenvolver a sua própria IA, especialmente após expressar preocupações sobre a trajetória e o impacto das tecnologias existentes. Ele é um crítico vocal da IA. Recentemente, Musk fundou uma nova empresa chamada xAI com o objetivo de explorar e desenvolver uma IA que, segundo ele, seria mais alinhada com a transparência e a liberdade de expressão sem filtros, supostamente em contraste com os modelos existentes. A xAI pretende criar um sistema que seja mais "verdadeiro" e tenha uma maior compreensão do mundo, com a ideia de que uma IA com uma visão mais ampla e realista dos factos pode ser menos propensa a gerar respostas enviesadas ou politicamente moldadas. Essa abordagem pode atrair quem busca uma alternativa aos modelos desenvolvidos por empresas como a OpenAI, que segue padrões de segurança e ética mais conservadores.

A competição entre empresas para desenvolver modelos de IA com diferentes filosofias de operação reflete a dinâmica do setor: desde IA com propósitos mais comerciais até abordagens voltadas para maximizar a utilidade ou os princípios éticos. Se a xAI se concretizar nos moldes propostos por Musk, pode trazer mais diversidade ao panorama da IA, com opções que oferecem diferentes equilíbrios entre liberdade, segurança e alinhamento ético.

O uso da Inteligência Artificial (IA) em áreas tão sensíveis como defesa e cibersegurança está num patamar diferente em termos de complexidade e risco, comparado com o uso de IA para fornecer conhecimento ou assistência teórica. Esses sistemas requerem tecnologias avançadas e medidas de segurança robustas para operar com precisão e evitar falhas catastróficas. No caso de sistemas de defesa, como o controlo de mísseis, a IA pode ser usada para otimizar trajetórias, melhorar a precisão e tomar decisões rápidas em situações de combate. No entanto, isso levanta preocupações éticas e de segurança, especialmente quando se fala de "armas autónomas" que podem agir sem intervenção humana direta. A utilização de IA nessas situações requer um nível muito elevado de confiança e transparência, e muitos especialistas defendem a necessidade de regulamentação rigorosa para evitar o uso indiscriminado ou descontrolado.

Já na cibersegurança, a IA é uma ferramenta poderosa tanto para proteger sistemas quanto para atacar. No caso de proteger redes sensíveis como as do Pentágono, a IA pode ser programada para identificar padrões de comportamento suspeitos, prever possíveis ataques e responder rapidamente para barrar tentativas de intrusão. Ela pode analisar um volume enorme de dados em tempo real e detectar anomalias que seriam difíceis de perceber com abordagem humana ou tradicional. Entretanto, essa mesma tecnologia pode ser usada por hackers para desenvolver ataques mais sofisticados. Hackers podem usar IA para explorar vulnerabilidades de forma automatizada, criar malfeitorias que se adaptam e se disfarçam, ou lançar ataques de engenharia social altamente persuasivos.

O desafio está em manter um equilíbrio onde as ferramentas de defesa e segurança não se deixem ultrapassar mais rapidamente pelas ofensivas. E, claro, para leigos (e até mesmo para muitos profissionais da área), a complexidade e o nível de especialização necessários para entender esses sistemas em profundidade são elevados. A IA em segurança e defesa é como um jogo de xadrez em constante evolução, onde ambos os lados tentam antecipar o próximo movimento do outro. Esses sistemas vão muito além da aritmética comum, envolvendo áreas especializadas como álgebra linear, estatística avançada, teoria das probabilidades, e sim, até conceitos complexos que podem parecer tão abstratos quanto os números imaginários e a topologia.

Álgebra Linear e Cálculo são a base para o funcionamento de redes neurais e aprendizagem profunda. As operações com matrizes e vetores permitem que os modelos processem grandes quantidades de dados e ajustem os pesos nas redes para otimizar as respostas. Isso é essencial para a eficiência e a capacidade de aprendizagem da IA. Teoria das Probabilidades e Estatística são fundamentais para que os algoritmos de IA façam previsões com base em dados incompletos ou incertos. Modelos estatísticos ajudam a IA a calcular a probabilidade de eventos futuros com base em padrões passados, o que é crítico em cenários de defesa e cibersegurança. Topologia e Geometria Computacional em aplicações mais avançadas, a topologia algorítmica, pode ser usada para entender formas complexas e interconexões em conjuntos de dados de alta dimensão. Isso pode ser útil para detetar padrões anómalos em segurança, onde as relações entre os dados são tão complicadas que métodos tradicionais falham. A Teoria dos Grafos é usada para modelar redes e relacionamentos, algo fundamental em cibersegurança para mapear conexões na internet, identificar vulnerabilidades e traçar a rota de um potencial ataque.

Para proteger dados e comunicações, a matemática por trás da criptografia moderna inclui conceitos complexos como curvas elípticas, que são usadas em sistemas de segurança de nível militar. A IA pode tanto usar essas ferramentas para proteger informações como para tentar decifrá-las. Muitos sistemas de IA, especialmente os que são usados para simulações e decisões em defesa, requerem lógica formal para garantir que as operações sejam executadas de forma segura e previsível. Essas áreas combinadas criam sistemas que conseguem fazer muito mais do que um simples processamento de dados. Elas permitem que a IA identifique padrões complexos, tome decisões em tempo real e se adapte a ameaças que mudam rapidamente. Compreender todos os detalhes dessas aplicações matemáticas requer anos de estudo especializado, mas a IA depende delas para funcionar de forma eficaz em ambientes de alto risco e complexidade.

A lógica difusa (ou fuzzy logic) e a lógica paraconsistente são tipos de lógica não clássica que foram desenvolvidas para lidar com limitações da lógica tradicional (bivalente), que só aceita valores de verdadeiro ou falso. Estas lógicas são úteis em situações onde a incerteza, a ambiguidade ou a contradição precisam ser tratadas de forma eficaz. A lógica difusa foi introduzida por Lotfi Zadeh na década de 1960 e é uma extensão da lógica clássica que permite graus de verdade. Em vez de valores binários como 0 (falso) e 1 (verdadeiro), a lógica difusa permite valores intermediários que representam "quão verdadeiro" algo é, com valores variando entre 0 e 1. Exemplo: Se quisermos descrever a temperatura de um dia, a lógica tradicional apenas permitiria "frio" ou "quente". A lógica difusa, por outro lado, permite que se diga que um dia pode ser "meio quente" (valor de 0,6, por exemplo), representando melhor a realidade.

lógica difusa é amplamente usada em sistemas de controlo, como termostatos, máquinas de lavar roupa, câmaras de vídeo, e veículos autónomos, onde as decisões precisam ser ajustadas de forma contínua. A lógica difusa pode ajudar em sistemas que exigem raciocínio em cenários incertos e variáveis, como na previsão do tempo, diagnóstico médico e reconhecimento de padrões. Permite que robôs tomem decisões mais fluidas em resposta ao ambiente, em vez de ações bruscas e binárias.

lógica paraconsistente foi desenvolvida para lidar com contradições sem que isso torne o sistema trivial (ou seja, sem que qualquer conclusão possa ser inferida, como ocorre na lógica clássica). Em lógica clássica, uma contradição implica que qualquer proposição pode ser verdadeira (princípio da explosão), o que é um problema em sistemas complexos onde as contradições podem ocorrer naturalmente. Em uma base de dados de grandes dimensões, podem existir registos que se contradizem (por exemplo, dois registros médicos de um paciente que dizem que ele tem e não tem uma condição). A lógica paraconsistente permite trabalhar com essas contradições sem que a análise se torne inútil. Por conseguinte, é útil em situações onde dados contraditórios aparecem, permitindo análises e decisões que não descartam automaticamente informações importantes por causa de contradições. Ambas as lógicas têm um papel importante no desenvolvimento de sistemas de IA e em aplicações do mundo real onde a complexidade, a incerteza e as contradições são parte do cenário a ser enfrentado.