Antes de entrarmos na avaliação do conteúdo dos textos bíblicos propriamente ditos, é importante conhecer como eram escritos e copiados. Os escribas eram profissionais especializados na habilidade de escrita, dado que não era atributo do comum dos mortais. E o material em que foram escritos os textos bíblicos podemos nos limitar ao papiro e ao pergaminho. Entre os hebreus, os escribas eram pessoas livres. Mas, entre os romanos, eram escravos, que não deixavam por isso de ser bem pagos. O papiro, originário do Egito, passou depois a ser utilizado em todo o mundo antigo. Era fabricado a partir do caule da planta do mesmo nome. A medula do caule do papiro (chamada pelos gregos de biblos, de onde provém a palavra bíblia) era fatiado, sobreposto e prensado ao sol até secar. O emprego do papiro como suporte para escrever representou um grande avanço, por ser leve, fino e mais facilmente manuseável. Os escribas recorriam a um pedaço de cana ou junco – cálamo – cuja tinta preta era composta de uma mistura de pó de fuligem e água, mais um fixador como a goma arábica. Com o passar do tempo, surgiu na Ásia Menor, em Pérgamo, o pergaminho, dado que o papiro era muito caro. Era escrito com uma pena de ganso em vez do cálamo; e a folha era costurada em livro, em vez do rolo. Este arranjo forneceu o padrão dos códices. Produzido a partir de peles de carneiro, ovelha ou cabra, eram submetidas a banho de cal, depois raspadas e polidas com pedra-pomes. Depois colocadas a secar em molduras que as mantinham esticadas. Quanto mais jovem o animal, melhor era o pergaminho resultante. O melhor pergaminho era o velino, feito a partir da pele de bovinos muito jovens, pois era mais liso e fino. O papel foi inventado na China entre o século I e II. Era fabricado a partir das fibras de cânhamo ou linho triturado. No século VIII entrou na Síria e no Egito, mas só chegou à Europa no século XII.
Os escribas ou copistas tinham de fazer o trabalho de cópia de forma manual. Às vezes, um escriba ditava um texto para um grupo de escribas copiarem. Dessa forma um escriba poderia ouvir, entender e escrever errado uma palavra. Mesmo nos casos em que o copista via e copiava o texto, ele poderia transcrever errado esquecendo uma letra ou palavra. Havia também prováveis alterações intencionais. Um escriba poderia alterar uma palavra ou expressão por julgar que aquelas palavras não estavam corretas por erro de um copista anterior ou por não fazer sentido para ele naquele local. Então um escriba poderia alterar o texto para aquele que julgava fazer mais sentido ou estar mais correto. A metodologia utilizada era, no entanto, bastante rigorosa: ao final de cada cópia pronta, todas as letras eram contadas, e uma letra era estabelecida como letra central de referência. Assim, as letras do início da cópia até a letra central teriam de estar perfeitamente iguais às do documento original. Também eram contadas todas as letras desde a letra final até a letra central. Em caso de discordância, todo o trabalho era destruído e uma nova compilação realizada.
A historicidade da Bíblia diz respeito ao seu carácter histórico. A História é uma disciplina que lida com o estudo de vestígios físicos e documentos escritos de épocas passadas tendo por vista pensar, interpretar e reconstruir o passado. A Bíblia é um livro considerado sagrado por diversas denominações religiosas. Por séculos foi vista como um documento derivado diretamente da inspiração divina, e por isso o que ela narrava era tido como verdade inquestionável, narrativas tidas como puramente "históricas". Como se trata de um método inscrito no método científico, a exegese bíblica rejeita qualquer forma de dogmatismo, e muito menos qualquer forma de inspiração divina. Portanto, não se confunde com teologia ou qualquer forma de mundividência ligada à pastoral religiosa.
Quando os israelitas regressam à terra de Judá, encontram lá uma mescla de povos, entre os quais os samaritanos que praticam a religião do Antigo Israel baseada na lei de Moisés. As hostilidades começam com as diferenças de pormenor dos rituais religiosos. É um caso diferente do destino das 10 Tribos que formavam o Reino de Israel Setentrional. A experiência coletiva do cativeiro de Babilónia teve efeitos muito importantes daí para a frente na evolução cultural e religiosa do povo hebreu. Marca o surgimento da leitura e estudo da Torá nas sinagogas locais, que depois se vai expandir pela diáspora dos judeus dispersos pelo mundo. A Torá (Chamishá Chumshei Torá), apesar da palavra ser usada algumas vezes para se referir a todo o corpo de textos judaicos sagrados (o que, além dos livros do Pentateuco, incluí também o Talmude, o Midrash e as obras da Cabala), é consensual no judaísmo rabínico que esta obra começou a ser vertida em forma escrita a partir de meados do século VI a.C. levando alguns séculos para atingir a sua atual forma canónica. Uma corrente tradicional de estudiosos (os Maximalistas Bíblicos) assume que várias porções do Pentateuco (geralmente, o autor J) são do período da Monarquia Unificada, no século X a.C., que dataria o Deuteronómio e a história Deuteronómica ao tempo do Rei Josias, e que a forma final da Torá foi devida a um redator em tempos de exílio e pós-exílio (século VI a.C.). Essa visão é baseada no conto do achado do "livro da lei" em II Reis 22:8, que corresponderia ao núcleo do Deuteronómio, e as partes restantes da Torá teriam sido compostas para alimentar um pano de fundo, de contos tradicionais ao texto redescoberto.
Os escritos do Novo Testamento estão predominantemente em formato de códice, o que leva a admitir que foram escritos assim desde o início. Cada códice consiste de livros encadernados com várias folhas de papiro ou pergaminho presas por uma borda. Em caso de obras maiores formam-se vários cadernos com 8 a 12 folhas dobradas. Nenhum dos originais do Novo Testamento chegou ao nosso tempo. O facto de os textos bíblicos terem sofrido pequenas alterações ao longo de séculos é uma questão relevante em termos históricos, literários e culturais. Não se trata da questão real da existência histórica dos acontecimentos e das personagens. Isso não oferece discussão hoje em dia. O que está em causa é a preservação da originalidade desde a primeira narrativa. Estamos perante milhares de cópias de cópias dos textos originais copiados em diferentes lugares, diferentes épocas e até diferentes indivíduos com crenças diferentes. O tipo de texto encontrado em Qumran não é idêntico ao texto massoreta que conhecemos hoje. Na maioria dos fragmentos, a comparação entre os textos de Qumran e o Texto Massoreta mostra que os escribas de Qumran não tinham a noção de um texto original. Por exemplo, o Manuscrito de Isaías (1QIsb) apresenta 248 divergências com o Texto Massoreta do códice de Leningrado. O Códice Alepo (c. 920) e o Códice de Leningrado (c.1008) eram as mais antigas cópias manuscritas completas do Antigo Testamento antes da descoberta dos ‘Manuscritos do Mar Morto’ na Cisjordânia, no sítio arqueológico com o nome de Qumran.
Antigamente os eruditos achavam que as diferenças entre o texto Massoreta e Septuaginta talvez resultassem de erros, ou mesmo de invenções deliberadas do tradutor. Agora tais rolos levantam a possibilidade para que muitas das diferenças tenham existido devido a variações no texto hebraico original. Os Rolos do Mar Morto confirmaram o interesse do texto Massoreta, do Pentateuco Samaritano, e de outras traduções bíblicas, para o estudo comparativo. Eles revelam que houve versões diferentes dos textos bíblicos hebraicos usados pelos judeus no período do Segundo Templo.
Vestígios da seita dos Essénios, encontrados em Qumran, que se vestiam apenas com túnicas brancas e acessórios simples, indicam que a associação de Jesus aos Essénios, ou a sua influência é controversa. Os Essénios viviam em comunidades isoladas, e tinham conceitos muito diferentes dos das outras seitas judaicas. Preocupavam-se em especial com a purificação pessoal, e eram geralmente celibatários.
A Biblioteca de Nag Hammadi é uma coleção de 52 textos – treze códices de papiro embrulhados em couro dentro de um jarro de barro selado. Foram encontrados no Egito em 1945. Classificados na sua maioria como textos gnósticos, incluindo trabalhos do Corpus Hermeticum e excertos da República d Platão. Os textos nos códices estão escritos em copta, embora todos os trabalhos sejam traduções do grego. O mais conhecido trabalho é provavelmente o Evangelho de Tomé. O Evangelho de Tomé, ou melhor, Evangelho de Tomás, ou ainda Evangelho Cóptico de Tomás, faz parte dos textos de Nag Hammadi, descobertos em 1945, é uma lista de 114 ditos atribuídos a Jesus. Não explora, como os demais, a forma narrativa, apenas cita — de forma não estruturada — as frases, os ditos ou diálogos breves de Jesus a seus discípulos. Segundo a sugestão do Prof. Helmut Koestler, que leciona na Universidade de Harvard, o Evangelho de Tomé foi recompilado por volta do ano 140, mas talvez contenha textos de algumas tradições ainda mais antigas que os evangelhos canónicos, possivelmente da segunda metade do século primeiro (50−100), ou seja, da mesma época ou anterior aos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João. Koester também disse que este evangelho lembra a fonte hipotética denominada Q, com ditos que teriam sido usados pelos evangelhos de Lucas e Mateus. Também segundo esse autor, o texto em copta é uma tradução do grego. Segundo Stevan Davies deve ser datado entre os anos 50 e 70.
Hoje os livros da Bíblia são tratados como documentos iguais a quaisquer outros, devendo ser lidos criticamente e comparados com outras fontes (textuais, arqueológicas, epigráficas, etc.), para distinguir-se o que têm de informação valiosa para elucidar alguns fatos e eventos e entender como a tradição religiosa e cultural da região se articulou e desenvolveu, e o que não é confiável, possuindo elementos fantasiosos, tendenciosos e de redação tardia em relação aos factos narrados. No final do século XIX o consenso dos especialistas era que o Pentateuco era uma obra de muitos autores realizada entre 1000 (Tempo de David) e 500 a.C. (Tempo de Esdras), e posta por escrito apenas por volta de 450 a.C., e em consequência, qualquer história que contivessem era mais provavelmente questionável do que estritamente factual – uma conclusão reforçada pelas posteriores refutações científicas do que então eram classificadas como mitologias bíblicas. Nas décadas seguintes, Hermann Gunkel chamou a atenção para os aspetos míticos do Pentateuco, e Albrecht Alt, Martin Noth e a escola da Crítica da Tradição alegaram que, embora o núcleo dos relatos tivesse raízes antigas genuínas, as narrativas em si eram uma elaboração ficcional e não tinham a intenção de ser história no sentido moderno.
Ainda que nomes como Abraão, Isaac e Jacob possam ser admitidos como correspondendo a pessoas de carne e osso, não quer dizer que sejam figuras históricas. Se houve um dia um homem chamado Abraão, a lenda não é capaz de preservar uma memória da vida pessoal de Abraão, considerando a distância de tantos séculos. A ‘religião de Abraão’ é, na realidade, a religião dos narradores da lenda que eles atribuíram a Abraão”. Na esteira do exame filológico renascentista das Escrituras, surge uma tendência de separar pressupostos teológicos de seu escrutínio histórico e literário. Assim, nasce a crítica bíblica, tratando textos bíblicos como artefactos naturais ao invés de artefactos sobrenaturais, sob um paradigma do racionalismo dos séculos XVII e XVIII. A partir do século XX os estudos passaram a ser multidisciplinares, campos especializados como a crítica das fontes, a crítica das formas, a crítica das tradições e a crítica de redação.
Do ponto de vista historiográfico, a leitura da Bíblia envolve a mobilização de instrumentos de crítica que ajudem a ler o documento de forma objetiva – procedimento igualmente aplicado a qualquer tipo de estudo histórico. Como afirmou Herbert Niehr, “Como é o caso em todas as análises historiográficas, a história não pode ser simplesmente encontrada nas fontes. As fontes apenas providenciam o material a ser explorado. Para escrever historiografia ou história de uma religião não é suficiente recontar as fontes. A tarefa do historiador é confrontar documentos independentes buscando uma melhor compreensão dum objeto passado. Por exemplo, não existe nenhum traço do êxodo nas fontes egípcias, nem nenhuma menção de um reino israelita poderoso no século X na documentação à época. A Bíblia apresenta apenas evidência secundária (ou até terciária) para tudo o que aconteceu antes do exílio. Fontes primárias para a história da Palestina antiga são fornecidas por todos os tipos de vestígios arqueológicos. A crítica das fontes é a busca de fontes originais que estão por trás de um dado texto bíblico. Na crítica bíblica, essa forma de crítica encontra a sua mais nítida manifestação na hipótese documental de Wellhausen que está ainda muito viva na interpretação da Bíblia, embora tenha sido reinterpretada à luz das descobertas de Van Setters. A hipótese documentária propõe, a partir de análises rigorosas e sistemáticas, que a Bíblia é um produto da junção de fontes diversas de diferentes épocas e regiões para formar um manuscrito final editado por uma tradição tardia.














