quarta-feira, 26 de abril de 2023

Historicidade da Bíblia



Antes de entrarmos na avaliação do conteúdo dos textos bíblicos propriamente ditos, 
é importante conhecer como eram escritos e copiados. Os escribas eram profissionais especializados na habilidade de escrita, dado que não era atributo do comum dos mortais. E o material em que foram escritos os textos bíblicos podemos nos limitar ao papiro e ao pergaminho. Entre os hebreus, os escribas eram pessoas livres. Mas, entre os romanos, eram escravos, que não deixavam por isso de ser bem pagos. O papiro, originário do Egito, passou depois a ser utilizado em todo o mundo antigo. Era fabricado a partir do caule da planta do mesmo nome. A medula do caule do papiro (chamada pelos gregos de biblos, de onde provém a palavra bíblia) era fatiado, sobreposto e prensado ao sol até secar. O emprego do papiro como suporte para escrever representou um grande avanço, por ser leve, fino e mais facilmente manuseável. Os escribas recorriam a um pedaço de cana ou junco – cálamo – cuja tinta preta era composta de uma mistura de pó de fuligem e água, mais um fixador como a goma arábica. Com o passar do tempo, surgiu na Ásia Menor, em Pérgamo, o pergaminho, dado que o papiro era muito caro. Era escrito com uma pena de ganso em vez do cálamo; e a folha era costurada em livro, em vez do rolo. Este arranjo forneceu o padrão dos códices. Produzido a partir de peles de carneiro, ovelha ou cabra, eram submetidas a banho de cal, depois raspadas e polidas com pedra-pomes. Depois colocadas a secar em molduras que as mantinham esticadas. Quanto mais jovem o animal, melhor era o pergaminho resultante. O melhor pergaminho era o velino, feito a partir da pele de bovinos muito jovens, pois era mais liso e fino. O papel foi inventado na China entre o século I e II. Era fabricado a partir das fibras de cânhamo ou linho triturado. No século VIII entrou na Síria e no Egito, mas só chegou à Europa no século XII.

Os escribas ou copistas tinham de fazer o trabalho de cópia de forma manual. Às vezes, um escriba ditava um texto para um grupo de escribas copiarem. Dessa forma um escriba poderia ouvir, entender e escrever errado uma palavra. Mesmo nos casos em que o copista via e copiava o texto, ele poderia transcrever errado esquecendo uma letra ou palavra. Havia também prováveis alterações intencionais. Um escriba poderia alterar uma palavra ou expressão por julgar que aquelas palavras não estavam corretas por erro de um copista anterior ou por não fazer sentido para ele naquele local. Então um escriba poderia alterar o texto para aquele que julgava fazer mais sentido ou estar mais correto. A metodologia utilizada era, no entanto, bastante rigorosa: ao final de cada cópia pronta, todas as letras eram contadas, e uma letra era estabelecida como letra central de referência. Assim, as letras do início da cópia até a letra central teriam de estar perfeitamente iguais às do documento original. Também eram contadas todas as letras desde a letra final até a letra central. Em caso de discordância, todo o trabalho era destruído e uma nova compilação realizada.

A exegese bíblica é o estudo e a investigação crítica das escrituras bíblicas que procura discernir e discriminar julgamentos sobre essas escrituras. A crítica histórico-literária aborda e trata a Bíblia sob uma perspetiva académica. As Escrituras são tratadas como qualquer outra obra de literatura utilizando-se de métodos e informações da arqueologia, história, antropologia, sociologia e filologia. A filologia é a ciência que estuda os textos e tudo que é necessário para torná-los acessíveis, linguística e culturalmente. Estende-se desde a crítica textual, cujo objeto é o próprio texto, até as "questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade, a datação etc. A paleografia é o estudo da escrita antiga, preservada em materiais portáteis e mais sujeitos a deterioração temporal. Já a epigrafia estuda as inscrições antigas em objetos fixos e menos sujeitos à deterioração (pedra, osso, metal). A paleografia tem como objetivos: identificar as letras e sinais gráficos antigos permitindo sua leitura; determinar a data e origem de um documento; estudar as características dos manuscritos como: material, formato, processo de confeção e estilo de escrita.

A historicidade da Bíblia diz respeito ao seu carácter histórico. A História é uma disciplina que lida com o estudo de vestígios físicos e documentos escritos de épocas passadas tendo por vista pensar, interpretar e reconstruir o passado. A Bíblia é um livro considerado sagrado por diversas denominações religiosas. Por séculos foi vista como um documento derivado diretamente da inspiração divina, e por isso o que ela narrava era tido como verdade inquestionável, narrativas tidas como puramente "históricas". 
Como se trata de um método inscrito no método científico, a exegese bíblica rejeita qualquer forma de dogmatismo, e muito menos qualquer forma de inspiração divina. Portanto, não se confunde com teologia ou qualquer forma de mundividência ligada à pastoral religiosa.

A hipótese documental, desenvolvida por Julius Wellhausen, também conhecida como Teoria das Fontes ou Crítica das Fontes, é a teoria segundo a qual os cinco primeiros livros do Antigo Testamento (Pentateuco) são resultado de uma composição a partir de quatro fontes principais: [E] eloísta; [J] javista; [P] sacerdotal; [D] deuteronomista. Por outro lado, a correspondente Torá, chegou à sua forma presente no período pós-exílio (depois de 520 a.C.), quando tradições mais antigas, orais e escritas, "detalhes geográficos e demográficos contemporâneos, mas, ainda mais importante, as realidades políticas da época" foram levados em consideração. O Pentateuco não foi escrito por Moisés e muito menos no seu tempo, mas sim cerca de quinhentos a mil anos após a sua morte. Nos anos 1970 a Hipótese de Wellhausen foi questionada. A existência de documentos fixos, separados, parecia ser um tanto implausível diante de novos dados literários, arqueológicos e editoriais. Assim, novas teorias de composição surgiram. Muitos católicos conservadores, judeus tradicionalistas, evangélicos e fundamentalistas temem que a hipótese documental possa afetar a fé.

Pela História, dita científica, sabe-se de uma primeira deportação de judeus do antigo reino de Judá em 609 a.C. E de uma segunda em 598 a.C. Jerusalém é sitiada e o jovem Joaquim rei de Judá, rende-se voluntariamente. O Templo de Jerusalém é parcialmente saqueado e a elite, incluindo o Rei, é levada para o Exílio, na Babilónia. Em Jerusalém fica Ezequias, tio do Rei Joaquim, que Nabucodonosor II nomeia como rei vassalo. Em 587 a.C. levanta-se nova rebelião no Reino de Judá. O Templo de Jerusalém é então totalmente destruído e dá-se mais uma deportação. Surgem os profetas: Jeremias, Ezequiel e Daniel. Portanto, há evidências históricas da destruição de Jerusalém em 587 a.C. E é certo que o período de cativeiro em Babilónia terminou no primeiro ano de reinado de Ciro II (538/537 a.C.) após a conquista persa da cidade de Babilónia. Em consequência do Decreto de Ciro, os judeus exilados foram autorizados a regressar à terra de Judá, em particular a Jerusalém, para reconstruir o Templo.

Quando os israelitas regressam à terra de Judá, encontram lá uma mescla de povos, entre os quais os samaritanos que praticam a religião do Antigo Israel baseada na lei de Moisés. As hostilidades começam com as diferenças de pormenor dos rituais religiosos. É um caso diferente do destino das 10 Tribos que formavam o Reino de Israel Setentrional. A experiência coletiva do cativeiro de Babilónia teve efeitos muito importantes daí para a frente na evolução cultural e religiosa do povo hebreu. Marca o surgimento da leitura e estudo da Torá nas sinagogas locais, que depois se vai expandir  pela diáspora dos judeus dispersos pelo mundo. A Torá (
Chamishá Chumshei Torá), apesar da palavra ser usada algumas vezes para se referir a todo o corpo de textos judaicos sagrados (o que, além dos livros do Pentateuco, incluí também o Talmude, o Midrash e as obras da Cabala), é consensual no judaísmo rabínico que esta obra começou a ser vertida em forma escrita a partir de meados do século VI a.C. levando alguns séculos para atingir a sua atual forma canónica. Uma corrente tradicional de estudiosos (os Maximalistas Bíblicos) assume que várias porções do Pentateuco (geralmente, o autor J) são do período da Monarquia Unificada, no século X a.C., que dataria o Deuteronómio e a história Deuteronómica ao tempo do Rei Josias, e que a forma final da Torá foi devida a um redator em tempos de exílio e pós-exílio (século VI a.C.). Essa visão é baseada no conto do achado do "livro da lei" em II Reis 22:8, que corresponderia ao núcleo do Deuteronómio, e as partes restantes da Torá teriam sido compostas para alimentar um pano de fundo, de contos tradicionais ao texto redescoberto.

Antes da descoberta dos Rolos do Mar Morto [Qumran], os manuscritos mais antigos das Escrituras Hebraicas, datavam do século II d.C. A análise mostra que os textos hebraicos eram bastante fluidos antes da sua canonização. Para o Prof. Julio Trebolle Barrera, membro da equipa internacional de editores dos Rolos do Mar Morto, "O Rolo de Isaías" fornece prova irrefutável de que a transmissão do texto bíblico, durante um período de mais de mil anos, pelas mãos de copistas judeus, foi extremamente fiel e cuidadosa. 

A versão da Septuaginta foi escrita em grego na cidade de Alexandria entre os séculos III e I a.C. a partir de textos escritos em hebraico. Tornou-se a versão clássica da Bíblia para os cristãos de língua grega, e foi usada como base para as diversas traduções posteriores da Bíblia. A versão Massoreta o é uma família de manuscritos em hebraico utilizado como padrão da Tanakh para o judaísmo moderno, e também como fonte de tradução para o Antigo Testamento da Bíblia cristã. Por volta do século VI um grupo de competentes escribas judeus teve por missão reunir os textos considerados inspirados por Deus, utilizados pela comunidade hebraica, em um único escrito. Este grupo recebeu o nome de "Escola de Massorá". O resultado deste trabalho ficou conhecido posteriormente como o "Texto Massoreta". Massoreta era alguém que tinha por missão a guarda e preservação da tradição.

Os escritos do Novo Testamento estão predominantemente em formato de códice, o que leva a admitir que foram escritos assim desde o início. Cada códice consiste de livros encadernados com várias folhas de papiro ou pergaminho presas por uma borda. Em caso de obras maiores formam-se vários cadernos com 8 a 12 folhas dobradas. Nenhum dos originais do Novo Testamento chegou ao nosso tempo. O facto de os textos bíblicos terem sofrido pequenas alterações ao longo de séculos é uma questão relevante em termos históricos, literários e culturais. Não se trata da questão real da existência histórica dos acontecimentos e das personagens. Isso não oferece discussão hoje em dia. O que está em causa é a preservação da originalidade desde a primeira narrativa. Estamos perante milhares de cópias de cópias dos textos originais copiados em diferentes lugares, diferentes épocas e até diferentes indivíduos com crenças diferentes. O tipo de texto encontrado em Qumran não é idêntico ao texto massoreta que conhecemos hoje. Na maioria dos fragmentos, a comparação entre os textos de Qumran e o Texto Massoreta mostra que os escribas de Qumran não tinham a noção de um texto original. Por exemplo, o Manuscrito de Isaías (1QIsb) apresenta 248 divergências com o Texto Massoreta do códice de Leningrado. O Códice Alepo (c. 920) e o Códice de Leningrado (c.1008) eram as mais antigas cópias manuscritas completas do Antigo Testamento antes da descoberta dos ‘Manuscritos do Mar Morto’ na Cisjordânia, no sítio arqueológico com o nome de Qumran.

Antigamente os eruditos achavam que as diferenças entre o texto Massoreta e Septuaginta talvez resultassem de erros, ou mesmo de invenções deliberadas do tradutor. Agora tais rolos levantam a possibilidade para que muitas das diferenças tenham existido devido a variações no texto hebraico original. Os Rolos do Mar Morto confirmaram o interesse do texto Massoreta, do Pentateuco Samaritano, e de outras traduções bíblicas, para o estudo comparativo. Eles revelam que houve versões diferentes dos textos bíblicos hebraicos usados pelos judeus no período do Segundo Templo. 

Vestígios da seita dos Essénios, encontrados em Qumran, que se vestiam apenas com túnicas brancas e acessórios simples, indicam que a associação de Jesus aos Essénios, ou a sua influência é controversa. Os Essénios viviam em comunidades isoladas, e tinham conceitos muito diferentes dos das outras seitas judaicas. Preocupavam-se em especial com a purificação pessoal, e eram geralmente celibatários. 

Apesar de o autor do Evangelho de João ser anónimo, a tradição cristã geralmente atribui a sua autoria a João, o Apóstolo, filho de Zebedeu. Os discursos contidos neste Evangelho tiveram seu enfoque em questões do debate entre igreja e sinagoga no momento da sua composição. Embora o cristianismo tenha começado como um movimento dentro do judaísmo, ele se separou gradualmente do judaísmo. É um evangelho que tem elementos comuns ao gnosticismo. Há quem defenda que o tema de abertura do Evangelho segundo João – Logos – com a dualidade entre luz e trevas, era originalmente tema gnóstico que João adotou. Outros estudiosos, como por exemplo, Raymond E. Brown, argumentaram que o tema pré-existente do Logos surge dos escritos judaicos mais antigos no oitavo capítulo do Livro de Provérbios, e foi totalmente desenvolvido como um tema no judaísmo helenístico por Fílon de Alexandria.

A Biblioteca de Nag Hammadi é uma coleção de 52 textos – treze códices de papiro embrulhados em couro dentro de um jarro de barro selado. Foram encontrados no Egito em 1945. Classificados na sua maioria como textos gnósticos, incluindo trabalhos do Corpus Hermeticum e excertos da República d Platão. Os textos nos códices estão escritos em copta, embora todos os trabalhos sejam traduções do grego. O mais conhecido trabalho é provavelmente o Evangelho de Tomé. O Evangelho de Tomé, ou melhor, Evangelho de Tomás, ou ainda Evangelho Cóptico de Tomás, faz parte dos textos de Nag Hammadi, descobertos em 1945, é uma lista de 114 ditos atribuídos a Jesus. Não explora, como os demais, a forma narrativa, apenas cita — de forma não estruturada — as frases, os ditos ou diálogos breves de Jesus a seus discípulos. Segundo a sugestão do Prof. Helmut Koestler, que leciona na Universidade de Harvard, o Evangelho de Tomé foi recompilado por volta do ano 140, mas talvez contenha textos de algumas tradições ainda mais antigas que os evangelhos canónicos, possivelmente da segunda metade do século primeiro (50−100), ou seja, da mesma época ou anterior aos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João. Koester também disse que este evangelho lembra a fonte hipotética denominada Q, com ditos que teriam sido usados pelos evangelhos de Lucas e Mateus. Também segundo esse autor, o texto em copta é uma tradução do grego. Segundo Stevan Davies deve ser datado entre os anos 50 e 70.

Hoje os livros da Bíblia são tratados como documentos iguais a quaisquer outros, devendo ser lidos criticamente e comparados com outras fontes (textuais, arqueológicas, epigráficas, etc.), para distinguir-se o que têm de informação valiosa para elucidar alguns fatos e eventos e entender como a tradição religiosa e cultural da região se articulou e desenvolveu, e o que não é confiável, possuindo elementos fantasiosos, tendenciosos e de redação tardia em relação aos factos narrados. No final do século XIX o consenso dos especialistas era que o Pentateuco era uma obra de muitos autores realizada entre 1000 (Tempo de David) e 500 a.C. (Tempo de Esdras), e posta por escrito apenas por volta de 450 a.C., e em consequência, qualquer história que contivessem era mais provavelmente questionável do que estritamente factual – uma conclusão reforçada pelas posteriores refutações científicas do que então eram classificadas como mitologias bíblicas. Nas décadas seguintes, Hermann Gunkel chamou a atenção para os aspetos míticos do Pentateuco, e Albrecht Alt, Martin Noth e a escola da Crítica da Tradição alegaram que, embora o núcleo dos relatos tivesse raízes antigas genuínas, as narrativas em si eram uma elaboração ficcional e não tinham a intenção de ser história no sentido moderno.

Ainda que nomes como Abraão, Isaac e Jacob possam ser admitidos como correspondendo a pessoas de carne e osso, não quer dizer que sejam figuras históricas. Se houve um dia um homem chamado Abraão, a lenda não é capaz de preservar uma memória da vida pessoal de Abraão, considerando a distância de tantos séculos. A ‘religião de Abraão’ é, na realidade, a religião dos narradores da lenda que eles atribuíram a Abraão”. Na esteira do exame filológico renascentista das Escrituras, surge uma tendência de separar pressupostos teológicos de seu escrutínio histórico e literário. Assim, nasce a crítica bíblica, tratando textos bíblicos como artefactos naturais ao invés de artefactos sobrenaturais, sob um paradigma do racionalismo dos séculos XVII e XVIII. A partir do século XX os estudos passaram a ser multidisciplinares, campos especializados como a crítica das fontes, a crítica das formas, a crítica das tradições e a crítica de redação.

Do ponto de vista historiográfico, a leitura da Bíblia envolve a mobilização de instrumentos de crítica que ajudem a ler o documento de forma objetiva – procedimento igualmente aplicado a qualquer tipo de estudo histórico. Como afirmou Herbert Niehr, “Como é o caso em todas as análises historiográficas, a história não pode ser simplesmente encontrada nas fontes. As fontes apenas providenciam o material a ser explorado. Para escrever historiografia ou história de uma religião não é suficiente recontar as fontes. A tarefa do historiador é confrontar documentos independentes buscando uma melhor compreensão dum objeto passado. Por exemplo, não existe nenhum traço do êxodo nas fontes egípcias, nem nenhuma menção de um reino israelita poderoso no século X na documentação à época. A Bíblia apresenta apenas evidência secundária (ou até terciária) para tudo o que aconteceu antes do exílio. Fontes primárias para a história da Palestina antiga são fornecidas por todos os tipos de vestígios arqueológicos. A crítica das fontes é a busca de fontes originais que estão por trás de um dado texto bíblico. Na crítica bíblica, essa forma de crítica encontra a sua mais nítida manifestação na hipótese documental de Wellhausen que está ainda muito viva na interpretação da Bíblia, embora tenha sido reinterpretada à luz das descobertas de Van Setters. A hipótese documentária propõe, a partir de análises rigorosas e sistemáticas, que a Bíblia é um produto da junção de fontes diversas de diferentes épocas e regiões para formar um manuscrito final editado por uma tradição tardia.

sábado, 22 de abril de 2023

As ameaças à identidade pessoal



O que significa ser humano hoje em dia? As extraordinárias inovações estão a ultrapassar os limites das nossas expectativas em relação ao conhecimento, ao tempo devia e às nossas capacidades performativas só até agora visto no mundo da ficção científica. Continuam na ordem do dia os levantamentos de questões que têm a ver com a ética.

O impacto humano de certas tecnologias, como a internet ou os smartphones, está relativamente bem compreendido e tem sido debatido de forma ampla entre especialistas e académicos. É o caso da Inteligência Artificial (IA) e da biologia sintética no campo da robotização. Os avanços tecnológicos estão nos levando para novas fronteiras da ética. Devemos usar os incríveis avanços da biologia apenas para curar doenças e reparar lesões, ou devemos também aprimorar a nossa natureza humana? Se aceitarmos a segunda proposta, corremos o risco de transformar a paternidade/maternidade numa extensão da sociedade de consumo e, nesse caso, fica a pergunta: será que as futuras criaturas se vão tornar meros bens de consumo como se fossem objetos feitos de encomenda para satisfazer o mundo dos desejos? E o que significa ser “melhor”? Estar livre de doenças? Viver mais tempo? Ser mais inteligente? Correr mais rápido? Ter uma certa aparência?

Ao imaginarmos todas essas possibilidades, e as suas implicações para os seres humanos, estamos naquela metáfora clássica da abertura da Caixa de Pandora. O desconhecido. Diferente de tudo o que já experimentamos anteriormente. Ou então, vendo a coisa ao contrário: se o nosso próprio comportamento se tornar previsível em todas as situações, onde ficará aquilo que temos por muito precioso que é o nosso espaço de liberdade pessoal? O que temos, ou imaginamos ter, para nos desviarmos da previsão? É que isso é muito semelhante do que já conhecemos - os robôs. Ou seja, para onde caminha aquilo que temos de mais essencial: a identidade pessoal? A nossa individualidade e a nossa vontade.


sábado, 15 de abril de 2023

A questão do Estado e da Nação



Um dos mantras muito citado acerca da legitimidade de um Estado diz que essa legitimidade reside no monopólio da violência. Seja a violência física através das polícias e dos exércitos. Seja a violência simbólica através das suas instituições. A monopolização do capital jurídico e militar, que é o que permite o acesso ao capital social e cultural, dá azo à perpetuação de uma classe dominante cujo poder reside no capital financeiro e económico.

No Antigo Regime, uma designação herdada da Revolução Francesa, muito se dissertou sobre a morte do rei: a morte física do rei era talvez o corte simbólico indispensável para afirmar a irreversibilidade da imposição de um princípio de tipo jurídico diante de um princípio de tipo dinástico. Deixou de haver súbditos e passou a haver cidadãos de pleno direito.

Os revolucionários franceses fizeram o Estado universal. E é desse Estado que resulta a Nação. Essa visão jurídica/política e universalista está vinculada à sua competência e aos interesses. Por outras palavras, são construções de intelectuais que, pertencendo a uma classe, acabam por ter de defender os seus interesses. 
A vontade geral só existe no mito. As razões emocionais afetivas costumam ser reservadas a seitas religiosas, ou a grupos de futebol, só para dar dois exemplos. Mas é mítica essa construção social produzida a uma escala de todo um povo. 

Por isso, a Nação, é uma comunidade imaginária, produto de um trabalho de construção intelectual. Um caso que na atualidade está na ordem do dia é o que se está a passar na Ucrânia, em que os senhores do Kremlin, com Putin à cabeça, determinaram-se através da invasão e da guerra eliminar a nação ucraniana. Uma forma de racismo sublimada. Trabalho de inculcação de categorias de percepção e de apreciação comuns, que se realiza por meio de inúmeras influências. A Nação é uma encarnação imaginária do povo, uma autorrepresentação de quatro atributos essenciais: língua, história, geografia e religião. O cidadão, como entidade jurídica, existe como alguém que mantém relações de direito e de dever com o Estado. No fundo, o cidadão é alguém que aceita um contrato social de direitos e deveres com o Estado de Direito. Um Estado de Direito acolhe o cidadão ao abrigo de uma série de direitos: direitos humanos; o direito ao trabalho; o direito à saúde; o direito à segurança.

Em Portugal o cidadão é reconhecido como tal pela Constituição. Ao contrário de alguns países que se regem pelo jus sanguinis (propriedade ligada ao sangue), Portugal rege-se pelo jus solis (propriedade ligada à terra onde se nasce). 
Portugal é uma unidade jurídica/territorial, constituído como tal por um enunciado de Direito, através de uma Constituição. O cidadão pode ser diverso em termos de etnia ou cultura, mas cabe ao Estado criar condições de integração. Uma forma de atribuição da cidadania pode ser através da língua.  através da língua. Aqui, é o Estado que faz a Nação, em que o cidadão é ligado pela terra e pela língua. Ao passo que, por exemplo, na Alemanha, é a Nação que se expressa no Estado. Todos os que têm as mesmas origens étnicas e culturais são cidadãos da Alemanha. É de lembrar a reunificação depois da queda do Muro de Berlim. A via alemã é muito diferente. O modelo alemão saiu dos pensadores românticos do século XIX, corrigido pelos reformadores prussianos — é absolutamente simplista, mas é útil para se localizar. No modelo alemão a Nação é uma individualidade enraizada historicamente, organicamente desenvolvida, e unida por um Volksgeist, por um espírito do povo comum que o distingue das outras nações e que se exprime numa linguagem, num costume, numa cultura e no Estado. É evidente que o Estado pode ratificar juridicamente tudo isso, mas ele é mais uma expressão, é mais produto que produtor.

Por aqui se pode compreender como se processa a integração dos imigrantes, num caso ou noutro. Portugal é inspirado pela visão política e jurídica de cariz universalista, ou cosmopolita, influenciada pelas luzes da Revolução Francesa de 1789. É, portanto, uma comunidade de base territorial: para se tornar cidadão basta ter nascido nesse solo; é a naturalização automática, numa lógica de assimilação, em que cabe ao Estado fazer a Nação por um trabalho de integração. No que se refere à Alemanha, o Estado remete à filosofia romântica do século XIX, ao espírito de um povo, conceção que remete para o étnico e cultural pela via do jus sanguinis (direito de sangue). A cidadania aqui, tal como na Rússia, é ligada à hereditariedade, ao sangue, à transmissão “natural” tanto quanto histórica. Os povos germânicos são "por natureza" alemães. Assim, um estrangeiro que nasça na Alemanha não é necessariamente, ou automaticamente como em Portugal, um alemão. Na Alemanha não há integração ou assimilação automática. 

Concretamente, a partir dessas duas filosofias, jus solis ou jus sanguinis, podemos nos deparar com dois tipos diferentes de política de integração do imigrante. Embora os tratamentos reais no que diz respeito aos Direitos Humanos sejam semelhantes. Os turcos na Alemanha são tratados mais ou menos como os ucranianos em Portugal. Mas, do ponto de vista do Direito, há uma grande diferença. A confusão de conceitos gera violência na discussão sobre os problemas que decorrem das migrações, são do domínio do inconsciente, a que alguns autores acrescentam o seu caráter coletivo. As pessoas não sabem do que falam quando falam desses problemas. Daí ser muito fácil a manipulação por parte de forças políticas populistas. Infelizmente, a lógica do debate político não tem nada a ver com a lógica do debate científico. E estamos longe do tempo em que a inteligência podia fazer alguma coisa de modo que os políticos fizessem aquilo que deviam pela nobre missão de ser político.

Em geopolítica, os diplomatas falam de interesses. Aqui, “interesse”, não se reduz ao sentido utilitário do interesse material ou económico. O sentido é muito mais lato, que vai desde as trocas culturais e de inteligência até à segurança no contexto de alianças entre países. Ter interesses é estar associado a alguém.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

O quebra cabeças de datar os textos da Bíblia



Com exceção dos extensos manuscritos e fragmentos encontrados entre os Pergaminhos do Mar Morto, nenhum manuscrito físico da Bíblia Hebraica de antes do século II a.C. está conservado. E o fragmento mais antigo do Novo Testamento, um pedaço do Evangelho de João - Papiro P52 da Biblioteca de Rylands - está datado da primeira metade do século II d.C. Assim como outros importantes manuscritos antigos foram escritos depois do Novo Testamento. Por essa razão, a datação de textos mais antigos não pode ser feita por datação direta dos manuscritos físicos, mas por exegese textual e filológica da Língua e da História. Em regra, os livros tal como os conhecemos sofreram um processo evolutivo ao longo de séculos, ao ponto de terem circulado ao mesmo tempo várias versões de um manuscrito inicial. 
Portanto, é um quebra cabeças procurar datas sólidas para a maioria dos textos bíblicos.

Os livros mais antigos que chegaram à sua forma canónica são os livros dos profetas: Oseias, Amós, Miqueias, Naum, Obadias e Habacuque, cujas evidências linguísticas apontam que tenham sido compostos em período anterior ao Cativeiro da Babilónia. Uma corrente tradicional de estudiosos (os "Maximalistas Bíblicos") datam várias porções do Pentateuco (geralmente, o autor J) do período da Monarquia Unificada do século X a.C. O Deuteronomio seria do tempo do Rei Josias. E a forma final da Torá remontará ao tempo do exílio e pós-exílio (século VI a.C.). Essa visão é baseada no conto do achado do "livro da lei" em II Reis 22:8, que corresponderia ao núcleo do Deuteronomio, e as partes restantes da Torá teriam sido compostas para alimentar um pano de fundo, de contos tradicionais ao texto redescoberto.

A faixa de datas que se considera para a Torá (Pentateuco) é um tanto ampla, mas a tendência atual estima que seus elementos mais antigos estejam na faixa entre os séculos X e VI a.C. A maior parte da Torá foi completada provavelmente em torno do fim do Cativeiro de Babilónia (537 a.C.) e o texto chegou à sua forma fixa Massorética por volta do século IV a.C. O texto deve ter ficado fixado por volta do século I a.C., altura em que a Septuaginta ficou concluída.

Uns, como os chamados "Minimalistas Bíblicos", insistem que a Torá por inteiro mostra evidências de sua construção composta após 583 a.C. Esses autores apontam que até mesmo no período de Esdras, Neemias e do Cronista havia divergências quanto às celebrações das festas e o casamento com estrangeiros, o que indica que ainda não havia um texto da Torá consolidado. Outros, tendem a sugerir que uma porção substancial do Pentateuco seja uma obra do século VII a.C., projetado para promover as ambições dinásticas do Rei Josias de Judá. O Livro dos Reis, do século VI a.C., conta a redescoberta de um antigo livro pelo Rei Josias, que seria a parte mais antiga da Torá, em torno do qual os escribas de Josias teriam fabricado o texto restante.

Sob o comando de Josias, haveria então pela primeira vez um estado de Judá unificado, centralizado em torno da adoração de Javé com sede no Templo de Jerusalém, com textos retratando o Rei Josias como sucessor legítimo do lendário Rei David e então o governante de Judá por direito. De acordo com esta interpretação, países vizinhos que mantinham muitos registros escritos, como o Egito e a Pérsia, não têm quaisquer escritos sobre as histórias da Bíblia ou seus personagens principais antes de 650 a.C. E o registro arqueológico de Israel antes de Josias não suporta a existência de um estado unificado no tempo de David. 

John Collins acha impossível que as partes de Daniel sobre os "contos da corte" tenham sido escritas no século II a.C. por causa da análise textual. No seu Anchor Bible Dictionary (1992), no verbete sobre o Livro de Daniel, ele afirma que "está claro que os contos da corte nos capítulos 1 a 6 não foram escritos nos 'tempos macabeus'. Nem mesmo é possível isolar um único verso que evidencie uma inserção editorial daquele período". 
De acordo com a tradição, a Torá foi traduzida para o grego no século III a.C., constituindo o que hoje é designado por SeptuagintaO texto em Hebraico ou o Texto Massorético da Torá tem-se por tradição que foi fixada no século IV d.C., mas os manuscritos mais antigos existentes que sejam completos ou quase completos são o Códice Aleppo, de cerca do ano 920, e o Códice de Leningrado, datado do ano 1008. Manuscritos adicionais incluem o Pentateuco Samaritano e a Peshitta, essa última uma tradução da Bíblia Cristã em Siríaco, a cópia conhecida mais antiga datando do século II.

Quanto aos Evangelhos sinópticos, a hipótese das duas fontes é uma teoria que se baseia no Evangelho de Marcos ser o mais antigo. Mateus e Lucas acreditam-se que vieram mais tarde e também numa fonte que agora se acreditava perdida, chamada Fonte Q, ou apenas "Q". Alguns, mas não muitos, académicos conservadores rejeitam a hipótese das duas fontes. 
As visões atualmente em voga assumem que a parte principal dos textos do Novo Testamento datem entre os anos 50 e 110, sendo as Epístolas de São Paulo os textos mais antigos.

A Biblioteca de Nag Hammadi, uma coleção de livros encontrados em 1945, que alguns se referem como "Escrituras Gnósticas" (que incluem o Evangelho de Tomé), não foram aceites como canónicos por Jerónimo no século IV d.C.. Elas foram escritas na língua Copta, e são geralmente datados entre os séculos III e V d.C., embora o Evangelho de Tomé tenha iniciado algum debate, e estudiosos argumentam que ele date do ano 50 d.C. 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Alexandre II da Rússia





Alexandre II da Rússia nasceu em Moscovo em 1918 e morreu em São Petersburgo em 1881. Imperador da Rússia desde 1855, acabou por morrer assassinado em 1881. Ficou conhecido como o "Libertador" pelas reformas liberais e modernização do país exemplificada pelo fim da servidão que libertou vinte e dois milhões de camponeses. Da Casa de Holsácia-Gottrop-Romanov, ramo da Casa de Oldemburgo - Alexandre II era o filho mais velho do imperador Nicolau I e de Carlota da Prússia. Teve como esposas: Maria de Hesse e Reno; e Catarina Dolgorukov (morganática). Com uma descendência de 8 filhos, sucedeu-lhe Alexandre III. 

Alexandre II subiu ao trono após a morte do pai em 1855. O primeiro ano do seu reinado foi dedicado à continuação da Guerra da Crimeia e, após a queda de Sebastopol, às negociações de paz lideradas pelo seu conselheiro de confiança, o príncipe GorchakovA Guerra da Crimeia foi um conflito que se estendeu de 1853 a 1856, do sul da Rússia até aos Balcãs. Envolveu de um lado a Rússia; e do outro o Império Otomano coligado com o Reino Unido, França e o apoio do Império Austríaco. A guerra terminou com a assinatura do Tratado de Parisde 30 de março de 1856. A Rússia devolvia o sul da Bessarábia e a embocadura do rio Danúbio para o IMpério Otomano e para a Moldávia, renunciava a qualquer pretensão sobre os Balcãs e ficava proibido de manter bases ou forças navais no Mar Negro. Por outro lado, o Império Otomano, representado por Aali-paxá ou Meliemet Emin era admitido na comunidade das potências europeias, tendo o sultão se comprometido a tratar os seus súbditos cristãos de acordo com as leis europeias. A Valáquia e a Sérvia passaram a estar sob proteção internacional. Enquanto isso, em Jerusalém, estabelecia-se o Status-quo que organiza a divisão de posses das Igrejas dentro da Cidade Santa.

O país estava exausto e tinha sido humilhado pela guerra. Havia subornos, roubos e corrupção por todo o lado. Encorajado pela opinião pública, o czar deu início a um período de reformas radicais que incluíram uma tentativa de diminuir o poder da aristocracia latifundiária. Após a tentativa de assassinato em fevereiro de 1880, o conde Loris-Melikov foi nomeado chefe da Comissão Executiva Suprema e recebeu mais poderes para combater os revolucionários. As propostas de Loris-Melikov iriam incluir a criação de uma espécie de parlamento e o imperador pareceu concordar com ele, contudo estes planos nunca foram concretizados. 

Alexandre incitou seu governador-geral de Vilnius, Nazimov, a convencer a nobreza local a solicitar reformas. Depois permitiu que eles formassem comités provinciais para deliberar sobre os termos. Mas os nobres ofereceram aos camponeses liberdade sem nenhuma terra. O czar envolveu-se na questão porque os camponeses precisavam de terras. No verão de 1858, o imperador viajou pelo país, incentivando e repreendendo os “nobres obstinados”. Alexandre e Marie eram saudados alegremente.  Alexandre não confiava nos jovens reformistas, por isso procurou um improvável defensor da causa, Iákov Rostóvtsev, jovem guarda que em 12 de dezembro de 1825 tinha avisado Nicolau I sobre a revolta. Agora, trinta anos depois, o general Rostóvtsev, amado pelo czar, era um dos membros do comité que se opunha às reformas. Miliútin, vendo-o como o principal reacionário, recrutou o socialista e jornalista exilado Alexandre Herzen para difamar Rostóvtsev por seu papel em 1825. Alexandre ficou furioso, chamando Miliútin de “Vermelho”. Na verdade Rostóvtsev tinha acabado de se converter à causa da libertação dos servos que tinham o direito de recuperar as suas terras. Em 17 de fevereiro de 1859, Alexandre nomeou Rostóvtsev presidente do Comité de Preparação para a reforma e ordenou a Miliútin que fizesse uma minuta do decreto. 

Em 16 de agosto de 1859, Bariátinski sentou-se numa pedra, com todo o seu comando à sua volta, no alto das montanhas enevoadas do Daguestão, perto da última fortaleza múrida de Gunib, que fora cercada pelos russos. Ao amanhecer, saindo de seus portões, o próprio Chamil apareceu cavalgando, com cinquenta múridas maltrapilhos. Enquanto os soldados russos comemoravam, Chamil desmontou e andou até ao príncipe. Recusando entregar a sua espada a qualquer outro, ele a ofereceu a Bariátinski. “Glória a Vós, Senhor!”, escreveu Alexandre a Bariátinski em 11 de setembro. “Esses são os sentimentos que inundam meu coração. Não podia esperar ou desejar um sucesso mais completo.” Ele acrescentou: a vitória pertence-lhe, caro amigo. Alexandre estava indo para o Sul a fim de inspecionar os exércitos.

A grande questão da emancipação estava quase resolvida, dizia Alexandre para Bariátinski. Para que se completasse precisava apenas passar pelo Conselho de Estado. Em 27 de janeiro de 1861, Alexandre falou ao Conselho: “Os senhores podem mudar detalhes, mas o principal deve permanecer inalterado […]. A autocracia estabeleceu a servidão e cabe à autocracia aboli-la”. O decreto foi aprovado. Essa foi a primeira das reformas de Alexandre. Em 1864, ele deu à Rússia uma jurisdição independente com julgamento por júri e um novo corpo administrativo local — uma assembleia nos níveis provincial distrital, chamada zémstvo, que seria parcialmente eleita e que contaria com camponeses, além de nobres e comerciantes. A repressão aos judeus foi atenuada. Os comerciantes e artesãos passaram a poder morar em Petersburgo e em Moscovo, onde banqueiros judeus como o barão Joseph Ginzburg (cujo baronato foi concedido pelo duque de Hesse-Darmstadt mas reconhecido pelo czar) começou a trabalhar para que fosse revogada a dura conscrição militar de Nicolau I.

No entanto havia limites: quando a Assembleia de Moscovo propôs uma constituição, Alexandre a dissolveu. O objetivo dele, como o da "perestroika" desencadeada por Mikhail Gorbatchov para revigorar o comunismo, não era destruir a autocracia, e sim fortalecê-la. Logo depois da libertação, Bismarck perguntou se ele promulgaria uma constituição. “As pessoas comuns veem o monarca como um senhor paternal todo-poderoso, um emissário de Deus”, respondeu Alexandre. “Isso tem a força de um sentimento religioso… inseparável da dependência pessoal em relação a mim. Se as pessoas perderem esse sentimento, pelo poder que minha coroa concede a mim, a aura que a nação tem seria rompida… Eu reduziria a autoridade do governo sem nenhuma compensação se incluísse nele representantes da nobreza ou da nação.” Alexandre era um autocrata reformista, mas mesmo assim um autocrata.

A abolição da servidão rompeu o pacto entre o governante e a nobreza que havia constituído a Rússia, levando o czar a basear o seu poder nas armas do Exército e na carapaça de sua amada burocracia. Sem estarem mais ancorados nesse pacto, os Romanov e a sociedade começaram a afastar-se um do outro. Depois do café da manhã, todos os dias, Alexandre voltava a seu gabinete no segundo andar do Palácio de Inverno e recebia os ministros. Ele adorava a família, especialmente seu herdeiro, Alexandra (Nixa). 
Os polacos, incentivados pela era de reformas e de nacionalismo, e enfurecidos com o domínio russo, com os lituanos decidiram que sonhos não eram suficientes. A Polónia se agitava com descontentamentos. O governador-geral em Varsóvia, general Gortchakov, respondeu com “lamentável fraqueza”. Em janeiro de 1863, quando ele tentou se livrar da juventude radical convocando-a para o Exército, os polacos entraram em rebelião total, lutando com 30 mil soldados de milícias, nobres, camponeses e até judeus. A revolta azedou a "perestroika" de Alexandre. Os reacionários achavam que havia sido dada liberdade demais. Os liberais, que havia liberdade de menos. Alexandre compreendia que “o momento mais perigoso para um mau governo é quando ele começa a fazer reformas”. O fraco controlo que Alexandre tinha sobre as universidades e sobre a censura da imprensa havia criado uma violenta expectativa que levou a motins estudantis que precisaram ser debelados. “Aqui tudo está tranquilo, graças a Deus”, o czar informou a Bariátinski, “mas uma vigilância severa é mais necessária do que nunca, dadas as tendências imprudentes do chamado progresso.”

A década de 1860 foi um período empolgante mas cheio de atribulações. Os jornais surgiam como cogumelos. “Nunca gostei muito de escritores em geral”, Alexandre confidenciou a Bariátinski, “e concluí com tristeza que eles são uma classe de indivíduos com motivações ocultas e tendências perigosas." Frustrado e desiludido, como o personagem Bazárov no romance Pais e filhos, de Ivan Turgueniev, publicado em 1862. Esses niilistas, dizia Turgueniev, ansiosamente deixavam de lado as reformas do czar para adotar o ateísmo, a modernidade e a revolução.

Em 16 de maio de 1862, começaram a surgir incêndios em Petersburgo. “O fogo tomou tais proporções”, escreveu o novo ministro da Guerra, general Dmítri Miliútin, “que era impossível duvidar de um incêndio criminoso.” No dia 28, Alexandre voltou de urgência de Tsárskoie Seló para combater os incêndios. Os incendiários nunca foram apanhados, mas Alexandre determinou que a polícia secreta fechasse jornais e prendesse os radicais. Mesmo agora ele cogitava a ideia de dar passos adiante aumentando a representação por meio da conversão do Conselho de Estado numa instituição consultiva parcialmente eleita, mas os motins e a Revolução Polaca adiaram as reformas.





Em 1866, houve uma tentativa de assassinato de Alexandre em São Petersburgo levada a cabo por Dmitry Karakozov. Para comemorar o facto de ter escapado por pouco à morte (à qual se viria a referir como o acontecimento de 4 de abril de 1866), foram construídas várias igrejas e capelas em muitas cidades russas. Viktor Hartmann, um arquiteto russo, chegou mesmo a desenhar um portão monumental (que nunca chegou a ser construído) para comemorar o acontecimento.

Na manhã de 20 de abril de 1879, Alexandre estava a fazer uma caminhada até à Praça dos Guardas e encontrou-se com Alexandre Soloviev, um antigo estudante de trinta e três anos. Tendo visto um revólver ameaçador nas suas mãos, o imperador fugiu em zigue-zague. Soloviev disparou cinco vezes, mas falhou o alvo. Foi enforcado a 28 de maio, depois de ser condenado à morte. O estudante agiu sozinho, mas sabia-se que existiam vários revolucionários que queriam matar Alexandre. Em dezembro de 1879, o grupo terrorista "A Vontade do Povo", que queria provocar uma revolução social, fez explodir a linha de comboio que ligava Livadia a Moscovo, mas não conseguiram atingir o comboio do imperador. Na noite de 5 de fevereiro de 1880, Stephan Khalturin, que também pertencia à Vontade do Povo, colocou uma bomba-relógio debaixo da sala de jantar do Palácio de Inverno, na sala de descanso dos guardas que ficava no andar de baixo. Por ter chegado atrasado para jantar, o imperador não ficou ferido, mas houve vários mortos e cerca de trinta feridos. Após esta tentativa de assassinato, o conde Loris-Melikov foi nomeado chefe da Comissão Executiva Suprema e recebeu mais poderes para combater os revolucionários. As propostas de Loris-Melikov iriam incluir a criação de uma espécie de parlamento e o imperador pareceu concordar com ele, contudo estes planos nunca foram concretizados.

A 13 de março de 1881, Alexandre acabou por ser eliminado por assassinato em São Petersburgo. Desta vez a conspiração foi bem sucedida. Como se sabia, todos os domingos, durante vários anos, o imperador ia visitar o Mikhailovsky Manège para assistir à chamada militar. Viajava para e regressava do Manège numa carruagem fechada acompanhada de seis cossacos e mais um sentado ao lado do cocheiro. A carruagem do imperador era seguida por dois trenós que levavam, entre outros, o chefe da polícia e o chefe dos guardas do imperador. A viagem, como sempre, fez-se pelo Canal de Catarina e por cima da Ponte Pevchesky. A estrada era apertada e tinha passeios para os peões de ambos os lados. Um jovem membro da Vontade do Povo, Nikolai Rysakov levava a bomba numa caixa e envolta num lenço. 
Embora a explosão tenha matado um dos cossacos e ferido o condutor e pessoas que passavam na rua com gravidade, apenas conseguiu provocar danos na carruagem à prova de bala, um presente do imperador Napoleão III. O imperador saiu abalado, mas ileso. Rysakov foi capturado quase de seguida. 

Como se sabia, todos os domingos, durante vários anos, o imperador ia visitar o Mikhailovsky Manège para assistir à chamada militar. Viajava para e regressava do Manège numa carruagem fechada acompanhada de seis cossacos e mais um sentado ao lado do cocheiro. A carruagem do imperador era seguida por dois trenós que levavam, entre outros, o chefe da polícia e o chefe dos guardas do imperador. A viagem, como sempre, fez-se pelo Canal de Catarina e por cima da Ponte Pevchesky. A estrada era apertada e tinha passeios para os peões de ambos os lados. Um jovem membro da Vontade do Povo, Nikolai Rysakov carregava uma pequena embalagem branca embrulhada num lenço de pano. Mais tarde descobriu-se que havia um terceiro bombista na multidão. Ivan Emelyanov estava pronto agarrando uma mala de mão que tinha uma bomba que seria usada se as outras duas tivessem falhado. Alexandre foi levado de trenó até ao Palácio de Inverno e depois para o seu escritório onde, ironicamente, quase exatamente vinte anos antes, tinha assinado o documento que tinha libertado os servos. Alexandre estava a perder muito sangue, tinha as pernas destruídas, o estômago aberto e o rosto mutilado. Vários membros da família real apressaram-se para o local. O imperador recebeu a comunhão e a extrema unção. Quando perguntaram ao médico que estava de serviço, Sergey Botkin, quanto tempo de vida lhe restava, ele respondeu: No máximo, quinze minutos. Às três e meia da tarde a bandeira pessoal de Alexandre II foi baixada pela última vez.

O assassinato de Alexandre II provocou um retrocesso no movimento de reforma. Umas das últimas ideias do imperador tinha sido criar planos para um parlamento eleito, ou Duma, que ficaram completos na véspera da sua morte, mas ainda não tinham sido apresentados ao povo russo. Alexandre tinha planeado revelar os seus planos para a criação da Duma quarenta-e-oito horas depois. Se tivesse vivido mais algum tempo, a Rússia poderia ter seguido o caminho da monarquia constitucional em vez do longo caminho de opressão que se seguiu com o reinado do filho. A primeira ação que Alexandre III tomou após a coroação foi rasgar estes planos. A Duma só viria a ser criada em 1905, quando o neto de Alexandre, Nicolau II, foi pressionado a instaurá-la após a Revolução Russa de 1905. Uma segunda consequência do assassinato foi o início dos Pogroms e legislação antijudaica. Uma terceira consequência foi a supressão das liberdades civis na Rússia e o regresso da repressão policial em força após alguma liberalização durante o reinado de Alexandre II. O assassinato do czar foi testemunhado em primeira mão pelo seu filho, Alexandre III e pelo seu neto, Nicolau II, que viriam a governar a Rússia e prometeram que não teriam o mesmo destino. Ambos usaram a Okhrana para prender protestantes e acabar com grupos supostamente rebeldes, criando mais supressão de liberdades pessoais do povo russo. Finalmente, os anarquistas empoderaram-se a promover uma propaganda de ação, com o recurso a grandes atos de violência para incitar a Revolução.


quarta-feira, 29 de março de 2023

O caso do Voo Avianca 52





O voo Avianca 52, em 25 de janeiro de 1990, que fazia escala desde o aeroporto internacional da Colômbia, com destino ao aeroporto internacional J.F. Kennedy, Nova Iorque, acabou em desastre por falta de combustível, e devido a erros dos pilotos na comunicação entre a aeronave e os controladores de tráfego aéreo. O vento contrário diminuía significativamente, e eles estavam indo rápido demais para terem condições de aterrar. Em geral, naquela situação, seria acionado o piloto automático, que reage de forma imediata e adequada à variação do vento. Esse equipamento, no entanto, estava com problemas e fora desligado. Por isso, o piloto arremeteu e executou uma volta. A aeronave descreveu um amplo círculo sobre Long Island e, mais uma vez, aproximou-se do Aeroporto Kennedy. De repente, um dos motores falhou. Segundos depois, outro motor parou. “Mostrem-me a pista de pouso”, o piloto gritou, na esperança desesperada de estar perto o bastante para tentar uma aterragem segura planando com o avião. Mas o Aeroporto Kennedy estava a 26km de distância. O 707 caiu na propriedade do pai do campeão de ténis John McEnroe, na elegante cidade de Oyster Bay, em Long Island. Dos 158 passageiros a bordo, 73 morreram. Em menos de um dia, a causa do acidente foi descoberta: falta de combustível. Não havia nada de errado com o avião.

A neblina era tão espessa que os pilotos não conseguiam descobrir onde estavam. C: Onde está a pista de aterragem? Não consigo ver. Não consigo ver. Não temos combustível... Eles recolhem o trem de aterragem. C manda K pedir outra orientação de tráfego. Dez segundos se passam. C: Não sei o que aconteceu com a pista. Não a vejo. K: Não a vejo.

O avião está com um nível perigosamente baixo de combustível. Eles perderam a primeira tentativa de aterragem. Não têm a menor ideia de quanto tempo o avião ainda tem para voar. C: Diga que estamos numa emergência. K: um-oito-zero no ... ah! Vamos tentar de novo. Estamos a ficar sem combustível.

K faz um reconhecimento de rotina das instruções da TC e só menciona a preocupação com o combustível na segunda metade da mensagem. É como se dissesse: “Sim, aceito mais um cafezinho. E, de repente, ah! Estou-me engasgando com um osso de frango.” Até que ponto seria levado a sério? O controlador de tráfego aéreo com quem K havia comunicado declarou depois: “Apenas interpretei aquilo como um comentário sem importância.” Em noites de tempestade, os controladores ouvem o tempo todo os pilotos dizer que estão a ficar sem combustível. Além disso, o “ah” que K profere entre as duas metades da mensagem é uma espécie de indivíduo maluco. Outro controlador que lidou com o caso naquela noite fez a seguinte afirmação: “O copiloto falou de uma maneira muito bizarra ... dando a entender despreocupação na voz dele.”

Este tipo de aberração comunicativa explica uma das grandes anomalias dos desastres aéreos. Nos aviões comerciais, pilotos e copilotos dividem de modo igual as tarefas da pilotagem. Mas, historicamente, os acidentes tendem muito mais a ocorrer quando o piloto está no comando. Isso parece não fazer sentido, uma vez que ele quase sempre é mais experiente. Combater o falso otimismo zombie tornou-se uma das principais cruzadas da aviação comercial nos últimos anos.

Mas, entretanto, o avião afastou-se do Aeroporto Kennedy após a primeira tentativa de aterragem que foi abortada. K volta a falar por rádio com a TC, procurando saber quando poderão tentar de novo fazerem-se à pista. C: O que foi que ele disse? K: Já informei que vamos tentar de novo porque sabemos ... quatro segundos de silêncio. C: Diga-lhe que estamos numa emergência. Mais quatro segundos de silêncio. C: Você disse-lhe? K: Sim senhor, já o informei … Um-cinco-zero, mantendo a 2 mil, Avianca, zero-cinco-dois. C está claramente a entrar em pânico. C: Avise que não temos combustível. K: Subir e manter a 3 mil. E ah! Estamos a ficar sem combustível. O mesmo erro novamente. Nenhuma menção à palavra mágica “emergência”, que é ao que os controladores de tráfego aéreo estão treinados a dar atenção. Apenas a mensagem “estamos a ficar sem combustível” no fim da frase, precedida por “ah!”. C: Você já avisou que estamos sem combustível? K: Sim, já avisei... C: Ok.

Se não fosse o prelúdio de uma tragédia, os diálogos pareceriam uma comédia. Pouco mais de um minuto passou. TC: Avianca zero-cinco-dois, vou conduzi-los para cerca de 15 milhas a nordeste, para depois voltar à aproximação. Tudo bem com vocês, como está o combustível?

Eles estão à beira do desastre! Um dos comissários de bordo entra na cabine e constata a gravidade da situação. O marcador mostra combustível vazio. Com o dedo, faz um gesto de cortar o pescoço. Mas não diz nada. Nem ninguém diz mais nada nos cinco minutos seguintes. Há uma conversa pelo rádio com menções a assuntos de rotina até que no painel de voo: “Chamas no motor número quatro.” A pista está a 26 km de distância. Trinta e seis segundos de silêncio. O controlador de tráfego aéreo pergunta pela última vez: Vocês têm combustível suficiente para chegar ao aeroporto? A gravação termina.

As investigações do National Transportation Safety Board indicaram uma falha dos pilotos ao tentar comunicar-se claramente com o controlo aéreo. Tudo o que eles precisavam fazer era dizer ao controlador: Não temos combustível para fazer o que você está a mandar. Necessitamos aterrar nos próximos 10 minutos. Eles não conseguiram transmitir essa mensagem. Requisitaram apenas prioridade, mas não declararam emergência de combustível em nenhum momento. Além disso, as péssimas condições atmosféricas dificultaram o pouso, fazendo com que consumisse uma maior quantidade de combustível. Por último, o cansaço e o stress dos comandantes, para pousar mais rapidamente, também foi um fator considerável. 

Os controladores de tráfego aéreo de Nova Iorque têm fama de rudes, agressivos e intimidadores. Apesar disso, também são ótimos. Lidam com um volume de tráfego fenomenal num ambiente muito limitado. A maneira como encaram a situação é: «Estou no controlo. Bico calado e faça o que eu digo.» São ríspidos com os pilotos. E quem não concordar com as ordens deles deve responder no mesmo tom. Aí eles dizem: «Tudo bem.» Mas, se o piloto não os enfrenta, eles estão se ralando. Num voo da British Airways que ia para Nova Iorque, os britânicos estavam a ser tratados com grosseria pelos controladores. Então disseram que pessoas como eles deviam ir a Heathrow aprender a controlar um avião. Eles estavam na maior. Para quem não está acostumado com esse tipo de diálogo, O controlo aéreo de Nova Iorque pode ser bastante intimidador. Existe uma história célebre de um piloto que se perdeu no Aeroporto Kennedy. Ninguém imagina com que facilidade isso pode ocorrer ali depois de o avião atingir o solo. É um labirinto. A questão é que uma controladora de voo se aborreceu com ele e disse: «Pare. Não faça nada. Não fale comigo enquanto eu não lhe dirigir a palavra.» Ela simplesmente o deixou de lado. Por fim, o piloto apanhou o microfone e disse: «Madame, eu fui casado com você em alguma vida passada?»

segunda-feira, 27 de março de 2023

O muro e os túneis de Berlim





Heidelberger Strasse, dividida a meio pelo Muro, ficou conhecida como a "Rua das Lágrimas". Nesta zona, foi onde proliferou um grande número de túneis.




Nesta foto icónica, que mostra os guardas do lado oriental a recolher o corpo de Peter Fechter, de 18 anos de idade, morto a tiro quando tentava escapar para o lado ocidental em 17 de agosto de 1962.



Túnel da Bernauer Strasse, que se iniciou com uma armação triangular antes de passar à forma quadrangular. No início do verão de 1962 a entrada de água no túnel levou à suspensão temporária das escavações. É o correspondente da NBC, Piers Anderton, quem está na entrada do túnel.


O Muro de Berlim em Agosto de 1989:





O Muro de Berlim em Novembro de 1989:







segunda-feira, 20 de março de 2023

A Irlanda da Idade Média

  


The Temple Bar, no distrito de Dublin, grande reputação na vida noturna irlandesa.

Tomando a história da Irlanda desde a Idade Média, verifica-se a sua identidade como um caso único, não só porque havia muitos reis exercendo o seu senhorio sobre pequenas unidades populacionais e seus territórios (chamados tuaths), mas também porque havia muitos graus de realeza, com regras e costumes elaborados a respeito da sucessão.

No século VIII, quatro províncias tinham surgido, definidas efetivamente pelas tentativas das principais famílias em exercer uma suserania consistente e dominante sobre as demais: Uí Cheinnselaig no sudeste (Leinster), até serem substituídos pelos Uí Dúnlainge a partir de cerca de 738; os Eógannachta no sudoeste (Munster), especialmente o ramo da família Cashel; os Uí Briúin no noroeste (Connaught) desde meados do século VIII; e os Uí Néill (O’Neill) no nordeste (Ulster) desde o começo do século VII. Os O’Neill desenvolveram um padrão de realeza alternante entre os ramos setentrional e meridional da família, associada à realeza de Tara, um foco simbólico similar ao da Rock of Cashel dos Eógannachta no sul. O conflito entre os super-reis tornou-se comum, se bem que, nessa altura, a subestrutura de reis secundários e tuath permanecesse substancialmente intacta.

A partir de 795, um novo elemento foi introduzido na política irlandesa pelos vikings, que assolaram e devastaram no início vastas zonas, mas depois acabaram instalando bases permanentes, a primeira delas em Dublin, em 841. A chegada dos vikings não significou uma total mudança na política irlandesa, uma vez que a sua tendência era ajustarem-se aos padrões existentes, aliando-se aos principais reis e sendo por estes usados como mercenários. A competição pelo estatuto de suserano continuou sendo os Uí Néill os mais bem-sucedidos em suas tentativas de ampliação de seu poder além de suas próprias fronteiras; a partir de meados do século X, eles assumiram títulos que sugerem o predomínio sobre a totalidade da ilha. Entretanto, suas pretensões foram abaladas pela penetração na direção leste dos Uí Briúin, embora estes fossem, por sua vez, ultrapassados por uma nova família, os Dál Cais de Munster, que tomaram Cashel em 964. A partir de 976, o mais famoso membro da família, Brian Borumha, desenvolveu uma série de operações militares até conseguir a submissão do Sul e da região central em 1002 e do resto do Norte em 1005-11. O êxito de Brian foi efémero; uma revolta em Leinster, em 1012, culminou com a sua morte em Clontarf, dois anos depois. Contudo, o facto de que todos os principais reis se lhe submeteram, assinala uma importante mudança na política irlandesa, a qual daí em diante passou a estar cada vez mais intimamente vinculada à próspera cidade de Dublin.

A mudança também se evidenciou quando o poder foi territorializado: os reis secundários perderam a sua independência e as dimensões das unidades fundamentais da realeza aumentaram substancialmente. Nos séculos XI e XII, uma série de reis não aparentados, de diferentes famílias, estabeleceram uma vasta hegemonia. Assim como os reis anteriores tinham usado a capacidade militar viking para seus próprios fins, também os super-reis rivais buscaram ajuda no exterior e, num lance decisivo em 1167, um governante Leinster recorreu a Henrique II da Inglaterra. Henrique talvez já tivesse recebido o reconhecimento de sua suserania sobre a Irlanda pelo papa inglês Adriano IV em 1156, e sua resposta foi rápida e devastadora. Com a intrusão no quadro político de uma aristocracia anglo-normanda, o fim da velha ordem estava selado. Richard de Clare (Strongbow), conde de Pembroke, comandou uma força armada que desembarcou na Irlanda. Dublin caiu em 1170 e, em 1171, o próprio Henrique II realizou a travessia para Wetherford e efetuou o que se pode chamar um triunfal avanço de uma ponta à outra da ilha.

A conquista normanda da Irlanda foi muito diferente da conquista da Inglaterra. Nunca foi completa e, embora em 1300 a maior parte da ilha estivesse nominalmente sob o controlo do monarca inglês ou de seus representantes em Dublin, na realidade a situação era extremamente complexa, um emaranhado de senhorios com a sobrevivência de chefes tribais gaélicos governando suas comunidades de acordo com as antigas leis e costumes do mundo céltico. Alguns beneficiaram-se consideravelmente com a nova ordem feudal e foram criados grandes feudos, com destaque para os Fttz-Gerald, os Lacy e os Butler. Floresceram cidades; alguns dos anglo-normandos recém-chegados foram assimilados pela cultura gaélica, tornando-se mais irlandeses que os próprios irlandeses. 
O interesse da monarquia inglesa era constante, mas seu envolvimento foi esporádico. Ricardo II, no final do século XIV, e os yorkistas no século XV, tentaram impor a paz e a unidade mas seus êxitos foram efémeros. Os esforços no sentido da proscrição do uso da língua, leis e costumes irlandeses, como os consubstanciados nos Estatutos de Kilkenny, em 1366, fracassaram. No final da Idade Média registrou-se um ressurgimento gaélico fora das regiões diretamente controladas por Dublin e outras cidades. 

A Igreja irlandesa, embora a tradição atribua a conversão dos irlandeses a São Patrício, ficou claramente provado que alguns missionários já andavam por lá antes dele. Limitou a sua atividade evangelizadora ao norte e centro da Irlanda. Entretanto, a importância de São Patrício é indiscutível e sobrevivem dois de seus escritos do século V. As igrejas e os sacerdotes que ele instalou estavam sob a jurisdição de alguns bispos, sem os centros urbanos que caracterizaram a Igreja continental. No decorrer do século VI, a Igreja irlandesa começou a mudar com a fundação de numerosos mosteiros, frequentemente com patrocínio real. As comunidades de Bangor, Clonfert, Derry e Durrow, Iniscealtra e Terryglass, Lismore, Moville e Killeedy já existiam no final do século VI ou começos do século VII. Muitas delas retiveram fortes ligações com as famílias de seus fundadores, que exerceram influência na nomeação de abades e, assim, na administração de seus bens. No decorrer desse movimento, alguns monges viajaram para terras estranhas, estabelecendo outras comunidades monásticas e entregando-se ao trabalho missionário. No século VIII, muitos mosteiros na própria Irlanda tinham-se tornado excepcionalmente ricos, patrocinando a produção de obras de arte — missais e vasos de culto de grande esmero e requintado acabamento — e participando também na política. No final desse século, os abades dos principais mosteiros controlavam mosteiros menores e dependentes, por vezes muito dispersos, e se tornavam aos poucos mais poderosos do que os bispos a cuja jurisdição tinham estado originalmente sujeitos.

No final do século VIII e durante o século IX, seu envolvimento na política era tal que abades entraram em guerra, enquanto suas ligações com famílias aristocráticas eram tão estreitas que reis, por vezes, exerciam funções tanto clericais quanto seculares. Isso ocorreu de forma sumamente notória no caso dos reis de Munster, como, por exemplo, Olchobar, que foi abade de Emly e rei de Cashel em 848. Em contrapartida, alguns bispos esforçavam-se por afirmar sua superioridade sobre outros e a igreja de Armagh notabilizou-se pelas tentativas de estabelecer a hegemonia (à maneira de um suserano) sobre toda a Igreja irlandesa. Contentou-se inicialmente em dividir essa hegemonia com a igreja de Kildare mas, no século VIII, Armagh estava reivindicando para si jurisdição apelatória em toda a Irlanda e uma posição comparável à dos bispos de Roma na Itália. Essas pretensões não foram mantidas a longo prazo, embora Armagh continuasse sendo uma igreja poderosa.

Nesse meio tempo, alguns clérigos e monges tinham-se desiludido com a temporalidade da Igreja e deflagraram uma campanha em prol de uma prática mais ascética. Esse movimento Culdee, como é conhecido, estava em franco progresso por volta de 800, especialmente associado a Tallaght; levou à fundação de casas mais ascéticas, por vezes em lugares muito isolados, à reforma da prática em algumas casas existentes e à produção de obras eremíticas de devoção. Tanto a linha poderosa quanto a ascética continuaram marcando a Igreja irlandesa até ao século XI. Alguns dos mais elaborados cruzeiros esculpidos foram fruto do patrocínio e da habilidade do século X.

No final do século XI, o movimento de reforma continental começou a tocar a Irlanda; mas o grande avanço ocorreu em meados do século XII com a obra de São Malaquias (m. 1148); seus propósitos para a Igreja irlandesa frutificaram após sua morte quando, no Sínodo de Kells (1152), a Irlanda foi dividida em 4 arcebispados e 36 bispados. O novo movimento monástico passou a exercer influência e a conquista anglo-normanda (1169-72), liderada pelo conde Strongbow e Henrique II, colocou grande parte da Irlanda de um modo ainda mais direto na corrente principal da Cristandade ocidental. Catedrais foram construídas em típico estilo normando e fundaram-se novas e poderosas casas monásticas, sobretudo por parte dos cistercienses. No século XIII, foi especialmente encorajada a presença de frades mendicantes; e eles (sobretudo seus elementos mais pobres e mais ascéticos) conservaram boa reputação até ao final do período medieval. Nos últimos anos da Idade Média, a Igreja irlandesa continuou refletindo as divisões sociais da ilha, principalmente em decorrência das fronteiras linguísticas entre a fala inglesa e a gaélica; porém, de um modo geral, harmonizou-se então com os usos da Igreja ocidental, mais do que ocorrera no começo da Idade Média. 

segunda-feira, 13 de março de 2023

A Florença dos guelfos e gibelinos no tempo da Peste Negra





Florença, no início da Idade Média era uma cidade de importância relativamente secundária, apesar de o seu papel como sede de um ducado lombardo. Mas mais tarde, como residência ocasional do margrave da Toscana, ascendeu a um lugar de destaque na Toscana e a uma posição proeminente na economia europeia depois do século XII. Sua grande riqueza, derivada principalmente da indústria (em especial a têxtil), combinada com o comércio e a atividade bancária, encorajou a imigração, o que resultou no rápido crescimento da sua população mas também contribuiu para as divisões internas.

Desde os começos do século XIII, a nobreza e os grandes mercadores, secundados por grupos sociais inferiores, estavam divididos em dois partidos: os gibelinos, que apoiavam a causa imperial na luta entre o Sacro Império Romano Germânico e o Papado desde 1230, aproximadamente; e os guelfos, que eram favoráveis à causa papal, embora os interesses e lealdades de ambos os partidos fossem predominantemente locais. O conflito civil exigiu novos dispositivos para manter a ordem e, no final do século XII, o governo consular que administrara a comuna independente de Florença desde pouco depois da morte de Matilde da Toscana (1115), foi substituído pela Podestà (Signoria) para o exercício da magistratura suprema. A fim de assegurar uma administração imparcial, o Podestà foi recrutado, a partir do começo do século XIII, fora da cidade.

No transcurso do século XIII, o poder político passou a repousar cada vez mais nos mercadores organizados nas maiores guildas, graças ao sucesso internacional do comércio e dos bancos florentinos, o que foi confirmado pela emissão, desde 1252, do florim de ouro. Dois anos antes, a população não nobre tinha estabelecido a sua própria organização — uma espécie de Estado dentro do Estado — duplicando as instituições comunais em suas próprias magistraturas e conselhos. Isso durou até à vitória gibelina sobre o poder dos guelfos em 1260. Foi restabelecido numa base corporativista, agora de forma permanente, em 1282. Em 1293, a vitória do novo regime do povo culminou na exclusão das famílias nobres do governo, definidas como magnatas, e sua sujeição a severas punições por delitos contra os popolani. Os seis, depois oito, priores e o gonfaloneiro de justiça foram mantidos até ao século XVI no governo da cidade, ficando o Podestà reduzido às suas funções judiciais. A construção, iniciada no final do século, da nova catedral e do Palazzo Vecchio, indica a prosperidade de Florença e o orgulho dos cidadãos por suas realizações; também reflete o espetacular crescimento populacional, que por volta de 1338 tinha provavelmente superado a marca dos 100.000 habitantes.




O regime popular dos guelfos sofreu divisão na passagem do século XII para o século XIV, o que prenunciou o surgimento de facções de que Florença continuou sofrendo durante todo o século XIV, e que foi intensificado depois da Peste Negra. Outras fontes de conflito interno foram o antagonismo, aguçado pelas Ordenações de Justiça de 1293, entre a nobreza magnata e os setores populares com os contrastes sociais entre os artesãos das guildas menores e os patrícios das guildas maiores. Após o efémero governo despótico (1342-43) de Gautier de Brienne, duque de Atenas, os “novos homens” organizados nas guildas de ofícios conseguiram aumentar substancialmente a sua participação no governo; mas à recuperação patrícia seguiu-se uma tentativa da liderança oligárquica do partido guelfo, com vistas ao estabelecimento do controlo virtual do Estado. Na esteira da reação contra essa política, o descontentamento entre os trabalhadores submetidos às guildas da lã e da seda explodiu em 1378 na revolta dos Ciompi. A Peste Negra de 1348 tinha reduzido dramaticamente, talvez em mais da metade, a população de Florença, mas os efeitos económicos só estavam indiretamente relacionados com essa convulsão social. O regime democrático de guildas instalado após a sua supressão foi a última e a mais radical manifestação de organização corporativa no governo da cidade.

O regime que o substituiu em 1382 já não era dominado pelas guildas ou o partido guelfo. Instituições e valores corporativos continuaram sendo elementos importantes na política florentina mas deixaram de ter a influência de que desfrutavam anteriormente. O novo regime era aristocrático, na medida em que o patriciado ocupava uma posição predominante dentro de uma classe governante definida pela elegibilidade para altos cargos; mas as guildas de ofícios não estavam inteiramente excluídas do regime. A autoridade do governo foi reafirmada, embora as decisões mais importantes continuassem sujeitas ao consentimento dos conselhos legislativos. Uma das notáveis realizações do regime foi a expansão dos domínios florentinos pela aquisição de Arezzo, Pisa e Cortona com seus territórios, e a gradual transformação dos mesmos num Estado territorial. A oposição toscana ao expansionismo florentino ajudou o duque de Milão, Giangaleazzo Visconti, em sua investida rumo a essa região. Em suas guerras contra ele, desde 1390, os florentinos autoproclamaram-se defensores da liberdade contra a tirania; a morte de Giangaleazzo em 1402 e a conquista de Pisa em 1406 garantiram não só a independência da cidade mas também sua hegemonia na Toscana.

O regime aristocrático gozou de um notável grau de coesão até a década de 1420, quando, diante de uma crise fiscal e de renovada guerra com Milão, a cidade dividiu-se uma vez mais em duas facções. Tanto a implantação em 1427 de um imposto progressivo baseado na propriedade, o catasto, quanto a paz com Mião em 1428 não atenuaram essa divisão, que culminaria em 1433 com a vitória dos Albizzi sobre os Medici, e no exílio de Cosimo de Medici. O regresso deste em 1434 assinalou a derrota dos Albizzi, seguido por seu exílio e o de muitos de seus adeptos. Através de reformas, especialmente no método de eleger a Signoria, Cosimo estabeleceu gradualmente sua ascendência pessoal e a do seu partido, até obter o controle da administração e da legislação. Mas essas reformas defrontaram-se com repetida resistência e sofreram seu mais sério revés em 1456-66. Embora efêmero, o êxito dessa oposição ao controlo dos Medicis demonstrou a robustez das tradições republicanas.

Em 1478, a hostilidade dos Pazzi, apoiados por Roma, ocasionou um atentado contra a vida de Lourenço de Medici, do qual ele saiu ileso mas em que seu irmão Giuliano morreu apunhalado. A conspiração dos Pazzi resultou em guerra contra o papa e o rei de Nápoles; na conclusão da paz, a posição de Lourenço como chefe virtual da república estava decisivamente estabilizada e fortalecida, mas o papel da elite política do regime também foi promovido pela criação de um Conselho Supremo dos Setenta, a quem incumbia controlar a legislação, assim como a política externa e interna.

Estabelecido para mandatos de cinco anos, o Conselho foi periodicamente renovado até à queda do regime. Após a morte de Lourenço em 1492, Pedro não conseguiu preservar o delicado equilíbrio entre interesses divergentes que seu pai tinha realizado em Florença e do qual fizera a pedra angular de sua política externa. Impotente para impedir a invasão da Toscana por Carlos VIII, Pedro fugiu da cidade no meio a um levantamento popular (1494). Todas as instituições dos Medici foram abolidas mas os patrícios, que tinham desempenhado um papel decisivo na queda do regime Medici, e que haviam pertencido ao seu mais prestigiado grupo, não conseguiram restaurar o regime aristocrático do início do século XV. 

A criação de um Grande Conselho de mais de 3.000 cidadãos, devida em grande parte à pregação de Savonarola, imitando o maggior consiglio veneziano, era exclusivamente responsável pela legislação e as eleições para cargos oficiais. Tal, significou uma radical reforma constitucional que, embora ampliando substancialmente a participação ativa dos cidadãos na política, tornou possível para uma elite política manter um papel predominante no governo de Florença. Mesmo assim, o descontentamento patrício com as crescentes tendências democráticas no Grande Conselho levou em 1502 à transformação do gonfaloneirato de justiça num cargo vitalício. Não obstante, não foi a oposição interna, mas a pressão militar resultante da batalha de Ravena, que constituiu a principal causa da queda do regime republicano e do restabelecimento dos Medici em 1512. 

Com seu claro reconhecimento da autoridade papal e suas tentativas, quer bem-sucedidas quer frustradas, de realização da unidade cristã, o Concílio de Florença revela elementos de fraqueza e de força no movimento conciliar do século XV. Em 1437, o papa Eugénio IV transferiu o pernicioso Concílio de Basileia para Ferrara e em 1438 para Florença. Um grupo remanescente permaneceu em Basileia, num desafio ao papa. Uma poderosa delegação grega visitou o Concílio, chefiada pelo imperador bizantino João VIII, procurando ajuda militar para Constantinopla e oferecendo em troca a união religiosa; fórmulas de acordo, mediante concessões mútuas, foram combinadas em relação a divergências teológicas a respeito da cláusula Filioquee, o tipo de pão usado para a Eucaristia. Em compensação, iniciava-se uma Cruzada com patrocínio papal, mas que foi desbaratada em Varna em 1444. A queda de Constantinopla, em uma década, liquidou todas as esperanças de união.

Outras uniões religiosas estabelecidas em Florença foram mais permanentes: os latinos foram unidos à Igreja copta do Egito (1440), aos arménios (1439), caldeus e maronitas (1445). O Concílio também desferiu um significativo golpe nos elementos do movimento contra o papa. Sérias deliberações com os gregos tiveram lugar em Florença, não em Basileia; considerou-se que a autoridade suprema residia no papa e não no Concílio per se. Após a morte de Eugénio IV (1447), Nicolau V conseguiu a reconciliação com os cardeais recalcitrantes que permaneceram em Basileia.