quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Quem é Tommy Robinson?





Tommy Robinson, cujo nome verdadeiro é Stephen Christopher Yaxley-Lennon, é um ativista político britânico conhecido por suas visões controversas e frequentemente associadas à extrema-direita. Ele ganhou notoriedade como fundador e ex-líder da English Defence League (EDL), um grupo que alega combater a "islamização" do Reino Unido, mas que é amplamente criticado por sua retórica anti-islâmica. Robinson tem um histórico de envolvimento em diversas atividades e organizações políticas. Ele foi membro do British National Party (BNP) por um curto período e também esteve associado a outros grupos e causas de direita. Sua atuação inclui uma série de manifestações, palestras e aparições mediáticas, frequentemente gerando polêmica e enfrentando oposição tanto do público como das autoridades.

Ao longo dos anos, Robinson teve vários problemas legais, incluindo condenações por assalto, fraude e desobediência a ordens judiciais. Em particular, ele foi preso por desrespeito ao tribunal em 2018, após transmitir ao vivo fora de um tribunal onde um julgamento de abuso sexual infantil estava ocorrendo, violando as restrições de reportagem destinadas a garantir um julgamento justo. Robinson é uma figura polarizadora no Reino Unido, com muitos apoiantes que veem as suas ações como uma defesa da liberdade de expressão e da cultura britânica. Há uma percentagem de povo maior do que se pensa que não está satisfeita com a benevolência do politicamente correto mainstream em relação à imigração estando a dar apoio velado a organizações de extrema-direita que faz tumultos nas ruas do Reino Unido.

O sentimento público em relação à imigração e ao politicamente correto é um tema complexo e frequentemente polarizado no Reino Unido. Embora haja uma parte significativa da população que expressa insatisfação com as políticas de imigração e o politicamente correto, a extensão desse apoio velado a organizações de extrema-direita que promovem tumultos não é clara e varia de acordo com diversas pesquisas e contextos sociais.

Pesquisas de opinião pública mostram que há uma parcela significativa da população preocupada com os níveis de imigração e com a perceção de que o politicamente correto pode silenciar debates legítimos sobre esses assuntos. No entanto, apoio explícito a organizações de extrema-direita é geralmente menor e menos comum, mas o apoio velado está lá. Existe a possibilidade de apoio velado ou passivo, onde as pessoas podem não se associar publicamente a grupos de extrema-direita, mas compartilham algumas de suas preocupações ou ressentimentos em relação à imigração e às políticas liberais.

A cobertura mediática pode amplificar a perceção de descontentamento. Plataformas sociais e alguns meios de comunicação tendem a dar voz a opiniões extremas que podem não representar a maioria, mas criam uma perceção de apoio mais amplo.

Eventos específicos, como tumultos e protestos violentos, muitas vezes recebem ampla cobertura, mas esses eventos são geralmente organizados por um número relativamente pequeno de indivíduos. A maioria das pessoas que se preocupam com imigração ou o politicamente correto não participam de tais atividades. Partidos e movimentos populistas, como o UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), têm explorado essas preocupações para ganhar apoio eleitoral. Embora nem todos os apoiantes desses partidos sejam de extrema-direita, há uma sobreposição em preocupações sobre imigração e identidade nacional.

Em resumo, embora haja uma preocupação considerável entre partes da população britânica sobre imigração e o politicamente correto, a ligação direta entre esse descontentamento e o apoio a organizações de extrema-direita que promovem tumultos nas ruas é menos evidente e tende a ser mais complexa.

Os media oficiais também muitas vezes apresentam o problema da imigração com eufemismos para não alarmar, mas o povo que não é parvo irrita-se com isso. Muitas pessoas percebem que os média suavizam ou omitem aspetos negativos relacionados à imigração, o que pode levar a uma sensação de desconfiança e frustração. Alguns críticos argumentam que políticos frequentemente utilizam linguagem neutra ou positiva para descrever a imigração, evitando termos que poderiam ser considerados alarmistas. Isso é visto como uma tentativa de promover a coesão social e evitar incitar preconceitos.

Parte do público pode perceber essa abordagem como uma forma de minimizar ou esconder problemas reais associados à imigração, como pressão sobre serviços públicos, integração social e segurança. Isso pode levar a um sentimento de que as suas preocupações legítimas não estão sendo levadas a sério. A perceção de que os média não estão relatando os factos de forma completa ou honesta pode aumentar a desconfiança em relação aos meios de comunicação e às instituições em geral. Essa desconfiança pode alimentar o apoio a fontes de informação alternativas, incluindo aquelas com viés populista ou de extrema-direita.

Políticos e partidos que se posicionam contra o politicamente correto e prometem abordar a imigração de maneira mais direta podem ganhar apoio. Esses grupos muitas vezes capitalizam sobre a frustração pública com o discurso considerado eufemístico ou condescendente. A internet proporciona plataformas para narrativas alternativas que podem ser mais explícitas em suas críticas à imigração. Isso cria um ambiente onde informações não filtradas e, por vezes, sensacionalistas, se espalham mais facilmente, contribuindo para a polarização.

Ativismo pró-palestino



Historicamente, o antissemitismo tem-se manifestado de várias formas, desde estereótipos negativos até perseguições violentas, como o Holocausto. Portanto, o antissemitismo refere-se à hostilidade, preconceito ou discriminação contra os judeus como grupo. Por outro lado, no debate sobre o conflito entre israelitas e palestinianos é importante que se tenha em conta todo esse lastro histórico estigmatizante sobre os judeus, o qual não projeta no lado dos palestinos qualquer equivalência sentimental. Ou seja, a questão da hostilidade ou discriminação contra palestinos como grupo não se coloca.

Assim, como Israel é reconhecido como Estado, o ativismo pró-palestiniano tem como objetivo alertar as consciências para que também seja reconhecido aos palestinos a constituição de um Estado com o mesmo estatuto de que goza Israel. As dinâmicas de poder, como a ocupação e a desigualdade, podem influenciar a perceção de uma discriminação mais sistémica contra os palestinos, especialmente em contextos onde as suas vozes são marginalizadas.

O que se deve chamar a atenção é para que as críticas justas que se fazem à forma como o governo se comporta em relação à ocupação da palestina não cruze a linha para o antissemitismo. O ativismo pró-palestino frequentemente se concentra na luta pelos direitos dos palestinos, o fim da ocupação e a busca por uma solução justa para o conflito. Esse ativismo pode enfrentar desafios, incluindo a dificuldade de obter apoio internacional devido a perceções ou estereótipos sobre os palestinos que tem a ver com uma boa parte das organizações que os representam, como é o caso do Hamas, cujo seu carácter +é o de uma organização terrorista.

Daí que o ativismo em torno do conflito israelo-palestino enfrenta desafios específicos, como o desejo de apoiar os direitos humanos e a justiça sem cair em preconceitos ou estereótipos. Em alguns casos, as questões de poder e representação podem levar a um desequilíbrio percebido, onde a solidariedade para com um grupo pode parecer menos pronunciada ou reconhecida em comparação com outro. É importante abordar essas questões com sensibilidade e compreensão das complexidades envolvidas, garantindo que a defesa dos direitos de qualquer grupo não resulte em discriminação ou injustiça para outros.

Ou seja, no conflito Israel-Palestina é mais imediato condenar Israel, dado o longo lastro estigmático do antissemitismo. No contexto do conflito Israel-Palestina, a dinâmica entre as críticas a Israel e o antissemitismo é muito sensível. De facto, há várias razões pelas quais críticas a Israel podem ser tratadas com cautela para evitar a propagação do antissemitismo, mas também existem razões para condenar as ações israelitas em contextos específicos. O antissemitismo tem uma longa e trágica história, culminando em eventos como o Holocausto. Isso cria uma sensibilidade especial quando se trata de críticas a Israel, com uma preocupação legítima de que algumas críticas possam cruzar a linha para o antissemitismo.

Dada a história do antissemitismo, há um desejo de garantir que as críticas a Israel não se transformem em hostilidade generalizada contra todos os judeus. Isso pode levar a uma vigilância maior sobre a forma como as críticas são expressas. Muitas críticas a Israel se concentram em questões de direitos humanos, como as condições de vida dos palestinos, a construção de assentamentos e o bloqueio de Gaza. Essas críticas são frequentemente baseadas em preocupações sobre justiça e direitos humanos, não sobre o antissemitismo. É importante distinguir entre críticas legítimas às políticas de um Estado e o antissemitismo. Muitas organizações e ativistas tentam fazer essa distinção para assegurar que a discussão sobre o conflito se mantenha focada em questões políticas e humanitárias, e não em preconceitos étnicos ou religiosos.

No ativismo, especialmente em plataformas públicas e académicas, pode haver uma tendência a focar mais nas críticas a Israel devido ao desejo de abordar questões de justiça e direitos humanos, considerando o impacto das políticas de Israel sobre os palestinos. No entanto, isso deve ser feito com cuidado para evitar cair em estereótipos ou retórica antissemitas. É crucial que tanto o ativismo pró-Israel quanto o ativismo pró-Palestina reconheçam e respeitem as preocupações com o prefixo “anti”. Manter um equilíbrio é essencial para um diálogo produtivo e respeitoso.

A condenação das ações de qualquer parte no conflito, incluindo Israel, deve ser baseada em princípios de direitos humanos e justiça, não em preconceitos. Ao mesmo tempo, deve-se reconhecer e combater qualquer forma de antissemitismo ou discriminação contra palestinos que possa surgir. O diálogo construtivo e informado é fundamental para lidar com o conflito de maneira justa e eficaz, evitando que a crítica a um lado se torne um veículo para preconceito contra qualquer grupo. Em resumo, no contexto do conflito Israel-Palestina, é essencial manter um foco nas questões de direitos humanos e justiça, ao mesmo tempo em que se faz um esforço consciente para evitar que a crítica resvale como é costume.

É certo que há uma assimetria entre de um lado termos as regras de um Estado de Direito Democrático e do outro a ausência de regras por parte de uma organização terrorista como o Hamas. Há uma assimetria notável entre as regras e as estruturas de um Estado de Direito Democrático, como Israel, e as práticas de grupos como o Hamas, que são classificados como organizações terroristas por muitos países e entidades internacionais. Um Estado democrático de direito, como Israel, opera sob um sistema de leis e instituições que garantem direitos civis e políticos, com um sistema judicial independente que julga as ações do governo e dos cidadãos. Os líderes e instituições são responsáveis perante a lei e a opinião pública, e há mecanismos para resolver disputas e aplicar a lei de maneira justa.

O Hamas, que governa a Faixa de Gaza, é classificado como uma organização terrorista por vários países, incluindo os EUA e a UE, devido aos seus ataques contra civis e seu uso da violência como meio de alcançar objetivos políticos. O Hamas não opera sob um sistema formal de leis ou um Estado de direito. Sua abordagem inclui ataques violentos e outras práticas que são vistas como violadoras dos princípios de direitos humanos e da lei internacional.

Assim, essa assimetria, na questão do conflito, tem tornado mais difícil a resolução de questões de forma equitativa e justa. Enquanto Israel é pressionado a aderir a padrões internacionais e manter um sistema legal transparente, o Hamas opera fora desses parâmetros, o que pode complicar as negociações e as respostas internacionais. Esta diferença que condiciona os termos em que as operações no terreno têm de ser tomadas, pode criar enviesamentos de análise pelo facto de as perceções da opinião pública não atenderem a esses condicionamentos efetivos a que os operacionais do lado de Israel estão sujeitos. A não adesão do Hamas às leis internacionais afeta as perceções globais e as respostas políticas, influenciando a forma como os diferentes atores e países lidam com o conflito. Portanto, a assimetria entre as práticas de um Estado democrático e uma organização considerada terrorista é um fator significativo no conflito Israel-Palestina, influenciando as dinâmicas de poder e as possibilidades de resolução pacífica. Tanto mais quanto uma organização terrorista não estar vinculada a acatar a jurisdição das resoluções da ONU.

A situação se torna ainda mais complexa quando se considera que organizações terroristas, como o Hamas, não estão vinculadas a cumprir as resoluções da ONU ou a aderir aos princípios do direito internacional de maneira formal. Isso cria desafios adicionais para a diplomacia e a resolução de conflitos. As resoluções da ONU são direcionadas aos Estados membros e visam promover a paz, a segurança e o respeito pelos direitos humanos. No entanto, grupos não estatais como o Hamas, que são classificados como terroristas, não são formalmente obrigados a cumprir essas resoluções, pois não são signatários dos tratados e convenções internacionais da mesma forma que os Estados. A falta de compromisso com as normas internacionais por parte de organizações terroristas dificulta a implementação de resoluções da ONU que visam abordar questões específicas, como a violência e a proteção de civis.

A ausência de um sistema formal de responsabilidade e a recusa em aderir a normas internacionais tornam a mediação e a resolução de conflitos mais complicadas. Enquanto Israel, como Estado, pode ser pressionado a cumprir normas e resoluções internacionais, o Hamas opera fora dessas estruturas, o que pode criar um impasse nas negociações. A falta de compromisso com as normas internacionais por parte do Hamas pode levar a violações dos direitos humanos e ao uso de táticas que agravam o sofrimento dos civis, tornando mais difícil alcançar uma solução pacífica e justa.

Enquanto Estados têm responsabilidades legais e podem ser responsabilizados perante tribunais internacionais e outras entidades, grupos terroristas não têm a mesma forma de responsabilização. Isso pode resultar em uma falta de mecanismos eficazes para abordar e corrigir comportamentos que violam normas internacionais. A comunidade internacional enfrenta dificuldades em lidar com organizações não estatais que não seguem os mesmos padrões de responsabilidade e transparência que os Estados, o que pode limitar a eficácia das respostas diplomáticas e humanitárias.

Para lidar com a complexidade do conflito Israel-Palestina, é necessário um esforço abrangente que considere tanto as necessidades e direitos dos civis quanto as questões de segurança e legitimidade. As abordagens devem buscar maneiras de envolver todas as partes de forma construtiva, mesmo quando uma parte não adere formalmente às normas internacionais. Portanto, a falta de vínculo de organizações terroristas com as normas e resoluções da ONU cria uma complexidade adicional na resolução de conflitos e na promoção da paz. A solução exige uma abordagem que reconheça essas diferenças e trabalhe para criar condições que favoreçam a negociação e a paz, respeitando ao mesmo tempo os princípios de direitos humanos e a legalidade internacional.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

CasaPound Itália


CasaPound Itália é um movimento político populista de extrema-direita com conotações neofascistas. Foi criada em junho de 2008 como uma associação de promoção social em continuidade com a ocupação ilegal de um prédio ocorrida em 26 de dezembro de 2003 no bairro de Esquilino, em Roma, dando pretexto a um centro social. Não tardaram novas iniciativas em Roma a que se seguiram por todo o território italiano. CasaPound, de movimento passou a partido político que durou até 26 de junho de 2019, data em que o presidente Gianluca Iannone decretou o seu fim, regressando a movimento. 
O nome vem de Ezra Pound, um poeta americano que apoiou o fascismo italiano. 

Os membros da CasaPound identificam-se como "fascistas do terceiro milénio" e defendem ideias nacionalistas, populistas e anti-imigração. A organização é conhecida por suas ações diretas, manifestações públicas e, às vezes, confrontos violentos com grupos de esquerda. A CasaPound também se envolve em atividades culturais, desportivas e sociais, tentando atrair jovens e famílias italianas.



A CasaPound tem gerado controvérsia e preocupação, mas tem conseguido algum sucesso político local e continua a ser um ator relevante na cena política italiana de extrema-direita. Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana e líder do partido de direita Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia), nunca teve uma ligação formal com a CasaPound. No entanto, há algumas conexões e interações informais entre Meloni e figuras da CasaPound. Meloni e a CasaPound compartilham algumas ideias e posições políticas, como o nacionalismo, ideias contra o facilitismo à imigração e a defesa da identidade cultural italiana. Isso leva a uma percepção de alinhamento ideológico entre eles, embora Meloni e seu partido se tenham distanciado de associações explícitas com o fascismo, ao contrário da CasaPound. Existem relatos de membros da CasaPound participando de eventos e campanhas organizadas pelo partido de Meloni. Isso inclui apoio informal em eleições e participação em manifestações conjuntas sobre temas de interesse comum, como a oposição à imigração em massa.

Meloni tem procurado, contudo, moderar o seu apoio à extrema-direita italiana, dado que pretende consolidar uma certa credibilidade junto da direita ao nível da União Europeia. Tem sido cautelosa com grupos explicitamente fascistas mantendo uma certa distância. Não quer de modo nenhum comprometer a imagem do seu partido de modo a que o seu apelo eleitoral mais amplo seja consistente. Nas eleições europeias de 2014, a CasaPound apoiou a eleição de Mario Borghezio da Liga Norte no círculo eleitoral da Itália Central. A partir desse resultado, nasceu uma colaboração com a Liga do Norte. A relação foi posteriormente interrompida devido a diferenças políticas devido à reaproximação do líder da Liga com a coligação de centro-direita.

Em novembro de 2015, a CasaPound teria recebido a oferta de entrar em uma aliança com a Lega Nord de Matteo Salvini e a Fratelli d'Italia de Giorgia Meloni, que teria sido sancionada por ocasião de uma manifestação conjunta a ser realizada na Piazza Maggiore em Bolonha para o dia 8 do mesmo mês, mas no último minuto uma reaproximação de Silvio Berlusconi e Forza Itália para as demais forças de centro-direita em vista da manifestação levou a CasaPound a abandonar a iniciativa. Posteriormente, CasaPound teria tido uma breve reaproximação com o líder da Liga Norte, afirmando que haveria apoio apenas no caso de um governo liderado por Salvini capaz de tirar a Itália do Euro e da União Europeia. 
Em 1 de fevereiro de 2022, Simone Di Stefano renunciou ao cargo de vice-presidente e deixou a organização.

Declaração de guerra ou violência anárquica e constante



Parece paradoxal, mas a declaração de guerra convencional é melhor do que a alternativa da violência quotidiana constante em anarquia. Há uma lógica por trás desta afirmação. Em um estado de guerra convencional, mesmo que a violência seja intensa, há regras e estruturas que a regulamentam. As partes envolvidas normalmente seguem protocolos e convenções, o que pode limitar a brutalidade e oferecer algum grau de previsibilidade.

Por outro lado, em Anarquia, onde não há um governo central ou um sistema de leis eficaz, a violência pode ser mais caótica e incessante. Sem um sistema de justiça ou mecanismos de mediação, as disputas podem escalar de maneira descontrolada e contínua, levando a um estado de constante insegurança e sofrimento. Portanto, apesar das consequências devastadoras da guerra convencional, a ordem relativa e as regras podem, paradoxalmente, oferecer uma forma de estabilidade em comparação com a anarquia, onde a ausência de governança pode resultar em uma violência mais aleatória e prolongada.

O Processo Civilizacional de Norbert Elias foi publicado em 1939. Não poderia haver um sentido de oportunidade pior para publicar as suas ideias. E, todavia, Norbert Elias estava certo. "O Processo Civilizacional" de Norbert Elias foi publicado num momento histórico tumultuoso, pouco antes de ter começado a Segunda Guerra Mundial. Apesar do contexto adverso, Elias apresentou uma análise profunda e perspicaz sobre o desenvolvimento das sociedades ocidentais, explorando como os processos de civilização e controlo social moldaram comportamentos e estruturas sociais ao longo do tempo.

A civilização não é um fenómeno linear e inevitável, mas um processo complexo que envolve mudanças graduais nas normas e comportamentos sociais. Elias descreveu como a ascensão dos estados modernos e o aumento da centralização política levaram a um maior controlo sobre a violência e a regulamentação dos comportamentos individuais. Embora o período de publicação tenha sido especialmente sombrio devido à iminência da guerra, as ideias de Elias acabaram por se tornar bastante influentes e relevantes para compreendermos a evolução das sociedades. Seu trabalho oferece uma perspetiva valiosa sobre a relação entre poder, controlo social e desenvolvimento histórico, mostrando que, mesmo em tempos de crise, há uma continuidade na forma como as sociedades se estruturam e evoluem.

Azar Gat em War in Human Civilization foi convincente ao afirmar que a humanidade domesticou a sua própria violência ao longo de milhares de anos. A humanidade domesticou sua própria violência ao longo dos milénios. Gat sugere que, embora a guerra tenha sido uma constante na história humana, houve uma evolução significativa na forma como a violência se foi organizando e controlando. Ele explica que, nas sociedades pré-modernas, a guerra era muitas vezes brutal e desorganizada, enquanto nas sociedades mais complexas e centralizadas, os conflitos tendem a ser mais regulamentados e institucionalizados. A evolução das instituições políticas, sociais e jurídicas desempenhou um papel crucial na domesticação da violência. O surgimento de estados e sistemas legais estabeleceu regras e limites para a guerra e a violência, transformando as práticas violentas em atividades mais controladas e regulamentadas.

Gat argumenta que a domesticação da violência é um reflexo do desenvolvimento das sociedades humanas, onde o controlo sobre a violência se tornou mais sofisticado à medida que as sociedades se tornaram mais complexas. Assim, a história da guerra e da violência é também uma história de crescente regulamentação e controlo, que reflete a evolução das estruturas sociais e políticas ao longo do tempo.


Ainda assim, Gat tem os seus opositores, como Cacilda Jethá e Christopher Ryan. Em "Sex at Dawn," Ryan e Jethá argumentam que a visão tradicional sobre a evolução da violência e a domesticidade proposta por Gat pode ser simplificada e baseada em premissas questionáveis. Ryan e Jethá defendem que a natureza humana não é tão fortemente orientada para a guerra e a violência quanto algumas teorias sugerem. Eles exploram a ideia de que as sociedades de caçadores-coletores, que precedem as sociedades agrícolas e estatais, eram mais igualitárias e menos violentas do que as sociedades posteriores. Acreditam que a violência e a guerra são em parte consequências das mudanças sociais e económicas ocorridas com a transição para a agricultura e a formação de estados. Ou seja, seguiram à letra as ideias de Rousseau. Enquanto Gat oferece uma visão sobre a domesticação da violência ao longo da história, Ryan e Jethá, destacam a necessidade de considerar múltiplas perspetivas e evidências ao avaliar a evolução da violência e do comportamento humano.

Douglas Fry foi no mesmo sentido de Ryan e Jethá. Douglas Fry, em seus trabalhos como "War, Peace, and Human Nature," oferece uma perspetiva semelhante à de Christopher Ryan e Cacilda Jethá. Fry argumenta que muitas sociedades pré-agrícolas, particularmente as de caçadores-coletores, tendiam a ser menos violentas do que se costuma imaginar. Ele contesta a visão de que a violência e a guerra são inerentes à natureza humana, sugerindo que, em muitas sociedades pré-históricas, havia mecanismos efetivos para resolver conflitos e promover a paz. Fry baseia a sua análise em evidências arqueológicas e etnográficas, que mostram que a violência não era tão prevalente e que a cooperação e a resolução pacífica de disputas eram comuns. Fry também discute como as mudanças sociais e estruturais associadas à agricultura e ao desenvolvimento de estados podem ter aumentado a violência, contrariando a ideia de que a domesticação da violência foi uma evolução natural e linear das sociedades humanas. Sua abordagem é mais crítica das noções de que a guerra e a violência são inevitáveis, sugerindo que a configuração social e a estrutura económica desempenham papéis significativos na prevalência da violência.

Mas foram contrariadas por Joshua Goldstein, Steven Pinker e Jared Diamond. Os seus trabalhos oferecem visões que contrastam com as de Douglas Fry e outros críticos. Cada um desses autores apresenta argumentos que sustentam que a violência tem diminuído ao longo da história e que há uma tendência geral para a redução da violência. Esses autores oferecem uma visão mais otimista sobre o progresso em termos de redução da violência e argumentam que as mudanças sociais e políticas têm contribuído para uma diminuição geral dos conflitos e da violência ao longo da história. Eles fornecem uma perspetiva que contrasta com a ideia de que a violência é uma constante intrínseca à natureza humana, apoiando a ideia de que há uma tendência histórica para a diminuição da violência.

Steven Pinker, em seu livro "The Better Angels of Our Nature," argumenta que, apesar da violência ser uma característica histórica humana, ela tem diminuído significativamente ao longo dos milénios. Pinker usa uma ampla gama de dados históricos, estatísticas e estudos para mostrar que, desde o final da Idade Média, as sociedades têm experimentado uma redução na violência, tanto em guerras quanto em crimes internos. Ele sugere que o avanço da civilização, a ascensão do estado e a evolução das normas sociais desempenharam papéis cruciais nessa redução.

Joshua Goldstein, em "Winning the War on War," também defende a ideia de que a violência e os conflitos armados estão em declínio. Goldstein utiliza dados quantitativos e análises de tendências para demonstrar que a frequência e a intensidade dos conflitos têm diminuído ao longo das últimas décadas. Ele argumenta que, apesar das guerras ainda ocorrerem, a tendência geral é de redução da violência em escala global.

Jared Diamond, em "The World Until Yesterday," explora as diferenças entre sociedades tradicionais e modernas. Ele argumenta que, embora as sociedades tradicionais possam ter sido mais violentas em certos aspetos, a violência em sociedades modernas também não é trivial. Diamond discute como as mudanças sociais e políticas influenciaram a natureza e a frequência da violência, mas não necessariamente de maneira uniforme ou linear.

O antissemitismo


O preconceito contra o povo judeu, conhecido como antissemitismo, tem raízes profundas e complexas, que se desenvolveram ao longo dos séculos. Ele surgiu a partir de uma combinação de fatores religiosos, económicos, culturais e políticos.

Durante o período do Império Romano, os judeus eram uma minoria que praticava o monoteísmo, em contraste com a maioria politeísta. Essa diferença religiosa frequentemente gerava desconfiança e hostilidade. A recusa dos judeus em adorar os deuses romanos ou o imperador foi vista como uma ameaça à ordem pública. Em várias ocasiões, houve revoltas judaicas contra o domínio romano, o que levou a represálias severas e à destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C., marcando o início da Diáspora judaica. Com a ascensão do Cristianismo como a religião dominante na Europa, os judeus passaram a ser vistos como os "assassinos de Cristo". Essa visão teológica foi propagada pela Igreja Católica, alimentando hostilidades contra os judeus. Durante a Idade Média, os judeus foram frequentemente proibidos de possuir terras e de exercer muitas profissões. Eles se voltaram para o comércio e, em particular, para a atividade de empréstimo de dinheiro, já que o Cristianismo proibia a usura (cobrança de juros). Essa atividade gerou ressentimento, levando à propagação do estereótipo do judeu avarento e explorador.

O primeiros relatos conhecidos em documentos escritos de usura praticada por judeus na Península Ibérica que datam do século XII, que se transformaram em preconceito com a acusação de usura, remetem para uma prática de emprestar dinheiro com juros de dez por cento que tinha a ver com o dez do dízimo, e que era uma prática de contributo religioso que já vinha da Antiguidade do tempo das rebeliões na Judeia quando estava sob administração do Império Romano. 
Por conseguinte, o preconceito associado aos judeus em relação a essa prática, tem uma longa história, mais complexa do que a ideia que nos é apresentada por esse preconceito. No entanto, é correto afirmar que a associação entre judeus e usura se institucionalizou como patognomónico dos judeus a partir do século XII. Ora, como é típico da hipocrisia das instituições religiosas que o adágio "Bem prega Frei Tomás ... " nos faz recordar, na Alta Idade Média os bispos da Igreja Católica proibiram os cristãos de praticarem a usura, o que criou um vácuo no sistema financeiro que os judeus, que não estavam sujeitos à mesma proibição, começaram a preencher. 

Essa situação não foi universal, mas em muitos casos, ficou colada à pele dos judeus a prática de emprestar dinheiro com usura devido às restrições impostas aos cristãos. Portanto, enquanto a associação entre judeus e usura passou a ser muito badalada a partir do século XII, na verdade o empréstimo de dinheiro com juros era uma prática universal que vinha de muitos séculos atrás. Por isso, o que se tornou mais recente foi o preconceito por causa de outras complicações que se geraram com o antijudaísmo por parte da cristandade, sobretudo a católica. Foi um processo gradual, influenciado por mudanças económicas, sociais e religiosas.

Façamos então uma viagem ao tempo dos 
Romanos no Médio Oriente. Os romanos , nunca conseguiram fazer dos judeus grandes escravos. Rebeliões sucessivas faziam dos judeus um caso à parte. Os romanos tiveram uma relação complexa com os judeus, especialmente no contexto das sucessivas rebeliões na província da Judeia. Embora os romanos utilizassem a escravidão em larga escala em todo o seu império, o tratamento dos judeus teve particularidades importantes devido à natureza das rebeliões judaicas e às políticas romanas na região. Houve várias rebeliões judaicas significativas contra o domínio romano, das quais podemos destacar: a Grande Revolta Judaica (66-73 d.C.); a Revolta de Kitos (115-117 d.C.); e a Revolta de Bar Kokhba (132-135 d.C.). Estas rebeliões foram violentamente reprimidas pelos romanos. Daí resultou a muito conhecida Diáspora Judaica; e a destruição quase total de Jerusalém. 

Em resposta às rebeliões, as medidas dos imperadores romanos foram mesmo severas com a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. Muitos judeus foram mortos, e outros fugiram. Após a Revolta de Bar Kokhba, a repressão romana foi ainda mais dura, com o exílio maciço da população judaica que ainda restava. Os judeus, devido à sua forte identidade religiosa e cultural, foram muitas vezes tratados de maneira diferente pelos romanos. A resistência ao culto imperial, e a rebeldia violenta às disposições da lei romana, contribuiu para que a relação entre a autoridade romana e a comunidade judaica tivesse sido sempre muito tensa e diferenciada. Os romanos viram-se obrigados a reconhecer a singularidade da religião judaica, o que às vezes levava a concessões especiais, mas também a severas repressões em tempos de revolta.

A diáspora judaica expandiu-se significativamente após as revoltas, com comunidades judaicas estabelecendo-se em muitas partes do império. A severidade da repressão romana após as rebeliões judaicas teve consequências duradouras para a população judaica na Judeia e para as comunidades judaicas em todo o império. A destruição do Templo e a proibição de os judeus entrarem em Jerusalém após a Revolta de Bar Kokhba foram momentos decisivos na história judaica. 

A religião judaica era monoteísta e exclusivista, o que contrastava fortemente com o politeísmo inclusivo dos romanos. Os judeus recusavam-se a participar no culto aos deuses romanos e no culto imperial, o que muitas vezes era visto como um comportamento antissocial e uma afronta à ordem pública e à coesão do império. As práticas religiosas e sociais judaicas, como a observância do sábado, as leis dietéticas e a circuncisão, eram diferentes das práticas romanas e frequentemente incompreendidas ou vistas com suspeita. As sucessivas rebeliões judaicas contra o domínio romano exacerbaram a tensão e o preconceito. A resistência armada dos judeus e os consequentes conflitos violentos levaram a uma visão negativa e estereotipada dos judeus como perturbadores da ordem pública. Antes mesmo do domínio romano, havia uma história de conflitos entre judeus e outros grupos na região, como os gregos. Esses conflitos históricos também moldaram atitudes e preconceitos. A literatura e a propaganda romanas frequentemente retratavam os judeus de maneira negativa. Escritores romanos como Tácito e Juvenal descreveram os judeus de forma pejorativa, reforçando estereótipos e preconceitos. Em algumas regiões, os judeus eram bem-sucedidos economicamente, o que gerava ressentimento e inveja de uma prosperidade económica associada à sua identidade distinta. Embora a religião fosse um fator central no preconceito contra os judeus, o comportamento antissocial atribuído a eles pelos romanos também refletia uma série de mal-entendidos, tensões políticas e conflitos culturais. 

A partir do século XII, com a expansão do comércio e da economia monetária na Europa, a necessidade de crédito aumentou. A prática de empréstimos a juros tornou-se mais visível, e os judeus, muitas vezes forçados a viver em guetos e proibidos de muitas outras profissões envolveram-se em atividades financeiras, incluindo empréstimos. Durante este período, a acusação de usura tornou-se uma forma de ganância e exploração. O Terceiro Concílio de Latrão em 1179, e o Quarto Concílio de Latrão em 1215 reforçaram a condenação da usura o que levou a que se implementassem medidas que restringiam ainda mais os judeus. Esses concílios contribuíram para a institucionalização do preconceito contra os judeus, associando-os de forma negativa à prática da usura. Em muitos casos, os governantes europeus toleravam e até protegiam os judeus como fonte de crédito e impostos. No entanto, essa dependência económica também gerava ressentimento entre a população geral e podia ser explorada politicamente, resultando em pogroms e expulsões, como as expulsões dos judeus da Inglaterra em 1290 e da França em 1306 e 1394. As representações apareceram em sermões, peças de teatro, e outras formas de comunicação popular, enraizando profundamente o preconceito anti-judaico na cultura europeia.


No final do século XIX, o antissemitismo começou a tomar uma forma mais secular e racial. O surgimento do nacionalismo exacerbou as tensões, e os judeus passaram a ser vistos como uma raça inferior e uma ameaça ao "caráter nacional" dos países europeus. As ideias pseudocientíficas do racismo também influenciaram o antissemitismo, com figuras como Wilhelm Marr, que cunhou o termo "antissemitismo" em 1879. Nesta época, surgiram teorias da conspiração que afirmavam que os judeus controlavam secretamente o mundo através das finanças, dos órgãos e comunicação e da política. Uma das manifestações mais conhecidas dessas teorias foi o documento falsificado chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião.

O antissemitismo alcançou o seu ponto mais trágico e violento com o Holocausto, perpetrado pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Seis milhões de judeus foram sistematicamente assassinados em campos de extermínio, culminando em uma das maiores tragédias da história humana. Embora o antissemitismo tenha sido amplamente condenado após a Segunda Guerra Mundial, ele não desapareceu. Manifestações contemporâneas do preconceito antijudaico ainda ocorrem, com raízes nas mesmas ideias erradas e teorias da conspiração de séculos anteriores. Nas últimas décadas, o conflito com os palestinos, tem sido a maior dor de cabeça para todos nós. Embora a crítica à política do Estado de Israel seja legítima, em alguns casos, ela tem sido usada como uma cobertura para o antissemitismo, confundindo as críticas políticas com preconceito étnico ou religioso contra judeus. Por conseguinte, o antissemitismo é um fenómeno multifacetado que evoluiu ao longo do tempo, refletindo e amplificando as ansiedades e preconceitos de diferentes épocas.

Antiglobalização



Hoje há muitos grupos ativistas a defenderem práticas sustentáveis, justiça social e proteção ambiental, opondo-se ao modelo de desenvolvimento focado no crescimento económico ilimitado que fomenta o consumo excessivo. Por outro lado, há cada vez mais países cujos governos se preocupam com a sustentabilidade do planeta procurando adotar políticas de proteção das suas economias e culturas locais. Para isso têm promovido a autossuficiência para resistir à influência de corporações multinacionais à frente da globalização. 




Teóricos e académicos que criticam o modelo económico neoliberal, propõem alternativas que potenciem a sustentabilidade, a equidade social e a preservação cultural. Através dos Média, e da ampla rede da literacia digital, há toda uma variedade de atores, tanto do campo da ciência como das artes, a promoverem valores que celebram a simplicidade, a conexão com a natureza e a resistência ao consumismo. Esses esforços refletem uma busca por modos de vida mais equilibrados e justos, que valorizem o bem-estar humano e a saúde do planeta em detrimento da acumulação material e da degradação ambiental.

Mas se no hemisfério ocidental do planeta, falemos assim em modo de clarificação, se verifica uma grande preocupação dos atores políticos e da sociedade civil em geral com os efeitos nefastos da globalização que vem crescendo a partir do último quartel do século XX, tal preocupação não é acompanhada noutros quadrantes e continentes da Terra. Pelo menos não se dá conta disso, e no entanto têm sido fustigados por intempéries e catástrofes naturais cada vez mais intensas. Até surpreende que, por exemplo na Rússia seja empregue o termo 
"liberasta", um termo pejorativo, para descrever alguém que é visto como excessivamente submisso ou entusiasta em relação aos valores liberais ocidentais. Este termo combina "liberal" com uma terminação pejorativa, implicando uma visão negativa e de desprezo por essa postura. É frequentemente utilizado em discursos políticos e sociais para criticar aqueles que adotam um estilo de vida conotado com os chamados "valores ocidentais".




Os críticos da globalização argumentam que o que o move é o consumo de coisas desnecessárias e que atrás disso se gera a exploração de recursos naturais de forma insustentável. Além disso aliena os indivíduos, transformando-os em meros autómatos consumidores de matérias primas e produtores de lixo, muito lixo, em vez de animais plenos com identidade de cidadãos que percebem como os impactos negativos do consumismo desenfreado só nos levará à destruição do planeta. A crítica ao globalismo ocidental é ao consumismo desenfreado. Esse é o ponto de convergência que reúne uma variedade de movimentos e correntes de pensamento que, apesar de suas diferenças, compartilham uma oposição ao modelo económico e cultural dominante. Críticos do capitalismo e defensores de uma economia sustentável, que buscam alternativas ao crescimento económico ilimitado e à exploração dos recursos naturais.

Nacionalistas e Conservadores, grupos que defendem a preservação das tradições culturais e a soberania nacional, marcam encontro neste propísito com os ecologistas, os verdes. C
ombinam elementos de crítica ao neoliberalismo com uma retórica de proteção dos interesses dos cidadãos comuns contra as elites globais. Oferecem críticas profundas às consequências do consumismo sobre a identidade e a dignidade humanas, propondo uma reflexão sobre o verdadeiro sentido do progresso e do desenvolvimento humano. Embora esses grupos possam divergir significativamente em seus objetivos e métodos, a crítica comum ao globalismo ocidental e ao consumismo fornece uma plataforma de união temporária. Essa coligação heterogénea pode resultar em alianças inesperadas, onde antigos adversários encontram terreno comum para enfrentar o que percebem como um inimigo maior e mais urgente: a ameaça à sustentabilidade do planeta e à dignidade humana imposta pelo modelo globalista consumista.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Que povo grego foi esse conhecido por Aqueus?


Os Aqueus foram um dos povos que habitaram a Grécia durante a Idade do Bronze, aproximadamente entre 1600 e 1100 a.C., e que Homero mencionou frequentemente na Ilíada para se referir coletivamente aos gregos que lutaram na Guerra de Troia. Historicamente, os Aqueus são associados à civilização micénica, que floresceu na Grécia continental durante esse período. Eles são conhecidos por terem construído palácios fortificados, como os encontrados em Micenas e Tirinto, e por seu papel importante nas rotas comerciais e na cultura do Mediterrâneo oriental.

Por conseguinte, a civilização micénica, à qual os Aqueus estão associados, entrou em declínio por volta de 1100 a.C., possivelmente devido a invasões, conflitos internos ou desastres naturais. Daqui resultou um longo período de escuridão histórica, ao qual os historiadores vieram a referenciá-lo por Idade das Trevas Grega. Em resumo, os Aqueus foram uma das tribos ou grupos étnicos que compunham a antiga Grécia, tendo uma influência significativa na formação da civilização grega e na literatura clássica.

O local onde Atenas se desenvolveu já existia no tempo dos Aqueus, durante a Idade do Bronze. Atenas, como uma cidade, tem uma longa história que remonta a muito antes da Idade Clássica, que é a época pela qual os historiadores se referem por ser a época mais bem estudada e que deixou marcas duradouras na civilização ocidental. Durante o período micénico, Atenas já era um centro importante. A Acrópole de Atenas, por exemplo, era um local fortificado e possivelmente já abrigava um palácio ou residência de um governante micénico. Existem evidências arqueológicas que sugerem que Atenas foi habitada continuamente desde o Neolítico, mas foi durante a Idade do Bronze que a cidade começou a se destacar como um centro regional significativo.

Ao contrário de outras cidades micénicas, como Micenas e Tirinto, Atenas não parece ter sofrido uma destruição completa durante o colapso da civilização micénica por volta de 1100 a.C. Isso pode ter contribuído para a continuidade da sua ocupação e desenvolvimento, levando à eventual ascensão como uma das cidades mais importantes da Grécia na Idade do Ferro e, posteriormente, na era clássica. O desaparecimento da civilização micénica é um fenómeno bastante obscuro e que ainda deixa pontas soltas aos historiadores para poderem dar uma explicação mais cabal e definitiva. Entretanto, os arqueólogos continuam a escavar. O que é certo é que esse colapso marcou o fim da Idade do Bronze na Grécia e o início de um período conhecido como a Idade das Trevas grega, caracterizado por uma diminuição significativa na população, perda de habilidades como a escrita, e o declínio de grandes centros urbanos.

Daí que o caso aguce o engenho dos historiadores para produzirem as suas teorias acerca do desaparecimento da civilização antiga a que os Aqueus pertenciam e que Homero glorificou. Uma teoria popular sugere que a civilização micénica foi enfraquecida por invasões externas, possivelmente pelos chamados "Povos do Mar". Mas, como não podia deixar de ser, nesta idade de trevas os Povos do Mar tinham de ser um povo misterioso. Um grupo misterioso que atacou várias civilizações no Mediterrâneo Oriental durante esse período. Além disso, conflitos internos, como guerras civis ou disputas dinásticas, podem ter contribuído para a desintegração dos reinos micénicos.

Outra possibilidade é que terão sido desastres naturais. Terramotos e maremotos terão ocorrido para justificar uma devastação tão grande das cidades em tamanha extensão. Tanto mais que se sabe que a Grécia é uma região sísmica muito ativa. E há evidências arqueológicas de destruição por terramotos em alguns dos principais centros micénicos. Outras alterações ambientais também podem ter ajudado, que terá levado à escassez de recursos alimentares. A civilização micénica dependia de um complexo sistema económico e social, incluindo comércio de longa distância com outras regiões do Mediterrâneo. Problemas económicos, como a interrupção dessas rotas comerciais, ou a incapacidade de sustentar a elite palaciana, podem ter levado ao colapso dessa estrutura. Isso pode ter resultado em uma perda de coesão social e na fragmentação dos reinos micénicos. Essas causas não são mutuamente exclusivas, e é possível que uma combinação de fatores tenha levado ao colapso micénico. O desaparecimento da civilização micénica foi gradual e variou de região para região, mas, em geral, marcou uma transição significativa na história grega, da rica e complexa sociedade micénica para um período de maior simplicidade e isolamento cultural que só terminaria com o surgimento das Cidades Estado gregas na Idade do Ferro.

O povo que emergiu após o colapso micénico e que terá dado origem à Grécia Clássica foram os Dórios, embora envolva mais do que apenas a chegada de um novo grupo étnico. Os Dórios são frequentemente descritos como um povo indo-europeu que invadiu ou migrou para a Grécia continental, eventualmente se estabelecendo em regiões como o Peloponeso, Creta e outras áreas. A chegada dos Dórios, e o subsequente estabelecimento de sua cultura, marcou uma nova fase na história grega. Eles trouxeram mudanças significativas, incluindo novas práticas agrícolas, novas formas de organização social, e eventualmente, a introdução do uso do ferro, que substituiu o bronze em muitas áreas. A identidade dos Dórios e a sua contribuição específica à cultura grega é um tema de debate. É possível que o surgimento dos Dórios tenha sido parte de um processo mais amplo de movimentação de populações e reorganização social, mais do que uma simples invasão. Além disso, outros grupos, como os Jónios e os Eólios, também desempenharam papéis importantes no desenvolvimento das sociedades gregas posteriores.

Cerca de 800 a.C. já se ouve falar de algumas Cidades Estado - Atenas, Esparta, Corinto e Tebas. Foi a partir dessas pólis que a Grécia Clássica se desenvolveu, com a sua rica cultura, filosofia, política e arte que ainda influenciam o mundo até hoje. Portanto, enquanto os Dórios desempenharam um papel importante no período após Micenas, o florescimento da Grécia Clássica foi o resultado de uma combinação de influências culturais e o desenvolvimento de novas formas de organização social e política. Os Dórios falavam uma língua indo-europeia. O dialeto dórico faz parte do grupo das línguas gregas antigas, que são um ramo da família das línguas indo-europeias. O grego antigo, no período arcaico e clássico, era dividido em vários dialetos principais, sendo os mais importantes o ático jónico, o eólio, o arcado cipriota e o dórico. O dialeto dórico era falado principalmente nas regiões do Peloponeso (como Esparta), em Creta, em algumas partes da Grécia continental, e nas colónias gregas no sul da Itália e na Sicília. O ático jónico veio depois a formar colónias na Ásia Menor, (atual costa ocidental da Turquia) durante o período conhecido como a Grande Colonização Grega, que ocorreu entre os séculos VIII e VI a.C.

Algumas das mais importantes dessas colónias foram cidades como Éfeso, Mileto, Samos e Quios. Essas colónias formaram a chamada Confederação Jónica, que era uma aliança de cidades estado jónicas que compartilhavam uma herança cultural e linguística comum. O dialeto jónico, junto com o ático (falado em Atenas), faz parte do grupo dialectal ático jónico. No caso específico do jónico, ele se espalhou amplamente pela Ásia Menor através dessas colónias. Com o tempo, o dialeto ático, especialmente o de Atenas, ganhou proeminência e acabou se tornando a base do grego clássico, particularmente no período helenístico, quando a forma de grego conhecida como koiné (uma versão simplificada do grego ático) se tornou a língua franca do mundo helenístico. Portanto, a expansão dos Jónios e a formação de colónias na Ásia Menor desempenharam um papel crucial na disseminação da língua e cultura grega na região, influenciando a história e o desenvolvimento cultural do mundo grego em geral.

Para Atenas começava a mudar a maré chegando a celebrar na Acrópole a unificação alcançada por Teseu. A unificação de Atenas, tradicionalmente atribuída ao herói mitológico Teseu, é um evento significativo na história ateniense e está ligado ao processo de synoikismos (literalmente "vivência em conjunto"), que foi a união dos vários pequenos povoados e tribos da Ática em uma única entidade política centrada em Atenas. Segundo a lenda, Teseu, após derrotar o Minotauro e retornar a Atenas, liderou a unificação das diversas comunidades da Ática, transformando Atenas na capital da região. Esse processo teria consolidado a cidade como um único centro de poder, fortalecendo sua posição política, económica e militar. Acredita-se que essa unificação também tenha contribuído para o desenvolvimento da identidade cívica ateniense. A celebração dessa unificação teria ocorrido na Acrópole, o centro religioso e simbólico de Atenas, onde os atenienses realizavam importantes rituais e festivais. Um dos festivais associados a essa unificação foi o festival das Panateneias, uma grande celebração em homenagem à deusa Atena, padroeira da cidade. Durante o festival, os atenienses realizavam procissões, competições atléticas e sacrifícios, reforçando a unidade e a identidade cívica da polis. Historicamente, o processo de unificação da Ática foi provavelmente um processo gradual que envolveu uma combinação de alianças políticas, casamentos entre elites e a centralização administrativa. Teseu, embora uma figura mítica, simboliza essa transformação de Atenas em uma potência regional, marcando o início do caminho que levaria à sua proeminência durante o período clássico.

O Próximo Oriente Antigo – século VIII a.C.


Aquilo a que chamamos "Bíblia" começa por volta do século VIII a.C. quando a literacia começa a difundir-se pelo Próximo Oriente. A ideia de que a Bíblia começou a ser formada por volta do século VIII a.C. está relacionada ao desenvolvimento da literacia e à consolidação de textos escritos no antigo Israel e no Próximo Oriente. Nesse período, a alfabetização e a escrita se tornaram mais difundidas, o que possibilitou a compilação, redação e preservação de textos que mais tarde fariam parte das Escrituras Hebraicas (o que os cristãos chamam de Antigo Testamento). No século VIII a.C., os reinos de Israel e Judá estavam em contato com poderosas culturas vizinhas, como a Assíria, que tinham uma tradição estabelecida de registos escritos. Esse contexto influenciou o surgimento de uma classe letrada em Israel e Judá, que começou a registar oralmente tradições, leis, histórias e profecias. Alguns dos textos bíblicos mais antigos, como partes dos livros dos Profetas (por exemplo, Amós e Oseias), podem ter começado a ser escritos nessa época.

Além disso, textos como as leis encontradas no Livro da Aliança (Êxodo 20-23) e as primeiras versões das tradições patriarcais e do Êxodo, que compõem o núcleo do Pentateuco, também podem ter começado a ser registados nesse período ou antes. A difusão da literacia e a criação de textos religiosos e legais refletem um processo complexo que envolveu não apenas a preservação da tradição oral, mas também a necessidade de centralizar a religião e o governo, especialmente à medida que os reinos enfrentavam desafios internos e externos. O processo de composição da Bíblia continuou por vários séculos, com os textos sendo revistos, ampliados e compilados até à formação de um corpo de escritos sagrados reconhecidos como canónicos muito tempo depois. Portanto, o século VIII a.C. é um ponto de partida significativo para o registo escrito de textos que, ao longo dos séculos, se consolidariam naquilo que hoje conhecemos como a Bíblia Hebraica, embora a tradição oral que os precede e as subsequentes edições e compilações sejam igualmente importantes para a sua formação.


Durante a primeira metade do século VIII a.C. o reino de Jeroboão, Israel, (que reinou de aproximadamente 793 a.C. a 753 a.C.), era próspero. Experimentou um período de grande prosperidade durante a primeira metade do século VIII a.C. Jeroboão II foi o décimo terceiro rei de Israel (o reino do Norte) e é conhecido por ter expandido as fronteiras do reino, recuperando territórios perdidos e fortalecendo o poder militar e económico do país.

Sob o seu governo, Israel conseguiu conquistar e manter territórios ao norte e ao leste, incluindo partes da Síria e da Transjordânia, o que permitiu o controlo de importantes rotas comerciais. Esse controlo resultou num aumento significativo da riqueza do reino. Entretanto, apesar da prosperidade económica e militar, o período foi também marcado por grandes desigualdades sociais, injustiças e corrupção. Isso atraiu a crítica dos profetas da época, como Amós e Oseias, que condenaram a injustiça social, a idolatria e a falta de fidelidade a Deus, advertindo sobre o iminente julgamento divino.

As versões "J" e "E" nos textos da Bíblia fazem referência a duas das quatro fontes principais que compõem a teoria documentária, uma hipótese académica que tenta explicar a origem e a composição dos primeiros livros do Antigo Testamento (Torá ou Pentateuco). Segundo essa teoria, o Pentateuco é uma compilação de textos de diferentes autores ou grupos de autores, que foram posteriormente reunidos em um único conjunto de escritos.

Fonte Javista (J). Nesta fonte, Deus é frequentemente referido como "YHWH" (ou Javé, em português). Daí o nome "Javista". Os textos da Fonte Javista têm um estilo mais vívido e antropomórfico, apresentando Deus de forma mais humana e envolvida diretamente na vida das pessoas. Esses textos são geralmente associados ao Reino de Judá, no Sul, e possivelmente datam do século X a.C. Algumas partes do Génesis, como as histórias da Criação (Génesis 2) e do Dilúvio, são atribuídas à Fonte Javista.

Fonte Eloísta (E). Nesta fonte, Deus é frequentemente chamado de "Elohim", o que dá origem ao nome "Eloísta". A Fonte Eloísta é mais focada em questões morais e religiosas e tende a apresentar Deus como mais distante, frequentemente se comunicando através de sonhos, anjos ou profetas. Essa fonte é geralmente associada ao Reino de Israel, no Norte, e é datada aproximadamente do século IX a.C. Trechos do Génesis e do Êxodo são atribuídos à Fonte Eloísta, como a história do sacrifício de Isaque.

Além dessas fontes, a teoria documentária também inclui a Fonte Sacerdotal (P), que é mais formal e detalhada, focada em leis e rituais, e a Fonte Deuteronomista (D), associada ao livro do Deuteronómio e aos livros históricos que seguem. Essa teoria, embora amplamente estudada e discutida na crítica bíblica, não é universalmente aceite e tem sido objeto de revisão e debate ao longo dos anos. Isaías é amplamente considerado um personagem real da história, mas há nuances a considerar. Isaías foi um profeta hebreu, que viveu no Reino de Judá no século VIII a.C., durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Ele é uma figura central no livro de Isaías, que faz parte do Antigo Testamento da Bíblia. O livro de Isaías é tradicionalmente atribuído a ele, e contém uma vasta gama de profecias e ensinamentos que tiveram um impacto profundo no judaísmo e no cristianismo.

Embora não existam evidências arqueológicas diretas que confirmem a existência de Isaías como uma figura histórica individual, ele é mencionado em várias fontes bíblicas e suas profecias são registadas em textos que foram amplamente aceites e preservados pela tradição judaica. Além disso, algumas evidências indiretas, como inscrições e documentos da época, corroboram o contexto histórico e as circunstâncias em que Isaías teria vivido e profetizado.

O livro que leva o seu nome é dividido em três secções principais, e alguns estudiosos acreditam que essas secções foram escritas em períodos diferentes, por diferentes autores ou grupos de autores, mas todos sob a tradição de Isaías: Proto-Isaías (capítulos 1-39) Atribuído ao próprio Isaías, contém profecias contra o Reino de Judá e outras nações. Deutero-Isaías (capítulos 40-55) Acredita-se que tenha sido escrito durante o exílio babilónico, cerca de um século após a vida de Isaías, por um profeta ou grupo de profetas que se inspiraram em sua tradição. Trito-Isaías (capítulos 56-66) Focado no período após o exílio, sugerindo uma continuidade na tradição profética. Enquanto a figura histórica de Isaías é amplamente aceite na tradição judaico-cristã, e é possível que ele tenha sido uma pessoa real, nosso conhecimento sobre ele vem exclusivamente de textos religiosos. A historicidade de Isaías, como a de muitas figuras antigas, é apoiada principalmente por registos tradicionais e escritos, mais do que por evidências arqueológicas diretas.

Ao passo que Teglat Falasar (também conhecido como Tiglate-Pileser III) – foi um personagem histórico real e um dos mais importantes reis do Império Assírio. Ele governou de 745 a 727 a.C. e é conhecido por suas campanhas militares e reformas administrativas que transformaram a Assíria numa das superpotências do Antigo Médio Oriente Médio. Teglat Falasar III é famoso por suas extensas campanhas militares, que expandiram significativamente o território do Império Assírio. Ele subjugou muitos estados menores, incluindo partes da Síria, Fenícia, e Israel. Sua estratégia militar era brutal e eficaz, utilizando táticas como o deslocamento forçado de populações para evitar revoltas. Teglat Falasar III invadiu o Reino de Israel e levou muitos de seus habitantes cativos, conforme descrito em fontes bíblicas e confirmados por registos assírios. No entanto, a Bíblia também menciona Teglat Falasar, referindo-se a ele como "Tiglate-Pileser" (2 Reis 15:29; 1 Crónicas 5:26), destacando as suas conquistas e a deportação de israelitas. Portanto, Teglat Falasar III é bem documentado tanto em fontes históricas e arqueológicas. Inscrições em monumentos e documentos cuneiformes encontrados em sítios arqueológicos assírios confirmam muitos detalhes de seu reinado e conquistas. Ele é uma das figuras mais bem atestadas da história assíria.

Ele introduziu reformas administrativas que centralizaram o poder na Assíria, dividindo o império em províncias governadas por oficiais diretamente responsáveis perante o rei. Estabeleceu um sistema tributário mais eficiente, o que ajudou a financiar as suas campanhas militares e consolidar o controlo sobre os territórios conquistados. O reinado de Teglat Falasar III marcou o início do auge do Império Assírio, que continuou a crescer e dominar a região até à sua eventual queda no final do século VII a.C. Suas reformas e conquistas tiveram um impacto duradouro na estrutura política e militar do Antigo Médio Oriente. Portanto, ao contrário de figuras bíblicas como Isaías, cuja historicidade depende de textos religiosos, Teglat Falasar III é um personagem histórico amplamente reconhecido e documentado por evidências arqueológicas e registos contemporâneos.

A prosperidade material que o reino de Israel experimentou sob o governo de Jeroboão II foi acompanhada por um crescente abismo entre os ricos e os pobres, corrupção, injustiça social e uma decadência moral que perturbava profundamente os profetas Amós e Oseias. Amós era um pastor e agricultor de Judá, mas foi chamado por Deus para profetizar em Israel. Ele denunciou com veemência as injustiças sociais e a hipocrisia religiosa da elite israelita. Em suas profecias, Amós criticou os ricos que viviam em luxo à custa dos pobres, explorando-os e oprimindo-os. Ele também condenou a falsa religiosidade, onde o povo participava de rituais religiosos enquanto ignorava as exigências de justiça e retidão de Deus. Amós proclamou que Deus não estava satisfeito com sacrifícios e cerimónias vazias, mas sim com a justiça que deveria "correr como um rio" (Amós 5:24).

No livro de Amós, encontramos passagens como Amós 5:21-24: "Eu odeio, eu desprezo as vossas festas, e as vossas assembleias solenes não me agradam. E ainda que me ofereçais holocaustos e as vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles; nem atentarei para as ofertas pacíficas dos vossos animais cevados. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro perene." Nessa passagem, Amós deixa claro que Deus não se agrada dos rituais vazios, mas sim de um compromisso genuíno com a justiça e a retidão. Para ele, era impossível continuar a vida dissoluta e hipócrita que muitos em Israel levavam enquanto se envolviam no culto de Baal e negligenciavam a verdadeira adoração a Deus, que exigia ética, justiça e compaixão. Amós, portanto, proclamava que a sobrevivência de Israel dependia não apenas da observância religiosa, mas da prática da justiça social e da fidelidade ao Deus de Israel. Essa mensagem era uma chamada urgente para o arrependimento e para o retorno a uma vida de integridade e moralidade, sem a qual, segundo Amós, Israel estaria destinado à ruína.

Oseias, por sua vez, focou mais na infidelidade espiritual de Israel, simbolizada pelo comportamento adúltero de sua própria esposa, Gômer. Oseias usou sua experiência pessoal como uma metáfora para a relação entre Deus e Israel. Ele denunciou a idolatria do povo, que havia abandonado a adoração exclusiva de Yahweh para seguir deuses estrangeiros, especialmente Baal. Oseias alertou que essa infidelidade espiritual levaria à ruína de Israel, mas também destacou o amor de Deus, que desejava restaurar o relacionamento com Seu povo. Portanto, tanto Amós quanto Oseias estavam profundamente perturbados pela crise social e moral em Israel durante o reinado de Jeroboão II. Eles advertiram que a injustiça, a opressão dos pobres e a infidelidade espiritual teriam consequências severas, culminando no julgamento divino e na eventual queda do reino de Israel, que de facto ocorreu algumas décadas depois, em 722 a.C., quando os assírios conquistaram Samaria, a capital do reino do Norte.

Os Salmos bíblicos não descrevem explicitamente Javé (ou Yahweh) da mesma maneira que Baal, o deus cananeu das tempestades e da fertilidade. No entanto, há certas passagens nos Salmos e em outros textos do Antigo Testamento que retratam Javé de forma semelhante às descrições de divindades cananeias, incluindo Baal, especialmente no que diz respeito à sua capacidade de controlar a natureza e derrotar inimigos. Baal era frequentemente associado às tempestades, raios e trovões. Da mesma forma, Javé é descrito em termos semelhantes em alguns salmos, como no Salmo 29. No Salmo 18:7-15: Javé é descrito como vindo em auxílio do salmista montado em um querubim, com trovões, raios e terremotos, sugerindo um poder sobre a natureza que lembra as descrições de Baal. Tanto Baal como Javé são apresentados como deuses guerreiros que protegem seu povo. Nos Salmos, Javé é frequentemente descrito como um guerreiro poderoso que defende Israel contra seus inimigos.

Assim como Baal era visto como um deus que intervinha para proteger seus seguidores, Javé é frequentemente representado nos Salmos como aquele que intervém diretamente para salvar e proteger Israel, especialmente Jerusalém. O Salmo 48 - Celebra o Monte Sião (Jerusalém) como a cidade de Deus, onde Javé se manifesta como um refúgio seguro, o que poderia ser comparado à maneira como os cananeus viam Baal protegendo suas cidades sagradas. Apesar dessas semelhanças, há distinções importantes. Javé é constantemente descrito como único, o Deus de toda a terra e dos céus, enquanto Baal era um entre muitos deuses no panteão cananeu. Javé também é enfatizado como um Deus de justiça e retidão, além de ser o criador do universo, o que o coloca em um papel bem mais abrangente e exclusivo do que Baal. Portanto, enquanto há elementos nos Salmos que podem refletir temas ou imagens comuns à literatura religiosa da antiga Canaã, como o controle sobre as tempestades ou a guerra divina, os textos bíblicos recontextualizam essas ideias para enfatizar a supremacia e a singularidade de Javé como o único Deus verdadeiro, distinto dos deuses cananeus como Baal.

O relato bíblico da Arca da Aliança, sendo transportada para o Templo de Salomão, pode ser interpretado como uma espécie de "marcha triunfal" de Javé para Sião (Jerusalém). Este evento é narrado no 1 Reis 8 e em 2 Crónicas 5, e é um dos momentos mais significativos na história de Israel. A Arca da Aliança era o símbolo mais sagrado da presença de Javé entre o povo de Israel, representando a aliança de Deus com Israel. Ela continha as tábuas dos Dez Mandamentos, e sua presença era associada diretamente com a glória e a santidade de Javé. O Templo de Salomão em Jerusalém foi construído para ser a casa permanente de Javé, onde a Arca da Aliança seria colocada no Santo dos Santos. A construção do Templo e a dedicação da Arca a ele simbolizam o estabelecimento de Jerusalém como o centro religioso e político de Israel, a cidade onde Javé escolheu fazer sua morada.

A narrativa descreve uma grande procissão e celebração quando a Arca é transportada da Cidade de David (em Jerusalém) para o novo Templo. Salomão convoca toda a nação de Israel para esse evento, que é acompanhado por sacrifícios, música, e uma assembleia solene. A procissão pode ser vista como uma "marcha triunfal" de Javé, o verdadeiro Rei de Israel, entrando em sua residência real, o Templo. Quando a Arca é colocada no Santo dos Santos, a Bíblia descreve que a "glória do Senhor" encheu o Templo em forma de uma nuvem, de tal maneira que os sacerdotes não podiam continuar seus serviços por causa dessa manifestação divina (1 Reis 8:10-11). Esta descrição ecoa o conceito de Javé como um deus guerreiro e rei, cuja presença poderosa agora habita no centro do poder de Israel, em Sião.

A imagem de uma marcha triunfal, na qual uma deidade é transportada com grande celebração para um local sagrado, é comum nas tradições religiosas do Antigo Próximo Oriente. No entanto, o relato bíblico recontextualiza essa ideia para destacar a singularidade de Javé e sua relação especial com Israel. Essa marcha não apenas celebra o transporte da Arca, mas também afirma a escolha de Jerusalém (Sião) como o local onde Javé estabeleceria seu nome e a continuidade da aliança com o povo de Israel sob o reinado de Salomão. Javé continuava a ser um deus guerreiro, mas não era a única divindade venerada em Israel. Durante períodos significativos da história antiga de Israel, Javé era considerado um deus guerreiro e era a divindade central do povo de Israel. No entanto, há evidências bíblicas e arqueológicas que sugerem que Javé não era a única divindade venerada em Israel e Judá, especialmente nos períodos anteriores às reformas religiosas que centralizaram o culto exclusivo a Javé.

Apesar de Javé ser central, a Bíblia Hebraica contém várias referências a outras divindades que eram veneradas no antigo Israel e Judá, indicando que o monoteísmo estrito só se consolidou mais tarde na história. Culto a Baal, deus cananeu, era comum em Israel e é repetidamente condenado pelos profetas. Reis como Acabe e sua esposa Jezabel promoveram o culto a Baal, o que levou a conflitos significativos com os profetas de Javé, como o profeta Elias. Asherá era uma deusa consorte amplamente adorada em várias regiões do Antigo Próximo Oriente. A Bíblia menciona a adoração de Asherá em Israel e Judá, frequentemente associada ao culto de Javé. Por exemplo, reis como Manassés erigiram postes sagrados de Asherá (2 Reis 21:7). Há evidências de sincretismo religioso, onde Javé poderia ter sido adorado em conjunto com outras divindades. Em locais como Kuntillet Ajrud e Khirbet el-Qom, inscrições arqueológicas referem-se a "Javé e sua Asherá", sugerindo uma veneração combinada ou uma associação de Javé com uma divindade feminina. Reis como Ezequias e Josias são conhecidos por terem implementado reformas religiosas para centralizar e purificar o culto, eliminando a adoração de outros deuses e promovendo o culto exclusivo a Javé. Essas reformas marcam um movimento em direção ao monoteísmo estrito que caracterizaria o judaísmo depois do Cativeiro de Babilónia.

A destruição do Reino do Norte de Israel pelos assírios ocorreu em 722 a.C. Durante o reinado do rei Salmanasar V da Assíria, o Reino de Israel foi invadido após repetidas revoltas contra a dominação assíria. O cerco final foi concluído pelo sucessor de Salmanasar, Sargão II, que capturou a capital, Samaria. Após a conquista, os assírios implementaram uma política de deportação em massa, deslocando a maior parte da população israelita para outras regiões do Império Assírio, enquanto povoavam o território de Israel com outros povos conquistados. Essa prática era comum nestes casos, visando desestabilizar e prevenir futuras rebeliões ao misturar diferentes grupos étnicos e culturais.

Durante o período em que o Reino do Norte de Israel foi destruído pela Assíria, por volta de 722 a.C., havia outros reinos e cidades-estado significativos na região do Levante. Esse evento marcou o fim do Reino do Norte e o início do exílio das "Dez Tribos Perdidas de Israel", um dos episódios mais significativos da história antiga de Israel. Nessa altura também havia os reinos de Damasco, Filisteia, Tiro, Moab e Ámon. Reino de Damasco (Aram-Damasco) era um poderoso reino aramaico, com a sua capital em Damasco, que frequentemente entrou em conflito com Israel e Judá. Damasco foi conquistada pelos Assírios em 732 a.C., cerca de uma década antes da queda de Israel. Uma confederação de cidades-estado na costa sudoeste de Canaã, designada por Filisteia, incluía cidades como Gaza, Ascalão, Asdode, Ecrom e Gate. Os filisteus eram conhecidos como inimigos dos israelitas desde os tempos dos Juízes e do rei David. Eles também foram subjugados pelos Assírios, embora tenham mantido algum grau de autonomia. Tiro era ma cidade-estado fenícia localizada na costa do Mediterrâneo. Tiro era famosa por seu comércio marítimo e por ser uma potência naval. Embora também tenha caído sob influência assíria, Tiro conseguiu manter uma certa independência devido à sua importância económica. Moab era um reino situado a leste do Mar Morto, frequentemente mencionado na Bíblia em contextos de conflito com Israel. Embora Moab tenha sido ocasionalmente vassalo da Assíria, o reino conseguiu manter a sua identidade por muito tempo. Ámon, outro reino situado a leste do Rio Jordão, ao norte de Moab, teve relações complicadas com Israel e Judá, sendo aliado e inimigo em diferentes momentos. Ámon também foi subjugado pela Assíria, mas manteve uma certa autonomia.

Esses reinos estavam frequentemente em conflito entre si e com Israel e Judá, mas todos eles, em algum momento, caíram sob a dominação assíria durante o período de expansão do Império Assírio no século VIII a.C. A Assíria tinha uma política de expansão agressiva e, ao longo do tempo, foi subjugando esses reinos, impondo tributos ou, em muitos casos, realizando deportações como fez com o Reino de Israel. Para Amós não era possível mais aquela vida dissoluta com o culto de Baal em Israel. Era preciso uma ética. O profeta Amós, que atuou no Reino do Norte de Israel durante o século VIII a.C., foi um dos profetas mais veementes em sua crítica à injustiça social, à corrupção e à idolatria, especialmente o culto de Baal e outras práticas pagãs que se haviam infiltrado em Israel. Amós era um pastor e cultivador de sicómoros oriundo de Judá, mas foi chamado por Deus para profetizar contra Israel. Em suas mensagens, ele denunciava a vida dissoluta e a opressão dos pobres pelos ricos, condenando severamente a hipocrisia religiosa que existia em Israel. Para Amós, a adoração verdadeira a Deus não podia ser separada de uma vida ética e justa. Ele criticava o facto de que os israelitas estavam mais preocupados com rituais e sacrifícios do que com a justiça social e a retidão moral.

As Tribos de Israel do Norte, também conhecidas como as Dez Tribos Perdidas, tiveram um destino dramático e incerto após a conquista do Reino de Israel pela Assíria em 722 a.C. O Reino de Israel, composto pelas Dez Tribos do Norte  - Rubén, Simeão, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, Manassés e Efraim - foi conquistado pelo Império Assírio. A capital, Samaria, foi tomada, e grande parte da população foi deportada.

Os Assírios tinham uma política de deportar os habitantes dos territórios conquistados para outras partes do império. Como resultado, muitos israelitas foram forçados a se estabelecer em várias regiões do império assírio, especialmente na Mesopotâmia e na Média (atual Irão). Com o passar do tempo, essas tribos foram assimiladas pelas populações locais. Elas perderam a sua identidade distinta e, eventualmente, desapareceram da história como grupos coesos. Isso levou ao conceito das "Dez Tribos Perdidas". Alguns israelitas podem ter escapado da deportação e fugido para o Reino de Judá, a Sul, onde foram assimilados pela população local. O Reino de Judá, composto principalmente pelas tribos de Judá e Benjamim, sobreviveu por mais de um século até ser conquistado pelos babilónios em 586 a.C.

Ao longo dos séculos, surgiram muitas lendas e teorias sobre o paradeiro dessas tribos perdidas. Algumas tradições afirmam que elas teriam migrado para regiões distantes e até mesmo fundado novos povos ou nações. No entanto, nenhuma dessas teorias foi confirmada historicamente. Assim, as tribos de Israel do Norte essencialmente desapareceram da história como unidades tribais após o território onde habitavam ser conquistado pela Assíria, e as suas populações sendo dispersas e assimiladas por outras culturas e povos. O Reino de Judá conseguiu sobreviver por mais tempo do que o Reino de Israel devido a uma combinação de fatores políticos, geográficos e religiosos. Judá estava situado em uma região mais montanhosa e acidentada do que Israel, o que tornava o reino mais difícil de ser conquistado por invasores. A capital, Jerusalém, era fortificada e localizada numa posição estratégica, o que a tornava um alvo difícil de capturar.

Judá, em comparação com o Reino de Israel, em termos de população, era um reino mais pequeno. Isso significava que era menos ameaçador para impérios maiores, como o Império Assírio, o que pode ter contribuído para que fosse poupado de invasões tão severas quanto as que ocorreram no Norte. Os reis de Judá, especialmente os mais hábeis como Ezequias, adotaram uma política externa cautelosa. Eles tentaram evitar confrontos diretos com potências maiores, pagando tributo quando necessário e negociando alianças cuidadosas. Por exemplo, o rei Ezequias inicialmente se rebelou contra a Assíria, mas, após a invasão assíria liderada por Senaqueribe em 701 a.C., Jerusalém foi poupada, possivelmente devido a uma combinação de fatores, incluindo o pagamento de um tributo considerável, a que a Bíblia traduz por ajuda divina. Reis como Ezequias e Josias promoveram reformas religiosas que centralizaram o culto em Jerusalém e reforçaram a identidade religiosa e nacional de Judá. Essas reformas ajudaram a manter a coesão interna e a resistência cultural contra influências estrangeiras.

Seja como for, o Reino de Judá, diferentemente do Reino de Israel, não foi alvo imediato de deportações em massa até muito mais tarde. Quando o Império Assírio conquistou o Reino de Israel, o Reino de Judá ainda era uma nação tributária, mas não foi destruído. Mas apesar de o Reino de Judá ter sobrevivido mais tempo que o Reino de Israel, Judá acabou por cair diante de uma nova potência emergente, o Império Babilónico. Em 586 a.C., o rei Nabucodonosor II da Babilónia conquistou Jerusalém, destruiu o Templo e deportou grande parte da população judaica para a Babilónia. Esse evento marcou o início do exílio babilónico. Contudo, ao contrário das Dez Tribos de Israel, os judeus de Judá conseguiram manter a identidade, mesmo no exílio, o que foi crucial para a continuidade do judaísmo e da cultura judaica.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O sacrifício - da oralidade à escrita e à arte pictórica


O sacrifício de Isaac por Abraão é frequentemente interpretado como uma metáfora rica em significados. No contexto da transição de práticas religiosas antigas para o monoteísmo, o evento descrito na Bíblia pode ser visto como um marco simbólico que reflete a mudança cultural e religiosa em relação aos sacrifícios humanos. Na história bíblica, Deus pede a Abraão que sacrifique o seu filho Isaac como prova de sua fé. No último momento, um anjo intervém e impede o sacrifício, fornecendo um carneiro para ser sacrificado em lugar de Isaac. Essa narrativa tem sido vista por muitos estudiosos como uma forma de enfatizar a transição da prática de sacrifícios humanos, comuns em algumas culturas antigas, para um novo entendimento religioso no qual a vida humana é sagrada e os sacrifícios humanos são abolidos.

O sacrifício ritual era praticado no Israel Antigo, com os capítulos iniciais do livro Levítico detalhando partes de uma visão geral referindo-se aos métodos exatos de trazer sacrifícios. Embora os sacrifícios pudessem incluir ofertas sem sangue (grãos e vinho), os mais importantes eram os sacrifícios de animais. Os sacrifícios de sangue eram divididos em holocaustos em que todo o animal não mutilado era queimado, ofertas pela culpa (em que parte era queimada e parte deixada para o sacerdote) e ofertas pacíficas (em que da mesma forma apenas parte do animal não danificado era queimado e o resto comido em condições ritualmente puras).

Após a destruição do Segundo Templo, o sacrifício ritual cessou, exceto entre os samaritanos. Maimónides, um racionalista judeu medieval, argumentou que Deus sempre considerou o sacrifício inferior à oração e à meditação filosófica. No entanto, Deus entendeu que os israelitas estavam acostumados com os sacrifícios de animais que as tribos pagãs vizinhas usavam como a principal forma de comunhão com seus deuses. Como tal, na visão de Maimónides, era natural que os israelitas acreditassem que o sacrifício era uma parte necessária do relacionamento entre Deus e o homem.


Ticiano, 1544

No contexto do surgimento do monoteísmo, particularmente no desenvolvimento do judaísmo, essa história pode simbolizar a evolução de práticas religiosas, onde o sacrifício de animais substitui o sacrifício humano. Assim, a narrativa pode ser interpretada como uma rejeição das práticas anteriores e uma afirmação dos novos valores e princípios que definem a relação entre Deus e a humanidade. Além disso, essa história também pode ser vista como um reflexo da obediência absoluta a Deus, caracterizando a fé de Abraão como um modelo para as futuras gerações, enquanto ao mesmo tempo introduz uma nova ética em que a proteção da vida humana é central.


Caravaggio, 1604


Na tradição oral dos Patriarcas Bíblicos - Abraão é considerado um dos patriarcas bíblicos, junto com seu filho Isaque e seu neto Jacó - As histórias são tradicionalmente situadas na Idade do Bronze Médio, que corresponde a um período em que os nómadas semíticos estavam presentes na região do Crescente Fértil. A história em si não fornece datas específicas, mas situa-se num contexto de vida nómada e pastoral, típica das descrições de vida patriarcal no segundo milénio a.C. O relato do sacrifício de Isaque, como muitos outros na Bíblia, provavelmente foi transmitido oralmente por muitas gerações antes de ser escrito. Essas tradições orais podem ter sido preservadas e transmitidas ao longo de séculos. A redação final dos textos do Génesis, incluindo a história de Abraão, é geralmente atribuída ao período do exílio babilónico ou posterior. No entanto, o conteúdo e as tradições refletem um período muito anterior, aproximadamente entre 2000 a.C. e 1500 a.C. Isso corresponde ao período em que os patriarcas bíblicos são historicamente situados.

É provável que essa narrativa marca a viragem num certo arquétipo religioso marcado pelo ritual da prática do sacrifício de animais e eventualmente também humano. A narrativa do sacrifício de Isaque em Génesis 22 pode ser vista como um ponto de viragem significativo no contexto dos arquétipos religiosos e das práticas de sacrifício, tanto de animais quanto, eventualmente, de humanos. Essa história é rica em simbolismo e tem sido interpretada de várias maneiras ao longo dos séculos. Em muitas culturas antigas, os sacrifícios humanos eram praticados como uma forma extrema de oferenda aos deuses. Evidências de tais práticas foram encontradas em diversas civilizações do Próximo Oriente, incluindo os cananeus. Com o tempo, muitas culturas começaram a substituir os sacrifícios humanos por sacrifícios animais, refletindo uma evolução nas práticas religiosas e uma mudança nas concepções de relação entre o divino e o humano.

A história de Abraão sendo chamado a sacrificar seu filho Isaque é frequentemente vista como um teste de fé e obediência a Deus. O clímax da narrativa, em que um anjo impede o sacrifício e um carneiro é oferecido em lugar de Isaque, marca uma rejeição clara do sacrifício humano. A substituição de Isaque por um carneiro pode simbolizar uma mudança teológica e cultural, indicando que sacrifícios humanos não são aceitáveis para o Deus de Israel. Em vez disso, os sacrifícios animais são estabelecidos como a forma apropriada de adoração.

Sacrifícios humanos foram praticados desde a Antiguidade de forma a agradar a algum deus ou força espiritual. Muitas civilizações tiveram ou ainda têm práticas de sacrifício humano em suas culturas. Sacrifício é a oferta de bens materiais ou vidas de animais ou humanos a uma divindade como um ato de propiciação ou adoração. Evidências de sacrifício ritual de animais foram vistas pelo menos desde os antigos hebreus e gregos, e possivelmente existiam antes disso. Evidências de sacrifício humano ritual também podem ser encontradas pelo menos nas civilizações pré-colombianas da Mesoamérica, bem como nas civilizações europeias. Variedades de sacrifícios rituais não humanos são praticadas por inúmeras religiões hoje.

No cristianismo niceno, Deus encarnou como Jesus, sacrificando seu filho para realizar a reconciliação de Deus e da humanidade, que se separou de Deus pelo pecado. De acordo com essa teologia, o sacrifício de Cristo substituiu o insuficiente sacrifício animal da Antiga Aliança; Cristo, o "Cordeiro de Deus", substituiu o sacrifício dos cordeiros do antigo Korban Todah (o Rito de Ação de Graças), o principal dos quais é a Páscoa na lei mosaica. A teologia católica romana fala da Eucaristia não sendo um sacrifício separado ou adicional ao de Cristo na cruz; é exatamente o mesmo sacrifício, que transcende o tempo e o espaço ("o Cordeiro morto desde a fundação do mundo" – Apocalipse 13:8), renovado e tornado presente, a única distinção é que é oferecido de maneira incruenta.

Através da Missa, os efeitos do único sacrifício da cruz podem ser entendidos como trabalhando para a redenção dos presentes, por suas intenções e orações específicas, e para ajudar as almas do purgatório. Para os católicos, a teologia do sacrifício passou por mudanças consideráveis como resultado de estudos históricos e bíblicos.

Na Sagrada Comunhão, não é apenas o corpo e o sangue de Cristo, mas também o próprio sacrifício, que estão verdadeiramente presentes. No entanto, este sacrifício foi trazido apenas uma vez e não é repetido na Sagrada Comunhão. A Sagrada Comunhão também não é apenas uma lembrança do sacrifício. Em vez disso, durante a celebração da Santa Ceia, Jesus Cristo está no meio da congregação como o Senhor crucificado, ressuscitado e que retorna. Assim, Seu sacrifício uma vez trazido também está presente no sentido de que seu efeito concede ao indivíduo acesso à salvação.

As Igrejas Ortodoxas Orientais veem a celebração da Eucaristia como uma continuação, e não uma reencenação, da Última Ceia, como diz o padre John Matusiak (da OCA): "A Liturgia não é tanto uma reconstituição da Ceia Mística ou desses eventos, mas uma continuação desses eventos, que estão além do tempo e do espaço. Os ortodoxos também veem a Liturgia Eucarística como um sacrifício sem derramamento de sangue, durante o qual o pão e o vinho que oferecemos a Deus se tornam o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo através da descida e operação do Espírito Santo, que efetua a mudança.


Pedro de Orrente, 1616

O sacrifício de animais é praticado ainda hoje por adeptos de muitas religiões como um meio de apaziguar um deus ou deuses, ou mudar o curso da natureza. O sacrifício de animais apareceu em quase todas as culturas. Por exemplo, os egípcios no culto de Apis, ou dos astecas aos iorubás. A religião dos antigos egípcios proibia o sacrifício de animais que não fossem ovelhas, touros, bezerros e gansos. Os romanos tinham o Lustratio, uma cerimónia de purificação. O termo derivou do latim sacrificus (realizar funções sacerdotais ou sacrifícios), que combinava os conceitos sacra (coisas sagradas) e facere (fazer). A palavra latina sacrificium passou a ser aplicada à eucaristia cristã em particular, às vezes chamada de "sacrifício sem sangue" para distingui-la dos sacrifícios de sangue. Em religiões étnicas não-cristãs individuais, os termos traduzidos como "sacrifício" incluem o yajna índico, o grego thusia, o germânico blōtan, o semítico qorban / qurban, o eslavo żertwa, etc. Mas a palavra sacrifício também ocorre no uso metafórico para descrever fazer o bem aos outros ou sofrer uma perda de curto prazo em troca de um ganho de poder maior.

Um sacrifício de animais em árabe é chamado ḏabiḥa. O animal sacrificial pode ser uma ovelha, uma cabra, um camelo ou uma vaca. O animal deve ser saudável e consciente. "... Portanto, para o Senhor volte-se em oração e sacrifício. (Alcorão 108:2) Qurban é uma receita islâmica para os ricos compartilharem sua boa sorte com os necessitados da comunidade. Por ocasião do Eid ul Adha (Festival do Sacrifício), muçulmanos ricos de todo o mundo realizam a Sunnah do Profeta Ibrahim (Abraão) sacrificando uma vaca ou ovelha. A carne é então dividida em três partes iguais. Uma parte é retida pela pessoa que realiza o sacrifício. O segundo é dado a seus parentes. A terceira parte é distribuída aos pobres.

 

Rembrandt, 1635

Assim como no Ocidente – fenícios, celtas e astecas – a China antiga via o sacrifício humano como uma forma poderosa de apaziguar forças sobrenaturais. No entanto, à medida que as sociedades evoluíram, tal como no Ocidente, essas práticas foram sendo substituídas por rituais menos violentos. Portanto, a prática de sacrifícios humanos na antiguidade chinesa é um reflexo das crenças religiosas e das estruturas sociais da época, similar a outras civilizações ao redor do mundo, mas que também passou por um processo de transformação e abolição ao longo do tempo. Os sacrifícios humanos em contextos funerários eram particularmente comuns, onde servos, concubinas e até mesmo membros da família do falecido eram sacrificados para servir o falecido no mundo dos mortos. Este costume, no entanto, começou a diminuir ao longo do tempo, especialmente durante a Dinastia Zhou (c. 1046-256 a.C.), quando substituições simbólicas, como figuras de barro, começaram a ser usadas em vez de pessoas reais. Com o tempo, à medida que as filosofias confucionista e taoista começaram a influenciar mais fortemente a sociedade chinesa, a prática de sacrifícios humanos foi gradualmente abandonada. Essas filosofias promoveram valores como a harmonia social e a proteção da vida, o que contribuiu para a mudança nas práticas religiosas e rituais.

Tiepolo, 1729

Um dos períodos mais bem documentados sobre sacrifícios humanos na China antiga é durante a Dinastia Shang (1600-1046 a.C.). Durante esse período, o sacrifício humano era uma prática comum e estava associado principalmente aos rituais religiosos e funerários. Os sacrifícios eram realizados para apaziguar os deuses, proteger a comunidade, garantir boas colheitas, ou acompanhar um líder ou nobre na morte. Arqueólogos descobriram numerosos ossos humanos em túmulos reais, indicando que indivíduos eram sacrificados para acompanhar reis ou nobres em sua jornada para o além. As inscrições em ossos oraculares (usados para prever o futuro) da época registam a prática de sacrifícios humanos em rituais religiosos.

Há evidências que sugerem que as culturas minoicas pré-helénicas praticavam sacrifícios humanos. Cadáveres foram encontrados em vários locais na cidadela de Cnossos, em Creta. A casa norte em Cnossos continha os ossos de crianças que pareciam ter sido massacradas. O mito de Teseu e do Minotauro (ambientado no labirinto de Cnossos) sugere sacrifício humano. No mito, Atenas enviou sete rapazes e sete raparigas para Creta como sacrifícios humanos ao Minotauro. Isso se relaciona com a evidência arqueológica de que a maioria dos sacrifícios foi de jovens adultos ou crianças.

Os fenícios de Cartago tinham a reputação de praticar o sacrifício de crianças e, embora a escala dos sacrifícios possa ter sido exagerada por autores antigos por razões políticas ou religiosas, há evidências arqueológicas de um grande número de esqueletos de crianças enterrados em associação com animais sacrificiais. Plutarco (ca. 46–120 dC) menciona a prática, assim como Tertuliano, Orósio, Diodoro Sículo e Filo.

O sacrifício humano foi praticado por várias civilizações pré-colombianas da Mesoamérica. Os astecas, em particular, são conhecidos pela prática do sacrifício humano. As estimativas atuais do sacrifício asteca estão entre alguns milhares e vinte mil por ano. Alguns desses sacrifícios eram para ajudar o sol a nascer, alguns para ajudar as chuvas a vir e alguns para dedicar as expansões do grande Templo Mayor, localizado no coração de Tenochtitlán (a capital do Império Asteca). Há também relatos de conquistadores capturados sendo sacrificados durante as guerras da invasão espanhola do México.

Na Escandinávia, a antiga religião escandinava continha sacrifícios humanos, como relatam as sagas nórdicas e os historiadores alemães. Veja-se, por exemplo, Templo em Uppsala e Blót.

A prática moderna do sacrifício de animais hindu está principalmente associada ao Shaktismo e às correntes do hinduísmo popular fortemente enraizado nas tradições populares ou tribais locais. Os sacrifícios de animais faziam parte da antiga religião védica na Índia e são mencionados em escrituras como o Yajurveda. Alguns Puranas proíbem o sacrifício de animais.