O Novo Realismo configura-se como uma teoria filosófica anti-subjetivista que toma como fundamento a realidade do mundo externo. O pêndulo do pensamento, que no século XX se inclinou para o anti-realismo em suas várias versões (hermenêutica, pós-modernismo, "viragem linguística", etc.), com a entrada no século XXI deslocou-se para o realismo (em seus muitos aspetos: ontologia, ciência cognitiva, estética como teoria da percepção). O Novo Realismo lançou um projeto de pesquisa internacional que ainda está em andamento no âmbito do debate sobre o realismo filosófico contemporâneo.
O Novo Realismo é um movimento filosófico italiano que se inspira em Maurizio Ferraris depois da publicação do seu artigo seminal publicado no "Repubblica" em 8 de agosto de 2011, onde ele antecipa o que viria a desenvolver no seu Manifesto do novo realismo em 2012. O Novo Realismo é o resultado, por um lado, da tradição realista nascida da filosofia e da psicologia da percepção representada por James J. Gibson e, ainda mais incisivamente, da tradição da Gestalt que se desloca de Gaetano Kanizsa para depois desaguar na obra de Paolo Bozzi, tributário da tradição analítica realista de Hilary Putnam. Criou-se assim um amplo debate mediático em torno do Novo Realismo, em que se contam figuras filosóficas como Mario De Caro, Umberto Eco, Michele Di Francesco, Diego Marconi, Luca Taddio, Rossano Pecoraro.
Maurizio Ferraris (Turim, 7 de fevereiro de 1956) é um filósofo e académico italiano. Desde 1995 que é professor titular de filosofia teórica na Faculdade de Letras e Filosofia. E desde 2012 do "Departamento de Filosofia e Ciências da Educação" da Universidade de Turim. Na Universidade de Turim, contribuiu para a criação do Laboratório de Ontologia “Lab Ont”. Também ajudou a fundar o Scienza Nuova, o instituto de estudos avançados que une a Universidade e o Politécnico de Turim, do qual é presidente. Estudou em Turim, Paris (obtendo um diploma d'études approfondies com Jacques Derrida na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales), na Universidade de Heidelberg com Hans-Georg Gadamer, tendo lecionado em importantes universidades europeias. No campo teórico, vinculou seu nome ao renascimento da estética como teoria da sensibilidade, a uma ontologia social entendida como ontologia de documentos (documentalidade) e a uma superação do pós-modernismo por meio da proposta de um novo realismo
Os primeiros interesses de Ferraris voltaram-se para a filosofia pós-estruturalista francesa, com autores como Jean-François Lyotard, Michel Foucault, Jacques Lacan, Gilles Deleuze. Um papel particular na formação do pensamento do filósofo italiano foi, sem dúvida, desempenhado por Jacques Derrida, com quem Ferraris manteve uma relação de pesquisa e depois de amizade, a partir de 1981. No final dos anos oitenta, Ferraris desenvolveu uma crítica articulada da tradição heideggeriana e gadameriana.
A conclusão desse caminho crítico leva a uma reconsideração da relação entre a mente e a linguagem e a uma reversão da sua oposição tradicional. Ferraris abandona o relativismo hermenêutico e a desconstrução de Derrida para abraçar uma forma de objetivismo realista. O mundo externo, reconhecido como inalterável, e a relação entre esquemas conceptuais e experiência sensível adquire relevância primordial. A "ontologia crítica" de Ferrari reconhece o mundo da vida quotidiana como amplamente impenetrável em relação aos esquemas conceptuais. A falta de reconhecimento desse princípio remonta à confusão entre ontologia (a esfera do ser) e epistemologia (a esfera do conhecimento), da qual Ferraris articula uma tematização crítica baseada no caráter de inalterabilidade que é próprio do ser em relação ao conhecimento.
O resultado natural da ontologia crítica é o reconhecimento – ao lado do mundo inalterável – de um domínio de objetos no qual a filosofia transcendental de Kant encontra a sua aplicação adequada: objetos sociais. Daí resulta a proposta de um antídoto para a degeneração da ideologia pós-modernista, para a práxis degradada e mentirosa da relação com o mundo que ela induziu. O Novo Realismo é, de facto, identificado na ação sinérgica de três palavras-chave, Ontologia, Crítica, Iluminismo. O Novo Realismo de Ferrari foi acompanhado por Mario De Caro, Mauricio Beuchot e Markus Gabriel. E conquistou o apoio de pensadores como Umberto Eco, Hilary Putnam e John Searle. Cruza-se com outros movimentos realistas que surgiram de forma independente, mas respondendo a necessidades semelhantes, como o "realismo especulativo" do filósofo francês Quentin Meillassoux e do filósofo americano Graham Harman. Para o novo realismo, o facto de ser cada vez mais evidente, que a ciência não é sistematicamente a medida última da verdade e da realidade, não implica que devamos dizer adeus à realidade, à verdade ou à objetividade, como concluiu grande parte da filosofia com o epíteto de pós-modernista.
Os novos realistas afirmam que, assim como a jurisprudência, a linguística ou a história – a sua filosofia realista também tem algo importante e verdadeiro a nos dizer sobre o mundo. Nesse quadro, o novo realismo se apresenta antes de tudo como um realismo negativo, em que, pelo facto de o mundo externo resistir aos nossos esquemas conceptuais, não significa que tenhamos fracassado no acesso a um mundo sólido e independente. Se for esse o caso, no entanto, o realismo negativo é transformado em um realismo positivo. Em sua resistência, a realidade não é apenas um limite, mas também oferece possibilidades e recursos, o que explica como, no mundo natural, diferentes formas de vida podem interagir no mesmo ambiente sem compartilhar nenhum esquema conceptual. E como, no mundo social, as intenções e comportamentos humanos são possibilitados por uma realidade que é dada antes de toda a interpretação sociológica, os novos realistas sentiram necessidade de reciclar toda a filosofia pós-modernista dos últimos cinquenta anos: resistência e críticas dos defensores do pós-modernismo e do pensamento fraco.