sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A masculinidade renascida nos jovens rapazes


A masculinidade jovem renascida não tem nada a ver com o velho machismo. Esse machismo era de um homem sem capital simbólico. Há um novo regime cultural a refazer uma masculinidade mais sadia. Mas não perdeu de vista a hierarquia, a diferenciação sexual clara. O que está a mudar nestes novos tempos posteriores à terceira vaga feminista? Convém separar intenção, resultado e efeitos colaterais. O que efetivamente tinha acontecido, com a terceira vaga feminista nas últimas décadas, foi uma reconfiguração assimétrica dos papéis de género que gerou o tal "ressentimento masculino". Foi a deslegitimação da 
cultura da masculinidade tradicional. A última vaga de feminismo sustentou a grande suspeição sobre a autoridade masculina. Ao mesmo tempo, não surgiu um modelo alternativo claro de masculinidade. E a explosão das teorias de género introduziu algo ainda mais radical: a ideia de que o sexo biológico, natural, era irrelevante ou opressivo. Que a diferença sexual era uma construção arbitrária. Que a identidade de género era fluida, autodefinida e reversível. Em muitos jovens, sobretudo rapazes adolescentes, isso produziu confusão ontológica. Afinal, o que significava ser homem?

Os rapazes passaram a virar-se de novo para a religião. Mas o interesse religioso masculino não nasceu primariamente do ódio às mulheres, mas do vazio normativo criado por décadas de crítica à masculinidade sem a reconstrução de uma nova. Aliás, em muitos contextos religiosos, as jovens mulheres também cresceram em presença feminina, mas por razões diferentes. Os riscos de fortes perturbações tornaram-se evidentes. E foi assim que em franjas das classes mais abandonadas o romantismo acrítico do patriarcado ressurgiu. E a religião serviu de instrumentalização da tentativa de restauração do poder masculino. Isso levou a uma rejeição generalizada da igualdade devido ao ressentimento. 

A leitura conspirativa da História não é um fenómeno de agora. Quando isso acontece, a religião como refúgio identitário defensivo, perde legitimidade moral. Em suma: o empoderamento feminino tal como foi culturalmente enquadrado pelas terceiras vagas feministas, e pelas teorias de género, contribuiu para este ressentimento, dado que atacou o sentido masculino. O que está a emergir não é uma “guerra contra as mulheres”, mas uma tentativa, por vezes confusa, por vezes excessiva, de reencontrar um sentido, uma certa forma de dignidade masculina, num mundo que se desconstruiu, mas não se soube reconstruir.

A masculinidade foi desconstruída sem reconstrução. Nas últimas décadas criticou-se, muitas vezes legitimamente, o patriarcado. Associou-se a masculinidade a opressão, e a violência. Isso tornou patológico o impulso masculino: competição; risco; desejo. Mas não surgiu um modelo alternativo positivo. Resultado: a masculinidade tornou-se um campo minado ao nível da moral e da ética. Mulheres mais ativas na iniciativa, homens mais passivos, ou cautelosos. Um fenómeno observado em vários contextos urbanos ocidentais. Não foi a “natureza” a inverter-se, foi a redistribuição da guerra cultural. A iniciativa masculina passou a ser associada a risco moral. Para muitos rapazes, não agir é mais seguro, por causa do medo de errar. As raparigas, por outro lado, foram socializadas para a agência, para o ativismo político, para as organizações não governamentais.

A sexualidade tornou-se um campo minado. Aquilo que antes era informal, passou a ser absolutamente passado a pente fino pelo normativo moral. Para muitos jovens homens o desejo é vivido como potencial culpa. O problema não é a iniciativa ter passado a ser assimetricamente feminina. A identidade masculina passou a construir-se de fora para dentro através da imposição de estatuto. Deixou de ser clara a distribuição social de papeis. Dantes um homem sabia quem era pelo que fazia. Médico, engenheiro ou carpinteiro, tanto fazia, desde que estabilizado pelo reconhecimento de competência. Hoje, essa falta de critério, teve um efeito desagregador. Ao passo que a Mulher passou a construir a sua identidade, de um modo geral, de forma mais relacional e intersubjetiva. A continuidade foi preservada apesar de as estruturas externas terem mudado. Por isso, o colapso normativo atingiu primeiro o Homem. As normas acabaram por ser coercivas, mas sem serem organizativas. Nesse vácuo masculino o Homem desorientou-se.

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