A comparação do ICE com as SA é manifestamente exagerada. As SA (camisas castanhas) – eram uma força paramilitar partidária, não estatal no sentido clássico; usadas para intimidar opositores, sindicatos, jornalistas; toleradas (e depois instrumentalizadas) pelo Estado até Hitler consolidar poder. O ICE é uma agência estatal criada em 2003, integrada no DHS. Não é uma milícia partidária. Portanto, não é uma réplica direta das SA. Onde o paralelo é legítimo é na desumanização de grupos específicos (imigrantes como “invasores”, “criminosos”); normalização de abusos em nome da “ordem”; expansão de poderes executivos com fraco controlo; retórica autoritária que trata direitos fundamentais como obstáculos.
Isto não é “nazismo”, mas é erosão democrática, E é assim que sistemas democráticos apodrecem por dentro, não com tanques no primeiro dia. Sobre Trump, Vance e afins – Trump não é um ideólogo, é um oportunista autoritário com profundo desprezo por instituições e História. Mas figuras como J.D. Vance são mais perigosas noutro sentido: articulam uma visão nacionalista, iliberal, embalada em linguagem “intelectual”, que torna estas ideias socialmente aceitáveis.
A História mostra que regimes autoritários raramente começam com genocídio; começam com exceções, linguagem violenta e “casos especiais”. Não é preciso que os EUA se tornem a Alemanha de 1933 para que algo grave esteja a acontecer. Basta que certos grupos deixem de contar plenamente como “pessoas”; a lei passe a ser aplicada seletivamente; o medo substitua o debate. Ora, isto tem padrões que a História nos ensinou a não ignorar. Hoje, nos EUA, o que está a ser alarmante são as detenções administrativas, os Centros de detenção sem supervisão adequada, e a dificuldade real de acesso a advogados. Forças coercivas afastadas do controlo democrático.
Não estamos em 1933, mas 1933 não começou em 1933, começou anos antes, com linguagem, exceções e indiferença. É o que a História chama de “early warning signs”. Nenhuma sociedade aceita violência em massa contra pessoas. Por isso, o primeiro passo é retirar o estatuto de pessoa. Isso faz-se sobretudo pela linguagem. Historicamente, a desumanização usa quatro truques recorrentes: Redução a uma categoria abstrata - não são indivíduos, são um “grupo”; não têm nomes, só rótulos. Quando alguém é apenas uma categoria, o sofrimento deixa de ser pessoal. Se é uma praga ou um exército inimigo, erradicar torna-se lógico. Não se pune o que a pessoa faz, mas o que ela é. A desumanização reduz empatia (comprovado em neurociência); facilita obediência a ordens cruéis; cria distância emocional (“não são como nós”). Hannah Arendt já dizia que o mal extremo raramente vem do ódio puro, mas da normalização da indiferença. A desumanização não é um detalhe retórico, é infraestrutura moral para abusos maiores.
Há um padrão quase matemático, repetido vezes sem conta – Cria-se uma ameaça existencial – por exemplo: terrorismo. A população aceita exceções “temporárias”. Suspendem-se direitos para um grupo específico, nunca para “todos”. Exemplos históricos: Alemanha (1933) – comunistas e judeus; o Decreto do Incêndio do Reichstag. Não aboliu a Constituição de Weimar. Suspendeu direitos “até nova ordem”: liberdade de expressão, privacidade, habeas corpus.
As exceções aplicam-se a pessoas, não a crimes. Não é: “cometeu X, logo perde Y”. É: “é migrante irregular, logo tem menos direitos”. Historicamente, isto é um sinal vermelho. Hannah Arendt chamava a isto a transformação da injustiça em burocracia. Elementos preocupantes: operações com pouca transparência; detenções sem aviso prévio; erros com cidadãos legais e até cidadãos americanos;
mortes em custódia raramente com consequências; cultura interna defensiva (“nós contra eles”).
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