A evolução da Natureza Viva, uma vez chegada ao Homo sapiens, atingiu um tipo de cérebro capaz de linguagem simbólica, pensamento abstrato, imaginação, planeamento de longo prazo, simulação de cenários inexistentes. Esta complexidade imensa permite ao ser humano criar ferramentas, sociedades, ciência… mas também abre espaço para um vasto campo de falibilidade. Quanto mais níveis de decisão e interpretação existem, mais oportunidades para a coisa “descarrilar”. Enquanto isso, um macaco opera com sistemas cognitivos mais diretos: percepção–ação, heurísticas simples, aprendizagens mais restritas. Menos graus de liberdade → menos margem para “errar”.
Enquanto, para um macaco o “erro” é limitado à procura de alimento, subestimar uma ameaça ou perder uma disputa, a multiplicidade de escolhas por parte dos seres humanos gera consequências inesperadas. Ou seja, a quantidade de situações em que o erro pode surgir é muitíssimo maior. Nós criámos dezenas de milhares de contextos onde o erro é avaliável: trânsito, matemática, burocracia, ética, política, relações amorosas, escrita de poesia. A evolução selecionou humanos pela inovação, não pela precisão. Um macaco que arrisca demasiado tende a morrer cedo. Um humano que arrisca demasiado… pode inventar algo genial, ou falhar rotundamente.
A espécie humana foi moldada por pressões que favoreceram a criatividade, a experimentação, exploração e improvisação. Estes traços produzem avanços, mas também muitos “erros”. Podemos dizer que a história humana é uma espécie de laboratório evolutivo onde milhões de erros são um custo necessário para gerar novidade. Os macacos, por contraste, sobrevivem pela estabilidade e repetição de estratégias eficazes. Isso reduz drasticamente o espaço do erro. Refletimos sobre decisões, discutimos moralidade, inventamos a culpa, registamos fracassos. Ao passo que o macaco comete uma ação malsucedida e simplesmente procura corrigir. Não cria narrativas introspetivas sobre falhar. A autoconsciência multiplica a ansiedade de errar. Somos os únicos a tentar transcender a condição biológica.
É curioso: os macacos, ao serem mais simples, são também mais “coerentes”. Nós, ao sermos capazes de construir complexidade quase infinita, acabamos por criar igualmente infinitas possibilidades de tropeçar. E talvez seja essa a verdadeira idiossincrasia: o erro humano não é apenas uma falha. É um subproduto inevitável de uma mente que cria mais possibilidades do que consegue controlar.
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