Quando D. João VI transfere a capital para o Rio de Janeiro, não está apenas a fugir a Napoleão. Está, de facto, a fazer algo sem precedentes: O império passa a ser governado a partir da colónia. O centro político desloca-se para onde está o espaço vital do futuro. Lisboa torna-se periferia provisória. Esse gesto teve três consequências profundas: salvou a soberania portuguesa; elevou o Brasil a sujeito político; reconheceu implicitamente que o futuro já não estava na Europa. Portugal sobreviveu porque soube abandonar simbolicamente o seu velho centro.
Durante séculos a Gronelândia foi marginal. Hoje é o oposto. Ocupa uma posição-chave no Ártico, que tem a ver com o controlo de rotas marítimas futuras, para além de recursos naturais estratégicos. Portanto, é uma peça central na rivalidade EUA–China–Rússia. Neste contexto, quando Trump (ou qualquer presidente americano) fala em “anexar” a Gronelândia, isso não é excentricidade: é o reconhecimento brutal de que o valor estratégico mudou de lugar. A Dinamarca, como Portugal no início do séc. XIX, enfrenta uma verdade desconfortável: o território decisivo do Estado já não coincide com o seu centro histórico. E se Copenhaga se tornasse Lisboa, e Nuuk o Rio? A ideia de transferir a capital dinamarquesa para Nuuk parece hoje absurda, tal como o Rio parecia em 1807.
Mas pensemos politicamente, não simbolicamente. O que isso significaria? Afirmação radical de soberania! A Gronelândia deixaria de ser “território associado”, tornar-se-ia coração político do Estado. Não se “anexa” a capital de um país sem guerra aberta. A presença institucional criaria um facto consumado. A Dinamarca deixaria de ser apenas europeia, tornar-se-ia um Estado ártico por definição. O choque interno e externo seria brutal.
Na Gronelândia a população é pequena, tem identidade inuit própria, muitos defendem independência, não integração mais profunda. A transferência poderia soar a colonialismo invertido, mas ainda colonialismo. Ou seja: sem vontade política local, a capital em Nuuk seria vista como ocupação, não como elevação. A Dinamarca está presa num dilema moderno típico: se não reforça o seu vínculo com a Gronelândia, arrisca perdê-la. Se reforça demais, pode acelerar a rejeição local. Se mantém o statu quo, outros decidirão por ela. Portugal, em 1808, não pediu permissão à História.
A Dinamarca, hoje, está condicionada por normas, alianças e sensibilidades pós-coloniais, ainda que o extremismo pós-colonial não se aplique às ilhas, não microscópicas em território, mas em população. Os Estados que sobrevivem são os que sabem deslocar o seu centro de gravidade quando o mundo muda. Portugal fez isso uma vez. E por isso ainda existe. A Dinamarca não o vai fazer. E por isso corre o risco de ver a Gronelândia decidir o seu destino sem ela.

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