O grande problema que se vive hoje o mundo ocidental, em especial na Europa, é simples – os Estados Unidos emanciparam-se, rejeitam a visão colonial permanente e arrogante dos europeus que os tratam por gringos e incultos, quase deixaram de se interessar pelo que se passa no lado de cá do Atlântico por decorrência das urgências asiáticas e da necessidade de recursos para poderem combater a crescente afirmação económica, industrial e científica chinesa.
3 de janeiro de 2026. Os Estados Unidos da América realizam uma operação especial e retiram de um bunker, com vida e para serem julgados, Nicolás Maduro e sua mulher. Tratou-se de uma ação para limitar a implicação deste, e da estrutura de narcoterrorismo que montou, na política e na sociedade americanas. No imediato, as opiniões públicas europeias proclamaram atentados contra o direito internacional, teria sido violada a Carta.
4 de janeiro de 2026. O Reino Unido e a França lançam um ataque ao Daesch, em pleno território sírio, alegando a defesa dos seus direitos. Se aplicássemos a bitola de grande parte da opinião publicada europeia, esta intervenção teria atentado contra o direito internacional, não se havia suportado no artigo 51º da Carta das Nações Unidas. Porém, nem uma notícia sobre isso, nenhuma lágrima se largou, nenhum comentário se ouviu. Os europeus, sempre dados a desassossegos, calaram-se e bem.
Antes de entrarmos na questão da “operação especial”, e da posição dos europeus, importa deixar aqui alguns factos. Maduro é o responsável por mais de 36.800 vítimas de tortura e violência, por mais de 18.305 presos políticos conhecidos, por mais de 10.000 execuções sem julgamento, por 468 assassinatos em protestos de rua, por mais de 8.000 casos de violação dos direitos humanos, por mais de 8 milhões de refugiados, por 405 meios de comunicação social encerrados, por 90% da população a viver na pobreza (50% sobrevive em pobreza extrema), e por um salário mínimo de 1 dólar. Todos estes dados estão confirmados por inúmeras instituições internacionais.
Perante tudo isto, o tal direito internacional nunca encontrou forma de o julgar e de o condenar, como também acontece com outros sanguinários. Porém, Maduro e o seu regime são “defendidos”, com vários ardis, por parte da política europeia, a mesma que nunca se levantou para defender Alexei Navalny, morto às mãos do regime sangrento de Putin. Agora três considerações sobre o que aconteceu em Caracas. Primeira, o regime de Maduro era/é uma ameaça real para todo o continente americano; segunda, a sua ação nos USA e na Europa era/é assente numa estrutura que não respeitava/respeita os direitos humanos e subjugava/subjuga uma população aos interesses de impérios de narcoterroristas; terceira, em 2020 os Estados Unidos acusaram judicialmente Maduro e sua mulher de um vasto conjunto de crimes, a Organização dos Estados Americanos pediu uma intervenção do Tribunal Penal Internacional e iniciou-se o processo de fazer sentar o ditador no banco dos réus. Não sendo Maduro presidente legítimo da Venezuela, nem sequer formalmente por ser um títere a mando dos cartéis da droga (o mundo democrático sempre repudiou a fantochada das eleições realizadas), ele é um mero cidadão comum, e tendo o sistema constitucional americano a previsão de “extraterritorialidade” da sua Justiça, Maduro podia (devia) ter sido detido há muito.
Tratados os problemas da ingerência e do respeito pelos direitos internacional e interno, vamos agora ao que importa – o papel dos USA no contexto da política internacional. Os europeus deviam estar gratos pelo facto de terem sido os americanos a salvar a Europa de uma ditadura nacional-socialista; de terem sido os americanos a aprovar o Plano Marshall que tirou o continente da devastação e da miséria a partir de 1946; de terem sido os americanos a garantir liberdade e a democracia pluralista em todo o tempo da Guerra Fria; de terem sido os americanos a caucionar a segurança do mundo ocidental ao longo das últimas oito décadas; de terem sido os americanos a suportar, em quase um quarto da sua despesa, o multilateralismo com banca na ONU. É obra! Há, contudo, uma coisa que os europeus esqueceram – os americanos não são “paizinhos” da Europa, não têm de aturar as perrices de irmãos mal-educados que, apesar de tudo o que fizeram por eles, acham que aqueles são tiranos e ditadores. Os europeus não querem sequer saber que os USA construíram um democracia forte e uma economia pujante na Coreia do Sul e que a União Soviética e a China edificaram uma ditadura vergonhosa e uma economia raquítica na Coreia do Norte. Este exemplo é relevante.
Enquanto tudo isto acontecia, a Europa envelheceu, deixou de ser competitiva, passou a viver dos rendimentos. A China comunista afirmou-se como grande potência asiática e mundial em concorrência com os USA; a Rússia renasceu militarmente e afirma o seu poder no leste europeu e em muitos outros territórios como é o caso do Ártico; a Índia cresce e ganha espaço mundial. Desde que o Sapiens iniciou o seu caminho na terra, que as relações de poder sempre foram o essencial da sobrevivência dos povos. Só os europeus se esqueceram disso depois da década de 1960, tempo que fez crescer a geração “paz e amor”, uma linhagem que, com os seus pupilos hodiernos, potenciou a decrepitude do continente que se afirmou global a partir do século XVI. A parte da geração de 1960 que ficou na política ativa abjurou as relações de poder, reais e simbólicos, dentro da família; depois na escola; e, por fim, nas sociedades. Criou regimes onde só existem direitos, onde a burocracia estadual é a base de economias subsidiadas e sem fibra. Estamos a viver o resultado de todo um desmoronar de referências. Este resultado é fruto da ação, nas últimas quatro décadas, de conservadores, populares, liberais, sociais democratas e socialistas democráticos. Willy Brandt, Helmut Schmidt, Olof Palme ou Bruno Kreisky (sociais democratas), Clement Attlee, Harold Wilson ou James Callagnhan (trabalhistas), François Mitterrand ou Bettino Craxi (socialistas), nas suas governações, sempre entenderam muito bem a realidade e o papel dos USA no contexto internacional posterior a 1946. Foram, porém, os novos socialistas, de François Hollande a Olaf Scholz, de Gordon Brown a Matteo Renzi, de Pedro Sanchez a António Costa, mais herdeiros de Rosa Luxemburgo do que de Friedrich Ebert, crescidos a viver dos influxos ideológicos soviéticos assentes na reivindicação “Nem Nato nem Pacto de Varsóvia” e persuadidos pelas mais recentes correntes woke, quem ajudou a alterar a visão que tínhamos sobre o nosso parceiro de sempre.
É tão verdade o cenário de decadência em que vivemos, que aquela instituição relevantíssima que dá pelo nome de União Europeia não consegue resolver, por si, o problema ucraniano, não consegue arranjar recursos financeiros para ajudar aquele povo que sofre às garras de um tirano, e muito menos conseguirá estruturar um exército que garanta um futuro de democracia e liberdade. Fabricar e comprar armas não é o mesmo que confirmar uma real política de segurança e defesa, elemento central para que o direito internacional não seja só uma mera proclamação que se extingue no espaço de horas. Os USA, no meio de tudo isto, são uma democracia. Sim, são uma democracia, mesmo que a opinião publicada e os grupos da esquerda radical europeus não queiram. É nessa democracia americana que acontecem manifestações à porta da prisão que encarcera Maduro; é nessa democracia que se realizam eleições livres em que um populista de esquerda e “militante do Syriza” consegue ser escolhido, por sufrágio universal e secreto, para mayor de Nova Iorque sem que o presidente reacionário da nação tenha qualquer condição de o impedir; é nessa democracia que o incumbente vai perder as próximas intercalares para o Congresso. Mas sempre haverá o interesse dos USA no petróleo, como Trump, o desbocado, afirmou. O dinheiro, sempre o dinheiro, diz a opinião publicada europeia. Talvez não saibam as mentes mais brilhantes que é o dinheiro que move o mundo, que as exportações do petróleo venezuelano só fazem regressar ao país 20% do seu valor, que os restantes 80% desaparecem em offshores espalhados pelo mundo com a cara da oligarquia chavista. E talvez não saibam igualmente que, sendo aquele país um dos que mais reservas tem, só consegue ser o décimo primeiro em exportações, fazendo doações a Cuba e vendendo a metade do preço à Rússia e à China.
As comoções europeias servem para atacar uma democracia que luta hoje pelo poder universal com duas ditaduras sangrentas, mas isso interessa pouco. Só interessa a máxima inocente de que perante as ameaças da Rússia e da China devemos afirmar o multilateralismo desprovido de ferramentas e completamente abjurado pelas estratégias de Pequim e Moscovo. Querem matar a nossa liberdade e nós entregamo-nos porque temos o direito internacional do nosso lado… A paz só se consegue com grande capacidade de dissuasão. Quem não tem poderio militar não faz a paz pelas palavras. Também uma parte da esquerda portuguesa, feita igualmente a partir do pensamento e da ação da tal geração de 1960 – paz e amor – é tolerante com o narcotráfico e com as ditaduras, desde que estas apoiem os seus centros de investigação e as suas forças partidárias. Esta realidade já aconteceu com o Podemos espanhol ou com o França Insubmissa, como há muito se provou. É por isso que uma parte da esquerda está a caminhar para a irrelevância política no mundo ocidental, porque deixou de entender o Homem, as suas relações de poder, a implicação das diferentes culturas no mundo atual.
Uma parte da esquerda europeia é anticolonialista mas continua a comportar-se como tal perante as Américas e África; é antirracista, mas é incapaz de conviver, de forma séria e com proximidade, nas suas zonas de residência, de trabalho e de estudo com cidadãos de outras realidades; é liberal e democrática, mas faz o jogo dos regimes totalitários. Trump, essa figura horrível e inenarrável que é temporariamente presidente dos USA, teve o condão de galvanizar os ódios da maior parte dos ocidentais porque aproveitou o campo aberto que é este mundo em transformação e completamente inseguro. A partir desse ódio está a ser construída uma nova narrativa antiamericana, o que é um perigo. Regressamos novamente à década de 1960 em que se levantava Paris, hoje já quase todas as restantes capitais, contra um “novo” imperialismo americano. Como se essa “batalha” não fosse hoje em benefício da Rota da Seda que tem capturado, de forma desenfreada, os recursos de África e da América do Sul. E a Europa velha também não entende o mundo do espetáculo em que vivemos, não sabe usar, como as ditaduras comunistas e neocomunistas fazem, as redes sociais e as ferramentas algorítmicas, nem sequer os media. O tempo de hoje não pode ser cinzento e lento como os europeus ocidentais gostavam que fosse, vivendo a nostálgica de um passado que não volta. Os amigos de Alex morreram! Horrorizou-me um post de uma deputada socialista portuguesa em que dizia – primeiro a Venezuela, depois a Gronelândia e por fim os Açores. Para além da completa falta de juízo que demonstra ao misturar tudo, os USA não precisam dos Açores porque já os “têm” há décadas. E também não querem a Gronelândia como território, só querem que os russos não ganhem vantagem estratégica neste espaço relevantíssimo. Essa ingerência russa já acontece hoje e muitos cabos submarinos, essenciais para a economia digital da EU, atravessam-se aqui. Como se viu esta semana, os petroleiros do contrabando energético cruzam por este território sem qualquer controlo.
Esta Europa quase falhada é a que permite, similarmente, que a China tenha presentemente uma relevância geopolítica extraordinária a partir do seu território. Foi esta Europa que assistiu à entrega de Hong Kong e Macau sem precauções, mas que se levanta a favor de Taiwan só porque neste território chinês são fabricados os raros semicondutores que fazem andar o que resta das máquinas industriais ocidentais. E foi ainda esta Europa esterilizada e desenfreada que não soube ajudar os países do sul, quem obrigou Portugal a entregar todas as suas redes elétricas ao Estado chinês. O exemplo português é lapidar. A EU só terá futuro se aprofundar as suas dimensões política, militar, económica e social, elegendo o poder de dissuasão como central. A revolta contra os USA é pura perda de tempo e só demonstra o quão distante estão os europeus da realidade que se vive hoje no mundo.

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