quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O cidadão eleitor não entrincheirado



Um tema delicado e ao mesmo tempo crucial para quem quer manter a integridade intelectual numa época de trincheiras emocionais. O não entrincheirado não se prende a nenhuma tribo. Isso dá-lhe o único luxo realmente raro no mundo contemporâneo. Enquanto os facciosos mudam de opinião conforme a linha do partido, quem não pertence a lado nenhum pode corrigir-se sem humilhação, mudar de ideias sem culpa, rejeitar simplificações. A liberdade interior é o que separa o pensamento da propaganda, com imunidade relativa à manipulação. Fações vivem de slogans e certezas artificiais. A construção de inimigos por narrativas emocionais só serve para uma coisa: reforçar a coesão do grupo.

É verdade que ninguém é imune a ser influenciado, mas o sem fação resiste melhor. Quem não precisa de identidade política para se sentir inteiro é mais difícil de ser manipulado. Tem vantagem quem tem a capacidade de diálogo transversal. Quem constrói pontes para aceder ao outro lado. Quem não está preso a um lado pode seguir a verdade onde ela estiver, mesmo que atravesse campos políticos diferentes. Isto melhora a análise e o pensamento crítico. Ser um sem fação pode tornar a política menos uma guerra pessoal e mais um assunto humano.

Para tudo é preciso ter coragem, sobretudo nos tempos polarizados como os de hoje, em que o sem fação corre riscos. E convém saber exatamente porquê. É-se mal interpretado por todos os lados num mundo polarizado. A neutralidade crítica na dicotomia esquerda/direita ainda é muito suspeita. Assim: os de direita podem achar que o sem fação é um esquerdista disfarçado, ou envergonhado; ao passo que os de esquerda podem achar que essa pessoa é cúmplice da direita capitalista. Para uma mente tribal, quem não escolhe um lado é inimigo de todos. A solidão do pensador independente é real, e exige maturidade. Vivemos numa era de identidades. As pessoas querem saber de que lado está o Outro. Quem insistir no pensamento independente é interpretado como um relativista, um tímido, ou um cínico.

Uma pessoa sem fação até pode sentir-se de esquerda. Nesse caso nunca pode fazer parte, ou ser militante de um partido político, porque isso implica ser de fação. Qualquer partido exige do militante certificado de fidelidade. Uma pessoa, apesar de se sentir de esquerda, não tem necessariamente de abominar a direita. A não ser quando se veste com o mesmo uniforme da certeza. A ideologia só é perniciosa quando se transforma em dogma da tribo, ou em clube moral. Há quem, diante desta posição, veja tibieza. Mas há uma força particular em permanecer na diáspora das ideias, fora das trincheiras onde os soldados gritam slogans para se convencerem de que são mais do que apenas sapiens assustados. A liberdade intelectual, essa que quase ninguém hoje pode reivindicar, vive no exílio. E é por vezes que quando chega o tal momento, o exilado regressa para iluminar a tribo.

A política, que por natureza deveria ser o modo de governar a polis, converteu-se numa farsa de teatro. E o cidadão, que trabalha, é aliciado para subir ao palco para aplaudir e gritar slogans. É por isso que a contrafação não é neutralidade, é resistência. Resistência contra a tirania dos simplificadores, dos que dividem o mundo em bons e maus, dos que preferem a mentira confortável à verdade que faz doer nas consciências quando entra com ironia. A ironia não destrói, revela. É uma luz oblíqua que ilumina o ridículo dogmático. É por isso que morder nas canelas dos fanáticos tem qualquer coisa de serviço público. Não é para ferir, é para acordar.

Ser independente é um privilégio difícil. Significa não ter aplausos garantidos, nem camaradas automáticos. Significa ouvir críticas dos dois lados, às vezes insultos, muitas vezes incompreensões. Mas significa, acima de tudo, manter intacta a capacidade de julgar. O que é raro, hoje, é pensar por conta própria. O não entrincheirado não pretende estar acima do mundo, mas dentro dele. Só que sem vender a alma. Aceita que a realidade é demasiado complexa para caber num panfleto, e demasiado misteriosa para se deixar capturar por teorias definitivas. O não entrincheirado reconhece que os seres humanos são simultaneamente racionais e absurdos, previsíveis e caóticos. E sabe que a maturidade consiste em viver com essa ambiguidade sem a reduzir a uma caricatura.

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