quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O paradoxo da radicalidade das esquerdas políticas


O paradoxo das esquerdas políticas radicais fica especialmente evidente quando se demonstra grande tolerância para com o status quo do modo de vida islâmica, em que a mulher é totalmente subjugada pelo homem, alegando que interpreta literalmente determinados preceitos religiosos. São bastante incompatíveis quando ao mesmo tempo se defendem quixotescamente direitos das mulheres e igualdade de género. Para além de outros direitos: LGBTQIA+; liberdade sexual e autonomia individual; feminismo interseccional; secularismo; liberdade religiosa; opressor/oprimido. Israel, bem como homens brancos ocidentais aparecem frequentemente no papel do opressor.

Então, o que é que se defende concretamente? Este é o problema do relativismo cultural que descambou em guerras culturais. Nós, cidadãos europeus fomos intimados a aceitar determinadas práticas e normas oriundas de países muçulmanos. E devia ser assim porque fazem parte da sua cultura, ainda que entre em conflito com os nossos princípios culturais. Ora, essas práticas, que violam princípios fundamentais de direitos individuais, ultrapassaram os limites da tolerância da maior parte do povo europeu. A “tolerância moral”, que havia sido imposta para não levantar suspeitas de preconceito xenófobo e racista, chegou ao fim.  

Nos últimos 30 anos ocorreu uma forte polarização ao nível de causas identitárias entre elites universitárias e classes menos escolarizadas. As classes trabalhadoras abandonaram as esquerdas tradicionais e deslocaram-se para as extremas direitas. Paradoxalmente, as classes mais instruídas deslocaram-se ainda mais para a extrema-esquerda. E isto é relevante e bastante peculiar: a esquerda passou a ter uma presença nas universidades e nos estúdios mediáticos, desproporcional em relação ao povo. Deu lugar a uma espécie de reeducação cultural exercida de cima para baixo. O que psicologicamente fez com que as pessoas, além de se terem deixado de sentir representadas pelas elites retóricas, ainda por cima se sentiram insultadas, quando as elites os trataram por “deploráveis” por terem deixado de votar nelas. Tal combinação explosiva deu lugar a uma progressiva polarização no espectro eleitoral.

Este panorama tem sido demonstrado em vários estudos que se debruçaram no fenómeno que levou Donald Trump a um segundo mandato legitimado pelo resultado eleitoral de 2024. Trump apresentou-se como o defensor do povo americano que se sentia economicamente defraudado, e culturalmente cercado pelas elites feministas, e pelos imigrantes. Trump percebeu isso extraordinariamente bem. Trump não inventou o ressentimento, encontrou-o. E fez uma coisa que os Democratas tiveram dificuldade em fazer: transformou uma série de insatisfações, aparentemente desconexas, numa narrativa única: “Vocês estão a ser desprezados pelas elites. Eu estou do vosso lado.” Trump conseguiu atrair pessoas que não eram necessariamente conservadoras em todos os aspectos da vida. A eleição de 2024 mostrou ainda uma expansão do voto em Trump entre sectores não brancos e das classes trabalhadoras. O dogma racial, como explicação de todos os males, deixou de aderir à realidade. 

As questões identitárias de esquerda não foram a única causa da ascensão de Trump. Há uma ironia nisto: um verdadeiro mecanismo de feedback positivo político. O fenómeno Trump pode ser visto parcialmente como uma reação imunitária de uma sociedade contra uma transformação cultural protagonizada pelas elites "bem pensantes". Os temas culturais tornaram-se centrais. Há 30 anos, o debate político era mais focado na economia, impostos e políticas públicas. Hoje, temas como identidade de género, racismo, feminismo, cultura e linguagem, monopolizaram o centro do debate. Temas contrários à liberdade individual, e de expressão, geraram fortes reações filiadas mais na emoção do que na razão ou bom senso social. Há um fenómeno importante: as elites e o povo comum, como se costuma dizer, estão cada vez mais de costas voltadas. Cada qual vivendo na sua bolha, como se diz agora nos meios académicos e dos media jornalísticos. O mapa mental da maior parte da população é desenhado pela sua experiência da vida quotidiana, nada a ver com a Teoria Crítica produzida pelos académicos das universidades humanísticas e ciências sociais.

A crítica principal dos seus opositores, geralmente pessoas conservadoras e enfeudadas em partidos de direita e extrema-direita, é que no mundo mediático essas ideias são promovidas numa visão única que não abre o debate a dúvidas legítimas dos cidadãos comuns. Então, o que é  verdade científica e interpretação social? Como equilibrar direitos em conflito? Quais são os limites do discurso aceitável? Qual deve ser o papel dos media: árbitro ou participante? Este tipo de conflito parece “explodir” porque junta três coisas muito fortes: identidade pessoal; valores morais; e incerteza científica em algumas áreas.

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